PSICOLOGIA ANALÍTICA

MEXENDO COM A CABEÇA DOS HOMENS

Basta dizer a eles que estão sendo observados por uma desconhecida para que seu desempenho cognitivo seja prejudicado.

Mexendo com a cabeça dos himens

Romances, filmes e roteiros para televisão estão repletos de cenas em que um rapaz procura inutilmente interagir com uma jovem bonita. Em muitos casos, o conquistador em potencial acaba fazendo algo tolo em suas incansáveis tentativas de impressionar a moça. É como se o cérebro do homem, de repente, não estivesse funcionando direito. E segundo uma pesquisa recente é exatamente o que acontece.

Há algum tempo, pesquisadores começaram a investigar como a interação com representantes do sexo oposto afetava aspectos cognitivos dos homens. Um estudo de 2016 demonstrou que após breve contato com uma mulher atraente os homens experimentam um declínio momentâneo do desempenho mental. Um novo estudo nessa área vai mais longe: sugere que não é preciso nem se aproximar concretamente de uma figura feminina interessante para que esses efeitos apareçam. Segundo a pesquisa, basta que o homem antecipe mentalmente a interação com uma mulher sobre a qual não sabe muita coisa para que seja constatada a deterioração cognitiva.

Para compreender por que isso ocorre, a pesquisadora Sanne Nauts e seus colegas da Universidade Radboud de Nijmegen, na Holanda, realizaram dois experimentos com a participação de estudantes universitários de ambos os sexos. No primeiro, avaliaram seu desempenho cognitivo aplicando um teste de Stroop. Desenvolvido em 1935 pelo psicólogo Ridley Stroop, o instrumento é usado para avaliar a capacidade de elaborar informações que competem entre si. O teste consiste em mostrar uma série de nomes impressos em cores diferentes. Por exemplo, “azul” pode estar impresso em verde, “vermelho” em laranja, e assim por diante. Os participantes devem nomear, o mais rápido possível, as cores nas quais as palavras estão escritas.

O teste é cognitivamente exigente porque nosso cérebro tem dificuldade em processar o significado da palavra sem relacioná-la imediatamente à cor da tinta na qual foi impressa. Quando as pessoas estão mentalmente cansadas, tendem a completar essa tarefa de modo mais lento.

No estudo de Sanne Nauts, após terem completado o teste de Stroop os voluntários realizaram outra prova, apresentada como dissociada da anterior. Os pesquisadores pediram aos universitários que lessem em voz alta uma série de palavras em holandês diante de uma webcam. Os cientistas explicaram que durante a “tarefa de leitura labial” um observador – ao qual era atribuído um nome qualquer, masculino ou feminino – estaria acompanhando o desempenho dos participantes através de uma câmera. Os voluntários não interagiam de modo algum com essa pessoa, que não era identificada nem por fotografia. Tudo o que sabiam – sobre ele ou ela – era o nome.

Logo depois de concluírem a leitura, os participantes foram submetidos a outro teste de Stroop. O desempenho das mulheres nessa segunda avaliação foi muito semelhante ao do primeiro, não importando o sexo do misterioso observador. Mas, entre os homens que julgaram ter sido observados por uma mulher, o desempenho foi pior nesse segundo teste. E essa deterioração cognitiva ocorreu independentemente de eles terem interagido com a suposta observadora.

Numa segunda etapa da pesquisa, Sanne Nauts e seus colegas iniciaram novamente o experimento aplicando o teste de Stroop em voluntários que haviam sido levados a pensar que precisariam fazer uma leitura em voz alta, como no primeiro experimento – na verdade, porém, eles nem sequer chegaram a realizar essa atividade; o importante era que acreditassem que teriam de cumpri-la. Metade dos voluntários foi induzida a crer que seria observada por um homem, e a outra parte, por uma mulher. Em seguida, todos foram convidados a realizar outro teste de Stroop. Mais uma vez, o desempenho das mulheres não apresentou diferença, independentemente do gênero do suposto observador. Já entre os rapazes, aqueles que acharam que seriam acompanhados por uma mulher tiveram desempenho significativamente pior no segundo teste.

PARA IMPRESSIONAR

Na sociedade moderna, muitas vezes as pessoas interagem através do telefone ou on-line, sendo a voz ou o nome os únicos modos de saber o sexo da outra pessoa. A pesquisa holandesa sugere que até interações muito limitadas como essas bastam para ameaçar a capacidade cognitiva dos homens quando são confrontados com o sexo oposto.

Embora esses estudos não ofereçam uma explicação concreta e definitiva para o fenômeno, os pesquisadores acreditam que o motivo esteja no fato de o homem considerar – pelo menos num primeiro momento – toda mulher uma possível parceira amorosa, ainda que nem sempre tenha clara consciência disso. Como todos os participantes das pesquisas eram jovens e heterossexuais, provavelmente fantasiaram que a misteriosa observadora poderia vir a ser uma parceira em potencial.

Os resultados podem estar relacionados às expectativas sociais. É possível que a sociedade induza os homens a impressionar as mulheres com quem interagem. A hipótese é ainda especulativa, mas estudos anteriores demonstraram que quanto mais a pessoa se preocupa em transmitir uma boa impressão, mais seu cérebro se cansa. De fato, as interações sociais exigem quantidade significativa de energia mental, usada para imaginarmos como os outros poderão interpretar nossas palavras e ações.

As psicólogas americanas Jennifer Richeson e Nicole Shelton, por exemplo, descobriram que os brancos com preconceitos raciais enfrentam rebaixamento cognitivo (similar ao constatado em homens que acreditavam ser observados por uma mulher desconhecida) logo após interagir com pessoas negras. As pesquisadoras supõem que isso provavelmente ocorra porque os primeiros procuram não revelar seus preconceitos – e têm de se esforçar para tal.

Outra pesquisa desenvolvida por Jennifer e seus colegas registrou problemas cognitivos similares em jovens provenientes de famílias pobres, que eram alunos de universidades de elite, logo depois de eles terem sido observados por colegas mais ricos enquanto resolviam exercícios que supostamente mediam o quociente intelectual (QI). Enfim, parece evidente que, quando nos encontramos em situações nas quais nos sentimos inseguros, intimidados ou estamos particularmente preocupados com a impressão que causaremos, podemos ter dificuldades concretas para raciocinar claramente. No caso dos homens, o simples fato de pensar em interagir com uma mulher seria suficiente para ofuscar-lhes um pouco o cérebro. Se ela for bonita, então, pior ainda.

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FOTOS DE GAROTAS BONITAS PODEM DESPERTAR AGRESSIVIDADE

Apesar dos avanços sociais e tecnológicos, ainda conservamos instintos primitivos. No caso dos homens, persiste a tentativa de garantir sucesso reprodutivo por meio de disputas físicas. Pelo menos é o que mostra um estudo publicado no periódico científico Personality and Social Psychology Bulletin. Uma das pesquisas citadas no trabalho foi coordenada pelo psicólogo Chang Lei. Ele pediu a 41 mulheres e a 60 homens chineses que analisassem 20 fotografias de pessoas do sexo oposto, divididas em dois grupos, o dos mais atraentes e o dos menos interessantes. Em seguida, o pesquisador pedia aos voluntários que respondessem a 39 questões relacionadas à possibilidade de a China participar de guerras ou de conflitos comerciais com três países estrangeiros. Ao avaliar as respostas, os pesquisadores observaram que a maior parte dos homens apresentou tendências bélicas depois de ver imagens de moças que julgavam atraentes. O mesmo efeito não foi notado quando as perguntas eram sobre conflitos comerciais. Entre as mulheres as fotografias não exerceram influência em nenhum dos casos.

Em outro experimento, 23 voluntários do sexo masculino viram oito imagens com a bandeira da China e oito com pernas femininas antes de participarem de um teste de computador no qual deveriam identificar a palavra “guerra” o mais rápido que conseguissem. Se fossem motivados por patriotismo, era esperado que os participantes do estudo se saíssem melhor após verem a bandeira de seu país. Mas, na verdade, os mais ágeis foram os que observaram fotografias de pernas de mulheres. Uma possível explicação é que talvez os homens acreditem, mesmo inconscientemente, que garotas preferem parceiros fortes, capazes de derrotar possíveis “concorrentes”, como acontece em outras espécies.

