PSICOLOGIA ANALÍTICA

A SABEDORIA DA CONVIVÊNCIA

O grande desafio de relacionamento com as chamadas pessoas difíceis na família ou ambiente de trabalho é, inquestionavelmente, uma das reclamações mais frequentes nos settings terapêuticos   atualmente.

A sabedoria da convivência

Como lidar com um parceiro difícil, que leva a vida de forma completamente diferente da sua e torna seus dias pesados e desgastantes por sua insatisfação constante, cara feia, críticas frequentes, comportamentos inadequados ou discussões sem fim? E um filho que, em algum momento da sua vida, faz parecer que tudo se tornou um completo caos sem possibilidade de saída ou resolução?

Imaginem como deve ser ter um chefe ou colega de trabalho difícil, que torna o ambiente hostil e estressante, levando setores inteiros a adoecer, desanimar ou a entrar em atritos constantes, gerando inclusive baixa na produtividade da empresa e na qualidade de vida dos funcionários daquela equipe.

A dificuldade de relacionamento com pessoas difíceis é, incontestavelmente, uma das queixas mais frequentes nos settings terapêuticos atualmente. Independentemente da abordagem de trabalho, constatamos hoje que não só terapeutas, mas diversas formas de prestadores de serviço ao próximo, inclusive instituições religiosas, recebem massivamente inúmeras pessoas queixando-se do alto nível de dor emocional, psicológica ou até mesmo física proveniente da manutenção de relações adoecidas ou destrutivas com pessoas que julgam serem difíceis de lidar.

Esse tipo de relação a médio ou longo prazo pode causar prejuízos das mais diversas formas aos envolvidos. Desde questões emocionais e psicológicas, como baixa estima, tristeza, intolerância ou raiva como quadros graves, tanto de distúrbios psiquiátricos severos como crises de ansiedade ou depressão, até doenças físicas desencadeadas por essa carga emocional e mental duradoura e persistente.

O mais difícil é conseguir tomar uma decisão satisfatória que pondere equilibradamente o lado racional que nos impele a nos preservar, evitando a causa de tanta dor e perturbação, e o lado emocional, que envolve o sentimento que nos mantém naquela relação difícil ou a necessidade de se manter naquela situação para a garantia de sua sobrevivência, por exemplo.

CONTORNÁVEIS E EVITÁVEIS

Existem casos em que as pessoas difíceis não fazem, necessariamente, parte de nosso dia a dia. São mais fáceis de lidar. Não causam, geralmente, maiores danos aos envolvidos e o afastamento temporário da pessoa difícil, por si só, é capaz de amenizar os desconfortos e ajudar os envolvidos a restabelecerem o equilíbrio necessário para um novo encontro desgastante e difícil.

Esse é o caso de relações difíceis entre pessoas ou até mesmo parentes que moram ou trabalham longe e não têm a necessidade de estar em contato físico frequente.

Quando a relação difícil se dá entre a esposa ou marido de alguém muito querido ou com quem possuímos algum grau de parentesco, na relação com a sogra de um(a) filho(a), por exemplo, ou os pais de um amiguinho muito querido de seu filho, ainda conseguimos nos manter distanciados de alguma maneira, para preservar o relacionamento com quem prezamos.

Todos esses são casos onde conseguimos, com algum esforço, manter a relação sem prejuízos graves ou insuportáveis, desde que mantenhamos certo distanciamento nos encontros e na profundidade da relação.

E, talvez, por essa possibilidade de controlar esse distanciamento, o caso não envolve a necessidade de uma transformação pessoal para me­ lh orar a convivência com a pessoa de difícil relacionamento. O tempo, por si só, acaba tratando de desintoxicar as emoções destrutivas criadas nos envolvidos e prepará-los, novamente, para tentar um reencontro, para estar perto de quem se gosta e de quem se necessita.

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MEMBROS DA FAMÍLIA

Quando essa pessoa difícil está incluída em nossa família, o quadro já se torna diferente. Nos casos de pais e filhos ou sogros e noras/genros, principalmente quando moram juntos, a dificuldade fica mais nociva devido ao contato frequente com a pessoa tóxica. É o caso, também, de maridos e mulheres que se escolhem e permanecem juntos diariamente, tentando contornar ou suportar as dificuldades diárias impostas pelo jeito de ser de um dos parceiros.

Há quem descreva que a dificuldade provém de um comportamento, um hábito, crenças e valores ou jeito de ser aparentemente oposto ao da “vítima” do familiar difícil. Os familiares se queixam da dificuldade de compreender e encontrar uma maneira eficaz de conviver bem com a pessoa difícil.

E isso causa, constantemente, o desgaste nas relações, provocando distanciamento familiar ou embates verbais e, por vezes, físicos que afetam os filhos e demais envolvidos. Todos acabam sendo afetados, além de socialmente, já que têm seu convívio prejudicado, como pessoalmente. Já que as consequências dessa dificuldade relacional geram, em nível pessoal, muitas marcas, como isolamento e solidão, desenvolvimento de baixa estima, carência afetiva, tristeza ou depressão, irritabilidade e raiva, sensação de fracasso ou incapacidade, desânimo ou desistência frente à vida etc.

Outro fator comumente provocado por essa dificuldade de se relacionar com pessoas ou pela dificuldade de conviver com uma pessoa difícil é a manutenção de uma excessiva carga de trabalho, apenas com o objetivo de evitar a convivência frequente e o mal-estar proveniente dela. Esse é um dos grandes motivos de vermos os workaholics se afundando mais e mais no trabalho.

Eles se escondem e anestesiam na área de sua vida que parecem dominar melhor, área na qual conseguem lidar sem tanta dificuldade, área em que se sentem capazes de estar e atuar de maneira satisfatória e prazerosa. E usam isso para fugir daquilo com que não se sentem capazes de lidar ou com que não estão satisfeitos.

