PSICOLOGIA ANALÍTICA

PARADOXOS ALIMENTARES DA OBESIDADE

Você quer emagrecer? Está atento ao que come e à quantidade? Esta é a principal premissa para engordar. A regulação psicológica de nosso comportamento alimentar funciona de forma muito distinta do que gostaríamos.

Paradoxos alimentares da obesidade

Quem já não se sentiu frustrado diante do espelho? Normalmente, quando o verão se aproxima, observamos nossos pontos fracos com espírito especialmente crítico. Concluímos que a única solução é emagrecer. Os doces são banidos e os manuais de dieta passam a orientar nossa lista de compras. Convém saber, entretanto, que o emagrecimento eficaz é estatisticamente raro, porque a psicologia do comportamento alimentar é cheia de surpresas.

Pesquisas recentes demonstram que, ao tentarmos controlar nossos hábitos alimentares mediante técnicas e dietas equivocadas, só conseguimos engordar mais. Nos países industrializados, emagrecer tornou-se um esporte nacional. As revistas oferecem todos os dias novas e milagrosas dietas. Paradoxalmente, o excesso de peso e obesidade aumentam. Nos Estados Unidos, a proporção de obesos passou de 25,5% em 2000, para 34,1% entre 2010 e 2017. A proporção dos que “só” tinham excesso de peso chegou a quase 50% da população. No Brasil, de 1974 a 1997, o número de adolescentes obesos passou de 3,7% para 12,6%. Atualmente, segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, 13,7 milhões de crianças e adolescentes são obesos no país.

Mas o que significam noções como “excesso de peso” e “obesidade”?

No ser humano, os valores normais de peso mantêm estreita relação com a altura. Esta relação é estabelecida pelo índice de Massa Corporal (IMC), que divide o peso em quilogramas pelo quadrado da estatura em metros. Os valores do peso considerados ideais correspondem ao IMC associado a uma menor taxa de mortalidade. Segundo os critérios propostos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o peso normal situa-se entre 18,5 e 25 kg/m2. Os valores situados entre 25 e 30 kg/m2 indicam excesso de peso, os superiores a 30 kg/m2 mostram obesidade.

O excesso de peso ou a obesidade não são saudáveis e reduzem as expectativas de vida. As doenças cardiovasculares, o diabete e o derrame atingem de forma mais acentuada este grupo. Por outro lado, um peso abaixo do ideal está associado a uma mortalidade mais elevada que a média. Além disso, em idosos, o IMC correspondente à mortalidade mínima comporta valores superiores em duas ou três unidades.

Não está claro se o risco adicional atribuído à obesidade tem relação direta com o peso elevado e não com outros fatores relacionados. Os obesos se movem, em média, menos que pessoas com peso normal e sabemos que longas caminhadas cotidianas aumentam a expectativa de vida. Presume-se ainda que o padrão de dietas reiteradas, curtas e drásticas, habitual entre obesos contribua para a mortalidade elevada; o mesmo pode ser afirmado da instabilidade de peso associada ao uso de medicamentos.

Além das consequências para a saúde, a obesidade tem efeitos sociais, sobretudo para mulheres. Estudos realizados nos Estados Unidos mostram que mulheres com excesso de peso têm mais dificuldade para casar-se. Homens e mulheres com um IMC elevado sofrem mais para encontrar emprego e, quando o fazem, ganham menos que colegas de peso normal.

Dadas as consequências negativas do excesso de peso e da obesidade, é compreensível a generalização do desejo de emagrecer. Uma pesquisa realizada em 2015 nos Estados Unidos revelou que 33% das mulheres e 20% dos homens estavam naquele momento tentando emagrecer. As reduções esperadas eram, em média, de 10 kg nas pessoas com um leve excesso de peso e de 30 kg nas obesas, mas os resultados efetivamente obtidos eram, respectivamente, de 5,6 e 8,2 kg, bem inferiores às expectativas.

As tentativas de dieta duram, em média, de cinco a seis meses. Com a ajuda de um profissional, no âmbito de uma terapia comportamental, por exemplo, o exito aumenta um pouco. Pesquisa realizada entre 2010 e 2015 mostrou que os participantes de um programa deste tipo emagreceram em média 8,5 kg em um prazo médio de cinco meses. É preciso considerar que são supostamente os casos mais desesperados que recorrem a programas dietéticos supervisionados por um profissional.

Embora uma dieta para emagrecer possa atingir seu objetivo, a perda de peso obtida raramente é suficiente para os obesos chegarem a um peso normal. Além disso, é raro conseguir manter a perda de peso de forma duradoura. Participantes de programas controlados por profissionais ganharam, em média, mais de 3 kg um ano após o término da terapia.

Quando consideramos períodos mais longos, os resultados das dietas são ainda piores. Os participantes de um determinado programa terapêutico que no início haviam perdido entre 8% e 12 % de peso estavam, quatro anos depois, somente 4% abaixo do peso original. Naturalmente, há casos em que as pessoas atingem o peso normal e conseguem mantê-lo, mas são raros. A valia-se que entre 90% e 95% dos participantes de programas de dieta retornam, depois de cinco anos, ao peso original, para logo aumenta ­ lo. Esta dura realidade foi admitida até mesmo pelos defensores das dietas.

As opiniões relativas às dietas mudaram também em outros aspectos. Atualmente, os nutricionistas não só admitem a ineficácia habitual das dietas, mas começam a considerar seus riscos e efeitos colaterais, como a obsessão pelo peso e pela imagem ideal, um dos principais fatores de risco para o surgimento de transtornos de comportamento alimentar entre os adolescentes.

Paradoxos alimentares da obesidade.2

POR QUE COMEMOS?

