PSICOLOGIA ANALÍTICA

CICATRIZES DA INFÂNCIA

Experiências traumáticas e falta de carinho nos primeiros anos de vida podem modificar os circuitos cerebrais. Seria esta uma das causas dos transtornos psíquicos?

Cicatrizers da Infância

Hiperatividade, déficit de atenção, autismo, transtornos nos hábitos alimentares, esquizofrenia, ansiedade e depressão formam um rosário de problemas sobre os quais se estendia, antigamente, um véu de silêncio. Hoje ocupam mais espaço na mídia, e em geral, são atribuídos a experiências traumáticas vividas na primeira infância. Até recentemente, porém, essa afirmação carecia de apoio científico suficiente.

Mas parece cada vez mais claro que experiências traumáticas influem decisivamente nas conexões neuronais do cérebro infantil e no equilíbrio dos neurotransmissores, causando mudanças capazes de aumentar, de modo significativo, a vulnerabilidade a transtornos psíquicos em fases posteriores da vida.

Supunha-se que o desenvolvimento e o funcionamento do cérebro eram fixados geneticamente. Mas estudos recentes sugerem que a variedade dos estímulos do meio determina o modo de formação das redes neuronais. Nos primeiros meses e anos de vida, esses estímulos procedem, nos humanos e em muitos animais, principalmente dos pais.

Há alguns decênios, as pesquisas sobre comportamento mostram que experiências de aprendizado na primeira infância com forte conteúdo afetivo – como a formação de um vínculo emocional entre o recém-nascido e os pais – dirigem o desenvolvimento psicológico da criança. Nos anos 40, René Spitz, do Instituto Psicanalítico de Nova York, estudou centenas de bebês nascidos em um orfanato. Ele observou que um em cada dez manifestava uma atitude de retraimento em relação ao meio. Além disso, constatou que esses bebês tiveram atraso no desenvolvimento psíquico geral.

CARINHO EMOCIONAL

Para determinar a causa desses transtornos, Spitz realizou um estudo de longo prazo com crianças de orfanato. Descobriu que lhes faltava, além dos estímulos intelectuais, principalmente carinho emocional. Estas primeiras pesquisas sugerem claramente que as crianças adaptam o próprio comportamento ao meio circundante durante as primeiras experiências emocionais após o nascimento.

Nos anos 50 e 60, Clara e Harry Harlow, da Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, estudaram chimpanzés para determinar o que ocorria quando a cria perdia precocemente os genitores. Os resultados confirmaram as observações dos estudos com os bebês de orfanato: os chimpanzés adultos que cresceram sem a mãe apresentavam distúrbios permanentes de comportamento. Brincavam menos, eram mais ansiosos e menos interessados em explorar o ambiente que os congêneres criados em circunstâncias normais. Poucas dessas fêmeas procriaram e, quando o fizeram, não souberam cuidar da cria.

Como a presença ou ausência de experiências emocionais podem acarretar alterações tão drásticas de comportamento? Nos últimos anos, neurobiólogos começaram a investigar em animais a influência no cérebro das experiências emotivas e processos de aprendizagem precoces. Já se sabia que os neurônios podem estabelecer conexões distintas quando, em certas fases do desenvolvimento, faltam estímulos para as várias regiões do córtex cerebral. Pesquisadores agora invocam a intervenção do sistema límbico, que desempenha um papel fundamental no controle do comportamento mediante os sentimentos e na aprendizagem e configuração da memória.

Nosso grupo estudou pela primeira vez como se formam os vínculos emotivos entre um recém-nascido e seus pais, fenômeno conhecido como “imprinting filial“. Apresentamos a pintos recém-nascidos ruídos artificialmente produzidos de uma galinha, colocando ao mesmo tempo à disposição dos filhotes uma galinha falsa de pano para que se aconchegassem: os primeiros estímulos agradáveis dos filhotes. Estes associaram o estímulo acústico até então privado de significado – a voz artificial da mãe – à situação emocional, recebendo assim o imprinting, e logo distinguiram os ruídos maternos de outros estímulos acústicos. Corriam em direção à “mãe” tão logo os ouviam.

