PSICOLOGIA ANALÍTICA

NAQUELES DIAS…

Relacionado a incômodo e desconforto físico pela maioria das mulheres, o período menstrual tem implicações emocionais, sociais, psicológicas e sexuais que nem sempre são levadas em conta.

Naqueles dias

Muitas vezes sentido como um problema a ser contornado ou, mais raramente, como símbolo o poder reprodutivo feminino, o ciclo menstrual ocupa parte considerável da vida e dos pensamentos das mulheres. “Constrangimento e vergonha ainda cercam um evento fisiológico que afeta, todo mês, metade da população mundial e torna complexo o estudo sobre como é vivenciada, por exemplo, a menarca, ou seja, o início do primeiro ciclo”, afirma a psicóloga Anne Burrows em artigo no Journal of Reproductive and lnfant Psychology. A pesquisadora se propôs avaliar a experiência da primeira menstruação e para isso elaborou questionários voltados a estudantes adolescentes. No entanto, ela teve de enfrentar a recusa de pais e professores que vetaram a participação das jovens. “Apesar dos avanços nas mais diversas áreas, há coisas das quais ainda é difícil falar”, reconhece Anne. Mas à revelia dessa atitude as meninas constroem a própria vida social e seus relacionamentos em função do calendário do ciclo, evitando viagens, festas, encontros, exames escolares e competições esportivas nos períodos “de risco”.

As lembranças ligadas ao evento repercutem na percepção do próprio corpo, do sexo e da reprodução. Um estudo do psicólogo Davis Pillermer publicado na década de 80 no Journal of Adolescence sugere que a menarca tem, para a maioria das mulheres, a nitidez típica das memórias decorrentes de eventos estressantes. Diversas pesquisas revelam que sintomas relacionados ao início do sangramento menstrual são sentidos de maneira mais intensa por mulheres que consideram o período um estorvo. Esse é o caso de muitas adolescentes. Entre elas, é comum o pensamento recorrente de não parecer ” menstruada”, especialmente aos olhos dos homens – com frequência, absorventes são escondidos nas divisões da bolsa, com receio de que alguém possa vê-los, e suéteres são amarrados na cintura nos dias de sangramento.

A maioria delas tem grande preocupação em se mostrar “limpas” durante o período de sangramento, como mostra uma pesquisa realizada no final dos anos 90 por psicólogos da Universidade de Massachusetts. Eles entrevistaram estudantes americanas para avaliar qual tipo de informação priorizavam sobre o ciclo menstrual. A maioria delas mostrou mais interesse por aspectos como marcas de absorventes cuja publicidade garantia mais eficiência na retenção do fluxo ou sabonetes de higiene íntima. Apenas uma entre as 157 entrevistadas mencionou que gostaria de entender mais sobre a fisiologia feminina e o ciclo reprodutivo. Duas disseram que era importante orientar as mais jovens sobre maturação sexual. Nenhuma citou a necessidade de falar sobre métodos anticoncepcionais e de proteção contra doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

A mancha vermelha visível na roupa é uma prova da natureza sexuada. Para Anne, a rejeição social do ciclo feminino não está necessariamente relacionada ao tabu da sexualidade. “Hoje se fala de sexo mais livremente, e muitas meninas não hesitam em buscar uma imagem mais ‘adulta’, usando maquiagem e adotando determinados comportamentos, por exemplo. Entretanto, a menstruação continua a ser vivenciada com vergonha”, diz Anne.

Em 2012, a revista Psychology of Woman Quarerly divulgou um experimento que analisou como a menstruação é vista socialmente. Voluntárias foram orientadas a deixar cair da bolsa um absorvente ou uma fivela de cabelo durante uma simulação de reunião de trabalho da qual participavam homens e mulheres. Em seguida, os participantes do sexo masculino foram convidados a fazer uma avaliação das competências das que deixaram cair os objetos: a voluntária que recolheu o absorvente do chão foi considerada menos eficiente. Um dado interessante: em entrevistas após o experimento, homens que presenciaram o incidente com o absorvente revelaram maior tendência a julgar a colega como elemento passivo do grupo, menos útil e pouco apta a tomar decisões.

Segundo a psicóloga Tomi-Ann Roberts, uma das autoras do estudo, apesar de as mulheres ocuparem cada vez mais posições de liderança e serem reconhecidas pelos homens como iguais no ambiente de trabalho, a “pré-memória” da existência do ciclo, acionada durante o experimento, remete a padrões ancestrais de organização social e preservação da espécie: enquanto os homens defendiam o grupo e saíam para caçar, as mulheres, que abrigavam os filhos no ventre, desempenhavam tarefas consideradas secundárias, como cuidar dos mais jovens e preparar os alimentos.

FLUTUAÇÕES HORMONAIS

Dois anos depois, Tomi-Ann conduziu outra pesquisa, dessa vez analisando a percepção das próprias mulheres sobre a relação entre menstruação e o conceito de feminilidade passiva, associado à vulnerabilidade e à necessidade de se apegar ao outro. Segundo Sigmund Freud, a “feminilidade primária” é rechaçada por ambos os sexos, pois remete à exclusão do universo fálico, simbolicamente relacionado à força e à potência. Com base nessas ideias, Tomi-Ann pediu a voluntárias que respondessem a um questionário que avaliava seus sentimentos em relação ao ciclo menstrual e à tendência a adotar condutas sensuais fundamentadas na necessidade de obter o reconhecimento e a proteção da figura masculina. Os resultados revelaram que as mulheres que mais aderiam a esse tipo de comportamento eram as que mostravam maior repulsa em menstruar.