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SEDUÇÕES ÍNTIMAS

Embora hoje as rendas e os lacinhos já não estejam tão escondidos, até há poucos anos sutiãs, calcinhas, combinações, anáguas e corpetes, sempre em cores discretas, eram encontrados apenas em lojas de armarinhos ou nas prateleiras dispostas disfarçadamente nas grandes lojas. Atualmente a roupa íntima é um fenômeno de moda presente em campanhas publicitárias famosas; tornou-se um aspecto da cultura. Quem não se lembra, por exemplo, do comercial dos anos 80 cujo tema era o “primeiro sutiã”, ou do advento do modelo wonderbra, que inaugurou as curvas falsas?

“Essas peças estão em uma posição ‘intermediária’ entre a pele e o tecido das roupas comuns; é essa carga simbólica que faz com que um corselete cause um impacto visual muito diferente daquele provocado por um maiô inteiro, que também cobre – ou deixa de cobrir – exatamente a mesma extensão do corpo de uma mulher”, afirma o semiólogo Ugo Volli, pesquisador da Universidade de Turim. Até o século 18, porém, eram os homens que usavam meias e ligas para deixar as pernas e até os genitais à mostra. As calcinhas também são uma invenção moderna. “No passado, acreditava-se que a mulher deveria ser ‘aberta embaixo’, uma ideia que ainda permanece disfarçadamente presente no imaginário erótico e é expressa por meio de imagens como a de Sharon Stone no filme Instinto selvagem, de 1992″, ressalta Volli. Segundo o estudioso de sistemas de signos e símbolos, essa crença, que estimula a fantasia de descobrir algo “secreto”‘ pode explicar por que os homens preferem, por exemplo, as meias femininas que vão até a altura das coxas em vez dos modelos inteiriços.

“O fascínio da roupa íntima está na brincadeira do vejo/não vejo que atrai a atenção para as zonas erógenas, o que faz com que estar vestido seja, em geral, mais erótico que ver o corpo completamente nu”, afirma o psicólogo e terapeuta de casais Giuseppe Rescaldina.

O pesquisador dinamarquês Per Ostergaard lembra que, em certas situações, usar determinada roupa é uma espécie de ritual, um momento de passagem: há peças que, na intimidade, despertam o imaginário erótico e permitem ao casal encarnar o que ele chama de “personagens de si mesmos”. Em geral a renda branca, por exemplo, evoca a ideia de pureza; já a cor preta costuma ser associada à ideia de mistério e sofisticação. Para grande parte das pessoas o vermelho vivo lembra tanto sensualidade quanto transgressão, enquanto estampas que imitam pele de animais podem remeter ao erotismo e à sensualidade. Embora não haja consenso, fatores culturais também entram em jogo, e persiste um imaginário erótico constantemente incrementado pela mídia. O fato é que a roupa íntima “fala de nós” e nos permite viver diferentes papéis. Talvez por isso a renda transparente, o corselete e as meias 7/8 continuem sendo tão atraentes por tantas décadas. Embora a tecnologia proponha cortes e tecidos confortáveis outrora inimagináveis, as imagens que realmente seduzem são as da roupa íntima que parece ser usada justamente para ser tirada.

Já para os homens, a visão é um dos sentidos fundamentais para alimentar a excitação, enquanto mulheres costumam se voltar para o conjunto. Não é à toa que a maioria delas consegue manter vários focos de atenção simultaneamente “Trata-se de uma herança da época na qual o macho deveria escolher uma parceira com a qual propagar os próprios genes, por isso se voltava para detalhes, enquanto a fêmea precisava de um companheiro para criar a prole, e fazer essa avaliação exigia observar o conjunto com um olhar mais abrangente”, observa o sexólogo Fabrizio Quattrini, presidente do Instituto Italiano de Sexologia Científica, em Roma. É por isso que peças transparentes em cores que se destacam do tom da pele, cobrindo (e ao mesmo tempo evidenciando) as zonas erógenas excitam tanto os homens. Ou pelo menos grande parte deles.

A cor da pele, em geral, é menos apreciada porque lembra demais a própria carne – e a suavidade, remetendo à realidade concreta, causando uma dicotomia entre carinho e paixão. “Simplificando, podemos afirmar que homens apreciam elementos que ‘forçam’ e ressaltam a imagem, que em nossa imaginação poderiam ser usados por um travesti ou uma prostituta. O vermelho forte, o sutiã que realça os seios ou a bota de salto fino superalto têm algo de tentador e ao mesmo tempo de proibido”, comenta a sexóloga Chiara Simonelli. “É uma espécie de fantasia que, para algumas pessoas, ajuda a acordar os sentidos, dá asas à imaginação e permite experimentações que, se estivessem vestidas de forma ‘comum’, dificilmente fariam”, diz. Nesse contexto, a preparação até que a roupa seja exibida ao olhar alheio – a escolha da cor, dos detalhes, da maquiagem, a admiração da própria imagem antes, no espelho, e o momento da surpresa para o parceiro – compõe um ritual de apropriação de aspectos nem sempre óbvios da personalidade. A sexóloga ressalta que a característica arcaica da sensibilidade masculina é despertada por estereótipos, o que faz com que elementos eróticos pareçam especialmente interessantes. Essa produção pode, em determinados casos, apresentar-se para o homem como a sedutora imagem da mulher que se oferece a ele como um presente e, assim, o reafirma em seu papel dominante – na prática, um lugar cada vez menos efetivo.

Já o olhar feminino costuma valorizar o conjunto, o que torna as mulheres mais benevolentes. Elas demonstram preferência por roupas íntimas masculinas que combinem conforto, elegância e higiene. Antigamente, um homem que dedicasse muita atenção à própria roupa de baixo seria classificado como pouco viril. Hoje, embora esse interesse exagerado continue a ser uma característica do universo homossexual masculino, a afirmação da própria imagem já comporta a descoberta do cuidado com o corpo e – algo antes impensável – maior preocupação com a roupa de baixo.

Para muitas mulheres, o uso da lingerie pode ajudar a enfatizar ou resgatar a feminilidade: em muitos casos, admirar-se ao espelho com um conjunto bonito de calcinha e sutiã é um recurso para fazer as pazes com o próprio corpo – e aceitar que não é necessário ser perfeita para ser bonita, sensual e desejada.

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OUTROS OLHARES

CRIANÇAS QUE APRENDERAM A ENXERGAR

A Índia tem uma das maiores populações infantis com problema de visão, algo em torno de 400 mil. Muitos desses meninos e meninas não recebem educação e, com frequência, são vítimas de abuso físico e sexual. Cirurgias corretivas feitas até mesmo em pacientes com mais de 20 anos permitem que inúmeras pessoas recuperem essa capacidade e ajudam cientistas a compreender melhor como o cérebro processa a visão.

Crianças que aprenderam a enxergar

Minha mãe costumava manter uma pequena tigela de vidro azul com trocados perto da porta da nossa casa, em Nova Déli. Ao sair, ela pegava algumas moedas como esmola para pobres que viviam nas ruas da cidade. Devido à rapidez com que qualquer um pode se tornar insensível à abundância de miséria humana na Índia, sempre fiquei impressionado com a adesão inabalável dela a esse ritual. A tigela ficou sem uso por meses, enquanto minha mãe lutava contra o câncer. Quando voltei para a Índia, em 2002, um ano após sua morte, percebi que era um dos poucos itens dela que o meu pai havia conservado. E mal sabia que isso mudaria a minha vida.

Numa tarde de inverno, durante minha visita, ao sair de casa para encontrar um amigo busquei algumas moedas na tigela e as coloquei no bolso. Estava muito frio e fiquei feliz em encontrar um táxi com as janelas que fechavam bem, coisa rara em Nova Déli. Após alguns minutos o táxi parou em um cruzamento. Surpreendentemente, havia pouco tráfego e notei uma pequena família amontoada ao lado da rua. Tirei as moedas, abri a janela e acenei para eles.