A descoberta, nos anos 90, do hormônio anti obesidade – a leptina – gerou grandes esperanças de se encontrar as causas genéticas do excesso de peso. A leptina é produzida e liberada pelas células adiposas. Quanto maior o conteúdo lipídico das células, maior será sua produção de leptina. Este hormônio, atuando sobre sensores cerebrais, regula a ingestão de comida e o armazenamento dos lipídios. Animais que apresentam uma mutação do gene correspondente podem secretar a leptina e se tornam extremamente obesos.

Seria r:izoável pensar que as pessoas obesas não produzem suficiente leptina, mas observou-se o fenômeno oposto: os obesos têm um nível de leptina elevado em relação ao peso do corpo. Pesquisadores suspeitam que a sensibilidade dos receptores da leptina nos obesos seja menor.

A dificuldade que obesos experimentam para atingir e manter um peso normal não prova que a obesidade seja hereditária, mas é inquestionável que os fatores genéticos exercem influência considerável na obesidade. Estudos sobre a genética do comportamento, porém, demonstram que o IMC é herdado conforme uma proporção que varia entre 25% e 40%. Há, portanto, ampla margem de liberdade para o comportamento individual. Outro indício que corrobora esta tese é fornecido pela observação de que a obesidade aumentou dramaticamente nos últimos decênios. Ora, é improvável que um gene da obesidade tenha se propagado com esta velocidade entre a população.

Assim, felizmente, a maioria das pessoas pode decidir quanto quer exceder em sua alimentação. O que de fato limita as tentativas de emagrecimento são o excesso de gorduras na alimentação e a falta de atividade física.

Por que as pessoas comem mais do que pretendem, mesmo quando querem emagrecer? Há décadas esta pergunta ocupa os psicólogos. As tentativas de resposta partem da hipótese de que há uma diferença na regulação do comportamento alimentar entre as pessoas obesas e as de peso normal. O que leva alguém a começar a comer? O que determina a quantidade de comida que ingerimos? Quando damos uma refeição por concluída? As respostas parecem simples: comemos quando temos fome e paramos de comer quando estamos saciados. Isto pode ser verdade para pessoas normais. No caso dos obesos, porém, estes sinais do organismo parecem desempenhar um papel menor na regulação do comportamento alimentar.

Em 1968, Stanley Schachter, psicólogo social da Universidade de Columbia, em Nova York, formulou sua teoria da externalidade do comportamento alimentar. Segundo Schachter, os obesos simplesmente não discernem muito bem se estão com fome ou saciados. A sua ingestão de alimentos dependeria muito mais de estímulos externos: a hora do dia, os aromas exalados pela comida ou a apresentação dos pratos expostos. O obeso típico seria alguém que continua a comer por prazer, ainda que esteja saciado.

Schachter verificou sua teoria com estudos originais, aproveitando situações cotidianas. Observou, por exemplo, que os judeus obesos tinham menos dificuldade de respeitar o jejum no dia de Yom Kippur quando permaneciam mais tempo na sinagoga, isto é, longe dos estímulos culinários. Nos de peso normal, ao contrário, não constatou nenhuma relação significativa entre a duração da permanência na sinagoga e a dificuldade de respeitar o jejum. Em outro estudo, um psicólogo descobriu que os pilotos de avião obesos tinham, após um voo entre Europa e Estados Unidos, menos dificuldade para se adaptar aos horários locais de refeição que os seus colegas de peso normal. Neste caso, portanto, a regulação externa do comportamento alimentar era uma vantagem.

Após o entusiasmo inicial, surgiram as críticas: as correlações descritas eram frequentemente fracas e nem sempre os resultados das pesquisas podiam ser reproduzidos. Além disso, a teoria não explicava as diferenças na regulação do comportamento alimentar. Peter Herman, da Universidade de Toronto, Canadá, tentou enfrentar essas críticas propondo a hipótese da “contenção”. Argumentou que quando obesos jejuam para reduzir o peso, reprimem a ingestão de comida; ora, este seria o fator que os tomaria especialmente suscetíveis aos estímulos ligados à alimentação.

Herman elaborou um questionário para medir a contenção alimentar, cujos valores apresentaram uma correlação com o IMC. Em uma amostra formada por estudantes, 85% dos obesos entraram na categoria dos comedores reprimidos; apenas 15% eram comedores normais. Posteriormente, Herman, em colaboração com Janet Polivy, ampliou sua teoria em um “modelo limite do comportamento humano”. Segundo esta hipótese, os comedores reprimidos fixam uma “dieta-limite” para controlar a ingestão de alimentos, na tentativa de modificar, com regras auto impostas, a quantidade de alimentos e bebidas que ingerem.

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PERDA DE CONTROLE

A orientação consciente do comportamento alimentar exige concentração e atenção e é, por isto, mais dispendiosa que a regulação automática. Um comedor reprimido consegue manter a dieta quando está concentrado e motivado, mas dois fatores podem alterar o controle consciente do comportamento alimentar. O primeiro é representado por qualquer distração que impeça a pessoa reprimida de controlar voluntariamente a ingestão de comida: um aborrecimento, por exemplo, pode bastar para que deixe de atentar para o que e quanto come. O segundo ocorre quando o comedor reprimido percebe que ultrapassou o limite de sua dieta e então renuncia totalmente ao controle sobre seu comportamento alimentar comendo, até alcançar o nível mais alto de sua zona de indiferença.

Esta suposição foi restada pela primeira vez em um experimento que Peter Herman publicou em 1985, junto com Deborah Mack, e cujos resultados foram confirmados por várias pesquisas realizadas posteriormente. Ofereceu-se a alguns dos participantes, todos comedidos, uma bebida bastante calórica, cujo consumo implicava clara transgressão de seus limites dietéticos. No experimento seguinte, as pessoas deviam avaliar o sabor de diversos tipos de sorvete. Os pesquisadores não estavam interessados nas avaliações, mas na quantidade de sorvete ingerido. Os comedores normais, após terem ingerido a bebida rica em calorias, comiam menos sorvete que quando não haviam bebido. A reação dos reprimidos foi diferente. Após a ingestão da bebida calórica, comeram mais gelado que com o estômago vazio. Porquê? Porque sua dieta, após a ingestão da bebida, estava arruinada e, assim, continuaram a comer até atingir o limite máximo da saciedade.