A maioria das mulheres relata sentir desconforto durante o período menstrual – dores abdominais e de cabeça e cansaço físico são os sintomas mais comuns. No entanto, um pequeno percentual (cerca de 10%) experimenta sensação de euforia e melhora da produtividade nos dias de sangramento. Segundo os psiquiatras Camille Logueb e Rudolf Moosb, da Universidade Stanford, convicções e expectativas em relação ao ciclo menstrual influenciam esses sentimentos tanto quanto as variações hormonais.

Entretanto, outros estudos frisam que as flutuações dos hormônios femininos impactam não só o humor, mas o desempenho cognitivo. No final dos anos 80, uma pesquisa da Universidade de Ontário, no Canadá, publicada na revista Brain and Cognition, mostrou que a capacidade de concentração e raciocínio era relativamente menor durante a fase lútea do ciclo, na qual há aumento da produção de progesterona, hormônio que prepara o corpo para uma possível gestação. Outros experimentos, realizados com primatas, indicam influência dos hormônios sexuais no funcionamento do cérebro – o que parece não se restringir às mulheres.

Pesquisas recentes identificaram alterações de humor masculino relacionadas às variações da quantidade do hormônio testosterona. ” É um fenômeno menos preciso que o feminino, mas parece existir. Voluntários têm revelado queda no desempenho cognitivo nas fases em que há menor concentração de testosterona no sangue. É possível que as variações emocionais e cognitivas, por tanto tempo atribuídas à flutuação hormonal nas mulheres, sejam comuns a ambos os sexos”, diz o psicólogo Marco dei Giudice, pesquisador do Centro de Ciência Cognitiva da Universidade de Turim, na Itália.

Segundo ele, nas mulheres o pico de testosterona (elas também produzem esse hormônio, em menores quantidades) coincide como do estrógeno, responsável pelas características sexuais femininas. Justamente nessa fase se verifica uma melhora do desempenho cognitivo em testes de habilidades visuais e espaciais. Contudo, seria precipitado associar a testosterona a maior agilidade mental. Em experimentos com mulheres que já passaram pela menopausa e receberam doses de testosterona, não se verificou nenhum efeito sobre o desempenho cognitivo.

Estudos de neuroimagem têm contribuído para analisar alterações neurais relacionadas ao ciclo menstrual. Ao observar imagens do cérebro de voluntárias captadas ao longo do mês, o neurocientista Jean-Claude Dreher, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, em Lyon, constatou que áreas neurais ligadas às emoções, como a amígdala e o córtex orbitofrontal, são ativadas mais facilmente durante a fase folicular, quando há no  sangue maiores índices de estrógeno  e menores quantidades  de progesterona. As participantes assistiram a vídeos em que pessoas ganhavam e perdiam prêmios em máquinas caça-níqueis, de forma a estimular seu sistema de recompensa.  “A antecipação de vitórias, do prazer, ativa regiões associadas às emoções. Isso ocorre quando há maior quantidade de estrógeno. A brusca diminuição desse hormônio pouco antes e durante a menstruação, porém, parece convergir para uma espécie de ‘trégua’ dos circuitos relacionados ao prazer”, diz Dreher.

A descoberta pode ajudar a entender comportamentos patológicos, tanto em homens como em mulheres. Estudos anteriores ao de Dreher constataram que as mulheres respondem de forma diferente a drogas, como a cocaína, ao longo do ciclo. As mudanças na ativação de estruturas como a amígdala, por exemplo, poderiam explicar por que algumas psicoses, como a esquizofrenia, costumam se manifestar mais tarde nas mulheres.

Os hormônios femininos podem até mesmo influenciar a capacidade de memorização. Em artigo publicado em 2008 no Hippocampus, neurocientistas do Hospital Presbiteriano de Nova York sugerem que o volume do hipocampo, fundamental no armazenamento de informações, muda no decorrer do ciclo. Os resultados foram obtidos por meio de análise morfométrica voxel a voxel – técnica que permite avaliar o volume das estruturas cerebrais por meio de ressonância magnética. De acordo com os autores, os hormônios interfeririam na nitidez com que alguns eventos são registrados.

Apesar das descobertas, ainda não é possível afirmar que o cérebro masculino e o feminino funcionam de maneira distinta, e muito menos que essa diferença se deve aos hormônios sexuais. Como eles influenciam a formação do embrião, podem ter efeitos sobre a plasticidade neural na vida adulta, mas não há prova consistente de que suas oscilações ao longo do ciclo interfiram nas habilidades cognitivas. “Além disso, o modo como as mulheres vivem a própria condição fisiológica pode ser decisivo em seu desempenho intelectual e em sua interação social durante o período menstrual”, diz Dei Giudice.

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FÉRTIL E IMPURO

As poucas referências sobre os ciclos femininos nos textos bíblicos aludem ao sangue menstrual como uma substância impura que deve ser evitada pelos homens. O livro Levítico, parte do Antigo Testamento, proíbe os maridos de tocar suas mulheres, objetos que elas tenham segurado ou até mesmo se sentar em lugares onde elas estiveram. Ainda hoje judias ortodoxas realizam mensalmente o ritual do mikvé, um banho de imersão após o último dia do sangramento.

