PSICOLOGIA ANALÍTICA

DETECÇÃO PRECOCE DA ESQUIZOFRENIA

Desde os primeiros sintomas até a identificação da doença decorrem de um a dois anos. Fazer um rápido diagnóstico pode ser decisivo para um bom prognóstico.

Detecção precoce da esquizofrenia

Tudo começou com uma suspeita de “crise de adolescente”. Aos 17 anos, de modo quase imperceptível, o comportamento de João (nome fictício) começou a mudar. O interesse pela escola, assim como pelas peladas de futebol com os amigos, aos poucos foi sumindo. Nos fins de semana, não tinha mais vontade de sair. Ficava muito tempo fechado no quarto, às vezes lendo, às vezes sem fazer nada. Os pais percebiam nele uma irritação frequente que oscilava com tristeza. Inicialmente, suspeitaram de uma crise típica da adolescência, mas com o passar dos meses começaram a se preocupar, pois ele só piorava. Após um ano e meio, notaram que João falava coisas esquisitas e não gostava mais de sair de casa, alegando que as pessoas o olhavam. Queixava-se de rirem dele e de sensações estranhas no corpo como uma espécie de “eletricidade”. Decidiram então leva-lo ao psiquiatra, apesar de sua resistência.

Conversando com o médico, João contou das vozes que lhe falavam e zombavam dele. Sentia-se observado e controlado por raios magnéticos emitidos de aparelhos ocultos em vários lugares. Com isso, imaginava ter seu pensamento monitorado. Sentia também que um chip de computador havia sido inserido em seu corpo, para ajudar esse controle. Com tudo isso, estava angustiado e perplexo. Os pais relataram sua apatia e seu desinteresse, além da perda de vivacidade. O psiquiatra examinou-o detalhadamente e formulou a hipótese de esquizofrenia. Medicou-o e após algumas semanas João sentia-se melhor. As vozes tinham desaparecido, sua mente já não parecia mais tão controlada. No entanto, continuava apático. Sua melhora foi gradual, mas, mesmo após meses de tratamento com medicação, ainda não tinha voltado a ser como era antes de adoecer.

Desde os primeiros sintomas, foram quase dois anos até que João fosse a um psiquiatra. Esse prazo, no entanto, está na média do que costuma ocorrer com a maioria dos pacientes. Mas a detecção precoce de uma doença como a esquizofrenia pode ser decisiva para um tratamento bem-sucedido.

Em medicina, como em geral na vida, melhor prevenir que remediar. O conceito de prevenção é largamente adotado na área médica. A chamada prevenção primária visa evitar que uma doença ocorra; o exemplo mais comum é a vacinação em larga escala. A secundária consiste na detecção precoce de um distúrbio (muitas vezes ainda assintomático) ou de seus fatores de risco. A prevenção terciária, por fim, visa evitar ou reduzir as incapacidades provocadas por uma doença e impedir seu agravamento. Em psiquiatria, entretanto, o conceito de prevenção primária ou secundária ainda é, proporcionalmente pouco utilizado.

DOENÇA CRÔNICA

A esquizofrenia, doença grave e de evolução crônica, que acomete o adulto jovem e cujo tratamento envolve o uso contínuo de medicação e a reabilitação psicossocial, representa um sério problema de saúde pública. Durante sua fase aguda, a doença se manifesta com sintomas como delírios e alucinações (chamados sintomas positivos). Na fase de remissão, surgem principalmente sintomas como embotamento afetivo, perda da iniciativa, desinteresse, pobreza de discurso (denominados sintomas negativos). Seu curso é crônico, tipicamente alternando episódios agudos (surtos) com períodos de remissão parcial dos sintomas. Seu início geralmente insidioso, no fim da adolescência, e o fato de que pode deixar sequelas importantes (especialmente os sintomas negativos) tornam fundamental a detecção e o tratamento precoces antes do primeiro surto.

Vários estudos realizados em diferentes países na última década mostraram o atraso de um ou dois anos entre o início da psicose até sua detecção e o tratamento adequado (em geral medicações e/ou hospitalização). Este período costuma ser caracterizado com a sigla DUP (em inglês, duration of untrated psychosis). Pesquisas recentes demonstraram que o primeiro episódio é uma excelente oportunidade terapêutica e um momento crítico, pois provavelmente a cronicidade se “instala” no curso inicial da doença. Por isso, um tratamento rápido e eficaz parece estar associado a um melhor prognóstico.

Segundo R. Wiatt e J. Henter, o termo “intervenção precoce”, em psiquiatria, engloba vários objetivos. Primeiramente, a detecção na comunidade de indivíduos com alto risco ou com sintomas prodrômicos (da etapa inicial de uma doença), para reduzira morbidade e talvez a incidência das psicoses. Em seguida, a identificação e prevenção dos fatores de risco desses transtornos, para reduzir sua incidência. Por fim, a intervenção precoce com medicações e abordagens psicossociais para pessoas no primeiro surto, para reduzir a morbidade dos transtornos.

