PSICOLOGIA ANALÍTICA

AS BRUXAS E AS FACES DO FEMINISMO

Na Europa do século 15 circulavam mitos sobre belas jovens solteiras que se reuniam nos campos para adorar o diabo – e até hoje essas crenças persistem. A autonomia e a sexualidade da mulher foram, por muito tempo, condenadas e relacionadas às práticas pagãs – associação carregada de fantasia e erotismo.

As bruxas e as faces do feminismo

“Por que as mulheres são as principais adeptas das superstições malignas?” “Seriam elas conduzidas pelo demônio ao pecado ou seriam, por sua própria vontade, as responsáveis por seduzir, fazer o mal e pecar?” Essas são duas das dezenas de questões levantadas pelos inquisidores Heinrich Kramer e Jacobus Sprenger no século 15, no livro Malleus maleficarum, uma espécie de manual prático sobre como reconhecer uma bruxa e se proteger contra ela. Organizado em perguntas e respostas, o documento escrito sob encomenda do papa Inocêncio VIII apontava como fortes suspeitas de praticar feitiçaria mulheres solteiras, sem filhos e com função de destaque em suas comunidades, como parteiras ou conhecedoras das faculdades medicinais das ervas.

Nesse mesmo período, as índias das Américas recém­ descobertas fascinavam e confundiam os europeus. Em uma xilogravura de 1509 que ilustra as narrativas do explorador italiano Américo Vespúcio, três mulheres tupinambás seduzem um branco enquanto outra prepara o golpe mortal em sua cabeça com um tacape – ação que tradicionalmente caberia a outro homem. Essa imagem é emblemática, pois elege a figura feminina como representante dos vícios do Novo Mundo e de valores que os cristãos europeus deveriam repudiar e combater. Não por acaso, após o descobrimento, nota-se um aumento das produções artísticas que retratam as feiticeiras europeias como adeptas de danças circulares, de rituais antropofágicos e do uso de caldeirões para fabricar poções destinadas a provocar doenças e abortos, o que indica contaminação com o estereótipo das tupinambás, descritas como protagonistas das cerimônias em que es­ quartejavam e cozinhavam o corpo do inimigo , usando suas vísceras na preparação do cauim, uma bebida ritual.

DESEJO REPRIMIDO

Dissimulação, luxúria, ambição e infidelidade são características atribuídas às bruxas europeias e às índias. Sua beleza é tratada como armadilha. Um imaginário temido que repercute o medo original de Eva e do pecado, a “costela torta” de Adão. Sua ambição e curiosidade estariam implícitas na conduta de suas descendentes. Em uma passagem do Malleus, os inquisidores alertam: “Os homens são capturados quando veem e ouvem as mulheres. Como diz São Bernardo, “seu rosto é um vento quente, a sua voz, um apito das serpentes”.

A razão do aparecimento da tipologia social das feiticeiras é, sem argumentação mais aprofundada, relacionada pelos autores do manual de caça às bruxas ao incontrolável desejo sexual feminino. Havia um forte componente erótico nas confissões. Na ata de uma das primeiras execuções de que se tem registro – a da francesa Angéle de la Barthe, em 1275 -, a acusada dizia haver conhecido o “pênis do diabo”, descrito como gigantesco (por vezes se dividia em dois órgãos), capaz de ejacular de uma só vez quantidade de esperma que excedia a de mil homens. Algumas afirmavam que o membro pendia do traseiro do demônio – imagem corriqueira nas obras que retratam rituais sabáticos, nas quais mulheres beijam o ânus de um ser metamorfoseado em homem e bode.

Os supostos relatos de experiências em êxtase das “bruxas” poderiam ser fruto de alucinações influenciadas por lendas sobre a busca do prazer e o desprezo das convenções sociais pelas praticantes de magia. Os depoimentos denotam não só fantasias femininas, mas também masculinas, especialmente em relação ao órgão sexual. Como ressalta o historiador David Friedman, autor de Uma mente própria A história cultural do pênis, “cinco séculos antes da caça às bruxas as mulheres eram consideradas insaciáveis; acreditava-se que eram capazes de tornar um homem impotente e até mesmo de fazer seu pênis desaparecer”. Essa noção se traduziu em práticas sociais curiosas no período – alguns homens exibiam por cima da calça falos feitos de tecidos de cores chamativas, moldados em forma de ereção. “A primeira peça na armadura de um guerreiro”, ironizou o escritor francês François Rabelais.

