PSICOLOGIA ANALÍTICA

NAQUELES DIAS…

Relacionado a incômodo e desconforto físico pela maioria das mulheres, o período menstrual tem implicações emocionais, sociais, psicológicas e sexuais que nem sempre são levadas em conta.

Naqueles dias

Muitas vezes sentido como um problema a ser contornado ou, mais raramente, como símbolo o poder reprodutivo feminino, o ciclo menstrual ocupa parte considerável da vida e dos pensamentos das mulheres. “Constrangimento e vergonha ainda cercam um evento fisiológico que afeta, todo mês, metade da população mundial e torna complexo o estudo sobre como é vivenciada, por exemplo, a menarca, ou seja, o início do primeiro ciclo”, afirma a psicóloga Anne Burrows em artigo no Journal of Reproductive and lnfant Psychology. A pesquisadora se propôs avaliar a experiência da primeira menstruação e para isso elaborou questionários voltados a estudantes adolescentes. No entanto, ela teve de enfrentar a recusa de pais e professores que vetaram a participação das jovens. “Apesar dos avanços nas mais diversas áreas, há coisas das quais ainda é difícil falar”, reconhece Anne. Mas à revelia dessa atitude as meninas constroem a própria vida social e seus relacionamentos em função do calendário do ciclo, evitando viagens, festas, encontros, exames escolares e competições esportivas nos períodos “de risco”.

As lembranças ligadas ao evento repercutem na percepção do próprio corpo, do sexo e da reprodução. Um estudo do psicólogo Davis Pillermer publicado na década de 80 no Journal of Adolescence sugere que a menarca tem, para a maioria das mulheres, a nitidez típica das memórias decorrentes de eventos estressantes. Diversas pesquisas revelam que sintomas relacionados ao início do sangramento menstrual são sentidos de maneira mais intensa por mulheres que consideram o período um estorvo. Esse é o caso de muitas adolescentes. Entre elas, é comum o pensamento recorrente de não parecer ” menstruada”, especialmente aos olhos dos homens – com frequência, absorventes são escondidos nas divisões da bolsa, com receio de que alguém possa vê-los, e suéteres são amarrados na cintura nos dias de sangramento.

A maioria delas tem grande preocupação em se mostrar “limpas” durante o período de sangramento, como mostra uma pesquisa realizada no final dos anos 90 por psicólogos da Universidade de Massachusetts. Eles entrevistaram estudantes americanas para avaliar qual tipo de informação priorizavam sobre o ciclo menstrual. A maioria delas mostrou mais interesse por aspectos como marcas de absorventes cuja publicidade garantia mais eficiência na retenção do fluxo ou sabonetes de higiene íntima. Apenas uma entre as 157 entrevistadas mencionou que gostaria de entender mais sobre a fisiologia feminina e o ciclo reprodutivo. Duas disseram que era importante orientar as mais jovens sobre maturação sexual. Nenhuma citou a necessidade de falar sobre métodos anticoncepcionais e de proteção contra doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

A mancha vermelha visível na roupa é uma prova da natureza sexuada. Para Anne, a rejeição social do ciclo feminino não está necessariamente relacionada ao tabu da sexualidade. “Hoje se fala de sexo mais livremente, e muitas meninas não hesitam em buscar uma imagem mais ‘adulta’, usando maquiagem e adotando determinados comportamentos, por exemplo. Entretanto, a menstruação continua a ser vivenciada com vergonha”, diz Anne.

Em 2012, a revista Psychology of Woman Quarerly divulgou um experimento que analisou como a menstruação é vista socialmente. Voluntárias foram orientadas a deixar cair da bolsa um absorvente ou uma fivela de cabelo durante uma simulação de reunião de trabalho da qual participavam homens e mulheres. Em seguida, os participantes do sexo masculino foram convidados a fazer uma avaliação das competências das que deixaram cair os objetos: a voluntária que recolheu o absorvente do chão foi considerada menos eficiente. Um dado interessante: em entrevistas após o experimento, homens que presenciaram o incidente com o absorvente revelaram maior tendência a julgar a colega como elemento passivo do grupo, menos útil e pouco apta a tomar decisões.

