PSICOLOGIA ANALÍTICA

O PODER DOS HORMÔNIOS

O estrogênio não influi apenas na sexualidade feminina. Tem efeitos também em diversas capacidades cognitivas – tanto no homem quanto na mulher.

O poder dos hormônios

De forma quase imediata, a palavra estrogênio evoca sexo e provoca associações quase sempre direcionadas à mulher. Esse hormônio sexual deve sua grande notoriedade à participação decisiva na condução de todos os processos do corpo feminino necessários à reprodução. Controla o ciclo menstrual, exerce influência no amadurecimento do óvulo a ser fecundado, dispara a ovulação e prepara o útero para a implantação do embrião. Sem o estrogênio, produzido em grande parte nos ovários – e existente, aliás, em variações muito semelhantes, razão pela qual se fala também em “estrogênios”, no plural -, vida nenhuma se desenvolveria no ventre materno. Na puberdade, seus níveis crescentes arredondam as formas femininas, trazendo a maturidade sexual. Em suma: é ele que faz das mulheres, mulheres. Não por acaso, o estrogênio é tido como o hormônio tipicamente feminino, e isso fez com que especialistas acreditassem durante muito tempo que sua atuação se restringia aos órgãos fundamentais para a reprodução. Mas posteriormente se verificou a existência de um complicado circuito regulatório por trás do controle dos níveis de estrogênio. Por um lado, mensageiros químicos do hipotálamo e da hipófise influem na produção hormonal dos ovários; por outro, o próprio estrogênio atua também sobre essas duas estruturas cerebrais. Assim sendo, ficou claro que nosso órgão do pensamento – ou ao menos partes dele – é sensível ao hormônio sexual.

Hoje, porém, os pesquisadores sabem que os estrogênios exercem sobre o cérebro influência muito maior que o mero controle da produção do hormônio sexual. Eles contribuem em diversas capacidades cognitivas, tais como o aprendizado e a construção da memória; controlam quais estratégias de comportamento ou de resolução de problemas vamos adotar; e também regulam nossa vida emocional. Vários estudos indicam que as células nervosas de algumas regiões cerebrais precisam dos estrogênios para entrar e permanecer em funcionamento. De resto, isso vale também para os homens, em cujo cérebro o mais importante hormônio sexual masculino – a testosterona – é transformado em estrogênio.

As primeiras indicações de que o estrogênio auxilia o trabalho cerebral provêm do início da década de 70, quando pesquisadores descobriram em células nervosas do cérebro de ratos moléculas de proteína que só se ligam ao hormônio sexual feminino. Por intermédio desses receptores o mensageiro químico transmite informações para as células nervosas. Receptores de estrogênio, porém, possuem não apenas neurônios transmissores de sinais, mas também outras células cerebrais, como as micróglias, importantes para a defesa imunológica, e as macroglias, que atuam como células de apoio e nutrição. É provável que o estrogênio cumpra tarefas distintas nos diferentes tipos de células, mas essas funções ainda não foram explicadas. Experiências com animais comprovam que o hormônio reprime a reação natural de defesa das micróglias contra estímulos inflamatórios. Isso pode ser muito útil, por exemplo, nos casos de esclerose múltipla ou da doença de Alzheimer, já que nessas duas enfermidades proteínas anômalas se depositam nos neurônios provocando um estado inflamatório que danifica e, em última instância, destrói as células nervosas.

Nas macroglias, o hormônio sexual cumpre função claramente trófica. Isso significa que ele estimula o metabolismo dessas células. Sob influência do estrogênio, as macroglias multiplicam a produção dos hormônios do crescimento, que, por sua vez, põem à disposição dos neurônios todas as substâncias de que necessitam para um funcionamento otimizado. Não apenas experiências com animais, mas também a observação de seres humanos indica que os estrogênios oferecem proteção contra algumas doenças neurodegenerativas, ou ao menos retardam seu avanço. Muito provavelmente, eles exercem esse efeito protetor não nos neurônios em si, mas sobretudo por intermédio dos receptores nas células gliais.

Segundo descoberta recente, o estrogênio é capaz também de amenizar as consequências de um derrame cerebral. Sob o comando de Phyllis White, pesquisadores da Universidade da Califórnia removeram os ovários de camundongos, limitando a produção natural de estrogênio. A seguir, dividiram os roedores em dois grupos, um dos quais recebeu estrogênios em baixa dosagem. Uma semana depois, bloquearam brevemente o fluxo de sangue em determinada artéria do cérebro, desencadeando um derrame. Então, passados poucos dias, compararam os vestígios do experimento deixados no cérebro.

Nos camundongos submetidos à “terapia de reposição hormonal”, os danos foram visivelmente menores. Segundo Phyllis, o estrogênio torna mais lento o avanço das lesões nas células induzidas pelo derrame. “Mais neurônios sobre­ vivem, sobretudo no córtex cerebral.” Em especial durante a fase final de um derrame, muitas células cerebrais sucumbem à chamada morte celular programada, mediante a qual o corpo se livra até de células pouco danificadas. O estrogênio parece limitar esse processo, também conhecido como apoptose. E mais: exerce um efeito positivo sobre o crescimento de novos neurônios.

