PSICOLOGIA ANALÍTICA

FACEBOOK, O NOVO ESPELHO DE “NARCISA”

As mulheres estão se tornando maioria nas redes interativas; a vaidade e a necessidade de afirmação da identidade podem explicar o interesse feminino por esse recurso tecnológico – afinal, do ponto de vista social e histórico elas passaram de consumidoras de imagens que lhes eram impostas a “autoras” virtuais.

Facenook - o novo espelho de narcisa.

As mulheres gastam mais do que o dobro do tempo dos homens no Facebook: três horas por dia, enquanto eles gastam uma hora, em média. Entrar na rede social é a primeira ação diária de muitas delas, antes mesmo de irem ao banheiro ou escovarem os dentes. Uma atividade cumprida como um ritual todos os dias e noites. Em um estudo, 21% admitiram que se levantam durante a noite para verificar se receberam mensagens. Dependência? Cerca de 40% delas já se declaram, sim, dependentes da rede. Elas são a maioria não só no Facebook (onde representam 57% dos usuários); também têm mais contas do que os homens em 84% dos 19 principais sites de relacionamentos.

Essas são algumas revelações da pesquisa feita pelas empresas Oxygen Media e Lightspeed Research, que analisou os hábitos on-line de 1.605 adultos ao longo de 2016. Mas cabe ainda perguntar: que motivos levam as mulheres a ficar tanto tempo na frente do computador? Vaidade? Necessidade de reconhecimento? Seria esse fenômeno uma nova forma de autoafirmação? Uma maneira de desenvolver sua individualidade aliada ao reconhecimento do outro? Será essa uma nova forma de buscar sociabilização?

Mais do que procurar uma resposta fácil, cabe, antes, compreender porque a autorrepresentação é mais importante para as mulheres que para os homens. Historicamente as representações femininas foram fabricadas por motivações sociais diversas: míticas, religiosas, políticas, patriarcais, estéticas, sexuais e econômicas. E, há mais de 20 séculos, essa fabricação esteve sob o poder masculino. As mulheres não produziam suas próprias imagens, eram retratadas.

Em obras de arte célebres vemos inúmeras Vênus adormecidas (como as de Giorgione, 1509; Ticiano, 1538; e Manet, 1863); Madonas castas (nas imagens religiosas das catedrais católicas como as pintadas por Giotto, no século 13, e Botticelli, no 15) ou mulheres burguesas no espaço doméstico cuidando da cozinha e da educação dos filhos (como as pintadas por Rapine Backer no século 19). Eram cenas “pedagógicas”, que ensinavam o valor da maternidade, da castidade, da beleza e da passividade. O pano de fundo dessas produções artísticas era uma tentativa masculina de “gerenciar” o imaginário feminino, transmitindo sugestões sobre a conduta social desejada até uma estética sexual e familiar. Como enfatiza a historiadora Anna Higonnet, “os arquétipos femininos eram muito mais do que o reflexo dos ideais de beleza; eles constituíam modelos de comportamento”. Sua capacidade de persuasão era ativada pelo contexto cultural. Um exemplo pontual, mas significativo, pode ilustrar essa hipótese. O nu é quase sinônimo do “nu feminino”. Do Império Romano, passando pelo Renascimento, pela era moderna e até os dias de hoje, o corpo da mulher reflete os ideais estéticos predominantes.

A historiadora francesa Michelle Perrot chegou a afirmar que “a mulher é, antes de tudo, uma imagem”. Aqui sua ênfase é irônica. Refere-se a uma forma de retratar que associava os cuidados com o corpo, os adornos, as vestimentas e a beleza em geral à atividade, ou melhor, à ociosidade tipicamente feminina”, enquanto os homens deveriam se ocupar de tarefas consideradas sérias: política, economia e trabalho.

Quando a era moderna pareceu, enfim, trazer a emancipação da mulher, a conquista revelou-se contraditória. Estar na moda, ser magra, bem-sucedida e boa mãe tornou-se uma exigência. Com a ajuda do photoshop, top models, estrelas de televisão e cantoras exibem nos meios de comunicação o êxito que conquistaram em todos os aspectos do sucesso -o que, na prática, nem sempre é verdade. Elas, em geral, são tão “irreais” quanto a Vênus grega. A verdade é que a mídia veicula uma série de estereótipos sobre como agir que se tornam um peso para a mulher. Não devemos nos esquecer de que quem assume o comando é o mercado interessado em vender roupas, revistas e produtos destinados ao público feminino – e não propriamente a mulher. Assim, mesmo no século 20, quando pareciam ganhar “autonomia”, elas passaram a ser atormentadas por padrões estabelecidos por outra base imaginária: a do consumo.

O que muda no século 21 para as mulheres que usam as redes sociais? Quanto à importância da imagem, nada. Ela continua a ter papel central para a identidade social feminina, confundindo­ se com ela. Por outro lado, vivemos, sim, uma revolução: pela primeira vez a mulher passa a se autorrepresentar, a produzir representações de si publicamente. Essa produção não está mais sob o domínio exclusivo dos homens, nem restrita a um grupo de mulheres como as artistas (atrizes, fotógrafas, cineastas, pintoras, escultoras etc.) ou as modelos. As mulheres comuns tornam-se protagonistas de sua vida. Chegam a dispensar a ajuda de outra pessoa para tirar a própria foto: estendem o braço e miram em sua própria direção. Algumas marcas de câmeras fotográficas desenvolveram até um visor frontal para que a pessoa possa ajustar o foco caso use o equipamento para se fotografar.

A mulher “hipermoderna” reivindica algo novo: o seu protagonismo público e sua “autenticidade”. O que se soma, agora, à revolução tecnológica da sociedade capitalista. Com acesso facilitado a câmeras digitais, a telefones móveis que dispõem desse equipamento e à rede, além da existência de uma plataforma que dá suporte ao armazenamento e oferece possibilidades ao usuário para compartilhar essas imagens pela internet, a mulher passa a se autofotografar nas mais diversas ocasiões, de situações corriqueiras a viagens. Nas palavras do filósofo Gilles Lipovetsky: “O retrato do indivíduo hipermoderno não é construído sob uma visão excepcional. Ele afirma um estilo de vida cada vez mais comum, ‘com a compulsão de comunicação e conexão’, mas também como marketing de si, cada um lutando para ganhar novos ‘amigos’ para destacar seu ‘perfil’ por meio de seus gostos, fotos e viagens. Uma espécie de auto estética, um espelho de Narciso na nova tela global”.