Existem várias razões para a DUP ser tão longa, incluindo falta de percepção dos sintomas, negação da doença, estigma, falta de motivação, de acesso a intervenções adequadas, de informações sobre doenças mentais e psicoses na comunidade e entre os profissionais de saúde, rede social pobre e retraimento social. Além disso, o primeiro contato com serviços de saúde geralmente não se dá com o psiquiatra. Como descrito no exemplo acima, passaram-se vários meses até que João chegasse a uma avaliação psiquiátrica. Admite-se hoje que desde as primeiras manifestações inespecíficas apresentadas por ele já havia sintomas iniciais da doença. Portanto, quando o tratamento chegou até João o quadro estava avançado. Mas se os pesquisadores admitem que a intervenção nas fases precoces da esquizofrenia poderia reduzir a gravidade da doença, um dos desafios atuais é identificar precocemente tais pacientes. A demora na identificação da doença poderia ser minimizada se a comunidade e os médicos não-psiquiatras tivessem informações sobre os serviços de saúde mental existentes, conscientização sobre doença mental, em especial as psicoses, e sobre a importância da detecção precoce e opções de tratamento.

Na maioria dos transtornos psicóticos os sintomas ou as alterações de comportamento relacionadas a eles são precedidos por sintomas leves e menos específicos, denominados prodrômicos. Uma fase prodrômica da esquizofrenia foi reconhecida a partir do começo do século XX. No entanto, essa fase não é diagnosticada como “doença”, pois compreende sintomas que podem existir sem que se desenvolva a esquizofrenia – tais como experiências mentais e comportamento “inadequadamente” adolescente. Alterações do comportamento habitual, insônia, inapetência, dificuldade de concentração, irritabilidade, depressão, isolamento social, queda no rendimento escolar são algumas dessas experiências.

S.W. Woods e colaboradores referem-se a um a nova população clínica, a dos pacientes com sintomas prodrômicos. Estes, quando comparados a outros pacientes psiquiátricos, que procuram tratamento, têm sintomas graves, que causam sofrimento a si e a seus familiares, com evidência de prejuízo cognitivo. Descreveram as principais razões para o ressurgimento do interesse nesta fase e sua identificação como: evidências de que o uso de antipsicóticos neste estágio está associado a um melhor prognóstico de longo prazo; os déficits associados à esquizofrenia já estão presentes no primeiro episódio psicótico, significando que poderiam estar presentes antes do

episódio; risco reduzido do uso de antipsicóticos de segunda geração quando comparados com os de primeira geração; evidências da identificação confiável e válida de sintomas prodrômicos para o risco de desenvolver esquizofrenia em um ano; em pacientes prodrômicos identificados, observou-se sofrimento destes e de seus familiares.

PRÉ-PSICOSE

Na definição retrospectiva de pró-dromo, este é um período de transtorno não psicótico, que precede o surgimento da psicose. Este conceito se alinha com o conceito histórico de pró-dromo na medicina, segundo o qual o termo só pode ser utilizado se precede a fase aguda da doença.

Apesar de o período prodrômico ser considerado precedente à doença propriamente dita, os estudos comparando crianças e adolescentes que se tornaram adultos normais e os que desenvolveram esquizofrenia mostram diferenças cognitivas, indicando uma verdadeira fase latente da doença, assim como consequências clínicas e sociais: sintomas inespecíficos e prejuízo no funcionamento oscilantes do aparecimento dos sintomas psicóticos positivos.

H.J Jackson e colaboradores investigaram 330 pacientes com primeiro episódio psicótico para comparar os sintomas prodrômicos entre as diferentes categorias diagnósticas e encontraram maior frequência destes nos pacientes com esquizofrenia e transtorno esquizofreniforme. Avaliando todas as categorias, os sintomas prodrômicos mais encontrados foram, isolamento social (52%), prejuízo nos papéis funcionais (44%) e ideias bizarras (38%). Outras pesquisas identificaram sintomas como o distúrbio da percepção do eu e preocupações exageradas e, como principais alterações de comportamento, abandono do estudo ou trabalho, perda ou mudança acentuada de interesses, passividade ou isolamento social marcante e mudança significativa e duradoura na aparência.

Aproximadamente de 10 % a 20% dos pacientes apontam o quadro psicótico franco sem um período prodrômico significante. Embora a maioria dos casos de esquizofrenia tenha um período prodrômico, não se sabe a frequência com que um transtorno psicótico se desenvolve em pessoas com sintomas prodrômicos. Sendo assim, é importante considerar quem está sob risco.

Como o conceito de pró-dromo é retrospectivo, Patrick McCorry e seus colaboradores propuseram uma nova abordagem do tempo, prospectiva e preditiva, o que facilitaria o diagnóstico precoce. Desde 1994, esse grupo de pesquisadores australianos realiza vários estudos para definir critérios operacionais de um grupo de pacientes que chamaram de alto risco (ultra- high risk ­ UHR) para progressão de transtornos psicóticos. Assim, nesta segunda conceituação, pró-dromo é uma síndrome que confere maior vulnerabilidade à psicose, “um estado mental de alto risco”, ou “um estado precursor”.

Na década de 60, o psiquiatra alemão Cerd Huber descreveu os sintomas deficitários da esquizofrenia que são perceptíveis nos estágios precoces da doença, antes mesmo dos sintomas psicóticos, e lhes deu o nome de “sintomas básicos”. Desenvolveu uma escala de avaliação retrospectiva destes sintomas, a BSABS – Bonn Scale for Assessment of Basic Synptoms. Em um estudo com 160 pessoas, a presença dos sintomas básicos predisse psicoses com 70% de probabilidade. O grupo de McCorry desenvolveu a Caarm – Comprehensive Assessment of At-Risk Mental State, que operacionalizou a definição do UHR- Ultra High Risk, o estado mental de alto risco para psicose.