Um dos pontos fracos do modelo proposto é sua limitada capacidade explicativa. Embora comprove algumas consequências da ingestão reprimida de comida, não justifica porque a pessoa adota este padrão de conduta. Em segundo lugar, há uma discrepância entre o conceito de auto repressão alimentar que baseia a teoria e o que se emprega efetivamente ao se medir a ingestão reprimida de comida. Ainda que, segundo a teoria, a pessoa que reprime a alimentação esteja tentando seguir neste momento uma dieta, o questionário para a avaliação da contenção alimentar mede uma atitude mais duradoura. Os comedores reprimidos crônicos seriam pessoas que têm em geral a intenção de emagrecer (ou pelo menos não engordar), mas que não estão naquele momento necessariamente tentando emagrecer e que, assim, nem sempre se impõem regras dietéticas estritas.

Um terceiro ponto débil da teoria é que ela não leva suficientemente em conta a motivação do prazer. Se fosse perguntado por que transgrediram sua dieta, os comedores reprimidos talvez não respondessem que não souberam respeitar as regras que eles mesmos se impuseram. É mais provável que respondessem que comeram em demasia por prazer.

Para eliminar estes pontos fracos, propus, junto com meus colaboradores, um “modelo de objetivos conflitantes do comportamento alimentar”. Segundo nossa teoria, um problema fundamental dos obesos é que gostam de comer bem. Em um estudo clínico, pacientes obesos e de peso normal foram alimentados com uma dieta consistente em um caldo insípido. O consumo calórico dos pacientes obesos diminuiu em tomo de um quarto da quantidade necessária para manter seu peso. Nos de peso normal, pelo contrário, não foram observadas diferenças no consumo.

Até que pontoo gosto pela boa mesa constitui um problema pode depender em muito das preferências de cada um. Pessoas que gostam de peixe e de salada dificilmente terão problemas de peso. Diferente é a situação dos que gostam de hambúrguer, embutidos e outros alimentos ricos em gordura. A maioria dos obesos pertence a este último grupo e, por isso, ingerem mais gordura.

Evidentemente, estes hábitos alimentares aumentam o risco de engordar. A insatisfação com o peso costuma motivar o início de uma dieta, que resultará satisfatória, pelo menos a curto prazo. Mas como estes indivíduos tendem a recuperar o peso em breve, iniciam uma nova dieta. Depois de alguns ciclos, tomam-se comedores reprimidos. Seu comportamento alimentar caracteriza-se assim por um conflito entre objetivos opostos, querem desfrutar comida, mas, ao mesmo tempo, controlar o peso.

Diante de uma situação de conflito entre objetivos, o comportamento dependerá sempre da motivação predominante no momento. Assim, para que um comedor reprimido mantenha uma dieta baixa em calorias, a motivação para controlar o comportamento alimentar deve ser mais intensa que a motivação do prazer. Isto só ocorre quando estão realmente motivados e empenhados em seguir a dieta.

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VENCER O MENU

Infelizmente, o desenvolvimento de uma refeição é estruturado de tal forma que, no início, dominam os estímulos que despertam as motivações prazerosas. Temos apetite e a comida exala aromas sedutores. No restaurante, a leitura do menu estimula o apetite e, em um piscar de olhos, o prato está sobre a mesa. Somente quando o prato está vazio ou quando sentimos o cinto apertar é que surge a motivação do controle. Recordamos então, com sentimento de culpa, as boas intenções de seguir rigidamente a dieta nesta noite. Mas, já que a dieta foi deixada de lado, podemos concluir a refeição com uma boa sobremesa!

Neste jogo de alternâncias se misturam fatores cognitivos. É preciso mais atenção para conseguir controlar o peso que para desfrutar a comida. Qualquer distração durante a refeição reduzirá nossa capacidade de controlar as calorias que ingerimos. O hedonismo ganha a partida.

Outro problema aflige ainda os comedores reprimidos. A menos que estejam passando fome neste momento preciso, a motivação que os induz a controlar as calorias provoca o efeito contrário. O leitor, certamente, conhece o fenômeno, quando queremos afastar da mente uma ideia incômoda, esta retorna com mais intensidade. Algo parecido ocorre quando revelamos, na primeira ocasião que surge, algo que queríamos manter em segredo. Assim, supomos que, na ausência de controle cognitivo, a motivação crônica para emagrecer pode ter a consequência paradoxal de favorecer uma maior ingestão de alimentos. Em outras palavras, os comedores reprimidos comem mais justamente porque querem comer menos!

Esta suposição paradoxal baseia-se na “teoria dos processos paradoxais”, publicada em 1994 por Daniel Wegner, hoje da Universidade Harvard. Alguns processos invalidam nossas intenções e provocam até mesmo a situação que pretendíamos evitar. Wegner comprovou, em numerosos estudos, a influência destes processos paradoxais sobre o pensamento e o comportamento. Observou que as pessoas eram capazes de reprimir determinados pensamentos ou tendências comportamentais quando se concentravam nesta tarefa; se distraídas, atuavam de forma contrária. Segundo Wegner, o êxito de nossos esforços para nos controlarmos depende, sobretudo, da quantidade de recursos cognitivos investidos. Em suas pesquisas, obrigou os indivíduos a investirem seus recursos cognitivos em outras tarefas. A origem da diminuição da capacidade cognitiva pode ser consequência de uma redução da motivação para o controle. Seria este o caso dos comedores reprimidos que não estão em fase de dieta.

