PSICOLOGIA ANALÍTICA

O VALOR (MORAL) DA TROCA

Reflexo de uma complexa demonstração social, a troca de presentes no natal marca o vínculo entre amigos e familiares e a importância dos rituais coletivos.

O valor (moral) da troca

A partir de novembro as vitrines decoradas das lojas nos avisam que o Natal está chegando. O sinal comercial está dado. Quanto mais se aproxima a data dessa reunião familiar, mais evidente o frenesi de consumo. Somos tomados pela angústia de não concluir as compras a tempo e de não escolher os presentes mais apropriados para cada pessoa. Porque esse estado de espírito acompanha um evento em que deveriam coexistir o prazer de dar e o de receber?

De fato, esse período não é somente o de uma corrida aos presentes, mas, sobretudo, o momento em que se enunciam – explícita ou implicitamente – os vínculos ou a ausência deles. A escolha de uma lembrança e o momento cm que é oferecida participam de uma complexa demonstração social por meio da qual ocorrem múltiplas formas de troca. É isso que torna interessante o estudo deste momento particular para a compreensão das relações familiares e sociais.

Na troca de presentes reside o vínculo social, e nesse aspecto nossa sociedade não é diferente de outras. Os primeiros antropólogos ficaram fascinados com as semelhanças observadas nos sistemas de trocas de distintas sociedades, e alguns chegaram até mesmo a considerar a troca como fundamento de toda sociedade.

Duas das melhores descrições de formas de troca encontradas na literatura antropológica referem-se ao kula, estudado pelo etnólogo polonês Bronslaw Malinowski, em 1922, e ao potlatch, observado pelo antropólogo alemão Franz Boas, em 1899. O kula é um sistema intertribal de trocas praticado na Melanésia e existente ainda hoje, envolvendo transações locais e em todo o arquipélago. Colares e braceletes de conchas, oferecidos com um certo intervalo de tempo, percorrem depois um mesmo circuito fechado, mas em sentido inverso. Após certo período, os objetos recebidos são repostos em circulação; seu valor reside na continuidade da transmissão. A posse provisória fornece prestígio e renome. Potlatch, por sua vez, significa dádiva ou dar e é parte do contexto cerimonial das populações ameríndias da costa noroeste da América do Norte. O termo designa manifestações organizadas em casamentos e funerais, por exemplo, e em situações de rivalidade entre chefes que tentam manter sua posição social. Bens de prestígio (principalmente tecidos) são entregues e refeições são oferecidas por um hóspede a seus convidados; isso permite que um indivíduo adquira ou mantenha influência política e posição social. O donatário tem a obrigação de retribuir ao doador o equivalente ao que foi recebido.

A primeira forma de troca mencionada, o kula, foi qualificada por Marcel Mauss, fundador da antropologia francesa, de “fenômeno social total”.

O kula e o potlatch estiveram no centro da análise publicada por Mauss entre 1923 e 1925, intitulada Ensaio sobre a dádiva Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. Nessa obra, ele formulou a regra fundamental da troca: uma tripla obrigação que consiste em dar, receber e retribuir. Essa norma permite, em todas as sociedades, o estabelecimento e a manutenção de relações sociais. Assim, quando entramos em um sistema de trocas, somos inseridos em um ciclo do qual é difícil sair sem prejuízo social: renunciar à reciprocidade pode levar à ruptura do vínculo. É claro que o presente é também um instrumento de poder, uma vez que pode ser impossível retribuir o que recebemos. Nesse caso, assumimos o papel de eternos devedores, a menos que recusemos receber.

O lugar central da dádiva nas sociedades tradicionais levou alguns antropólogos a opor as sociedades de dádiva às de mercadorias, ou ainda, as tradicionais às industriais, sendo que nestas últimas as trocas de mercadorias por meio do dinheiro desempenham papel fundamental. Essa oposição, que esquematiza as relações de troca, foi criticada. É difícil hoje sustentar essa diferença, dádiva e mercadoria estão, em nossa sociedade, estreitamente ligadas, sem que a primeira possa ser considerada um vestígio arcaico. Elas podem até mesmo ser intercambiáveis, como a moeda que é às vezes dom e outras, mercadoria. Da mesma forma, em nossas sociedades a mercadoria pode ser posta a serviço do dom, como durante o Natal.

O valor (moral) da troca.2

SINAL DE COMUNHÃO

Podemos considerar o Natal um ritual coletivo. Ainda que nem sempre se atente para seu teor religioso, a data é sagrada e tem referência mítica. Segundo o fundador da sociologia francesa, Émile Durkheim, a experiência do sagrado é a de uma comunhão com o grupo. O grupo pode ser a sociedade em que vivemos, mas também um meio mais restrito, como a família. Ao celebrarmos essa festa, exprimimos o fato de pertencermos a uma comunidade, a uma família, aqueles que se recusam a participar são reprovados e qualificados de anti – sociais. Nessa data, o isolamento e a solidão tornam-se mais insuportáveis. Além da sua dimensão coletiva, o conteúdo desse ritual está ligado a um certo número de valores ideológicos, como a democracia e a igualdade; assim, são organizadas celebrações em todo o mundo, integrando pessoas habitualmente marginalizadas, como moradores de rua, por exemplo.

O Natal celebra uma utopia familiar; é a sacralização de um modelo normativo, o da família nuclear. Todas as pessoas que não estão em conformidade com esse modelo devem dissimular sua condição. Assim, os pais esforçam-se para reunir todos os filhos nessa ocasião. Os solteiros se perguntam onde passarão a festa. E a distância entre utopia e realidade leva alguns a considerar esse dia como o mais horrível do ano.

Também é preciso salientar a especificidade de nosso sistema de parentesco, que os antropólogos qualificam de indiferenciado. A distinção entre os sistemas se exprime sobretudo nas regras de filiação, de herança e de residência. Contrariamente às sociedades patrilineares (os gregos da Antiguidade, os toubous da Nigéria) ou às matrilineares (os ashantis de Gana ou os iroqueses da América do Norte), nas quais não é possível a escolha de parentes, nossas sociedades apresentam um tecido familiar em que podemos privilegiar certas relações.