DITADURA DA ESPONTANEIDADE

Nesse novo ambiente o artificialismo e a mistificação da imagem passam a ser “out”. Deusas etéreas cedem espaço a mulheres que querem ser vistas como “reais”: escovam os dentes, fazem caretas para a câmera, dirigem seu carro e não se importam em ser fotografadas em momentos que antes estariam à margem da esfera pública. Tanto que 42% das usuárias do Facebook admitem a publicação de fotos em que estejam embriagadas, e 79% delas não veem problema em expor fotos em que apareçam beijando outra pessoa. A regra é: quanto mais caseiro, “mais natural”; melhor. O que não significa que essa imagem seja, efetivamente, “natural”, mas que há agora um “gerenciamento da espontaneidade”.

O imperativo da representação feminina nas redes sociais é: “seja espontâneo”. Uma norma paradoxal, assim como a afirmação “seja desobediente, é uma ordem”, escreve o sociólogo Régis Debray. Ele faz uma interessante leitura do que poderíamos chamar de “ditadura da espontaneidade”. Segundo o autor, abandonamos o culto da morte, vivido pelas sociedades tradicionais e religiosas, para vivermos o “culto da vida pela vida”- uma espécie de “divinização do que é vivo” que se apoia no eterno presente e não mais em uma crença no além.

Vemos emergir mulheres que cultuam o que veem no espelho e postam, “religiosamente”, novas imagens de seu cotidiano – sem que tal culto resulte em algum tipo de censura externa ou de autocensura moral. Em outro contexto, como durante o período em que a religião católica era dominante, esse “culto de si” e do corpo seria considerado um dos sete pecados capitais: a vaidade. Esse imaginário, aliás, é muito bem representado por um quadro do século 15, de Hieronymus Bosch, no qual o demônio segura um espelho para que uma jovem se penteie.

Hoje o novo espelho global não é marcado pela vigilância moral. Ao contrário, há um contínuo incentivo da cultura para que as mulheres “se valorizem”, busquem sua singularidade e não mais se baseiem em modelos inalcançáveis (como as top models e outras famosas). E para que percebam em si mesmas uma possibilidade legítima e singular de ser no mundo.

A própria familiaridade e aproximação da mulher com o universo da produção de autorrepresentações pode levá-la a questioná-las. As mulheres já estão, como escreve Lipovetsky em seu livro A tela global, “cultivadas” pela mídia. Educadas em sua gramática, sabem que o photoshop, a produção e a edição das imagens criam uma mulher irreal e passam a ver essas representações entre aspas, distanciando-se criticamente delas. Elas aprendem com recursos autoexplicativos a modelar sua iconografia, a alterá-la, brincar com ela ou melhorá-la (possibilidades, antes, restritas aos profissionais).

Mas a consagração do “culto de si” não significou um isolamento da mulher. Os álbuns publicados nas redes sociais conciliam, contra todas as expectativas, o individualismo e as trocas. Um se alimenta do outro. Há um ciclo: exponho minha individualidade, acompanho a do outro e ele a minha e, assim, somos incentivados a produzir e expor, cada vez mais, as nossas imagens. Trata-se do nascimento de uma “identidade coletiva”, em que a individualidade não elimina a interação, mas é seu motor. Nesse sentido, a identidade coletiva não é produto apenas de uma adesão grupal e sim uma forma de negociação de posições subjetivas – esse é o paradoxo identitário a ser considerado.

Fotos pessoais e “amigos” virtuais (ou não) ditam o ritmo desse espaço interativo. Quanto mais caseiro, mais cotidiano, mais espontâneo, maior o número de relações entre as pessoas, que passam a valorizar a autenticidade e a vida de quem é “próximo”, “real”. Há, na base desse fenômeno, uma democratização dos desejos de expressão individual na medida em que as mulheres buscam conquistar espaços de autonomia pessoal – que traduzem a necessidade de escapar à simples condição de consumidoras daquilo que outros produzem. Elas querem colocar seu rosto no mundo. Aparecer ou não na “tela global” passa a ser uma questão de existência. Por essa razão, ter visibilidade e oferecer sua identidade publicamente é conferir importância à própria existência. O que é, também, uma forma de poder. Nesse ponto a mídia – como campo de visibilidade – passa a ter papel central para entendermos a luta simbólica pelo reconhecimento.

No entanto, essa “democratização” da autorrepresentação feminina não deve ser tomada como sinônimo do fim da competição estética e ética entre as mulheres. Ao que tudo indica, o que presenciamos não é a instauração de uma igualdade, mas a ampliação do número de mulheres na disputa por visibilidade e poder. Amplia-se, assim, a arena para buscar um poder que não está dado de antemão, mas que deve ser conquistado e manejado pela apresentação e representação de suas singularidades, de suas diferenças. Um agir que se manifesta na criação, no controle e no poder simbólico de sua própria imagem no espaço público, que só se realiza com o reconhecimento do outro nas interações sociais, associativas, e na ampliação dos círculos de reconhecimento que estão dentro e fora do espaço de produção da imagem.

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OUTROS OLHARES

A REDE SOCIAL DOS BICHOS

Em muitas espécies, amizades influenciam fortemente a vida dos individuas e do grupo. Vemos desde associações simples entre alguns peixes que formam um cardume para viajar juntos até configurações muito complexas, como as encontradas em bandos de babuínos em que ocorrem múltiplas relações de hierarquia e afeto.

A rede social dos bichos

Boa parte de nossa vida é influenciada por quem está em nossas redes sociais: dependemos de famílias estendidas, amigos de amigos de amigos, colegas de trabalho e suas conexões para obter informações sobretudo, de indicações de leitura a como votar e que carreiras seguir. Mas não estamos sozinhos nessa dependência: redes sociais afetam também as experiências diárias e, de fato, a sobrevivência de indivíduos em muitas espécies animais. Há décadas se sabe que chimpanzés e outros primatas têm complexas vidas sociais. Estudos mais recentes revelaram que atividades de aves, golfinhos e outras criaturas isoladas só fazem pleno sentido em seus contextos sociais. Essas descobertas poderiam afetar desde esforços para conservação a entendimento de nossas próprias redes sociais.