Queríamos saber o que se passa no cérebro dos animais durante imprinting.  Descobrimos mudanças consideráveis nas propriedades das células nervosas de algumas áreas do prosencéfalo, responsáveis pelo reconhecimento do estímulo do imprinting e, provavelmente, por sua coloração emocional. Nos mamíferos, correspondem às áreas associativas do córtex cerebral, para as quais convergem sinais procedentes de diversas partes do cérebro. O som aprendido ativa muito mais essas zonas do cérebro nos animais que receberam o imprinting que nos animais de controle sem uma mãe artificial substituta. Além disto, os neurônios dos animais com o imprinting reagem ao estímulo com impulsos elétricos mais intensos, isto é, são mais sensíveis. Esta mudança provavelmente ocorre por uma reorganização dos contatos transmissores de informação entre neurônios, as sinapses. De fato, nos primeiros 90 minutos depois do início do imprinting filial, aumentam os contatos sinápticos em uma área do cérebro dos pintos que nos mamíferos corresponde ao setor anterior do córtex cingular, parte do sistema límbico. O cérebro parece querer captar e fixar no maior número possível de canais o novo estimulo que encerra um valor de sobrevivência.

Ao longo deste processo de aprendizagem, as sinapses diminuem novamente. Os pintos de uma semana que receberam o imprinting apresentaram, nas áreas associativas do prosencéfalo, menos sinapses “espinhosas” (predominantemente excitatórias) que animais sem imprinting. Do excesso de ofertas de conexões sinápticas inespecíficas, só permanecerão ativas as que processam estímulos emocionais importantes. Estas conexões são integradas na rede neuronal e podem ser ainda mais reforçadas, mas as inúmeras conexões não envolvidas no estímulo são eliminadas.  Assim, a rede neuronal poderá reagir de forma mais precisa aos estímulos significativos.

Nos animais que cresceram sem contatos sociais, falia esta seleção de sinapses, o que os impede de otimizar seus circuitos límbicos. O incremento e a eliminação de sinapses só ocorrem quando o animal pode associar o estímulo acústico à situação emocional positiva. Um estímulo afetivamente neutro não basta, se os sons não são acompanhados da presença da galinha artificial, as mudanças sinápticas não ocorrem nos pintos. Por outro lado, bastam 30 minutos de estímulo acústico e a presença da mãe artificial para iniciar a seleção das sinapses. As primeiras experiências emocionais contribuem para determinar o padrão fundamental dos circuitos neuronais no sistema límbico durante a primeira fase de desenvolvimento. Estes padrões determinam quais modelos de comportamento e de aprendizado serão possíveis em seguida.

A bioquímica dos neurônios também é alterada no imprinting filial. A mudança afeta sobretudo os neurotransmissores. Após ouvir o som da galinha, os pintos com imprinting produzem no prosencéfalo mais glutamato que aqueles para os quais o som carece de sentido. O glutamato então, ativa o NMDA (N-metil – D­aspartato) e todas estas respostas bioquímicas servem claramente para consolidar o vínculo emocional entre a cria e os progenitores. Se, durante a aprendizagem, o glutamato não se ligar aos receptores NMDA e ativar os neurônios, os animais deixarão de associar o som à situação emocional. Com isso não poderão receber o imprinting.

GENITORES SOLÍCITOS

Também nos humanos a seleção das sinapses é dirigida por processos de aprendizagem e aquisição de experiência. Nos mamíferos, a criação de sinapses serve para adaptação ao meio. Nos primatas, em várias de suas áreas cerebrais e no sistema límbico em particular, são inúmeras as conexões criadas e depois eliminadas.

A capacidade de adaptação do cérebro dos primatas tem um lado obscuro: é eficiente também nas condições adversas, quando há por exemplo, carência afetiva e experiências traumáticas. Podem resultar disto erros de conexão no sistema límbico, capazes de provocar transtornos do comportamento e psíquicos. Para verifica esta hipótese, estudamos filhotes de degus (Octodon degu), uma espécie de roedor existente no Chile. Os degus “falam” entre si de forma muito complexa: sua comunicação por meio de sons desempenha um papel importante na família e na colônia. Além disso, os genitores participam ativamente da criação dos filhotes.