A comprovação da presença de processos paradoxais em tais circunstâncias foi fornecida por um estudo em que os participantes deviam opinar sobre o sabor de diversos tipos de sorvete. Em seguida foram solicitados a anotar por escrito os pensamentos que tiveram durante o teste. O que interessava para a pesquisa não eram os juízos qualitativos emitidos, mas os pensamentos referentes ao controle das calorias, como por exemplo: “Cuidado com o sorvete, isto engorda”. O resultado confirmou as expectativas: este tipo de pensamento era mais frequente entre os comedores reprimidos, especialmente se neste momento tentavam seguir uma dieta de emagrecimento.

Além disso, os reprimidos comeram tanto menos quanto mais intensos eram os seus pensamentos de controle, ao passo que os não reprimidos que não estavam de dieta consumiram até mesmo mais sorvete. Assim, a vontade crônica de emagrecer, sem uma motivação aguda para controlar o consumo de alimentos, leva a uma ingestão excessiva. Uma variante desta pesquisa (ver quadro abaixo) forneceu resultados similares.

Mas então o que devem fazer os obesos? O melhor conselho não seria comer menos, mas comer de forma diferente. Em vez de reduzir as calorias, deveriam reduzir a gordura de sua alimentação. Ainda que, inicialmente, sua alimentação pareça menos saborosa, a experiência ensina que logo passarão a apreciá-la. Com isto se elimina a necessidade de controle contínuo das calorias.

Além disso, o excesso de peso deve ser enfrentado não só agindo sobre a ingestão de calorias, mas intervindo também sobre o consumo de energia. Isto não quer dizer que é preciso começar a comer agora mesmo. Usar menos o carro e caminhar mais asseguram a redução do peso. Porém, não se deve esperar milagres: a combinação de uma alimentação pobre em gorduras com o exercício físico ajuda a combater a obesidade, mas não a elimina a vantagem desta combinação é que reduz os riscos para a saúde associados à obesidade.

O meio familiar também pode se beneficiar de uma mudança de atitude que favoreça uma alimentação mais saudável. O fato de que pais obesos costumam ter filhos obesos não é só uma questão hereditária, mas também dos hábitos alimentares transmitidos. A obesidade infantil pode ser combatida ou prevenida mediante uma alimentação saudável no âmbito familiar. Na minha opinião, este ponto é crucial para o desenvolvimento posterior do indivíduo.  

  

 

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OUTROS OLHARES

A REAÇÃO DAS MINORIAS

Temendo retrocessos em relação a seus direitos no próximo governo, pessoas trans antecipam registro do nome social e casais homossexuais correm para oficializar a união estável.

A reação das minorias

Eles formam um casal há 22 anos. O arquiteto Nivaldo Godoy, 40, e o cenógrafo Panais Bouki, 42, vivem em São Paulo e assumiram seu relacionamento afetivo ainda jovens, passando a morar juntos sem preocupação em formalizar a união. Até agora, isso parecia uma questão secundária. Godoy se sentia num ambiente progressista e a convivência pacífica e produtiva bastava para os dois. Mas diante da eleição de Jair Bolsonaro e da onda conservadora que atinge o País eles decidiram, como medida preventiva, mudar seus planos e registrar sua união estável no cartório ainda este ano. “Essa guinada da política nos deixou sobressaltados”, afirma Godoy. “Não sabemos mais o que pode acontecer num futuro próximo. Há uma força conservadora difusa que pode resultar numa política de cerceamento e retirada de direitos básicos”. Como não existe lei que garanta a união estável – é a jurisprudência que permite casamentos entre pessoas do mesmo sexo, o que Godoy e Bouki mais temem é uma mudança abrupta nas regras e a perda de direitos até agora assegurados.

A população LGBTI está em polvorosa com a chegada de Bolsonaro ao poder. E essa inquietude tem fundamento. Em nota divulgada imprensa no dia da vitória do novo presidente, a ONG Anistia Internacional chamava atenção para o risco que essa população corre, assim como os povos indígenas, os quilombolas, as comunidades rurais tradicionais, os jovens negros e as mulheres. “As instituições públicas brasileiras devem tomar medidas firmes e decisivas para proteger os direitos humanos”, disse a diretora para as Américas da Anistia Internacional Erika Cuevara Rosas. No caso dos LGBTI, o problema não é só a questão do casamento, mas também do registro do chamado nome social – aquele pelo qual pessoas transexuais, travestis ou qualquer outro gênero querem ser chamados rotineiramente – e do aumento da violência LGBTI registrou 33 incidentes de violência contra homossexuais entre o primeiro e o segundo turno das eleições.

“Casar agora é um ato político, mas tem que ser por amor”, afirma o professor Toni Reis, diretor executivo do Grupo Dignidade, uma organização LGBTI com sede em Curitiba. “Desde que Bolsonaro disse que preferia um filho morto a um filho gay passamos a ficar muito preocupados”. Reis tem uma união estável com o britânico David Harrad, formalizada em 2011, assim que o STF permitiu casamento entre pessoas do mesmo sexo, o casal, que tem três filhos, decidiu agora se casar no civil e no religioso, provavelmente na Igreja Anglicana, como uma forma de protesto contra qualquer tipo de obscurantismo. Reis teme que no futuro, com uma nova composição mais conservadora do STF, possa acontecer algum retrocesso. “Quero os mesmos direitos de uma família convencional”, diz. “Temos três filhos e precisamos pensar em questões práticas, como a herança, por exemplo”.

Os cartórios estão sobrecarregados de pedidos e há uma corrida da população LGBTI para regularizar sua situação. Isso pode ser verificado, por exemplo, no processo de inscrições para a segunda edição do casamento coletivo igualitário, promovido pela Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo e que acontecerá na segunda quinzena de dezembro. A inscrições para casais LGBTI que queiram participar da cerimônia foram abertas dia 5 e, possivelmente, serão fechadas antes do prazo previsto, dia 19, por causa da alta demanda. A proposta da cerimônia, promovida pela primeira vez no ano passado e que acontecerá na segunda quinzena de dezembro é dar visibilidade a um direito já conquistado pela comunidade LGBTI, além de promover para essa população, colocada à margem da sociedade, o exercício da cidadania plena. Há 32 vagas e uma média de 40 pedidos de informação por dia e pelo menos oito inscrições.