Nós somos, por exemplo, levados a estabelecer relações com a família de nosso pai e com a de nossa mãe, mas podemos fortalecer algumas dessas relações e não outras, A troca de presentes permite por vezes manter relação com membros de nossa família que vemos apenas raramente, ou, ainda, compensar o fato de não podermos festejar a passagem de ano com eles. Assim, ao lado da obrigação do ritual coletivo e da necessidade de manter vínculos mediante a troca de presentes, dispomos de certa liberdade nessa troca, que é própria das sociedades individualistas.

Todo ano temos a possibilidade de reavaliar o lugar de cada um, inclusive o nosso, na rede familiar e de amigos. Mas essa liberdade gera ansiedade e stress, uma vez que somos levados a reconsiderar o conjunto de nossos vínculos sociais. Às vezes temamos escapar da situação deixando a compra dos presentes para a última hora, no desejo vão de evitar a escolha de parentes e amigos.

A troca de presentes nessa época é recíproca e, sobretudo, simultânea. Não há um prazo de reflexão para avaliar o valor do presente e depois retribuí-lo com algo que teremos a certeza de ser equivalente. Isso gera incerteza e o temor de não realizarmos uma troca respeitosa e equilibrada. Por isso nos perguntamos: “O que oferecer a fulano? É preciso que ele não me dê um presente muito caro em relação àquele que vou dar”. Então presentear não seria algo espontâneo. É certo que não pedimos às crianças que retribuam o regalo natalino. Mas parece, entretanto, que o Natal é também para elas uma ocasião de aprendizagem. Ao ver a troca de presentes, elas se tornam conscientes dessa prática e a reproduzirão na vida adulta. Elas descobrem, além disso, que os presentes têm um preço.

O valor (moral) da troca.3

INTENSIDADE DO VÍNCULO

Tentamos compreender as lógicas dessa situação mediante entrevistas realizadas com pessoas que se exprimiram sobre os presentes dados ou recebidos nessa época. Assim, pudemos mostrar que o valor econômico do presente é geralmente proporcional à intensidade do vínculo com um parente ou, fora do círculo familiar, ao grau de amizade com a pessoa presenteada; o valor econômico serve de medida racional.

Esse fato se manifesta particularmente no momento da entrega dos presentes, com a família reunida em torno da árvore para esse momento mágico – ou trágico. Na França, a tradição recomenda que os presentes sejam abertos na frente dos outros. O semblante alegre ou decepcionado reflete mais ou menos discretamente o sentimento de quem foi presenteado. Ele agradece o gesto, mas, no íntimo, avalia o custo, estabelecendo uma proporção entre o valor afetivo e o valor de mercado. A frase “Não precisava…” remete a esse pequeno cálculo mental. Foi difícil para as pessoas interrogadas revelar, durante a entrevista, esse cálculo, que punha em questão o princípio da natureza gratuita do presente. Assim, a relação com o presente é hipócrita: ela se insere em uma simetria e numa reciprocidade que repousa em um cálculo e em uma avaliação.

O encontro entre a sociedade do dom e a sociedade da mercadoria é ainda mais evidente no fenômeno do presente em dinheiro. Também nesse caso, nossos estudos revelaram uma regra: só os pais ou os avós podem dar dinheiro às crianças da família. Os entrevistados disseram jamais ter recebido um presente em dinheiro da parte de um estranho e confessaram experimentar uma sensação de ambivalência perante esse tipo de donativo.

 

DANDO VIDA AO OBJETO

Por que o presente em dinheiro suscita um certo embaraço? Essa forma de presentear contradiz o princípio do dom gratuito ou, ao menos, do dom que não tem um valor de mercado evidente. Notamos nas entrevistas que as pessoas presenteadas dessa forma compram, quase sempre, um objeto, como se fosse necessário materializar esse dom para tomar visível o vínculo entre doador e donatário.

As pesquisas que realizamos com casais e solteiros revelaram outra característica, que diz respeito não ao modo de oferecer ou receber os presentes, mas ao modo de “lhes dar vida”. De fato, após ser oferecido, o regalo adquire vida. Um quadro ou objeto decorativo são expostos na sala; um colar é usado em certas circunstâncias. O objeto é muitas vezes exibido para a pessoa que o presenteou. Essa é uma forma de marcar a importância que damos ao presente e de reafirmar o vínculo mantido com quem o ofertou. Inversamente, os indivíduos que vivem uma ruptura dramática colocam definitivamente de lado, ou até mesmo destroem os presentes recebidos. Não é só uma forma de “esquecer” a pessoa com a qual se rompeu, mas também de mostrar que se recusa o vínculo anteriormente estabelecido.

É certo que, em nossa sociedade, predominam as trocas comerciais. Entretanto, a mercadoria é frequentemente posta a serviço do dom, que contribui para a construção e a manutenção do vínculo social. A etnologia do dom permite constatar que os objetos trocados no Natal ou em outras ocasiões nada têm de neutro. Constrangimentos são frequentes, e um presente pouco apropriado corre o risco de ser recebido como insulto. Gafes podem deixar marca duradoura em uma relação. Por isso o ser humano é tão sensível ao ato de presentear: é a manifestação por excelência do vínculo social.

  

SOPHIE CHEVALIER, da Universidade de Franche-Comté, e Anne Monjaret, da CNRS, são etnólogas.

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OUTROS OLHARES

LICENÇA PARA SER PAI

Cresce número de empresas no Brasil que oferecem mais de 20 dias de licença – paternidade para seus funcionários, com ganhos de produtividade e engajamento.

Licença para ser pai

Houve uma época em que só as mulheres cuidavam dos filhos e isso parecia natural. Os homens ficavam com a responsabilidade do sustento familiar e se contentavam com seu papel de coadjuvante nas questões domésticas. Mas essa situação ficou para trás. Um reflexo desses novos tempos de pais mais participativos é a rápida ampliação do tempo de licença – paternidade pelas empresas e instituições brasileiras. Desde 2006, quando a ex-presidente Dilma Rousseff sancionou uma lei beneficiando servidores públicos e funcionários de empresas privadas para desfrutarem do benefício, os pífios cinco dias previstos na Constituição de 1988 foram estendidos para 20 dias nas companhias que aderirem ao Programa Empresa Cidadã. O último levantamento da Receita Federal mostra que 20.484 empresas já entraram no programa – o equivalente a mais de 13% das organizações brasileiras aptas a aderir. No último dia 5, houve um claro sinal de mudança em um ambiente tradicionalmente machista. O senado aprovou um projeto de lei que amplia a licença -paternidade dos militares de 5 para 20 dias.