Separamos os pequenos degus da família durante períodos mais ou menos longos e em diversas fases do desenvolvimento. Para esses animais é uma experiência muito negativa, associada a stress e medo. Quando examinamos o consumo de energia no cérebro dos filhotes separados, constatamos que o sistema límbico reduzia sua atividade. Investigamos em seguida as mudanças, ao longo do tempo, nas sinapses dos roedores. Em filhotes que crescem ao lado dos genitores e irmãos as sinapses espinhosas no córtex cerebral anterior inicialmente aumentam, para depois diminuir.  Se, pelo contrário, nas primeiras semanas de vida as crias são separadas dos genitores por algumas horas, observa-se um número maior dessas sinapses. A situação é similar à observada nos pintos que não receberam imprinting filial. Também neste caso parece, portanto, que a experiência desagradável afeta as sinapses.

CARÊNCIA E TRANSTORNOS PSÍQUICOS

Nos degus, outras partes do sistema límbico mudam em função da experiência emocional, como por exemplo, o nucleus accumbens, que colabora na gênese das paixões; a amígdala, centro da apreensão e da agressividade e o hipocampo, porta de entrada para as informações destinadas à memória. Estas mudanças ­sinápticas diferem conforme a região cerebral. A longo prazo, o equilíbrio entre as regiões límbicas pode mudar com consequências imprevisíveis para a estabilidade psíquica.

O equilíbrio entre os neurotransmissores também pode ser alterado, em particular entre a dopamina e a serotonina, substâncias reguladoras do processamento cerebral das emoções. Nos degus com carências emocionais alteram-se tanto a quantidade das fibras nervosas produtoras de serotonina ou de dopamina como a densidade das respectivas moléculas receptoras. Apenas três dias depois de algumas breves separações aumentaram, em partes do sistema límbico, o número de receptores de dopamina e serotonina. É interessante lembrar que muitos transtornos psíquicos humanos exibem um desequilíbrio destas substâncias.

Todas estas mudanças biológicas no cérebro podem influir diretamente no aprendizado e no convívio social, chegando a causar transtornos psíquicos, como sugerem os primeiros resultados das pesquisas sobre degus e ratos de laboratório em condições de privação.

Evidentemente não podemos realizar experimentos similares com humanos. Após a dissolução do bloco soviético, entretanto, pesquisadores estudaram bebês de orfanatos romenos e constataram redução análoga da atividade no sistema límbico anterior quando comparada à atividade nos bebês normais. Um déficit similar é encontrado em pacientes que sofrem de transtornos de atenção e de esquizofrenia.

À primeira vista, essas alterações do comportamento se assemelham incrivelmente aos sintomas de bebês hiperativos ou com déficit de atenção. Este comportamento também poderia ser causado em humanos pela segregação do núcleo familiar? É possível. As experiências emocionais devem influir no desenvolvimento cerebral dos bebês da mesma forma que nas crias de outras espécies, também nos humanos os transtornos psíquicos estão provavelmente associados a transformações sinápticas nos circuitos emocionais límbicos.

Uma consequência dramática destas conexões cerebrais errôneas é a formação de uma rede neural mal estruturada, capaz de provocar desde transtornos comportamentais e de aprendizagem até doenças psíquicas. A elucidação destas relações abre perspectivas para a correção de desenvolvimentos errôneos. Quando conseguirmos isto, os meios de comunicação não só fornecerão informações sobre transtornos psíquicos, mas também sobre novos métodos para ajudar pessoas afetadas.

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OUTROS OLHARES

EVANGÉLICOS EMERGENTES

Igreja na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, reúne artistas, como Bruna Marquezine, e classifica frequentadores como “powers”, “Winners” e “seeds”.