O hormônio sexual transformou-se em tema discutidíssimo nas neurociências não só graças a essa atuação neuroprotetora. Interesse científico semelhante desperta a observação deque o estrogênio influencia diversas esferas cognitivas, como aprendizado, memória e comportamento. Afinal, independentemente de estereótipos e clichês, não há como ignorar a “pequena diferença” entre os sexos no tocante à prevalência de certos talentos específicos em homens e mulheres. Hormônios sexuais dão aí sua contribuição, e disso existe comprovação bastante convincente: nas mulheres, determinadas capacidades cognitivas se alteram de acordo com o nível do hormônio.

Não faz muito tempo, Onor Güntürkün, biopsicólogo do Instituto de Neurobiologia Cognitiva da Universidade do Ruhr, Alemanha, começou a investigar como voluntárias se saíam nos chamados testes de rotação mental em momentos diversos de seu ciclo menstrual. A tarefa a cumprir nesse teste é girar na mente uma figura geométrica. Ele avalia, portanto, nossa capacidade de visualização espacial. E, vejam só: durante a menstruação, quando os hormônios sexuais se encontram nos níveis mais baixos, as mulheres se saíram tão bem quanto os voluntários do grupo de controle. Ao final do ciclo, porém, quando os níveis de estrogênio sobem, o desempenho delas caiu sensivelmente. Mas melhorou em outro teste realizado paralelamente, no qual o objetivo era encontrar palavras apropriadas. Os resultados comprovam que as habilidades espaciovisuais das mulheres não são, em essência, inferiores às dos homens: o que ocorre com elas é, antes, uma oscilação mais forte do nível de estrogênio no cérebro, deslocando a ênfase de um talento para outro.

Também os ratos exibem certos comportamentos específicos de cada sexo. Como nos humanos, o nível de estrogênio parece desempenhar aí algum papel. Nos ratos, salta aos olhos sobretudo que machos e fêmeas não demonstrem o mesmo grau de interesse por um novo ambiente. Postos em território desconhecido, e em companhia de três objetos diferentes – uma garrafa, um tubo e uma bola, por exemplo -, as fêmeas põem-se no primeiro dia a examinar seu entorno de forma muito mais intensa que os machos.

Com o tempo, seu ímpeto investigativo decresce, mas torna a despertar de imediato se há um rearranjo dos objetos na gaiola. Isso, porém, acontece apenas com as fêmeas prontas para conceber, com baixos níveis de estrogênio. Somente elas inspecionam o ambiente modificado com curiosidade contínua. Os companheiros revelam de fato algum breve interesse, mas seu ímpeto investigativo torna a ceder com rapidez. Contudo, se as fêmeas não estão em fase de concepção, apresentando níveis altos de estrogênio, o novo arranjo do ambiente lhes é totalmente indiferente. Essa espécie de “balizamento hormonal do comportamento” faz todo o sentido. Provavelmente, fêmeas prontas para conceber tendem, na época da ovulação, a proceder a uma extensa investigação de seu entorno porque assim aumentam suas chances de encontrar um macho disposto ao acasalamento. Mesmo depois do parto, os níveis de estrogênio permanecem baixos, mas o ímpeto investigativo da mãe prossegue, o que lhe facilita proteger o rebento de eventuais perigos e prover-lhe comida suficiente.

Estudos como esse não deixam dúvida quanto à conexão entre os níveis de estrogênio e de desempenho de determinadas funções cognitivas, uma relação capaz de explicar certas diferenças entre os sexos. Pesquisas realizadas com o auxílio da ressonância magnética funcional mostram ainda que, já de antemão, homens e mulheres não utilizam as mesmas regiões cerebrais no cumprimento de algumas tarefas. Conforme se verificou em experiências com voluntários de ambos os sexos, quando se trata, por exemplo, de encontrar a saída deum labirinto virtual, ativam- se nas mulheres regiões nos lobos parietal e frontal direitos do córtex, ao passo que, nos homens, são neurônios do hipocampo que se agitam. Apesar disso, tanto homens como mulheres muitas vezes encontram a solução com a mesma rapidez. Seus cérebros, portanto, têm igual desempenho, embora adotem caminhos diversos.

A fim de descobrir como os estrogênios influem nessa complexa interação, pesquisadores passaram a investigar que regiões cerebrais possuem, afinal, células nervosas com acoplamentos compatíveis. A concentração de receptores de estrogênio é particularmente alta no hipotálamo e na chamada área pré-óptica. Era de esperar, uma vez que o hipotálamo integra o circuito regulador da síntese de estrogênio e, por meio de mensageiros químicos próprios, estimula a produção de hormônios sexuais. Quanto à área pré-óptica, ela parece participar no balizamento do comportamento reprodutor, ao menos nos animais. A hipótese é admissível, já que se trata de um hormônio sexual. Mas ocorre que também no hipocampo, e no córtex pré-frontal se encontram receptores de estrogênio em abundância. E essas são regiões vinculadas a funções intelectuais mais elevadas, tais como o aprendizado, a memória e o pensamento abstrato.