Investigações sobre animais, muitas vezes empregando técnicas desenvolvidas para conhecer melhor o comportamento grupal humano, podem retroalimentar estudos futuros feitos por nós e sobre nós. Etólogos, estudiosos do comportamento animal, precisaram de tempo e de novas maneiras de pensar para reconhecer a importância das redes sociais no reino animal.

Na década de 30, o pesquisador Konrad Lorenz, futuro ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973, publicou seus famosos trabalhos em que descreveu como induzir em gansos o instintivo apego emocional de um recém-nascido aos primeiros cuidadores que encontra durante um período crítico no desenvolvimento. A ideia de que a maioria das criaturas são, basicamente, autômatos que se engajam em um comportamento instintivo, programado (ou seja, geneticamente controlado), logo se tornou dogma.

Pesquisadores perceberam rapidamente, porém, que fatores externos interagiam com a programação gênica subjacente. O inato (natureza, genes) mais o adquirido (ambiente) impulsionavam o comportamento animal. Embora essa afirmação possa parecer abrangente, ela na realidade não é muito útil, porque o inato mais o adquirido incluem praticamente toda influência que se possa imaginar.

SINAIS DE INTELIGÊNCIA

Por essa razão, pesquisadores passaram a avaliar como o aprendizado por tentativa e erro também moldava o comportamento. Junto com as observações de campo, esses estudos resultaram, forçosamente, no reconhecimento de que animais eram muito mais espertos e inteligentes do que imaginávamos: chimpanzés e corvos produzem e usam ferramentas; papagaios resolvem problemas usando lógica; elefantes desativam cercas elétricas com grandes pedras que deixam cair sobre elas. Enquanto estudavam esses sinais óbvios de inteligência, pesquisadores notaram também que alguns animais em grupos aprendiam comportamentos copiando seus companheiros mais próximos. E um membro do grupo em particular talvez notasse que estava sendo observado por outros que tentavam obter informações sobre ele.

É claro que, como físicos bem sabem, uma vez que você transpõe questões (de interação entre) entre dois corpos, as coisas podem ficar excessivamente complicadas. Por isso, as primeiras tentativas de estudar formas de interação entre indivíduos em um grupo social frequentemente envolviam dois ou três animais. Dezenas de estudos analisaram o modo como um animal imitava outro na escolha de um par, ou se concentraram em um membro do grupo espionando as habilidades de luta física de potencial concorrente, ou em um aproveitador que roubava alimento de componentes mais produtivos do grupo. Mas, quanto mais os etólogos estudavam esses comportamentos, mais eles percebiam que essas interações entre alguns poucos indivíduos eram apenas uma indicação do intrincado conjunto de relacionamentos entre todos os membros de um grupo.

O que era necessário para uma compreensão mais profunda e completa da vida social de animais era o reconhecimento de que muitos deles, assim como nós, humanos estão inseridos em complexas redes sociais relações que conectam cada indivíduo aos demais.

A aplicação moderna dessa abordagem passou a ser consistente há uns 15 anos, quando etólogos começaram a adotar livremente métodos consagrados por cientistas sociais para o estudo de redes sociais humanas; primeiro, em locais de trabalho ou bairros e, mais tarde, em comunidades virtuais como o Facebook e o Twitter.

Em animais, redes sociais vão desde simples associações que envolvem não apenas alguns  indivíduos, como um cardume descontraído de peixes que viajam juntos, a configurações muito  mais complexas, como as encontradas em bandos de babuínos em que indivíduos são inseridos em múltiplas relações sobrepostas (como redes de acasalamento, dominância ou higienização capazes de influenciar o grupo direta e indiretamente. Redes podem mudar com frequência: membros podem ir e vir, e os indivíduos podem mudar suas posições e conexões em resposta a doença, aquisição de conhecimentos e interações anteriores.

Tanto em sociedades animais simples como em complexas, interações da rede têm implicações importantes para sobrevivência e reprodução. A precisão de informações sobre alimentos, predadores e pares, assim como a velocidade com que essas informações são transmitidas em um grupo, dependem da estrutura de uma rede social. Está relacionada a escolhas para brincar, desavenças e solidariedade. Além disso, doenças e parasitas podem ser transmitidos de um indivíduo a outro sem contato direto ao repassarem o patógeno através de intermediários.

Como parte de suas avaliações gerais, pesquisadores identificam várias características de redes animais: os indivíduos-base (que têm muitas conexões e cujo afastamento/eliminação interrompe a rede social); os “nodos” (qualquer indivíduo incluído na rede); a densidade da rede (uma proporção entre o número de vínculos reais e o número de todos os elos possíveis); o grau (o número de vínculos entre cada indivíduo e todos os outros); o alcance (o número de amigos dos amigos de um indivíduo); e a centralidade (a porcentagem de todas as conexões entre indivíduos que incluem determinado animal). A maioria das pessoas nos Estados Unidos, por exemplo, tem baixa centralidade à escala do país, mas quase todas sabem quem é o presidente e estão conectadas a ele por meio de suas autoridades locais; a centralidade dele chega perto de 100%.

A rede social dos bichos.2

PAPEL DE POLÍCIA

Para ter uma ideia de como redes sociais operam na natureza, e de que maneira podem ser o principal impulsionador de todos no grupo se comportam em última análise, vamos tratar das vidas não tão privadas de três espécies não humanas.

Macacos-rabo-de-porco (Macaca nemestrina), por exemplo, estabelecem múltiplas ligações, como as formadas por amigos de brincadeiras ou parceiros de higienização. Redes diferem em tamanho, e um macaco pode ter parceiros favoritos em diferentes redes. Um animal também pode desempenhar um papel mais proeminente em uma rede que em outra.

Mas as várias redes compartilham um aspecto comum: elas operam sob o olhar vigilante de algumas figuras de autoridade que mantêm a paz. Esses “policiais”, alguns dos machos da mais alta hierarquia do grupo, investem tempo e energia apartando brigas entre outros indivíduos de suas redes sociais. A cientista Jessica Flack, do Instituto Santa Fe, no Novo México, e seus colegas (inclusive o renomado primatólogo Frans de Waal, da Universidade Emory, na Geórgia) estudaram o papel desses animais policialescos em um bando de 84 macacos no Centro Nacional Yerkes de Pesquisa de Primatas, em Emory, do início a meados da década de 2000.

Geneticistas frequentemente decifram o papel de um único gene em uma célula ou um organismo ao desligá-lo e observar as consequências de sua ausência. A equipe de Flack adaptou essa abordagem de “neutralização” aos Macaca removendo três animais machos com função de policiamento. Em seguida, observaram e esperaram.

