PSICOLOGIA ANALÍTICA

ARMADILHAS DA AUTOEXIGÊNCIA

O esforço para ser impecável, mantendo tudo sob controle – e assim, ilusoriamente, dissipar o fantasma da insatisfação -, pode tanto contribuir para o sucesso quanto levar à angústia; porém, nem sempre nos damos conta de que a forma como vivemos as experiências pode ser mais significativa que as situações em si – principalmente em épocas de grande incerteza.

Armadilhas da autoexigência

O empresário americano David Liu trabalha com desenvolvimento de novas tecnologias em São Francisco. Ele ajudou a estruturar vários empreendimentos para vender produtos que criou. Mas, enquanto sonha com novas invenções, uma voz contínua em sua cabeça contesta suas ideias dizendo que são estupidamente óbvias. E, apesar de suas realizações, Liu oscila em uma tortura mental: “É vergonhoso, estou com 30 anos, deveria ter lançado algo como um Yahoo ou, pelo menos, ter uma empresa que pudesse vender por toneladas de dinheiro”. Embora trabalhe muito e obtenha vários sucessos, sente-se constantemente insatisfeito: exige excelência máxima de si mesmo, criando expectativas que podem levar ao medo do fracasso e à reflexão autocrítica. Mesmo quando está indo bem, ele tem problemas para se sentir em paz consigo mesmo.

Pesquisas mostram que as pessoas tendem a se desencorajar por não atender a padrões muito altos, tornando-se relutantes em assumir novos desafios ou até mesmo completar tarefas. Quando o alto grau de exigência aparece aliado à baixa tolerância à possibilidade de cometer erros, essas reações tendem a ser mais intensas. Na prática, o excesso de auto cobrança costuma produzir ineficiência, causar atrasos, dificuldade de cumprir prazos, sobrecarga de trabalho e até mesmo resultados medíocres, em comparação ao que se poderia produzir se a tranquilidade fosse mantida. A busca constante pela excelência pode ainda prejudicar relacionamentos e até fazer mal à saúde. O comportamento tem sido associado a anorexia, distúrbio obsessivo-compulsivo, ansiedade social, bloqueio de escritor, alcoolismo e depressão. Um estudo americano de 2007 avaliou mais de 1.500 estudantes universitários e revelou que quase um quarto deles apresentava alguma forma não saudável de perfeccionismo. Há, porém, características bastante positivas ligadas ao perfeccionismo – como inclinação para planejamento, organização e capacidade de manter o foco-, que fazem esse aspecto muitas vezes ser exaltado pelos pretendentes a uma vaga de emprego durante entrevistas de seleção.

Embora a constante sensação de insatisfação não caracterize, por si só, um quadro que possa ser diagnosticado, aparece como sintoma que merece receber atenção e um processo psicoterápico. Apostando que tendências perfeccionistas podem ser usadas de maneira saudável, nos últimos anos alguns pesquisadores têm se empenhado em desenvolver ferramentas para analisar e medir tanto benefícios quanto aspectos prejudiciais da constante preocupação de atingir (o que a pessoa supõe ser) a perfeição.

Mas não é de hoje que o perfeccionismo chama a atenção de psicólogos. No artigo “O script perfeito para a autoderrota”, de 1980, o psiquiatra David D. Burns escreveu que, quando alguém busca desesperadamente atingir um objetivo e acertar (em geral tomando como parâmetro um referencial alheio), a qualidade da vivência propriamente dita pode se perder. Segundo ele, o “tiro costuma sair pela culatra”; as pessoas medem o seu próprio valor inteiramente em termos de produtividade e realização, comparando-se com outras pessoas, sem se voltar para os próprios desejos, história e condições em dado momento. Vulneráveis à perda da autoestima e às dolorosas mudanças de humor após qualquer contratempo, os perfeccionistas correm o risco de se dedicar aos objetivos de forma inconsistente, adotar hábitos ineficientes que prejudicam seu real desempenho e trabalhar lentamente, sofrendo para definir cada detalhe e gastando muito mais tempo em um projeto do que ele merece – e, muitas vezes, sem nenhum benefício adicional. Eles podem adiar atividades porque os projetos que deveriam ser perfeitos parecem, muitas vezes, assustadores. Há em alguns casos uma lógica defensiva nessa atitude: ao investir pouco tempo e energia em algo (como estudar para uma prova ou preparar uma apresentação de projeto, por exemplo), a pessoa pode dar a si mesma a justificativa de que se tivesse se empenhado mais poderia atingir seu objetivo. Talvez isso até se comprovasse, mas o que se tem, concretamente, é a frustração. Um estudo de 2003 apontou para os perigos psicológicos de aspirações irracionais, que podem levar as pessoas ao fracasso. Uma equipe liderada pelo psicólogo Peter J. Bieling, da Universidade McMaster, em Ontário, avaliou características de personalidade de 198 estudantes. Em seguida, os pesquisadores perguntaram a nota que gostariam de alcançar em médio prazo. Aqueles que apresentavam traços perfeccionistas traçaram objetivos mais altos que os demais, embora os destes últimos não fossem necessariamente melhores. Os perfeccionistas, porém, eram muito mais propensos a ficar aquém de suas ambições e, em vez de ajustar suas expectativas à realidade quando não conseguiram alcançar as notas planejadas, insistiram em manter ou até mesmo aumentar a dificuldade para o próximo exame – o que fortalecia a sensação de insatisfação.