Experiências com camundongos e com ratos que tiveram os ovários removidos visando a diminuição do nível natural de estrogênio demonstraram que, após a remoção, os animais passaram a se sair muito pior em diversas tarefas de aprendizado e em testes de memória. Doses do hormônio, porém, anularam esse efeito negativo. Portanto, deve haver alguma ligação entre o estrogênio e a atividade no hipocampo, um centro de aprendizado.

Com o intuito de esclarecer essa conexão, a neurobióloga Catherine Woolley, da Universidade Rockefeller, em Nova York, passou a pesquisar as sinapses das células nervosas. É nesses pontos de contato que acontece a transmissão da informação entre os neurônios, e eles se situam nos chamados espinhos dendríticos – pequenos apêndices dos dendritos. Quanto mais ligações sinápticas existirem numa rede neuronal, melhor a transmissão. E, na linguagem do cérebro, aprender alguma coisa nada mais é que estabelecer novas sinapses e intensificar as conexões já existentes.

No hipocampo, os neurônios cultivam um gosto particular pelo contato: uma única célula nervosa pode estar em contato sináptico com até 20 mil outras. Quando estamos em processo de aprendizado, esse número comprovadamente aumenta. Como descobriu há alguns anos o grupo comandado por Catherine, com o auxílio de seções do cérebro com coloração especial, o estrogênio estimula a formação de novos es­ pinhos dendríticos em determinados neurônios do hipocampo. Em 2001, Catherine e seu colega Bruce McEwen demonstraram que os espinhos adicionais não apenas fortalecem as conexões já existentes como também estabelecem novos contatos com outras células nervosas. Estudos equivalentes foram efetuados com fêmeas adultas de rato. O resultado ressalta acima de tudo como o cérebro permanece maleável mesmo na idade adulta. É à enorme plasticidade desse órgão que devemos o fato de uma antiga crença felizmente não corresponder à realidade: a de não ser possível aprender na velhice. É possível sim.

Os resultados da pesquisa também despertaram a esperança de, com o estrogênio, podermos desenvolver um novo medicamento contra a doença de Alzheimer, por exemplo, que causa a morte dos espinhos dendríticos no hipocampo. Em consequência disso, vai desaparecendo o poder da memória, que já não aceita novos dados. E outras capacidades cognitivas sofrem perdas crescentes, como a de orientação e visualização espacial. Considerando-se que o estrogênio dá suporte à formação de novas conexões sinápticas, esse hormônio talvez detenha a demência, ou desacelere seu avanço.

Mas as ambições de alguns cientistas vão mais longe, alimentadas pela observação de que, em todos nós, o número de espinhos dendríticos no hipocampo diminui com o tempo, assim como nosso desempenho intelectual decresce com a idade. Daí a ideia de empregar o estrogênio como o chamado cognitive enhancer – ou seja, como remédio para a melhora direcionada da memória e da capacidade de aprendizado.

Bruce McEwen, neuroendocrinologista da Universidade Rockefeller, pesquisa os mecanismos por meio dos quais o hormônio sexual feminino estimula, no plano molecular, o crescimento dos espinhos dendríticos nos neurônios do hipocampo. Para ele, está claro que esse mensageiro químico fortalece as funções de aprendizado e memória normais. “Mesmo sem a presença do estrogênio, há ainda um sem-número de ligações sinápticas no hipocampo. Nossos trabalhos mostram, porém, que, sem o hormônio, essas redes não operam com seu melhor rendimento no armazenamento e na evocação de determinados conteúdos de memória.”

O pesquisador defende uma espécie de terapia de reposição hormonal para o cérebro, da qual se beneficiariam sobretudo mulheres de mais idade. A razão para tanto é que, com a menopausa, os ovários praticamente param de sintetizar estrogênio. Sintomas como as ondas de calor e também os problemas psíquicos de que tantas mulheres sofrem durante essa fase parecem ter vínculo causal com a relativa escassez do hormônio- isso porque, em geral, as queixas diminuem com a aplicação de estrogênio.

Nesse meio tempo, também o desempenho cognitivo de mulheres na menopausa já foi objeto de diversos testes. Os resultados são contraditórios. Em muitos estudos, o estrogênio melhora a capacidade de aprendizado, mas somente em relação a tarefas que demandem a utilização da memória verbal.

É para essa atuação seletiva que nos chama a atenção a psicóloga Donna Korol, da Universidade de Illinois. Ela se dispôs a investigar se, em ratos jovens que tiveram os ovários removidos, doses de estrogênio exerciam influência sobre determinadas estratégias de resolução de problemas. Com esse objetivo, aplicou dois testes aparentemente semelhantes, cujas soluções, porém, demandam do cérebro a ativação de redes neuronais distintas. Em essência, os ratos tinham de aprender a encontrar comida num labirinto. No teste A, a comida fica sempre no mesmo lugar, mas altera-se o ponto a partir do qual os ratos dão início à busca. Os animais que receberam estrogênio apreenderam o princípio do teste com muito mais rapidez do que os companheiros privados do hormônio.