“Existe um grupo que está com muito medo de um decreto presidencial revogar todos os direitos conquistados”, afirma Marcelo Gallego, assessor jurídico da coordenação de políticas para LGBTI da Secretaria de Direitos Humanos. “Essa histeria se justifica pela onda conservadora e pelo discurso de ódio, mas, juridicamente, não há como mudar a situação só com uma canetada”. Se quiser mudar as regas, Bolsonaro não poderá fazer isso por decreto e precisará aprovar um projeto de lei no Legislativo. Em novembro do ano passado, o Tribunal de Justiça do Rio condenou o então deputado a pagar RS150 mil por declarações contra homossexuais na TV, feitas durante sua participação no programa CQC, em 2011. Bolsonaro disse, na ocasião, que não corria o risco de ter um filho gay porque os seus filhos tiveram boa educação e um pai presente. Mais recentemente, ele assegurou que os “homossexuais serão felizes” no futuro governo.

MUDANÇA DE NOME

Seja como for outra minoria que está agilizando providencias legais, é a dos transexuais. “Nós temos receio que várias conquistas sejam atacadas e suprimidas da realidade e muitos transexuais estão tratando de mudar o nome antes de dezembro”, afirma a travesti Simmy Larrat presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e lntersexos (ABGLT). Em junho, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou as regras para as pessoas trans mudarem nome e gênero em suas certidões de nascimento ou casamento diretamente nos cartórios. Pela nova regra os maiores de 18 anos podem alterar seus dados pessoais a fim de adequá-los à identidade autopercebida”. Mas há sinais de retrocesso. Há um projeto de decreto legislativo de autoria do deputado Victório Calli (PSL) em que susta a portaria 33 do Ministério da Educação e tira o direito de estudantes transexuais e travestis com mais de 18 anos usarem o nome social na escola. Alunos menores de 18 anos também tem esse direito desde que o pedido seja feito pelos representantes legais. O decreto 8727, de 2016, diz que o nome social é a designação pela qual a pessoa travesti ou transexual se identifica e é, socialmente reconhecida. E a população trans quer exercer o seu direito, antes que seja tarde.

 

OS DIREITOS LGBTI

UNIÃO ESTÁVEL
Desde 2011, por conta de uma decisão do STF, as uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo passaram a ser permitidas.

Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça publicou uma resolução que proíbe os cartórios de se negarem a registrar casamentos de pessoas do mesmo sexo.

A reversão do direito de casamentos LGBTI não pode ser feita por decreto – seria necessário um projeto de lei aprovado pelo Congresso.

NOME SOCIAL
Um decreto presidencial de 2016 autorizou o uso do nome social de travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal

Em janeiro de 2018 foi aprovada uma resolução do Ministério da Educação que autorizou o uso do nome social nos registros escolares da educação básica.

Em fevereiro de 2018, um outro decreto permitiu que as carteiras de identidade possam incluir o nome social das pessoas transgênero

GESTÃO E CARREIRA

CUIDANDO DO TIME

Desenvolver a equipe é o principal desafio dos líderes no Brasil

Cuidando do time.2

Em tempos de escassez de profissionais qualificados, investir tempo e recursos no desenvolvimento da equipe é uma estratégia eficiente para companhias que desejam elevar a qualidade de seus produtos e serviços, ganhar em produtividade e, consequentemente, se manterem competitivas no mercado. Porém, a missão de desenvolver o time é apontada como o principal desafio do próximo ano (2018) para 33% dos 148 líderes brasileiros entrevistados pela Integração Escola de Negócios, em julho de 2016. 

“Todo líder tem ciência de que o foco nas pessoas deve ser prioridade entre suas atribuições, mas a pressão diária por resultados, aliada à falta de planejamento das ações, faz com que ele passe o dia em busca de resultados”, explica Fernando Cardoso, sócio-diretor da Integração Escola de Negócios. De acordo com a pesquisa Perfil da liderança no Brasil, o tempo das lideranças é prioritariamente ocupado pela rotina (33%), seguida por urgências (26%). Ações relacionadas a pessoas e a planejamento são citadas em terceiro e quarto lugar, respectivamente.

Com relação à administração do próprio tempo, a pesquisa evidencia que 37% dos líderes entrevistados estão atentos a esse ponto de melhoria. Entre outras oportunidades de aprimoramento na função citadas, também estão o empenho para sair do operacional, formar sucessores e desenvolver a equipe.

DESAFIOS E OPORTUNIDADES
Confira alguns dos resultados da pesquisa Perfil da liderança no Brasil:

DESAFIOS NO CARGO

Desenvolver a equipe                 33%
Gestão de mudança na área      21%
Implementar melhorias             19%

COMO DISTRIBUI O TEMPO NA LIDERANÇA (ATIVIDADES)

Rotina         33%
Urgências   26%
Pessoas       22%
Futuro         19%

OPORTUNIDADE DE MELHORIA PESSOAL

Administrar melhor o tempo      37%
Sair do operacional                       32%
Formar sucessores                        22%
Desenvolver a equipe                   22%

 OPORTUNIDADE DE MELHORIA DAS LIDERANÇAS DA EMPRESA

Comunicar a estratégia                         31%
Formar sucessores                                28%
Alinhar os objetivos estratégicos       25%
Dar e receber feedback                         24%

COMPETÊNCIAS QUE CONSIDERAM IMPORTANTES PARA ATINGIR OS RESULTADOS ORGANIZACIONAIS

Comunicação                     51%
Gestão de pessoas             41%
Foco em resultados          39%
Trabalho em equipe         34%