O imaginário da bruxaria evidencia a transmissão inconsciente de construções populares – como as histórias de mulheres que se reuniam para praticar orgias e oferecer crianças ao demônio nos campos (na verdade nunca comprovadas, mas circulavam em locais distintos da Europa) – e de mitos clássicos, como o da deusa pagã Diana, guerreira que não se submetia aos homens e montava altiva em seu cavalo, imagem que remete ao domínio da mulher na relação sexual, por cima do parceiro. A própria vassoura, aliás, é um símbolo fálico.

“São as bruxas culpadas ou vítimas do demônio?”, perguntam os autores do Malleus.

A questão retoma a ambígua relação entre Eva e a serpente, na qual a mulher de Adão, ao mesmo tempo que é seduzida, também induz o companheiro a pecar. As bruxas, igualmente, eram retratadas tanto como donzelas ludibriadas pelo diabo quanto como as próprias protagonistas do mal, responsáveis pela impotência masculina e pela infertilidade das outras mulheres. Ainda, a nudez das ameríndias remetia simultaneamente ao paraíso, um novo Éden, e ao inferno, terreno fértil para os ritos diabólicos.

A ligação com a víbora na passagem bíblica foi habilmente associada à perfídia, falha de caráter “mais frequente nas mulheres que nos homens”, como atesta o manual de caça às bruxas. Estas, por sua vez, são frequentemente representadas junto de animais peçonhentos ou de hábito noturno, como as corujas. O historiador italiano Cario Ginzburg atenta para a figura do sapo – em várias línguas de raiz germânica, essa palavra designa, além do anfíbio, cogumelos alucinógenos. O consumo de infusões que causavam alucinações chegou a ser cogitado por cientistas do século 16 como explicação para as descrições de voos, visões do demônio e reuniões sabáticas relatadas pelas acusadas de bruxaria. Essa hipótese é, no entanto, desconsiderada por Ginzburg. Para ele, “a chave dessa repetição codificada só pode ser cultural”.

CONSTRUÇÃO PSÍQUICA

A pergunta é inevitável: as bruxas existiram? Sim, se considerarmos que elas foram construção social de uma época na qual realidade e ficção se fundiram não apenas entre o povo, – mas entre as instituições. As perseguições contra qualquer manifestação feminina de diversidade resultaram em prisões, torturas e cerca de 100 mil mortes nas fogueiras da Inquisição medieval.

As bruxas personificavam os medos da sociedade, como pestes e infertilidade, e toda sorte de pecado. Temidas representações do feminismo, elas são produto de um “caldeirão cultural” que une poderosamente o exótico e o macabro, e de uma estrutura mental e discursiva que associou o protagonismo feminino às práticas consideradas diabólicas e mágicas.

As bruxas e as faces do feminismo.2

VÍTIMAS PERFEITAS DA INQUISIÇÃO

Em um documento de 1233, o papa Gregório IX admitiu a existência do sabá – uma festa noturna na qual homens e mulheres prestavam homenagem a divindades femininas pagãs, com sacrifícios de animais, uso de bebidas alcoólicas e orgias sexuais. Essas reuniões nunca foram comprovadas, mas possivelmente os boatos surgiram de histórias sobre costumes antigos, presentes em muitas culturas. As deusas representavam fertilidade, boas colheitas e equilíbrio da natureza. No entanto, a Europa vivia um período histórico e político delicado: havia a ameaça das invasões dos bárbaros, temidos tanto pela violência quanto pelas religiões que propagavam. Obviamente a Igreja enxergava essas crenças como ameaça à sua hegemonia, por isso decidiu combatê-las com violência.

A alta cúpula da Igreja, com apoio de várias monarquias europeias, criou uma instituição para tentar suprimir a heresia, a Inquisição, que adquiriu plena autonomia para decidir o que era suspeito e qual pena devia ser aplicada. Era preciso, antes de tudo, eleger um alvo para as perseguições – e a primeira edição do Malleus maleficarum não deixou a menor dúvida: “Mentirosa por natureza, ela o é em sua linguagem; excita com seus encantos. (…) Matam, efetivamente, porque esvaziam a bolsa, tiram a força, obrigam a perder a Deus”, destilaram os autores do manual sobre a figura feminina. Prevalecia o senso comum de que a mulher se sentia mais atraída pela bruxaria. Segundo o Malleus, por ser “mais crédula, menos experiente, mais maldosa e predisposta à vingança”.