DIVISÃO DE RESPONSABILIDADES

“Tento dividir todas as tarefas com minha esposa só não dividimos a amamentação” diz o gerente de processos da Natura Rafael Bortolotti, 35 anos, que desfruta atualmente da licença – paternidade. “O principal benefício da licença estendida é a possibilidade de criar maior vínculo com o bebê. A paternidade está me tomando alguém melhor.” A Natura, seguindo uma tendência cada vez mais forte no País, vai além da lei e oferece 40 dias de licença por conta própria como investimento no colaborador, em sua família e, consequentemente, em si mesma. “Os funcionários retornam da licença com vínculo mais forte, há melhor qualidade de trabalho”, conta Marco Milazzo, diretor de remuneração e reconhecimento da Natura. “A pesquisa de engajamento tem mostrado índices melhores ano a ano desde que a licença – paternidade passou para 40 dias, em 2016”.  A licença – paternidade é optativa e não interfere nas Férias. A Johnson & Johnson Brasil é outra empresa que estendeu a licença para 40 dias no ano passado a todos os funcionários, pais adotivos ou biológicos. “É um importante diferencial para o recrutamento da nossa futura força de trabalho”, diz Guilherme Rhinow, diretor de RH. A Reserva, confecção e varejista de moda masculina, dá 45 dias de licença – paternidade para seus funcionários desde que seu CEO, Rony Meisler passou um mês em casa após o nascimento do seu segundo filho, em 2016. Ele pôde estar perto do bebê em seus primeiros momentos de vida e dar todo suporte à sua esposa. “Sou a prova viva de que a licença paterna nos primeiros dias de vida do filho é fundamental para criar vínculos”, diz Meisler. O Facebook oferece a licença parental de quatro meses em todos os seus escritórios do mundo. “É possível tirar o período em diferentes momentos durante o primeiro ano da criança. A licença também é disponível para parceiros do mesmo sexo. O Google ofereceu 12 semanas também com prazo de até um ano para usar a licença. Cada pai escolhe a solução que mais faz sentido para sua vida. “É uma questão de divisão de responsabilidades. Precisamos permitir que os pais tenham participação mais ativa”, disse a empresa por meio de sua assessoria de imprensa.

Focados no trabalho, os pais delegaram às mães toda tarefa de cuidar, sem um modelo masculino próximo. “É comum o homem ser mandado de volta pela companheira antes de terminar a licença – paternidade por se sentir deslocado na própria casa. “Não fomos educados para a paternidade, por isso um curso preparatório é importante”, diz Guilherme Valadares. membro do Comitê Eles por Elas da ONU Mulheres e editor-chefe do portal Papo de Homem, que oferece cursos e consultoria estratégica em masculinidades para empresas e, em breve, lançará um curso online de paternidade ativa também para pessoas físicas. “Como vamos rediscutir o papel dos homens nas famílias se eles ficam só cinco dias em casa? Lutamos para que todas as empresas ofereçam pelo menos 20 dias, mas temos ai uma questão”, comenta Valadares. Para ter a licença paternidade estendida pelo Programa Empresa Cidadã, os pais devem participar de atividade de orientação sobre paternidade consciente, oferecida ou recomendada pela empresa.

Licença para ser pai.2

GESTÃO E CARREIRA

É HORA DE CUIDAR DA TRANSIÇÃO

Faça isso enquanto está no auge da carreira. E desapegue dessa história de cargos.

É hora de cuidar da transição

A previsão era de uma manhã bem difícil. Roberto (nome fictício), vice-presidente global de uma poderosa companhia e encarregado das operações na Ásia, fora o escolhido pelo board para a inglória tarefa de comunicar a Vijay (também um nome fantasia), o CEO da filial da Índia, a decisão da última reunião: Vijay seria “convidado” a assumir uma posição de “staff”, pois lhe faltavam as habilidades necessárias para uma fase mais empreendedora  da companhia. Traduzindo o corporativês: o CEO seria rebaixado de cargo – algo permitido pelas leis locais.

A conversa foi surpreendentemente rápida. Vijay recebeu a notícia calado e aquiesceu. Missão cumprida, Roberto voltou para sua base em Cingapura certo de que o assunto estava resolvido. Qual o quê… Ao abrir o computador, deparou-se com um e-mail longo e confuso de Vijay. Leu, releu e não conseguiu entender qual era o problema. Pediu novas explicações e recebeu outro e-mail ainda mais longo – e ainda mais indecifrável. Diante do impasse, decidiu voltar à Índia para tentar esclarecer o assunto.

Vijay foi logo apresentando suas condições: até admitia redução de salário, mas gostaria que a empresa mantivesse o seu título de CEO. A solução encontrada por Roberto foi “promover” Vijay a CEO de uma nova região, Índia/Sri Lanka (muito mais Sri Lanka do que Índia), e contratar um executivo para acelerar a operação indiana. Meses depois dessa resolução, Roberto foi convidado para uma festa na casa de Vijay, em Nova Délhi. E entendeu o motivo do pedido pela manutenção do cargo. No portão de entrada, uma placa anunciava: aqui mora Vijay, CEO. O curioso, reparou, era que casas vizinhas ostentavam placas semelhantes, deixando clara a posição de cada um no mundo executivo. O rebaixamento social seria, portanto, pior que a queda corporativa.

Duas lições vêm à mente com esse episódio. A primeira é o quanto estamos presos à nossa placa ou aos nossos cartões de visita. E a segunda é a possibilidade de, após certo tempo de estrada (pense em profissionais com 45 anos ou mais), recebermos um chega-para-lá em conta-gotas até a inevitável demissão. Ter um projeto de transição, portanto, é fundamental enquanto ainda estamos no auge. Se quiser cuidar, você mesmo, do segundo tempo de sua vida, sugiro três exercícios:

1) DEFINA QUEM VOCÊ É. Construa uma rápida biografia, registrando fatos marcantes da sua história e a influência que eles tiveram em sua vida. Então, escreva em uma folha quem é você e quais são os seus três maiores talentos. Peça a pessoas de sua confiança que também o avaliem, sem filtros. Depois compare sua percepção com a percepção externa.