Lentamente vieram até mim, com as duas crianças segurando o sári da mulher. Foi angustiante ver as crianças descalças e magras vestidas com trapos de algodão fino. Para agravar meu desconforto notei que as crianças, com seis ou sete anos de idade, também eram cegas. Enquanto a pequena família tremia fora do meu táxi, pude observar a catarata nos olhos das crianças. Isso me surpreendeu, porque só tinha visto essa degeneração em pessoas idosas. O sinal abriu. Depositei as moedas na mão da mulher e observei a família desaparecer enquanto o táxi se afastava. Nos dias seguintes os rostos das crianças me assombraram. Tentei saber o máximo que pude sobre a cegueira infantil na Índia e o que li foi chocante.

A Índia abriga uma das maiores populações de crianças cegas do mundo, estimadas em cerca de 400 mil. A deficiência visual, aliada à pobreza, compromete profundamente a qualidade de vida das crianças; além disso, as taxas de mortalidade são extremamente altas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que até 60% das crianças morrem um ano após ficarem cegas. Menos de 10% dessas crianças recebem educação. Para as meninas cegas o panorama é ainda mais terrível. Muitas ficam confinadas em casa e sofrem abuso físico ou sexual.

Esses números angustiantes tornaram-se ainda mais preocupantes para mim quando li que grande parte do sofrimento era desnecessário; a cegueira em cerca de 40% das crianças é tratável ou evitável. Muitos jovens, no entanto, nunca recebem atendimento médico. As instalações de tratamento estão concentradas nas grandes cidades e quase 70% da população da Índia vive em vilarejos. Essas circunstâncias significam que uma criança cega em uma família rural pobre está destinada a viver uma vida escura e tragicamente curta.

Absorvi esses números com uma sensação de incredulidade. Afinal, eu havia crescido na Índia. Como pude ter permanecido alheio a esse drama? E como essas cenas podem manifestar-se tão contrariamente à narrativa popular da Índia como uma superpotência econômica emergente? Decidi fazer outra viagem para o país. Visitei aldeias em torno de Déli, no estado sulino de Andhra Pradesh e no delta do Ganges, em Bengala Ocidental. As muitas crianças cegas que conheci me convenceram de que as estatísticas foram baseadas em fatos. A pobreza desesperada que testemunhei nessas aldeias me ajudou a entender por que tantas crianças ficavam sem tratamento.

Minha experiência naquela tarde de inverno, em Nova Déli, marcou o início de uma jornada pessoal que ainda não terminou. Como cirurgião resolvi ajudar essas crianças cegas a recuperar a visão. Como cientista percebi que isso representava uma oportunidade valiosa para responder a uma das questões mais desafiadoras da neurociência: como o cérebro aprende a ver?

A RESPOSTA EM UMA PERGUNTA

Desde meus dias de pós-graduação no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) essa questão tanto me fascinava quanto frustrava. Como é que estímulos desordenados de cores, brilhos e texturas que colidem com a retina a cada momento se organizam em um conjunto significativo de objetos que se transforma em, digamos, os contornos dos braços e torso de uma garota dançando – e no xadrez azul e verde de sua saia pregueada?

A principal abordagem para estudar como o sistema visual se desenvolve está relacionado a experiências com bebês. A capacidade limitada de uma criança em compreender, responder e até mesmo permanecer acordada por longos períodos restringe o âmbito de questões que podem ser propostas de maneira plausível. Outro complicador são as mudanças simultâneas que podem ocorrer em subsistemas cerebrais relacionados, mas distintos, conforme a criança cresce – regiões responsáveis pela motivação, concentração de atenção e controle dos movimentos dos olhos.

Sabendo de tudo isso, no verão de 2002, me vi às voltas com duas questões aparentemente não relacionadas. Como o cérebro aprende a fazer com que a informação visual tenha sentido? Com as lembranças de minha experiência em Nova Déli ainda frescas, como eu poderia ajudar a oferecer cirurgias de restauração de visão para crianças congenitamente cegas?

Ainda me lembro da emoção de perceber que as duas questões se complementavam – uma trazia a resposta para a outra. Seguir o progresso de uma criança com a visão recém-recuperada pode nos ajudar a entender a aprendizagem visual, e o financiamento científico aplicado a esse empreendimento de pesquisa ajudou a oferecer tratamentos. Fiquei maravilhado em constatar como as duas necessidades se encaixaram tão bem e, de forma um pouco autocentrada, como ambas estavam relacionadas à minha vida.

Ao retornar para o MIT descrevi a meus colegas um plano para prosseguir a pesquisa que combinava esses objetivos científicos e humanitários. A maioria ficou entusiasmada, mas alguns manifestaram cautela em embarcar nessa empreitada ambiciosa antes de receber fundos. Entendi o risco, mas me senti compelido a avançar com o plano.

Enviei um pedido ao Instituto Nacional de Olhos (parte do Instituto Nacional de Saúde), nos Estados Unidos. Fiquei um pouco apreensivo pela dúvida de ser viável pedir dinheiro a uma agência do governo americano para financiar cirurgias na Índia. Além disso, o empreendimento era logisticamente complexo e se ressentia de dados preliminares sobre sua praticidade. Mas o comitê de avaliação enxergou o potencial científico e humanitário do trabalho e me concedeu uma subvenção exploratória para verificar a viabilidade da proposta. Fiquei emocionado. Era minha primeira bolsa pelos NIH.

O passo seguinte foi identificar um parceiro médico na Índia onde as crianças cegas pudessem receber atendimento cirúrgico de qualidade. Um centro oftalmológico se destacou: o Hospital de Caridade de Olhos Shroff (SCEH), em Nova Déli. Tinha excelentes instalações pediátricas e seus médicos saudaram o projeto como uma oportunidade de ajudar crianças cegas e de se envolverem em pesquisas.

Todas as peças do desafio estavam montadas. Ainda assim, precisávamos de um nome que refletisse nossa dupla missão de trazer luz para a vida das pessoas e lançar luz sobre questões científicas. Não precisei pensar muito. A palavra luz na antiga língua indo-europeia, o sânscrito, é prakash. Agora tínhamos um nome com um toque atraente: Projeto Prakash.

UMA PEQUENA INCISÃO

Realizamos o projeto em vários estágios. Primeiro, identificamos as crianças e, em alguns casos, até mesmo jovens adultos que pode- riam se beneficiar do tratamento por meio de triagem oftalmológica estabelecida em acampamentos em zonas rurais. Uma equipe de ortópticos, oftalmologistas e outros profissionais de saúde examinaram crianças com problemas de visão (erros de refração), infecções oculares e cegueira tratável (principalmente por catarata congênita e dano à córnea resultante de cicatrização). Crianças selecionadas como candidatas ao tratamento foram para o hospital em Nova Déli para um exame mais minucioso, incluindo oftalmoscopia (para observação do fundo do olho), ultrassom dos olhos, avaliação da saúde geral e condição física para a cirurgia. Datas foram definidas após consulta com o responsável por cada uma delas.

A cirurgia de catarata em uma criança é muito mais complexa que em um adulto. A cirurgia pediátrica exige anestesia geral e cuidados pós-operatórios intensivos. O procedimento cirúrgico envolve a divisão da lente opaca endurecida em pedacinhos, com a retirada dos fragmentos por uma pequena incisão na borda da córnea e substituição da lente natural danificada por uma sintética. O Projeto Prakash subvenciona os custos aproximados de US$ 300,00 – e o retorno das crianças para acompanhamentos pós-operatórios periódicos.