Diferentemente do que muitos imaginam, ninguém é perfeccionista em todas as situações ou áreas da vida. Algumas pessoas são muito exigentes a respeito da limpeza da casa, outras se concentram no trabalho ou na aparência física, por exemplo. Essas tendências podem ser especialmente evidentes quando as apostas são altas. Em um estudo de1990, o psicólogo Randy O. Geada, da Smith College, e sua então aluna Patricia Marten DiBartolo (atualmente também psicóloga da Smith College) pediram a 51 estudantes universitárias, algumas com altos escores em uma escala que mede perfeccionismo, que reescrevessem um parágrafo de um livro. Os pesquisadores acompanharam as variações do estado emocional das participantes antes e depois da tarefa.

INIMIGOS DO BOM

As voluntárias muito perfeccionistas realizaram a tarefa tranquilamente no momento em que a pressão estava baixa. Mas, quando foi dito a elas que o trabalho seria corrigido e comparado com o de outras pessoas, elas passaram a considerar a tarefa mais importante e se sentiram mais angustiadas que as demais participantes. Em geral, a escrita das perfeccionistas foi inferior, provavelmente porque, temendo críticas, elas evitaram a oportunidade de ter um feedback da edição e, consequentemente, procuraram se expor o mínimo possível.

Essa constatação dos autores corrobora a opinião de outros psicólogos: à medida que aumenta a diferença entre as expectativas e os resultados, os perfeccionistas perdem cada vez mais a autoconfiança, o que os leva a evitar novos desafios. Ironicamente, quanto maior ênfase colocam na excelência, mais se sentem perseguidos e podem minar oportunidades de sucesso. Os pesquisadores Paul L. Hewitt, da Universidade da Colúmbia Britânica, e L. Gordon Flett, da Universidade de York em Toronto, chamam o fenômeno de “paradoxo do perfeccionismo”. Como disse Voltaire: “O melhor é o inimigo do bom”.

A auto exigência extrema tem raízes na infância, podendo aparecer como resultado da forte cobrança dos pais em relação aos filhos ou à sobrecarga emocional suportada por eles. Embora não seja uma regra, é muito frequente que primogênitos encarregados pelas figuras parentais de responsabilidades, muitas vezes excessivas para sua idade, tendam a se sentir incapazes de dar conta do que lhes foi atribuído e a carregar essa marca para a vida adulta, o que acarreta grande sensação de insuficiência – ainda que os dados concretos contradigam essa impressão. Por outro lado, filhos de pais negligentes podem imaginar que se fizerem tudo certo terão maiores chances de serem notados – e amados. Há ainda casos de crianças que vivem em um lar caótico e podem tentar ser perfeitas como uma forma de estabelecer algum controle sobre um ambiente imprevisível e, não raro, assustador. Além disso, costumamos reproduzir modelos: pais perfeccionistas têm grandes possibilidades de criar filhos com a mesma característica.

“Inicialmente, as crianças podem descobrir que o perfeccionismo é útil e se tornam, por exemplo, excelentes alunos para serem recompensados e, de fato, quanto mais se dedicam, mais se tornam meticulosos e melhores no que fazem”, diz a psicóloga Roz Shafran, pesquisadora da Universidade de Londres. Mas, então, a situação muda: as crianças crescem, vão para a universidade, para o mercado de trabalho, e descobrem que há variáveis demais para controlar; percebem que às vezes vão se dar bem, mas não sempre. “É aí que surge o sentimento de que não são bons o suficiente e, para tentar ‘arrumar’ a situação, alguns podem ficar acordados a noite inteira, outros somatizam e muitos caem em depressão”, afirma Roz.