COMO DESCREVE O RELACIONAMENTO ENTRE OS LÍDERES DA EMPRESA

Colaborativo        32%
Amistoso              28%
Operacional         22%
Complexo             20%

COMO CLASSIFICA O RELACIONAMENTO COM O RH

Apoio            45%
Distante       29%

Cuidando do time

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 18: 28-40 – PARTE II

Alimento diário - Comendo a Bíblia

Cristo na audiência. Cristo é acusado diante de Pilatos

 

II – Aqui estão as palavras de Pilatos com o prisioneiro, v. 33ss., em que temos:

1. O prisioneiro trazido ao tribunal. Depois de ter conversado com os principais dos sacerdotes à sua porta, Pilatos entrou na audiência e mandou trazerem a Jesus. Ele não o interrogaria diante da multidão, onde poderia ser perturbado pelo ruído, mas ordenou que Ele fosse trazido à audiência, pois Ele não tinha nenhum problema em estar entre os gentios. Pelo pecado, nós nos tornamos sujeitos ao juízo de Deus, e devemos ser trazidos ao seu tribunal. Portanto, Cristo, tendo sido feito pecado e uma maldição por nós, foi trazido como um criminoso. Pilatos entrou na audiência com Ele, para que Deus não entre em um julga mento conosco.

2. Seu interrogatório. Os outros evangelistas nos dizem que os acusadores de Cristo tinham dito que Ele vinha “pervertendo a nação, proibindo dar o tributo a César”, e com relação a isto Ele é interrogado.

(1) Aqui lhe é proposta uma pergunta, com o desejo de apanhá-lo em uma armadilha e descobrir alguma coisa em que basear uma acusação: “‘Tu és o rei dos judeus?’ – aquele rei dos judeus de quem tanto se falou, e que é tão esperado, O Messias, o príncipe, és tu? Pretendes ser Ele? Tu te denominas assim, e pensas que o és?” Pilatos estava longe de imaginar que Ele realmente o seria, ou não faria esta pergunta. Alguns creem que Pilatos perguntou isto com um ar de desprezo e zombaria: “O que! Você é um rei, com uma aparência tão humilde? Você é o rei dos judeus, aqueles pelos quais é odiado e perseguido desta maneira? Você é o rei de direito, ao passo que o imperador é apenas rei de fato?” Como não se podia provar que Ele tivesse dito isto, ele desejava obrigá-lo a dizer isto agora, para poder prosseguir de acordo com sua própria confissão.

(2) Cristo responde a esta pergunta com outra, não para fugir dela, mas sugerindo que Pilatos considerasse o que estava fazendo, e sobre que terreno estava pisando (v. 34): “‘Tu dizes isso de ti mesmo’, com base em uma suspeita nascida no teu próprio peito, ‘ou disseram-te outros de mim?’, e perguntas somente para satisfazer a eles?”

[1] “Está claro que você não tem motivo para dizer isto de você mesmo”. Pilatos era obrigado, pelo seu cargo, a cuidar dos interesses do governo romano, mas não podia dizer que ele estivesse correndo qualquer risco, nem sofrendo nenhum dano, por qualquer coisa que nosso Senhor Jesus tivesse dito ou feito. Ele nunca apareceu em pompa terrena, nunca se atribuiu nenhuma autoridade secular, nunca agiu como um juiz ou repartidor. Nunca nenhum princípio ou procedimento traidor foi reprovado nele, nem nada que pudesse causar a menor sombra de suspeita.

[2] “Se os outros dizem isto de mim, para incitá-lo contra mim, você deve considerar quem são eles, e em que princípios eles se baseiam, e se aqueles que me apresentam como inimigo de César não o são, eles mesmos, na realidade, e usam isto somente como um pretexto para encobrir sua maldade, pois, se for assim, a questão deve ser bem ponderada por um juiz que faça justiça”. Ou melhor, se Pilatos tivesse sido tão inquisitivo quanto deveria ter sido nesta questão, teria descoberto que a verdadeira razão pela qual os principais dos sacerdotes estavam irados contra Jesus era porque Ele não tinha estabelecido um reino temporal em oposição aos poderes romanos. Se Ele tivesse feito isto, e tivesse realizado milagres para libertar os judeus da escravidão aos romanos, como fez Moisés, para tirá-los do Egito, eles estariam tão longe de aliar-se aos romanos contra Ele, que o teriam feito seu rei, e teriam lutado, sob seu governo, contra os romanos. Mas, como Ele não correspondeu a esta expectativa dos judeus, eles o acusam daquilo de que eles mesmos eram mais notoriamente culpados, o desafeto ao atual governo, e os desejos contrários a ele. E era adequado que uma informação como esta fosse aceita?

(3) Pilatos se ressente da resposta de Cristo e a recebe mal, v. 35. Esta é uma resposta direta à pergunta de Cristo, v. 34.

[1] Cristo lhe tinha perguntado se ele falava de si mesmo. “Não”, responde ele, “porventura sou eu judeu, para que suspeites que eu participo do complô contra ti? Eu nada sei sobre o Messias, nem desejo saber. Portanto, não me interesso pela disputa sobre quem é o Messias e quem não é. Para mim, isto é indiferente”. Observe com que desdém Pilatos pergunta: “Sou eu judeu?” Os judeus eram, sob muitos aspectos, um povo honorável, mas, tendo corrompido o concerto do seu Deus, Ele os fez desprezíveis e indignos diante de todo o povo (Malaquias 2.8,9), de modo que um homem de bom senso e honra julgaria um escândalo ser considerado um judeu. Assim, os bons nomes frequentemente sofrem por causa dos maus homens que os usam. É triste quando alguém suspeito de desonestidade pergunta: “O que! Você me considera um cristão?”