A primeira menstruação, a menarca, tem grande significado simbólico em várias culturas. Nas tribos guajajaras, um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil, as adolescentes são recolhidas em ocas por vários dias, alimentam-se apenas de peixe e arroz e tomam banhos de ervas. De cócoras, vertem seu sangue para a terra – uma espécie de retribuição à energia vital. No Quênia, a menarca é festejada por toda a comunidade e a jovem é submetida a rituais de passagem. Em algumas cidades da Sardenha há o costume de dar às meninas um maço de flores brancas, convite implícito a conservarem a pureza.

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SEM DIREITO DE “SER MOCINHA”

O nome do primeiro homem, Adão, em hebraico, está relacionado tanto a adorná, “solo vermelho”, quanto a adom, “vermelho”, e dam, “sangue”. Segundo o mitólogo americano Joseph Campbell, o termo evoca o sangue menstrual e o poder de dar a vida. Estima-se que tenha surgido há mais de 300 mil anos. Na mitologia grega, a deusa Reia (ou Cibele, entre os romanos), a mãe de todos os deuses, exprime essa veneração na própria etimologia de seu nome, já que a palavra “reia” significa “terra” e está associada à ideia de fluxo e fertilidade. Os gregos associavam as fases da lua ao ciclo menstrual e nesse período promoviam nos templos dedicados a Hera – uma das 12 divindades do Olimpo (equivalente a Juno entre os romanos), casada com Zeus, considerada a protetora das mulheres – rituais de purificação nos quais a figura feminina tinha papel importante.

“Nas sociedades contemporâneas, entretanto, menstruar tornou-se um perigo”, afirma a psicóloga junguiana Lúcia Rosenberg, mestre em psicologia analítica.

“O sangue parece carregar em si algo de diabólico: há o risco do constrangimento, do descontrole; mas, contraditoriamente, muitas meninas, incentivadas pelos adultos e pela mídia, desde muito jovens se preocupam em parecer mais velhas e terminam ‘ficando mocinhas’ antes mesmo da menarca.” Autora do livro Cordão mágico Histórias de mães e filhos (Ofício das Palavras, 2009), Lúcia ressalta o período menstrual como um marco da natureza, intimamente vinculado ao poder feminino da criação.

“Simbolicamente, a menstruação está ligada à ideia de iniciação, à lua nova; é um tempo de não fertilidade, de reciclagem, no qual corpo e psiquismo precisam de uma pausa”, ressalta. “Se a mulher puder se dar o direito de um pouco de recolhimento nesses dias, será mais fácil encarar essa fase como um momento de conexão interna”, sugere. “É possível que os outros não compreendam essa necessidade nem nos ofereçam esse espaço, mas é preciso começar consigo mesma e, em meio a tantos compromissos, encontrar um lugar para ficar em silêncio dentro de nós.”

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WALT DISNEY, PUBLICIDADE E ALIMENTAÇÃO DE ESTIGMAS

Um líquido azul e transparente entornado sobre a superfície de algodão indica seu potencial de absorção. Lembrou-se dos comerciais de absorventes descartáveis? Não é de hoje que a exibição do sangue é evitada pelas marcas que tentam conquistar suas consumidoras. Na década de 50, um pôster publicitário exibia uma bela mulher vestida de branco e, discretamente, no canto direito do anúncio, destacava-se o logo da primeira linha de descartáveis comercializada no Brasil: o Modess, da multinacional Johnson & Johnson, uma verdadeira evolução em relação às toalhinhas laváveis, chumaços de algodão e outros improvisos até então usados para conter o sangue menstrual.

Um estudo sociológico apresentado em 2005 no encontro da American Sociological Association analisa propagandas e panfletos informativos sobre o ciclo feminino produzidos nos Estados Unidos a partir de 1942. Para vender produtos sempre mais seguros e à prova de “acidentes”, a indústria, apostou na ideia de que sujar a roupa com sangue era algo desastroso. Em 1946, a companhia americana Kotex lançou, em parceria com a Walt Disney Corporation, o filme educativo A história da menstruação (The story of menstruation), que se tornou parte do programa de educação sexual de muitas escolas nos Estados Unidos. Enquanto são exibidas imagens de adolescentes de pele alva e bem penteadas que lembram a personagem Branca de Neve, a narradora explica o papel da hipófise no controle do ciclo menstrual. Os órgãos sexuais externos não são representados e os internos aparecem em um corpo de contornos embaçados. Não há orientação sobre métodos contraceptivos e doenças sexualmente transmissíveis. Fala-se brevemente da importância da menstruação para a gravidez, mas há atenção especial em instruir as jovens a controlar as alterações de humor e a tentar parecer agradáveis “naqueles dias”.

Segundo o estudo da American Sociological Association, dos anos 70 em diante os anúncios passaram a aludir à aparente libertação das mulheres. Lindas jovens são retratadas enquanto desenvolvem todo tipo de atividade física ou intelectual apesar da menstruação.

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OUTROS OLHARES

UMA GERAÇÃO SEM CARRO

Aprender a dirigir já não desperta a mesma paixão entre os jovens. A queda nas emissões de carteiras de motorista mostra que eles têm encontrado opções capazes de oferecer a mesma sensação de independência antes associada aos veículos.