Se, por um lado, essa aparente saída ameniza a dor da incapacidade e frustração, por outro afasta e impe­ de mais ainda que o sujeito se desenvolva e crie condições de lidar com sua dificuldade de alguma outra forma. Afasta-o do problema, mas não o soluciona. Representa, apenas, uma triste fuga da dor e uma fatal permanência da dificuldade de se relacionar e da solidão.

São pessoas que parecem bem-sucedidas e felizes profissionalmente, mas carregam, no seu íntimo, uma amargura, mesmo que escondida e velada, por anos e anos. Essa amargura e evitação uma hora vêm à tona. E, infelizmente, isso ocorre tardia­ mente, quando já não existe mais a possibilidade de fazer diferente e mudar aquele quadro, corroendo, adoecendo e minando corpo e alma do sujeito.

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NO AMBIENTE PROFISSIONAL

Quando a pessoa difícil se encontra no trabalho, na presença de seu chefe, um subordinado necessário ou pares, a convivência diária – geralmente maior até do que a convivência que mantém com seus próprios familiares – se torna um agravante.

Nesse ambiente vemos as dificuldades advirem, com frequência, da disputa ou imposição do poder, necessidade de obtenção de reconhecimento ou destaque, fofocas, traições, manipulações, criação de embates e brigas entre os funcionários e demais comportamentos que acabam por gerar estresse, desmotivação, baixa da produção e sofrimentos pessoais. Vemos pessoas que, claramente, esquecem do propósito comum daquela equipe de trabalho e parecem permanecer ali trabalhando em prol da satisfação de uma necessidade pessoal, baseada no seu ego e não no bem-estar da equipe ou da empresa a que servem. Ficam totalmente cegas e inadequadas, servindo a algo que já não diz respeito ao compromisso que firmaram com a empresa, mas a uma necessidade pessoal da qual, na maioria dos casos, elas nem têm consciência.

Os envolvidos, muitas vezes, também não conseguem compreender o motivo daquele colega de trabalho agir daquela forma. Parece nitidamente um desserviço à empresa, já que gera danos a ela diretamente, através do comprometimento da produção, ou indiretamente, através da criação de um clima hostil e adoecedor entre a sua equipe de trabalho. Mas o fato é que a pessoa difícil está reagindo às marcas e traumas que carrega e reage a elas o tempo inteiro, prejudicando e punindo quem nada tem a ver com a origem daquelas dores que carrega em sua alma. Reage a situações que nem são reais, a ilusões criadas por seu imaginário traumatizado e adoecido pelas marcas do passado e que respondem a uma humilhação ou traição, por exemplo, que nem ocorreram real­ mente em determinada situação, mas que sua visão deturpadora e embaçada pelas marcas do trauma o faz acreditar e responder.

Mas qual seria o propósito de atrair para o seu campo de convivência alguém com uma forma de se relacionar tão difícil?

Mas o que será que essas provações, a que nos vemos presos, seja pelo laço do amor ou da necessidade de sobrevivência, têm a nos ensinar? Qual seria o sentido de tudo isso para nossas vidas e nosso desenvolvimento enquanto pessoas?

Se diante de uma situação dessas conseguirmos tirar o foco, momentaneamente, da pessoa difícil e tentarmos avaliar a situação de forma mais distanciada e impessoal, se conseguirmos nos distanciar de nós mesmos e observar a situação de fora podemos perceber lições importantes que podemos tirar com tudo aquilo.

Sempre poderemos encontrar, numa dificuldade, algo que precisa e pode ser melhorado, modificado ou adquirido por nós. Não se trata de uma tarefa fácil. Trata-se da possibilidade de se utilizar de um desconforto para extrair mais e mais potencialidades e habilidades de nós mesmos.

Às vezes, somente através de um relacionamento difícil teremos a chance de aprender a lidar com as diferenças. A chance de tentar compreender, criar empatia ou apenas respeitar o que não se assemelha a nós. A chance de perceber e refletir acerca de um novo ponto de vista, um jeito diferente de sentir ou ser. Sem juízo de valores. Nem melhor nem pior, apenas diferente. O jeito que o outro é capaz de ser ou apresentar.

Na relação com uma pessoa difícil, somos convidados a desenvolver a humildade e a capacidade de perdoar o outro, já que também não somos perfeitos e necessitamos, em muitos momentos, sermos perdoados pelas falhas que cometemos, consciente ou inconscientemente.

Com uma pessoa difícil, podemos aprender que não existe uma verdade única. Cada um de nós possui a sua verdade e uma jamais exclui ou se sobrepõe a outra. Pois não existe certo ou errado. Existe a forma particular com que cada pessoa vi­ vencia a mesma experiência, já que são pessoas distintas que carregam suas próprias e singulares marcas, traumas e feridas, seu sistema único de crenças e valores, uma educação diferenciada etc. E, com isso, somos convidados a abrir mão da arrogância ou prepotência de que o meu jeito ou o meu ponto de vista é o melhor, o certo. E a parar de julgar que “eu tenho razão e você está errado”.

E, se estivermos abertos e no nosso melhor, quem sabe um relacionamento difícil não pode nos conduzir a aprender mais sobre o nosso lado sombra e nos ajudar a enxergar um lado ou traço que nós mantemos em nosso jeito de ser de que sequer tínhamos consciência até então.

Que grande presente seria poder tomar consciência de uma parte nossa inconsciente que necessita ser revista e modificada. Uma parte que mantemos, mas que não faz mais sentido manter em nossa vida atual, pois causa sofrimento a nós mesmos ou a quem amamos, ao invés de nos assegurar bem-estar ou segurança.