HÁBITOS SAUDÁVEIS

Apesar disso, alguns especialistas argumentam que o perfeccionismo tem suas vantagens. De fato, uma das medidas mais utilizadas na identificação do traço de personalidade desenvolvida no início dos anos 90 avalia características aceitas como positivas, como a tendência de definir padrões elevados e cumprir tarefas às quais se propõe, embora também considere traços que causam desconforto, como o medo de cometer erros e a inclinação de duvidar das próprias realizações e até invalidá-las.

Apesar de não endossada por Frost, a noção de que o perfeccionismo pode ser uma mistura de aspectos benéficos e prejudiciais vem, em parte, de um estudo seu de 1993. Ele e seus colegas avaliaram 553 voluntários usando sua escala e a de Hewitt e Flett e descobriram que certas características se agrupam. Atributos como “evitar cometer erros” e “sentir-se oprimido pelas expectativas de outras pessoas” mostraram forte correlação entre si e também com a depressão. Pesquisadores chamaram o fenômeno de “preocupações de avaliação desajustadas”. Outras tendências, como “estabelecer padrões elevados” e “esforço para atingir metas auto impostas”, demonstraram forte correlação entre si no sentido positivo – o que fez com que Frost as chamasse de agrupamento de “esforço positivo”. Cada indivíduo parece ter um equilíbrio particular entre as características “boas” e “más”.

Muitos psicólogos estão convencidos de que crenças e comportamentos de perfeccionistas podem favorecer seu bem-estar e aumentar suas chances de sucesso – é possível escrever um texto melhor que o anterior, ter uma casa mais atraente, construir um negócio mais bem-sucedido ou mesmo ser mais tolerante com aqueles com quem convivemos. “Bons artesãos, mecânicos, cirurgiões, artistas e líderes espirituais provavelmente seriam considerados perfeccionistas”, observa o psicólogo Joachim Stoeber, pesquisador da Universidade de Kent, na Inglaterra, autor de diversas publicações sobre o tema. “Procurar fazer algo benfeito pode ser muito bom; se você está feliz, não há razão para se preocupar; o problema aparece quando o anseio de se superar se torna uma obsessão, passa a ser motivo de sofrimento na maior parte do tempo e deixamos de ter alegria no que fazemos”, acredita. Aí possivelmente é hora de procurar ajuda psicológica para compreender os sentidos dessa busca idealizada pela perfeição.

Ou seja: a melhor maneira de lidar com o perfeccionismo é a capacidade de buscar a excelência sem ser excessivamente autocrítico. Aqueles que adotam essa estratégia – os perfeccionistas saudáveis – em geral se mantêm mais cuidadosos consigo mesmos, tolerantes com eventuais erros; procuram se concentrar em seus pontos fortes e encontram grande satisfação em suas realizações. De fato, uma pesquisa realizada ao longo dos últimos 15 anos associou o chamado perfeccionismo saudável com maior capacidade de realização pessoal – como alcançar boas notas e melhor desempenho no triatlo. O esforço positivo do perfeccionista pode conduzir à melhora na saúde e no humor, maior sociabilidade e satisfação com a vida de forma geral. Em um estudo, Bieling e seus colegas separaram universitários perfeccionistas que utilizavam essa característica dos que se atormentavam buscando fazer o melhor de forma persecutória e descobriram que os primeiros se sentiam mais bem preparados para provas e obtinham notas superiores do que qualquer perfeccionista não saudável ou um não perfeccionista. Em uma pequena pesquisa feita em 2002, atletas olímpicos avaliados pelo teste de Frost também se mostraram mais propensos a serem perfeccionistas positivos.

Mais recentemente, Stoeber e seus colegas demonstraram que, em situações reais, o perfeccionismo saudável pode ajudar as pessoas a errar menos e a se sentir mais satisfeitas. Primeiro, os pesquisadores avaliaram 121 universitários para determinar se eles eram perfeccionistas positivos, negativos ou não perfeccionistas. Na sequência os voluntários responderam a um teste que supostamente mediria inteligência emocional e social – qualidades que os cientistas enfatizaram como indispensáveis para o sucesso em qualquer área da vida. Então, aleatoriamente, foi escolhida metade dos participantes e dito a eles que tiveram um bom desempenho, e aos outros que tiveram pontuações baixas. Depois de receber a notícia falsa, os examinados preencheram um questionário para avaliação de seu estado emocional. Os perfeccionistas saudáveis mostraram mais orgulho quando informados da alta pontuação no teste e menos emoções negativas ao serem notificados de que tinham ido mal, em comparação aos perfeccionistas não saudáveis e aos não perfeccionistas.

