PSICOLOGIA ANALÍTICA

AUTOESTIMA EM ALTA

Condicionar o sucesso de projetos pessoais à confiança em si mesmo pode trazer mais problemas que benefícios. Na contramão da literatura de autoajuda e dos pressupostos propagados pela mídia, em especial o mercado publicitário, o caminho mais eficaz para desenvolver e preservar a autovalorização parece ser pensar menos em si e mais nos outros. Estranho? Nem tanto…

Auto estima em alta

Em épocas de dificuldades, a maioria das pessoas tem grande tendência a distorcer o olhar para si mesmo. Dependendo de nossa história de vida e padrões de comportamento, em geral caímos em duas armadilhas: alguns se esquecem dos sucessos que acumularam ao longo da vida e se sentem péssimos, fracassados e incapazes; outros se agarram à supervalorização de conquistas, terminando por se sentirem injustiçados pelas circunstâncias e profundamente insatisfeitos. Na prática, nenhuma dessas atitudes traz satisfação. Pesquisas científicas têm mostrado uma forma mais eficiente – e inusitada – de incrementar a autoestima. Tudo indica que essa característica não depende do sucesso de nossas realizações – que, em geral, garante apenas a sensação frágil e ilusória de bem­ estar. Aliás, em excesso, ter-se em alta conta pode trazer sérias desvantagens.

Em um estudo publicado em 2002, solicitamos a 37 universitários do último período, candidatos a pós-graduação, que preenchessem um questionário para avaliar o quanto baseavam a autoestima no histórico acadêmico, na aparência física, no bom relacionamento com a família e com os amigos etc. Na sequência, os estudantes deveriam continuar registrando a sensação de auto – confiança duas vezes por semana, durante dois meses, nos quais participariam do processo de seleção. Descobrimos que aqueles cuja autoestima estava fortemente ligada ao desempenho acadêmico sentiram pouco aumento na autoconfiança nos dias em que se saíram bem, mas uma grande queda na segurança nos dias de baixo desempenho. Para essas pessoas, a dor do fracasso superou a alegria do sucesso. Aqueles que não dependiam do resultado para preservar a autoconfiança experimentaram claramente flutuações mais amenas: mostraram-se emocionalmente mais estáveis diante de resultados positivos ou negativos. Outros estudos demonstram vulnerabilidade semelhante em relação à aparência ou ao sucesso profissional.

Doses extras de autoconfiança não duram muito tempo, de acordo com nossos estudos. Mesmo depois de desfrutarmos de grandes realizações, geralmente voltamos a nos sentir como de costume. Além disso, a instabilidade que resulta desses altos e baixos tem custos significativos para a saúde mental – e pode colaborar para o desenvolvimento de sintomas de depressão. No caso dos candidatos à pós-graduação, por exemplo, observamos que as flutuações na autoestima experimentadas estavam associadas a distúrbios do apetite e do sono, a perda de motivação, a humor deprimido e a sentimentos de desesperança e impotência.

A dependência de bom desempenho para manter a autoestima não raro leva a evitar o fracasso em vez de buscar o sucesso – uma atitude que pode minar as chances de êxito. Para proteger a autoconfiança, surgem desculpas para o mau desempenho, como “não tentei o suficiente” ou “estava cansado, doente, chateado”. Para ter efeito, a explicação deve ser verossímil. Por exemplo, uma pessoa pode ficar acordada até tarde antes de fazer um teste para validar a afirmação de cansaço caso vá mal na prova; ou adiar os estudos até o último momento para alegar que não pôde se dedicar o suficiente. Os psicólogos sociais Edward E. Jones, da Universidade de Princeton, e Steven Berglas, da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, cunharam o termo “auto sabotagem” para descrever o comportamento.

Buscar situações somente para sentir-se com maior autoestima prejudica a motivação intrínseca, ou seja, o interesse pela tarefa em si. Os psicólogos Edward Deci e Richard Ryan, da Universidade de Rochester, argumentam que pessoas com autoestima contingente se concentram a maior parte do tempo na maneira como sucessos e fracassos refletem sobre sua imagem. Sua pesquisa, realizada ao longo de várias décadas, aponta que aqueles com essa característica realizam atividades, como estudar e trabalhar, porque sentem que devem e não porque querem. A pressão e o senso de obrigação terminam por suplantar a satisfação. As relações pessoais também ficam prejudicadas. Pessoas focadas em aumentar a autoestima tendem a sempre colocar suas necessidades antes das dos outros. A preocupação com questões sobre o próprio valor influencia a relação com amigos, familiares e conhecidos, que acabam servindo, principalmente, como fontes de validação ou anulação de méritos – no final das contas, a interação gira em torno de uma única pessoa, o que empobrece e desgasta as relações.

No entanto, escorar a autoestima em valores como fé ou virtude parece ter menos consequências negativas do que em outras circunstâncias nas quais é possível ser avaliado e julgado (como aparência ou alguma habilidade específica). Ainda não sabemos exatamente os motivos dessa discrepância. A hipótese é que pessoas com necessidade de provar que são virtuosas ou fiéis a uma religião são mais propensas a se envolver em atividades úteis, colaborativas ou filantrópicas, recebendo então a aprovação dos outros. Ainda assim, as contingências nos tornam vulneráveis às consequências de deixar a autoestima tão dependente de elementos externos para nos definir.

