ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 18: 13-27 – PARTE III

Alimento diário - Comendo a Bíblia

A Queda de Pedro.

 

III – Na casa de Caifás, Simão Pedro começou a negar seu Mestre, vv. 15-18.

1. Foi com muita emoção que Pedro entrou na praça onde o tribunal estava reunido, relato que temos nos versículos 15 e 16. Aqui podemos observar:

(1) A amizade de Pedro com Cristo, que (embora não se provasse amizade) foi demonstrada em dois aspectos:

[1] Ele seguiu a Jesus, quando o levaram. Embora, no início, ele tivesse fugido com os demais, depois ele teve um pouco de coragem, e seguiu, a alguma distância, recordando as promessas que tinha feito de permanecer com Ele, não importando o que isto lhe custasse. Aqueles que tinham seguido a Cristo nas suas honras, e que compartilharam com Ele estas honras, quando o povo clamou Hosana a Ele, deveriam tê-lo seguido agora, em meio às suas injúrias, e tê-las compartilhado com Ele. Aqueles que verdadeiramente amam e valorizam a Cristo, o seguirão, em qualquer circunstância.

[2] Quando ele não pôde entrar onde Jesus estava, em meio aos seus inimigos, Ele permaneceu à porta, do lado de fora, desejando estar tão próximo dele quanto possível, esperando por uma oportunidade de aproximar-se mais. Desta maneira, quando nos depararmos com oposição, ao seguir a Cristo, nós devemos mostrar nossa boa vontade. Mas esta amizade de Pedro não foi amizade, porque ele não teve coragem e resistência suficientes para perseverar nela, e assim, como foi provado, ele apenas se deixou apanhar em uma armadilha. E mesmo o fato de que seguisse a Cristo, considerando tudo, merecia repreensão, porque Cristo, que o conhecia melhor do que ele conhecia a si mesmo, tinha lhe dito expressamente (cap. 13.36): “Para onde eu vou não podes, agora, seguir-me”, e lhe tinha dito mais de uma vez que ele o negaria, e recentemente ele tinha experimentado sua própria fraqueza, ao abandoná-lo. Observe que devemos evitar tentar a Deus, correndo riscos além da nossa capacidade, e arriscando-nos demais em um caminho de sofrimentos. Se nosso chamado for claro, de expormo-nos ao risco, podemos esperar que Deus irá nos capacitar para honrá-lo, mas, se não for, nós podemos temer que Deus irá nos deixar para que nos envergonhemos.

(2) A bondade do outro discípulo dirigida à Pedro, que, como foi provado, também não foi bondade. O após­ tolo João, no seu Evangelho, referindo-se diversas vezes si mesmo como outro discípulo, levou muitos intérpretes a imaginar que este outro discípulo aqui era João, e eles têm muitas conjeturas sobre como ele seria conhecido do sumo sacerdote, como se ele tivesse nascido um homem melhor do que seu irmão Tiago, quando ambos eram filhos de Zebedeu, o pescador. Alguns dizem que ele tinha vendido suas propriedades ao sumo sacerdote, outros, que ele fornecia peixe à família do sumo sacerdote, mas ambas as hipóteses são muito improváveis. Porém, eu não vejo motivo para pensar que este outro discípulo fosse João, ou um dos doze. Cristo tinha outras ovelhas, que não pertenciam ao rebanho, e este poderia ser, como diz a versão siríaca, um daqueles outros discípulos que criam em Cristo, mas residiam em Jerusalém, e ali tinham seus postos. Talvez José de Arimatéia, ou Nicodemos, conhecidos do sumo sacerdote, sem que ele soubesse que eram discípulos de Cristo. Observe que, assim como há muitos que parecem discípulos, e não o são, há muitos que são discípulos, e não parecem sê-lo. Há boas pessoas escondidas nas cortes, até mesmo na de Nero, e também escondidas nas multidões. Nós não devemos concluir que um homem não fosse amigo de Cristo simplesmente porque se relacionava e convivia com aqueles que eram seus conhecidos inimigos. Veja:

[1] Este outro discípulo, fosse quem fosse, mostrou respeito por Pedro, ao deixá-lo entrar, não somente para satisfazer sua curiosidade e afeição, mas também para dar-lhe uma oportunidade de ser útil ao seu Mestre, neste julgamento, se houvesse ocasião. Aqueles que têm uma verdadeira amizade com Cristo e seus métodos, embora seu temperamento possa ser reservado, e suas circunstâncias possam levá-los a serem prudentes e retraídos, ainda assim, se sua fé for sincera, eles revelarão, quando forem chamados a fazê-lo, qual é sua inclinação, estando prontos a fazer um favor a um discípulo professo. Talvez Pedro tivesse apresentado este discípulo a Cristo, anteriormente, e agora ele retribuía esta gentileza, e não se envergonha de reconhecê-lo, embora, aparentemente, ele tivesse apenas uma aparência humilde.

[2] Mas esta gentileza provou não ser uma gentileza, antes uma grande crueldade. Permitir que Pedro entrasse na casa do sumo sacerdote deixou-o cair em tentação, e a consequência foi terrível. Observe que a cortesia dos nossos amigos frequentemente prova ser uma armadilha para nós, por intermédio de um afeto equivocado.