Elas se tornaram vítimas perfeitas de uma sociedade tomada pelo medo da guerra e da fome – uma neurose coletiva que transformou juízes e cidadãos comuns em torturadores, fiéis seguidores das hoje absurdas instruções do Santo Ofício, que encontrou na credulidade do povo uma forte aliada para as repressões. Um dos critérios para reconhecer uma feiticeira, por exemplo, era amarrar pés e mãos da suspeita e atirá-la na água. Se fosse culpada, deveria flutuar; inocente, afundaria. A prova era repetida três vezes, de forma que a ré terminava se afogando. Se continuasse viva, era levada para a fogueira. Critério semelhante era aplicado às lágrimas derramadas durante rituais de tortura: se a vítima chorasse, era uma confissão, sinal da astúcia feminina, uma tentativa de comover os inquisidores. Caso contrário, significava que estava tomada por um endurecimento diabólico.

Dentre os sentenciados à fogueira, estima-se que mais de 80% eram do sexo feminino. Paradoxalmente às descrições do Malleus, que apontava as mulheres jovens e bonitas como principais emissárias do demônio, a maioria das executadas na forca ou na fogueira tinha mais de 60 anos.

Eram, em geral, viúvas, sem chances de se casar, ter filhos, ou seja, um peso para parentes ou vizinhos – que muitas vezes eram os autores das denúncias. Não raro, quando surgia uma suspeita de bruxaria em um vilarejo ou cidade, surgiam várias outras acusações no mesmo lugar. Quase sempre as suspeitas eram presas e a comunidade aguardava ansiosa pelo julgamento, descrito por historiadores como um grande evento.

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HISTERIA: OS DEMÔNIOS REPENSADOS

Em 1676, na França, uma mulher de 46 anos foi queimada em praça pública, acusada de bruxaria. No entanto, ela se assemelhava muito pouco à imagem da feiticeira libertina que chegava aos sabás montada em um cabo de vassoura. Segundo os depoimentos de testemunhas, Marie d’Aubray, marquesa de Brinvilliers, apresentava contrações nervosas frequentes na face e, não raro, convulsões. Tinha um histórico de violência sexual e confessou que planejou envenenar o pai pois ele era contra seu relacionamento com um jovem oficial.

Condenada à fogueira, a marquesa de Brinvilliers, se fosse examinada dois séculos depois pelo médico Jean-Martin Charcot (1825-1893), no hospital francês La Salpêtriêre, teria seus sintomas exibidos em uma aula para médicos recém-formados, entre eles Sigmund Freud (1856-1939).

No século 19, os casos de bruxaria e possessões demoníacas migraram dos domínios da religião e da lei para o da medicina. As visões de Satanás e os sintomas físicos de uma atuação maligna passaram a ser, aos poucos, cogitados como alucinações e sintomas de patologias que mal começavam a ser identificadas, como epilepsia e histeria. Charcot, aliás, analisava registros de antigos processos de bruxaria em suas aulas sobre doenças do sistema nervoso, apontando sinais de possíveis distúrbios nas acusadas.

Freud se interessou especialmente pelos casos de histeria – um desafiador conjunto de sintomas, sem causa orgânica aparente, que envolvia desde alucinações até a paralisia de algumas partes do corpo, mais frequente em mulheres. Sob a influência de Charcot, o médico austríaco usou a hipnose para tentar descobrir vivências dolorosas do passado de suas pacientes, muitas vezes esquecidas, o que ele chamava de “trauma”. Segundo Freud, ao se lembrarem do evento, elas reviveriam as emoções que não puderam expressar de forma adequada no passado. Surgiam assim a noção de recalque e o tratamento centrado na fala, fundamentais na psicanálise. Diante de desejos intensos e repressões igualmente fortes, a organização psíquica da histérica elabora fantasias e se manifesta em somatizações. Uma “teatralização” que, segundo sugerem documentos históricos sobre os grandes julgamentos de feitiçaria, encontrou um público sedento pelo bizarro e o espetacular. E, nesse sentido, nada mais sedutor que a bruxaria.

“A histeria é uma forma específica de se relacionar com o outro. O sintoma explicitado no corpo pode ser considerado como instrumento a mais para tentar estabelecer vínculos”, define o psicólogo Fábio Riemenschneider, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), autor de Histeria, para além dos sonhos. Segundo o psicólogo, essa complexa engrenagem tem uma peça fundamental: o intenso – e recalcado – desejo pela figura parental do sexo oposto durante a infância, o que Freud definiu como “complexo de Édipo”. Esse conflito psíquico se manifesta principalmente na sexualidade. É uma queixa pela falta do objeto amado e desejado, que se reflete na criação de fantasias, nos atos (falhos ou não) e na busca por formas alternativas de satisfação da fantasia edípica. “Certamente, muitas das ‘bruxas’ foram queimadas por seus sintomas e não por seus supostos poderes mágicos”, diz Riemenschneider.