Segundo a psicóloga Tomi-Ann Roberts, uma das autoras do estudo, apesar de as mulheres ocuparem cada vez mais posições de liderança e serem reconhecidas pelos homens como iguais no ambiente de trabalho, a “pré-memória” da existência do ciclo, acionada durante o experimento, remete a padrões ancestrais de organização social e preservação da espécie: enquanto os homens defendiam o grupo e saíam para caçar, as mulheres, que abrigavam os filhos no ventre, desempenhavam tarefas consideradas secundárias, como cuidar dos mais jovens e preparar os alimentos.

FLUTUAÇÕES HORMONAIS

Dois anos depois, Tomi-Ann conduziu outra pesquisa, dessa vez analisando a percepção das próprias mulheres sobre a relação entre menstruação e o conceito de feminilidade passiva, associado à vulnerabilidade e à necessidade de se apegar ao outro. Segundo Sigmund Freud, a “feminilidade primária” é rechaçada por ambos os sexos, pois remete à exclusão do universo fálico, simbolicamente relacionado à força e à potência. Com base nessas ideias, Tomi-Ann pediu a voluntárias que respondessem a um questionário que avaliava seus sentimentos em relação ao ciclo menstrual e à tendência a adotar condutas sensuais fundamentadas na necessidade de obter o reconhecimento e a proteção da figura masculina. Os resultados revelaram que as mulheres que mais aderiam a esse tipo de comportamento eram as que mostravam maior repulsa em menstruar.

A maioria das mulheres relata sentir desconforto durante o período menstrual – dores abdominais e de cabeça e cansaço físico são os sintomas mais comuns. No entanto, um pequeno percentual (cerca de 10%) experimenta sensação de euforia e melhora da produtividade nos dias de sangramento. Segundo os psiquiatras Camille Logueb e Rudolf Moosb, da Universidade Stanford, convicções e expectativas em relação ao ciclo menstrual influenciam esses sentimentos tanto quanto as variações hormonais.

Entretanto, outros estudos frisam que as flutuações dos hormônios femininos impactam não só o humor, mas o desempenho cognitivo. No final dos anos 80, uma pesquisa da Universidade de Ontário, no Canadá, publicada na revista Brain and Cognition, mostrou que a capacidade de concentração e raciocínio era relativamente menor durante a fase lútea do ciclo, na qual há aumento da produção de progesterona, hormônio que prepara o corpo para uma possível gestação. Outros experimentos, realizados com primatas, indicam influência dos hormônios sexuais no funcionamento do cérebro – o que parece não se restringir às mulheres.

Pesquisas recentes identificaram alterações de humor masculino relacionadas às variações da quantidade do hormônio testosterona. ” É um fenômeno menos preciso que o feminino, mas parece existir. Voluntários têm revelado queda no desempenho cognitivo nas fases em que há menor concentração de testosterona no sangue. É possível que as variações emocionais e cognitivas, por tanto tempo atribuídas à flutuação hormonal nas mulheres, sejam comuns a ambos os sexos”, diz o psicólogo Marco dei Giudice, pesquisador do Centro de Ciência Cognitiva da Universidade de Turim, na Itália.

Segundo ele, nas mulheres o pico de testosterona (elas também produzem esse hormônio, em menores quantidades) coincide como do estrógeno, responsável pelas características sexuais femininas. Justamente nessa fase se verifica uma melhora do desempenho cognitivo em testes de habilidades visuais e espaciais. Contudo, seria precipitado associar a testosterona a maior agilidade mental. Em experimentos com mulheres que já passaram pela menopausa e receberam doses de testosterona, não se verificou nenhum efeito sobre o desempenho cognitivo.