Ainda assim, a noção de que o perfeccionismo pode ser positivo permanece controversa. Muitos especialistas argumentam que a maioria das pessoas que se esforçam para alcançar a perfeição sofre com a preocupação autodestrutiva – e o uso desse traço a seu próprio favor seria uma exceção. Apesar de terem inventado ferramentas que inspiraram o termo “perfeccionismo positivo”, Frost e Hewitt, por exemplo, não acreditam nele. Eles preferem chamar pessoas que frequentemente se empenham, são comprometidas com suas atividades em grande parte das ocasiões e obtêm bons resultados de “altamente conscientes” ou “esforçadas para a realização”.

PRATICANDO A IMPERFEIÇÃO

O perfeccionismo não é um diagnóstico, e é pouco provável que uma pessoa com esse traço exacerbado procure ajuda por esse motivo – em parte porque os pensamentos e os hábitos são tão arraigados que se torna difícil para o próprio indivíduo reconhecer o problema. E mesmo quando o enxerga, reluta em mudar. O que leva essa pessoa buscar ajuda, em geral, são as dificuldades de relacionamento, indiretamente causadas pela inflexibilidade.

Uma vez iniciado o processo, é importante que a pessoa reconheça como o ideal de perfeição afeta – e prejudica – sua vida. Será que tem dificuldade em tomar decisões por medo de repercussões catastróficas se fizer a escolha errada? É doloroso delegar tarefas no trabalho ou dividir os afazeres em casa e por isso ela se sobrecarrega? Porque não confiar que as coisas serão benfeitas pelos outros? Psicólogos cognitivos sugerem a manutenção de um diário de incidentes que provocam os sentimentos. Já os psicanalistas trabalham com associação livre durante as sessões e interpretação de sonhos, ampliando e desdobrando a queixa inicial, o que muitas vezes produz resultados inesperados e transformadores.

Ainda que por caminhos diferentes, nos dois casos a proposta é rever a ideia de que erros estão associados a desastres incontornáveis. “Em geral, perfeccionistas estão convencidos de que ruminar excessivamente sobre os erros é necessário para aprender com eles. Mas, na verdade, a autocrítica exagerada impede as pessoas de mudar; uma coisa é aprender com os enganos, mas a autoflagelação é contra­producente”, afirma a psicóloga cognitiva Roz Shafran. Ela costuma propor a seus pacientes que pratiquem a imperfeição, permitindo-se desafiar padrões para saber se o resultado será realmente tão ruim quanto eles imaginam. Roz os encoraja a errar deliberadamente: “esquecer” de comprar algo em sua lista de compras. No caso de universitários, ela pede que escrevam dois ensaios: no primeiro é necessário trabalhar tão duro quanto normalmente fariam; no segundo, devem obrigatoriamente colocar menos esforço. Depois, Roz entrega os textos para que um professor universitário faça uma classificação informal. Geralmente, os alunos descobrem que o trabalho escrito sem preocupação tem qualidade muito similar à do que foi feito com esforço excessivo.

Os resultados preliminares sugerem que o método pode amenizar características perfeccionistas. Estudos ainda mais recentes desenvolvidos por Tracey Wade, da Universidade de Flinders, na Austrália, Roz Shafran e outros pesquisadores revelaram que, na maioria dos casos, em até oito semanas após o início do tratamento ocorre redução de sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo, depressão e bulimia, além de diminuição da imagem negativa de adolescentes em relação ao próprio corpo. No entanto, o recurso terapêutico não diminui o anseio de buscar a excelência. “Felizmente, parece que somos capazes de lidar com a parte ruim sem reduzir o lado bom do perfeccionismo”, afirma Tracey.

Armadilhas da autoexigência.2

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OUTROS OLHARES

MENINAS COM TDAH

Sonhadoras e desorganizadas, mulheres com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade podem passar despercebidas e sofrer por muitos anos, sem tratamento.

Meninas com TDAH

Todo dia era sempre a mesma coisa. Mal começava a aula, a professora se via às voltas com as reações em cadeia provocadas na classe por Joãozinho, aquele menino endiabrado, e ainda assim adorável. Seus movimentos eram rápidos e causavam enorme ansiedade à pobre “tia” que, além de todos os afazeres, ainda precisava localizá-lo durante a aula, já que ele certamente não estaria sentado quieto em sua carteira. O garotinho só podia ser hiperativo! Era preciso falar com a psicopedagoga da escola, pois ele devia ter o chamado transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Totalmente preocupada em pôr fim à guerrinha de bolinhas de papel iniciada pelo aluno, a jovem professora estava alheia à menina sentada lá pelo meio da sala, olhando tão pensativa pela janela que parecia não se dar conta da bagunça. Todos os dias eram assim, e aparentemente não havia por que se preocupar com aquela aluninha tranquila que mal se mexia na cadeira. Mas o que a professora não sabia era que, por baixo da antiga carteira escolar inteiriça de madeira escura, um par de pezinhos balançava irrequieto na mesma velocidade dos pensamentos de sua dona.