[2] Cristo lhe tinha perguntado se os outros lhe tinham dito. “Sim”, responde ele, “e aquele seu próprio povo, que pensaríamos que estivesse predisposto a seu favor, e os sacerdotes, cujo testemunho – a palavra de um sacerdote, deveria ser levado em consideração. E por isto eu não tenho nada a fazer, exceto prosseguir com base na informação que deles recebi”. Assim, Cristo, na sua religião, ainda sofre por causa de outros que não pertencem à sua própria nação, até mesmo sacerdotes, que professam um relacionamento com Ele, mas que não vivem de acordo com os padrões da sua profissão de fé

[3] Cristo tinha se recusado a responder à pergunta: “Tu és o rei dos judeus?” E por isto Pilatos lhe faz outra pergunta, mais genérica: “‘Que fizeste?’ Que provocação fizeste à tua própria nação, e particularmente aos sacerdotes, para que sejam tão violentos contra ti? Certamente, eles não podem ter toda esta fumaça sem que haja fogo. O que aconteceu?”

(4) Na sua próxima réplica, Cristo dá uma resposta mais direta e completa à pergunta anterior de Pilatos: “Tu és rei?”, explicando em que sentido Ele era rei. O Senhor Jesus não era um rei perigoso para o governo romano, não era um rei secular, pois seus interesses não eram sustentados por métodos seculares, v. 36. Observe:

[1] Uma explicação da natureza e da constituição de reino de Cristo: ele não é deste mundo. Isto é expresse de forma negativa para corrigir os atuais enganos ares­ peito do reino. Mas a afirmativa está implícita, é o reine do céu, e pertence a outro mundo. Cristo é um rei, e tem um reino, mas não deste mundo.

Em primeiro lugar, Ele não surge deste mundo. Os reinos dos homens surgem do mar e da terra (Daniel 7.3; Apocalipse 13.1,11), mas a cidade santa vem de Deus, do céu, Apocalipse 22.2. Seu reino não se dá por sucessão, eleição ou conquista, mas pela designação imediata e especial do conselho e da vontade divina.

Em segundo lugar, sua natureza não é terrena. É um reino que está dentro dos homens (Lucas 16.21), estabelecido nos seus corações e consciências (Romanos 14.17), sua ri queza é espiritual, sua autoridade é espiritual, como também toda a sua glória interior. Os ministros de estado no reino de Cristo não têm o espírito do mundo, 1 Coríntios 2.12.

Em terceiro lugar, seus guardas e sustentadores não são terrenos. Suas armas são espirituais. Não é necessária, nem usada, força secular para mantê-lo e promovê-lo, nem ele se estabelece de uma maneira prejudicial a reis ou províncias. Ele não interfere, em nada, nas prerrogativas dos príncipes, nem nas propriedades dos seus súditos. Ele não pretende alterar nenhuma instituição nacional sobre as coisas seculares, nem se opõe a nenhum reino, exceto o do pecado e Satanás.

Em quarto lugar, sua tendência e seu objetivo não são terrenos. Cristo não desejava, nem permitiria, que seus discípulos desejassem a pompa e o poder dos grandes homens na terra.

Em quinto lugar, seus súditos, embora estejam no mundo, não são do mundo. Eles são chamados e separados do mundo, são nascidos de outro mundo, e se destinam a ele. Eles não são os pupilos nem os prediletos do mundo, nem são governados pela sabedoria do mundo, nem enriquecem com a riqueza do mundo.

[2] Uma evidência da natureza espiritual do reino de Cristo é aqui apresentada. Se Ele tivesse desejado uma oposição ao governo, Ele teria lutado contra eles, com suas próprias armas, e teria combatido força com força, da mesma natureza. Mas Ele não tomou este caminho: “Se o meu Reino fosse deste mundo, lutariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus”, e para que meu rei­ no não fosse destruído por eles. Mas,

Em primeiro lugar, seus seguidores não se ofereceram para lutar. Não houve tumulto, nem tentativa de resgatá-lo, embora a cidade agora estivesse cheia de galileus, seus amigos e compatriotas, e estes geralmente andavam armados. Mas o comportamento pacífico dos seus discípulos, nesta ocasião, era suficiente para “tapar a boca à ignorância dos homens loucos”.

Em segundo lugar, Ele não ordenou que eles lutassem. Na verdade, Ele os proibiu, o que era uma evidência não só de que Ele não dependia da ajuda do mundo (pois Ele poderia ter reunido legiões de anjos ao seu serviço, o que mostraria que seu reino era do alto), como também de que não temia a oposição do mundo, pois estava muito desejoso de ser entregue aos judeus, como se soubesse que aquilo que teria sido a destruição de qualquer reino terreno seria o progresso e o estabelecimento do seu. Com isto, Ele conclui: “Agora, o meu Reino não é daqui”. Ele está no mundo, mas não é do mundo.

(5) Em resposta à pergunta seguinte de Pilatos, Ele responde de maneira ainda mais direta, v. 37, onde temos:

[1] A pergunta clara de Pilatos: “Logo tu és rei?” Tu falas de um reino que tens. Neste sentido, então, tu és um rei? E que fundamento tens para fazer tal reivindicação? Explica-te”.

[2] A boa confissão que nosso Senhor Jesus fez diante de Pôncio Pilatos, em resposta a esta pergunta (1 Timóteo 6.13): “Tu dizes que eu sou rei”, isto é: É como tu dizes, Eu sou rei, pois “vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade”.