A ausência de um membro de baixo escalão do grupo praticamente não afetou as redes sociais. Mas, como era de esperar, a ausência de “policiais” resultou em um aumento de agressões e menos reconciliações após brigas na população. O que foi menos previsível é que, sem a presença dos “policiais”, as redes de colegas de brincadeiras e higienização também sofreram uma complexa reestruturação.

Sem os policiais, diminuiu o número de parceiros de brincadeiras e higienização dos integrantes do grupo. Ou seja, o “grau” de suas redes de diversão e higiene diminuiu. E o “alcance” dos animais remanescentes – número de amigos de amigos de dado indivíduo – também decresceu nessas redes. Ao mesmo tempo, a coesão de toda a sociedade enfraqueceu; a população passou por uma espécie de ” balcanização”, dividindo-se em grupos menores e mais homogêneos que raramente interagiam com estranhos. Essas observações levaram Flack e seus colegas a teorizar que a presença de animais “policiais” possibilitava uma rede mais saudável e densa, em que os membros tinham contatos mais amigáveis e mais frequentes com um número maior de seus companheiros.

Esse tipo de experimento de “neutralização”, sugerindo que alguns indivíduos em uma rede são especialmente valiosos para sua estrutura, mostra que a compreensão de redes sociais animais pode ser importante para a biologia conservacionista. Considere o caso de “baleias assassinas” (Orcinus orca), conhecidas como orcas. Fêmeas, tanto jovens individuais como agrupamentos de aparentadas, parecem ser polos importantes de transmissão de informações sobre oportunidades de forrageio e outros aspectos da vida no mar. Qualquer interferência humana que perturbe essas “centrais ” de informações isoladas ou em grupo, da caça à poluição oceânica, à construção de barreiras que as impeçam de nadar livremente em seu ambiente, pode interromper severamente a rede social das orcas e enfraquecer as perspectivas de sobrevivência do grupo inteiro. Essa compreensão poderia, no mínimo, servir para esclarecer a formulação de políticas, a fim de minimizar o impacto de nossas ações sobre essas criaturas maravilhosas.

A rede social dos bichos.3

PARCEIROS DE CANTO E DANÇA

As redes sociais de populações selvagens de aves em seus hábitats naturais também têm sido objetos de análise. Uma dessas espécies é o manakin-de-cauda-longa (Chixiphia linearis) da América Central. Os machos são extraordinariamente bonitos, diferenciados por suas penas de cor índigo, “capacetes” vermelhos e, como o nome indica, caudas longas e finas. Encontre o par certo de machos empoleirados em um galho, e um observador de pássaros pode testemunhar um comovente e encantador show de canto e dança. Manakins fêmeas também assistem a essas exibições e as avaliam quando escolhem companheiros. Para os machos, a chance de pode se apresentar é muito importante. Mas, infelizmente para eles, a competição pela oportunidade de participar de um desses duetos é altamente concorrida e muitas vezes bastante agressiva.

O pesquisador David McDonald da Universidade do Wyoming, observou essas aves na Costa Rica por mais de dez anos, totalizando 9.288 horas. Com técnicas de análise de redes sociais, ele descobriu que os machos com um alto grau de conectividade no início de sua vida conquistam o privilégio de se exibir nessa “noite de microfone ao vivo” aviária.

Como em qualquer competição de dança, tudo é bastante complicado, mas é algo mais ou menos assim: conjuntos de oito a 15 machos passam seu tempo em “zonas de poleiros”, áreas que contêm um ou vários galhos onde as aves se apresentarão. Qualquer macho em um agrupamento pode praticar seu canto e dança em um poleiro fora do período de reprodução (do final de fevereiro ao início de setembro) ou até durante a época de acasalamento, desde que não haja fêmeas por perto. Mas na época reprodutiva, quando elas estiverem presentes, só os dois machos mais destacados, denominados alfa e beta, podem cantar e dançar em poleiros. De fato, os artistas concorrentes formam uma equipe para enxotar agressivamente todos os outros machos da área.

O macho alfa conquista quase todas as oportunidades de acasalamento em uma zona de poleiro. A recompensa para o macho beta é a sucessão à cobiçada posição no topo quando o alfa reinante morre. Esse sistema cria um enorme benefício para o alfa e o beta, vantagem que todos os machos querem, mas poucos conseguem.

À medida que jovens machos amadurecem, entre um e seis anos, eles frequentemente transitam   entre zonas de poleiros, estabelecendo relações com muitos outros machos. A idade média de um macho reprodutor bem-sucedido é de 10 anos, o que significa que, à medida que amadurece, qualquer macho tem muitos outros companheiros em sua rede social. Em suas quase 10 mil horas de trabalho de campo, McDonald monitorou quais machos interagiam uns com os outros todos os anos durante mais de dez anos. Com seus dados, ele construiu um mapa de redes sociais para verificar se a estrutura da rede revelaria quais animais acabavam sendo “vencedores”, exibindo-se como bem-sucedidos cantores de dueto.

Suas análises de rede levaram em conta tanto os caminhos curtos, que conectavam um exemplar diretamente a outro, como caminhos indiretos, que podiam incluir interações entre aves a vários elos de distância do primeiro indivíduo. (“Não conheço Bert pessoalmente, mas conheço Caco, o Sapo, que conhece Ernie, que conhece Bert” – referência a personagens de Vila Sésamo.) Por fim, McDonald determinou que o segredo de tudo era a “centralidade”: machos “centrais” eram muito mais propensos que animais menos bem relacionados a ascender na hierarquia reprodutiva, ocasionalmente atingindo os status de alfa e beta que lhes permitiriam subir ao palco para conquistar os corações de fêmeas com seus cantos e danças.

Esse tipo de pesquisa identifica estruturas de rede e as associa a comportamentos observados. Nesse caso, uma conexão direta entre estrutura e comportamento é presumida, não provada. É possível que, em vez de conquistarem poder graças às suas muitas conexões, machos alfa e beta tivessem estabelecido muitas ligações por características que os tornavam populares entre seus pares.

Pelo fato de muitas ferramentas da teoria de redes terem sido importadas das ciências sociais, não é surpresa que alguns dos primeiros objetos de estudo de detalhadas análises de redes sociais não humanas tenham sido golfinhos-nariz-de-garrafa, já reconhecidos como animais inteligentes, de cérebro grande e altamente sociais.