Mas esses últimos foram muito superiores no teste B, em que o ponto de partida também é alterado, mas o rato sempre encontra sua comida, bastando para tanto que ele vire à direita no primeiro corredor. De acordo com Donna, o fato de os animais com deficiência de estrogênio terem aprendido a cumprir a tarefa com mais rapidez contradiz a noção de que o hormônio prestaria ajuda generalizada ao órgão do pensamento. “Se o estrogênio melhora nossa capacidade geral de aprendizado, então os resultados dos dois testes teriam de ser iguais.” Na opinião da psicóloga, o nível do hormônio sexual determina, antes, a estratégia cognitiva com o auxílio da qual o cérebro se lança à solução de um problema. “O estrogênio de fato favorece algumas formas de aprendizado, mas inibe outras.” E, mais importante: “Sem esse mensageiro químico, o cérebro trabalha de modo diferente, mas continua trabalhando bem”.

Os estudos de Donna Korol lançam nova luz sobre o declínio da capacidade cognitiva que muitas mulheres sentem após a chegada da menopausa. Em seu livro Animal research and human health, Donna defende a tese de que o nível decrescente de estrogênio pura e simplesmente altera o modo como o cérebro trabalha – direcionando-o para pontos que são fortes sobretudo nos homens, como a capacidade de orientação espacial.

“Depois da menopausa, as mulheres poderiam melhorar seu desempenho em muitas tarefas se encarassem a coisa toda de maneira diferente”, explica. “Mas percebem as alterações provocadas pelo declínio hormonal como piora.”

Descobrir e fazer uso de novas forças decerto não é fácil, e Donna Korol ainda não ofereceu comprovação definitiva de sua teoria. Ainda assim, seus resultados parciais ensejam algumas dúvidas quanto à ideia de que, depois da menopausa, o cérebro feminino se beneficiaria como um todo de uma espécie de terapia de reposição de estrogênio. Certo, porém, é que o estrogênio pode fazer muito mais que dar às mulheres aparência diferente da masculina. Por meio de receptores em regiões cerebrais como o hipocampo, o mais importante hormônio sexual feminino contribui para muitas “pequenas diferenças” no modo de pensar e nos talentos específicos de homens e mulheres. Mas enquanto os efeitos do estrogênio sobre o cérebro não forem conhecidos com exatidão, é necessário conter a euforia. Ou não servem de advertência as acaloradas discussões da atualidade a respeito da ampliação do risco de câncer em decorrência de terapias de reposição hormonal?

O poder dos hormônios.2

 

O poder dos hormônios.3

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OUTROS OLHARES

A MENINA DA FOTO

A “garota do napalm” quer que sua famosa foto contribua para uma cultura de paz.

A menina da foto

Naquele dia 8 de junho de 1972, nós estávamos escondidos no templo. O Vietnã estava em guerra, mas minha mãe imaginou que num lugar sagrado, e assistidos por soldados, estaríamos seguros. Eu tinha 9 anos e não conseguia pensar em nada. Estava muito assustada. Eu me lembro de ver o avião se aproximando de nós. Depois, paralisada de medo, vi as bombas caírem e ouvi o estrondo. Vi o fogo a meu redor. Eu nunca tinha ouvido falar em napalm antes. Ele tem uma consistência pegajosa que adere à pele humana e a transforma em cinzas – queima a 1.100 graus célsius. Eu saí apavorada pela estrada, correndo o mais rápido que podia. O fogo destruiu as roupas típicas que eu usava: uma blusa larga, parecida com uma túnica, e calças folgadas de algodão. Eu não imaginava que estava sendo fotografada. Mas Nick Ut (fotógrafo da Associated Press) me fotografou. A foto que ele tirou ali foi o começo de uma longa jornada para mim. Tirar fotos era seu trabalho, mas ele fez mais do que isso. Largou a câmera e me levou para o hospital mais próximo. Sou muito grata a ele, a quem chamo de Tio Ut. Ele se tornou parte de minha família, e nós temos uma relação maravilhosa hoje. Conversamos sempre. Tio Ut me ama como se eu fosse sua filha. Ele tirou uma bela foto, não é?

Só vi esse registro muito tempo depois. Passei 14 meses no hospital, tratando as queimaduras. Quando voltei para casa, meu pai me mostrou a foto, recortada de um jornal vietnamita: “Aqui está sua foto, Kim”. Olhei a foto e, meu Deus, como fiquei envergonhada! Como eu estava feia! E pelada! “Todos estavam vestidos, e eu, uma menina, estava sem roupa. Vi a agonia e dor em meu rosto. Fiquei com raiva. Por que ele tirou aquela foto de mim? Era melhor não ter tirado nenhuma! Eu era só uma criança, mas tinha de lidar com muita dor. Quanto mais famosa a imagem ficava, mais eu precisava encarar minha tragédia”.