2. Depois de entrar, Pedro foi imediatamente atacado pela tentação, e frustrado por ela, v. 17. Observe aqui:

(1) Como foi leve o ataque. Foi apenas uma criada tola, de tão pouca importância que vigiava a porta, que o desafiou, e somente perguntou a ele, de modo descuidado: “Não és tu também dos discípulos deste homem?”, provavelmente suspeitando por causa da sua aparência medrosa, e pela sua entrada temerosa. Muitas vezes, nós manteremos melhor uma boa causa se tivermos bom ânimo nela, e pudermos expressá-la de uma forma positiva. Pedro teria tido algum motivo para alarmar-se se Malco o tivesse visto e se tivesse dito: “Foi este que cortou minha orelha, e eu quero a cabeça dele por isto”. Mas, quando uma criada somente lhe perguntou: “Não és tu também dos discípulos deste homem?”, Ele poderia, sem perigo, ter respondido: “E daí, se for?” Supondo que os servos o tivessem ridicularizado, e insultado, por causa disto, aqueles que podem suportar somente pouco, por Cristo, não podem suportar isto. Isto é apenas correr com homens que vão a pé.

(2) Como foi rápida a capitulação. Sem ter tempo para recuperar-se, subitamente respondeu: “Não sou”. Se ele tivesse tido a coragem de um leão, teria dito: “É minha honra sê-lo”. Ou, se tivesse tido a prudência da serpente, ele teria mantido silêncio neste momento, pois era uma hora ruim. Mas, completamente preocupado com sua própria segurança, ele pensou que não conseguiria assegurá-la, exceto por uma negação incisiva: “Não sou”. Ele não somente nega, mas até mesmo desdenha, e zomba das palavras da criada.

(3) Mas ele ainda vai além, na tentação: “Estavam ali os servos e os criados… e com eles estava Pedro”, v. 18.

[1] Veja como os servos se davam importância. Como a noite estava fria, eles fizeram fogo no pátio, não para seus senhores (que estavam tão ansiosos na perseguição a Cristo, que se esqueceram do frio), mas para si mesmos, para se revigorarem. Eles não se preocupavam com o que aconteceria a Cristo. Toda a sua preocupação era sentar-se e aquecer-se, Amós 6.6.

[2] Veja como Pedro se juntou a eles, e se fez um deles. Ele sentou e aqueceu-se. Em primeiro lugar era uma falta suficientemente grave o fato de que ele não auxilias­ se seu Mestre, e não aparecesse para vê-lo na parte superior do pátio, onde Ele estava sendo interrogado. Ele poderia ter testemunhado por Ele, e ter confrontado as falsas testemunhas que juraram contra Ele, se seu Mestre o tivesse chamado. Pelo menos, ele poderia ter sido uma testemunha por Ele, poderia ter tido uma ideia exata do que estava acontecendo, para que pudesse relatar aos outros discípulos, uma vez que nenhum deles tinha podido entrar para ouvir o julgamento. Ele poderia ter aprendido, com o exemplo do seu Mestre, a como se comportar quando chegasse sua vez de sofrer desta maneira. No entanto, nem sua curiosidade nem sua consciência puderam levá-lo à corte, mas ele se sentou por ali, como se, como Gálio, nada destas coisas o incomodasse. E, ao mesmo tempo, nós temos razão para pensar que seu coração estava tão cheio de tristeza e preocupação como poderia estar, mas ele não tinha coragem de admitir isto. “Senhor, não nos induzas à tentação”. Em segundo lugar, era muito pior que ele se unisse àqueles que eram inimigos do seu Mestre: “Com eles estava Pedro, aquentando-se também”. Esta era uma desculpa pobre para juntar-se a eles. Uma pequena coisa atrairá às más companhias aqueles que forem atraídos pelo amor a um bom fogo. Se o zelo de Pedro pelo seu Mestre não tivesse congelado, mas tivesse permanecido no calor em que parecia estai apenas poucas horas antes, ele não teria tido oportunidade de aquecer-se agora. Pedro merecia ser repreendido:

1. Porque se associou a estes homens maus, e ficou na companhia deles. Sem dúvida, eles estavam se divertindo com a expectativa desta noite, zombando de Cristo, do que Ele tinha dito, do que Ele tinha feito, e triunfando na sua vitória sobre Ele. E que tipo de divertimento isto representaria para Pedro? Se ele dissesse o que eles diziam, ou, pelo seu silêncio, consentisse, ele se envolveria em pecado. Se não, ele se exporia ao perigo. Se Pedro não tinha coragem de aparecer publicamente pelo seu Mestre, ele deveria ter tido devoção suficiente para afastar-se para um canto, e chorar em segredo pelos sofrimentos do seu Mestre, e pelo seu próprio pecado em abandoná-lo. Se ele não podia ter feito o bem, ele devia ter evitado fazer o mal. E melhor esconder-se do que aparecer sem propósito, ou com maus propósitos.

2. Porque desejou ser considerado um deles, para que não suspeitassem que ele era um discípulo de Cristo. Este é Pedro? Que contradição é esta à oração de todo homem justo: “Não colhas a minha alma com a dos pecadores!” Saul, entre os profetas, não é tão absurdo como Davi, entre os filisteus. Aqueles que menosprezam a sorte dos escarnecedores no futuro, devem temer se assentar na roda dos escarnecedores agora, no presente. Não convém que nos aqueçamos com aqueles em cujo meio corremos o risco de nos queimarmos, Salmos 141.4.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.