2) PROJETE QUEM VOCÊ QUER SER. Descreva como quer ser percebido e quais objetivos pretende atingir, no trabalho e na vida. Não se preocupe com os outros – o que vale, nesta fase, é a autoestima.

3) ELABORE METAS ANUAIS e enumere as ações a serem tomadas para que o objetivo seja alcançado. Revise a cada três meses o plano de voo, para saber se está cumprindo o que prometeu.

Por mais singelos que pareçam, os exercícios acima nos ajudam a organizar um período decisivo de nossas vidas. Também nos ajudam a abandonar a sensação de parecer sempre um refém da atual condição profissional. Viver sem placas é possível. E bem mais leve.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 17: 1 – 5

Alimento diário

A Oração Intercessória de Cristo

Aqui temos:

 

I – As circunstâncias desta oração, v. 1. Cristo fez muitas orações solenes nos dias da sua carne (às vezes, Ele passava a noite inteira em oração), mas nenhuma das suas orações está registrada de maneira tão completa como esta. Observe:

1. O momento em que Ele fez esta oração. Depois de ter dado o adeus anterior aos seus discípulos, Ele fez esta oração, para que a ouvissem. De modo que:

(1) Foi uma oração feita depois de um sermão. Depois de ter falado de Deus a eles, Ele passou a falar com Deus, por eles. Observe que nós devemos pregar para aqueles por quem oramos. Aquele que deveria profetizar sobre os ossos secos também deveria orar: “Vem… ó espírito, e assopra sobre estes…”. E a palavra pregada seria objeto de oração, pois Deus dá o crescimento.

(2) Foi uma oração feita depois de um sacramento. Depois que Cristo e seus discípulos tinham comido juntos a refeição de Páscoa e a Ceia do Senhor, e Ele lhes tinha dado uma exortação adequada, Ele encerrou a solenidade com est a oração, para que Deus preservasse neles as boas impressões da ordenança.

(3) Foi uma oração familiar. Os discípulos de Cristo eram sua família, e, para dar um bom exemplo aos chefes de famílias, Ele, como filho de Abraão, não somente ensinou sua casa (Genesis 18.19), mas, como filho de Davi, abençoou sua casa (2 Samuel 6.20), orou por eles e com eles.

(4) Foi uma oração de separação. Quando nós e nossos amigos nos separamos, é bom que seja com oração, Atos 20.36. Cristo estava partindo pela morte, e esta partida deveria ser santificada e suavizada pela oração. Jacó, à morte, abençoou os doze patriarcas. Moisés, à morte, abençoou as doze tribos. Da mesma maneira, aqui Jesus, à morte, abençoou os doze apóstolos.

(5) Foi uma oração que era uma introdução ao seu sacrifício, que Ele estava prestes a oferecer na terra, especificando os favores e as bênçãos que deveriam ser comprados pelo mérito da sua morte em benefício daqueles que eram seus, como uma escritura que regulamenta a aplicação de uma multa, dirigindo-a aos propósitos e às intenções pelos quais ela será cobrada. Cristo orou, então, como um sacerdote, oferecendo sacrifício, em virtude do qual todas as orações devem ser feitas.

(6) Foi uma oração que era uma amostra da sua intercessão, a qual Ele vive eternamente fazendo por nós, dentro do véu. Não que no seu estado exaltado Ele se dirija ao seu Pai fazendo uma humilde petição, como quando estava na terra. Não, sua intercessão no céu é uma apresentação do seu mérito ao seu Pai, obtendo o benefício a todos os seus escolhidos.

2. A expressão exterior de fervoroso desejo que Ele usou nesta oração: Ele levantou os olhos ao céu, como tinha feito antes (cap. 11.41). Não que Cristo precisasse disto para empenhar sua atenção, mas porque Ele se satisfazia, desta maneira, em santificar este gesto àqueles que o usam, e justificá-lo contra aqueles que o ridicularizam. Este gesto significa o levantar da alma a Deus, na oração, Salmos 25.1. Sursum corda era antigamente usado como uma convocação à oração: Levantem os corações, levantem-nos para o céu. Para lá, nós devemos dirigir nossos desejos na oração, e de lá, devemos esperar receber as boas coisas pelas quais oramos.

 

II – A primeira parte da oração propriamente dita, na qual Cristo ora por si mesmo. Observe aqui:

1. Ele ora a Deus como um Pai: “Levantando os olhos ao céu, disse: Pai”. Observe que, assim como a oração deve ser feita somente a Deus, também é nosso dever, na oração, considerá-lo como um Pai, e chamá-lo de nosso Pai. Todos os que têm o Espírito de adoção são ensinados a clamar “Aba, Pai”, v. 25. Pois nos será muito útil na oração, tanto para a orientação quanto para o encorajamento, chamar a Deus como esperamos encontrá-lo.

2. Ele orou, primeiro, por si mesmo. Embora Cristo, como Deus, recebesse orações, Cristo, como homem, orava. Desta maneira, convinha-lhe cumprir toda a justiça. Foi dito a Ele, assim como é dito a nós: “Pede-me, e eu te darei”, Salmos 2.8. O Senhor precisou pedir a ajuda do Pai em relação àquilo que Ele comprou. E será que nós esperamos conseguir de outra maneira aquilo que nunca merecemos, aquilo a que sem dúvida perdemos o direito, sem sequer orarmos? O fato de que o mensageiro divino, Cristo, orou várias vezes enquanto cumpria sua missão, correspondendo-se com o Céu, confere honra à oração. Da mesma maneira, isto dá grande incentivo às pessoas que oram, e nos faz esperar que nem mesmo a oração dos desamparados será desprezada. Houve um tempo quando aquele que advoga por nós teve uma causa própria para solicitar, uma grande causa, de cujo sucesso dependia toda a sua honra como Mediador, e isto Ele devia solicitar usando o mesmo método que nos é prescrito, por meio de “orações e súplicas” (Hebreus 5.7), de modo que Ele conhece o coração de quem suplica (Êxodo 23.9), Ele conhece o caminho. Observe que Cristo começou orando por si mesmo, e depois orou pelos seus discípulos. Esta caridade deve começar em casa, embora não deva terminar ali. Nós devemos amar e orar pelos nossos vizinhos, como por nós mesmos, e por isso devemos, de uma maneira adequada, amar e orar por nós mesmos primeiro. Cristo orou muito menos por si mesmo do que orou pelos seus discípulos. Nossas orações pela igreja não devem ser relegadas para um canto das nossas orações. Ao suplicar por todos os nossos irmãos, os santos, nós temos espaço suficiente para nos expandirmos, e não nos limitarmos. Aqui há duas petições que Cristo apresenta por si mesmo, e as duas são, de fato, a mesma petição – que Ele pudesse ser glorificado. Mas esta única petição, “glorifica-me”, é apresentada duas vezes, porque tem uma dupla referência. Ao prosseguimento da sua missão: Glorifica-me, para que Eu possa glorificar-te, fazendo o que foi combinado que seria feito, vv. 1-3. E ao cumprimento da sua missão até aqui: Glorifica-me, pois Eu te glorifiquei. Eu fiz minha parte, e agora, Senhor, faz a tua, vv. 4,5.