A foto, voltou a me atormentar em 1981, quando eu tinha 19 anos. A guerra já havia acabado. Eu estava terminando a escola e tinha um novo sonho: ser médica. Jornalistas estrangeiros começaram a vir ao Vietnã atrás de mim. Queriam me entrevistar e me mostravam a foto e vídeos em que eu aparecia correndo na estrada depois da explosão da bomba de napalm. Percebi que minha foto era muito famosa. Quando eu era criança, tinha vergonha de minhas cicatrizes, mas aprendi a aceita-las. Eu só queria seguir em frente e realizar meu sonho de ser médica, mas o   governo vietnamita me descobriu e não me deixou mais em paz. Foi um período terrível em minha vida. Eu esperava que usassem minha foto para conscientizar as pessoas dos horrores da guerra, mas, por que não me deixam em paz? O governo queria que eu fizesse propaganda do regime comunista e o ajudasse a culpar os Estados Unidos por nossas desgraças. Eu nunca quis – e até hoje não queria me envolver em política. Só quero fazer o que meu coração manda: lutar pela paz em nome das crianças e vítimas de guerra. Se querem falar de política, procurem outra pessoa.

Quanto mais famosa ficava a foto, mais alto era o custo para minha vida privada. Queria ser livre, mas o governo me controlava. Eu me converti ao cristianismo em 1982 e, de lá para cá, sinto-me espiritualmente livre”.  Enquanto vivesse no Vietnã, no entanto, não conseguiria ser completamente livre. Estudando em Cuba, meu marido e eu conseguimos autorização do governo vietnamita para passar nossa lua de mel em Moscou, mas fizemos uma escala no Canadá e ficamos por aqui. Hoje sou embaixadora da Boa Vontade da Unesco e trabalho em minha fundação, a Kim Foundation International. Temos vários parceiros ao redor do mundo e queremos ajudar crianças vitimadas pelas guerras. Construímos hospitais, abrigos, orfanatos e escolas. Trabalhamos pela cultura da paz. Quero difundir a paz, a alegria e o perdão, que são armas muito mais poderosas do que as bombas. Por isso escrevi A menina da foto Minhas memórias: do horror da guerra ao caminho da paz (Editora Mundo Cristão).

Por causa das queimaduras de napalm, passei por 17 cirurgias. Há alguns anos, fiz um tratamento a laser muito doloroso, mas que me ajudou muito. Sinto menos dores e meus movimentos melhoraram. As cicatrizes estão mais suaves. Há em meu livro uma foto em que seguro meu filho Thomas, nos braços, quando ele ainda era um bebê. Dá para ver minha pele coberta de cicatrizes    e a pele perfeita dele. Estou sorrindo na foto e meus lábios estão bem perto da orelhinha de Thomas. Ele não olha para mim, mas para a frente. Gosto de pensar que sussurro em seu ouvido que devemos ser gratos pela paz. E que ele olha para o futuro. Quero mostrar as duas fotos ao mundo: minha foto aos 9 anos correndo do napalm e minha foto com Thomas. Quero que elas transmitam paz e alegria e ensinem que perdoar é possível. A menina da foto conseguiu perdoar. Quero que essas duas fotos nos lembrem de que não podemos mudar o passado, mas, com amor, podemos curar o futuro.

A menina da foto.2

GESTÃO E CARREIRA

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

O que levar em conta na desconstrução e na reconstrução do ambiente de trabalho – e o de fora dele.

Admirável mundo novo

Robótica, inteligência artificial, realidade virtual…  Essas e outras tecnologias disruptivas têm ajudado a transformar o mundo em que vivemos, as relações que mantemos com as outras pessoas e os modos de fazer negócios. Em um cenário de complexidade, de questões ambíguas do passado e do futuro, o que esperar das lideranças de uma organização? E do RH?

Estima-se que a competência mais exigida do líder será a de gerir a ambiguidade, desconstruir conceitos, crenças, modelos de gestão para, então, construir uma nova forma de trabalhar, de liderar as pessoas, processos e resultados. Uma liderança que provoque a mudança do pensar de forma ágil, em larga escala e com a capacidade de influenciar no âmbito econômico, social e político, mudando o mundo que conhecemos.

Vivemos a quart a revolução industrial que, como explica Carlos Trein, diretor regional do Senai-RS, é aquela que considera a utilização das tecnologias habilitadoras para aumentar a interconectividade entre os sistemas e a tomada de algumas decisões na adequada gestão do fluxo de produção. “Essas tecnologias habilitadoras, de uma forma geral, são as que conferem aos sistemas produtivos maiores ganhos em produtividade, aumento da segurança, redução de erros, economia de energia, customização da produção, entre outras vantagens”, destaca Trein. Como exemplo, ele cita: manufatura aditiva; visão artificial; computação na nuvem (cloud computing); Big Data; realidade virtual e aumentada; internet das coisas; Inteligência artificial; sistemas cyberfísicos; sensoriamento; rastreabilidade; robótica colaborativa, entre outras.

E por conferirem maiores ganhos de produtividade, essas tecnologias tendem a eliminar muitos postos de trabalho. “A tendência será de substituir as ocupações que, por questões de segurança, custo ou produtividade, podem ser mais bem executadas por sistemas automatizados ou por algoritmos que utilizam recursos de inteligência artificial”, diz Trein, que, acredita, no entanto, que outras ocupações surgirão, mas de difícil previsão. “Isso vem ocorrendo naturalmente nos últimos séculos, à medida que novas tecnologias são empregadas. Há que se considerar, também, que as novas gerações apresentam, cada vez mais, perfil e comportamento diferenciados, exigindo adaptação daqueles ambientes empresariais que desejam contratá-los”, acrescenta. Segundo ele, de uma forma geral, os jovens procurarão, nas empresas, aquelas ocupações e responsabilidades que melhor coadunarem-se aos seus ideais e propósitos de vida.