Em primeiro lugar, Ele admite ser um rei, embora não no sentido ao qual Pilatos se refere. O Messias era esperado sob a natureza de um rei, o Messias, o príncipe, e, portanto, tendo admitido diante de Caifás que Ele era o Cristo, não podia recusar-se a admitir diante de Pilatos que era rei, para não parecer incoerente. Observe que, embora Cristo assumisse a forma de um servo, ainda assim Ele reivindicava, com razão, a honra e autoridade de um rei. Em segundo lugar, Ele se explica, e mostra como é rei, pois veio “a fim de dar testemunho da verdade”. Ele governa a mente dos homens pelo poder da verdade. Se Ele tivesse desejado declarar-se um príncipe temporal, Ele teria dito: “Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo”, a fim de governar nações, vencer reis e tomar posse de reinos. Não, Ele veio para ser uma testemunha, uma testemunha a favor do Deus que criou o mundo, e contra o pecado, que destrói o mundo. E por esta palavra do seu testemunho, Ele estabelece e promove seu reino. Estava predito que Ele seria uma testemunha aos povos, e, como tal, um príncipe e governador dos povos, Isaías 55.4. O reino de Cristo não era deste mundo, no qual “a verdade desfalece” (Isaias 59.15 – Aquele que não pode dissimular, não sabe como reinar), mas daquele mundo no qual a verdade reina eternamente. A missão de Cristo no mundo, e seu trabalho no mundo, deviam “dar testemunho da verdade”.

1. Para revelá-la, para expor ao mundo aquilo que, de outra maneira, não poderia ter sido conhecido a respeito de Deus e da sua vontade e boa vontade para os homens, cap. 1.18; 17.26. 2.

2. Para confirmá-la, Romanos 15.8. Pelos seus milagres, Ele deu testemunho da verdade do Evangelho, a verdade da revelação divina, e das perfeições e da providência de Deus, e a verdade da sua promessa e do seu concerto, “para que todos cressem por ele”. Fazendo isto, Ele é um rei, e estabelece um reino.

 (1) A fundação e o poder, o espírito e a genialidade do reino de Cristo são a verdade, a divina verdade. Quando Ele disse: Eu sou a verdade, Ele disse, na verdade: Eu sou rei. Ele conquista pela evidência convincente da verdade. Ele governa pelo poder dominante da verdade: “Neste teu esplendor cavalga prosperamente pela causa da verdade”, Salmos 45.4. É com sua verdade que Ele julgará o povo, Salmos 96.13. Ela é o cetro do seu reino. Ele “atrai com cordas humanas”, com a verdade revelada a nós, e recebida por nós, no amor a Ele. E, desta maneira, Ele traz “cativo todo entendimento à obediência”. Ele veio como uma luz ao mundo, e governa como o sol durante o dia.

(2) Os súditos deste reino são aqueles que são da verdade. Todos aqueles que, pela graça de Deus, são libertados do poder do pai da mentira, e estão dispostos a receber a verdade e submeter-se ao seu poder e influência, ouvirão a voz de Cristo, se tornarão seus súditos e mostrarão fé e verdadeira lealdade por Ele. Todo aquele que tem um senso verdadeiro da religião verdadeira irá receber a religião cristã, e pertencerá ao reino de Cristo. Ele os torna dispostos pelo poder da verdade, Salmos 90.3. Todo aquele que ama a verdade irá ouvir a voz de Cristo, pois, em nenhum lugar, podem ser encontradas verdades maiores, melhores, mais seguras, mais doces, do que as que são encontradas em Cristo, por cujo intermédio vieram a graça e a verdade. De modo que, ao ouvir a voz de Cristo, devemos saber que somos da verdade, 1 João 3.19.

(6) Em seguida, Pilatos lhe propõe uma pergunta, mas não espera uma resposta, v. 38. “Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade?” E imediatamente saiu novamente.

[1] É certo que esta era uma boa pergunta, e não havia ninguém melhor para respondê-la. A verdade é aquela pérola de alto preço que o entendimento humano deseja e procura, pois ele não pode descansar, exceto naquilo que é, ou pelo menos se entende ser, verdade. Quando estudamos as Escrituras, e ministramos ao mundo, devemos ter esta pergunta em mente: “Que é a verdade?” E também esta oração: “Guia-me na tua verdade, em toda a verdade”. Mas muitos fazem esta pergunta sem ter a paciência e a constância suficientes para perseverar na sua busca pela verdade, nem a humildade e a sinceridade suficientes para recebê-la quando a encontram, 2 Timóteo 3.7. Assim muitos lidam com suas próprias consciências. Eles lhes fazem estas perguntas necessárias: “Quem sou eu?” “O que eu fiz?”, mas não reservam tempo para uma resposta.

[2] Não se sabe ao certo qual era o desígnio de Pilatos ao fazer esta pergunta.

Em primeiro lugar, talvez ele falasse como um aprendiz, como alguém que começava a pensar bem de Cristo, e a considerá-lo com algum respeito, e desejava ser informado das novas noções que Ele propunha e das melhorias que Ele tinha em mente para a religião e o aprendizado. Mas, embora ele desejasse ou­ vir alguma verdade nova de Cristo, como Herodes desejava ver algum milagre, o clamor e a fúria do grupo dos sacerdotes, à sua porta, o obrigaram a abandonar o discurso abruptamente.

Em segundo lugar, alguns pensam que ele falava como um juiz, investigando ainda mais a causa agora trazida diante de si: “Explique-me este mistério, e diga-me qual é sua verdade, a verdadeira situação deste assunto”.

Em terceiro lugar, outros pensam que ele falava de modo zombeteiro: “Você fala de verdade. Você não pode me dizer o que é a verdade, ou dar-me uma definição de verdade?” Desta maneira, ele faz uma brincadeira do Evangelho eterno, aquela grande verdade que os principais dos sacerdotes odiavam e perseguiam, e pela qual Cristo agora dava testemunho e sofria, e como os homens sem religião, que se divertem em zombar de todas as religiões, ele ridiculariza os dois lados, e por isto Cristo não lhe deu resposta. Não respondam a um tolo segundo sua tolice. Não atirem pérolas aos porcos. Mas, embora Cristo não dissesse a Pilatos o que era a verdade, Ele tinha dito aos seus discípulos, e por meio deles, nos diz, cap. 14.6.