Com o projeto em curso, uma preocupação me incomodava. Eu refletia se nossa intervenção cirúrgica, embora bem-intencionada, chegava tarde demais para ser útil. Ultrapassamos, talvez, um período crítico no início da vida que requer uso intensivo dos olhos e dos circuitos cerebrais visuais, intervalo após o que a capacidade visual não pode ser desenvolvida? A ideia não era absurda. O cirurgião inglês William Cheselden (1688-1752) fez o primeiro relato de estabelecimento tardio de visão em 1728, em um menino de 13 anos, nascido com catarata nos dois olhos. Cheselden percebeu que o menino continuou com visão muito prejudicada, mesmo após a remoção das oclusões.

Estudos controlados de privação visual em animais pintaram um quadro sombrio semelhante. Torsten Wiesel e David Hubel, dois ganhadores do Prêmio Nobel em 1981, descreveram as drásticas consequências da privação visual precoce em gatos. Nesse contexto é natural questionar se oferecer cirurgias de olhos no final da infância serviria a algum propósito útil.

Senti, no entanto, que os tratamentos valiam a pena. Era arriscado confiar muito em relatos antigos, como os de Cheselden. Efeitos cirúrgicos deficientes poderiam ter causado danos nos tecidos ópticos, resultado de técnicas cirúrgicas grosseiras, como a intracapsular, um recurso antiquado para remoção de catarata. A maioria dos estudos com animais observou o fechamento por sutura de um olho, enquanto as crianças do Prakash sofriam de oclusão nos dois olhos. De modo surpreendente, privar a visão em um único olho tem consequências mais negativas que quando os dois são afetados. Ainda discutíamos se alguma função visual poderia ser desenvolvida após o tratamento da cegueira tardia na infância.

AGORA ENXERGAMOS!

O filósofo e psicólogo americano William James (1842-1910) descreveu o mundo perceptivo de um bebê como “uma confusão florescente e perturbadora” que precede a maturação do sistema visual. A questão para o Projeto Prakash era se esse período, um bombardeio complexo de cor, forma e movimento – talvez uma fase inicial de desenvolvimento visual – espelha as experiências das crianças do Prakash com visão nova, alguns com idade de 20 anos ao experimentarem essa sensação pela primeira vez. Se o sistema visual não passar pelos primeiros passos complexos, mas necessários, a organização das imagens pode ser obtida de forma significativa? O termo “organização”, aqui, tem dois significados. Para uma pessoa “ver”, as várias partes de uma imagem devem ser coerentes em objetos distintos, um processo denominado organização intramodal. No segundo requisito, a organização intermodal está relacionada à interação da visão com os demais sentidos.

Nossa capacidade de segmentar uma imagem em objetos separados é tão afinada que parece não exigir esforço. Abrimos os olhos e o mundo está lá, uma coleção ordenada de coisas. No entanto, descobrimos que a experiência de uma criança do Prakash logo após ganhar a visão é diferente. As pessoas com visão recém-adquirida exibem profundas deficiências. Não conseguem organizar as muitas regiões de cores e brilhos diferentes em conjuntos maiores. Muitas características de objetos comuns – as partes sobrepostas de dois quadrados ou a parte de uma bola delineada pelas costuras em sua superfície – são percebidas como objetos totalmente separa- dos e não componentes de estruturas maio- res. É como se a cena visual para uma pessoa com visão recém-adquirida fosse uma colagem de várias áreas independentes de cor e luminosidade, semelhante a uma pintura abstrata. Esse excesso de fragmentação perceptiva torna difícil detectar objetos inteiros.

A falha dos pacientes do Prakash levanta uma questão que preocupa cientistas há quase um século: que sinais permitem que nós, com visão normal, analisemos imagens complexas corretamente? A resposta parece estar na maneira como o cérebro organiza naturalmente estímulos visuais pelo que são conhecidos como heurísticas de agrupamento (referidas como pistas da Gestalt de agrupa- mento, nomeadas segundo o movimento de pesquisa psicológica no início do século 20). Uma regra básica programada no sistema visual induz, por exemplo, linhas organizadas em uma imagem a serem agrupadas porque provavelmente elas decorrem de limites de um mesmo objeto.

Nenhum desses indícios parece eficaz para as crianças do Prakash imediatamente após recuperar a visão, mas mudanças interessantes ocorrem com o tempo. Lembro-me vividamente de SK, o primeiro paciente do Prakash a nos dar esse indício. Era um jovem de 29 anos, que conhecemos em um albergue para jovens cegos, lotado nos arredores de Nova Déli. Um exame rápido revelou que ele tinha afacia congênita (de phakos, palavra grega para “lente/lentilha”), doença rara em que uma criança nasce sem o cristalino. O mundo visual de SK era muito prejudicado.

Ele havia se adaptado a essa situação deslocando-se com uma bengala branca e estudando em braille. De forma notável, tudo o que foi necessário para corrigir sua afacia foram óculos de US$ 20,00, que compensariam seu cristalino ausente, mas pelos quais ele não conseguia pagar.

Fizemos óculos para SK e depois testamos sua visão. O que nos impressionou de imediato foi que, ao contrário de nossas expectativas ingênuas, SK não pareceu especialmente entusiasmado com a melhora da visão. Nossos testes revelaram que seu mundo visual era uma coleção impressionante de regiões de cores e brilhos diversos, com pouco recurso para juntá-las em entidades coerentes. Mesmo simples desenhos de linhas, como um círculo sobrepondo um quadrado, pareciam a ele um conjunto de peças interligadas de forma estranha (apesar de sua familiaridade prévia com conceitos de quadrados e círculos pelo tato). SK teve dificuldade em delinear objetos inteiros em imagens fotográficas. Sombreamento e sombras, sobreposições e oclusões representavam obstáculos intransponíveis; cada região de um tom ou luminância diferente parecia um objeto distinto.

Curiosamente, essa confusa mescla de regiões se consolidou em estrutura significativa com a introdução de um sinal visual especial: movimento. Imagens que eram irremediavelmente confusas para SK quando estáticas tornaram-se interpretáveis quando suas partes constituintes se moviam. Vídeos de SK examinando uma imagem mostram uma transformação quase mágica criada em resposta ao movimento.

Seguimos as experiências de SK com a visão por vários meses. Ele continuou apresentando dificuldades na interpretação de imagens estáticas. Assim que começamos a nos resignar com a ideia de que as aptidões de análise de imagens dele pudessem estar permanentemente comprometidas, a situação mudou. Um ano e meio após a intervenção inicial, sem qualquer treinamento além de sua exposição ao mundo visual ao seu redor, SK obteve melhora significativa. Ele conseguia analisar corretamente imagens estáticas esparsas e expressou a felicidade que sentia em relação à sua visão melhorada. Foi uma conclusão gratificante para um capítulo que nos deixou em suspense.

Em estudos posteriores com outros pacientes muito mais jovens encontramos uma repetição dessa experiência. Muitos meses após termos dificuldades na tarefa de análise de imagem, eles começam a ter sucesso na organização de suas percepções em objetos coerentes. O tempo necessário para adquirir essa habilidade parece depender da idade em que a criança recebeu tratamento porque as mais jovens aprendem mais rapidamente que as mais velhas.

O que se oculta nessa melhora? A teoria sugere que o movimento pode desempenhar o papel de “professor”, treinando o sistema visual a analisar as imagens mesmo quando são estáticas. Com a regra de que “coisas que se movem juntas se pertencem”, o sistema visual de uma pessoa pode, por fim, aprender a agrupar imagens via atributos estáticos, como cor e orientação.

O cérebro, claro, faz mais que escolher os elementos de uma cena visual. Também se conecta com os domínios do som, tato, olfato e paladar, criando um panorama sensorial via organização intermodal. Filósofos e neurocientistas se preocupam há séculos em como a visão está conectada ao som e a outros sentidos. Em 1688, o cientista irlandês William Molyneux (1656-1698) escreveu ao filósofo inglês John Locke: “Suponha que um homem nasça cego e, adulto, é ensinado pelo tato a distinguir entre um cubo e uma esfera do mesmo metal…. Suponha, depois, o cubo e a esfera colocados sobre uma mesa, e o homem cego, veja. Pergunto eu: com sua visão, antes de tocá-los ele poderia distinguir e dizer qual é o globo, qual o cubo?”

