PSICOLOGIA ANALÍTICA

ARMADILHAS DA AUTOEXIGÊNCIA

O esforço para ser impecável, mantendo tudo sob controle – e assim, ilusoriamente, dissipar o fantasma da insatisfação -, pode tanto contribuir para o sucesso quanto levar à angústia; porém, nem sempre nos damos conta de que a forma como vivemos as experiências pode ser mais significativa que as situações em si – principalmente em épocas de grande incerteza.

Armadilhas da autoexigência

O empresário americano David Liu trabalha com desenvolvimento de novas tecnologias em São Francisco. Ele ajudou a estruturar vários empreendimentos para vender produtos que criou. Mas, enquanto sonha com novas invenções, uma voz contínua em sua cabeça contesta suas ideias dizendo que são estupidamente óbvias. E, apesar de suas realizações, Liu oscila em uma tortura mental: “É vergonhoso, estou com 30 anos, deveria ter lançado algo como um Yahoo ou, pelo menos, ter uma empresa que pudesse vender por toneladas de dinheiro”. Embora trabalhe muito e obtenha vários sucessos, sente-se constantemente insatisfeito: exige excelência máxima de si mesmo, criando expectativas que podem levar ao medo do fracasso e à reflexão autocrítica. Mesmo quando está indo bem, ele tem problemas para se sentir em paz consigo mesmo.

Pesquisas mostram que as pessoas tendem a se desencorajar por não atender a padrões muito altos, tornando-se relutantes em assumir novos desafios ou até mesmo completar tarefas. Quando o alto grau de exigência aparece aliado à baixa tolerância à possibilidade de cometer erros, essas reações tendem a ser mais intensas. Na prática, o excesso de auto cobrança costuma produzir ineficiência, causar atrasos, dificuldade de cumprir prazos, sobrecarga de trabalho e até mesmo resultados medíocres, em comparação ao que se poderia produzir se a tranquilidade fosse mantida. A busca constante pela excelência pode ainda prejudicar relacionamentos e até fazer mal à saúde. O comportamento tem sido associado a anorexia, distúrbio obsessivo-compulsivo, ansiedade social, bloqueio de escritor, alcoolismo e depressão. Um estudo americano de 2007 avaliou mais de 1.500 estudantes universitários e revelou que quase um quarto deles apresentava alguma forma não saudável de perfeccionismo. Há, porém, características bastante positivas ligadas ao perfeccionismo – como inclinação para planejamento, organização e capacidade de manter o foco-, que fazem esse aspecto muitas vezes ser exaltado pelos pretendentes a uma vaga de emprego durante entrevistas de seleção.

Embora a constante sensação de insatisfação não caracterize, por si só, um quadro que possa ser diagnosticado, aparece como sintoma que merece receber atenção e um processo psicoterápico. Apostando que tendências perfeccionistas podem ser usadas de maneira saudável, nos últimos anos alguns pesquisadores têm se empenhado em desenvolver ferramentas para analisar e medir tanto benefícios quanto aspectos prejudiciais da constante preocupação de atingir (o que a pessoa supõe ser) a perfeição.

Mas não é de hoje que o perfeccionismo chama a atenção de psicólogos. No artigo “O script perfeito para a autoderrota”, de 1980, o psiquiatra David D. Burns escreveu que, quando alguém busca desesperadamente atingir um objetivo e acertar (em geral tomando como parâmetro um referencial alheio), a qualidade da vivência propriamente dita pode se perder. Segundo ele, o “tiro costuma sair pela culatra”; as pessoas medem o seu próprio valor inteiramente em termos de produtividade e realização, comparando-se com outras pessoas, sem se voltar para os próprios desejos, história e condições em dado momento. Vulneráveis à perda da autoestima e às dolorosas mudanças de humor após qualquer contratempo, os perfeccionistas correm o risco de se dedicar aos objetivos de forma inconsistente, adotar hábitos ineficientes que prejudicam seu real desempenho e trabalhar lentamente, sofrendo para definir cada detalhe e gastando muito mais tempo em um projeto do que ele merece – e, muitas vezes, sem nenhum benefício adicional. Eles podem adiar atividades porque os projetos que deveriam ser perfeitos parecem, muitas vezes, assustadores. Há em alguns casos uma lógica defensiva nessa atitude: ao investir pouco tempo e energia em algo (como estudar para uma prova ou preparar uma apresentação de projeto, por exemplo), a pessoa pode dar a si mesma a justificativa de que se tivesse se empenhado mais poderia atingir seu objetivo. Talvez isso até se comprovasse, mas o que se tem, concretamente, é a frustração. Um estudo de 2003 apontou para os perigos psicológicos de aspirações irracionais, que podem levar as pessoas ao fracasso. Uma equipe liderada pelo psicólogo Peter J. Bieling, da Universidade McMaster, em Ontário, avaliou características de personalidade de 198 estudantes. Em seguida, os pesquisadores perguntaram a nota que gostariam de alcançar em médio prazo. Aqueles que apresentavam traços perfeccionistas traçaram objetivos mais altos que os demais, embora os destes últimos não fossem necessariamente melhores. Os perfeccionistas, porém, eram muito mais propensos a ficar aquém de suas ambições e, em vez de ajustar suas expectativas à realidade quando não conseguiram alcançar as notas planejadas, insistiram em manter ou até mesmo aumentar a dificuldade para o próximo exame – o que fortalecia a sensação de insatisfação.