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OUTROS OLHARES

COCA-COLA RENOVA O GÁS

A maior fabricante de bebidas do mundo investe em novas frentes de negócios para compensar a queda nas vendas de seu principal mercado.

Coca-cola renova o gás

A fórmula da Coca-Cola é um dos segredos mais bem guardados da indústria mundial. Desde 1892, poucas pessoas tiveram acesso à mistura de ingredientes que deu origem ao refrigerante mais vendido do planeta e que ajudou o centenário grupo americano a se tornar o maior fabricante mundial de bebidas. Com as mudanças no padrão de consumo e a busca crescente por saúde e bem-estar, o tradicional produto de rótulo vermelho e branco começa a perder espaço nos carrinhos de compras, assim como toda a categoria. O desempenho global da companhia reforça esse cenário. O seu faturamento caiu de US$ 48 bilhões, em 2012, para US$ 35,4 bilhões, no ano passado. Sob esse contexto, a Coca-Cola começa a investir na abertura de diferentes frentes de negócios, em busca de um novo gás para voltar a crescer e sustentar a sua operação.

O mercado brasileiro tem bons exemplos do que a empresa tem feito para diversificar o seu portfólio. Dois meses depois do lançamento local de uma versão que mistura o refrigerante com café expresso, a Coca-Cola investiu na entrada em um novo segmento, por meio da marca Del Valle: a categoria de água de coco. “Nossas bebidas não competem entre si e há potencial de evolução em muitos segmentos. Estamos nos renovando bastante”, diz Pedro Abondanza, gerente de marketing da Coca-Cola Brasil para a Del Valle. A expectativa inicial da companhia é alcançar 10 milhões de litros em vendas em um ano, o que representa quase 6% do volume total do que é consumido hoje pelos brasileiros. No país, o consumo da categoria cresceu 41% nos últimos cinco anos, segundo a consultoria Euromonitor. O mercado de refrigerantes enfrenta outra realidade: o consumo desse tipo de bebida caiu 20% no mesmo período no País. Essa queda está associada ao aumento de renda dos brasileiros, na avaliação da Concept, consultoria especializada em alimentos e bebidas. “Isso ampliou a possibilidade de compra de produtos mais saudáveis”, diz Adalberto Viviani, presidente da consultoria.

Para a Euromonitor, a retomada da economia brasileira pode impulsionar novamente o consumo de refrigerante nos próximos anos. Até 2022, a consultoria prevê crescimento de 1,2% no mercado brasileiro. Globalmente, a projeção é de um avanço de 5% no período. “Apesar de a categoria ser vista como vilã por conta do nível de açúcar, a Coca-Cola tem uma estratégia muito assertiva em momentos de crise, como diversificar embalagens e até mesmo o tamanho dos produtos”, afirma Angelica Salado, analista sênior de bebidas da Euromonitor

À parte dessas projeções, a empresa se movimenta para investir em novos mercados. E essa busca não se limita ao Brasil. Em 2016, a Coca-Cola entrou na categoria de sucos à base de soja na América Latina com a aquisição da Ades, que era da Unilever, por US$ 575 milhões. Já em agosto deste ano, a companhia desembolsou mais US$ 5,1 bilhões para comprar a rede de cafés Costa, que opera cerca de 4 mil cafeterias em 32 países e pertencia ao grupo britânico Whitbread. “A bebida quente é um dos poucos segmentos em que a Coca-Cola não possui uma marca global. Costa nos dá acesso a este mercado com uma forte plataforma de café”, afirmou, na época, James Quincey, presidente global da Coca-Cola. A sede de diversificação não foi saciada com a aquisição. Em uma ofensiva contra a concorrente PepsiCo, dona do Gatorade, a Coca-Cola comprou uma fatia minoritária na BodyArmor, uma startup americana de bebidas energéticas apoiada por atletas de peso, como Kobe Bryant, um dos maiores nomes da história do basquete americano.