Embora a busca por autoestima possa trazer consequências negativas, também nos motiva à ação. Sem o desejo de provar nosso valor, poderíamos ficar desanimados. Felizmente, temos opções. Em vez de nos concentrarmos em nossa própria situação, podemos focar em outras pessoas ou no benefício coletivo. Metas construtivas e solidárias tendem a fortalecer o sentimento de confiança e a sensação de pertencimento, o que ajuda a reduzir conflitos e medos.

 

GRAU DE COMPAIXÃO

Projetar metas colocando-se no lugar dos outros parece produzir um senso de intimidade. Na prática, isso costuma ajudar a evitar os efeitos devastadores de algum comentário alheio entendido como crítica, por exemplo. Em um estudo que publicamos em 2011 com a psicóloga Amy Canevello, agora na Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte, analisamos as consequências dessa atitude em calouros universitários e colegas de quarto do mesmo sexo. Cada participante avaliou seu “grau de compaixão”, de acordo com frases como “ser solidário com meu colega de dormitório” ou “estar ciente do impacto que meu comportamento pode ter sobre os sentimentos da pessoa com quem divido o quarto”. Eles também responderam a um questionário sobre autoestima a cada semana do ano letivo. Além disso, os voluntários classificaram em que medida respeitavam seus colegas, o quão responsáveis acreditavam ser em relação ao que eles precisavam e quanta consideração percebiam daqueles com quem dividiam o dormitório em relação a suas próprias necessidades.

Aqueles que desenvolveram postura mais compreensiva demonstraram maior receptividade às necessidades dos colegas de quarto (de acordo com a própria opinião e a do companheiro). Os colegas com quem os voluntários dividiam o ambiente perceberam a atitude e responderam positivamente, criando um ciclo que fortaleceu a relação entre os dois. Curiosamente, quanto mais procuravam ser sensíveis ao outro, maior autoestima demonstravam, de acordo com as avaliações. O sentimento de autoconfiança entre os colegas também ficou mais forte, sugerindo que se manter atento às demandas dos outros pode ser uma estratégia bastante eficaz para reforçar o sentimento de amor-próprio a longo prazo. Por outro lado, aqueles que se preocuparam excessivamente com a ideia que o companheiro fazia de si foram menos atentos aos colegas – um padrão de comportamento que colaborou para tornar mais frágil a autoestima de ambos.

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A FÓRMULA DA FELICIDADE

A psicologia costuma definir autoestima como o valor que uma pessoa atribui a si mesma, ou seja, trata-se de uma avaliação inerentemente subjetiva. Geralmente os pesquisadores medem essa característica por meio de escalas de autor relato, baseando-se em declarações como “Tenho atitude positiva em relação a mim mesmo” ou “Costumo me comparar com os outros e me sentir fracassado”. Na década de 80, nos Estados Unidos, alguns políticos, psicólogos, e pesquisadores em geral mostravam-se preocupados com a falta de autoconfiança da população. Eles acreditavam que a solução do problema seria forjar cidadãos mais produtivos a resolver problemas sociais como criminalidade e fracasso escolar. Iniciou-se um verdadeiro movimento pró-autoestima, que coincide com o início do boom de livros de autoajuda que pregam o poder incontestável da autorrealização, insistindo no uso de “fórmulas” de motivação e felicidade.

Escolas e outras instituições americanas investiram em intervenções para aumentar a autoconfiança, principalmente das crianças. Esses programas geralmente focavam em exercícios que possibilitavam a exposição de qualidades e em fornecer retorno positivo (independentemente do desempenho). Lições do tipo “eu me amo” incentivavam alunos a completar frases como “Eu sou…” com as palavras “bonito”, “inteligente” ou “talentoso”, por exemplo. Aqueles com baixo desempenho eram ensinados a se concentrar no potencial em vez de olhar para o que precisavam melhorar. Em 1986, o estado da Califórnia destinou US$ 245 mil para a Força Tarefa para Promover Autoestima e Responsabilidade Social, acreditando que o investimento seria recompensado com a queda da criminalidade, do fracasso escolar, do número de gestações indesejadas e de dependência química.

No entanto, mesmo com o grande impulso do movimento a favor da autoestima – que não ficou restrito aos Estados Unidos, mas influenciou formas de pensar em quase todo o planeta-, dados científicos começaram a minar alguns de seus principais pressupostos e sustentações. Muitas pesquisas mostram que pouca gente sofre disso. Pelo contrário, a maioria de nós já se sente muito bem sobre si. Em um estudo publicado em 1989, o psicólogo Roy F. Baumeister e seus colegas Dianne M. Tice e Debra G. Hutton, na época da Universidade Case Western Reserve, mostraram que, de maneira geral na média das escalas a pontuação dos americanos em relação à autoconfiança está bem acima do ponto que denota visão moderada ou digna a respeito de si.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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