Diferentemente do que muitos imaginam, ninguém é perfeccionista em todas as situações ou áreas da vida. Algumas pessoas são muito exigentes a respeito da limpeza da casa, outras se concentram no trabalho ou na aparência física, por exemplo. Essas tendências podem ser especialmente evidentes quando as apostas são altas. Em um estudo de1990, o psicólogo Randy O. Geada, da Smith College, e sua então aluna Patricia Marten DiBartolo (atualmente também psicóloga da Smith College) pediram a 51 estudantes universitárias, algumas com altos escores em uma escala que mede perfeccionismo, que reescrevessem um parágrafo de um livro. Os pesquisadores acompanharam as variações do estado emocional das participantes antes e depois da tarefa.

INIMIGOS DO BOM

As voluntárias muito perfeccionistas realizaram a tarefa tranquilamente no momento em que a pressão estava baixa. Mas, quando foi dito a elas que o trabalho seria corrigido e comparado com o de outras pessoas, elas passaram a considerar a tarefa mais importante e se sentiram mais angustiadas que as demais participantes. Em geral, a escrita das perfeccionistas foi inferior, provavelmente porque, temendo críticas, elas evitaram a oportunidade de ter um feedback da edição e, consequentemente, procuraram se expor o mínimo possível.

Essa constatação dos autores corrobora a opinião de outros psicólogos: à medida que aumenta a diferença entre as expectativas e os resultados, os perfeccionistas perdem cada vez mais a autoconfiança, o que os leva a evitar novos desafios. Ironicamente, quanto maior ênfase colocam na excelência, mais se sentem perseguidos e podem minar oportunidades de sucesso. Os pesquisadores Paul L. Hewitt, da Universidade da Colúmbia Britânica, e L. Gordon Flett, da Universidade de York em Toronto, chamam o fenômeno de “paradoxo do perfeccionismo”. Como disse Voltaire: “O melhor é o inimigo do bom”.

A auto exigência extrema tem raízes na infância, podendo aparecer como resultado da forte cobrança dos pais em relação aos filhos ou à sobrecarga emocional suportada por eles. Embora não seja uma regra, é muito frequente que primogênitos encarregados pelas figuras parentais de responsabilidades, muitas vezes excessivas para sua idade, tendam a se sentir incapazes de dar conta do que lhes foi atribuído e a carregar essa marca para a vida adulta, o que acarreta grande sensação de insuficiência – ainda que os dados concretos contradigam essa impressão. Por outro lado, filhos de pais negligentes podem imaginar que se fizerem tudo certo terão maiores chances de serem notados – e amados. Há ainda casos de crianças que vivem em um lar caótico e podem tentar ser perfeitas como uma forma de estabelecer algum controle sobre um ambiente imprevisível e, não raro, assustador. Além disso, costumamos reproduzir modelos: pais perfeccionistas têm grandes possibilidades de criar filhos com a mesma característica.

