PSICOLOGIA ANALÍTICA

MOTIVAÇÃO NA MEDIDA CERTA

Alto desempenho nos esportes não é apenas uma questão de preparo físico – muitas vezes, o psiquismo é o principal responsável pelo triunfo ou pela derrota. Por isso, cada vez mais atletas reconhecem a importância do treinamento mental e recorrem a técnicas para exercitar o cérebro.

Motivação na medida certa

Não se ouve uma mosca no estádio. Na pista, os atletas se colocam em posição de partida. Os espectadores prendem a respiração quando o juiz dá o sinal para o início da competição. É o momento de avaliar os resultados de uma preparação que exigiu exaustivos treinos diários nas pistas e nas academias. Mas para ser o primeiro a atravessar a linha de chegada não basta apenas o preparo físico. Pois de que vale a força física se as emoções estremecem no momento mais crítico?

A falta de controle pode surgir justamente nos segundos que antecedem a largada: os mesmos rituais que prendem a atenção do espectador também representam uma tensão às vezes insuportável para o atleta. Se o corredor queimar a largada acaba desclassificado, mas se sair atrasado ou percorrer a pista relaxado demais desperdiça as suas chances. Para vencer essa tensão, precisa que seu corpo e sua mente trabalhem em harmonia. Isso significa manter concentração, tranquilidade, confiança na própria capacidade e o objetivo na cabeça para bloquear os pensamentos que possam comprometer o resultado.

Atingir o equilíbrio almejado muitas vezes requer o trabalho de um psicólogo esportivo, profissional que começa a ser reconhecido por sua importância em vários países. Isso se deve ao fato de que os resultados obtidos pela elite de atletas das mais diversas modalidades estão cada vez mais próximos, e se diferenciar num ambiente assim exige mais que treinamento físico – exige treinamento mental. Pensamentos e sentimentos tornam-se elementos decisivos, principalmente agora que muitos preconceitos estão sendo vencidos, incluindo o medo de parecer louco se recorrer a um psicólogo. E quanto mais limites são vencidos mais fica claro que a vitória é decidida, em grande parte, na cabeça. Desde os anos 80, os “treinadores mentais” são comuns nos Estados Unidos, mas só agora se firmam na Europa e no Brasil.

Não se pode descartar completamente o efeito placebo de ter ao lado alguém empenhado em incentivar o esportista e em tirar dele o melhor rendimento possível, mas o treinamento mental, assim como o físico, bem-sucedido exige o exercício ativo e regular de habilidades. Não se trata de mágica, mas de métodos bastante efetivos.

O psicólogo Hans Eberspacher, coordenador-chefe da seção de psicologia esportiva da Universidade de Heidelberg, cita algumas áreas nas quais os atletas podem tirar proveito do acompanhamento psicológico direcionado: controle da atenção e da concentração; crença na própria capacidade; ativação das reservas físicas. Para tanto, devem-se automatizar os modelos mentais a tal ponto que eles ocorram – assim como os movimentos treinados – sem controle consciente. Assim, principalmente em esportes individuais, a cabeça não fica “livre” apenas para a competição – pelo menos durante o período de duração da prova.

“No momento decisivo, a cabeça deve apoiar e não atrapalhar a ação”, observa Eberspacher. Quanto melhor se consegue sincronizar pensamento e ação, maior a possibilidade de chegar ao ápice de desempenho. “Minha raquete parecia ser a continuação do meu braço e, apesar das linhas demarcadoras, a quadra parecia ser enorme aos meus olhos. Percebi que sentia, ao mesmo tempo, a mais alta concentração e o sentimento excitante de estimulação fervilhante. E mesmo assim, eu estava totalmente tranquilo e me alegrava com toda bola que vinha em minha direção. Eu tinha certeza absoluta de que, na raquetada seguinte, conseguiria colocar a bola praticamente em qualquer lugar”, declarou numa entrevista o tenista Rafael Nadai. Nos anos 70, o psicólogo americano Mihalyi Czikszentmihalyi cunhou um termo que resume bem o estado descrito pelo campeão olímpico: flow – um mergulho completo na própria ação. Despreocupada e sem resistência ou necessidade de impulso externo, a pessoa imerge na sequência de seus gestos – seja num trabalho compensador, num jogo ou numa caminhada no parque.