Uma geração sem carro

Aos 23 anos, o estudante de medicina Lucas de Abreu não tem carteira de motorista. Aprender a dirigir não está em sua lista de prioridades, e não ter um carro nunca lhe fez falta. Faz todos os seus deslocamentos usando o transporte público e só recorre aos aplicativos de motoristas particulares quando as estações de metrô já estão fechadas. O seu caso é semelhante ao de muitos outros jovens que já não veem mais o carro como um símbolo de sucesso e independência na passagem para a vida adulta.

De acordo com um levantamento do Ipsos feito a partir de dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), o número de emissões de habilitações vem caindo. Em 2014, foram 494,6 mil carteiras emitidas para motoristas na faixa dos 18 a 25anos. Em 2017, o número caiu para 381,7 mil Outra pesquisa, feita pela Júnior Mackenzie a pedido da Alelo, aponta que 55,4% dos jovens de18 a 24 anos não tem habilitação. Os dados não se restringem apenas ao Brasil. O fenômeno de desinteresse crescente pelos automóveis é mundial. Nos Estados Unidos. a porcentagem de estudantes de ensino médio que possuíam uma habilitação caiu de 85.3% em 1996 para 71.5% em 2015, segundo levantamento feito pela organização Monitoring the Future. O mesmo acontece na Inglaterra: em 1992, 43% dos jovens de 17 a 20 anos sabiam dirigir; 12 anos depois, a porcentagem caiu para 29%.

O custo envolvido no processo de tirar uma habilitação no Brasil é um dos fatores que afastam os jovens dos carros. O valor varia de acordo com o Estado, mas pode chegar a R$ 2 mil reais. Ter um carro também é caro: modelos populares saídos das concessionárias estão na faixa dos R$ 40 mil, além dos custos de manutenção, combustível e estacionamentos. Mas dinheiro está longe de ser o fator determinante.

Esse desinteresse passa pela quantidade de opções disponíveis a todos e que oferecem a mesma sensação de liberdade sem os encargos de manter um carro na garagem. Além do transporte público, é possível recorrer aos aplicativos de motoristas particulares ou a bicicletas espalhadas pela cidade. Todas essas modalidades costumam ser usadas em conjunto para que cada um escolha o melhor caminho. Com isso, a necessidade de ter um veículo passa a ser questionada. “Só em São Paulo, quase um terço das viagens são apenas de ida. ou seja, o usuário utiliza o aplicativo para ir ou voltar de um local, combinando um Uber com outros modais de transporte”, diz Adriana Gomes, diretora de marketing da Uber Brasil “Nas cidades em que a Uber já está há bastante tempo, observamos que temos grandes pontos de concentrações de início e encerramento de viagens em estações de metrô e terminais rodoviários”, afirma ela.

As bicicletas também se impuseram como uma alternativa e um complemento. O economista Lucas Genoso, de 25 anos, trabalhava na região da Avenida Faria Lima, em São Paulo, mas morava longe do escritório. Tirava seu carro da garagem todos os dias e perdia algumas horas no trajeto. “Quando mudei para urna casa a três quilômetros do trabalho, comprei uma bicicleta. Comecei a usá-la uma ou duas vezes por semana. Quando coloquei na ponta do lápis, resolvi vender o cano”, conta ele. Genoso já pedalava antes e conta com uma ciclovia privilegiada na avenida, mas seu exemplo tem sido seguido por mais gente, interessada em fazer principalmente pequenos deslocamentos sem recorrer ao carro ou ao transporte público.

Uma das iniciativas que têm ajudado a incentivar as pessoas a pedalar é a Yellow. Lançada em São Paulo, ela envolve um aplicativo de celular usado para cadastrar créditos e desbloquear as bicicletas espalhadas pela cidade, cada pessoa usa quanto quiser e deixa a bicicleta em qualquer lugar. Pelo app dá para saber onde encontrar uma delas. “A questão da mobilidade em São Paulo é muito complexa”, diz Luiz Felipe Marques, diretor de comunicação e marketing da Yellow. “O problema não será resolvido com apenas um modal. Por isso a bicicleta tem surgido como uma alternativa principalmente para os deslocamentos individuais curtos, conhecidos como micro deslocamentos”, afirma ele. Segundo Marques, a empresa já esperava que os picos de demanda pelas bikes acontecessem entre 7h e 10h e entre 17h e 20h. Mas descobriram um terceiro: na hora do almoço, quando os usuários resolviam pedalar até um restaurante mais distante ou para evitar o trânsito e resolver alguma questão com maior rapidez.

MENTALIDADE

A decisão de não aprender a dirigir ainda desperta a curiosidade dos mais velhos, acostumados a ver o carro como símbolo da independência. “Nunca senti nenhuma pressão, mas os familiares me perguntam se eu pretendo tirar a carteira algum dia”, diz Lucas de Abreu. Entre seus colegas, no entanto, a situação é comum. São poucos os que sabem dirigir – e ainda menos aqueles que possuem um carro próprio. “Bastante gente hoje dá preferência pelo serviço e não se interessa tanto em adquirir alguma coisa”, diz Lucas Genoso. Nem todos estão dispostos a pedalar em vez de andar de carro, mas muitos estão percebendo que investir em um veículo é um mau negócio, pelo tanto que ele depreda.