Evangélicos emergentes

Rua Rosauro Estelita, número 607, Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Dentro do condomínio Rio Mar, o endereço indicado no site oficial da Igreja Mananciais como sua sede aponta para a Escolinha Fla. É preciso seguir até o fim da via, contornando à esquerda, para chegar aos fundos da construção. Ali, num imenso campo de terra, estão estacionados nada menos que 265 carros, numa noite de quarta-feira. Houve final de semana em que se podiam contar mais de 300 carros. À margem do estacionamento, enquanto crianças treinam futebol num espaço ao ar livre, de gramado sintético, por trás dele, no entorno do imenso galpão que serve de templo, adolescentes, jovens e adultos se aquecem para o exercício da fé.

Trinta minutos antes do culto das 20 horas, o banheiro feminino está em polvorosa. Os imensos espelhos que cercam as pias de mármore são disputados por moças vaidosas, que capricham na maquiagem e no perfume importado. “Eu me arrumo toda, mas não adianta muito: acabo descabelada e com a make toda borrada, de tanto que choro. Não tem como, é muita emoção…”, disse a tourinha com porte de modelo, partilhando o corretivo e o rímel com a arruga. Questionada sobre a frequência da atriz Bruna Marquezine nos cultos, uma outra me respondeu, desconfiada: “Ela só aparece às vezes… Mas por quê? Você só veio para ver a atriz da Globo? Deus é muito maior!”.

Do lado de fora, aguardando o término da Sala de Oração, iniciada às 18 horas, misturam-se senhoras, pais e mães com bebês de colo, mulheres e homens desacompanhados. O clima é amistoso, íntimo. Um grupinho de rapazes entre seus 15 e 20 anos conversa sobre esporte, cada qual com sua Bíblia debaixo do braço. De calças jeans, tênis, camisas de times de futebol e moletom, dividem-se entre os de topete moldado com gel e os com longas e douradas madeixas, no estilo surfista. A poucos metros deles, Eduardo anda de um lado para o outro, ansioso, livro sagrado à mão. “Adoro isto aqui!

Venho sempre que posso, porque me sinto acolhido. Parece que essas pessoas são minha família de verdade. Nas outras igrejas que frequentei, não tinha essa energia boa”, ele comentou, sem se prolongar.

Abrem-se, enfim, as portas da igreja. Logo na entrada, a moça bonita recepciona cada fiel entregando um folheto com o resumo dos ensinamentos da noite e as indicações de leitura da Bíblia para meditação. Lá dentro, um espaço enorme, todo acarpetado, em tons escuros. Enfileiradas, cerca de 400 cadeiras estão dispostas no térreo – há outras dezenas delas num andar acima, acessado por escadas à direita e à esquerda do altar. Nele, não há imagens ou símbolos religiosos, à primeira vista. Ali estão demarcados os espaços de bateria, violão, guitarra, baixo, teclado e vocais. Há também um telão, imenso, onde são projetadas letras de hinos e trechos da Bíblia mencionados durante a celebração. Como pano de fundo, frequentemente surgem fotos aéreas da cidade do Rio e imagens de água corrente – numa referência insistente ao nome da igreja. Mananciais, não se esqueça.

O culto tem início com uma sequência de músicas com forte carga emocional que exaltam o poder e a bondade de Jesus Cristo. Com vozes potentes, as cantoras Larissa Araújo e Alyene Donasci lideram a banda de sete integrantes que, literalmente, levanta a plateia. Abraçados, os presentes dançam, pulam, gritam como num show animado de rock. Nas canções mais introspectivas, com as

luzes mais baixas, fecham os olhos e erguem os braços, em louvor. Alguns aproveitam para fazer vídeos e stories pelo celular, registrando a comoção ali instaurada – foi assim que, em fins do último mês de julho, Bruna Marquezine revelou-se frequentadora do lugar. Vez por outra, os mais viciados em tecnologia são interpelados por jovens com crachás em que se leem as iniciais “TE” – de “Turma Especial”, do Instituto Mananciais, espécie de faculdade religiosa que forma líderes -, pedindo para que não se façam registros. São esses mesmos obreiros que, munidos de fones, se posicionam de pé ao fundo da igreja para ajudar a organizar cada etapa do evento. Se chega alguém estranho ao convívio do grupo, logo se aproximam, oferecendo auxílio.