Locke incluiu a pergunta de Molyneux na edição de 1692 de sua famosa monografia intitulada Ensaio sobre o entendimento humano. A dúvida de Molyneux cristalizava uma série de questões fundamentalmente importantes: como podemos conectar os diferentes sentidos em uma percepção unificada da realidade? Nascemos com esse mapeamento mental do mundo ou ele deve ser aprendido pela experiência? Pode ser adquirido mais tarde na vida? A busca dessas ideias por Locke, George Berkeley, David Hume e outros empiristas influencia questões vitais para a neurociência contemporânea.

Ao avaliar se as crianças do Prakash podem vir a associar a visão com os outros sentidos, tivemos a oportunidade de abordar diretamente a questão de Molyneux. Trabalhamos com crianças logo após suas cirurgias ópticas e as fizemos participar de um experimento de “ajustamento com a amostra”. A criança vê ou toca um objeto simples em um fundo branco (a amostra) e, posteriormente, tem de escolher entre dois objetos diferentes apresentados visualmente ou pelo tato.

O caso de YS, um menino envolvente de 8 anos, com catarata congênita grave nos dois olhos, oferece um exemplo ilustrativo. Como a maioria das crianças do Prakash, YS se sentiu confortável no segundo dia após a cirurgia e pronto para trabalhar com a equipe de pesquisa.

No teste, uma folha de intervenção garantiu que YS não pudesse ver as mãos. Ele receberia um objeto (a “amostra”) para sentir nas mãos e, depois, o devolveria. Então, receberia a amostra e outro objeto nas mãos e pediriam para devolver o primeiro. YS não teve nenhuma dificuldade em escolher a amostra em todos os pares de objetos apresentados a ele. Da mesma forma, no domínio puramente visual, seu desempenho foi impecável. No entanto, na tarefa de transferência crucial, reconhecer visualmente o que sentiu com a mão, o seu desempenho despencou. Quatro outras crianças com quem trabalhamos exibiram o mesmo padrão de resultados.

Essas descobertas levam-nos a acreditar que a questão de Molyneux provavelmente tem uma resposta negativa: nenhuma transferência discernível de informações do tato à visão ocorre imediatamente após o início da visão. Por mais interessante que esse resultado pareça, talvez haja algo ainda mais intrigante.

Quando testamos YS uma semana mais tarde, ficamos surpresos ao descobrir que seu desempenho na tarefa de transferência havia evoluído de praticamente aleatório a um nível quase perfeito. Duas outras crianças observadas também apresentaram melhoras semelhantes. Em períodos tão curtos quanto de algumas semanas, as crianças do Prakash começaram a atingir a proficiência em identificar visualmente um objeto que haviam sentido pelo tato, apontando para uma capacidade latente na aprendizagem rápida de associar diferentes sentidos. Tomados em conjunto esses estudos sugerem que muitos anos de cegueira congênita não impedem o desenvolvimento da capacidade visual sofisticada em idade relativamente avançada. Essa percepção acaba sendo uma boa notícia para nós sob as perspectivas científicas e clínicas. Confirma a existência de plasticidade neural – a capacidade do sistema visual, por exemplo, de se adaptar a novas experiências – mesmo tarde na infância ou em jovens adultos e sugere que, com base em nossas experiências, crianças se beneficiariam de cirurgias oculares.

Esse conhecimento fundamentou a base para um programa de pesquisa contínuo em profundidade sobre o desenvolvimento visual no fim da infância. Trabalhando com participantes do Prakash entre 6 e mais de 20 anos, realizamos avaliações de várias funções visuais. As descobertas desses testes até agora indicam que alguns aspectos fundamentais da visão, como acuidade visual (com que precisão um padrão visual pode ser resolvido), contraste espacial (alterações na acuidade como mudanças de contraste de imagem) e estabilidade óptica, são comprometidos pela privação prolongada. Esses déficits parecem permanentes, pois essas medidas não atingem níveis normais, mesmo um ano mais tarde.

Quando observamos além dessas medições básicas em direção das chamadas funções visuais de ordem superior, no entanto, encontramos evidências de aquisição de aptidão significativa. Em especial, a capacidade de diferenciação de objetos em uma imagem e de ligação com outros sentidos.

As crianças do Prakash também apresentaram melhoras na capacidade de detectar rostos e raciocinar mentalmente sobre o arranjo espacial de objetos observados.

O NOVO CENÁRIO

Esses resultados começam a nos dar uma ideia de conjunto do que pode ou não ser alcançado quando uma criança acessa a visão em idade tardia. Por um lado, as funções visuais não desaparecem irremediavelmente se os olhos e as áreas do cérebro para o processamento visual não estão sujeitos a uso intensivo durante o “período crítico”, que se acredita durar nos primeiros anos da infância. Por outro, a experiência visual inicial é inegavelmente importante para o desenvolvimento normal das habilidades como visão de alta resolução.

Os primeiros resultados fornecem um ponto de partida para um rico conjunto de novas investigações e algumas podem estar bem distantes da cegueira. Com base nos estudos do Prakash estamos desenvolvendo software para descobrir automaticamente categorias de objetos visuais em vídeos – rostos, por exemplo. Além disso, os tipos de deficiências que encontramos em crianças que integram as informações visuais logo após a recuperação de visão assemelham-se aos relatados em estudos com crianças com autismo. Essa ligação provisória já foi identificada em uma série de estudos em meu laboratório que busca investigar as causas dos distúrbios de processamento sensorial no autismo.

A jornada futura promete ser ainda mais emocionante que o árduo percurso feito até agora. Uma questão frequente diz respeito à relação entre a estrutura do cérebro e seu funcionamento. Pretendemos usar a ressonância magnética funcional para examinar as mudanças no córtex cerebral de uma criança com visão recém-adquirida, comparando o que acontece quando o tratamento começa em idades diferentes para determinar até que fase do desenvolvimento o cérebro consegue se reorganizar. Também será possível determinar, nos casos em que a cirurgia é realizada relativamente tarde, se outros sentidos – o tato ou a audição, por exemplo – podem ter seques- trado a área do córtex normalmente reservada para o processamento visual.

O Projeto Prakash enfrenta dificuldades enormes – o mais importante é expandir sua extensão e programas de tratamento e possibilitar a integração das crianças na sociedade. Nossos planos para enfrentar esses desafios são ambiciosos: propomos começar pela criação do Centro para Crianças Prakash – uma instituição que integre tratamento médico, educação e pesquisa. O centro terá um hospital pediátrico, um centro de pesquisa de neurociência de ponta e uma unidade de reabilitação de crianças recém-tratadas para que possam receber o máximo de benefício em seu tratamento.

O projeto até agora executou triagem oftalmológica de cerca de 40 mil crianças que vivem em algumas das aldeias mais pobres e negligenciadas do norte da Índia. Cerca de 450 crianças com deficiência visual receberam tratamento cirúrgico e acompanhamento e mais de 1.400 foram submetidas a tratamentos farmacológicos e ópticos. Devido à magnitude do problema, no entanto, isso tudo é apenas o começo.

Eu e meus alunos sentimos enorme satisfação com as conclusões que emergiram do Projeto Prakash, mas o trabalho também nos afetou em um nível mais profundo, mais pessoal. Cada criança cega com quem trabalhamos apresentou uma história singular de dificuldades e isolamento social. Igualmente exclusiva é a mudança de vida que cada criança enfrenta após o tratamento. SK voltou para seu estado natal com esperanças renovadas de alcançar seu objetivo acalentado – ser professor. JA, que foi tratado aos 14 anos, pode agora, seis anos mais tarde, andar pelo caótico tráfego de Déli sozinho.

A mãe de três meninos que nasceram com catarata e receberam tratamento no ano passado deixou de ser hostilizada por seus vizinhos da aldeia como portadora de uma maldição. Dois irmãos que têm visão há apenas alguns meses, depois de suportar oito anos de cegueira congênita, agora estão entusiasmados com a perspectiva de mudarem para uma escola para crianças normais.