Estudos de neuroimagem têm contribuído para analisar alterações neurais relacionadas ao ciclo menstrual. Ao observar imagens do cérebro de voluntárias captadas ao longo do mês, o neurocientista Jean-Claude Dreher, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, em Lyon, constatou que áreas neurais ligadas às emoções, como a amígdala e o córtex orbitofrontal, são ativadas mais facilmente durante a fase folicular, quando há no  sangue maiores índices de estrógeno  e menores quantidades  de progesterona. As participantes assistiram a vídeos em que pessoas ganhavam e perdiam prêmios em máquinas caça-níqueis, de forma a estimular seu sistema de recompensa.  “A antecipação de vitórias, do prazer, ativa regiões associadas às emoções. Isso ocorre quando há maior quantidade de estrógeno. A brusca diminuição desse hormônio pouco antes e durante a menstruação, porém, parece convergir para uma espécie de ‘trégua’ dos circuitos relacionados ao prazer”, diz Dreher.

A descoberta pode ajudar a entender comportamentos patológicos, tanto em homens como em mulheres. Estudos anteriores ao de Dreher constataram que as mulheres respondem de forma diferente a drogas, como a cocaína, ao longo do ciclo. As mudanças na ativação de estruturas como a amígdala, por exemplo, poderiam explicar por que algumas psicoses, como a esquizofrenia, costumam se manifestar mais tarde nas mulheres.

Os hormônios femininos podem até mesmo influenciar a capacidade de memorização. Em artigo publicado em 2008 no Hippocampus, neurocientistas do Hospital Presbiteriano de Nova York sugerem que o volume do hipocampo, fundamental no armazenamento de informações, muda no decorrer do ciclo. Os resultados foram obtidos por meio de análise morfométrica voxel a voxel – técnica que permite avaliar o volume das estruturas cerebrais por meio de ressonância magnética. De acordo com os autores, os hormônios interfeririam na nitidez com que alguns eventos são registrados.

Apesar das descobertas, ainda não é possível afirmar que o cérebro masculino e o feminino funcionam de maneira distinta, e muito menos que essa diferença se deve aos hormônios sexuais. Como eles influenciam a formação do embrião, podem ter efeitos sobre a plasticidade neural na vida adulta, mas não há prova consistente de que suas oscilações ao longo do ciclo interfiram nas habilidades cognitivas. “Além disso, o modo como as mulheres vivem a própria condição fisiológica pode ser decisivo em seu desempenho intelectual e em sua interação social durante o período menstrual”, diz Dei Giudice.

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FÉRTIL E IMPURO

As poucas referências sobre os ciclos femininos nos textos bíblicos aludem ao sangue menstrual como uma substância impura que deve ser evitada pelos homens. O livro Levítico, parte do Antigo Testamento, proíbe os maridos de tocar suas mulheres, objetos que elas tenham segurado ou até mesmo se sentar em lugares onde elas estiveram. Ainda hoje judias ortodoxas realizam mensalmente o ritual do mikvé, um banho de imersão após o último dia do sangramento.

A primeira menstruação, a menarca, tem grande significado simbólico em várias culturas. Nas tribos guajajaras, um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil, as adolescentes são recolhidas em ocas por vários dias, alimentam-se apenas de peixe e arroz e tomam banhos de ervas. De cócoras, vertem seu sangue para a terra – uma espécie de retribuição à energia vital. No Quênia, a menarca é festejada por toda a comunidade e a jovem é submetida a rituais de passagem. Em algumas cidades da Sardenha há o costume de dar às meninas um maço de flores brancas, convite implícito a conservarem a pureza.

