ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 17: 11-16 – PARTE II

Alimento diário - Comendo a Bíblia

A Oração Intercessória de Cristo

 

II – As razões com que Ele reforça estes pedidos pela sua preservação, que são cinco:

1. O Senhor mostra que, até então, Ele os tinha guardado (v. 12): “Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome”, na verdadeira fé do Evangelho e no serviço de Deus. ‘Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu’. Nenhum deles se revoltou ou foi destruído, ‘senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse”‘. Observe:

(1) O desempenho fiel de Cristo na sua missão, no que diz respeito aos seus discípulos: enquanto Ele estava com eles, Ele os guardava, e seu cuidado por eles não foi em vão. Ele os guardou em nome de Deus, evitou que eles caíssem em erros graves ou pecados, impediu que eles colidissem com os fariseus, que teriam percorrido o mar e a terra para fazer deles prosélitos. Ele evitou que eles o abandonassem, e retornassem ao pouco que tinham deixado por Ele. Ele os conservou sob sua vigilância e proteção quando os enviou para pregar. Seu coração não foi com eles? Muitos que o seguiam se ofendiam com uma ou outra coisa, e o deixavam, mas Ele conservou os doze, de modo que eles não partissem. Ele impediu que eles caíssem nas mãos dos inimigos perseguido­ res que buscavam suas vidas. Ele os guardou quando se entregou, cap. 18.9. Enquanto Ele estava com eles, Ele os guardou de uma maneira visível, com instruções que ainda soavam nos seus ouvidos, milagres que ainda se realizavam diante dos seus olhos. Quando Ele tivesse se afastado deles, eles precisariam ser guardados de uma maneira espiritual. Os consolos e apoios perceptíveis, às vezes, são dados e, às vezes, são retidos, mas quando retirados, ainda assim os discípulos não ficam sem consolo. O que Cristo diz aqui sobre seus seguidores mais próximos é verdade com relação a todos os santos, enquanto estão aqui neste mundo. Cristo os guarda em nome de Deus. Isto indica:

[1] Que eles são fracos, e não podem se proteger. Suas próprias mãos não são suficientes para eles.

[2] Que eles são, na opinião de Deus, valiosos e merecedores de proteção, preciosos aos seus olhos e honoráveis, seu tesouro, suas joias.

[3] Que sua salvação está planejada, pois é para ela que eles são guardados, 1 Pedro 1.5. Assim como os maus estão reservados para o dia do mal, também os justos estão preservados para o dia da felicidade, o dia do gozo que jamais terá fim.

[4] Que eles são a incumbência do Senhor Jesus, pois, como sua incumbência, Ele os guarda, e se apresenta como o bom pastor, para a preservação das ovelhas.

(2) O relato consolador que Ele apresenta da sua incumbência: “Nenhum deles se perdeu”. Observe que Jesus Cristo certamente irá guardar todos os que lhe são dados, de modo que nenhum deles se perca, totalmente e finalmente. Eles podem se julgar perdidos, e podem estar quase perdidos (em perigo iminente), mas é a vontade do Pai que Ele não perca nenhum, e Ele não irá perder nenhum (cap. 6.39), de modo que isto ficará evidente quando eles aparecerem todos juntos, e nenhum deles estiver faltando.

(3) Um rótulo colocado sobre Judas, não colocado sobre nenhum daqueles que Ele tinha se incumbido de guardar. Judas estava entre aqueles que foram dados a Cristo, mas não pertencia a eles. Jesus se refere a Judas como já perdido, pois ele tinha abandonado a sociedade do seu Mestre e dos seus condiscípulos, e tinha se entregado à orientação do Diabo, e em pouco tempo iria para o lugar que fez por merecer. Ele já estava praticamente perdido. Mas a apostasia e a destruição de Judas não representavam nenhuma censura ao seu Mestre, ou à sua família, pois:

[1] Ele era o “filho da perdição”, e por isto não era um daqueles que foram dados a Cristo, para serem guardados. Ele merecia a perdição, e Deus o deixou precipitar-se nela. Ele era filho do destruidor, como Caim, que era filho do maligno. Este grande inimigo, que o Senhor irá destruir, é chamado de “filho da perdição”, porque é um “homem do pecado”, 2 Tessalonicenses 2.3. É terrível considerar que um dos apóstolos provou ser um filho da perdição. Nenhum lugar ou nome na igreja, nenhum privilégio ou oportunidade de obter graça, nenhuma profissão ou desempenho exterior, irá protegê-lo da ruína, se seu coração não estiver correto com Deus. E ninguém pode provar ser mais filho da perdição, no final, com mais probabilidade, depois de um curso plausível de sua profissão de fé, do que aqueles que, como Judas, amam o dinheiro. Mas o fato de Cristo distinguir Judas daqueles que lhe foram dados (pois ei me é adversativa, e não exceptiva) indica que a verdade e a verdadeira religião não devem se prejudicar por causa da traição daqueles que são falsos para com elas, 1 João 2.19.