Essas transformações servem como testemunho do poder de colaboração: a dívida que o Projeto Prakash tem com cientistas, médicos, educadores e patrocinadores que se uniram para promover avanços tanto na pesquisa clínica quanto em ciência básica. E eu, pessoalmente, claro, tenho uma dívida de gratidão para com uma tigela de vidro azul e a pessoa muito especial a quem ela pertenceu.

Crianças que aprenderam a enxergar.2

UM NOVO MUNDO

Quando crianças e jovens do Projeto Prakash veem o mundo pela primeira vez têm dificuldade em montar as peças de uma cena como um todo. Uma fotografia de meninas dançando demonstra os problemas envolvidos. Fragmentos de cor, brilho e textura devem ser organizados pelo sistema visual em objetos coerentes.

A ilustração do meio representa a localização dos diversos elementos. O sucesso ocorre quando uma coleção de objetos estáticos, com limites definidos (à direita), começa a se mover. O cérebro integra passos ritmados e braços ao ar na percepção de uma entidade integral única, a forma dos corpos das dançarinas.

Crianças que aprenderam a enxergar.3

APENAS AS PARTES E NÃO O TODO

Os traçados de uma criança com visão recém-adquirida revelam uma visão fragmentada até mesmo de figuras bidimensionais. Cada área de caixas sobrepostas foi percebida separadamente, como indicado pelos rabiscos vermelhos. O menino também viu segmentos de uma vaca e de uma bola e sua sombra – todos delineados em verde – como objetos distintos. Por isso, não conseguiu identificar nenhuma das imagens.

 

PAWAN SINHA – é doutor em neurociência computacional, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

GESTÃO E CARREIRA

EM BUSCA DO EQUILÍBRIO E DA EQUIDADE

Por que é tão importante identificar e harmonizar aspectos femininos e masculinos na organização. E em nós mesmos

Themis

Quem nunca ouviu falar em mundo VUCA, de volátil, incerto, complexo e ambíguo? Basta olhar para o setor em que a empresa atua – e até mesmo para a própria companhia – para perceber que existe um ritmo acelerado de mudanças e transformações. E nessa toada, passa por revisão, digamos assim, a própria ideia de liderança, entre outras coisas. Como afirmam Raj Sisodia e Nilma Bhat, no recém-lançado Liderança Shakti (HSM): “A liderança existia para manter a ordem; hoje, trata-se de saber navegar na ambiguidade. No passado, muitas coisas eram centralizadas; hoje funcionamos conectados em rede com nossos pares. (…) O poder era mantido com rédeas curtas e agora ele é distribuído. (…) O líder era o chefe inquestionável, poderoso e controlador; agora o líder precisa ser um catalisador, inspirador que dá poder”. Em outras palavras, o que os autores dizem é que, antes, predominavam os aspectos masculinos na liderança. Agora, é preciso dar mais espaço aos aspectos femininos. E nada melhor do que, no mês do Dia Internacional da Mulher, colocar na mesa para discussão o feminino (e o masculino) no trabalho, nos homens e nas mulheres!

Para Raj e Bhat, a maioria das pessoas, homens e mulheres, adquiriu uma noção de liderança que enfatiza exclusivamente qualidades tradicionalmente “masculinas”: hierárquicas; militaristas; hipercompetitivas; ganhando-em-todos os custos. O resultado disso foi uma corrupção generalizada, degradação ambiental, estresse, depressão e uma série de outros problemas.

Nesse cenário, a liderança Shakti apresenta-se como uma forma mais equilibrada e integrada, um arquétipo de liderança que é generativo, cooperativo, criativo, inclusivo e empático – ao mesmo tempo que é efetivo e produtivo, garantem os autores. “Embora estas sejam tradicionalmente consideradas como qualidades ‘femininas’, todos os seres humanos as possuem. Na tradição yoga indiana, eles são simbolizados por Shakti, a fonte que alimenta toda a vida”, diz Raj.

Ele explica que, por meio de exercícios práticos e modelos inspiradores, podemos aprender a acessar essa energia infinita e liderar o nosso eu. “Os líderes [sejam eles ou elas] que entendem e praticam a liderança Shakti podem atuar a partir de uma consciência do cuidado de vida, da criatividade e da sustentabilidade para alcançar o domínio pessoal internamente e servir o mundo. Eles incorporam o que Martin Luther King Jr. pediu aos líderes: a capacidade de ser duro e terno ao mesmo tempo.”

Para isso, é necessário, primeiro, entender que aspectos masculinos e femininos são polaridades complementares. “Como inalar e exalar, não se pode existir sem o outro. Portanto, para entrar em nosso poder total, precisamos alavancar não apenas nossas qualidades masculinas saudáveis, como a confiança, a concorrência e a determinação; precisamos igualmente aplicar suas capacidades femininas complementares e saudáveis de (por exemplo) empatia, vulnerabilidade, colaboração e abertura, no equilíbrio certo e como exigido em uma dada situação”, explica Raj. “Nós também precisamos reconhecer e rejeitar tendências ‘hiper-masculinas’, como dominação, agressão e foco em resultados a todo custo, bem como qualidades ‘hiper-femininas’, como sentimentalismo e necessidade. Se na liderança e nos negócios focarmos apenas os resultados, em detrimento de nutrir nossos relacionamentos, acabaremos por falhar”, diz. “Precisamos sempre ter a certeza de que estamos aplicando o poder masculino e feminino saudáveis: fazer tarefas e cultivar seus relacionamentos com cuidado e compaixão. Simplificando, trata-se de flexionar entre a quantidade certa de autocuidado e outros cuidados. Não se trata nem de ou/ou. É tudo sobre ambos/e!”.

E O RH NESSE PROCESSO?

Ter um posicionamento muito forte na empresa para garantir que existam políticas que considerem sempre 50% de nomes de mulheres, tanto para as promoções internas quanto para seleção de fora da empresa. Essa é uma das ações que o RH deve liderar quando o assunto é equidade de gênero, na avaliação de Maria Fernanda.

“Tenho implementado essas regras nas empresas onde trabalho e sempre exijo que haja 50% de CVs de mulheres e 50% de homens; ganha o cargo quem tiver mais competência, mas ao menos elas participam. E garanto que tenho conseguido sempre ter times de líderes bem equilibrados de homens e mulheres. As mulheres não querem favores, querem ter oportunidades! Dando oportunidade, elas mostram a mesma competência”, diz.

Empresa signatária dos Princípios do Empoderamento das Mulheres da ONU Mulheres Brasil, entidade das Nações Unidas para a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres, a Atento conta com um conjunto de indicadores de equidade de gênero que é monitorado regularmente, segundo afirma Majo: os salários são referentes às funções, independentemente do sexo de quem as desempenha; proporção entre cargos ocupados por homens e mulheres; número de pessoas elegíveis a serem promovidas e as que já ascenderam, os treinamentos e a utilização dos programas de capacitação profissional, tudo isso com base na função desenvolvida e não no gênero do funcionário; números relativos ao retorno de mulheres após o cumprimento da licença-maternidade/licença-adoção. “Possuímos uma política e programa de diversidade e igualdade que não permitem qualquer tipo de discriminação dentro da empresa, inclusive em processos seletivos e de promoção interna”, diz a executiva.

Além disso, a empresa também oferece vários programas para incentivar o crescimento das colaboradoras, como uma parceria com a Escola de Você, por meio da qual há uma página exclusiva para as funcionárias da Atento, abordando temas para carreira e vida pessoal das mulheres e empreendedorismo. Outros exemplos são as ações como o Atento Social, programa que oferece apoio biopsicossocial às funcionárias vítimas de violência doméstica por meio de atendimento com psicólogas, assistentes sociais, médicos e enfermeiros, e a campanha Sua voz tem vez, projeto de conscientização contra a violência doméstica contra a mulher e esclarecimentos sobre a Lei Maria da Penha e como denunciar ou solicitar apoio da Atento.