“Inicialmente, as crianças podem descobrir que o perfeccionismo é útil e se tornam, por exemplo, excelentes alunos para serem recompensados e, de fato, quanto mais se dedicam, mais se tornam meticulosos e melhores no que fazem”, diz a psicóloga Roz Shafran, pesquisadora da Universidade de Londres. Mas, então, a situação muda: as crianças crescem, vão para a universidade, para o mercado de trabalho, e descobrem que há variáveis demais para controlar; percebem que às vezes vão se dar bem, mas não sempre. “É aí que surge o sentimento de que não são bons o suficiente e, para tentar ‘arrumar’ a situação, alguns podem ficar acordados a noite inteira, outros somatizam e muitos caem em depressão”, afirma Roz.

HÁBITOS SAUDÁVEIS

Apesar disso, alguns especialistas argumentam que o perfeccionismo tem suas vantagens. De fato, uma das medidas mais utilizadas na identificação do traço de personalidade desenvolvida no início dos anos 90 avalia características aceitas como positivas, como a tendência de definir padrões elevados e cumprir tarefas às quais se propõe, embora também considere traços que causam desconforto, como o medo de cometer erros e a inclinação de duvidar das próprias realizações e até invalidá-las.

Apesar de não endossada por Frost, a noção de que o perfeccionismo pode ser uma mistura de aspectos benéficos e prejudiciais vem, em parte, de um estudo seu de 1993. Ele e seus colegas avaliaram 553 voluntários usando sua escala e a de Hewitt e Flett e descobriram que certas características se agrupam. Atributos como “evitar cometer erros” e “sentir-se oprimido pelas expectativas de outras pessoas” mostraram forte correlação entre si e também com a depressão. Pesquisadores chamaram o fenômeno de “preocupações de avaliação desajustadas”. Outras tendências, como “estabelecer padrões elevados” e “esforço para atingir metas auto impostas”, demonstraram forte correlação entre si no sentido positivo – o que fez com que Frost as chamasse de agrupamento de “esforço positivo”. Cada indivíduo parece ter um equilíbrio particular entre as características “boas” e “más”.

Muitos psicólogos estão convencidos de que crenças e comportamentos de perfeccionistas podem favorecer seu bem-estar e aumentar suas chances de sucesso – é possível escrever um texto melhor que o anterior, ter uma casa mais atraente, construir um negócio mais bem-sucedido ou mesmo ser mais tolerante com aqueles com quem convivemos. “Bons artesãos, mecânicos, cirurgiões, artistas e líderes espirituais provavelmente seriam considerados perfeccionistas”, observa o psicólogo Joachim Stoeber, pesquisador da Universidade de Kent, na Inglaterra, autor de diversas publicações sobre o tema. “Procurar fazer algo benfeito pode ser muito bom; se você está feliz, não há razão para se preocupar; o problema aparece quando o anseio de se superar se torna uma obsessão, passa a ser motivo de sofrimento na maior parte do tempo e deixamos de ter alegria no que fazemos”, acredita. Aí possivelmente é hora de procurar ajuda psicológica para compreender os sentidos dessa busca idealizada pela perfeição.

Ou seja: a melhor maneira de lidar com o perfeccionismo é a capacidade de buscar a excelência sem ser excessivamente autocrítico. Aqueles que adotam essa estratégia – os perfeccionistas saudáveis – em geral se mantêm mais cuidadosos consigo mesmos, tolerantes com eventuais erros; procuram se concentrar em seus pontos fortes e encontram grande satisfação em suas realizações. De fato, uma pesquisa realizada ao longo dos últimos 15 anos associou o chamado perfeccionismo saudável com maior capacidade de realização pessoal – como alcançar boas notas e melhor desempenho no triatlo. O esforço positivo do perfeccionista pode conduzir à melhora na saúde e no humor, maior sociabilidade e satisfação com a vida de forma geral. Em um estudo, Bieling e seus colegas separaram universitários perfeccionistas que utilizavam essa característica dos que se atormentavam buscando fazer o melhor de forma persecutória e descobriram que os primeiros se sentiam mais bem preparados para provas e obtinham notas superiores do que qualquer perfeccionista não saudável ou um não perfeccionista. Em uma pequena pesquisa feita em 2002, atletas olímpicos avaliados pelo teste de Frost também se mostraram mais propensos a serem perfeccionistas positivos.