[2] A Escritura se cumpriu. O pecado de Judas tinha sido previsto pelo conselho de Deus, e predito na sua Palavra, e o evento certamente seguiria a predição como uma consequência, embora não se possa dizer, necessariamente, que a seguiu como um resultado. Veja Salmos 41.9; 69.25; 109.8. Nós poderíamos ficar surpresos com a traição dos apóstatas, se não tivéssemos-sido avisados a respeito dela anteriormente.

2. Cristo mostra que agora tinha a necessidade de deixá-los, e não podia mais vigiá-los da maneira que tinha feito até então (v. 11): “Guarda-os agora, para que Eu não perca o trabalho que tive com eles enquanto estive com eles. Guarda-os, para que eles possam ser uns com os outros, assim como nós somos um com o outro”. Nós teremos a oportunidade de falar sobre isto, v. 21. Mas veja aqui:

(1) Com que prazer Ele fala da sua própria partida. Ele se expressa a respeito dela com um ar de triunfo e exultação, com referência tanto ao mundo que Ele deixava quanto ao mundo ao qual se dirigia.

[1] “‘Eu já não estou mais no mundo’. Agora, adeus a este mundo provocador e problemático. Eu já tive o suficiente dele, e agora é chegada e bem-vinda a hora em que não mais estarei nele. Agora que Eu terminei a obra que tinha a fazer nele, Eu já estou cansado dele. Nada resta, exceto apressar-me para sair dele, tão depressa quanto puder”. Observe que deve ser um prazer para aqueles que têm sua casa no outro mundo pensar em não mais estar neste, pois, quando nós tivermos feito o que tínhamos para fazer neste mundo, e para o que nos tornamos adequados, o que há aqui que poderá nos tentar a permanecer? Quando recebermos uma sentença de morte interior, com que santo triunfo deveremos dizer: ”Agora já não estou mais no mundo, este mundo escuro e enganador, este pobre mundo vazio, este mundo tentador e profano. Não mais sou atormentado com seus espinhos, não mais em perigo, pelas suas redes e armadilhas. Agora eu não caminharei mais por este terrível deserto, não mais sofrerei a agitação deste mar tempestuoso. Agora eu já não estou mais no mundo, mas posso alegremente deixá-lo e dar-lhe um adeus final”.

[2] “E eu vou para ti”. Sair do mundo é somente a meta­ de do consolo do Cristo que estava prestes a morrer, como também de cada cristão quando está prestes a morrer. A metade melhor, infinitamente melhor, é pensar em ir para o Pai, participar do seu deleite imediato, ininterrupto e eterno. Observe que aqueles que amam a Deus não podem evitar alegrar-se em pensar em ir para Ele, mesmo que isto seja através do vale da sombra da morte. Quando nos formos, ausentando-nos do corpo, será para estar presentes com o Senhor, como os filhos levados da escola para a casa do seu pai. ”Agora eu vou para ti, a quem eu escolhi e servi, e de quem minha alma tem sede. A ti, a fonte de luz e vida, a coroa e o centro de vida e alegria. Agora meus anseios serão satisfeitos, minhas esperanças, realizadas, minha felicidade, completa, pois agora eu vou para ti”.