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SEM DIREITO DE “SER MOCINHA”

O nome do primeiro homem, Adão, em hebraico, está relacionado tanto a adorná, “solo vermelho”, quanto a adom, “vermelho”, e dam, “sangue”. Segundo o mitólogo americano Joseph Campbell, o termo evoca o sangue menstrual e o poder de dar a vida. Estima-se que tenha surgido há mais de 300 mil anos. Na mitologia grega, a deusa Reia (ou Cibele, entre os romanos), a mãe de todos os deuses, exprime essa veneração na própria etimologia de seu nome, já que a palavra “reia” significa “terra” e está associada à ideia de fluxo e fertilidade. Os gregos associavam as fases da lua ao ciclo menstrual e nesse período promoviam nos templos dedicados a Hera – uma das 12 divindades do Olimpo (equivalente a Juno entre os romanos), casada com Zeus, considerada a protetora das mulheres – rituais de purificação nos quais a figura feminina tinha papel importante.

“Nas sociedades contemporâneas, entretanto, menstruar tornou-se um perigo”, afirma a psicóloga junguiana Lúcia Rosenberg, mestre em psicologia analítica.

“O sangue parece carregar em si algo de diabólico: há o risco do constrangimento, do descontrole; mas, contraditoriamente, muitas meninas, incentivadas pelos adultos e pela mídia, desde muito jovens se preocupam em parecer mais velhas e terminam ‘ficando mocinhas’ antes mesmo da menarca.” Autora do livro Cordão mágico Histórias de mães e filhos (Ofício das Palavras, 2009), Lúcia ressalta o período menstrual como um marco da natureza, intimamente vinculado ao poder feminino da criação.

“Simbolicamente, a menstruação está ligada à ideia de iniciação, à lua nova; é um tempo de não fertilidade, de reciclagem, no qual corpo e psiquismo precisam de uma pausa”, ressalta. “Se a mulher puder se dar o direito de um pouco de recolhimento nesses dias, será mais fácil encarar essa fase como um momento de conexão interna”, sugere. “É possível que os outros não compreendam essa necessidade nem nos ofereçam esse espaço, mas é preciso começar consigo mesma e, em meio a tantos compromissos, encontrar um lugar para ficar em silêncio dentro de nós.”

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WALT DISNEY, PUBLICIDADE E ALIMENTAÇÃO DE ESTIGMAS

Um líquido azul e transparente entornado sobre a superfície de algodão indica seu potencial de absorção. Lembrou-se dos comerciais de absorventes descartáveis? Não é de hoje que a exibição do sangue é evitada pelas marcas que tentam conquistar suas consumidoras. Na década de 50, um pôster publicitário exibia uma bela mulher vestida de branco e, discretamente, no canto direito do anúncio, destacava-se o logo da primeira linha de descartáveis comercializada no Brasil: o Modess, da multinacional Johnson & Johnson, uma verdadeira evolução em relação às toalhinhas laváveis, chumaços de algodão e outros improvisos até então usados para conter o sangue menstrual.

Um estudo sociológico apresentado em 2005 no encontro da American Sociological Association analisa propagandas e panfletos informativos sobre o ciclo feminino produzidos nos Estados Unidos a partir de 1942. Para vender produtos sempre mais seguros e à prova de “acidentes”, a indústria, apostou na ideia de que sujar a roupa com sangue era algo desastroso. Em 1946, a companhia americana Kotex lançou, em parceria com a Walt Disney Corporation, o filme educativo A história da menstruação (The story of menstruation), que se tornou parte do programa de educação sexual de muitas escolas nos Estados Unidos. Enquanto são exibidas imagens de adolescentes de pele alva e bem penteadas que lembram a personagem Branca de Neve, a narradora explica o papel da hipófise no controle do ciclo menstrual. Os órgãos sexuais externos não são representados e os internos aparecem em um corpo de contornos embaçados. Não há orientação sobre métodos contraceptivos e doenças sexualmente transmissíveis. Fala-se brevemente da importância da menstruação para a gravidez, mas há atenção especial em instruir as jovens a controlar as alterações de humor e a tentar parecer agradáveis “naqueles dias”.

Segundo o estudo da American Sociological Association, dos anos 70 em diante os anúncios passaram a aludir à aparente libertação das mulheres. Lindas jovens são retratadas enquanto desenvolvem todo tipo de atividade física ou intelectual apesar da menstruação.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.