Essa mudança de mentalidade ainda demorará algum tempo para ser percebida em todos os setores da mobilidade. A indústria automobilística registrou os melhores índices de vendas para o mês de agosto dos últimos quatro anos, mas o desinteresse dos jovens já é uma preocupação entre as montadoras. que pensam em estratégias para reconquistar esse público. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos (Anfavea) prepara uma pesquisa justamente para entender esse fenômeno. “Não à toa, muitas estão investindo em carros elétricos”, diz Luiz Felipe Marques, da Yellow. “Os jovens querem se associar a marcas com um propósito, que se preocupam com o impacto no mundo. É uma outra relação de consumo”, afirma.

Uma geração sem carro.2

GESTÃO E CARREIRA

CONHECE-TE A TI MESMO

Ferramentas de autoconhecimento facilitam a gestão de pessoas.

Conhece-te a ti mesmo

A importância do autoconhecimento para o desenvolvimento profissional é um ponto que acredito ser válido sempre frisar. Não há nada mais rico do que sabermos como funcionamos, quais são nossos pontos de atenção, quais são nossos pontos fortes e até mesmo para qual aspecto de nossa personalidade vamos necessitar de apoio e contraponto. Possuir esse conhecimento sobre si mesmo gera um valor enorme não só para o profissional, mas também para seus gestores. Afinal, ao conhecer o seu time você saberá exatamente como potencializar resultados individuais e coletivos.

Existem várias formas e ferramentas para auxiliar gestores a conhecerem seus times. O Facet5, por exemplo, é um inventário de personalidade que teve seu desenvolvimento baseado na teoria Blg5. Essa teoria diz que existem cinco fatores essenciais quando falamos em personalidade. Na ferramenta em questão, esses fatores são chamados de: determinação; energia; afetividade; controle; e emocionalidade.  Para cada um deles existem ainda 13 subfatores. É essa combinação que deixa a análise muito mais rica e para conseguir esses dados é simples: o profissional só   precisa responder um questionário online. E vale reforçar que não existe resposta certa ou errada quando se trata de personalidade. É muito importante deixar isso claro para quem vai fazer o teste. O que existe, e essa ferramenta ajuda a identificar, são perfis diferentes. Conseguir esse olhar antes da contratação ajuda a selecionar de forma mais eficaz não só para a empresa como também para o próprio profissional. Afinal, caso ele não se encaixe no perfil procurado, não é só a empresa que estará perdendo, com certeza esse colaborador não seria feliz ou não se desenvolveria nesse ambiente que não é aderente a sua personalidade.

O grande diferencial dessa ferramenta é que ela possui um olhar mais organizacional, que pode falar com qualquer público, além de ter sido adequada ao perfil do público brasileiro. Ela ajuda os gestores a compreenderem como as pessoas diferem em sua essência, em suas motivações, e, o mais importante: o que e como elas buscam alcançarem seus objetivos.

O Facet5 pode ser utilizado ao longo de todo o ciclo de vida do colaborador: da seleção ao desligamento. Vale dizer que essa também é uma ferramenta que engaja o indivíduo, o líder e a organização com insights de fácil compreensão. Seja montando uma equipe, realizando uma nova contratação ou olhando para a cultura organizacional, ela auxilia indivíduos, times e organizações a perceberem (e a utilizarem) todo o seu potencial.

Investir em ferramentas de autoconhecimento pode facilitar a vida de gestores não só no momento da seleção, mas também na composição de times e alocação de pessoas em projetos -chave. Sabemos que não são poucos os desafios da liderança. Por isso, eu acredito muito que poder contar com ferramentas que nos ajudem a gerir equipes cientes das necessidades e potencialidades de cada um faz toda a diferença. Pense nisso!

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 17: 11-16 – PARTE II

Alimento diário - Comendo a Bíblia

A Oração Intercessória de Cristo

 

II – As razões com que Ele reforça estes pedidos pela sua preservação, que são cinco:

1. O Senhor mostra que, até então, Ele os tinha guardado (v. 12): “Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome”, na verdadeira fé do Evangelho e no serviço de Deus. ‘Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu’. Nenhum deles se revoltou ou foi destruído, ‘senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse”‘. Observe:

(1) O desempenho fiel de Cristo na sua missão, no que diz respeito aos seus discípulos: enquanto Ele estava com eles, Ele os guardava, e seu cuidado por eles não foi em vão. Ele os guardou em nome de Deus, evitou que eles caíssem em erros graves ou pecados, impediu que eles colidissem com os fariseus, que teriam percorrido o mar e a terra para fazer deles prosélitos. Ele evitou que eles o abandonassem, e retornassem ao pouco que tinham deixado por Ele. Ele os conservou sob sua vigilância e proteção quando os enviou para pregar. Seu coração não foi com eles? Muitos que o seguiam se ofendiam com uma ou outra coisa, e o deixavam, mas Ele conservou os doze, de modo que eles não partissem. Ele impediu que eles caíssem nas mãos dos inimigos perseguido­ res que buscavam suas vidas. Ele os guardou quando se entregou, cap. 18.9. Enquanto Ele estava com eles, Ele os guardou de uma maneira visível, com instruções que ainda soavam nos seus ouvidos, milagres que ainda se realizavam diante dos seus olhos. Quando Ele tivesse se afastado deles, eles precisariam ser guardados de uma maneira espiritual. Os consolos e apoios perceptíveis, às vezes, são dados e, às vezes, são retidos, mas quando retirados, ainda assim os discípulos não ficam sem consolo. O que Cristo diz aqui sobre seus seguidores mais próximos é verdade com relação a todos os santos, enquanto estão aqui neste mundo. Cristo os guarda em nome de Deus. Isto indica:

[1] Que eles são fracos, e não podem se proteger. Suas próprias mãos não são suficientes para eles.