(1) Aqui Cristo pede para ser glorificado, para glorificar a Deus (v.1): “Glorifica a teu Filho”, de acordo com tua promessa, “para que também o teu Filho te glorifique a ti”, de acordo com seu entendimento. Observe aqui:

[1] O que Ele pede na oração – que Ele possa ser glorificado neste mundo: “‘É chegada a hora’ em que todos os poderes das trevas contribuirão para difamar teu Filho. Agora, Pai, glorifique-o”. O Pai glorificou o Filho na terra, em primeiro lugar, até mesmo nos seus sofrimentos, pelos sinais e prodígios que os acompanhavam. Quando aqueles que vieram para levá-lo foram atingidos por uma palavra, quando Judas confessou que Jesus era inocente, e selou esta confissão com seu próprio sangue culpado, quando a esposa adormecida do juiz, e o próprio juiz desperto, o pronunciaram justo, quando o sol se escureceu e o véu do Templo rasgou-se em dois, então o Pai não somente justificou, mas glorificou o Filho. Na verdade, em segundo lugar, até mesmo pelos seus sofrimentos. Quando Ele foi crucificado, Ele foi magnificado, foi glorificado, cap. 13.31. Foi na cruz que Ele derrotou Satanás e a morte. Seus espinhos formaram uma coroa, e Pilatos, na inscrição acima da sua cabeça, escreveu mais do que pensava. Mas, em terceiro lugar, muito mais depois dos seus sofrimentos. O Pai glorificou o Filho quando o ressuscitou dos mortos, apresentou-o abertamente a testemunhas escolhidas, e derramou o Espírito para apoiar e defender sua causa, e para estabelecer seu reino entre os homens. É isto o que Ele pede na oração, e insiste.

[2] O que Ele alega para reforçar seu pedido.

Em primeiro lugar, Ele alega o parentesco: “Glorifica a teu Filho”, teu Filho como Deus, como Mediador. É em consideração a isto que os gentios lhe são dados por herança, pois “tu és meu Filho”, Salmos 2.7,8. O Diabo o tinha tentado a renunciar à sua filiação, com uma oferta dos reinos deste mundo, mas Ele rejeitou a oferta com desdém, e confiou no seu Pai para sua promoção, e aqui se dirige a Ele, para pedir isto. Observe que aqueles que receberam a adoção de filhos podem, com fé, orar pela herança de filhos. Se santificados, então glorificados: “Pai, glorifica a teu Filho”.

Em segundo lugar, Ele alega o tempo: “É chegada a hora”. A ocasião pré-fixada e uma hora designada. A hora da paixão de Cristo foi determinada no conselho de Deus. Ele sempre tinha dito que sua hora ainda não era chegada, mas agora ela era chegada, e Ele sabia disto. “O homem não conhece o seu tempo” (Eclesiastes 9.12), mas o Filho do homem conhecia o seu. Ele se refere à sua hora como “esta hora” (cap.12.27), e aqui, “a hora”. Compare com Marcos 14.35; João 16.21. Pois a hora da morte do Redentor, como também a hora do nascimento do Redentor, são as horas mais notáveis, e, sem dúvida, as mais críticas, que jamais houve desde que o relógio do tempo foi colocado em movimento. Nunca houve uma hora como a hora da morte do Salvador, nem qualquer hora jamais provocou reflexões e expectativas tão grandes, e nenhum outro fato, depois dela, será capaz de despertar tamanho interesse.

1. ”A hora é chegada, a hora na qual Eu preciso ser reconhecido”. Agora é a hora em que esta grande questão chega a uma crise. Depois de muitos conflitos, agora tem lugar a batalha decisiva entre o céu e o inferno, e a grande causa na qual se iniciam juntas a honra de Deus e a felicidade do homem agora deve ser vencida ou perdida para sempre. Os dois campeões, Davi e Golias, Miguel e o dragão, agora começam a batalha. Soa a trombeta para uma luta que resultará irremediavelmente fatal, para um ou para o outro. ”Agora glorifica a teu Filho, agora dá-lhe a vitória sobre os principados e as potestades, agora permite que a ferida no seu calcanhar provoque a ferida na cabeça da serpente, agora permite que teu Filho seja apoiado de modo a não falhar nem ser desencorajado”. Quando Josué saiu conquistando, e para conquistar, está escrito: “O Senhor engrandeceu a Josué”. Da mesma maneira, Ele glorificou ao seu Filho, quando fez da sua cruz sua carruagem triunfal.

2. “É chegada a hora em cujo término Eu espero ser coroado. É chegada a hora em que Eu devo ser glorificado, sentando-me à sua direita”. Entre Ele e esta glória, haveria uma cena sangrenta de sofrimento. Mas, como seria curta, Ele fala como se não se importasse com ela: É chegada a hora em que Eu devo ser glorificado, e Ele não esperava que isto acontecesse antes desta hora. Os cristãos fiéis, em uma hora de provação, particularmente na hora da morte, assim podem pedir: ”Agora que é chegada a hora, ajude-me, manifeste-se a mim. Agora que o tabernáculo terrestre será desfeito, é chegada a hora em que Eu devo ser glorificado”, 2 Coríntios 5.1.