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CAMINHOS PARA A SOLUÇÃO

Pare com a dependência da mudança do outro para ser feliz, seja o próprio agente da sua vida. Por vezes nos sabotamos, colocando nossa possibilidade de realização atrelada ao outro. E isso não passa de uma desculpa para não sermos felizes. Uma desculpa para não arregaçarmos as mangas e fazermos nossa própria vida feliz e realizada.

Julgamos que não somos capazes de viver sem aquela pessoa ou de arrumar um novo emprego e nos acomodamos naquela situação sofrida e insustentável. Nos iludimos de que nosso bem-estar depende de algo externo e deixamos de nos responsabilizar por ele e fazer sequer a nossa parte.

Pode parecer cômodo ou mais confortável jogar a culpa no outro, responsabilizar algo fora, sobre o qual não temos possibilidade de atuar para transformar a situação difícil. Mas não passa de uma saída covarde e ilusoriamente mais fácil. Já que mais difícil do que se esforçar para realizar a mudança é se manter na situação de dor e sustentar todos os prejuízos causados por ela.

Pare com a queda de braço com o outro. Chega de medir forças com o outro e se aliar a ele na manutenção da infelicidade e do desgaste de todos os envolvidos. Abra mão de depositar seu bem-estar e sua realização numa mudança que o outro não quer ou não pode realizar.

Só que, nessa disputa, o maior responsável sempre será aquele que possui maior nível de consciência, justamente por ser o possuidor da maior capacidade de mudança. Mas esse, via de regra, permanece cego, brigando e insistindo uma vida inteira por uma mudança que o outro não tem condições de fazer e o preço disso inclui a privação de seu bem-estar e de sua felicidade.

Se não atentarmos, perderemos parte da vida tentando provar algo ou forçar o outro a se modificar para que vivamos melhor. Com a certeza prepotente de que nossa forma de viver ou pensar é a correta e mais coerente. E desconsiderando, prepotentemente, a capacidade ou vontade de o outro realizar a mudança desejada ou exigida.

Será que já se parou para refletir sobre o que existe por trás de uma pessoa difícil? A busca pela compreensão dos possíveis fatores que motivam aquele sujeito com um jeito de ser tão difícil e massacrante pode ajudar os envolvidos a lidar de uma forma melhor com ela. O que o leva a ser assim? O que o leva a agir dessa forma no mundo? O que, por exemplo, realmente leva alguém a ter que humilhar o outro para se sentir poderoso ou superior?

E a obtenção dessa compreensão geralmente ajuda, porque nos aponta que ninguém se torna tão difícil de conviver se não carregar em si ou em seu histórico de vida uma enorme dor na alma. Podemos notar na estrutura interna dos maiores algozes uma grande dor que os move naquela direção, numa tentativa de aplacá-la ou suportá-la.

Sabemos que a simples compreensão desses fatores não justifica as atitudes tomadas pelas pessoas difíceis. E sabemos, também, que ela não amenizará por si só o desconforto dos que sofrem as consequências dos atos reativos dessas pessoas. Mas pode ser uma ferramenta utilizada pelos que convivem com sujeitos difíceis, no sentido de amenizar o seu desconforto pessoal frente às limitações do ser com quem necessitamos manter o contato.

Também existe a possibilidade de, ao invés de olhar para fora, olhar para dentro de nós. Não vamos nos distrair apenas listando as necessidades de mudança do outro se estamos aqui para nos desenvolver a nós mesmos através das relações interpessoais.

O que aquele sujeito tem na sua forma de ser, agir ou pensar que tanto me afeta ou aborrece? O que possuo disso em mim? Apesar de a maioria das pessoas, nesse caso, julgar que o que mais abomina no sujeito difícil de conviver passa longe do que ela é, muitas delas se enganam. Irritam-se, pois precisam reconhecer através do outro algo que precisam modificar em si mesmas. Algo que elas mesmas possuem, mas que já não faz sentido manter em sua vida. Algo que precisam enxergar e se esforçar para modificar, pois já não está mais de acordo com seus valores e crenças no momento atual. Algo que elas nem tinham consciência que carregavam dentro delas. Mas que só foi possível notar pelo mal-estar causado através do reflexo daquilo que necessita ser modificado nela e que está agora expresso no outro.

Um agravante nessa difícil tarefa de sair da ilusão de ser o dono da razão e chegar a um lugar apaziguador para ambos é a tendência de se vitimizar que o ser humano tem diante de um momento de dor. Ao se colocar no papel de vítima, colocamos automaticamente o outro no papel do algoz. E a vítima se empodera de tal forma como dono da verdade que perde totalmente a capacidade de avaliar adequadamente a situação, de forma a conseguir sair dela e superar a dificuldade imposta com a geração de um novo aprendizado para ela ou eles.

A vítima se mantém presa na dor da injustiça e mantém o outro preso no papel de algoz, e isso impossibilita a dissolução daquele conflito e alimenta pensamentos e emoções destrutivas e a desunião. A mente da vítima se torna o maior perturbador que alguém pode ter e faz com que ela se torne marionete de seus próprios pensamentos vitimizantes e destruidores. Isso, por sua vez, cria um estado emocional difícil e igual­ mente pesado e destrutivo, alimentando reações inadequadas e a manutenção dos conflitos.

Por fim, veremos que só temos a agradecer à pessoa difícil que foi colocada no nosso caminho. Afinal, por qual razão nos depararíamos com alguém tão difícil se ali não estivesse a possibilidade de retirarmos um ensinamento importante para a nossa jornada de crescimento pessoal? Concluímos, então, que a melhor saída para lidar com pessoas difíceis é alcançar mudanças pessoais que nos habilitem a encontrar o equilíbrio e a alegria que necessitamos dentro de nós mesmos. O universo se encarrega do resto.