Apoiando-se nos critérios australianos, o grupo da Universidade Yale, nos Estados Unidos, desenvolveu a Sops – Scale of Prodromal Symptoms, um instrumento que avalia a gravidade dos sintomas e está contido numa entrevista semi estruturada, que define, diagnostica e mede sistematicamente as mudanças nos estados “pré-psicóticos”, a Sips – Structured Interview for Prodromal Syndromes.

O objetivo principal das pesquisas na fase prodrômica é sua detecção, com objetivo de testar marcadores de vulnerabilidade e identificar casos de alto risco para desenvolver psicose, com boa sensibilidade e especificidade. Somente assim intervenções preventivas podem ser desenvolvidas e testadas. Os programas de detecção, avaliação e tratamento de pessoas com sintomas prodrômicos ou com risco para desenvolver psicoses demonstraram que estas pessoas, se não tratadas, desenvolvem transtornos psicóticos em grande proporção dos casos, o que tem sido chamado de “taxa de conversão” para psicoses.

Na Alemanha, o projeto CER – Cologne Early Recognition – avaliou 385 pessoas com sintomas prodrômicos (segundo a escala BSABS) e 49,4% desenvolveram esquizofrenia após quatro anos. Na Austrália, funciona desde 1994 a clínica PACE – Personal Assessment and Crisis Evaluation -, cujo principal pesquisador é o prof. Patrick McCorry. A PACE é uma extensão de um programa de prevenção de psicoses, o EPPIC – Early Psychosis Prevention and Intervention Center -, com o objetivo de desenvolver estratégias para identificar pessoas com risco iminente de desenvolver psicose e realizar intervenções que previnam ou retardem a psicose para o grupo de alto risco. No projeto-piloto, foram avaliadas 21 pessoas com estado mental de risco e se observou uma taxa de conversão de 33% após seis meses. Após operacionalizar em seus critérios, foram examinadas mais de 49 pessoas, observando uma taxa de conversão de 41% depois de um ano e 50% em dois anos.

O DESAFIO DO TRATAMENTO

O grupo da Universidade Yale baseou-se nos critérios de McCorry para produzir a Cops- Criteria of Prodromal States, que engloba três subgrupos de pródromo, para pacientes de 12 a 45 anos: sintomas  positivos atenuados –  início recente de pelo menos um dos sintomas do Transtomo de Personalidade Esquizotípico,  segundo o DSM-IV; sintoma psicóticos breves – sintomas psicóticos transitórios, por menos de uma semana, incluindo alucinações, delírios, discurso desorganizado, com resolução espontânea; e risco genético com deterioração funcional – sintomas inespecíficos de ansiedade e depressão, perda recente de 30 pontos na CAF (sigla em inglês para Escala de Funcionamento Global) e parente de primeiro grau com diagnóstico de transtorno do espectro da esquizofrenia segundo o DSM-IV.

O grupo de pesquisadores da Universidade Yale fundou a clínica Prime ­ Prevention through Risk Identification Management and Education. Estudaram o valor preditivo da Sops em 22 pessoas, e 7 das 11 com sintomas prodrômicos converteram para psicose após um ano, enquanto os 11 sem sintomas prodrômicos mantiveram-se sem desenvolvimento de psicose. Estes dados sugerem que a taxa de conversão nos pacientes com estado mental de alto risco deva ser de 40% a 60% no prazo de um ano.

Um dos grandes desafios nessa área é fazer com que pessoas de risco sejam reconhecidas e busquem acompanhamento médico. Nesse âmbito, o esclarecimento da comunidade, a atenção às queixas e ao comportamento da pessoa é o melhor meio de identificar que “algo não vai bem” com ela. Professores, profissionais de saúde, escolas e os familiares são os que podem detectar tais alterações de comportamento e buscar auxílio. Eventualmente amigos e pares também notam que algo está diferente. Por isso, manter um canal de comunicação aberto com esse grupo é também muito importante.

Estudos recentes vêm demonstrando que ao longo do período que antecede as manifestações psicóticas francas e durante o primeiro episódio psicótico ocorrem alterações discretas progressivas no sistema nervoso central com perda de substância cinzenta e alargamento de ventrículos laterais.

Pessoas que pertencem ao grupo de alto risco para desenvolvimento de psicose testadas com uma bateria neuro­psicológica apresentam rendimento inferior ao da população normal, porém superior ao dos indivíduos com esquizofrenia. Isso mostra que a população de risco já apresenta alterações antes da doença, mas não deterioração semelhante à dos pacientes com esquizofrenia. Estes e outros estudos fazem supor que o período inicial da psicose parece ser “tóxico” para o sistema nervoso central, provocando alterações funcionais e anatômicas que levam posteriormente sequelas observadas nos casos crônicos.

O recente crescimento de programas clínicos e de pesquisa de detecção precoce de psicoses tornou possível a exploração de intervenções preventivas na fase pré-psicótica de quadros. Vários estudos examinaram o efeito das ações educativas sobre as doenças mentais graves. Na Noruega foi feita uma campanha sistemática de conscientização sobre psicoses incluindo conferências cientificas, espetáculo de artes, exibição de filmes, aulas e campanhas nos jornais e TV. As informações visaram diminuir o preconceito. Esta campanha concomitante com um projeto de intervenção precoce, levou a uma redução da média da DUP de 114 semanas para 26 semanas, uma diferença estatisticamente significativa.