ALARMISMOS

No admirável novo mundo que vai surgindo desse processo de transformação, o papel das áreas de gestão de pessoas, nas indústrias, será o de identificar, selecionar e desenvolver cada vez mais, além das principais competências técnicas transversais nas pessoas (como princípios de programação, sensores, instrumentação eletrônica e análise de dados), as competências socio emocionais (soft skills), avalia Trein. “Ou seja, a solução de problemas complexos, o trabalho em equipe, a criatividade e a autogestão”, acrescenta Jorge Fornari, coach, palestrante e autor do livro O executivo na essência (Évora), concorda, mas faz uma ressalva. Para ele, um novo mundo digita ou seja de qual for, vai sim, demandar o uso das competências humanas superiores, que levem a um discernimento mais e levado de si mesmo, dos outros e do mundo. Entretanto, ele explica que, vemos uma realidade de negócios que não contribui nesse processo, pois está baseada em premissas primitivas. “O modelo de negócios que predomina no mundo ocidental não ajuda o amadurecimento humano. Pelo contrário, valoriza programações primitivas que ainda habitam em nossas cabeças. Agimos como se estivéssemos frente a grandes ameaças (‘matar um leão por dia’), vivemos sob a premissa da escassez (‘não há lugar para todos, ou nós ou eles’), somos pressionados pela velocidade da mudança (‘não podemos ficar para trás’) e do crescimento contínuo (‘ou você cresce ou desaparece”), comenta.

Fornari acompanha o debate sobre como será a vida no trabalho quando o efeito da ‘revolução’ a atingir de fato. Ele acredita que vivemos em uma época de muita ansiedade, esperando por mudanças que nos assombram porque não sabemos se seremos capazes de lidar com elas. E isso não se refere apenas ao mundo digital. “Não sabemos se continuaremos humanos ou vamos nos robotizar. Se o mercado vai ser dominado por jovens da última geração. Se teremos o que fazer com o grande resto de vida que ganhamos. Para qual planeta mudar quando o homem finalmente destruir a Terra?’, provoca.  “Vivemos um alarmismo que não serve a ninguém, exceto, talvez, aos que o propagam”, destaca. “A vida social gera a necessidade de tecnologia. A vida organizacional se beneficia. Nós continuamos os mesmos.”

De acordo com Fornari, pessoas interessadas em cultivar a angústia estão criando ameaças abstratas, idealizando um futuro para o qual não estamos preparados. “Cada qual tem sua poção mágica para vender. Somos induzidos a uma frenética expectativa de grandes mudanças. O que pouco se explora é a nossa ainda mente imatura”, diz.

Vivenciamos, continua ele, dois problemas: de um lado, sabemos pouco como funcionamos. De outro, não temos certeza se o estágio digital ou tecnológico a ser atingido atenderá às reais necessidades da humanidade. Na incerteza, vivemos um mundo de adivinhações”.

Nesse sentido, o RH precisa abrir a mente para considerar as reais necessidades das pessoas e das organizações.  “Ele não deve se deter no aprimoramento das nossas capacidades funcionais, contratando, treinando, promovendo, demitindo. Não deve se deixar levar pela angústia do desconhecido. Numa cruzada messiânica, estamos lendo muitos livros, ouvindo muitos gurus e esperando que um deles nos tire essa dor do medo e da incerteza, diz.

Aos responsáveis por pensar o futuro das suas organizações, ele recomenda treinar sua consciência de modo a aprimorar sua capacidade para julgar objetivamente as ameaças (e não sucumbir a elas) e oportunidades (e não se encantar demasiadamente com elas). “Precisamos dar a oportunidade aos líderes para aumentarem a consciência de si mesmos. Em outras palavras, continuam a realizar seu potencial positivo para liberarem a criatividade adaptativa às novas demandas funcionais e de negócios, e, paralelamente, aprenderem mais sobre si mesmos, trabalharem mais seu consciente, reverem suas crenças e desejos para reduzir seus comportamentos automáticos indesejados”, conclui Fornari.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 17: 11-16 – PARTE I

Alimento diário - Comendo a Bíblia

A Oração Intercessória de Cristo

Depois das alegações gerais com as quais Cristo recomendou seus discípulos aos cuidados de seu Pai, seguem-se as petições particulares que Ele apresenta por eles, e:

I – Todas elas se relacionam com as bênçãos espirituais, nas coisas celestiais. Ele não pede que eles possam ser ricos e grandiosos neste mundo, que possam construir propriedades e conseguir promoções, mas que possam ser mantidos afastados do pecado, e capacita­ dos para sua missão, e levados com segurança ao céu. Observe que a prosperidade da alma é a melhor prosperidade, pois Cristo veio comprar e conceder aquilo que está relacionado com a alma, e nos ensina, desta maneira, a buscar estas bênçãos em primeiro lugar, tanto para os outros quanto para nós mesmos.