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MUDANÇA

Durante o processo de convivência com uma pessoa difícil, há vezes em que a solução da relação desgastante passa por uma necessidade de a “vítima” abrir mão do que julga o certo ou justo para viver o que é possível viver dentro daquela situação. No fundo, a pessoa não se conforma com a realidade tal como é e passa anos ou uma vida inteira dando murro em ponta de faca, numa atitude infantil e teimosa de se manter naquela relação exigindo que o outro se modifique.

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O CAMINHO DA AUTOTRANSFORMAÇÃO

Um caminho que pode ser muito útil e nos conduzir a uma convivência sadia com uma pessoa difícil ou um ambiente hostil causado por ela é o da auto- transformação. Esse caminho envolve a difícil tarefa de enxergar a si mesmo no outro. Se não pode mudar o outro ou o ambiente, mude você mesmo. Pois se o outro não muda. você não pode continuar se desgastando e destruindo por isso. Se você não deseja ou não pode, por algum motivo, sair da situação ou se afastar daquela pessoa difícil, modifique o que precisa em você para conviver da melhor forma inserido naquela realidade. A realidade pode não se modificar, mas você tem condições de o fazer e conviver com ela de uma maneira completamente nova e sadia.

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OUTROS OLHARES

HORA DE DORMIR

A excessiva carga de trabalho e os apelos (implícitos ou explícitos) da vida moderna para que as pessoas permaneçam acordadas “sequestram” valiosas horas de descanso. Por isso mesmo, assumir conscientemente a responsabilidade pela qualidade do próprio sono pode ser fundamental para a saúde física e mental. Para isso, porém, é preciso mudar alguns hábitos bastante arraigados. Aceita o desafio?

Hora de dormir

A privação de sono é um problema cada vez mais comum em todo o planeta. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), no mundo uma em cada três pessoas tem dificuldade para dormir. Poderíamos atribuir a responsabilidade por essa dificuldade – que muitas vezes se traduz num sintoma – aos inúmeros estímulos que a energia elétrica e as inovações tecnológicas nos proporcionam ou mesmo à enorme carga de trabalho de muita gente. As causas sociais e culturais da falta de sono são inegáveis, mas revelam apenas uma parte da questão. A responsabilidade pela qualidade é também pessoal e intransferível: embora muitos reclamem das noites mal dormidas e milhões recorram ao uso de medicações, em grande parte dos casos os hábitos na hora de apagar a luz e abandonar-se nos “braços de Morfeu” (o deus dos sonhos, na mitologia grega) não costumam ser dos melhores. Não raro, deixamos para o momento valioso, que antecede o adormecer, atividades (como checar redes sociais) que terminam roubando boa parte de nossa disposição para dormir.

Cientistas sabem atualmente que as consequências das noites mal dormidas são sentidas tanto no corpo quanto na mente. Vários estudos já têm associado o sono desregulado ao envelhecimento acelerado, ao aumento do risco de obesidade e a alterações prejudiciais no sistema imunológico e cardiovascular. A boa notícia é que em muitas situações – que não envolvem patologias específicas, em que a insônia é um sintoma – dormir melhor pode ser mais simples do que parece. Prestar atenção em alguns hábitos e comportamentos pode marcar a diferença entre acordar descansado e disposto no dia seguinte ou sentir como se o mundo estivesse desabando sobre sua cabeça no momento em que o despertador toca de manhã.

1 – LEVE À SÉRIO A ILUMINAÇÃO.

Ler em tela eletrônica pouco antes de pegar no sono pode inibir a produção de melatonina, um hormônio que ajuda a nos embalar para esse momento. Mas, embora seja verdade que aparelhos digitais possam imitar o efeito da claridade do dia e influenciar o tempo do relógio interno do corpo, o neurocientista Russell Foster, da Universidade de Oxford, que há anos estuda os ritmos circadianos, observa que, no final das contas, a quantidade de luz importa mais do que a qualidade. “A luminosidade provoca um efeito de alerta no cérebro, mas a intensidade da luminosidade que esses dispositivos eletrônicos portáteis emitem é relativamente baixa”, argumenta Foster. “Realmente, para algumas pessoas a luz dos aparelhos interfere bastante no descanso, mas não podemos deixar de lado o fato de que, ironicamente, a última coisa que a maioria de nós faz antes de ir para a cama é acender as lâmpadas mais potentes do banheiro enquanto escova os dentes, o que às vezes é até mais prejudicial ao sono.” Além de preferir a leitura em papel às telas digitais (pelo menos à noite), uma providência útil, portanto, pode ser investir na instalação de um regulador de luminosidade. Outra opção é se preparar com uma antecedência de uma hora a 30 minutos antes do horário que planeja realmente adormecer e começar a apagar as lâmpadas, mantendo apenas luminárias ligadas, inclusive no banheiro, no momento da higiene bucal ou mesmo do banho. Seja lá o que decidir fazer, busque minimizar a exposição à luz.

2 – TOME “BANHOS DE FÓTONS” DE MANHÃ.

As mesmas células dos olhos que dependem de luz baixa para facilitar o sono também necessitam de uma exposição de brilho logo cedo para voltar a sincronizar o ritmo circadiano. “O ciclo do corpo humano dura um pouco mais de 24 horas; por isso, sem esse efeito estabilizador da luminosidade matinal, nosso relógio interno começa a oscilar”, explica Foster. Em outras palavras, isso pode nos levar a ir para a cama cada vez mais tarde, ainda que tenhamos de acordar no mesmo horário todas as manhãs, o que, gradualmente, provoca um acúmulo de déficit de sono. O melhor remédio para com- bater isso é a luz natural do começo do dia. Mas, se o emprego, a geografia ou os filhos obrigam você a se levantar antes do amanhecer, procure aumentar a intensidade luminosa da casa ao máximo possível até a hora em que puder tomar sol de verdade. Deixar as janelas abertas para que os primeiros raios dos dias entrem no quarto, por exemplo, costuma ser uma medida simples e eficiente.  A maioria das lâmpadas de ambientes internos tem pelo menos o mesmo brilho que o céu ao amanhecer – entre 400 e 1000 lux (unidade científica para medir a iluminância). Foster recomenda “tomar banhos” de 1000 a 2000 lux na parte da manhã. Isso ajuda a garantir o estado de alerta e a acertar o relógio biológico para ter uma diminuição adequada do ritmo no final da tarde. Se desejar maior rigor, é possível baixar aplicativos para smartphones que medem a luminosidade por metro quadrado e apontam exatamente a quantidade de luz em cada ponto da casa.