[2] Que eles são, na opinião de Deus, valiosos e merecedores de proteção, preciosos aos seus olhos e honoráveis, seu tesouro, suas joias.

[3] Que sua salvação está planejada, pois é para ela que eles são guardados, 1 Pedro 1.5. Assim como os maus estão reservados para o dia do mal, também os justos estão preservados para o dia da felicidade, o dia do gozo que jamais terá fim.

[4] Que eles são a incumbência do Senhor Jesus, pois, como sua incumbência, Ele os guarda, e se apresenta como o bom pastor, para a preservação das ovelhas.

(2) O relato consolador que Ele apresenta da sua incumbência: “Nenhum deles se perdeu”. Observe que Jesus Cristo certamente irá guardar todos os que lhe são dados, de modo que nenhum deles se perca, totalmente e finalmente. Eles podem se julgar perdidos, e podem estar quase perdidos (em perigo iminente), mas é a vontade do Pai que Ele não perca nenhum, e Ele não irá perder nenhum (cap. 6.39), de modo que isto ficará evidente quando eles aparecerem todos juntos, e nenhum deles estiver faltando.

(3) Um rótulo colocado sobre Judas, não colocado sobre nenhum daqueles que Ele tinha se incumbido de guardar. Judas estava entre aqueles que foram dados a Cristo, mas não pertencia a eles. Jesus se refere a Judas como já perdido, pois ele tinha abandonado a sociedade do seu Mestre e dos seus condiscípulos, e tinha se entregado à orientação do Diabo, e em pouco tempo iria para o lugar que fez por merecer. Ele já estava praticamente perdido. Mas a apostasia e a destruição de Judas não representavam nenhuma censura ao seu Mestre, ou à sua família, pois:

[1] Ele era o “filho da perdição”, e por isto não era um daqueles que foram dados a Cristo, para serem guardados. Ele merecia a perdição, e Deus o deixou precipitar-se nela. Ele era filho do destruidor, como Caim, que era filho do maligno. Este grande inimigo, que o Senhor irá destruir, é chamado de “filho da perdição”, porque é um “homem do pecado”, 2 Tessalonicenses 2.3. É terrível considerar que um dos apóstolos provou ser um filho da perdição. Nenhum lugar ou nome na igreja, nenhum privilégio ou oportunidade de obter graça, nenhuma profissão ou desempenho exterior, irá protegê-lo da ruína, se seu coração não estiver correto com Deus. E ninguém pode provar ser mais filho da perdição, no final, com mais probabilidade, depois de um curso plausível de sua profissão de fé, do que aqueles que, como Judas, amam o dinheiro. Mas o fato de Cristo distinguir Judas daqueles que lhe foram dados (pois ei me é adversativa, e não exceptiva) indica que a verdade e a verdadeira religião não devem se prejudicar por causa da traição daqueles que são falsos para com elas, 1 João 2.19.

[2] A Escritura se cumpriu. O pecado de Judas tinha sido previsto pelo conselho de Deus, e predito na sua Palavra, e o evento certamente seguiria a predição como uma consequência, embora não se possa dizer, necessariamente, que a seguiu como um resultado. Veja Salmos 41.9; 69.25; 109.8. Nós poderíamos ficar surpresos com a traição dos apóstatas, se não tivéssemos-sido avisados a respeito dela anteriormente.

2. Cristo mostra que agora tinha a necessidade de deixá-los, e não podia mais vigiá-los da maneira que tinha feito até então (v. 11): “Guarda-os agora, para que Eu não perca o trabalho que tive com eles enquanto estive com eles. Guarda-os, para que eles possam ser uns com os outros, assim como nós somos um com o outro”. Nós teremos a oportunidade de falar sobre isto, v. 21. Mas veja aqui:

(1) Com que prazer Ele fala da sua própria partida. Ele se expressa a respeito dela com um ar de triunfo e exultação, com referência tanto ao mundo que Ele deixava quanto ao mundo ao qual se dirigia.

[1] “‘Eu já não estou mais no mundo’. Agora, adeus a este mundo provocador e problemático. Eu já tive o suficiente dele, e agora é chegada e bem-vinda a hora em que não mais estarei nele. Agora que Eu terminei a obra que tinha a fazer nele, Eu já estou cansado dele. Nada resta, exceto apressar-me para sair dele, tão depressa quanto puder”. Observe que deve ser um prazer para aqueles que têm sua casa no outro mundo pensar em não mais estar neste, pois, quando nós tivermos feito o que tínhamos para fazer neste mundo, e para o que nos tornamos adequados, o que há aqui que poderá nos tentar a permanecer? Quando recebermos uma sentença de morte interior, com que santo triunfo deveremos dizer: ”Agora já não estou mais no mundo, este mundo escuro e enganador, este pobre mundo vazio, este mundo tentador e profano. Não mais sou atormentado com seus espinhos, não mais em perigo, pelas suas redes e armadilhas. Agora eu não caminharei mais por este terrível deserto, não mais sofrerei a agitação deste mar tempestuoso. Agora eu já não estou mais no mundo, mas posso alegremente deixá-lo e dar-lhe um adeus final”.

