ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 18: 1-12 – PARTE I

Alimento diário - Comendo a Bíblia

Cristo no jardim. A traição de Judas. A orelha de Malco é cortada. Cristo se entrega como prisioneiro

 

Agora era chegada a hora em que o Príncipe da nossa salvação, que se consagraria pelas aflições, iria envolver-se com o inimigo. Aqui temos sua entrada no confronto. O dia da recompensa está no seu coração, e o ano dos seus redimidos é chegado, e seu próprio braço traz a salvação, pois Ele não tem auxiliar. Viremo-nos para lá, e vejamos esta grande visão.

 

I – Nosso Senhor Jesus, como um herói corajoso, entra na batalha primeiro (vv. 1,2). Depois de ter proferido estas palavras, pregado o sermão, feito sua oração, concluindo, desta maneira, seu testemunho, Ele não desejou perder tempo, mas saiu imediatamente da casa, saiu da cidade, à luz do luar, pois a Páscoa era celebrada na lua cheia, “com seus discípulos” (os onze, pois Judas estava ocupado com outros assuntos), e dirigiu-se “para além do ribeiro de Cedrom”, que corre entre Jerusalém e o monte das Oliveiras, “onde havia um horto”, não de sua propriedade, mas de algum amigo, que lhe dava a liberdade de usá-lo. Observe:

1. Que nosso Senhor Jesus, “tendo dito isso”, iniciou seus sofrimentos, como em Mateus 26.1: “Quando Jesus concluiu todos esses discursos”. Aqui se sugere:

(1) Que nosso Senhor Jesus aceitava o trabalho que se apresentava diante dele. A função do sacerdote era a de ensinar, e orar, e oferecer sacrifício. Cristo, depois de ensinar e orar, dá sua alma como oferta pelo pecado. Cristo tinha dito tudo o que tinha a dizer como profeta, e agora Ele se dedica à realização do seu trabalho como sacerdote, para fazer da sua alma uma oferta pelo pecado. E quando tivesse concluído isto, Ele iniciaria sua função de rei.

(2) Que, tendo preparado, com seu sermão, os discípulos para esta hora de provação, e tendo preparado, com sua oração, a si mesmo para ela, Ele dirigiu-se corajosamente para encontrá-la. Depois de vestido com sua armadura, Ele entrou na arena, e não antes disto. Que aqueles que sofrem, em conformidade com a vontade de Deus, por uma boa causa, com uma boa consciência, e tendo uma boa vocação para isto, se consolem com o fato de que Cristo não envolverá nenhum dos seus em nenhum conflito, mas Ele irá primeiro fazer por eles aquilo que for necessário para prepará-los para isto. E se recebermos as instruções e os consolos de Cristo, e nos interessarmos pela sua intercessão, nós poderemos, com uma resolução inabalável, nos arriscar em meio às maiores dificuldades no caminho do dever.

2. Que Ele “saiu com os seus discípulos”. Judas sabia qual era a casa em que Ele estava na cidade, e Ele podia ter permanecido e ali encontrado seus sofrimentos, mas:

(1) Ele desejava agir como estava acostumado, e não desejava alterar seus métodos, fosse para encontrar a cruz, fosse para evitá-la, quando fosse chegada sua hora. Quando Ele estava em Jerusalém, era seu costume, depois de passar o dia no serviço público, retirar-se para o monte das Oliveiras. Ali era sua base, na periferia da cidade, pois eles não lhe davam lugar nos palácios, no coração da cidade. Sendo este seu costume, Ele não pode­ ria ser arrancado dos seus métodos, pela previsão dos seus sofrimentos, mas, como Daniel, fez exatamente “como também antes costumava fazer”, Daniel 6.10.

(2) Ele não estava disposto a favorecer o surgimento de um “alvoroço entre o povo”, como estavam seus inimigos, pois sua maneira de agir não consistia em contender ou clamar. Se Ele tivesse sido preso na cidade, e um tumulto tivesse nascido por causa disto, teria havido prejuízos e uma grande quantidade de sangue teria sido derramada, e por isto Ele se retirou. Observe que, quando nos encontramos envolvidos em problemas, nós devemos recear envolver outras pessoas conosco. Não é nenhuma desgraça para os seguidores de Cristo cair docilmente. Aqueles que desejam a honra dos homens, se valorizam e estão sempre determinados a vender suas vidas o mais caro que puderem. Mas aqueles que sabem que seu sangue é precioso para Cristo, e nenhuma gota dele deverá ser derramado, exceto com uma valiosa consideração, não precisam agir em tais termos.

(3) Ele desejava nos dar um exemplo no início da sua paixão, como fez no final dela, de afastamento do mundo. “Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério”, Hebreus 13.13. Devemos deixar de lado, e deixar para trás, as multidões, e as preocupações, e os consolos das cidades, até mesmo das cidades santas, se desejarmos alegremente tomar nossa cruz, mantendo assim nossa comunhão com Deus.