O nome dela só era lembrado na hora da chamada. Absorta em sua imaginação, vivia alheia ao ditado que a jovem professora começava a passar. Por causa disso, seria mais tarde duramente repreendida em casa e aceitaria todos os adjetivos com que seus pais a definiam: preguiçosa, relaxada, “abilolada”. Invisível para sua professora, que, preocupada demais com Joãozinho, só a notava momentaneamente quando percebia sua desatenção aos deveres em sala de aula, ela atravessaria os anos sofrendo com sua distração crônica. Ainda que criativa, perderia autoestima à medida que ganhasse altura, peso e hormônios. Seu colega Joãozinho, diagnosticado precocemente, não precisou passar pela mesma carga de sofrimento.

Diferentemente dos homens, mulheres com TDAH podem passar despercebidas, já que nelas predomina a falta de hiperatividade, o contrário do que acontece com seus pares masculinos. Tal característica, determinada por particularidades biológicas e aliada ao componente cultural, pode contribuir para que o número de homens diagnosticados com o transtorno seja maior que o de mulheres; para cada uma delas com o distúrbio, em média há três deles.

Embora o tipo hiperativo seja menos frequente na população feminina, as meninas mais travessas dificilmente passam sem ser notadas. Precocemente diagnosticadas, elas são poupadas. Garotas com o transtorno, mas sem hiperatividade, sofrem com sua desorganização, esquecimentos, sensação de abando no, dificuldade de adaptação e de cumprimento de horários; com tarefas meticulosas, prazos, obrigações e cuidado com os filhos. O preço a ser pago quando o diagnóstico de TDAH não é feito é bastante alto para mulheres, pois diferentemente dos homens, espera-se que elas sejam atentas, calmas e dedicadas, além de organizadas e delicadas nos gestos. Antes de chegarem à vida adulta, sofrem com as constantes reprimendas. Sua letra não é tão benfeita, seu caderno não é muito caprichado, sua mochila contém um amontoado de papeizinhos amassados, lascas de lápis apontados, canetas sem tampa e tampas sem caneta. Sua falta de habilidade para planejar, administrar tarefas e se concentrar causa ansiedade e depressão, não só pela condenação implícita ou explícita de parentes, professores e colegas, mas também pelo próprio desconforto e prejuízo que essas características traze m. Conforme vão crescendo, aumentam a carga de responsabilidade e a exigência das tarefas que devem cumprir, seja no âmbito acadêmico, seja no profissional.

Meninas com TDAH.3

FALTA DECAPRICHO

A dificuldade em manter-se atenta, concentrada e em terminar seus afazeres pode ser agravada pelo grau de complexidade e responsabilidade crescente, inerente às ocupações de adulto. As mulheres com TDAH passam por dificuldades bem específicas durante seu desenvolvimento. Imagine como a adolescência pode ser dolorida para alguém que se vê às voltas com sua atenção inconstante. No entanto, algumas características podem tornar essa adolescente uma figura popular em seu grupo – principalmente a que, quando criança, era do tipo “falante”.

Felizmente, a posição de mãe e dona de casa, anteriormente reservada às mulheres de forma quase exclusiva, certamente não teve o poder de anestesiar essas mentes inquietas e fervilhantes. Elas foram à luta pelo direito de exercer atividades que lhes proporcionassem o estímulo de que tanto necessitavam e, mais do que isso, de abrir as portas do mundo em movimento a todas as que antes só podiam contemplá-lo pelas cortinas da janela. Não é preciso pensar muito para concluir que justamente as características dessas mulheres, mais do que das outras, podem fazê-las sofrer desaprovação. Apesar de em geral serem dinâmicas, é comum que desenvolvam baixa autoestima; afinal, desde cedo foram acostumadas a ouvir observações sobre sua falta de modos, desorganização, desleixo e falta de capricho. Críticas que pessoas do sexo masculino normalmente não costumam ouvir, pois as cobranças sociais e culturais são mais acentuadas em relação às mulheres nesses aspectos. Mas meninas têm um papel a cumprir, e em pleno século 21 muitos ainda pensam que melhor seria se elas não chamassem atenção sobre si, ficas­ sem comportadas em seu canto. Raramente suas qualidades mais evidentes, como criatividade, energia e iniciativa, são devidamente estimuladas e reforçadas. Para evitar isso, a família e os educadores precisariam ter conhecimento do que é o transtorno e como essas meninas devem ser estimuladas e valorizadas.