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Na toada de expansão em novos conceitos de bebida, outra iniciativa surpreendeu o mercado. No início deste mês, o site canadense BNN Bloomberg divulgou que a Coca-Cola tem interesse na indústria de bebidas com canabidiol (CBD) – ingrediente não-psicoativo da maconha – e que a gigante estaria em negociação com a produtora Aurora Cannabis Inc para desenvolver um novo rótulo. “Juntamente com muitos outros na indústria de bebidas, estamos acompanhando de perto o crescimento da CBD como ingrediente em bebidas funcionais de bem-estar em todo o mundo. O espaço está evoluindo rapidamente”, informou a companhia, em nota. Até agora, nenhuma decisão oficial foi tomada.

A tentativa de diversificar as atividades não é um caso isolado da Coca-Cola. Em agosto, a PepsiCo comprou a empresa israelense SodaStream, fabricante de máquinas caseiras que produzem bebidas gaseificadas saudáveis, por US$ 3,2 bilhões, e a americana Bare Foods, fabricante de lanches feitos com frutas e vegetais assados. À medida que as vendas dos negócios tradicionais continuem a cair, todos estarão de olho em ampliar o próprio nicho de atuação. “Com as novas apostas de mercado, vamos ver um dinamismo de produtos muito grande nos próximos anos”, afirma Salado, da Euromonitor. Com todas as novidades, fica a dúvida: será o suficiente para a Coca-Cola ganhar um novo gás?

Coca-cola renova o gás.3

 

 

 

GESTÃO E CARREIRA

LIDERANÇA POSITIVA:

UM NOVO MODELO DE LIDERANÇA PARA ESSES NOVOS TEMPOS

Os conceitos de uma Liderança Positiva derivam do desenvolvimento da Psicologia Positiva e de uma vasta gama de análises e avaliações de pessoas em empresas.

Liderança Positiva - um novo modelo de liderança para esses novos tempos

O momento é de grandes mudanças. O que dava certo antes já não funciona mais. As empresas estão obrigadas a mudar. A necessidade de criar e oferecer novos produtos e serviços provoca mudanças e reorganizações que acabam demandando novas formas de trabalho, novos negócios, novas competências e, finalmente um novo modelo de liderança.

A mudança mais significativa está no conceito de liderança, provocada pelo surgimento deste novo capitalismo sem capital. Aos fatores clássicos de produção foi acrescentado um novo fator, o conhecimento, que criou as novas empresas e a nova sociedade que Peter Drucker chamou de “Sociedade do Conhecimento”. Nesta “Sociedade do Conhecimento”, a inovação, a informação e o conhecimento passam a ser mais tão ou mais importantes que o capital financeiro.

As novas grandes corporações, as famosas empresas do Vale do Silício foram constituídas com muito pouco ou quase nada de dinheiro. Nesta nova sociedade o “Trabalhador do Conhecimento” é, finalmente, dono dos meios de produção e do produto do seu trabalho. O trabalhador do conhecimento faz seus horários e controla sua produção, cuida do autodesenvolvimento, estabelece prioridades e não precisa estar subordinado a alguém que fiscalize seus horários e seu trabalho.

Isso tudo é radicalmente novo e muda completamente a forma de organizar e liderar pessoas. Não se consegue mais impor a antiga forma de gestão por presença, números, métricas, valores e prazos, através de estruturas hierárquicas, pré-definidas, departamentalizadas. Esta dificuldade acarreta uma inadequação dos sistemas clássicos de liderança, avaliação, recompensa e remuneração.

Esses novos tempos pedem uma nova organização das pessoas, e, portanto, novos líderes, novos profissionais. A nova estrutura organizacional precisa incorporar essa flexibilidade e especialização. A organização das pessoas mais adequada é a de uma orquestra sinfônica, na qual o líder se torna mais um maestro que lidera especialistas. Um líder que define e transmite sua visão, fixa metas, mobiliza e incentiva. Mandar, impor, nunca mais.

O desafio da nova Liderança é influenciar e mobilizar as pessoas, para que desenvolvam motivação para fazer o que “deve” ser feito. O desafio do novo líder é ajudar a criar o novo e mobilizar as pessoas para implantarem as mudanças. Pessoas flexíveis, adaptáveis, confiantes e otimistas vão superar outras, mais rígidas, medrosas e pessimistas, difíceis de mudar.

Para responder a essa demanda das organizações surge um novo conceito e modelo de liderança, a “Liderança Positiva”. Os conceitos de uma Liderança Positiva derivam do desenvolvimento da Psicologia Positiva e de uma vasta gama de análises e avaliações de pessoas em empresas que apresentaram resultados extraordinários. “Liderança Positiva” é um conjunto de práticas e de estratégias que podem ajudar aos líderes a fazer com que suas equipes possam alcançar resultados espetaculares e desempenho muito além do esperado.