(2) Com que preocupação terna Ele fala sobre aqueles a quem Ele deixa para trás: “‘Mas eles estão no mundo’. Eu descobri que mundo mau é este, o que será destes pequenos amados, que precisam permanecer nele? Pai santo, guarda-os. Eles sentirão falta da minha presença, mas permita que tenham a tua. Eles terão agora uma necessidade maior do que nunca de serem guardados, pois Eu os estou enviando ao mundo, a um território mais longínquo do que eles jamais se aventuraram a entrar. Eles precisam se aprofundar e trabalhar nestas águas profundas, e estarão perdidos se tu não os guardares”. Observe aqui:

[1] Que, quando nosso Senhor Jesus estava indo para o Pai, Ele levou consigo uma preocupação terna pelos seus que estão no mundo, e continuou a ter misericórdia deles. Ele traz seus nomes no seu peitoral, na verdade sobre seu coração, e os gravou com os pregos da sua cruz nas palmas das suas mãos, e mesmo quando Ele já não está ao alcance da vista deles, eles não estão fora do alcance da sua, e muito menos da sua mente. Nós devemos sentir uma piedade semelhante por aqueles que estão se lançando no mundo, quando nós já estamos quase saindo dele, e por aqueles que são deixamos para trás, quando nós o estamos deixando.

[2] Que, quando Cristo desejava expressar a extrema necessidade que seus discípulos tinham da preservação divina, Ele diz somente: “Eles estão no mundo”. Isto evidencia perigo suficiente àqueles que se dirigem ao céu, a quem um mundo adulador iria desviar e seduzir, e um mundo maligno iria odiar e perseguir.

3. Ele alega a satisfação que eles teriam, sabendo que estavam salvos, e a satisfação que Ele teria, sabendo que estavam tranquilos: “Digo isto no mundo, para que tenham a minha alegria completa em si mesmos”, v. 13. Observe que:

(1) Cristo desejava fervorosamente que a alegria dos seus discípulos fosse completa, pois é sua vontade que eles se alegrem sempre. Ele os deixava em lágrimas, e em meio a problemas, e ainda tomou cuidados efetivos para completar sua alegria. Quando eles julgavam que sua alegria nele havia chegado ao fim, ela se aproximou de uma perfeição, mais do que jamais tinha alcançado, e eles ficaram cheios dela. Aqui aprendemos:

[1] A encontrar nossa alegria em Cristo: “E minha alegria, a alegria que Eu dou, ou melhor, a alegria da qual Eu sou o motivo”. Cristo é a alegria de todo cristão, sua principal alegria. A alegria do mundo murcha com ele, a alegria em Cristo é eterna, como Ele.

[2] A construir nossa alegria com diligência, pois ela é o dever, assim como o privilégio, de todos os verdadeiros crentes. Nenhum aspecto da vida cristã nos é recomendado com mais insistência, Filipenses 3.1; 4.4.

[3] A desejar a perfeição da alegria, para que possamos tê-la completa em nós, pois Cristo tem prazer em concedê-la.

(2) Para isto, Ele solenemente os entrega aos cuidados do seu Pai, e à sua guarda, e os tomou como testemunhas de que tinha feito isto: “Digo isto no mundo”, enquanto ainda estou com eles no mundo. Sua intercessão no céu, pela preservação deles, teria sido igualmente efetiva por si só, mas dizer isto no mundo representaria uma maior satisfação e um maior incentivo a eles, e os capacitaria a se alegrarem na tribulação. Observe:

[1] Cristo não somente armazenou consolações para seu povo, ao prover para seu futuro bem-estar, mas também lhes distribuiu consolações, e disse aquilo que serviria para sua satisfação atual. Aqui Ele condescendeu,  na presença dos seus discípulos, em divulgar sua última vontade, seu testamento, e (muitos que fazem testamento evitam fazer isto) permite que eles saibam quais legados Ele lhes deixava, e o quanto eles estavam protegidos, para que pudessem ter uma forte consolação.

[2] A intercessão de Cristo, por nós, é suficiente para completar nossa alegria nele. Nada é mais eficaz para calar todos os nossos temores e desconfianças, e para nos fornecer maior consolação, do que o fato de que o Senhor Jesus sempre intercede, na presença de Deus, por nós. Por isto, o apóstolo coloca um “ou antes”, referindo-se particularmente a este assunto, Romanos 8.34. E veja Hebreus 7.25.

4. Ele alega o mau tratamento que provavelmente eles iriam encontrar no mundo, por causa dele (v. 14): “‘Dei-lhes a tua palavra’, para que fosse divulgada ao mundo, e eles a receberam, creram nela, e aceitaram a incumbência de transmiti-la ao mundo, ‘e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo”‘. Aqui temos:

(1) A inimizade do mundo aos seguidores de Cristo. Se, enquanto Cristo estava com seus seguidores, embora eles tivessem feito pouca oposição ao mundo, ainda assim o mundo os odiava, muito mais ele os odiaria quando, pela sua pregação mais extensa do Evangelho, eles transtornariam o mundo. “Pai, continua amigo deles”, diz Cristo, “pois eles terão muitos inimigos. Que tenham teu amor, pois o ódio do mundo está posto contra eles. Em meio a estes dardos inflamados, que eles sejam circundados da tua benevolência como de um escudo”. Deus considera uma honra o fato de se posicionar do lado mais fraco, e ajudar os desamparados. “Senhor, tem misericórdia deles, pois os homens procurarão devorá-los”.