3. Que Ele foi “para além do ribeiro de Cedrom”. Ele precisava cruzá-lo, para chegar ao monte das Oliveiras, mas o fato de que o evangelista chama a atenção para isto sugere que havia nele algo importante, e aponta para:

(1) A profecia de Davi a respeito do Messias (Salmos 110.7): “Pelo caminho, dessedentar-se-á no ribeiro”, o ribeiro do sofrimento no caminho para sua glória e nossa salvação, representado pelo ribeiro de Cedrom, o ribeiro escuro, assim chamado pela escuridão do vale pelo qual ele corria, ou pela cor da água, maculada pela sujeira da cidade. De tal ribeiro, Cristo bebeu, quando estava no caminho da nossa redenção, e por isto Ele “prosseguirá de cabeça erguida”, e nós poderemos fazer o mesmo.

(2) O padrão de Davi, como um tipo de Messias. Na sua fuga de Absalão, chama-se a atenção particularmente para o fato de que ele passou pelo ribeiro de Cedrom, e subiu “pela subida das Oliveiras”, chorando, e todo o povo que ia com ele chorando sem cessar, 2 Samuel 15.23,30. O Filho de Davi, sendo expulso pelos judeus rebeldes, que não desejavam que Ele reinasse sobre eles (e Judas, como Aitofel, participando do complô contra Ele), passou pelo rio em miséria e humilhação, acompanhado por um grupo de fiéis pranteadores. Os reis de Judá que temiam ao Senhor tinham queimado e destruído os ídolos que encontraram no ribeiro de Cedrom; Asa, 2 Crônicas 15.16; Ezequias, 2 Crônicas 30.14; Josias, 2 Reis 23.4,6. Neste ribeiro, foram lançadas as coisas abomináveis, a imundícia (2 Crônicas 29.16). Cristo, tendo-se feito agora pecado por nós, para que pudesse aboli-lo e removê-lo, iniciava sua paixão no mesmo ribeiro. O monte das Oliveiras, onde Cristo iniciou seus sofrimentos, fica a leste de Jerusalém. O monte Calvário, onde Ele os concluiu, a oeste. Com isto, Ele visava àqueles que viriam “do Oriente e do Ocidente”.

4. Que Ele entrou em um jardim. O fato de que os sofrimentos de Cristo tiveram início em um jardim é observado somente por este evangelista. No jardim do Éden, o pecado teve início. Ali foi proferida a maldição, ali foi prometido o Redentor, e por isto em um jardim aquela semente prometida entrou na arena com a antiga serpente. Cristo foi sepultado também em um jardim.

(1) Quando caminhamos nos nossos jardins, devemos aproveitar para meditar sobre os sofrimentos de Cristo em um jardim, aos quais nós devemos todo o prazer que temos nos nossos jardins, pois, por estes sofrimentos, a maldição sobre o solo, por causa do homem, foi removida.

(2) Quando estamos em meio às nossas posses e aos nossos deleites, devemos manter uma expectativa de problemas, pois nossos jardins de prazeres estão em um vale de lágrimas.

5.Que Ele tinha consigo seus discípulos:

(1) Porque Ele estava acostumado a levá-los consigo quando se retirava em oração.

(2) Eles deviam ser testemunhas dos seus sofrimentos, e da sua paciência ao suportá-los, para que pudessem, com mais segurança e afeto, pregá-los ao mundo (Lucas 24.48), e se prepararem, eles mesmos, para sofrer.

(3) Ele os levaria ao perigo, para mostrar-lhes sua fraqueza, apesar das promessas de fidelidade que eles tinham feito. Às vezes, Cristo traz seu povo a dificuldades, para que Ele possa se enaltecer com sua libertação.

6.Que Judas, o traidor, conhecia o lugar, sabia que era o lugar do retiro usual de Jesus, e, provavelmente, por alguma palavra que Cristo tivesse deixado escapar, sabia que Ele pretendia estar ali naquela noite, por falta de um lugar melhor. Um jardim solitário é um lugar adequado para meditação e oração, e a ocasião depois da Páscoa é uma ocasião apropriada para retirar-se para uma devoção particular, para que possamos orar sobre as impressões criadas e os votos renovados, e nos agarrarmos a eles. Aqui se menciona que Judas conhecia o lugar:

(1) Para agravar o pecado de Judas, pois ele trairia seu Mestre, apesar do íntimo relacionamento que tinha com Ele. Ou melhor, pois ele faria uso da sua familiaridade com Cristo, como dando-lhe uma oportunidade de traí-lo. Uma mente generosa teria repudiado fazer uma coisa tão vil. Desta maneira, a santa religião de Cristo tem sido ferida na casa de seus amigos como não tem sido ferida em nenhuma outra parte. Muitos apóstatas poderiam não ter sido tão profanos, se não tivessem sido professores. Poderiam não ter ridicularizado as Escrituras e as ordenanças, se não as tivessem conhecido.

(2) Para enaltecer o amor de Cristo, pois, embora Ele soubesse onde o traidor iria procurá-lo, para lá Ele foi, para ser encontrado por ele, agora que Ele sabia que sua hora já era chegada. Desta maneira, Ele se mostrou disposto a sofrer e a morrer por nós. O que Ele fez, não foi por coerção, mas por consentimento. Embora, como homem, Ele dissesse: “Passa de mim este cálice”, como Mediador, Ele disse: “Eis que venho”, venho com boa vontade. Era tarde da noite (podemos supor que fossem oito ou nove horas), quando Cristo saiu para ir ao jardim, pois realizar a vontade daquele que o tinha enviado não era somente sua comida e sua bebida, mas também seu descanso e seu sono. Quando os outros estavam indo para a cama, Ele estava indo à oração, e ao sofrimento.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.