1. São bênçãos adequadas à nossa situação atual, bem como às várias exigências e ocasiões que eles estavam enfrentando. Observe que a intercessão de Cristo é sempre pertinente. Nosso advogado junto ao Pai está familiarizado com todos os detalhes das nossas necessidades e cargas, nossos perigos e dificuldades, e sabe como adequar sua intercessão com cada um de nós, como na ocasião do perigo que rondava a Pedro, do qual ele mesmo não estava ciente (Lucas 22.32): “Eu roguei por ti”.

2. Ele é abrangente e pleno nas petições, expõe-nas em boa ordem diante do seu Pai, e enche sua boca de argumentos, para nos ensinar o fervor e a perseverança na oração, para nos ensinar a constância na oração, e a levar nossas necessidades ao trono da graça, lutando, como Jacó: “Não te deixarei ir, se me não abençoares”.

A primeira petição que Cristo faz pelos seus discípulos, nestes versículos, é pela sua preservação, e para isto Ele os entrega, a todos, à custódia do seu Pai. Preservar pressupõe perigo, e o perigo que eles corriam vinha do mundo, do mundo onde eles estavam, e deste mal Ele implora que eles possam ser preservados. Observe:

 

I – O pedido propriamente dito: Guarde-os do mundo. Havia duas maneiras de serem guardados do mundo:

1. Sendo tirados dele. Mas Ele não pede que eles sejam guardados assim: “Não peço que os tires do mundo”. Isto é:

(1) “Não peço que eles possam ser rapidamente removidos pela morte”. Se o mundo os atormentar, a maneira mais imediata de protegê-los seria tirá-los rapidamente dele, levando-os a um mundo melhor, que os trataria melhor. Envie carros e cavalos de fogo por eles, para levá-los ao céu. Jó, Elias, Jonas, Moisés, quando aconteceu algo que os afligiu, pediram para serem tirados do mundo, mas Cristo não desejava pedir isto para seus discípulos, por dois motivos:

[1] Porque Ele veio para vencer, e não para tolerar aquelas paixões descontroladas, que tornam os homens impacientes na vida e importunos para a morte. A vontade de Deus é que nós tomemos nossa cruz, e não a deixemos para trás.

[2] Porque Ele tinha um trabalho para que eles realizassem no mundo. O mundo, embora cansado deles (Atos 22.22), e, portanto, indigno deles (Hebreus 11.38), podia poupá-los, ainda que em más condições. Portanto, por piedade por este mundo obscuro, Cristo não desejava que estas luzes fossem removidas dele, mas permanecessem nele, especialmente para o bem daqueles, no mundo, que viriam a crer nele por meio da sua palavra. Que eles não sejam tirados do mundo em que seu Mestre está. Eles deverão, cada um da sua maneira, morrer como um mártir, mas não até que tenham concluído seu testemunho. Observe que, em primeiro lugar, a remoção das pessoas boas deste mundo é uma coisa que não se deve desejai de maneira nenhuma, mas deve ser temida e considerada no coração, Isaías 57.1. Em segundo lugar, embora Cristo ame aos seus discípulos, Ele não os envia imediatamente ao céu, assim que são efetivamente chamados, mas os deixa por algum tempo neste mundo, para que possam fazer o bem e glorifiquem a Deus sobre a terra, amadurecendo para o céu. Muitas pessoas boas são poupadas para vi­ ver, porque dificilmente pode-se permitir que morram.

(2) “Eu não rogo que eles possam ser totalmente liberados e isentos dos problemas deste mundo, e removidos do trabalho árduo e do terror que nele há, indo a algum lugar tranquilo e seguro, para ali viverem sem ser perturbados. Não é esta a preservação que Eu desejo para eles”. Não que, estando livres de todos os problemas, eles possam se deleitar em uma esplêndida tranquilidade, mas que, com a ajuda de Deus, possam ser preservados em um cenário de perigo, segundo Calvino. Não que possam ser preservados de todos os conflitos com o mundo, mas para que não sejam subjugados por ele. Não que, como desejava Jeremias, pudessem deixar seu povo, e apartar-se deles (Jeremias 9.2), mas que, como Ezequiel, seus rostos pudessem ser duros contra os rostos dos homens ímpios, Ezequiel 3.8. Representa maior honra para um soldado cristão, pela fé, subjugar o mundo do que, por um voto monástico, afastar-se dele, e representa mais para a honra de Cristo servi-lo em uma cidade do que servi-lo em uma cela de prisão.

2. Outra maneira é protegendo-os da corrupção que existe no mundo, e Ele roga que assim eles possam ser guardados, vv. 11,15. Aqui estão três seções desta petição:

(1) “Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste”.

[1) Cristo agora os estava deixando, mas eles não de­ viam pensar que sua proteção também se afastava deles. Não, aqui, e de modo que eles pudessem ouvir, Ele os entrega à custódia do seu Pai e Pai deles. Observe que é um consolo indescritível de todos os crentes o fato de que o próprio Cristo os entregue aos cuidados de Deus. Não podem deixar de estar seguros aqueles a quem o Deus Todo-poderoso guarda, e Ele não pode deixar de guardar àqueles a quem o Filho do seu amor lhe entrega, e em virtude disto nós podemos, com fé, entregar a guarda das nossas almas a Deus, 1 Pedro 4.19; 2 Timóteo 1.12.