 

O TÊNIS DE CADA UM

Como um esportista pode se colocar sozinho nesse “estado de desempenho ideal”? O principal pré-requisito para isso é uma alternância razoável entre pressão e relaxamento. O atleta não pode se sentir sobrecarregado nem subaproveitado, para que não surja espaço nem para o medo do fracasso nem para a sensação de enfado. No passo seguinte, ele deve se aprofundar totalmente na sequência de seus movimentos – por exemplo, quando um salta­ dor em altura imagina, com a maior exatidão possível, como toma impulso, salta e faz seu corpo deslizar por cima da barra de metal. E, em vez de apelos gerais – do tipo “concentre-se” -, as indicações sobre como a ação planejada deve decorrer são bem mais úteis. Durante o saque, no tênis, por exemplo, pode-se pensar na sequência: “oscilar, levantar o braço, esticar!”. Com algum treino, é possível imaginar com detalhes o movimento ideal.

A visualização, porém, não serve apenas para a concentração durante a competição; mesmo durante os treinos ela pode ajudar a automatizar exercícios motores complexos. O efeito físico desse método foi comprovado há muito tempo: já no fim do século 19, o fisiologista inglês William Carpenter (1813-1885) afirmou que a mentalização detalhada (e em alguns casos a observação) de movimentos pode desencadear reações musculares. Não raro, nossa perna estremece quando vemos na televisão um jogador de futebol chutando a bola para o gol. Esse “contágio ideomotor”, também denominado efeito Carpenter, faz com que, se a visualização se repetir várias vezes, seja mais fácil imitar o movimento real.

Há pouco tempo, estudiosos do cérebro examinaram esse fenômeno com a ajuda de exames de imagem. Como o psicólogo Stephen Kosslyn, da Universidade Harvard, comprovou há alguns anos, imaginar movimentos torna ativas as áreas motoras responsáveis do córtex cerebral – como se elas realmente estivessem participando da ação. Provavelmente, novas conexões sinápticas entre as células neurais dessa região cerebral produzem o efeito do aprendizado auto- sugestivo. E esportistas estão descobrindo o quanto pode ser útil usar esse recurso. É o caso dos jogadores de basquete, que recapitulam constantemente o movimento ideal ao treinar o lance livre para elevar a porcentagem de acertos. Durante muito tempo, considerava-se que a visualização proporcionava melhores resultados se a pessoa dividisse o movimento em partes: agachar, dobrar o braço, curvar o pulso e rolar a bola pela palma da mão ao lançá-la, por exemplo.

Estudos recentes, no entanto, indicaram que a concentração em pontos -chave, (joelho, braço, mão) também pode atrapalhar a fluência da coordenação, principalmente se ela já está fortemente automatizada. O mais indicado, portanto, é imaginar detalhadamente o objetivo visado pela ação, ou seja, não o movimento, mas seu resultado: por exemplo, a bola entrando na cesta. O campeão americano de golfe Tiger Woods, por exemplo, garante que é mais fácil acertar a jogada quando se imagina concretamente o barulho característico da bola ao entrar na caçapa.

Controlar a própria atenção é comprovadamente indispensável para os es portes. Mas muitas vezes, é justamente essa a maior dificuldade dos chamados “campeões mundiais em treinos”. Eles brilham durante a preparação com os melhores desempenhos – mas quando chega a hora H, quase sempre fracassam. Esse efeito é conhecido por qualquer um que já quis alguma vez apresentar em público piada ou truque de mágica do qual tinha perfeito domínio: olhares ansiosos podem dificultar a apresentação. Podemos imaginar então o quão difícil deve ser manter a calma no burburinho da competição, diante do cenário intimidante do estádio e da necessidade (muitas vezes auto imposta) de vencer.

Nesse caso, monólogos objetivos podem ajudar. Em vez de “Ai, meu Deus, tomara que dê tudo certo”, o lema deve ser: “Eu só preciso me esforçar e vou conseguir!”. Lembrar-se de experiências passadas bem-sucedidas ou pensar nas supostas fraquezas do adversário também impedem pensamentos e sentimentos prejudiciais. O funcionamento certeiro dessa tática, porém, depende da personalidade do atleta. O sapato (ou tênis) de um tipo extrovertido aperta em um lugar; o do tímido, em outro. Para os psicólogos esportivos, isso significa que é preciso realizar sempre um trabalho personalizado e os métodos devem ser adequados a cada indivíduo. A importância das características do temperamento dos esportistas ficou demonstrada de forma impressionante pelo saltador com vara ucraniano Sergej Bubka, que conseguiu seis títulos mundiais entre 1980 e 1990. O fato de Bubka dominar sua área como ninguém não se devia a uma forma física extraordinária. “Ele sai correndo como um louco, como se nunca tivesse sentido medo de nada, e isso faz dele uma exceção”, chegou a comentar outro campeão da mesma modalidade, Tim Lobinger. Nessa prova, de grande exigência técnica, na qual o competidor tem de se lançar a aproximadamente6 metros de altura com a ajuda de um bastão de fibra de vidro, é comum haver relatos de atletas que sentiram as pernas bambas durante a corrida de impulso. Ao que tudo indica, só Bubka não sentia o mesmo.