3 – APRIMORE SEUS SONHOS.

As funções oníricas provocam polêmicas, mas alguns estudos recentes têm mostrado que os sonhos de fato podem nos ajudar a aprender e a encontrar soluções para problemas do dia a dia. Uma dessas pesquisas, conduzida pelo bioquímico Robert Stickgold, diretor do Centro do Sono e da Cognição da Escola de Medicina Harvard, mostra que voluntários que foram orientados a encontrar a saída de um labirinto se saíram melhor quando haviam sonhado anterior- mente com conteúdos relacionados à tarefa. E o sonho lúcido (em que a pessoa se torna capaz de controlar a experiência sem acordar) pode ajudar a aumentar a produção de insights oníricos e diminuir os efeitos da ansiedade. “Diversos trabalhos científicos indicam que pessoas que têm um sonho lúcido por mês ou mais são mais resistentes para enfrentar eventos estressantes”, diz o psicólogo Tore Nielsen, da Universidade de Montreal, pesquisador do sono. Segundo ele, podemos nos preparar para ter essa experiência de forma espontânea, cultivando o hábito de nos perguntarmos durante o dia: “Estou sonhando?”. A tendência é que façamos o mesmo dormindo, o que pode nos permitir perceber o que acontece e assumir o controle. “Evidências mostram que podemos voar, explorar ideias criativas e lidar com pesadelos nessas circunstâncias de forma lúcida”, afirma. Nielsen salienta, porém, que é importante insistir em prestar atenção aos sonhos. Registrar o que sonhamos e refletir sobre os significados cifrados que se apresentam também pode ser muito útil na resolução de problemas – por isso, ajudaria bastante deixar papel e caneta perto da cama. Com frequência, psicanalistas ajudam seus pacientes a obter compreensões bastante aprofundadas sobre aspectos psíquicos com base na análise dos sonhos que lhes são relatados.

4 – VÁ PARA A CAMA ANTES.

Enquanto pesquisava para produzir este artigo, encontrei uma quantidade aparentemente inesgotável de truques para melhorar o sono, desde um “cochilo de cafeína” ao meio-dia (beber uma xícara de café e depois dormir por 20 minutos) até manter um pé para fora das cobertas durante a noite. Mas, segundo Stickgold, a coisa pode ser até mais simples. “Recomendo às pessoas que façam uma experiência: ir para a cama 30 minutos mais cedo do que o habitual, a cada noite, por uma semana”, diz.  Se você costuma se deitar à meia-noite, por exemplo, passe para 23h30 e assim por diante, até conseguir dormir (ou pelo menos estar pronto para dormir) às 20h30. “Se depois desse período estiver três horas e meia “para trás” em tudo, então interrompa a experiência; mas aposto que isso não acontecerá, é mais provável que a pessoa esteja mais eficiente, bem-disposta e com esse tempo extra para dormir”, acredita o bioquímico.

Talvez atitudes como deixar de lado o celular, desligar a televisão, reduzir a luminosidade, acordar com luz natural entrando pela janela, prestar atenção nos próprios sonhos e se propor a deitar mais cedo pareçam banais demais – e até nos remetam à rotina de nossos antepassados. Mas cientistas garantem que podem realmente funcionar.

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UMA SONECA PARA FICAR MAIS INTELIGENTE

Passar noites em claro tem vários efeitos, inclusive sobre nossa capacidade de concentração, resolução de problemas e aprendizagem. “Um adulto em estado de vigília contínua por 21 horas tem aptidões equivalentes às de alguém alcoolizado a ponto de ser legalmente impedido de dirigir”, afirma o professor Sean Drummond, da Universidade da Califórnia em San  Diego.  Segundo ele, passar duas ou três noites seguidas dormindo tarde e acordando cedo pode provocar o mesmo efeito. Ou seja, do ponto de vista da cognição, é como se dormir bem (obviamente sem excessos) nos tornasse mais inteligentes – pelo menos mais do que podemos ser quando passamos tempo demais acordados.

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Lübeck, na Alemanha, com 191 adultos mostrou que dormir bem durante a noite é fundamental para nos lembrarmos melhor do que aprendemos.

Isso ocorre porque durante o descanso ocorre a síntese de proteínas responsáveis pelo desenvolvimento de conexões neurais, o que aprimora habilidades como a memória. Quando dormimos, nosso cérebro seleciona as informações acumuladas,  guardando aquilo que considera importante, descartando o supérfluo e fixando, assim, lições que aprendemos ao longo do dia. Por esse motivo, quem dorme mal, geralmente, tem dificuldade em lembrar-se de situações simples, como episódios ocorridos no dia anterior ou nomes de pessoas próximas.

GESTÃO E CARREIRA

UM MODO FRUGAL DE VIVER

“Empresas simples são mais ágeis e velozes, decidem com maior rapidez e assim atingem metas e objetivos de forma descomplicada e eficaz”

Um modo frugal de viver

A última moda entre os jovens europeus e americanos é o chamado “The Frugal Way of Life” – “O modo frugal de viver”. Frugal significa simples, porém com qualidade. Significa ter menos quantidade e mais qualidade. Significa se livrar de coisas acidentais e se concentrar nas coisas essenciais para uma vida com mais significado e relevância.