É DE CORAÇÃO

E qual a vantagem de saber equilibrar esses aspectos no dia a dia da liderança? Para responder essa questão, vale citar um trecho da obra de Sisodia e Nilma: “A pesquisa de John Gerzema e Michael D’Antonio para o livro The Athena Doctrine (A Doutrina de Atena) também concorda com a ideia de que as pessoas valorizam os dois tipos de traços: 81% dos respondentes da pesquisa concordaram que ‘seja homem ou mulher, é preciso ter tanto traços masculinos quanto femininos para prosperar nos dias de hoje’. Gerzema e D’Antonio apontam que pessoas que ‘incluem estratégias femininas em seu processo de tomada de decisão são duas vezes mais otimistas sobre seu futuro’.”

Tido como um povo acolhedor, simpático e amistoso (o brasileiro é cordial, como colocou o historiador Sérgio Buarque de Hollanda em Raízes do Brasil, mas cordial no sentido de coração), poderíamos pensar que nosso país possui aspectos femininos mais preponderantes em nossa cultura? Na opinião de Almiro dos Reis Neto, presidente da consultoria Franquality, sim – quase equilibrados, com um pouquinho mais para o feminino. A base dessa avaliação está nos trabalhos do holandês Geert Hofstede.

Na década de 1970, Hofstede fez uma pesquisa com cerca de 120 mil pessoas em dezenas de países a partir da qual esboçou sua teoria sobre as culturas nacionais, ou seja, as culturas de diversas nações. Desde então, sua pesquisa já foi refeita diversas vezes, ampliando a população pesquisada e confirmando seus resultados. Uma das dimensões que ele definiu a partir desse trabalho foi denominada “masculinidade / feminilidade”, que, de forma simples, de acordo com Neto, significa a orientação para “desempenho” e “competição” (masculinidade) ou “cuidar das pessoas” e da “qualidade de vida” (feminilidade). “Tais conceitos são muito próximos aos do Sisodia”, destaca Neto.

“O resultado da pesquisa de Hofstede indica que muitos países são fortemente orientados à competição e ao desempenho (‘masculinos’), como o Japão, com 95 pontos, enquanto que outros são claramente ‘femininos’, como a Suécia, com apenas 5 pontos”, diz o presidente da Franquality. O Brasil é ligeiramente mais feminino do que masculino, com 49 pontos.

Mas o consultor destaca que essa dimensão nada tem a ver com “machismo”. “Machismo é o uso do poder do gênero masculino sobre o feminino. Está relacionado com o (ab)uso de poder do homem sobre a mulher. E uma forma de se combater o machismo é combater qualquer forma de autoritarismo, e esta é uma bandeira que homens e mulheres podem trabalhar em conjunto facilmente.”

Tendo como base a noção de que o “feminino” está associado ao “cuidar de pessoas”, fica mais claro o novo conceito que está atrelado ao de liderança e, também, infere-se que a área de recursos humanos tende a ter essa dimensão (feminilidade) mais acentuada. Neto conta que a própria área de RH é um exemplo em que, hoje em dia, a maioria da população parece já ser composta por mulheres. “Afinal de contas, é uma profissão ‘feminina’, pois é, na essência, ‘cuidar de pessoas’. No entanto, [essa presença feminina] ainda não se reflete no nível de liderança. Mas, isso está mudando rapidamente.” No entanto, para que isso ocorra em RH e em outras áreas e setores, é preciso que alguns obstáculos sejam vencidos pelas mulheres – e os homens podem, e devem, ajudar.

OBSTÁCULOS QUE AINDA PERSISTEM

Na Atento, 72% dos funcionários são do sexo feminino e, entre os mais de 4 mil cargos de liderança, 59% são ocupados por mulheres. Uma delas é Majo Martinez, vice-presidente de RH. Ela conta que a companhia incentiva a contratação do público feminino, muitas vezes excluído de processos seletivos, em alguns casos pela questão da maternidade. E esse, para ela, é um dos obstáculos que as mulheres devem vencer no mundo corporativo, a conciliação entre trabalho e família.

Majo conta que, na empresa, há uma série de iniciativas voltadas tanto às gestantes quanto às adotantes. Por exemplo, para algumas funções, há um sistema de turnos, no qual há uma grande flexibilidade na jornada de seis horas de trabalho. Há seis anos, foi criado o Programa Mamãe Nota 10, que, além de acompanhamento médico, psicológico e social durante o pré e pós-natal, também oferece dicas, cursos e palestras sobre gravidez, parto, amamentação e cuidados com o bebê. As participantes ainda recebem gratuitamente um polivitamínico, essencial para a prevenção da anemia e desenvolvimento da criança. “Após o nascimento, a mamãe é presenteada com uma bolsa contendo itens como fraldas e roupinhas. Participando do programa, as funcionárias ficam isentas da coparticipação mensal do plano de saúde durante a gravidez, um incentivo a mais para aderir ao projeto”, acrescenta a executiva. Desde sua implantação, o programa já atendeu mais de 4 mil gestantes e mais de 1.300 foram contempladas apenas no ano de 2016.

O “machismo velado”, não só dentro de casa, mas no mundo corporativo, também entra na lista de Majo. “Em 2015, a Deloitte realizou uma pesquisa com 7 mil empresas espalhadas pelo mundo e percebeu que somente 15% das companhias possuíam mulheres em cargos de liderança. No Brasil, a representatividade é de apenas 7,7%. Em contrapartida, os dados do International Business Report (IBR), Women in Business, realizada pela Grant Thornton, mostram que o número de mulheres em cargos de liderança no país subiu em relação a 2016. Percebemos que existe um crescimento do número de mulheres em cargos de liderança e, sim, elas cada vez mais precisam desenvolver os aspectos masculinos para sobreviver e ultrapassar barreiras”, diz Majo.

Maria Fernanda Teixeira, CEO da Integrow e integrante do comitê de conteúdo do Congresso Nacional de Liderança Feminina (Conalife), evento promovido pela ABRH-SP no dia 24 de maio, em São Paulo, concorda e acrescenta: “As pesquisas continuam a mostrar avanço nulo nos últimos anos nessas posições, diferentemente da base da pirâmide, que hoje tem igualdade de homens e mulheres”. Isso acontece, segundo ela, devido à cultura de valorização do homem ainda estar bem forte. “Acredito e aprovo intervenções temporárias, como cotas para mulheres nos conselhos, até que tenhamos uma sociedade com valores semelhantes e possamos não mais discutir cotas… Temos de reduzir de 100 anos para 8 anos a igualdade, que tal? Afinal, há um número enorme de mulheres bem formadas, bem preparadas, bem provadas de suas competências”, diz. “Ainda se escuta muito que não acham as mulheres preparadas para os altos cargos; uma das razões é que as mulheres não fazem tão bem o networking. Mas, nas minhas conversas com amigos executivos e conselheiros, quando dizem que não encontram mulheres executivas, sempre entrego uma lista de mais de 200 supermulheres superbem preparadas e provadas.”

Outros desafios, agora na avaliação de Sofia Esteves, CEO do Grupo DMRH, são as próprias crenças limitantes que algumas mulheres possuem de que vão ser discriminadas ou que serão menos valorizadas. “Na minha experiência, percebo que as mulheres que são focadas em entregar um trabalho de excelência e com segurança, demonstrando sua competência, têm grandes oportunidades de crescimento”, diz. Ela conta que, uma vez, lhe perguntaram se ela havia sofrido discriminação durante a carreira. “Naquele momento, me dei conta de que nunca tinha parado para pensar naquele assunto e que, com certeza, devia ter passado por vários momentos assim, mas estava tão focada em meu desempenho que não percebi se existiram. Independentemente do sexo, sempre teremos pessoas próximas nos criticando ou nos desvalorizando, mas cabe a nós a sabedoria para lidar com essas situações.”

Sofia acredita que, quando o assunto é a diferença de gênero, nada é mais forte do que os traços de personalidade da pessoa, que vêm com sua genética e sua história de vida. “Muitos estudos mostram que os hemisférios do cérebro que mais utilizamos também influenciam nossas principais habilidades; por isso, o melhor é focar o autoconhecimento e os nossos objetivos de vida e carreira para decidir que habilidades devemos desenvolver para atingir nossos sonhos, independentemente se são características femininas ou masculinas.”