Em primeiro lugar, aqui Ele os coloca sob a proteção divina, para que não sejam destruídos pela maldade dos seus inimigos, para que eles, e todos os seus interesses, possam ter o cuidado particular da providência divina: “Guarda suas vidas até que tenham realizado seu trabalho. Guarda seus consolos, e não permita que eles sejam destruídos pelas dificuldades com que se depararem. Guarda seus interesses no mundo, e não permita que eles se extingam”. A esta oração, deve-se a maravilhosa preservação do ministério do Evangelho e da igreja do Evangelho, no mundo, até hoje. Se Deus não tivesse graciosamente guardado a ambos, e prosseguido com ambos, eles teriam sido extintos e perdidos há muito tempo. Em segundo lugar, Ele os coloca sob a instrução divina, para que não se afastem do seu dever, nem sejam desviados pela traição dos seus próprios corações: “Conserva-os na sua integridade, conserva-os discípulos, conserva-os concentrados no seu dever”. Nós precisamos do poder de Deus, não somente para nos colocar em um estado de graça, mas para nos conservar nele. Veja cap. 10.28,29; 1 Pedro 1.5.

[2) Ele ora ao Pai, usando os títulos que Ele lhe atribui, e ora por eles, reforçando assim a petição.

Em primeiro lugar, Ele se dirige a Deus como um “Pai santo”. Quando nos entregamos, e a outros, aos cuidados divinos, podemos receber incentivo:

1. Do atributo da sua santidade, pois ela está envolvida na preservação dos seus santos. Ele jurou pela sua santidade, Salmos 89.35. Se Ele é um Deus santo e odeia o pecado, Ele tornará santos os que são seus, e os protegerá do pecado, que eles também odeiam e temem como o maior mal.

2. Desta relação com o Pai, em que Ele nos mantém, por meio de Cristo. Se Ele é um Pai, Ele irá cuidar dos seus próprios filhos, irá ensiná-los e protegê-los. Quem mais faria isto?

Em segundo lugar, Jesus fala deles como aqueles que o Pai lhe tinha dado. Aquilo que nós recebemos, como presentes do nosso Pai, nós podemos, confortavelmente, entregar aos cuidados do nosso Pai. “Pai, guarda as graças e os consolos que me deste, os filhos que me deste, o ministério que recebi de ti”.

(2) Guarda-os “em teu nome”. Isto é:

[1] Guarda-os por amor ao teu nome, segundo alguns. “Teu nome e tua honra se relacionam com a preservação deles, assim como a minha, pois ambos irão sofrer, caso se revoltem ou naufraguem”. Os santos do Antigo Testamento frequentemente rogavam pelo seu nome, e podem, com mais consolo, rogar desta maneira, aqueles que estão realmente mais preocupados com a honra do nome de Deus do que com qualquer interesse próprio.

[2] Guarda-os em teu nome, segundo outros. Assim está o original, ento onomati. “Guarda-os no conhecimento e no temor do teu nome. Guarda-os na profissão e no serviço ao teu nome, custe-lhes o que custar. Guarda-os no interesse do teu nome, e permite que eles sejam sempre fiéis a ti. Guarda-os nas tuas verdades, nas tuas ordenanças, no caminho dos teus mandamentos”.

[3] Guarda-os pelo teu nome, ou por meio do teu nome, segundo outros. “Guarda-os pelo teu próprio poder, na tua própria mão. Guarda-os, tu mesmo, empenha-te por eles. Que eles sejam tua preocupação imediata. Guarda-os por aqueles meios de preservação que tu mesmo indicaste, e pelos quais te fizeste conhecido. Guarda-os pela tua palavra e pelas tuas ordenanças. Que teu nome seja a torre da fortaleza deles, que teu tabernáculo seja o pavilhão deles”.

(3) Livra-os “do mal”. Ele os tinha ensinado a orar diariamente: “Livra-nos do mal”, e isto deveria incentivá-los a orar.

[1] “Livra-os do maligno, do Diabo e de todos os seus instrumentos, do maligno e de todos os seus filhos. Livra-os de Satanás como um tentador, de modo que ele não tenha permissão de tentá-los, ou de modo que sua fé não fraqueje. Livra-os dele como um destruidor, de modo que ele não os leve ao desespero”.

[2] “Guarda-os da coisa ruim, que é o pecado, de tudo o que se parece com ele, ou que conduza a ele. Guarda-os, de modo que não façam o mal”, 2 Coríntios 13.7. O pecado é aquele mal que, acima de todos os outros, nós devemos temer e reprovar.

[3] “Livra-os do mal do mundo, e da sua tribulação nele, de modo que não tenham parte nele, assim como nenhuma malignidade”. Não que eles pudessem ser poupados da aflição, mas que pudessem suportá-la, para que a característica das suas aflições pudesse ser alterada de modo que não houvesse mal nelas, nada que lhes fizesse algum mal.