Poucos estudos clínicos questionaram se intervenções na fase prodrômica podem alterar o curso na cura da doença. O treinamento do médico generalista para reconhecer sintomas mais de transtorno mental parece reduzir o número de casos novos de psicoses funcionais. Um estudo inglês integrado a Buckinghan Early Intervention Project ­ demonstrou que a psicoeducação familiar, monitoramento longitudinal e prescrição de antipsicóticos estavam associados à redução da taxa de incidência de esquizofrenia de7,4 para, 0,75 caso/100 mil pessoas sob risco/ano, sugerindo que intervenções precoces podem prevenir ou retardar o início do quadro psicótico.

Nestes primeiros estudos as intervenções psicossociais e o tratamento ativo da depressão e ansiedade parecem ter diminuído, mas não evitado a conversão para psicose. Por isso, o grupo de pesquisadores australianos realizou um ensaio clínico, aberto, aleatorizado, comparando tratamento com baixa dosagem de antipsicóticos e intervenções psicossociais preventivas específicas versus intervenções baseadas na necessidade do paciente. Houve um atraso no início do quadro, redução na prevalência e possivelmente da incidência de psicose. O ensaio clínico prospectivo aberto da clínica Pace alocou aleatoriamente os indivíduos para receberem tratamento com baixas doses de antipsicótico (Rispendona) e terapia cognitiva e, no outro grupo controle apenas tratamento suportivo. A taxa de conversão para psicose foi de 9.7% no grupo de tratamento e 35,7% no grupo de controle, mostrando que farmacoterapia e psicoterapia específicas podem, no mínimo, retardar o início e, talvez, reduzir a incidência de psicoses. Questões éticas vêm sendo discutidas em relação aos estudos de intervenção precoce já que os marcadores da população de alto risco ainda não são claramente definidos. A favor da intervenção precoce está a possível prevenção do desenvolvimento da doença, ou o retardamento de sua manifestação. O tratamento precoce poderá também diminuir a progressão da doença, melhorando o prognóstico do paciente. Por outro lado, a intervenção em uma pessoa que não desenvolveria a doença, apesar de pertencer ao grupo de risco, pode trazer consequências em termos de estigmatização e de exposição aos ciclos adversos de medicamentos antipsicóticos e outros sem necessidade.

Tal como em outras áreas médicas, a prevenção da esquizofrenia vem se tornando gradualmente viável. O estudo de fatores de risco e do período inicial da doença antes do surgimento dos sintomas mais exuberantes da psicose tem contribuído para que se desenvolvam estratégias de detecção precoce da psicose e de seu tratamento.

SENHAS DE IDENTIFICAÇAO DE UMA PSICOSE

A esquizofrenia não é uma doença rara e afeta uma em cada cem pessoas, ao longo da vida. Aflige igualmente homens e mulheres de todos os estratos sociais e culturas. Ao lado da psicose maníaco-depressiva e da depressão endógena, a esquizofrenia está incluída entre as psicoses endógenas, ou seja, transtornos que provavelmente não obedecem a causas externas, mas internas. A disposição hereditária desempenha certo papel, mas, pelo que se sabe, para que a doença se manifeste são necessários fatores de risco. Contrariamente a muitas outras doenças psiquiátricas, a esquizofrenia aparece em homens com idade entre 17 e 27anos e em mulheres entre os 17 e 37, com ocorrência rara em fases mais avançadas da vida.

O primeiro surto psicótico costuma ser precedido de sintomas pouco característicos, como alterações da concentração, apatia, angústia, desconfiança e retraimento social, que podem durar semanas ou anos. Atualmente há vários centros de diagnóstico precoce da doença para reconhecer a tempo os primeiros sinais da psicose.

Em sua evolução a longo prazo, a doença não segue um padrão uniforme. Apesar de disporem de antipsicóticos altamente eficazes, a maioria dos esquizofrênicos levam uma vida com limitações impostas pelas recaídas esporádicas ou constantes. De todas as maneiras, 30% dos pacientes com o primeiro episódio psicótico conseguem reincorporar-se com a remissão do surto.

PROJETO BRASILEIRO

No Brasil está em andamento um projeto de pesquisa denominado Asas (Avaliação e Seguimento de Adolescentes e Adultos Jovens na Cidade de São Paulo), vinculado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo com o objetivo de detectar indivíduos jovens com estado mental de alto risco de desenvolver psicose na cidade de São Paulo; descrever os perfis sintomatológicos e os níveis de funcionamento social desses indivíduos e suas associações com idade e sexo; promover intervenções para os indivíduos com estado mental de alto risco de desenvolver psicose e, finalmente, avaliar a taxa de “conversão” para psicoses entre esses indivíduos.

São avaliadas e acompanhadas pessoas de ambos os sexos, com idade entre 14 e 30 anos, residentes na cidade de São Paulo, que apresentem queixas que levem à suspeita de “estado mental de risco”, conforme descrito anteriormente. O controle periódico inclui avaliação clínica, neuropsicológica e de neuroimagem, além dos procedimentos de orientação individual e familiar. Contato com o Asas pelo telefone (011) 3083-2655 ou pelo e-mail asas.sp@terra.com.br.

Detecção precoce da esquizofrenia.2

 

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OUTROS OLHARES

CHEGA DE SER MACHISTA

Crescem no País os grupos de homens que procuram, por meio da troca de experiências pessoais, melhorar seus relacionamentos e se libertar de estereótipos associados ao gênero masculino.