[2] “E eu vou para ti”. Sair do mundo é somente a meta­ de do consolo do Cristo que estava prestes a morrer, como também de cada cristão quando está prestes a morrer. A metade melhor, infinitamente melhor, é pensar em ir para o Pai, participar do seu deleite imediato, ininterrupto e eterno. Observe que aqueles que amam a Deus não podem evitar alegrar-se em pensar em ir para Ele, mesmo que isto seja através do vale da sombra da morte. Quando nos formos, ausentando-nos do corpo, será para estar presentes com o Senhor, como os filhos levados da escola para a casa do seu pai. ”Agora eu vou para ti, a quem eu escolhi e servi, e de quem minha alma tem sede. A ti, a fonte de luz e vida, a coroa e o centro de vida e alegria. Agora meus anseios serão satisfeitos, minhas esperanças, realizadas, minha felicidade, completa, pois agora eu vou para ti”.

(2) Com que preocupação terna Ele fala sobre aqueles a quem Ele deixa para trás: “‘Mas eles estão no mundo’. Eu descobri que mundo mau é este, o que será destes pequenos amados, que precisam permanecer nele? Pai santo, guarda-os. Eles sentirão falta da minha presença, mas permita que tenham a tua. Eles terão agora uma necessidade maior do que nunca de serem guardados, pois Eu os estou enviando ao mundo, a um território mais longínquo do que eles jamais se aventuraram a entrar. Eles precisam se aprofundar e trabalhar nestas águas profundas, e estarão perdidos se tu não os guardares”. Observe aqui:

[1] Que, quando nosso Senhor Jesus estava indo para o Pai, Ele levou consigo uma preocupação terna pelos seus que estão no mundo, e continuou a ter misericórdia deles. Ele traz seus nomes no seu peitoral, na verdade sobre seu coração, e os gravou com os pregos da sua cruz nas palmas das suas mãos, e mesmo quando Ele já não está ao alcance da vista deles, eles não estão fora do alcance da sua, e muito menos da sua mente. Nós devemos sentir uma piedade semelhante por aqueles que estão se lançando no mundo, quando nós já estamos quase saindo dele, e por aqueles que são deixamos para trás, quando nós o estamos deixando.

[2] Que, quando Cristo desejava expressar a extrema necessidade que seus discípulos tinham da preservação divina, Ele diz somente: “Eles estão no mundo”. Isto evidencia perigo suficiente àqueles que se dirigem ao céu, a quem um mundo adulador iria desviar e seduzir, e um mundo maligno iria odiar e perseguir.

3. Ele alega a satisfação que eles teriam, sabendo que estavam salvos, e a satisfação que Ele teria, sabendo que estavam tranquilos: “Digo isto no mundo, para que tenham a minha alegria completa em si mesmos”, v. 13. Observe que:

(1) Cristo desejava fervorosamente que a alegria dos seus discípulos fosse completa, pois é sua vontade que eles se alegrem sempre. Ele os deixava em lágrimas, e em meio a problemas, e ainda tomou cuidados efetivos para completar sua alegria. Quando eles julgavam que sua alegria nele havia chegado ao fim, ela se aproximou de uma perfeição, mais do que jamais tinha alcançado, e eles ficaram cheios dela. Aqui aprendemos:

[1] A encontrar nossa alegria em Cristo: “E minha alegria, a alegria que Eu dou, ou melhor, a alegria da qual Eu sou o motivo”. Cristo é a alegria de todo cristão, sua principal alegria. A alegria do mundo murcha com ele, a alegria em Cristo é eterna, como Ele.

[2] A construir nossa alegria com diligência, pois ela é o dever, assim como o privilégio, de todos os verdadeiros crentes. Nenhum aspecto da vida cristã nos é recomendado com mais insistência, Filipenses 3.1; 4.4.

[3] A desejar a perfeição da alegria, para que possamos tê-la completa em nós, pois Cristo tem prazer em concedê-la.

(2) Para isto, Ele solenemente os entrega aos cuidados do seu Pai, e à sua guarda, e os tomou como testemunhas de que tinha feito isto: “Digo isto no mundo”, enquanto ainda estou com eles no mundo. Sua intercessão no céu, pela preservação deles, teria sido igualmente efetiva por si só, mas dizer isto no mundo representaria uma maior satisfação e um maior incentivo a eles, e os capacitaria a se alegrarem na tribulação. Observe:

[1] Cristo não somente armazenou consolações para seu povo, ao prover para seu futuro bem-estar, mas também lhes distribuiu consolações, e disse aquilo que serviria para sua satisfação atual. Aqui Ele condescendeu,  na presença dos seus discípulos, em divulgar sua última vontade, seu testamento, e (muitos que fazem testamento evitam fazer isto) permite que eles saibam quais legados Ele lhes deixava, e o quanto eles estavam protegidos, para que pudessem ter uma forte consolação.