A Mananciais se mostra articulada para arrebatar fiéis das mais diversas faixas etárias. Seus ministérios assim se classificam: Kids (os ensinamentos são voltados para a primeira infância), Seeds (pré-adolescentes), Winners (adolescentes), Press Power (jovens), Casais Aliançados (adultos casados) e Sala de Oração (bastante frequentada por idosos). Pelo menos sete pastores se responsabilizam pela coordenação de cada um desses grupos. O batismo de novos membros é realizado numa piscina, localizada na área externa da igreja, que ainda tem um sítio de convivência, no bairro de Santa Cruz, onde são realizados eventos como a Festa Country, que aconteceu no dia 29 de setembro.

Findado o momento musical, um pastor sobe ao altar – não há um líder fixo, mas um revezamento (naquela quarta-feira, o pastor-presidente Ricardo Carvalho encontrava-se em férias com a família nos Estados Unidos. Durante duas semanas, mesmo após seu retorno ao Rio, evitou dar entrevista. Ainda na euforia da adoração, é feito o convite à oferta. Cada assento é encapado com um tecido que traz a marca “Mananciais” estampada e uma abertura na parte traseira, com um envelope de “Oferta ao Senhor”. Nele, está impresso um trecho bíblico da 2ª Carta aos Coríntios, capítulo 9, versículo 7: “Cada um contribua segundo propôs em seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria”. O pastor reforça: “Ele nos deu o maior presente, que foi a vida eterna. Você não pode dar seu dinheiro com tristeza”. Quem vai fazer sua doação em espécie acomoda as notas no envelope e entrega ao obreiro na frente do altar. No telão, um aviso: “Máquinas de cartão ao lado das escadas”, para quem pretende doar em crédito ou débito.

Nesse momento, identificam-se no recinto mais rostos conhecidos do grande público: o dono da Furacão 2000, Rômulo Costa; o funkeiro Nego do Borel; a atriz e ex-assistente de palco do Domingão do Faustão Carol Nakamura e seu ex(?)-namorado, o empresário Steffan Menah; a atriz Dany Bananinha… “É comum aparecer gente famosa por aqui. Nas redondezas, há muitos condomínios onde moram artistas da Globo e da Record. E o pessoal que frequenta a igreja é tranquilo, não importuna”, comentou uma fiel, pedindo para não ser identificada. Dany contou que essa foi sua primeira ida à Mananciais: “Sou muito religiosa e meu amigo sempre me convidava para vir. Senti vontade de conhecer, achei que poderia ouvir uma mensagem legal. E ouvi, valeu, foi bom! Fui criada no catolicismo e frequento muito a missa, também gosto do espiritismo. Para mim, o mais importante é a fé em Deus e se sentir bem ouvindo sempre coisas positivas e tendo paz de espírito. Amém!”.

“Amém”, “Aleluia” e “Yeah!” são expressões que pontuam cada trecho de pregação do pastor do dia. Entusiasmados, os fiéis erguem os braços com os punhos cerrados, em sinal de vitória; aplaudem; trocam o riso pelo choro em questão de segundos; sublinham a Bíblia e anotam num caderninho à parte os ensinamentos do líder religioso; ajoelham-se e oram fervorosamente, como que em transe. O discurso é sempre sobre um Deus bom, que se preocupa com seus filhos e realiza milagres. “Eu não sei qual é sua luta, meu irmão, mas você já venceu. Você não tem vontade de voar, assobiar, gritar, por estar nos braços D’ele?”, incentivou a pastora Aline Carvalho, fundadora da Igreja Mananciais ao lado do marido, o já citado pastor Ricardo. Também conhecida como Mama Aline, é uma figura engraçada, carismática e risonha, que estende seus domínios à internet, com vídeos dinâmicos no YouTube em que aborda questões de família e da vida cotidiana. Já de volta dos EUA, Aline liderou o culto em nossa segunda visita ao templo, e seu discurso girou em torno da rápida cura do marido, que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) durante as férias. Lá se vão quase duas horas de adoração.