Chega de ser machista

Mais cedo ou mais tarde, isso iria acontecer. E que ótimo que já esteja ocorrendo. Em decorrência do movimento feminista, iniciado na década de 1960, os homens também estão em busca de maior equilíbrio e dos ajustes necessários para se libertarem de seus tradicionais rótulos, como, por exemplo, ser eternamente forte, vencedor e conquistador de riqueza e de mulheres. Mais: necessariamente não todos, mas aqueles que são agressivos e violentos querem, também, se curar desse comportamento. Eles estão se permitindo, assim, ter maior flexibilidade e confiança para expressar seus sentimentos – inclusive ao reconhecer que reproduzem atitudes machistas. “Como eu gostaria de poder voltar atrás”, disse à ISTOÉ J.G. (pede para não ser identificado). Ele foi condenado por ter agredido a sua ex-mulher. “Sofro de transtorno afetivo bipolar, mas estou melhorando. Nos grupos de homens posso trabalhar sentimentos como vergonha, culpa e remorso.”

Voltar no tempo, como é o sonho de J.G., não é possível. Para muitos homens, no entanto, participar de encontros em grupos terapêuticos funciona mais e melhor do que qualquer volta ao passado, sobretudo porque eles visam o futuro – tempo no qual esses cidadãos estarão socialmente mais adequados e emocionalmente mais plenos. “Aprendi com o grupo que posso manter sob controle meus rompantes de violência. Agora quero compartilhar o meu bem-estar com outras pessoas”, diz.

“Homens que praticam violência não atuam dessa forma necessariamente por fatores psicopatológicos. Na maioria dos casos a violência, considerada parte da constituição da masculinidade, acontece por questões sociais. A agressividade em nossa cultura é autorizada e até valorizada no comportamento masculino”, avalia o psicólogo Adriano Beiras, professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Beiras tem razão, uma vez que o próprio portador do transtorno bipolar assume que a sua enfermidade não justifica a violência cometida.

Deixemos agora de lado as patologias e vamos ao homem comum. Para a maioria deles é muito difícil expressar seus sentimentos se cotejados com a média das mulheres ocidentais que conversam mais confortavelmente sobre suas subjetividades. “O homem pode falar facilmente sobre suas realizações pessoais, mas expressar sentimentos e emoções é muito difícil para eles”, diz o filósofo e educador holandês Robert Happé, que atualmente é palestrante em diversos eventos em todo o Brasil.
Os encontros em grupos de homens envolvem diálogos, meditações, danças, caminhadas e esportes na natureza. “É tempo de nutrir o masculino com referenciais saudáveis. O importante é que os grupos sejam ambientes de reflexão e acolhimento. Para nós, não existe o clima de intolerância que se vê hoje no Brasil. Nos grupos não conta se o participante é de esquerda, direita ou centro. Nem sua preferência sexual. Nem se é branco ou negro, se é rico ou pobre”, diz Guilherme Valadares, idealizador do portal Papo de Homem, que organiza encontros de homens em busca do autoconhecimento e paz de espírito.

RITOS DE PASSAGEM

Aos 63 anos, o psiquiatra e psicoterapeuta Mauro Pozatti vive, hoje, com tranquilidade. Sua trajetória, no entanto, foi intensa. Em 1993 ele se separou da mulher e passou a viver longe dos filhos. “Eu me perguntava como iria educá-los estando à distância”, diz Pozatti. “Nessa época eu já era médico e professor, mas não sabia exatamente o que era ser homem”. Pozatti criou, então, o grupo Guerreiros do Coração para reunir aqueles que acreditassem ser possível evoluir a partir da troca de experiências. A ideia funcionou. Hoje os encontros do Guerreiros do Coração acontecem uma vez ao mês em diversos estados brasileiros. Ao final de cada série de encontros anuais, os participantes passam por um rito. Enquanto as mulheres têm as diferentes fases da vida marcadas por eventos fisiológicos (menarca, gestação, menopausa), os homens precisam de rituais que marquem as transições de menino a homem, de homem a pai e de homem a ancião. Pozatti explica que a ausência de ritos de passagem em nossa cultura atual favorece a formação de grupos socialmente desajustados (como gangues ou quadrilhas), que dão aos indivíduos, principalmente aos homens, a sensação de pertencimento. “Precisamos de mortes e renascimentos simbólicos para amadurecermos emocionalmente”, diz Pozatti.

Os encontros masculinos envolvem diálogos, meditações, danças, caminhadas e esportes na natureza. O que se busca é nutrir o mundo dos homens com referências saudáveis e criar ambientes de acolhimento e reflexão

QUANDO ELES BUSCAM AJUDA?

Ao expor a própria vulnerabilidade e pedir ajuda, os homens dão a si mesmos a oportunidade de fazer os ajustes necessários para que mudanças aconteçam. As situações mais comuns em que buscam apoio são as crises e os momentos de grandes mudanças, como a paternidade, o divórcio, a perda de um emprego, a morte de um ente querido, a chamada “noite escura da alma” – sensação de vazio e falta de sentido na vida. Muitos também aderem aos grupos de homens ou terapias quando recebem o convite de alguém que admiram. “As pessoas se sentem tocadas pelo processo dos outros”, diz Matheus Pozatti, psicólogo e facilitador do Guerreiros do Coração.

João Pedro de Carolli, 28 anos, participa do grupo de pais Paternando há um ano e meio. Os encontros são presenciais e online em grupos no WhatsApp e Facebook. Pai da Zoé, de um ano, João Pedro soube do grupo por uma amiga assim que foi pego de surpresa com a notícia da gravidez da namorada. “Me senti acolhido por mais de 100 homens. Sou o segundo homem mais novo do grupo (a média de idade é 38 anos). Quando entrei, os participantes conversavam sobre situações que eu estava começando a viver com minha companheira. Estávamos em crise quando apareceu no grupo o tema “treta no casal”. As trocas no Paternando me fizeram perceber a importância de saber ouvir. Hoje sou um homem e um pai melhor.”