(2) As razões desta inimizade, que fortalecem o pedido.

[1] É evidente que uma das razões se deve ao fato de que eles tinham recebido a palavra de Deus como lhes tinha sido enviada, pela mão de Cristo, quando a maior parte do mundo a rejeitava, e se colocava contra aqueles que eram seus pregadores e ensinadores. Observe que aqueles que recebem a boa vontade e a boa opinião de Cristo devem esperar a má vontade e a má opinião do mundo. Os ministros do Evangelho têm sido odiados pelo mundo, de uma maneira particular, por­ que eles chamam homens do mundo e os separam dele, e os ensinam a não se conformarem com ele, e, desta maneira, condenam o mundo. “Pai, guarda-os, pois é por tua causa que eles correm perigo. Eles sofrem por ti”. Esta é a alegação do salmista: “Por amor de ti tenho suportado afronta”, Salmos 69.7. Observe que aqueles que guardam a palavra da paciência de Cristo têm a promessa de uma proteção especial na hora da tentação, Apocalipse 3.10. Esta causa, que produz um mártir, pode muito bem produzir um sofredor alegre.

[2] Uma outra razão é ainda mais clara. O mundo os odiou, porque não eram do mundo. Aqueles a quem a palavra de Cristo dirige não são do mundo, pois ela tem um forte efeito sobre todos os que a recebem. O amor por ela os desacostuma das riquezas do mundo e os volta contra a maldade do mundo, e, por esta razão, o mundo guarda rancor deles.

5. Ele declara a conformidade deles consigo mesmo, e a evidência deste fato é uma santa não-conformidade com o mundo (v. 16): “Pai, guarda-os, pois eles têm meu espírito e minha mente, eles “não são do mundo, como eu do mundo não sou”. Podem, com fé, entregar-se à custódia de Deus aqueles que:

(1) São como Cristo era neste mundo, e seguem seus passos. Deus irá amar àqueles que são como Cristo.

(2) Não se envolvem nos interesses do mundo, nem se dedicam aos seus serviços. Observe:

[1] Que Jesus Cristo não era deste mundo. Ele nunca tinha sido deste mundo, e muito menos agora, que estava prestes a deixá-lo. Isto sugere, em primeiro lugar, sua situação. Ele não era nenhum dos favoritos ou dos queridos do mundo, nenhum dos seus príncipes ou nobres. Ele não tinha nenhuma possessão terrena, nem mesmo onde reclinar sua cabeça, nem poder terreno, Ele não era nenhum juiz ou repartidor. Em segundo lugar, seu espírito. Ele estava perfeitamente morto para o mundo, o príncipe deste mundo não tinha nada nele, as coisas deste mundo não representavam nada para Ele. O Senhor não tinha nenhuma honra da parte do mundo, pois Ele se fez sem fama ou reputação para o mundo. O Senhor não desejou as riquezas humanas, pois, pelo nosso bem, Ele se fez pobre. Ele não desfrutou os prazeres deste mundo, pois estava familiarizado com a tristeza. Veja cap. 8.23.

[2] Que, portanto, os verdadeiros cristãos não são deste mundo. O Espírito de Cristo neles se opõe ao espírito do mundo. Em primeiro lugar, é seu destino serem desprezados pelo mundo. Eles não são mais favorecidos pelo mundo do que foi seu Mestre, antes deles. Em segundo lugar, é seu privilégio serem libertados do mundo, como Abraão, da terra do seu nascimento. Em terceiro lugar, é seu dever e sua característica estarem mortos para o mundo. Sua convivência mais agradável é, e deve ser, com outro mundo, e sua preocupação principal deve ser com os assuntos daquele mundo, e não deste. Os discípulos de Cristo eram fracos e tinham muitas debilidades. Ainda assim, Ele podia dizer a favor deles: Não são do mundo, não são da terra, e por isto Ele os entrega aos cuidados do Céu.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.