IR À LUTA

“Eu nunca me limitei, nem tive medo de enfrentar os desafios por ser mulher. Sabia e tinha consciência de que eu tinha de ser muito melhor que meus colegas homens para poder ser enxergada, vista, reconhecida. Assim o fiz e continuo fazendo; em vez de me lamentar, arregaço as mangas e mostro minha competência. Quando uma profissional traz resultados, principalmente financeiros, é fácil mostrar competência. Mas a mulher tem de ter estratégia, tem de fazer e dizer que faz – o que chamamos de ‘vender seu peixe’ – todos os dias. Sem estratégia de carreira, as mulheres têm muito mais dificuldade de crescer na carreira. Não se lamente, vá à luta, tenha paixão, tenha amor de verdade por tudo que faz…” Maria Fernanda Teixeira, CEO da Integrow.

CONTINUAR A SER UM SONHO

Para Majo, o caminho é priorizar a diversidade. “Sendo a sociedade feita por pessoas diferentes, quanto mais diverso for o universo de uma empresa, maior será sua capacidade de buscar soluções e atender clientes. O interessante é exatamente o jeito diferente de cada um. Se cada uma das minorias chegar a um ambiente de trabalho e tentar ser como a maioria – homem, heterossexual e branco – vira tudo uma coisa só, sem criatividade, sem inovação, sem a menor troca de conhecimento e valores. O interessante é justamente essa mistura.” E equilíbrio.

E como ajudar os homens a equilibrarem esses aspectos femininos, muitas vezes silenciados pelo cotidiano massacrante do trabalho? Isso, na opinião de Maria Fernanda, não é algo complicado: “Nós, que estamos nos comandos das empresas, precisamos criar um ambiente de muito diálogo, com ações e políticas que tratem os homens e mulheres do mesmo jeito. Por exemplo: os homens também devem ter horários flexíveis para levar filhos à escola, para ir a médicos etc. Quando a empresa enfrenta esses diálogos, os homens passam a liberar seus valores femininos, e perdem o medo de serem mal vistos pela chefia e colegas”, diz. “Quando estivermos numa sociedade em que possamos tratar do feminino e do masculino com igualdade de acesso à educação e formação, aí sim teremos uma sociedade em que homens e mulheres possam ter os mesmos valores”, diz Maria Fernanda Teixeira. “Para isso, a mulher não precisa perder a feminilidade e o homem não precisa perder sua masculinidade, se assim o quiserem. Criatividade, acolhimento, sabedoria, foco, força e disciplina existem nos homens e mulheres, apenas ficam sufocados, visto a educação que temos”, conta.

O equilíbrio entre feminino e masculino no mundo corporativo, por que ainda parece ser tão distante de uma harmonia entre esses aspectos, apesar dos discursos sobre diversidade? Para Raj Sisodia, a resposta refere-se a poder. “O patriarcado governou o mundo por milênios, não apenas no mundo corporativo, mas em todos os aspectos da vida. Este é um modelo ou visão de mundo em que os homens e todas as coisas masculinas exercem domínio sobre as mulheres e todas as coisas femininas. O feminino é desvalorizado e considerado fraco, enquanto o masculino é valorizado, pois é considerado poderoso. As qualidades masculinas são mais visíveis e fáceis de medir e recompensar (por exemplo, conhecer metas, aumentar a linha de fundo), enquanto as qualidades femininas são mais sutis e muitas vezes invisíveis (por exemplo, tendem ao bem-estar das pessoas, mostrando inteligência emocional).
Na maioria das configurações, eles não são medidos ou recompensados.”

O que precisamos, no mundo de hoje, não é apenas de mais mulheres em liderança, conta Raj; é preciso que homens e mulheres possam integrar e, simultaneamente, incorporar qualidades masculinas e femininas. “Um conjunto crescente de pesquisas empíricas mostra que isso é muito mais efetivo para alcançar resultados superiores, ao mesmo tempo que permite que as pessoas sejam muito mais felizes, mais saudáveis. Até que o extraordinário ‘poder soft’ das qualidades femininas seja reconhecido e recompensado ao lado do ‘poder hard’ das qualidades masculinas com igual importância, a diversidade real e a inclusão continuarão a ser um sonho”, acrescenta.

Em busca do equilíbrio e da equidade.2

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 18: 1-12 – PARTE II

Alimento diário - Comendo a Bíblia

Cristo no jardim. A traição de Judas. A orelha de Malco é cortada. Cristo se entrega como prisioneiro

 

II – Tendo o Capitão da nossa salvação entrado na arena, o inimigo imediatamente chega ao local e o ataca (v. 3): Judas vai para lá, com seus homens, comissionado pelos principais dos sacerdotes, especialmente aqueles entre eles que eram fariseus, que eram os mais amargos inimigos de Cristo. Este evangelista omite a agonia de Cristo, porque os outros três já a tinham relatado plenamente, e imediatamente introduz Judas e seu grupo, que vinham para prendê-lo. Observe:

1. As pessoas empregadas nesta ação: uma coorte e oficiais dos principais sacerdotes e fariseus, com Judas.

(1) Aqui uma multidão é empregada contra Cristo – uma corte, um regimento, um grupamento romano, que alguns julgam constituir-se de quinhentos homens, e outros, de mil. Os amigos de Cristo eram poucos, seus inimigos, muitos. Portanto, não devemos seguir a uma multidão para fazer o mal, nem temer uma multidão que deseja nosso mal, se Deus estiver conosco.

(2) Aqui está uma multidão mista. A corte era constituída de gentios, soldados romanos, um destacamento dos guardas que se posicionavam na torre de Antônia, para controlar a cidade. “Os oficiais dos principais sacerdotes”. Fossem seus servos domésticos, ou os oficiais das suas cortes, eram judeus. Estes eram inimigos entre si, mas se uniram contra Cristo, que veio para “reconciliar ambos com Deus em um corpo”.

(3) Esta é uma multidão comissionada, não um tumulto popular. Não, eles receberam ordens dos principais dos sacerdotes, que sugeriram ao governador que este Jesus era um homem perigoso, e provavelmente tiveram uma autorização do governador para prender Jesus, pois eles temiam o povo. Veja que inimigos Cristo e seu Evangelho tinham, e provavelmente têm, numerosos e potentes, e, portanto, formidáveis: os poderes eclesiásticos e civis combinados contra eles, Salmos 2.1,2. Cristo disse que isto seria assim (Mateus 10.18), e sua palavra foi comprovada.

(4) Todos estavam sob a orientação de Judas. Ele tinha recebido esta coorte. É provável que ele os tivesse solicitado, alegando que era necessário enviar um bom destacamento, ambicionando tanto a honra de comandar esta expedição quanto cobiçando o pagamento por esta injustiça. Ele se considerou maravilhosamente promovido, saindo da retaguarda dos doze desprezíveis para ser colocado à frente destas formidáveis centenas. Ele nunca tinha tido um papel tão importante antes, e talvez tivesse prometi­do a ele mesmo que esta não ser ia a última vez, mas que ele seria recompensado com uma patente de capitão, ou algo melhor, se fosse bem-sucedido nesta operação.

2. A preparação que tinham feito para um ataque: eles vieram “com lanternas, e archotes, e armas”.

(1) Se Cristo desejasse se esconder, ainda que tivessem a luz do luar, teriam a oportunidade de usar suas lanternas e archotes, mas eles poderiam ter deixado de trazê-los. O segundo Adão não foi levado, como o primeiro, a esconder-se, fosse por medo ou vergonha, entre as árvores do jardim. Era tolice acender uma lanterna para procurar o Sol.

(2) Se Ele resistisse, eles teriam oportunidade de usar suas armas. As armas do seu combate eram espirituais, e com estas armas Ele sempre os tinha derrotado, e os tinha feito silenciar, e por isto agora eles recorriam a outras armas, espadas e porretes.