Pedro de Figueiredo, criador do grupo MEMOH, de Niterói, já conduziu mais de 50 encontros com, em média, 20 participantes.

QUAL O OBJETIVO CENTRAL DOS ENCONTROS?

Desenvolver mais responsabilidade e consciência sobre nossa atuação na sociedade: o que fazemos e falamos. E levar os homens a refletirem sobre como agem com si mesmos e com os outros. Não damos dicas e conselhos. O grupo é um espaço de reflexão sobre nossos próprios comportamentos.

 QUAIS AS PRINCIPAIS QUEIXAS E BUSCAS DOS HOMENS NO GRUPO?

Eles estão sem referência. Querem pertencer ao universo masculino, mas não dessa forma padronizada e cheia de estereótipos. Para eles não faz sentido ser o conquistador sexual que não pode expressar sentimentos e emoções, que vê as mulheres como objetos, que deve ser o provedor e estar disposto ao sexo o tempo todo. Existe essa “caixa do homem” com um conjunto de características pressupostas para ser um “homem de verdade”. Tudo o que fica de fora é “coisa de viadinho”, o que comprova um enorme preconceito. Os homens querem ser mais afetuosos, poder demonstrar a própria vulnerabilidade, falar de sentimentos e sentir confiança entre eles.

EM GERAL, COMO E POR QUE OS HOMENS CHEGAM AO MEMOH?

Pelas redes sociais e por indicação boca a boca de outros participantes. Em geral estão incomodados porque já reconhecem seu próprio machismo em algum nível.

 COMO ELES ENTRAM E COMO SAEM DOS ESNCONTROS?

Alguns chegam muito desconfiados, outros, muito entusiasmados. É super comum os homens entrarem e permanecerem em silêncio absoluto, mas também tem os que chegam falando bastante por terem muita coisa presa. Saem mais conscientes e atentos ao próprio machismo. E dispostos a mudar.

Depoimento de Fábio Moura, 41 anos, supervisor de vendas, que participa do grupo Guerreiros do Coração há quatro anos.

Quando soube do grupo, eu tinha 36 anos, estava divorciado, em crise com meus dois filhos, no início de um relacionamento amoroso e em busca de autoconhecimento para lidar com meus conflitos. Depois de alguns encontros e vivencias compartilhando as minhas histórias e ouvindo relatos de outros homens, fui me deparando com um menino revoltado pela ausência do pai e da mãe, pelo desprezo dos próprios filhos e com todos os outros fatores externos que pudessem justificar meus conflitos internos. Havia em mim esse menino que transitava entre a raiva e a carência e se recusava acessar a figura do pai. Com o tempo fui encarando as minhas vulnerabilidades e reconhecendo a inteireza do homem que sou hoje. Vejo que minha história e meus desafios são parecidos com os de muitos homens que buscam seu lugar como pai, filho, irmão e companheiro. Desde que comecei a frequentar o movimento Guerreiros de Coração, muitas transformações ocorreram em todas as minhas relações. Ao passar pelos ritos no final de cada ciclo vi as maiores transformações acontecerem em mim. A raiva deu lugar à empatia, a agressividade, à paciência; a revolta sucumbiu ao amor e o distanciamento deu espaço à proximidade com meu pai.

Assim como Fábio, aos 36 anos, Leandro Iunes, consultor de negócios, decidiu participar da próxima turma do Guerreiros do Coração, em março do ano que vem. “Quero me conhecer mais. Se existe um rito, uma forma prática que conduz ao autoconhecimento, estou interessado sim.”

Chega de ser machista.2

CORAJOSOS, ESSES HOMENS…

“Um homem inteiro é muito mais valioso que um homem pela metade tentando cumprir um papel.” Matheus Pozatti, facilitador do Guerreiros do Coração

GESTÃO E CARREIRA

4 DICAS PARA SE TORNAR UM LÍDER DE SUCESSO

Coach executiva elaborou 4 dicas para você se tornar um líder excelente

4 dicas para se tornar um líder de sucesso

Um estudo da McKinsey revelou que nos EUA 75% dos funcionários afirmam que seu chefe constitui a pior parte do seu trabalho. E no Brasil? Será que esse panorama é diferente? Você, que é líder, pode fazer uma autoavaliação respondendo a essa pergunta: em uma escala de 1 a 10, como você acha que sua equipe avaliaria a sua liderança? A coach executiva, Luciana Carreteiro, elaborou 4 dicas para você se tornar um líder excelente. “Escolha a dica que corresponde ao que você deseja melhorar. Descreva para você quais são os benefícios de aprimorar esse item e anote o número de vezes por dia que você está fazendo o que propôs. Acompanhe suas estatísticas semana a semana, a tendência é que elas subam”, explica Luciana.

OUVIR ATÉ ENTENDER O QUE AS PESSOAS ESTÃO DIZENDO
É simples. Escutar é um sinal de respeito, a pessoa se sente ouvida, pois percebe que suas opiniões estão sendo consideradas. Escute sem interromper e sem preparar uma réplica. Escute até o final, respire e então fale. Seu interlocutor vai se sentir ouvido, logo se sentirá valorizado por você. Aqui vai uma dica: se algumas pessoas do seu time falam demais, dê a todos o mesmo tempo de fala, por exemplo de 2 a 4 minutos. Além de desenvolver a sua escuta, você vai treiná-los a sintetizar e, com o tempo, expressarão suas opiniões com mais eficiência. Essa habilidade reforça o engajamento do time, pois aqui o líder estabelece uma conexão com cada pessoa.