A liderança positiva mostra que, para obter resultados excepcionais, os líderes devem aprender a criar um ambiente extremamente positivo no trabalho. Eles devem aproveitar os pontos fortes de cada um em vez de simplesmente concentrar-se sobre os pontos fracos. Líderes devem aprender a elogiar e promover emoções positivas como a compreensão, compaixão, otimismo, gratidão e o perdão. Devem desenvolver e incentivar as relações de apoio mútuo em todos os níveis, e fornecer aos liderados um senso profundo de significado e propósito do trabalho.

Exercer uma liderança positiva, ser um líder positivo, significa cultivar um clima positivo, desenvolver relacionamentos positivos, manter uma comunicação positiva e finalmente criar, em cada um dos liderados uma percepção de sentido e significado positivos de seu trabalho.

Pesquisas comprovam que a existência de Clima Positivo onde prevalecem emoções positivas conduz a otimização da atuação dos indivíduos e dos grupos e ao atingimento de desempenhos positivos acima do normal. Líderes afetam o clima organizacional pela forma como induzem, desenvolvem e demonstram emoções positivas. Induzir e fomentar emoções positivas (alegria, confiança, amor, apreciação, etc.) e reduzir emoções negativas (medo, raiva, ansiedade, etc) provoca um aumento significativo da capacidade cognitiva, da retenção de informações, da criatividade, e da produtividade, das pessoas.

Pessoas, em grupo com relacionamentos positivos, que dão e recebem apoio, compreensão, suporte, encorajamento e têm as suas necessidades psicológicas e emocionais atendidas reciprocamente, se sentem mais seguras e têm desempenho e produtividade aumentadas.

A busca de um sentido na vida é uma necessidade humana universal e a relação entre esse sentido e o significado do trabalho é fator fundamental. Os que consideram seu trabalho apenas como um emprego buscam ganhos financeiros e materiais e tem desempenhos apenas normais.

Por outro lado, os indivíduos que fazem o que gostam e para quem seu trabalho é a sua vocação, buscam recompensas muito além dos benefícios pessoais ou financeiros e possuem desempenho muito acima do normal. Cabe ao líder ajudar a cada um dos liderados a encontrar sua vocação e desenvolver um sentido e significado positivo de seu trabalho. O comportamento do líder é contagioso e tem um efeito exponencialmente multiplicador no grupo e na organização.

Para conseguir implantar os novos conceitos da Liderança Positiva tem-se que ir além da mudança de comportamentos e atitudes. Tem-se que desenvolver novas crenças e valores. Tem-se que ter a coragem de acreditar que se pode ir além do normal, confiar na capacidade e na boa vontade das pessoas, nas possibilidades do virtuosismo e da excelência acima do limite.

Liderança Positiva - um novo modelo de liderança para esses novos tempos.2

 

 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 18: 1-12 – PARTE I

Alimento diário - Comendo a Bíblia

Cristo no jardim. A traição de Judas. A orelha de Malco é cortada. Cristo se entrega como prisioneiro

 

Agora era chegada a hora em que o Príncipe da nossa salvação, que se consagraria pelas aflições, iria envolver-se com o inimigo. Aqui temos sua entrada no confronto. O dia da recompensa está no seu coração, e o ano dos seus redimidos é chegado, e seu próprio braço traz a salvação, pois Ele não tem auxiliar. Viremo-nos para lá, e vejamos esta grande visão.

 

I – Nosso Senhor Jesus, como um herói corajoso, entra na batalha primeiro (vv. 1,2). Depois de ter proferido estas palavras, pregado o sermão, feito sua oração, concluindo, desta maneira, seu testemunho, Ele não desejou perder tempo, mas saiu imediatamente da casa, saiu da cidade, à luz do luar, pois a Páscoa era celebrada na lua cheia, “com seus discípulos” (os onze, pois Judas estava ocupado com outros assuntos), e dirigiu-se “para além do ribeiro de Cedrom”, que corre entre Jerusalém e o monte das Oliveiras, “onde havia um horto”, não de sua propriedade, mas de algum amigo, que lhe dava a liberdade de usá-lo. Observe:

1. Que nosso Senhor Jesus, “tendo dito isso”, iniciou seus sofrimentos, como em Mateus 26.1: “Quando Jesus concluiu todos esses discursos”. Aqui se sugere:

(1) Que nosso Senhor Jesus aceitava o trabalho que se apresentava diante dele. A função do sacerdote era a de ensinar, e orar, e oferecer sacrifício. Cristo, depois de ensinar e orar, dá sua alma como oferta pelo pecado. Cristo tinha dito tudo o que tinha a dizer como profeta, e agora Ele se dedica à realização do seu trabalho como sacerdote, para fazer da sua alma uma oferta pelo pecado. E quando tivesse concluído isto, Ele iniciaria sua função de rei.