Na vida adulta, a tendência aos devaneios e os frequentes esquecimentos costumam trazer problemas, principalmente se a mulher exercer função burocrática. No entanto, isso pode ser compensado se for focada sua criatividade. Muitas vezes é importante buscar ajuda especializada para melhorar a capacidade de organização e atenção, tornando sua mente irrequieta mais apta a deixar florescer as vantagens que o “funciona­ mento TDAH” pode proporcionar.

Meninas com TDAH.2 

DISTRAÇÃO, IMPULSIVIDADE E HIPERATIVIDADE

Quando nos referimos a transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, não devemos pensar em um cérebro “defeituoso”, mas em um sistema que trabalha com foco diferenciado do da maioria das pessoas. O sistema neural de homens e mulheres com TDAH tem funcionamento peculiar com comportamento típico, que pode ser responsável tanto por características positivas como por angústias e desacertos. O comportamento TDAH nasce do que se chama “trio de base alterada”, formado por variações da atenção, da impulsividade e da velocidade da atividade física. Essa estrutura mental oscila entre a plenitude criativa e a exaustão, já que esse cérebro parece nunca parar.

A alteração da atenção, o sintoma mais importante do desempenho TDAH, é uma condição para o diagnóstico. A pessoa com o distúrbio nem sempre sofre de hiperatividade física, mas jamais deixará de apresentar tendência à dispersão. Para o adulto com essa característica, manter-se concentrado em algo, por menor tempo que seja, pode ser um desafio tão grande como para um atleta de corrida com obstáculos que precisa transpor barreiras cada vez maiores até chegar ao fim da pista. E várias vezes, o adulto com TDAH é flagrado em lapsos de atenção.

Em relação à impulsividade deve-se ter em mente que a palavra impulso tem um significado próprio: 1) ação de impelir; 2) força com que se impele; 3) estímulo, abalo; 4) ímpeto, impulsão. Todas essas definições literais ajudam a entender a maneira pela qual o portador de TDAH reage diante dos estímulos do mundo externo. Pequenas coisas são capazes de lhe despertar grandes emoções, e a força desses sentimentos gera o combustível aditivado de suas ações. Sua mente funciona como receptor de alta sensibilidade que, ao captar um pequeno sinal, reage automaticamente sem avaliar as características do objeto gerador do estímulo. Um exemplo simples dessa situação seria o caçador que, ao detectar um mero ruído na floresta, dispara sua arma a fim de abater sua caça. Poucos minutos após a rajada de tiros, descobre que a sua grande presa não passava de um inofensivo tatu que abrira um pequeno buraco no solo em busca de abrigo.

Quanta energia em vão! Exagerado! – diria a maioria das pessoas. Mas, na verdade, tudo não passou de um ato impulsivo, ou seja, disparou e só depois pensou. E, com certeza, lamentou! Se pensarmos na vida real, em que tatus podem ser comparados a pessoas e caçadores, isto é, aqueles com o distúrbio, pode-se imaginar quanto sofrimento, culpa, angústia e cansaço um impulso sem filtro pode ocasionar nos relacionamentos cotidianos.

Em especial os meninos com TDAH costumam dizer o que lhes vem à cabeça, envolver-se em brincadeiras perigosas e brigas com os colegas, o que pode render-lhes rótulos desagradáveis como mal-educado, mau, grosseiro, agressivo, autodestrutivo etc. E, é claro, isso será um dos grandes influenciadores na formação de uma autoestima cheia de “buracos”. Toda pessoa com TDAH quando adulta apresentará problemas de autoestima, e esse é o maior de todos os desafios de seu tratamento: a reconstrução dessa função psíquica que, em última análise, constitui o espelho da própria personalidade.

A impulsividade trará outras consequências. A pessoa terá aprendido a diminuir determinados riscos vitais, como olhar antes de atravessar a rua, praticar esportes com proteção adequada ou desligar o gás do aquecedor. No entanto, seu impulso verbal pode continuar a lhe trazer sérios problemas, principalmente em situações em que esteja sob forte impacto afetivo ou pressão pessoal.

Atitudes impensadas podem levar aquele que sofre de TDAH a viver em constante instabilidade: entrar e sair de relacionamentos, empregos e grupos sociais. Para evitar muito sofrimento, informação sobre o distúrbio e acompanha­ mento psicológico são fundamentais.

GESTÃO E CARREIRA

ATITUDES QUE PODEM PREJUDICAR SUA CARREIRA

Confira seis atitudes que podem prejudicar sua carreira profissional

Atitudes que podem prejudicar sua carreira

Há muitos fatores que podem influenciar a demissão de alguém. De pontos externos como a situação econômica e política do País a pontos internos como o comportamento do funcionário. Se não é possível controlar um lado, do outro o profissional pode melhorar para não ter sua carreira prejudicada por uma demissão ou uma estagnação.