No final da década de 90, o então pós-graduando David Lusseau se apaixonou pelos golfinhos-roaz (Tursiops truncatus) do estreito Doubtful, um magnífico fiorde no sul da Nova Zelândia, a mais de 320 km a oeste da Universidade de Otago, onde fazia sua dissertação de doutorado. Hoje na Universidade de Aberdeen, na Escócia, Lusseau monitorou os belos animais por sete anos. Uma de suas ferramentas foi a fotografia, que o ajudou a sistematizar marcas naturais de todos os 64 golfinhos no estreito Doubtful e monitorá-los.

Depois de ter observado mais de mil grupos de vários tamanhos, que incluíam subconjuntos desses 64 animais, Lusseau verificou que os golfinhos eram parte de uma grande rede social que vinculava quase todos eles. Além disso, constatou que golfinhos individuais preferiam a companhia de apenas alguns membros específicos do grupo. Mas ele não conseguiu identificar a razão disso. O que a conectividade em rede de golfinhos alcançava e que tipo de informações ou benefícios eram compartilhados entre seus associados.

Para investigar essas questões mais a fundo, Lusseau se uniu a Paulo C. Simões-Lopes, do Laboratório de Mamíferos Aquáticos da Universidade Federal de Santa Catarina. Eles estudaram uma população de 55 golfinhos ­ nariz – de – garrafa que se engajava em um comportamento singular que Simões-Lopes identificara alguns anos antes: uma interação mutuamente benéfica com os pescadores artesanais catarinenses.

A cada primavera, de abril a junho, pescadores na região brasileira de Laguna usam uma técnica introduzida na área por colonos portugueses dos Açores há mais de 00 ano s. Eles lançam longas redes na água para pegar cardumes de tainhas (Mugi/plataus) que migram das águas mais frias ao lar o da Argentina. Nos últimos anos, esses pescadores têm recebido ajuda: alguns, mas só alguns, dos golfinhos-nariz-de-garrafa nas lagunas de fato arrebanham os cardumes de tainhas “tocando-os” na direção dos pescadores. No momento exato, os golfinhos batem a cabeça ou a cauda na superfície da água. Essas batidas sinalizam aos seus parceiros humanos quando e onde lançar suas redes. O resultado dessa notável interação é que as duas espécies de mamíferos pegam mais peixes do que fariam sem essa colaboração.

A experiência anterior de Lusseau levou-o a considerar a análise de redes sociais como um meio de examinar os detalhes desse comportamento incrível. De setembro de 2007 a setembro de 2009, Lusseau, Simões-Lopes e alguns colegas saíram de barco pelo sistema lagunar, com fotografias de golfinhos, e reuniram dados sobre animais que estavam nadando juntos. A equipe conseguiu coletar informações confiáveis sobre 35 dos 55 golfinhos nessa população. Mesmo incompletos, os dados deixaram claro que esses mamíferos tinham estabelecido uma rede social altamente estruturada.

A análise estatística concluiu que os golfinhos de Laguna podiam ser subdivididos em três grupos nos quais os indivíduos passavam a maior parte do tempo. Embora todos tivessem algumas interações tênues, eles tendiam a nadar juntos e interagir mais com os outros da própria “turma”.  Associações tão estreitas como essas poderiam facilitar a transmissão de informações entre membros. O grupo 1 tinha 15 golfinhos, e todos cooperavam com os pescadores locais. Todos os integrantes dessa “turma” altamente interconectada se relacionavam com frequência na temporada outonal de pesca de tainha e no resto do ano. O fluxo de informação era fácil. Não foi surpresa, portanto, o grupo 1 se beneficiar de sua relação com os pescadores enquanto os outros dois perdiam essa oportunidade.

Os grupos 2 e 3 diferiam acentuadamente do primeiro. Nenhum dos 12 golfinhos da turma 2 colaborava com os pescadores. E, embora todos desse grupo estivessem juntos tanto durante como fora da temporada de pesca, suas relações sociais eram mais fracas que as observadas entre animais do grupo l. Dos oito golfinhos da turma 3, sete não cooperaram com os pescadores; mas um, apelidado “20”, colaborou. E de todos os golfinhos na população da região de Laguna, ele foi o que passou mais tempo interagindo com os integrantes de todos os grupos. Parece que o golfinho 20 agia como elo entre seu grupo e o grupo colaborador l. Determinar a influência de intermediários desse tipo em redes altamente complexas pode ser promissor para futuros estudos. De qualquer modo, os resultados atuais indicam que uma rede coesa, como no caso do grupo 1, pode ajudar animais a superar desafios que não conseguem resolver sozinhos; nesse caso, encontrar uma forma de se comunicar com eficiência com membros de outra espécie: pescadores humanos.

Os pesquisadores ainda não sabem se alguns indivíduos-chave, ou dominantes, do grupo l, talvez mais velhos e experientes, ensinam outros membros a cooperar com os pescadores. Mas, em vista do fato de que ensinar é algo já constatado para outros comportamentos alimentares complexos de golfinhos, não seria surpreendente encontrar uma instrução similar sendo repassada aqui. De fato, tradições socialmente aprendidas como essa formam a base da cultura animal e são fortemente facilitadas por redes sociais.

Atitudes em relação a animais evoluíram muito desde a concepção inicial de vê-los apenas como seres irracionais que executam programas genéticos. Etólogos agora sabem que muitos animais são bem mais espertos, têm comportamentos flexíveis e mais aptos a aprender que os pioneiros desse campo jamais poderiam ter sonhado. Prevemos que mais pesquisas sobre redes sociais e maior divulgação desses estudos mudarão de forma mais acentuada o modo como pensamos sobre animais. Ao contrário de autômatos pré-programados, muitas criaturas não humanas passam sua vida, como nós, inseridas num complexo meio social – redes em que interações diretas e indiretas com outros indivíduos determinam grande parte do que realmente é importante para a sobrevivência e o sucesso.