Um hino animado encerra a noite, agora com a pastora ao microfone. Os fiéis se cumprimentam, com o semblante leve, já combinando a ida ao próximo culto, domingo de manhã. “Se eu não acordar com o despertador, porque o sábado promete, você me liga, hein, brother?”, despede-se o rapaz de seu parceiro de culto, ajeitando a franja. E segue para o estacionamento lotado, dando partida em um carro grande, do tipo utilitário.

Fundada em 2004, a Mananciais tem quatro unidades no Rio: além da Barra, há templos em Campo Grande, Bento Ribeiro e Duque de Caxias. Seu site oficial é estampado por uma foto do casal Ricardo e Aline acompanhado por seus três filhos pequenos e um texto onde se lê: “Acreditamos em uma igreja que é apaixonada pelo Senhor Jesus, que não negocia Seus valores e princípios. Buscando intensamente agradá-lo, e não importando o preço a ser pago, desejamos influenciar todas as esferas da sociedade através da expressão da cultura do Reino de Deus”.

Evangélicos emergentes.2

GESTÃO E CARREIRA

NO CONTROLE DO EGO

Para o professor de MBA da FGV, Luciano Salamacha, o ego é essencial para manter a autoestima, porque insegurança não é uma característica de um bom gestor.

No controle do ego

Para a filosofia, o ego é o que caracteriza a personalidade de cada um. Para a psicologia, ele é um pilar dessa personalidade e faz a intermediação entre o id e o superego. Já para o mercado corporativo, o ego é o irmão da arrogância, é o podador da criatividade, ampliador de antipatia, o ceifador de carreiras bem-sucedidas. 

O ego é um processo dentro de nós que administra o que se deseja fazer daquilo que se tem capacidade em fazer. Está associado à imagem que se tem de si mesmo, à autoestima, insegurança ou extrema segurança, além dos pensamentos que avaliam as decisões e ações. Então, uma pessoa que confia cegamente em si ou aquela que acredita ser pior que os outros tem dificuldades em se posicionar como profissional.

Para o professor de MBA da FGV, Luciano Salamacha, o ego é essencial para manter a autoestima, porque insegurança não é uma característica de um bom gestor. O professor aponta que “a segurança só acontece quando elevamos nossa régua de informação”. Ser um profissional que não sabe o que se passa na empresa, no departamento e na área que atua não dará respeito a ele. O reconhecimento favorável por colegas e chefia eleva o ego.

Salamacha explica que o ego certamente é a parte mais sensível a ser controlada em um ambiente de trabalho. Segundo ele: “um requisito pra alcançar a sabedoria é saber controlar o próprio ego. Mas como manter estável uma coisa tão sensível e que facilmente desequilibra”?

1 – Ser honesto consigo mesmo. Esse é um dos momentos em que o ego pode favorecer o profissional. Quando descobre segurança e capacidade para executar ou não determinada atividade;

2 – Enxergar se exagerou no enaltecimento das próprias qualidades. O ego é um véu na frente dos olhos do profissional que acredita que é dele todas as verdades;

3 – Não se deixar influenciar por pessoas que elogiam demais para angariar simpatia e favorecimentos pessoais ou, ainda, que criticam desonestamente para que a pessoa acredite na própria incapacidade;

4 – Ter plena convicção do que se é e o que se pode com uma boa dose de humildade;

5 – Exercitar a humildade e não se vangloriar dela;

E o especialista em gestão de carreiras e negócios termina: “não deixe jamais que o ego, que ocupa a função de gerente, se comportar como proprietário”.

ALIMENTO DIÁRIO

***DE UM VENTRE EMPRESTADO A UMA TUMBA EMPRESTADA

De um ventre emprestado a uma tumba emprestada

Você já viajou para um destino distante e acabou descobrindo que se esqueceu de fazer a reserva de hotel? Todo viajante experiente sabe o que é chegar em um lugar e descobrir que o hotel errou na sua reserva antecipada, deixando-o sem acomodações para a noite.