(2) Que, tendo preparado, com seu sermão, os discípulos para esta hora de provação, e tendo preparado, com sua oração, a si mesmo para ela, Ele dirigiu-se corajosamente para encontrá-la. Depois de vestido com sua armadura, Ele entrou na arena, e não antes disto. Que aqueles que sofrem, em conformidade com a vontade de Deus, por uma boa causa, com uma boa consciência, e tendo uma boa vocação para isto, se consolem com o fato de que Cristo não envolverá nenhum dos seus em nenhum conflito, mas Ele irá primeiro fazer por eles aquilo que for necessário para prepará-los para isto. E se recebermos as instruções e os consolos de Cristo, e nos interessarmos pela sua intercessão, nós poderemos, com uma resolução inabalável, nos arriscar em meio às maiores dificuldades no caminho do dever.

2. Que Ele “saiu com os seus discípulos”. Judas sabia qual era a casa em que Ele estava na cidade, e Ele podia ter permanecido e ali encontrado seus sofrimentos, mas:

(1) Ele desejava agir como estava acostumado, e não desejava alterar seus métodos, fosse para encontrar a cruz, fosse para evitá-la, quando fosse chegada sua hora. Quando Ele estava em Jerusalém, era seu costume, depois de passar o dia no serviço público, retirar-se para o monte das Oliveiras. Ali era sua base, na periferia da cidade, pois eles não lhe davam lugar nos palácios, no coração da cidade. Sendo este seu costume, Ele não pode­ ria ser arrancado dos seus métodos, pela previsão dos seus sofrimentos, mas, como Daniel, fez exatamente “como também antes costumava fazer”, Daniel 6.10.

(2) Ele não estava disposto a favorecer o surgimento de um “alvoroço entre o povo”, como estavam seus inimigos, pois sua maneira de agir não consistia em contender ou clamar. Se Ele tivesse sido preso na cidade, e um tumulto tivesse nascido por causa disto, teria havido prejuízos e uma grande quantidade de sangue teria sido derramada, e por isto Ele se retirou. Observe que, quando nos encontramos envolvidos em problemas, nós devemos recear envolver outras pessoas conosco. Não é nenhuma desgraça para os seguidores de Cristo cair docilmente. Aqueles que desejam a honra dos homens, se valorizam e estão sempre determinados a vender suas vidas o mais caro que puderem. Mas aqueles que sabem que seu sangue é precioso para Cristo, e nenhuma gota dele deverá ser derramado, exceto com uma valiosa consideração, não precisam agir em tais termos.

(3) Ele desejava nos dar um exemplo no início da sua paixão, como fez no final dela, de afastamento do mundo. “Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério”, Hebreus 13.13. Devemos deixar de lado, e deixar para trás, as multidões, e as preocupações, e os consolos das cidades, até mesmo das cidades santas, se desejarmos alegremente tomar nossa cruz, mantendo assim nossa comunhão com Deus.

3. Que Ele foi “para além do ribeiro de Cedrom”. Ele precisava cruzá-lo, para chegar ao monte das Oliveiras, mas o fato de que o evangelista chama a atenção para isto sugere que havia nele algo importante, e aponta para:

(1) A profecia de Davi a respeito do Messias (Salmos 110.7): “Pelo caminho, dessedentar-se-á no ribeiro”, o ribeiro do sofrimento no caminho para sua glória e nossa salvação, representado pelo ribeiro de Cedrom, o ribeiro escuro, assim chamado pela escuridão do vale pelo qual ele corria, ou pela cor da água, maculada pela sujeira da cidade. De tal ribeiro, Cristo bebeu, quando estava no caminho da nossa redenção, e por isto Ele “prosseguirá de cabeça erguida”, e nós poderemos fazer o mesmo.