A rede social dos bichos.4

UNIDOS PARA PESCAR

Alguns membros de uma comunidade de golfinhos na região de Laguna, no Sul do Brasil, desenvolveram uma aliança única com pescadores artesanais locais, unindo-se nos esforços para capturar tainhas. Os golfinhos formaram três “equipes”. Todos os membros do grupo l (verde) colaboraram (indicado por círculos) com os pescadores e eram altamente interativos (linhas unindo os animais individuais) entre si. Integrantes da equipe 2 (violeta) interagiram menos uns com os outros que os animais do grupo l e não tiveram contato com pescadores (indicado por quadrados). Golfinhos o terceiro grupo (laranja) também não demonstraram interesse nos pescadores, com a notável exceção de um animal, conhecido como golfinho “20” (círculo laranja). Esse animal ajudou os humanos e agiu como intermediário entre sua equipe e o grupo cooperativo, e talvez ainda ensine o bando 3 a trabalhar com humanos. É sabido que a colaboração entre golfinhos e pescadores aumenta a disponibilidade de alimentos para os animais e o volume de captura dos humanos.

A rede social dos bichos.5

 

GESTÃO E CARREIRA

CAUTELA E ANÁLISE CRITERIOSA

Os desafios para escolher um líder de sucesso na empresa.

Cautela e análise criteriosa

Liderar uma equipe é uma grande responsabilidade que impacta diretamente o sucesso da organização. Portanto, a escolha desse líder deve ser uma decisão tomada com cautela, paciência e análise baseada em critérios apropriados de seleção e em uma reflexão aprofundada sobre o futuro da empresa. Separei alguns itens importantes a se lembrar para escolher um líder que pode ser bem-sucedido:

1 – NÃO TER PRESSA PARA INDICAR:

Um erro muito comum é deixar para avaliar o perfil de possíveis lideranças somente na hora de substituí­ las quando outras saem da empresa. Quando os responsáveis por essa seleção precisam fazer essa escolha, fica complicado baseá-la nos critérios apropriados, uma vez que eles exigem um tempo de análise e reflexo aprofundada sobre o cenário atual da empresa e seus caminhos futuros.

2 – EVITAR A “JUNIORIZAÇÃO” DAS LIDERANÇAS.

É preciso ter cuidado ao indicar profissionais que nunca tiveram experiências em cargos dessa natureza, principalmente se o cenário futuro da empresa indicar desafios como o de crescimento ou expansão. O que se espera de um líder é vencer as adversidades com resiliência, otimismo e perseverança, motivando ele mesmo e a sua equipe. Não estou dizendo aqui que jovens não possam assumir essas funções, mas que, independentemente da idade, devem ser preparados para tal. Isso exige treinamentos constantes para prepara-los para o gerenciamento de pessoas e das crises que porventura enfrentarão.

3 – FIQUE ATENTO ÀS COMPETÊNCIAS DO NOVO LIDER:

Capacidade de liderança tem a ver com capacidade emocional de lidar com situações adversas e, claro, com pessoas. Um líder constrói uma imagem baseada na capacidade de comunicação, postura e no exemplo. Por isso, ele deve inspirar a equipe, formar novos líderes, delegar funções e oferecer feedbacks constantes. Assim colherá resultados cada vez mais positivos em curto, médio e longo prazo. Indicar profissionais baseando-se somente no seu conhecimento técnico pode ser um tiro no pé. Isso porque, quando eles assumem um cargo de liderança, quase sempre focam sua atenção em aprimorar seus conhecimentos na área em que atuam e podem se esquecer dos pontos citados anteriormente.

4 – AVALIAR A CULTURA ORGANIZACIONAL E OS PRINCÍPIOS DA LIDERANÇA:

O líder deve estar completamente alinhado aos valores e à cultura organizacional. Ele, impreterivelmente, deve assumir os propósitos da organização, além de ter uma capacidade apurada de aprendizagem e adaptação, isso sem falar nos quesitos perseverança e resiliência.

5 – ESCOLHER POR COMPETÊNCIAS SIGNIFICATIVAS PARA O CARGO:

A escolha do novo líder se relaciona com a capacidade de formação, motivação e inspiração de times, por um método que deve levar em conta a capacidade do profissional em analisar e tomar decisões, com foco na construção de confiança e busca por resultados consistentes.

E você, se considera preparado para escolher um líder de sucesso para a sua empresa?

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 17: 24-26

Alimento diário - Comendo a Bíblia

A Oração Intercessória de Cristo

Aqui temos:

 

I – Uma petição pela glorificação de todos os que foram dados a Cristo (v. 24), não somente estes apóstolos, mas todos os crentes: Pai, quero que eles estejam comigo. Observe:

1. A conexão deste pedido com aqueles anteriores. Ele tinha pedido que Deus os preservasse, santificasse e unisse, e agora Ele deseja poder coroar todos os seus dons com sua glorificação. Neste método, devemos orar primeiramente pedindo a graça, e depois a glória (Salmos 84.11), pois, seguindo este método, Deus as dá. Longe do único Deus sábio sujeitar-se à censura, como aquele construtor tolo, que, sem ter uma fundação, construiu sobre a areia, como faria se glorificasse a alguém sem santificá-lo primeiro. Ou como aquele construtor tolo, que começou a construir e não conseguiu terminar, como seria se santificasse alguém e não o glorificasse.

2. A forma do pedido: “Pai, quero”. Aqui, como anteriormente, Ele se dirige a Deus como a um Pai, e nós devemos fazer a mesma coisa. Porém, quando Ele diz: Eu quero, Ele usa uma linguagem peculiar a si, e que não convém aos solicitantes comuns, mas convinha muito àquele que pagou pelo que orava.

(1) Isto sugere a autoridade da sua intercessão, de maneira geral. Sua palavra tinha poder no céu, além da terra. Entrando com seu próprio sangue no santuário, sua intercessão ali tem uma eficácia incomensurável. Ele intercede como um rei, pois Ele é um sacerdote sobre seu trono (como Melquisedeque), um rei-sacerdote.

(2) Isto sugere sua autoridade particular neste assunto. Ele tinha o poder de dar a vida eterna (v.2), e, de acordo com este podei; Ele diz: “Pai, quero”. Embora agora Ele assumisse a forma de servo, ainda assim este poder virá a ser mais claramente exercido quando Ele vier pela segunda vez, na glória de um juiz, para dizer: “Vinde, benditos”, e com isto em mente, Ele podia perfeitamente dizer: “Pai, quero”.