Em terceiro lugar, Ele apela ao interesse do Pai: “Para que também o teu Filho te glorifique a ti”, pois Ele tinha consagrado toda a sua missão à honra do seu Pai. Ele desejava ser conduzido triunfalmente em meio aos seus sofrimentos à sua glória, para que pudesse glorificar ao Pai de duas maneiras:

1. Pela morte na cruz, que, em breve, Ele iria experimentar. A expressão: “Pai, glorifica o teu nome”, expressava a grande intenção dos seus sofrimentos, que era a de recuperar a honra ferida do seu Pai, entre os homens, e, por meio da sua satisfação, alcançar a glória de Deus, que o homem, pelo seu pecado, não alcançou: “Pai, reconheça-me nos meus sofrimentos, para que Eu possa lhe honrar através deles”.

2. Pela doutrina da cruz, que agora, em pouco tempo, seria divulgada ao mundo, pela qual o reino de Deus seria restabelecido entre os homens. Ele ora para que seu Pai honre seus sofrimentos, e os coroe, de modo a não somente remover o escândalo da cruz, mas torná-lo, àqueles que são salvos, a sabedoria de Deus e o poder de Deus. Se Deus não tivesse glorificado a Cristo crucificado, ressuscitando-o dos mortos, toda a sua missão teria sido esmagada. Por isto, “glorifica-me, para que eu também te glorifique”. Com isto, Jesus nos ensinou:

(1) O que almejar nas nossas orações, em todos os nossos desejos – a honra de Deus. Se nosso objetivo principal for glorificar a Deus, outras coisas devem ser procuradas e obtidas através da subordinação e subserviência ao Senhor. “Faça isto e aquilo pelo seu servo, para que seu servo possa lhe glorificar. Dê-me saúde, para que eu possa lhe glorificar com meu corpo, sucesso, para que eu possa lhe glorificar com minha situação social” etc. “Santificado seja o teu nome” deve ser nossa primeira petição, que deve determinar nosso objetivo em todas as outras petições, 1 Pedro 4.11.

(2) Ele nos ensinou o que esperar. Se nós, sinceramente, nos dispusermos a glorificar ao nosso Pai, Ele não deixará de fazer por nós o que é necessário para nos capacitar a glorificá-lo, para nos dar a graça que Ele julgar suficiente, e a oportunidade que Ele julgar conveniente. Mas, se nós, secretam ente, honrarmos a nós mesmos mais do que a Ele, é justo que Ele nos abandone aos nossos próprios conselhos, e então, em lugar de honrar a nós mesmos, nos envergonharemos.

Em quarto lugar, Ele apela à sua comissão (vv. 2,3).

Ele deseja glorificar ao seu Pai, em conformidade com a comissão que lhe foi dada, e no desempenho dela: “Glorifica a teu Filho, assim como lhe deste poder, glorifica-o na execução dos poderes que lhe deste”, esta é a conexão com a petição. Ou: para que o Filho possa glorificar-te, de acordo com o poder que lhe foi dado, esta é a conexão com o apelo. Agora, veja aqui o poder do Mediador.

A. A origem do seu poder: “Tu lhe deste poder”. Ele tem o poder vindo de Deus, a quem pertence todo o poder. O homem, na sua condição caída, deve, para recuperar-se, estar sujeito a um novo modelo de governo, que não pode ser erigido senão por uma comissão especial sob o selo do céu, dirigida ao empreendedor deste glorioso trabalho, e que o constitui como único árbitro da grande diferença que havia, e o único fiador da grande aliança que haveria, entre Deus e o homem. Para este ofício, Ele recebeu seu poder, que deveria ser exercido de uma maneira distinta do seu poder e governo como Criador. Observe que o rei da igreja não é usurpador, como é o príncipe deste mundo. O direito de governar que Cristo possui é incontestável.

B. A extensão do seu poder: Ele tem “poder sobre toda a carne”.

(a) Sobre toda a humanidade. Ele tempo­ der no mundo dos espíritos, e sobre ele. As forças do mundo superior e invisível se sujeitam a Ele (1 Pedro 3.22). Mas, sendo agora o Mediador entre Deus e o homem, aqui Ele mostra o poder que tem sobre toda a carne. Eles eram homens que Ele deveria alcançar e salvar. Além deles, Ele tinha um remanescente que lhe tinha sido dado, e, portanto, toda aquela classe de seres foi colocada debaixo de seus pés.

(b) Sobre a humanidade considerada corrupta e decadente, pois ela é chamada “carne”, Gênesis 6.3. Se ela não tivesse, neste sentido, sido carne, não teria necessitado de um Redentor. Sobre esta raça pecadora, o Senhor Jesus tem todo o poder, e todo juízo, a respeito dela, é entregue a Ele, o poder de ligar ou desligar, absolver ou condenar, o poder, na terra, de perdoar ou não os pecados. Cristo, como Mediador, tem em suas mãos o governo sobre todo o mundo. Ele é o glorioso rei das nações, e tem todo o poder até mesmo sobre aqueles que não o conhecem, nem obedecem ao seu Evangelho. Aquele a quem Ele não governa, Ele domina, Salmos 22.28; 72.8; Mateus 28.18; cap. 3.35.

C. A grande intenção e o grande desígnio deste poder: “Para que dê a vida eterna a todos quantos lhe deste”. Aqui está exposto o mistério da nossa salvação.

(a) Aqui o Pai está transferindo os eleitos para o Redentor, e entregando-os a Ele, como sua incumbência e sob sua responsabilidade, como a coroa e recompensa pela sua missão. Ele tem um poder soberano sobre toda a raça decadente, mas um interesse peculiar nos escolhi­ dos restantes, que formam um remanescente. Todas as coisas foram colocadas debaixo dos seus pés, mas estes foram entregues na sua mão.

(b) Aqui o Filho está se empenhando em assegurar a felicidade daqueles que lhe foram dados, para poder dar-lhes a vida eterna. Veja como é grande a autoridade do Redentor. Ele tem vidas e coroas para dar, vidas eternas que nunca morrem, coroas imortais que nunca perdem o brilho. Considere agora como é grande o Senhor Jesus, que tem tal honra no seu dom, e como Ele é gracioso em dar a vida eterna àqueles que Ele se empenha para salvar.