Mais recentemente, Stoeber e seus colegas demonstraram que, em situações reais, o perfeccionismo saudável pode ajudar as pessoas a errar menos e a se sentir mais satisfeitas. Primeiro, os pesquisadores avaliaram 121 universitários para determinar se eles eram perfeccionistas positivos, negativos ou não perfeccionistas. Na sequência os voluntários responderam a um teste que supostamente mediria inteligência emocional e social – qualidades que os cientistas enfatizaram como indispensáveis para o sucesso em qualquer área da vida. Então, aleatoriamente, foi escolhida metade dos participantes e dito a eles que tiveram um bom desempenho, e aos outros que tiveram pontuações baixas. Depois de receber a notícia falsa, os examinados preencheram um questionário para avaliação de seu estado emocional. Os perfeccionistas saudáveis mostraram mais orgulho quando informados da alta pontuação no teste e menos emoções negativas ao serem notificados de que tinham ido mal, em comparação aos perfeccionistas não saudáveis e aos não perfeccionistas.

Ainda assim, a noção de que o perfeccionismo pode ser positivo permanece controversa. Muitos especialistas argumentam que a maioria das pessoas que se esforçam para alcançar a perfeição sofre com a preocupação autodestrutiva – e o uso desse traço a seu próprio favor seria uma exceção. Apesar de terem inventado ferramentas que inspiraram o termo “perfeccionismo positivo”, Frost e Hewitt, por exemplo, não acreditam nele. Eles preferem chamar pessoas que frequentemente se empenham, são comprometidas com suas atividades em grande parte das ocasiões e obtêm bons resultados de “altamente conscientes” ou “esforçadas para a realização”.

PRATICANDO A IMPERFEIÇÃO

O perfeccionismo não é um diagnóstico, e é pouco provável que uma pessoa com esse traço exacerbado procure ajuda por esse motivo – em parte porque os pensamentos e os hábitos são tão arraigados que se torna difícil para o próprio indivíduo reconhecer o problema. E mesmo quando o enxerga, reluta em mudar. O que leva essa pessoa buscar ajuda, em geral, são as dificuldades de relacionamento, indiretamente causadas pela inflexibilidade.

Uma vez iniciado o processo, é importante que a pessoa reconheça como o ideal de perfeição afeta – e prejudica – sua vida. Será que tem dificuldade em tomar decisões por medo de repercussões catastróficas se fizer a escolha errada? É doloroso delegar tarefas no trabalho ou dividir os afazeres em casa e por isso ela se sobrecarrega? Porque não confiar que as coisas serão benfeitas pelos outros? Psicólogos cognitivos sugerem a manutenção de um diário de incidentes que provocam os sentimentos. Já os psicanalistas trabalham com associação livre durante as sessões e interpretação de sonhos, ampliando e desdobrando a queixa inicial, o que muitas vezes produz resultados inesperados e transformadores.

Ainda que por caminhos diferentes, nos dois casos a proposta é rever a ideia de que erros estão associados a desastres incontornáveis. “Em geral, perfeccionistas estão convencidos de que ruminar excessivamente sobre os erros é necessário para aprender com eles. Mas, na verdade, a autocrítica exagerada impede as pessoas de mudar; uma coisa é aprender com os enganos, mas a autoflagelação é contra­producente”, afirma a psicóloga cognitiva Roz Shafran. Ela costuma propor a seus pacientes que pratiquem a imperfeição, permitindo-se desafiar padrões para saber se o resultado será realmente tão ruim quanto eles imaginam. Roz os encoraja a errar deliberadamente: “esquecer” de comprar algo em sua lista de compras. No caso de universitários, ela pede que escrevam dois ensaios: no primeiro é necessário trabalhar tão duro quanto normalmente fariam; no segundo, devem obrigatoriamente colocar menos esforço. Depois, Roz entrega os textos para que um professor universitário faça uma classificação informal. Geralmente, os alunos descobrem que o trabalho escrito sem preocupação tem qualidade muito similar à do que foi feito com esforço excessivo.

Os resultados preliminares sugerem que o método pode amenizar características perfeccionistas. Estudos ainda mais recentes desenvolvidos por Tracey Wade, da Universidade de Flinders, na Austrália, Roz Shafran e outros pesquisadores revelaram que, na maioria dos casos, em até oito semanas após o início do tratamento ocorre redução de sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo, depressão e bulimia, além de diminuição da imagem negativa de adolescentes em relação ao próprio corpo. No entanto, o recurso terapêutico não diminui o anseio de buscar a excelência. “Felizmente, parece que somos capazes de lidar com a parte ruim sem reduzir o lado bom do perfeccionismo”, afirma Tracey.

Armadilhas da autoexigência.2

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.