3. O pedido propriamente dito – que todos os eleitos possam estar com Ele no céu, por fim, para verem sua glória e para compartilharem dela. Observe aqui:

(1) Sob qual noção nós devemos esperar pelo céu? De que consiste esta felicidade? O céu consiste de três coisas:

[1] É estar onde Cristo está: “Onde eu estiver”. No paraíso, para onde a alma de Cristo foi, com sua morte. No terceiro céu, para onde seu corpo e sua alma foram, na sua ascensão. Onde eu estiver; onde eu deverei estar em breve, onde deverei estar eternamente. Neste mundo, nós estamos apenas de passagem. Ali, onde nós estaremos para sempre, nós realmente estaremos. Assim avaliava Cristo, e assim devemos fazer nós também.

[2] É estar com Ele onde Ele estiver. Isto não é tautologia, mas sugere que não somente estaremos no mesmo lugar feliz onde Cristo está, mas que a felicidade do lugar consistirá na sua presença. Esta é a plenitude desta alegria. O máximo no céu é estar com Cristo, ali, na sua companhia, e em comunhão com Ele, Filipenses 1.23.

[3] É contemplar sua glória, que o Pai lhe deu. Observe que, em primeiro lugar, a glória do Redentor é o resplendor do céu. Aquela glória, diante da qual os anjos cobrem seus rostos, era sua glória, cap. 12.41. O Cordeiro é a luz da nova Jerusalém, Apocalipse 21.23. Cristo virá na glória do seu Pai, pois Ele é o resplendor da sua glória. Deus mostra sua glória ali, assim como mostra sua graça aqui, por meio de Cristo. “O Pai me deu esta glória”, embora Ele ainda estivesse neste seu estado inferior, mas era muito verdadeira, e muito próxima. Em segundo lugar, a felicidade dos redimidos consiste, em grande parte, na contemplação desta glória. Eles terão a visão imediata da gloriosa pessoa de Cristo. “Em minha carne verei a Deus”, Jó 19.26,27. Eles terão uma percepção clara da sua gloriosa missão, de como ela será, quando realizada. Eles verão aquelas nascentes de amor das quais fluem todas as correntes de graça. Eles terão uma visão apropriada da glória de Cristo, e uma visão semelhante: eles serão “transformados de glória em glória, na mesma imagem”.

(2) Sobre o que devemos nos basear para ter esperanças no céu. Em nada além da mediação e intercessão de Cristo, porque Ele disse: “Pai, quero”. Nossa santificação é nossa evidência, pois “qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo”. Mas a vontade de Cristo é que é nosso direito, pelo qual nós somos santificados, Hebreus 10.10. Cristo fala aqui como se Ele não considerasse completa sua própria felicidade, a menos que tivesse seus eleitos, para compartilharem dela consigo, pois é a condução de muitos filhos à glória que torna perfeito o Capitão da nossa salvação, Hebreus 2.10.

4. O argumento que dá suporte a este pedido: “Por­ que tu me hás amado antes da criação do mundo”. Esta é uma razão:

(1) Por que Ele mesmo esperava esta glória. Sei que tu queres me conceder, porque tu me amas. A honra e o poder que foram dados ao Filho, como Mediador, originaram-se do amor que o Pai sente pelo Filho (cap. 5.20). O Pai ama o Filho, e sente um prazer incomensurável em sua disposição de cumprir a missão salvadora, e, por esta razão, entregou todas as coisas às suas mãos. E uma vez que a questão foi decidida no conselho da vontade divina na eternidade, pode-se dizer que Deus, o Pai, amou o Filho como Mediador antes da fundação do mundo. Ou:

(2) Por que o Senhor Jesus Cristo espera que aqueles que lhe foram dados compartilhem sua glória infinita: “Tu me amaste, e eles estão em mim, e certamente não me negarás nada que Eu te pedir a favor deles”.

 

II – A conclusão da oração, que tem a função de garantir que sejam concedidas as petições que são feitas a favor dos discípulos, especialmente a última, para que sejam glorificados. Ele ressalta duas coisas, e pleiteia-as:

1. O respeito que Ele tinha para com Deus, o Pai, v.1.Observe:

(1) O título que o Senhor Jesus dá a Deus, o Pai: “Pai justo”. Quando orou para que seus seguidores fossem santificados, o Senhor Jesus se referiu a Deus, o Pai, como “Pai santo”. Mas quando pediu para que fossem glorificados, Ele disse: “Pai justo”, pois esta é uma coroa de justiça que será concedida pelo justo Juiz. A justiça de Deus está empenhada para conceder todo o bem que o Pai prometeu, e que o Filho comprou.

(2) O caráter que o Senhor atribui ao mundo que vive em pecados: “O mundo não te conheceu”. Observe que a ignorância a respeito de Deus está espalhada em meio à humanidade. Estas são as trevas em que a humanidade está assentada. Agora, aqui está sendo reforçado:

[1] Para mostrar que estes discípulos precisavam de um auxílio da graça especial de Deus, tanto por causa da necessidade do seu trabalho – eles tinham a missão de trazer ao conhecimento de Deus um mundo que não o conhecia, como também por causa da dificuldade do seu trabalho – eles tinham que trazer a luz àqueles que haviam se rebelado contra a luz. Portanto, era necessário que o Senhor os guardasse.

[2] Para mostrar que estes discípulos estavam qualificados para receber outros favores peculiares, por terem um conhecimento de Deus que o mundo não possuía.

(3) O pedido é reforçado por uma particularidade: “Mas eu te conheci”. O Senhor Jesus Cristo conheceu a Deus, o Pai, como ninguém jamais o conheceu. Ele conhecia a forma de trabalho do Pai, conhecia a forma de pensar do Pai em cada assunto. Sendo assim, o Senhor Jesus podia se aproximar do Pai, em sua oração, com toda a confiança, como faríamos com alguém a quem conhecemos muito bem. Cristo está aqui concedendo suas bênçãos para aqueles que são seus. Ao enfatizar esta petição, quando Ele disse: “O mundo não te conheceu”, alguém poderia pensar que deveria continuar: “mas eles te conheceram”. Não, seu conhecimento não era para se jactarem: “mas eu te conheci”, o que sugere que não há nada em nós que possa nos recomendar ao favor de Deus, mas todo o nosso interesse nele, e nosso relaciona­ mento com Ele, resultam e dependem do interesse e do relacionamento de Cristo com Deus, o Pai. Nós somos indignos, porém o Senhor Jesus Cristo é digno.