[a] Ele os santifica neste mundo, dá-lhes a vida espiritual, que é a vida eterna em broto ou embrião, cap. 4.14. A graça na alma é o céu na alma.

[b] Ele os glorificará no mundo porvir. A felicidade deles será completa na visão e no usufruto de Deus. Isto só é mencionado porque pressupõe todas as outras partes da sua missão, ensinando-os, fazendo a expiação por eles, santificando-os, e preparando-os para a vida eterna, e, na verdade, tudo mais estava de acordo com isto. Nós somos chamados ao seu reino e à sua glória, e gerados para a herança. Aquilo que vem por último, na execução, foi realizado primeiro, na intenção, e é a vida eterna.

(c) Aqui está a subserviência ao domínio universal do Redentor: Ele tem poder sobre toda a carne, com o objetivo de poder dar a vida eterna aos escolhidos. Observe que o domínio de Cristo sobre os filhos dos homens está de acordo com a salvação dos filhos de Deus. Todas as coisas são por amor deles, 2 Coríntios 4.15. Todas as leis, ordenanças e promessas de Cristo, que são dadas a todos, destinam-se efetivamente a transmitir a vida espiritual, e assegurar a vida eterna, a todos os que foram dados a Cristo. Ele foi constituído como cabeça da igreja sobre todas as coisas. A administração dos reinos da providência e da graça está colocada na mesma mão, para que todas as coisas possam contribuir para o bem dos escolhidos.

1. Aqui está mais uma explicação deste grande desígnio (v. 3): “‘A vida eterna é esta’, que Eu tenho poder para dar e me comprometi a dar, esta é sua natureza, e este é o caminho que conduz a ela, conhecer ‘a ti só por único Deus verdadeiro’, e a todas as revelações e princípios da religião natural, ‘e a Jesus Cristo, a quem enviaste’, como Mediador, e as doutrinas e leis daquela santa religião que Ele instituiu, para a recuperação do homem do seu estado decadente”. Aqui temos:

(a) O grande objetivo que a religião cristã nos apresenta, que é a vida eterna, a felicidade de uma alma imortal na visão e no convívio com o Deus eterno. Isto Ele de­ via revelar a todos, e assegurar a todos os que lhe eram dados. Por meio do Evangelho, a vida e a imortalidade são trazidas à luz, tornam-se possíveis, uma vida que transcende a esta tanto em excelência quanto em duração.

(b) O caminho seguro para alcançar este abençoado objetivo, que é pelo correto conhecimento de Deus e de Jesus Cristo: ”A vida eterna é esta: que conheçam a ti”, o que pode ser interpretado de duas maneiras:

[a] A vida eterna está no conhecimento de Deus e de Jesus Cristo. O princípio presente desta vida é o conhecimento de Deus e de Cristo, com fé. A perfeição futura daquela vida será o conhecimento completo de Deus e de Cristo. Aqueles que são trazidos à união com Cristo, e que têm uma vida de comunhão com Deus em Cristo, sabem, até certo ponto, por experiência, o que é a vida eterna, e dirão: “Se isto é o céu, o céu é doce”. Veja Salmos 17.15.

[b] O conhecimento de Deus e de Cristo leva à vida eterna. Esta é a maneira como Cristo dá a vida eterna, pelo conhecimento daquele que nos chamou (2 Pedro 1.3), e esta é a maneira pela qual nós podemos recebê-la. A religião cristã nos mostra o caminho para o céu, em primeiro lugar, dirigindo-nos a Deus, como o autor e a felicidade da nossa existência, pois Cristo morreu para nos levar a Deus. Conhecê-lo como nosso Criador, amá-lo, obedecer a Ele, sujeitar-se a Ele, e confiar nele, como nosso governador, proprietário e benfeitor – devotar-se a Ele como nosso Senhor soberano, depender dele como nosso principal bem, e dirigir tudo ao seu louvor como nosso objetivo mais elevado-, isto é a vida eterna. Aqui Deus é chamado de único Deus verdadeiro, para distingui-lo dos falsos deuses dos pagãos, que eram falsificações e fingidores, não da pessoa do Filho, de quem se diz expressamente que é o Deus verdadeiro e a vida eterna (1 João 5.20), e que, neste texto, é proposto como o objeto da mesma consideração religiosa que o Pai. É certo que existe somente um Deus vivo e verdadeiro, que é o Deus que nós adoramos. Ele é o Deus verdadeiro, e não um mero nome ou noção. Ele é único Deus verdadeiro, e todos os que se apresentam como seus rivais são vaidades e mentiras. O serviço a Ele é a única religião verdadeira.

Em segundo lugar, dirigindo-nos a Jesus Cristo, como o Mediador entre Deus e o homem: “Jesus Cristo, a quem enviaste”. Se o homem tivesse continuado inocente, o conhecimento do único Deus verdadeiro teria sido a vida eterna para ele. Mas agora que ele é decaído, é necessário algo mais. Agora que somos culpados, conhecer a Deus é conhecê-lo como um Juiz justo, sob cuja maldição nos encontramos, e nada é mais mortal do que conhecer isto. Portanto, nós estamos preocupados em conhecer a Deus como nosso Redentor, pois somente por seu intermédio podemos ter acesso a Deus. Crer em Cristo é a vida eterna, e isto Ele se empenhou a dar a todos os que lhe foram dados. Veja cap. 6.39,40. Aqueles que conhecem a Deus e a Cristo já estão direcionados à vida eterna.

(2) Aqui Cristo ora para ser glorificado, em consideração a ter, até aqui, glorificado o Pai, vv. 4,5. O significado da petição anterior era: Glorifica-me neste mundo. O significado da última é: Glorifica-me no outro mundo. “Eu glorifiquei-te na terra, e agora, glorifica-me tu, ó Pai”. Observe aqui:

[1] Com que consolação Cristo reflete sobre a vida que viveu na terra: “Eu glorifiquei-te… tendo consumado a obra que me deste a fazer”. Ela está consumada. Ele não reclama da pobreza e da desgraça nas quais tinha vivido, na vida cansativa que tinha tido na terra, como qualquer homem de tristezas. Ele ignora isto, e se satisfaz em rever o serviço que tinha prestado ao seu Pai e o progresso que tinha tido na sua missão. Isto está registrado aqui, em primeiro lugar, para a honra de Cristo, porque sua vida na terra, em todos os aspectos, correspondeu completamente aos objetivos da sua vinda a este mundo. Observe que:

1. Nosso Senhor Jesus tinha recebido uma obra para fazer, por aquele que o enviou. Ele não veio ao mundo para ficar sem fazer nada, mas para andar fazendo o bem, e para cumprir toda ajustiça. Seu Pai lhe deu sua obra, seu trabalho na vinha, o indicou para a obra e também o ajudou a realizá-la.