Desde o Slow Food, que teve início na Itália em 1986, até o famoso livro Frugal lnnovation de Navi Radjou e Jaideep Prabhu, que ganhou o prêmio de livro do ano de 2016 (tema da 26ª Clínica de Gestão da Anthropos em 25 de julho de 2015), e outros como Keep lt Simple ou “princípio do beijo” pelo acrônimo em inglês – KISS – Keep lt Simple Stupid – a frugalidade (simplicidade com qualidade) vem tomando corpo em todo o mundo.

É preciso lembrar que grandes personalidades sempre adotaram o princípio da frugalidade. Dentre muitos, basta lembrar que Leonardo da Vinci dizia que a “simplicidade é o último grau de sofisticação”, e Albert Einstein afirmava que “tudo deve ser feito da forma mais simples possível”.

Hoje a busca por uma vida frugal, descomplicada, simples está em todos os campos: alimentação frugal; vestimenta frugal; ambiente empresarial frugal, para citar alguns.

Moradores das grandes cidades estão buscando lugares mais tranquilos e simples para viver, onde a competição não seja por aparências. Em Nova York (lembre-se da Fogueira das Vaidades) e na Califórnia, o movimento frugal vem crescendo a cada dia seguindo o exemplo europeu.

Assim, estão caindo de moda os carrões, as mansões, as roupas de grife, os restaurantes caríssimos, os hotéis superluxuosos, enfim, a ostentação em todas as suas formas e aparências.

Empresas de todo o mundo estão fazendo trabalhos sérios de simplificação dentro do conceito de frugalidade. Empresas simples são mais ágeis e velozes, decidem com maior rapidez e assim atingem metas e objetivos de forma descomplicada e eficaz.

Não é por outra razão que entre os livros mais vendidos hoje no mundo está o “Essencialismo A disciplinada busca por menos” de Greg McKeown – tema da 31ª· Clínica de Gestão da Anthropos – onde o autor conclama os leitores para uma vida frugal e focada no essencial, ensinando a como deixar de lado tudo aquilo que não agregar qualidade de vida e como viver uma vida simples e feliz.

Além de tudo, as modernas pesquisas de neurociência de grandes universidades têm reiteradamente demonstrado que uma vida com bons relacionamentos, amigos leais e em comunidade são realmente os fatores fundamentais de uma vida longa e feliz.

Quem tiver maior interesse em entender essas pesquisas e o valor de uma vida frugal, peço que assista à palestra no TED (www.ted.com) do Professor Robert Waldinger: What makes a good fite? Lessons from the longest study on happiness (O que faz uma vida boa? Lições do mais longo estudo sobre felicidade) de Harvard e outras que encontrará sobre o mesmo tema.

Viva uma vida frugal, alicerçada em valores e virtudes permanentes, voltada para as coisas realmente essenciais e descobrirá uma nova forma de ser feliz.

Pense nisso. Sucesso!

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 19: 1-15 – PARTE V

Alimento diário - Comendo a Bíblia

Cristo é acusado diante de Pilatos

 

V – Pilatos luta com os judeus, para libertar Jesus das mãos deles, mas é inútil. Nós não lemos mais nada, depois disto, que tenha acontecido entre Pilatos e o prisioneiro. O resto foi entre ele e os acusadores.

1. Pilatos parece mais desejoso do que antes de libertar Jesus (v.12): “Desde então”, e porque Cristo lhe tinha dado uma resposta (v.11), que, embora contivesse uma repreensão, ainda assim foi aceita com mansidão. E, embora Cristo encontrasse crime nele, ele continuava a não encontrar crime em Cristo, mas procurava soltá-lo, desejando soltá-lo, empenhando-se para isto. Ele procurava soltá-lo. Ele tentava fazer isto habilmente e com segurança, de modo a não desagradar aos sacerdotes. O resultado nunca é bom, quando nossas resoluções de cumprir nosso dever são engolidas em projetos sobre como realizá-lo de maneira plausível e conveniente. Se a política de Pilatos não tivesse prevalecido acima da sua justiça, ele não teria perdido tanto tempo procurando soltá-lo, mas o teria feito.

2. Os judeus estavam mais furiosos do que nunca, e mais violentos, para conseguir crucificar a Jesus. Eles ainda prosseguem no seu objetivo com ruído e clamor, como antes, de modo que gritavam. Eles queriam dar a entender que a maioria estava contra Ele, e por isto se empenhavam para conseguir que uma multidão gritasse contra Ele, e não é difícil reunir uma multidão. Ao passo que, se uma votação honesta tivesse sido realizada, eu não duvido que ela tivesse resultado em uma grande maioria a favor da sua libertação. Alguns poucos loucos podem superar, através de gritos, a muitos homens sábios, e pensar que estão expressando o bom senso (quando é apenas o disparate) de uma nação, ou de toda a humanidade, mas não é uma coisa tão fácil modificar a consciência do povo como o é deturpá-la, e alterar o que ele deseja. Agora que Cristo estava nas mãos dos seus inimigos, seus amigos estavam tímidos e silenciosos, e desapareci­ dos, e aqueles que estavam contra Ele se entusiasmavam em mostrar-se desta maneira. E isto deu aos principais dos sacerdotes uma oportunidade de representar estes gritos como o voto unânime de todos os judeus que Ele fosse crucificado. Neste grito, eles procuravam duas coisas:

(1) Manchar o prisioneiro como um inimigo de César. Ele tinha recusado os reinos deste mundo e a glória deles, tinha declarado que seu reino não era deste mundo, e ainda assim eles dizem que Ele fala contra César, Ele se opõe a César, invadindo sua dignidade e soberania. O artifício dos inimigos do Evangelho sempre foi apresentá-lo como prejudicial a reis e a províncias, quando, na verdade, ele seria alta­ mente benéfico a ambos.