PEDIR E DAR FEEDBACK COM FREQUÊNCIA
Feedback é a ferramenta mais valiosa para o desenvolvimento. Duas regras: 1) Tem que ser recíproco. 2) Aumente a frequência ou passe a usar. A frequência de uso do feedback demonstra a maturidade de um time e de seus integrantes, a começar pelo líder. Aprecie os comportamentos que você quer que seu colaborador continue tendo para reforçá-los. Em seguida, pontue com fatos o que pode ser ainda melhor. Descreva fatos e comportamentos e não julgamentos. Faça feedback após reuniões de rotina, apresentações importantes e após a conclusão de um projeto. Todos nós queremos saber como estamos indo. Feedback gera aprendizado e um foco em solução. Uma dica para iniciar a conversa: faça uma pergunta, pedindo primeiro a opinião do outro: “como você se sentiu na reunião?”, por exemplo.

ESTABELECER OBJETIVOS CLAROS COM CADA MEMBRO DO TIME
A verdadeira motivação vem de dentro. Para estar motivado você tem que saber para onde vai e onde quer chegar. Para isso, todo líder deve desenhar as metas com cada membro da equipe individualmente, cascateando as suas para todos estarem ligados. A pior coisa que um líder pode fazer é impor uma meta. Seu colaborador se sente obrigado. Até as metas que a matriz passa podem ser discutidas, no mínimo devem ser bem explicadas até compreendidas. Uma dica boa é usar a metodologia SMARTER: “Specífico”, Mensurável, Alcançável, Realista, Tempo determinado, Ético e ecológico, Relevante. Poder dialogar sobre as metas gera comprometimento.

SER ENTUSIASTA DE FORMA SUSTENTÁVEL
Nós somos o reflexo do meio. O jeito como o líder age atinge cada membro de sua equipe, mesmo que em graus diferentes. Chamamos isso de neurônio espelho. Se o líder está entusiasta, a equipe está bem e, se ao contrário, o líder está com raiva, a equipe fica com medo. Com isso, a ansiedade sobe, os papos de bastidores começam e aquela insegurança gradativamente se instaura. A produção cai. O líder deve ser capaz de criar continuamente um nível positivo de energia através da sua vitalidade. Essas emoções positivas são como gasolina e, se feitas de forma sustentável, o motor vira hibrido e se alimenta da sua própria energia. Cada interação é sua oportunidade para gerar energia positiva no outro. Seu colaborador te traz um problema, o que você costuma responder? “Resolve”, “de novo” ou “vamos entender isso juntos”? Dica: se você ainda não está convencido, faça isso durante duas semanas e veja a reação de sua equipe.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 18: 1-12 – PARTE III

Alimento diário - Comendo a Bíblia

 Cristo no jardim. A traição de Judas. A orelha de Malco é cortada. Cristo se entrega como prisioneiro.

 

III – Nosso Senhor Jesus gloriosamente repeliu o primeiro ataque do inimigo, vv. 4-6, onde observa-se:

1. Como Ele os recebeu: com toda a mansidão imaginável, dirigida a eles, e toda a calma imaginável em si.

(1) Ele os encontrou fazendo-lhes uma pergunta muito dócil e mansa (v. 4): “Sabendo, pois, Jesus todas as coisas que sobre ele haviam de vir”, e, portanto, de nenhuma maneira surpreso com este ataque, com uma maravilhosa coragem e presença de espírito, imperturbável e destemido, “adiantou-se ” para encontrá-los, e, como se estivesse despreocupado, suavemente perguntou: “‘A quem buscais?’ Qual é o problema? O que significa este tumulto, a esta hora da noite?” Veja aqui:

[1] A previsão de Cristo sobre seus sofrimentos. Ele sabia “as coisas que sobre ele haviam de vir”, pois Ele tinha se comprometido a sofrê-las. A menos que tenhamos forças, como Cristo teve, de suportar a descoberta, não devemos cobiçar saber o que virá sobre nós. Isto somente anteciparia nossa dor. “Basta a cada dia o seu mal”. Mas nos convém esperar sofrimentos, de maneira geral, de modo que, quando eles vierem, possamos dizer: “É apenas aquilo que nós esperávamos, aquele custo que já computamos”.

[2] A prontidão de Cristo aos seus sofrimentos. Ele não fugiu deles, mas adiantou-se para encontrá-los, e estendeu sua mão para pegar o amargo cálice. Quando as pessoas desejavam empurrar-lhe uma coroa, e se ofereceram para fazer dele um rei na Galileia, Ele se retirou e se escondeu (cap. 6.15). Mas, quando eles vieram para empurrar-lhe uma cruz, Ele se ofereceu, pois Ele veio a este mundo para sofrer e foi para o outro mundo para reinar. Isto não nos autoriza a nos expormos aos perigos e aos problemas desnecessariamente, pois não sabemos quando chegará nossa hora. Mas somos chamados ao sofrimento quando não tivermos maneira de evitá-lo, senão através de algum pecado. E, quando isto nos acontecer, que nenhuma destas coisas nos comova, pois elas não podem nos ferir.

(2) Ele os encontrou com uma resposta muito calma e suave, quando lhe disseram a quem estavam procurando, v. 5. “Responderam-lhe: A Jesus, o Nazareno”. E Ele lhes disse: “Sou eu”.