O primeiro encontro de Jesus como ser humano na terra começou com uma placa de “Sem Vagas” em Belém, marcando o início da Sua busca frustrada por um colchão de boas-vindas na terra. A verdade é que Ele foi de um ventre emprestado para uma tumba emprestada, na busca de um lugar para repousar a Sua cabeça. O paradoxo ultrajante desta descrição é o fato de que esse era o Proprietário Incógnito, o Criador Divino, que estava implorando para conseguir hospitalidade suficiente a fim de nascer na dimensão inferior dos seres criados.

O gerente do Hotel Belém não sabia a quem ele havia recusado hospedagem, quando se negou a dar um quarto para José, Maria e o santo bebê. Talvez ele estivesse seguindo os procedimentos pré-estabelecidos ou tivesse pouca paciência para as quebras do protocolo normal. Será possível que ele acreditou que nenhuma reserva antecipada tivesse sido registrada? Não adiantou os profetas clamarem a mensagem: “O Messias está vindo” e, especificamente, dizerem que Ele chegaria em Belém, a cidade de Davi, a “casa do pão”). De qualquer forma, nós sabemos que ele disse ao casal que esperava o filho com o burrinho: “Sigam em frente!”.

Não é esquisito que Jesus ainda esteja encontrando placas de “Sem Vagas” em tantas “casas do pão” (igrejas) que levam hoje o Seu nome? Podem estar cheias de pessoas, mas estão vazias de Deus. Estão repletas de procedimentos estabelecidos para os seus cultos religiosos, de agen­das de reuniões e de protocolos de adoração pré-aprovados.

Estas casas de adoração de prestígio exibem orgulhosamente seus controles cautelosos sobre quem elas consideram ser adoradores extravagantes, com extremismo religioso e os perigos da paixão desenfreada. Quando algo ou alguém aparece na porta dando sinais de aparente gravidez espiritual, eles se recusam a fazer com que o homem dê lugar para Deus. (Não existe nada melhor que a exibição da paixão para fazer com que a complacência se sinta ameaçada e fora de lugar). Eles colocam prontamente suas placas de “Sem Vagas” e continuam com a igreja como normalmente, enquanto a visitação “se move” em busca de outro lugar de habitação. Um estábulo espiritual é preferível à falsa superlotação de um hotel humano.

A peregrinação da Divindade na terra é dolorosamente comum nas Escrituras. Cedo no Seu ministério, Jesus advertiu um futuro discípulo: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. Fico triste em dizer que esta passagem ainda define o principal obstáculo que bloqueia a visitação divina.

 

A DIVINDADE INVADIU A HUMANIDADE A PARTIR DE UMA MANJEDOURA HUMILDE

Sem saber, o administrador da modesta manjedoura hospedou a Divindade naquela noite no seu pequeno hotel para animais da aldeia. O resto é “História” — uma história transformada quando a Divindade invadiu a humanidade a partir de uma manjedoura humilde de Belém.

Você nunca sabe quem ou o que você está acomodando quando hospeda homens — podem ser anjos que o pegam sem saber. A Divindade pode aparecer quando menos você espera. Sempre dá resultado praticar a hospitalidade santa. Eu creio que os relatos do evangelho sobre a chegada de Jesus em Belém seriam diferentes hoje se o gerente de Belém soubesse a quem ele estava rejeitando. Eu fico imaginando quão frequentemente a nossa história seria mudada se soubéssemos a quem nós rejeitamos.

Parece bastante óbvio que o erro humano em deixar de hospedar Jesus como bebê reaparece como uma relutância em mostrar a hospitalidade para com a maturidade do Messias. A Bíblia relata, e as práticas passadas e presentes na Igreja confirmam esta observação. Nós nos recusamos a acreditar na Sua concepção, nós O ignoramos no nascimento e O crucificamos na maturidade. Assim é a história do avivamento.

 

***Extraído do Livro “Caçando Deus, Servindo aos Homens”, de Tommy Tenney