(2) Amedrontar o juiz, como sendo inimigo de César: “Se você permitir que este homem fique impune, e o soltar, você não será amigo de César, e por isto não estará sendo leal ao que lhe foi confiado e ao dever do seu cargo, será odioso e terá o desprazer do imperador, tornando-se passível de ser demitido”. Eles sugerem uma ameaça de que dariam informações contra ele e o deporiam, e aqui eles o tocam em uma parte muito sensível. Mas, dentre todas as pessoas, estes judeus não poderiam ter fingido uma preocupação com César, pois eles mesmos tinham pouquíssima afinidade com ele e com seu governo. Eles não deviam falar de amizade a César, se eles mesmos eram tais inimigos dele. Mas, assim, um falso zelo por aquilo que é bom frequentemente serve para encobrir uma maldade real contra aquilo que é melhor.

3. Quando outros expedientes tinham sido tentados, em vão, Pilatos esforçou-se ligeiramente para acalmá-los com uma brincadeira, e, ao fazer isto, vendeu-se a eles, e abriu caminho para a torrente de acontecimentos, vv. 13-15. Depois de ter resistido por muito tempo, e aparentado, agora, como se tivesse feito uma vigorosa resistência a este ataque (v. 12), ele capitulou vergonhosamente. Observe aqui:

(1) O que chocou Pilatos (v. 13): “Ouvindo, pois, Pilatos esse dito”, que ele não poderia ser fiel à honra de César, nem ter as boas graças de César, se não condenasse Jesus à morte, ele pensou que já era hora de pensar em si mesmo. Tudo o que eles tinham dito para provar que Cristo era um malfeitor, e, portanto, seria o dever de Pilatos condená-lo, não o tinha convencido, ele ainda mantinha sua convicção da inocência de Cristo. Mas, quando sugeriram que era do seu interesse condená-lo, ele começou a render-se. Observe que aqueles que atrelam sua felicidade às boas graças e aos favores dos homens tornam-se presas fáceis das tentações de Satanás.

(2) A preparação que foi feita para uma sentença definitiva: Pilatos “levou Jesus para fora”, com grande cerimônia. Podemos supor que ele tenha pedido seu manto, para parecer grandioso, e então “assentou-se no tribunal”.

[1] Cristo foi condenado com toda a cerimônia possível. Em primeiro lugar, para nos livrar do tribunal de Deus, e para que todos os crentes, por intermédio de Cristo, sendo julgado aqui, pudessem ser absolvidos no tribunal do céu. Em segundo lugar, para remover o ter­ ror dos julgamentos pomposos, aos quais seus seguido­ res seriam trazidos por sua causa. Paulo pôde suportar melhor o tribunal de César, depois que seu Mestre tinha estado ali, antes dele.

[2] Menciona-se aqui o lugar e a hora.

Em primeiro lugar, o lugar onde Cristo foi condenado: “no lugar chamado Litóstrotos, e em hebraico o nome é Gabatá”, provavelmente o lugar onde Pilatos costumava julgar causas ou criminosos. Alguns entendem que Gabatá significa um lugar fechado, protegido dos insultos do povo, que, portanto, humanamente falando, havia menor necessidade de temer. Outros julgam que se tratava de um lugar elevado, para que todos pudessem vê-lo.

Em segundo lugar, a hora, v. 14. “E era a preparação da Páscoa e quase à hora sexta”. Observe:

1. O dia: “Era a preparação da Páscoa”, isto é, do sábado de Páscoa, e das solenidades deste dia e dos demais dias da festa dos pães asmos. Isto fica claro, com base em Lucas 23.54: “E era o Dia da Preparação, e amanhecia o sábado”. De modo que esta preparação era para o sábado. Observe que antes da Páscoa era necessário que houvesse uma preparação. Isto é mencionado, agravando seu pecado, ao perseguirem a Cristo com tanta maldade e fúria, pois todo este episódio aconteceu quando eles deveriam estar lançando fora o fermento velho, para se prepararem para a Páscoa. Mas, no melhor dia, cometeram os piores atos.

2. A hora: era “quase a hora sexta”. Alguns manuscritos antigos, em grego e latim, dizem que era quase a hora terceira, o que está de acordo com Marcos 15.25. E, de acordo com Mateus 27.45, parece que Ele já estava na cruz antes da hora sexta. Mas isto parece ser mencionado aqui, não como uma determinação precisa do tempo, mas como um agravamento adicional do pecado dos seus acusadores, pelo fato de que estavam prosseguindo com a acusação, não somente em um dia solene, o dia da preparação, mas, da terceira à sexta hora (que era, como nós dizemos, hora de estar na igreja) daquele dia, estavam dedicados a esta maldade. De modo que, neste dia, embora fossem sacerdotes, eles abandonaram o serviço do Templo, pois não deixaram Cristo até a sexta hora, quando tiveram início as trevas, que os afugentaram. Alguns pensam que a hora sexta, deste evangelista, corresponde, de acordo com o sistema romano de horas, e o nosso, às seis horas da manhã, correspondendo à primeira hora do dia dos judeus. E muito provável que o julgamento de Cristo diante de Pilatos estivesse no seu auge aproximadamente às seis horas da manhã, que era pouco depois do nascer do sol.

(3) A disputa que Pilatos teve com os judeus, tanto os sacerdotes quanto o povo, antes de dar a sentença, esforçando-se, em vão, para interromper a maré da fúria deles.