Além da coragem, muitas vezes outra forma de auto superação é importante: a capacidade de suportar o sofrimento. Principalmente aqueles que praticam esportes de longa duração têm de ser capazes de extenuar o próprio corpo até o limite da dor- e além dele. “Sofre, cachorro!” O drástico apelo do ciclista profissional Udo Bõlz ao seu colega de time Jan Ullrich durante o Tour de France 2003 não foi ouvido. Naquele momento, Ullrich já tinha perdido a visão e a audição.

Quem não possui por natureza o dom de se desligar mentalmente do medo ou da dor ainda pode treinar essa prática. Para tanto, a pessoa precisa se suje it ar constantemente a situações extremas desse tipo até que elas se tornem corriqueiras. Para reduzir a exaustão física e psíquica e o estresse atrelado a elas, existem técnicas como o relaxamento muscular ou o treinamento autógeno. O trabalho para combater o estresse e o medo do fracasso representa um componente importante do treinamento mental. Esportistas de ponta precisam saber conviver com a pressão permanente para evitar consequências como a depressão. Claro que quando o caso se torna mais grave, geralmente um psicólogo é convocado. Mas profissionais como o professor Martin Schweer, do Departamento de Psicologia Esportiva da Faculdade Vechta, Alemanha, criticam exatamente essa atitude: segundo ele, vários treinadores e associações não se preocupam com ações preventivas e acionam especialistas somente quando os danos estão instalados. Uma pesquisa realizada há alguns anos por cientistas esportivos da Universidade Johann Wolfgang, de Frankfurt, indicou que mais de dois terços de todas as medidas adotadas por psicólogos esportivos visam a superação de crises agudas. Segundo Schweer, em vez de chamar bombeiros para apagar o fogo, seria mais importante haver acompanhamento de longo prazo para que problemas psicológicos possam ser reconhecidos e superados a tempo.

De qualquer forma, salvo algumas exceções, os esportistas com alto desempenho em geral já trazem em si os pressupostos psíquicos favoráveis – senão, nunca teriam chegado tão longe. Estudos atestam, por exemplo, que atletas de elite possuem, em comparação com os simples mortais, grande inteligência espacial e capacidade de concentração. Concentrados nos resultados, eles obtêm valores acima da média. E nas competições, demonstrar autoconfiança é quase um pré-requisito exigido pelo treinador e pela torcida.

“Para os atletas, é imprescindível, inicialmente, a imposição de metas altas, mas atingíveis, que desafiem sua capacidade”, esclarece o psicólogo esportivo Jurgen Beckmann, da Universidade de Potsdam. “Essa chamada fase de motivação, porém, transforma-se em algum momento na etapa de volição, na qual é preciso realmente atingir a meta visada. Nesse momento, o esportista deve certamente se livrar de qual­ quer dúvida que tenha em relação a si mesmo.” O modelo de Muhammad Ali – ” Eu sou o maior!” – só serve para o alcance concreto da meta. Durante o estabelecimento prévio do objetivo a ser alcançado é importante uma autoavaliação realista a fim de evitar frustrações permanentes, o que costuma ser extremamente prejudicial. O psicólogo americano Albert Bandura colocou o conceito de auto eficiência – popularmente conhecido como “a fé remove montanhas” – em sua teoria social-cognitiva do aprendizado. Resumidamente, significa que, muitas vezes, apenas aquilo que pensamos poder realizar já restringe nossas possibilidades reais. Inversamente, porém, também se pode dizer: quem está suficientemente convencido de que pode atingir determinada meta consegue superar obstáculos maiores.