Pensando nisso, Lucia Costa, diretora-geral da Stato, consultoria especializada em gestão de carreira, aponta seis comportamentos que comprometem o futuro profissional e devem ser evitados.

FALTA DE INTERESSE

A ausência de curiosidade sobre a empresa, seus clientes, respectivos problemas e objetivos prejudica a carreira. O profissional deve se interessar pela realidade em que está inserido e ser proativo. Em tempos de crise, quem só se realiza as atividades rotineiras podem ser os primeiros na lista de demissão.

NÃO CUMPRIR PRAZOS

Desrespeitar prazos, horários e compromissos pré-estabelecidos coloca em xeque a credibilidade do profissional, por mais competente que ele seja.

USAR O TEMPO DO TRABALHO PARA ASSUNTOS PESSOAIS

Resolver assuntos pessoais no expediente, passar muito tempo nas redes sociais sem razão ligada ao trabalho atrapalham a produtividade e prejudicam a avaliação da empresa sobre o profissional.

NÃO TRABALHAR EM EQUIPE

Ignorar as opiniões de outras pessoas, trabalhar sozinho e enxergar apenas o seu ponto de vista faz com que o profissional perca a oportunidade de crescer e trabalhar com a equipe.

SER O FOFOQIEIRO DO ESCRITÓRIO

Mesmo que pareça comum ter tais comentários nas empresas, ser o fofoqueiro do ambiente de trabalho não colabora para o futuro profissional nem para o relacionamento com os colegas.

FALTA DE ORGANIZAÇÃO

Usar bem o tempo é fundamental para produtividade. Quando ele é mal administrado atividades podem ficar inacabadas, mal- feitas ou sem fazer.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 18: 13-27 – PARTE VI

Alimento diário - Comendo a Bíblia

 

A Queda de Pedro. Cristo é levado a juízo. Pedro nega a Cristo novamente

 

VI – Enquanto os servidores o estavam maltratando desta maneira, Pedro continuava a negá-lo, vv. 25-27. É uma história triste, e não foi o menor dos sofrimentos de Cristo.

1. Ele repetiu o pecado pela segunda vez, v. 25. Enquanto ele estava se aquecendo com os servos, como se fosse um deles, eles lhe perguntaram: “Não és também tu um dos seus discípulos?” O que estás fazendo aqui, no nosso meio? Talvez, ouvindo que Cristo estava sendo interrogado sobre seus discípulos, e temendo que pudesse ser preso, ou, pelo menos, ferido, como seu Mestre, caso o reconhecessem, ele o negou categoricamente, e disse: “Não sou”.

(1) Foi sua grande tolice lançar-se à tentação, permanecendo com aqueles cuja companhia lhe era inadequada, e com quem ele não tinha nada que ver. Ele permaneceu, para se aquecer; mas aqueles que se aquecem com os malfeitores ficam frios com relação às boas pessoas, e às boas coisas, e aqueles que gostam de estar perto do fogo do Diabo estão correndo o risco de sofrer as consequências deste fogo. Pedro poderia ter apoiado seu Mestre, no tribunal, e teria se aquecido melhor do que aqui, no fogo do amor do seu Mestre, que muitas águas não poderiam apagar, Cantares 8.6,7. Ele poderia ter se aquecido com o zelo pelo s eu Mestre, e a indignação pelos seus perseguidores, mas preferiu aquecer-se com eles a aquecer-se contra eles. Porém, um só (discípulo), como se aquentará? Eclesiastes 4.11.

(2) Foi sua grande infelicidade ter sido novamente atacado pela tentação. E não se poderia esperar nada diferente, pois este era o lugar, e est e era o momento, da tentação. Quando o juiz perguntou a Cristo sobre seus discípulos, provavelmente os servidores aproveitaram a oportunidade e desafiaram Pedro como sendo um deles: “Responda ao mencionarem seu nome”. Veja aqui:

[1] A sutileza do tentador, ao procurar derrubar aquele a quem viu caindo, e reunindo uma força ainda maior contra ele. Agora, não somente uma criada, mas todos os servidores. Observe que ceder a uma tentação convida outra, talvez mais forte. Satanás redobra seus ataques quando ganha terreno.

[2] O perigo das más companhias. Comum ente, nós nos empenhamos em ser aceitos por aqueles com quem decidimos nos associar. Nós nos valorizamos com seu bom conceito, e ambicionamos estar bem na opinião deles. Da mesma maneira como escolhemos nosso grupo, também escolhemos nosso louvor, e nos governamos de maneira correspondente. Portanto, devemos nos preocupar em fazer bem a primeira escolha, e não nos mesclarmos com aqueles a quem não poderemos agradar, sem desagradar a Deus.