(4) A súplica que Ele reforça pelos seus discípulos: “E estes conheceram que tu me enviaste a mim”, e:

[1] Assim, eles se diferenciam do mundo incrédulo. Enquanto as multidões às quais Cristo foi enviado, e sua graça foi oferecida, não desejaram crer que Deus o tinha enviado, eles sabiam, e criam, e não se envergonhavam de reconhecer isto. Observe que conhecer e crer em Jesus Cristo, em meio a um mundo que persiste na ignorância e na infidelidade, é altamente agradável a Deus, e certamente será coroado com uma glória distinta. A fé singular qualifica para favores singulares.

 [2] Assim, eles se interessam pela mediação de Cristo, e participam do benefício do seu conhecimento do Pai: ‘”Eu te conheci’, imediata e perfeitamente, e estes, embora não te conheçam tão bem, nem sejam capazes de conhecer-te tão bem, ainda assim “conheceram que tu me enviaste a mim”, conheceram aquilo que era necessário que eles soubessem, conheceram o Criador no Redentor”. Conhecendo a Cristo como enviado de Deus, nele, conheceram ao Pai, e iniciaram um relacionamento com Ele. Portanto, Ele pede: “Pai, guarda-os por mim”.

2. O respeito que Ele tinha pelos seus discípulos (v. 26): “Eu os conduzi ao teu conhecimento, e os conduzirei cada vez mais, com esta grande e gentil intenção: “para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja”. Observe aqui:

(1) O que Cristo tinha feito por eles: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome”.

[1] Isto, Ele tinha feito por aqueles que eram seus seguidores mais próximos. Durante todo o tempo que esteve entre eles, Ele se dedicou a declarar o nome do seu Pai a eles, e a produzir neles uma veneração por este nome. A intenção de todos os seus sermões e milagres era honrar a Deus, o Pai, e transmitir o conhecimento dele, cap. 1.18.

[2] Isto, Ele tinha feito por todos os que creem nele, pois eles não teriam sido levados a crer se Cristo não lhes tivesse feito conhecer o nome de seu Pai. Observe que, em primeiro lugar; nós temos uma dívida com Cristo, por todo o conhecimento que temos do nome do Pai. Ele o declara, e abre o entendimento para receber esta revelação. Em segundo lugar, aqueles a quem Cristo recomenda ao favor de Deus, Ele primeiramente conduz ao conhecimento de Deus.

(2) O que Ele ainda pretendia fazer por eles: Eu “lho farei conhecer mais”. Depois da sua ressurreição, Ele desejava dar aos discípulos instruções adicionais (Atos 1.3), e trazê-los a um conhecimento muito mais íntimo das coisas divinas pelo derramamento do Espírito, depois da sua ascensão. E a todos os crentes, em cujos corações Ele resplandeceu, Ele resplandece cada vez mais. Onde Cristo declarou o nome do seu Pai, Ele o tornará conhecido, pois àquele que tem, mais será dado. E aqueles que conhecem a Deus precisam e desejam conhecê-lo mais. Isto é apropriadamente suplicado por eles: “Pai, reconhece-os e favorece-os, pois eles te reconhecerão e te honrarão”.

(3) O que Ele desejava com tudo isto. Não encher suas cabeças com especulações de curiosidade, e dar-lhes algo sobre o que falar entre os estudiosos, mas assegurar e promover sua verdadeira felicidade, em dois aspectos:

[1] A comunhão com Deus: “Portanto, Eu lhes dei o conhecimento do teu nome, através de todas as formas pelas quais teu nome se fez conhecido, ‘para que o amor com que me tens amado esteja neles’, e não seja somente dirigido a eles”. Isto é, em primeiro lugar: “Que eles tenham os frutos deste amor; para sua santificação. Que o Espírito de amor, com o qual tu me encheste, esteja neles”. Cristo declara o nome do seu Pai aos crentes, para que, com esta divina luz lançada nas suas mentes, o amor divino possa ser derramado nos seus corações, para ser neles um princípio controlador e obrigatório de santidade, para que possam tomar parte na natureza divina. Quando o amor de Deus por nós vem, para estar em nós, é como a virtude que o magneto confere à agulha, fazendo com que ela se mova na direção do polo. Ele atrai a alma em direção a Deus, em sentimentos piedosos e devotos, que são como estímulos da vida divina na alma. Em segundo lugar: “Que eles tenham o sabor deste amor para sua consolação. Que eles não somente sejam interessados no amor de Deus, tendo o nome de Deus declarado a si mesmos, mas, por meio de uma declaração adicional, que eles tenham o consolo deste interesse, para que possam não somente conhecer a Deus, mas saber que o conhecem”, 1 João 2.3. É o amor de Deus, derramado desta maneira no coração, que o enche de alegria, Romanos 5.3,5. Deus providenciou que nós possamos não somente ficar satisfeitos com sua bondade amorosa, mas que possamos obter alguma satisfação a partir desta bênção tão grandiosa, e assim possamos ter uma vida cuja realização esteja em Deus e na comunhão com Ele. Devemos pedir este amor em oração, e devemos procurá-lo. Se o tivermos, devemos agradecer a Cristo por ele, se ele nos faltar, poderemos agradecer a nós mesmos.

[2] A união com Cristo, de acordo com esta petição: “E eu neles”. Não há como entrar no amor de Deus, exceto por intermédio de Cristo, nem podemos nos conservar neste amor, exceto estando em Cristo, isto é, tendo-o residente em nós, nem podemos ter o senso e a compreensão deste amor, exceto pela nossa experiência com a permanência de Cristo, isto é, tendo constantemente o Espírito de Cristo nos nossos corações. Cristo em nós é a única esperança de glória que não nos envergonhará, Colossenses 1.27. Toda a nossa comunhão com Deus, a recepção do seu amor por nós, com nossa retribuição ao amá-lo, passa pelas mãos do Senhor Jesus, e este consolo se deve exclusivamente a Ele. Cristo tinha dito, pouco tempo antes: “Eu neles” (v. 23), e aqui isto é repetido (embora o sentido estivesse completo sem esta repetição), e a oração se encerra com isto, para mostrar o quanto o coração de Cristo se empenhou nisto. Todas as suas petições se centram nisto, e com isto as orações do Senhor Jesus, o Filho de Davi, são concluídas: “‘Eu neles’. Que Eu tenha isto, e não desejarei nada mais”. Residir no redimido é a glória do Redentor, é uma parte importante do seu descanso eterno, e Ele desejou isto. Portanto, devemos assegurar nossa união com Cristo, e então receber o consolo da sua intercessão. Esta oração teve um fim, mas Ele vive eternamente para cumpri-la.