[2] A intercessão de Cristo, por nós, é suficiente para completar nossa alegria nele. Nada é mais eficaz para calar todos os nossos temores e desconfianças, e para nos fornecer maior consolação, do que o fato de que o Senhor Jesus sempre intercede, na presença de Deus, por nós. Por isto, o apóstolo coloca um “ou antes”, referindo-se particularmente a este assunto, Romanos 8.34. E veja Hebreus 7.25.

4. Ele alega o mau tratamento que provavelmente eles iriam encontrar no mundo, por causa dele (v. 14): “‘Dei-lhes a tua palavra’, para que fosse divulgada ao mundo, e eles a receberam, creram nela, e aceitaram a incumbência de transmiti-la ao mundo, ‘e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo”‘. Aqui temos:

(1) A inimizade do mundo aos seguidores de Cristo. Se, enquanto Cristo estava com seus seguidores, embora eles tivessem feito pouca oposição ao mundo, ainda assim o mundo os odiava, muito mais ele os odiaria quando, pela sua pregação mais extensa do Evangelho, eles transtornariam o mundo. “Pai, continua amigo deles”, diz Cristo, “pois eles terão muitos inimigos. Que tenham teu amor, pois o ódio do mundo está posto contra eles. Em meio a estes dardos inflamados, que eles sejam circundados da tua benevolência como de um escudo”. Deus considera uma honra o fato de se posicionar do lado mais fraco, e ajudar os desamparados. “Senhor, tem misericórdia deles, pois os homens procurarão devorá-los”.

(2) As razões desta inimizade, que fortalecem o pedido.

[1] É evidente que uma das razões se deve ao fato de que eles tinham recebido a palavra de Deus como lhes tinha sido enviada, pela mão de Cristo, quando a maior parte do mundo a rejeitava, e se colocava contra aqueles que eram seus pregadores e ensinadores. Observe que aqueles que recebem a boa vontade e a boa opinião de Cristo devem esperar a má vontade e a má opinião do mundo. Os ministros do Evangelho têm sido odiados pelo mundo, de uma maneira particular, por­ que eles chamam homens do mundo e os separam dele, e os ensinam a não se conformarem com ele, e, desta maneira, condenam o mundo. “Pai, guarda-os, pois é por tua causa que eles correm perigo. Eles sofrem por ti”. Esta é a alegação do salmista: “Por amor de ti tenho suportado afronta”, Salmos 69.7. Observe que aqueles que guardam a palavra da paciência de Cristo têm a promessa de uma proteção especial na hora da tentação, Apocalipse 3.10. Esta causa, que produz um mártir, pode muito bem produzir um sofredor alegre.

[2] Uma outra razão é ainda mais clara. O mundo os odiou, porque não eram do mundo. Aqueles a quem a palavra de Cristo dirige não são do mundo, pois ela tem um forte efeito sobre todos os que a recebem. O amor por ela os desacostuma das riquezas do mundo e os volta contra a maldade do mundo, e, por esta razão, o mundo guarda rancor deles.

5. Ele declara a conformidade deles consigo mesmo, e a evidência deste fato é uma santa não-conformidade com o mundo (v. 16): “Pai, guarda-os, pois eles têm meu espírito e minha mente, eles “não são do mundo, como eu do mundo não sou”. Podem, com fé, entregar-se à custódia de Deus aqueles que:

(1) São como Cristo era neste mundo, e seguem seus passos. Deus irá amar àqueles que são como Cristo.

(2) Não se envolvem nos interesses do mundo, nem se dedicam aos seus serviços. Observe:

[1] Que Jesus Cristo não era deste mundo. Ele nunca tinha sido deste mundo, e muito menos agora, que estava prestes a deixá-lo. Isto sugere, em primeiro lugar, sua situação. Ele não era nenhum dos favoritos ou dos queridos do mundo, nenhum dos seus príncipes ou nobres. Ele não tinha nenhuma possessão terrena, nem mesmo onde reclinar sua cabeça, nem poder terreno, Ele não era nenhum juiz ou repartidor. Em segundo lugar, seu espírito. Ele estava perfeitamente morto para o mundo, o príncipe deste mundo não tinha nada nele, as coisas deste mundo não representavam nada para Ele. O Senhor não tinha nenhuma honra da parte do mundo, pois Ele se fez sem fama ou reputação para o mundo. O Senhor não desejou as riquezas humanas, pois, pelo nosso bem, Ele se fez pobre. Ele não desfrutou os prazeres deste mundo, pois estava familiarizado com a tristeza. Veja cap. 8.23.

[2] Que, portanto, os verdadeiros cristãos não são deste mundo. O Espírito de Cristo neles se opõe ao espírito do mundo. Em primeiro lugar, é seu destino serem desprezados pelo mundo. Eles não são mais favorecidos pelo mundo do que foi seu Mestre, antes deles. Em segundo lugar, é seu privilégio serem libertados do mundo, como Abraão, da terra do seu nascimento. Em terceiro lugar, é seu dever e sua característica estarem mortos para o mundo. Sua convivência mais agradável é, e deve ser, com outro mundo, e sua preocupação principal deve ser com os assuntos daquele mundo, e não deste. Os discípulos de Cristo eram fracos e tinham muitas debilidades. Ainda assim, Ele podia dizer a favor deles: Não são do mundo, não são da terra, e por isto Ele os entrega aos cuidados do Céu.