(3) Foi sua grande fraqueza, ou melhor, foi sua grande perversidade ceder à tentação, e dizer: Eu não sou um dos seus discípulos, corno alguém que se envergonhava daquilo que era sua honra, e temia sofrer por aquilo que teria sido algo ainda mais honroso. Veja corno o temor de um homem lhe traz uma armadilha. Quando Cristo era admirado, e querido, e tratado com respeito, Pedro se contentava, e talvez se orgulhasse com o fato de que ele era um discípulo de Cristo, e, desta maneira, investiu em uma participação nas honras feitas ao seu Mestre. Da mesma maneira, muitos que parecem gostar da reputação da religião, quando ela está na moda, envergonham-se da censura que ela recebe. Mas nós devemos ser firmes, a despeito daquilo que venha a acontecer.

2. Ele repetiu o pecado, pela terceira vez, vv. 26,27. Aqui ele foi atacado por um dos servos, que era parente de Malco, que, ao ouvir que Pedro negava ser um discípulo de Cristo, refutou o que ele dizia, com maior certeza: “‘Não te vi eu no horto com ele?’ A orelha do meu parente é testemunha disto”. Então, Pedro o negou outra vez, como se não soubesse nada de Cristo, nada do jardim, nada de todo este assunto.

(1) Este terceiro ataque da tentação foi mais cerrado do que o anterior. Antes havia somente suspeitas do seu relacionamento com Cristo, mas aqui ele é provado por alguém que o tinha visto com Jesus, e que o tinha visto sacar sua espada para defendê-lo. Observe que aqueles que, pelo pecado, pensam estar se livrando de problemas, somente se envolvem e se embaraçam ainda mais. Ouse ser corajoso, pois a verdade será revelada. Um passarinho talvez conte aquilo que procuramos esconder através de uma mentira. Aqui se menciona que este servidor era parente de Malco, porque esta circunstância causaria maior terror a Pedro. “Agora”, talvez pense ele, “estou acabado, estou destruído, não é necessário ter outra testemunha, nem outro acusador”. Nós não devemos fazer de nenhum homem, em particular, nosso inimigo, se pudermos evitar, porque chegará a ocasião em que ele, ou algum dos seus parentes, poderá nos ter à sua mercê. Aquele que pode precisar de um amigo, não deve fazer um inimigo. Mas observe que, embora aqui houvesse evidências suficientes contra Pedro, e provocações suficientes para acusá-lo, fornecidas pela sua negação, ainda assim ele escapa, nenhum mal lhe é feito, nem tentado. Observe que frequentemente somos levados ao pecado por temores ilógicos e sem fundamentos, para os quais não há oportunidade, e que, com um pequeno grau de sabedoria e determinação, seriam destruídos.

(2) Sua capitulação a este ataque não foi menos vil do que a anterior: “Pedro negou outra vez”. Veja aqui:

[1] A natureza do pecado, em geral: o coração é endurecido pelo engano do pecado, Hebreus 3.13. De repente, Pedro tinha chegado a um estranho grau de insolência, podendo, com tal segurança, sustentar uma mentira contra uma refutação tão clara. Mas o começo do pecado é como o início de um vazamento de água, quando algum ponto em uma barreira se rompe. Assim, os homens vão facilmente de mal a pior.

[2] O pecado de mentir, em particular. É um pecado frutífero, e, sob este aspecto, excessivamente pecaminoso. Uma mentira precisa de outra para sustentá-la, e aquela, precisa de outra. Esta é uma regra da política do Diabo – Cobrir pecado com pecado, para não ser detectado.

(3) A advertência feita a ele para o restabelecimento de sua consciência foi oportuna e feliz: “logo o galo cantou” é tudo o que foi dito sobre seu arrependimento, sendo registrado pelos outros evangelistas também. Isto fez com que ele caísse em si, trazendo-lhe à mente as palavras de Cristo. Observe:

[1] O cuidado que Cristo tem para com os seus, não obstante sua insensatez. Ainda que caiam, eles não ficam completamente prostrados, nem rejeitados.

[2] A vantagem de haver admoestadores fiéis perto de nós, os quais imaginam nada poder dizer que já não saibamos, contudo podem nos lembrar daquilo que sabemos, mas temos esquecido. O canto do galo para os outros foi um acontecimento casual, e não teve significado, entretanto, para Pedro, foi a voz de Deus, e teve uma propulsão abençoada para reavivar sua consciência, ao trazer-lhe à mente a breve conversa de Cristo.