 

O MELHOR DE SI

“Eu posso! Eu consigo! Ninguém vai me impedir!” Com frases como essas, o esportista se habitua a apostar na própria capacidade. Monólogos motivadores oferecem a possibilidade de eliminar dúvidas e inseguranças. Os efeitos dessa prática foram comprovados em 1977 em um estudo clássico da psicologia esportiva. O pesquisador Michael Mahoney, da Universidade Estadual da Pensilvânia, entrevistou, na época, junto com o treinador Marshall Avener, um grupo de ginastas sobre os seus pensamentos e monólogos durante as competições. Ficou demonstrado que as esportistas bem-sucedidas, que haviam se qualificado para representar os Estados Unidos nas Olimpíadas, não tinham menos medos do que suas concorrentes não qualificadas. Elas apenas os compensavam melhor na medida em que se auto- encorajavam o tempo todo. Já as esportistas que tiveram pior desempenho estavam claramente menos satisfeitas consigo mesmas.

Na maioria das modalidades esportivas por equipes, por outro lado, a concorrência por desempenho é “mais leve” do que, por exemplo, no atletismo ou natação. Se o time joga bem, mas mesmo assim perde, várias coincidências e variáveis também são consideradas influências decisivas. Para que esses variados aspectos não desanimem o esportista individualmente, é necessário um forte sentimento de solidariedade dentro do time. Por isso, com frequência, treinadores e jogadores enfatizam nas entrevistas a “união da equipe para que cada um dê o melhor de si”. Esportistas de fim de semana (estima-se que existam no Brasil cerca de 4 milhões de corredores profissionais e amadores, dos quais mais de 300 mil participam de corridas de rua) também podem utilizar técnicas como visualização, monólogos motivadores ou técnicas de relaxamento para refinar a coordenação motora, aumentar a autoconfiança ou lidar com reveses como lesões ou sentimentos derrotistas. O desejo frequente de testar os próprios limites d e desempenho faz com que cada vez mais amadores se tornem adeptos do treinamento mental. Nesse campo, como em tantos outros, aliás, também é preciso valorizar a formação profissional, já que muitas pessoas tendem a acreditar que, pelo fato de incentivar o atleta, qualquer amigo ou profissional sem especialização possa ser considerado um “psicólogo esportivo”. Para o ex-piloto de fórmula l Michael Schumacher, o seu cozinheiro particular indiano, Balbir Singh, fazia o papel de “massagista” da alma. Já o ciclista e vencedor do Tour de France Jan Ullrich declarou que recorre a sua fisioterapeuta, Birgit Krohme, não só para massagear seus músculos cansados, mas também quando percebe que está sem motivação.

Mas o que diferencia o especialista do “guru” é, primeiramente, a objetividade. Levar em consideração os objetivos e necessidades individuais sempre é mais promissor do que promessas generalizadas de sucesso. Por esse motivo, todo acompanhamento sério feito por um psicólogo esportivo se inicia com um diagnóstico da situação. Qual o nível de desempenho em que o esportista se encontra? Quais são seus problemas, desejos e objetivos? Só então se inicia a busca por métodos adequados para treinar a concentração, a coordenação ou o desejo de perseverança. Contudo, o preparo físico e o domínio da técnica e das táticas continuam sendo o ponto – chave de qualquer modalidade esportiva. Pelo menos, ninguém ainda ganhou uma maratona apenas com base no treinamento mental.

TÉCNICAS PARA ESTIMULAR A MENTE

Motivação na medida certa.2

VISUALIZAÇÃO dos movimentos, imaginando sua execução da forma mais perfeita possível. As etapas de cada ação são desmembradas e é priorizada a concentração no resultado desejado (como acertar a bola no gol).

MONÓLOGOS DIRIGIDOS nos quais a pessoa “fala” consigo mesma enquanto treina, estimulando a própria performance, com frases como “muito bem, continue assim!”, em uma corrida de distância, por exemplo. O objetivo é anular estímulos externos que distraiam o esportista e afastar pensamentos prejudiciais, reforçando o desejo de perseverança.

RELAXAMENTO MUSCULAR PROGRESSIVO propõe a alternância da contração de partes do corpo, como ombros ou braços. O fisiologista Edmund Jacobson (1885-1976) criou um programa sistemático de exercícios que leva em conta todos os grandes grupos musculares.

TREINAMENTO AUTÓGENO  foi desenvolvido na década de 20 pelo médico Johannes Heinrich Schultz (1884-1970) para eliminar medos e ansiedades de seus pacientes. O ponto central do método são fórmulas auto sugestivas como “eu estou muito calmo!”. As frases são ditas em voz alta, em posição relaxada. A pessoa pode controlar até mesmo funções como a respiração e pulsação.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.