[1] Parecia que seus olhos estavam contidos, de modo que não puderam conhecê-lo. É altamente provável que muitos do destacamento romano, pelo menos os oficiais do Templo, o tivessem visto frequentemente, ainda que somente para satisfazer sua curiosidade. Judas, no entanto, certamente o conhecia suficientemente bem, e ainda assim nenhum deles pôde pretender dizer: Tu és o homem a quem buscamos. Desta maneira, Ele lhes mostrou a tolice de trazer lanternas para procurá-lo, pois Ele podia fazer com que não o conhecessem quando o vissem. E com isto, Ele nos mostrou com que facilidade Ele pode cegar os conselhos dos seus inimigos, e fazer com que se percam, quando estão procurando fazer o mal.

[2] Quando o procuravam, eles o chamaram de “Jesus, o Nazareno”. que era o único título pelo qual o conheciam, e provavelmente o chamavam as­ sim por sentirem que tinham uma permissão para fazê-lo. Este era um nome reprovador que lhe era dado, para ofuscar a evidência de que Ele era o Messias. Com isto, parece que eles não o conheciam, nem sabiam de onde Ele era, pois, se o tivessem conhecido, certamente não o teriam perseguido.

[3] Ele lhes responde de modo claro: “Sou Eu”. Ele não se aproveitou da vantagem que tinha sobre eles, pela sua cegueira, como fez Eliseu contra os sírios, dizendo-lhes: “Não é este o caminho, nem é esta a cidade”, mas aproveita esta oportunidade para lhes mostrar sua disposição em sofrer. Embora eles o chamassem de “Jesus, o Nazareno”, Ele atendeu ao nome, pois desprezou a afronta. Ele poderia ter dito: Não sou Eu, pois Ele era Jesus, de Belém, mas Ele não permitiria nenhum tipo de equívoco. Com isto, Ele nos ensinou a reconhecê-lo, qualquer que seja o preço, a não nos envergonharmos dele, nem das suas palavras, mas, até mesmo em tempos difíceis, confessar a Cristo crucificado, e corajosamente lutar sob sua bandeira. “Sou Eu”, Eu sou, é o nome glorioso do bendito Deus (Êxodo 3 .14), e a honra deste nome é, com razão, desafiada pelo bendito Jesus.

[4] Observa-se que Judas estava com eles. Ele, que costumava estar com aqueles que seguiam a Cristo, agora estava com aqueles que lutavam contra Ele. Esta é a descrição de um apóstata. Ele é aquele que muda de lado. Ele se junta àqueles com quem seu coração esteve sempre, e cujo destino ele compartilhará, no dia do julgamento. Isto é mencionado, em primeiro lugar, para mostrar o atrevimento de Judas. Poderíamos imaginar onde ele teria conseguido a confiança com que agora se apresentava diante do seu Mestre, e nem se envergonhava, nem sabia o que era envergonhar-se. Satanás, no seu coração, lhe deu urna testa de prostituta. Em segundo lugar, para mostrar que o poder para frustrar os agressores, que acompanhava esta frase: “Sou Eu”, dirigia-se, particularmente, a Judas. Era corno urna flecha arremessada à consciência do traidor, e atingiu-o até o âmago, pois a vinda de Cristo, e sua voz, serão mais terríveis aos apóstatas e outros traidores do que aos pecadores de qualquer outro tipo.

2. Veja corno Ele os aterrorizou, e os forçou a recuar (v. 6): “Recuaram” e, corno homens atingidos por um raio, “caíram por terra”. Aparentemente, eles não caíram para frente, como se humilhando diante dele, e cedendo a Ele, mas para trás, como se estivessem completamente incapacitados para resistir. Desta maneira, Cristo declarou ser mais do que um homem, mesmo quando era pisoteado corno um verme, e não como homem. Estas palavras: “Sou Eu”, tinham dado novo ânimo aos seus discípulos (Mateus 14.27), mas as mesmas palavras derrubam seus inimigos com um golpe. Com isto, o Senhor demonstrou claramente:

(1) O que Ele poderia ter feito com eles. Quando os derrubou, Ele poderia tê-los fulminado com a morte. Quando, com estas palavras, Ele os levou ao chão, poderia tê-los levado ao inferno, e tê-los enviado, como a congregação de Corá, para lá. Mas Ele não desejava fazer isto:

[1] Porque a hora do seu sofrimento era chegada, e Ele não desejava afastá-la. Ele desejava apenas mostrar que sua vida não lhe seria tirada pela força, mas Ele a entregava, como tinha dito.

[2] Porque Ele desejava dar um exemplo da sua paciência e tolerância com os piores homens, e do seu misericordioso amor até mesmo pelos seus inimigos. Ao derrubá-los, sem fazer nada além disto, Ele lhes deu, simultaneamente, urna ordem para o arrependimento e uma oportunidade de arrepender-se, mas seus corações estavam endurecidos, e tudo foi inútil.

(2) O que Ele irá fazer, por fim, com todos os seus inimigos implacáveis, que não desejam arrepender-se para dar-lhe glória. Eles fugirão, eles cairão, diante dele. Agora se cumpriam as Escrituras (Salmos 21.12): “Tu lhes farás voltar as costas”, e Salmos 20.8. E isto se cumprirá cada vez mais. Pelo sopro da sua boca, o Senhor desfará ao iníquo, 2 Tessalonicenses 2.8; Apocalipse 19.21.