[1] Ele disse aos judeus: “Eis aqui o vosso rei”. Isto é uma repreensão a eles, pelo absurdo e pela maldade da sua insinuação de que este Jesus se tivesse feito rei: “‘Eis aqui o vosso rei’, isto é, aquele a quem acusais de ser um pretendente à coroa. Este homem parece ser perigoso ao governo? Eu penso que não, e vós deveis pensar o mesmo e deixá-lo em paz”. Alguns pensam que aqui ele os censura pelo seu desafeto secreto a César: “Se este homem tivesse liderado o povo em uma rebelião contra César, vocês desejariam que Ele fosse seu rei”. Mas Pilatos, embora isto não lhe fosse intencional, parece ser a voz de Deus dirigida a eles. Cristo, agora coroado com espinhos, é, como um rei na sua coroação, oferecido ao povo: “Eis aqui o vosso rei, o rei a quem Deus ungiu sobre o seu santo monte Sião”. Mas eles, em vez de aceitarem isto com aclamações de consentimento jubiloso, protestam contra Ele. Eles não desejam ter um rei escolhido por Deus.

[2] Eles bradaram com a maior indignação: “Tira! Tira!”, o que traduz desprezo, além de maldade, “Prenda-o, Ele não é dos nossos. Nós não o reconhecemos como um parente nosso, e muito menos como nosso rei. Nós não somente não temos veneração por Ele, como nenhuma compaixão. Tire-o da nossa vista”. Pois estava escrito sobre Ele: Ele é aquele “ao que as nações abominam” (Isaias 49.7), e “de quem os homens escondiam o rosto”, Isaías 53.2,3. “Tira da terra um tal homem”, Atos 22.22. Isto demonstra, em primeiro lugar, como nós merecíamos ser tratados no tribunal de Deus. Pelo pecado, nós nos tornamos odiosos à santidade de Deus, que clamou: Tire-os, tire-os, pois Deus tem olhos puros demais para contemplar iniquidade. Nós também nos tornamos odiosos à justiça de Deus, que clama contra nós: “Crucifiquem-nos, crucifiquem-nos. Que seja executada a sentença da lei”. Se Cristo não tivesse intercedido, sendo assim rejeitado pelos homens, nós teríamos sido rejeitados por Deus para sempre. Em segundo lugar, demonstra como nós deveríamos tratar nossos pecados. As Escrituras nos dizem frequentemente que devemos crucificar o pecado, em conformidade com a mor­ te de Cristo. Aqueles que crucificaram a Cristo, o fizeram com ódio. Com uma indignação piedosa, nós devemos destruir o pecado em nós, da mesma maneira como eles, com uma indignação ímpia, destruíram àquele que se fez pecado por nós. O verdadeiro penitente lança fora suas transgressões. Lancem-nas fora daqui (Isaias 2.20; 30.22), crucifiquem-nas, crucifiquem-nas. Não é adequado que elas habitem na minha alma, Oséias 14.8.

[3] Pilatos, desejando libertar a Jesus, mas ainda assim desejando que isto fosse feito por eles, lhes pergunta: “Hei de crucificar o vosso rei?” Ao dizer isto, ele desejava, ou, em primeiro lugar, silenciá-los, mostrando-lhes como era absurdo que eles rejeitassem a alguém que se oferecia para ser seu rei, em uma época em que eles precisavam de um, mais do que nunca. Eles não têm um senso de escravidão? Não têm um desejo de liberdade? Não valorizam um libertador? Embora Pilatos não visse causa para temê-lo, eles podiam ver motivos para esperar alguma coisa dele, pois interesses esmagados e naufragados estão prontos a agarrar-se a qualquer coisa. Ou, em segundo lugar, silenciar sua própria consciência. “Se este Jesus for um rei”, pensa Pilatos, “Ele será somente rei dos judeus, e, portanto, eu não tenho nada a fazer, exceto uma boa oferta dele a eles. Se eles o recusa­ rem, e desejarem ter seu rei crucificado, o que eu tenho a ver com isto?” Ele os provoca, pela sua tolice em esperar um Messias, e ainda assim perseguir alguém que afirmava, tão logicamente, ser Ele.

[4] Os principais dos sacerdotes desejavam definitivamente condenar Cristo e obrigar Pilatos a crucificá-lo. Entretanto, contrariados em seus propósitos, eles clamavam em alta voz: “Nós não temos rei, senão o César”. Eles sabiam como agradar a Pilatos, e esperavam, então, impor-lhe sua vontade, embora, ao mesmo tempo, odiassem César e seu governo. Mas observe, em primeiro lugar, que esta é uma clara indicação para o tempo de o Messias aparecer. Justamente agora, o momento era chegado. Porque, se os judeus não têm rei, mas César, então o cetro é passado de Judá, e o legislador de entre seus pés, o qual nunca deveria estar em Siló, vindo a instituir um reino espiritual. E, em segundo lugar, que foi uma coisa correta Deus trazer sobre eles, através dos romanos, como resultado, aquela ruína que se seguiu pouco tempo depois.

1. Eles aderiram a César, a César irão então. Deus concedeu-lhes Césares suficientes, e, de acordo com a parábola de Jotão, uma vez que as árvores escolheram o espinheiro para seu rei, em lugar da videira e da oliveira, um espírito mau foi enviado ao meio deles para que não pudessem andar em verdade e sinceridade (Juízes 9.12,19). Desde então, eles foram rebeldes contra os Césares, e os Césares tiranos contra eles, e a deslealdade deles resultou na ruína de sua terra e nação. É realmente de Deus produzir certa aflição e incômodo em nós, de tal modo que escolhamos dar preferência a Cristo.

2. Eles não teriam outro rei além de César, como nunca mais tiveram nem um outro até os dias atuais, mas têm agora permanecido “muitos dias sem rei, e sem príncipe” (Oseias 3.4), sem ninguém de sua possessão, ao contrário, os reis das nações têm regido sobre eles. Visto que não terão rei, mas César, então sua sorte será decidida por eles próprios.