(2) O padrão de Davi, como um tipo de Messias. Na sua fuga de Absalão, chama-se a atenção particularmente para o fato de que ele passou pelo ribeiro de Cedrom, e subiu “pela subida das Oliveiras”, chorando, e todo o povo que ia com ele chorando sem cessar, 2 Samuel 15.23,30. O Filho de Davi, sendo expulso pelos judeus rebeldes, que não desejavam que Ele reinasse sobre eles (e Judas, como Aitofel, participando do complô contra Ele), passou pelo rio em miséria e humilhação, acompanhado por um grupo de fiéis pranteadores. Os reis de Judá que temiam ao Senhor tinham queimado e destruído os ídolos que encontraram no ribeiro de Cedrom; Asa, 2 Crônicas 15.16; Ezequias, 2 Crônicas 30.14; Josias, 2 Reis 23.4,6. Neste ribeiro, foram lançadas as coisas abomináveis, a imundícia (2 Crônicas 29.16). Cristo, tendo-se feito agora pecado por nós, para que pudesse aboli-lo e removê-lo, iniciava sua paixão no mesmo ribeiro. O monte das Oliveiras, onde Cristo iniciou seus sofrimentos, fica a leste de Jerusalém. O monte Calvário, onde Ele os concluiu, a oeste. Com isto, Ele visava àqueles que viriam “do Oriente e do Ocidente”.

4. Que Ele entrou em um jardim. O fato de que os sofrimentos de Cristo tiveram início em um jardim é observado somente por este evangelista. No jardim do Éden, o pecado teve início. Ali foi proferida a maldição, ali foi prometido o Redentor, e por isto em um jardim aquela semente prometida entrou na arena com a antiga serpente. Cristo foi sepultado também em um jardim.

(1) Quando caminhamos nos nossos jardins, devemos aproveitar para meditar sobre os sofrimentos de Cristo em um jardim, aos quais nós devemos todo o prazer que temos nos nossos jardins, pois, por estes sofrimentos, a maldição sobre o solo, por causa do homem, foi removida.

(2) Quando estamos em meio às nossas posses e aos nossos deleites, devemos manter uma expectativa de problemas, pois nossos jardins de prazeres estão em um vale de lágrimas.

5.Que Ele tinha consigo seus discípulos:

(1) Porque Ele estava acostumado a levá-los consigo quando se retirava em oração.

(2) Eles deviam ser testemunhas dos seus sofrimentos, e da sua paciência ao suportá-los, para que pudessem, com mais segurança e afeto, pregá-los ao mundo (Lucas 24.48), e se prepararem, eles mesmos, para sofrer.

(3) Ele os levaria ao perigo, para mostrar-lhes sua fraqueza, apesar das promessas de fidelidade que eles tinham feito. Às vezes, Cristo traz seu povo a dificuldades, para que Ele possa se enaltecer com sua libertação.

6.Que Judas, o traidor, conhecia o lugar, sabia que era o lugar do retiro usual de Jesus, e, provavelmente, por alguma palavra que Cristo tivesse deixado escapar, sabia que Ele pretendia estar ali naquela noite, por falta de um lugar melhor. Um jardim solitário é um lugar adequado para meditação e oração, e a ocasião depois da Páscoa é uma ocasião apropriada para retirar-se para uma devoção particular, para que possamos orar sobre as impressões criadas e os votos renovados, e nos agarrarmos a eles. Aqui se menciona que Judas conhecia o lugar:

(1) Para agravar o pecado de Judas, pois ele trairia seu Mestre, apesar do íntimo relacionamento que tinha com Ele. Ou melhor, pois ele faria uso da sua familiaridade com Cristo, como dando-lhe uma oportunidade de traí-lo. Uma mente generosa teria repudiado fazer uma coisa tão vil. Desta maneira, a santa religião de Cristo tem sido ferida na casa de seus amigos como não tem sido ferida em nenhuma outra parte. Muitos apóstatas poderiam não ter sido tão profanos, se não tivessem sido professores. Poderiam não ter ridicularizado as Escrituras e as ordenanças, se não as tivessem conhecido.

(2) Para enaltecer o amor de Cristo, pois, embora Ele soubesse onde o traidor iria procurá-lo, para lá Ele foi, para ser encontrado por ele, agora que Ele sabia que sua hora já era chegada. Desta maneira, Ele se mostrou disposto a sofrer e a morrer por nós. O que Ele fez, não foi por coerção, mas por consentimento. Embora, como homem, Ele dissesse: “Passa de mim este cálice”, como Mediador, Ele disse: “Eis que venho”, venho com boa vontade. Era tarde da noite (podemos supor que fossem oito ou nove horas), quando Cristo saiu para ir ao jardim, pois realizar a vontade daquele que o tinha enviado não era somente sua comida e sua bebida, mas também seu descanso e seu sono. Quando os outros estavam indo para a cama, Ele estava indo à oração, e ao sofrimento.