2. A obra que lhe foi dada para fazer, Ele terminou. Embora não tivesse, ainda, passado pela última parte da sua missão, ainda assim estava tão perto de torná-la perfeita, por meio dos seus sofrimentos, que podia dizer: Eu a consumei, ela foi concluída. Ele estava dando seu toque final, Eu a consumei. A palavra significa que Ele realizou todas as partes da sua missão da maneira mais completa e perfeita.

3. Com isto, Ele glorificou ao seu Pai. Ele o louvou, Ele o agradou. É uma glória para Deus o fato de a sua obra ser perfeita, e esta também é a glória do Redentor. Ele conclui aquilo de que é o autor. Era uma maneira estranha, para o Filho, glorificar ao Pai humilhando-se (isto parece mais um menosprezo), mas ainda as­ sim foi planejado para que Ele pudesse glorificá-lo: “‘Eu glorifiquei-te na terra’, de tal maneira que os homens da terra puderam ver a manifestação da tua glória”. Em segundo lugar, está registrado para ser um exemplo a todos, para que possamos seguir seu exemplo.

1. Nós devemos nos dedicar a fazer a obra que Deus nos designou, de acordo com nossa capacidade e com a esfera da nossa atividade. Cada um de nós deve fazer todo o bem que puder neste mundo.

2. Nós devemos ter como objetivo a glória de Deus em tudo. Nós devemos glorificá-lo na terra, a qual Ele deu aos filhos dos homens, e só exigiu este tipo de aluguel. Na terra onde estamos, vivemos em um estado de provação e preparação para a eternidade.

3. Nós devemos perseverar em fazer nosso trabalho até o fim dos nossos dias. Não devemos nos sentar até que o tenhamos concluído e cumprido, como um assalariado dos nossos dias. Em terceiro lugar, está registrado para o incentivo de todos aqueles que descansam nele. Se Ele concluiu a obra que lhe foi dada a fazer, então Ele é um Salvador completo, e não realizou sua obra pela metade. E aquele que terminou sua obra por nós, irá terminá-la em nós, até o dia de Cristo.

[2] Veja com que confiança Cristo espera a alegria que está diante dele (v. 5): “Agora, glorifica-me tu, ó Pai”. É nisto que Ele confia, e não pode ser-lhe negado.

Em primeiro lugar, veja aqui o que Ele pedia na oração: “Glorifica-me”, como antes, v. 1. Nenhuma das repetições nas orações devem ser consideradas como repetições inúteis. Cristo orava dizendo as mesmas palavras (Mateus 26.44), e mesmo assim orava fervorosamente. Ele devia pedir mesmo por aquilo que seu Pai lhe tinha prometido, e assegurado, orando. As promessas não se destinam a substituir as orações, mas a guiar nossos desejos e fundamentar nossas esperanças. A glorificação de Cristo inclui todas as honras, os poderes e as alegrias do seu estado exaltado. Veja como esta glorificação está descrita.

1. É uma glória com Deus. Não somente: “Glorifica meu nome na terra”, mas: “Glorifica-me junto de ti mesmo”. Estar com seu Pai era o paraíso, era o céu, como em Provérbios 8.30; Daniel 7.13; Hebreus 8.1. Observe que as mais brilhantes glórias do Redentor exaltado seriam exibidas dentro do véu, onde o Pai manifesta sua glória. Os louvores do mundo superior são oferecidos àquele que está assentado sobre o trono e ao Cordeiro, em conjunto (Apocalipse 5.13), e as orações do mundo inferior atraem a graça e a paz de Deus, nosso Pai, e nosso Senhor Jesus Cristo, em conjunto. E desta maneira, o Pai o glorificou junto de si mesmo.

2. E a glória que Ele tinha com Deus antes que o mundo existisse. Com isto, fica evidente:

(1) Que Jesus Cristo, como Deus, tinha sua existência antes que o mundo existisse, uma existência eterna com o Pai. O Evangelho nos familiariza com aquele que existia antes de todas as coisas, e por quem todas as coisas existem.

(2) Que sua glória com o Pai é desde a eternidade, assim como sua existência com o Pai, pois Ele era, desde a eternidade, o resplendor da glória de seu Pai, Hebreus 1.3. Como Deus, ao criar o mundo, somente declarou sua glória, mas não acrescentou nada a ela, assim Cristo empreendeu a obra da redenção, não porque precisasse de glória, pois tinha uma glória com o Pai antes que o mundo existis se, mas porque nós precisávamos de glória.

(3) Que Jesus Cristo, no seu estado de humilhação, se despiu de sua glória, e a escondeu com um véu. Embora ainda fosse Deus, Ele era Deus manifestado na carne, não na sua glória. Ele abandonou esta glória por algum tempo, como uma obrigação que Ele iria cumprir através da sua missão, de acordo com a indicação do seu Pai.

(4) Que, no seu estado exalta do. Ele retornou esta glória, e se revestiu outra vez com suas vestes anteriores de luz. Tendo cumprido sua missão, Ele retoma sua garantia com este pedido: “Glorifica-me tu”. Ele ora para que sua natureza humana possa progredir até a mais elevada honra possível, tendo seu corpo transformado em um corpo glorioso, e para que a glória da divindade pudesse agora se manifestar na pessoa do Mediador, do Emanuel, do Deus-homem. Ele não ora para ser glorificado com os príncipes e nobres da terra. Não, Ele, que conhecia os dois mundos, e que podia escolher em qual desejaria ter sua promoção, escolheu a glória do outro mundo, por exceder, e muito, toda a glória deste. Ele tinha desprezado os reinos deste mundo e sua glória, quando Satanás os ofereceu, e por isto podia, mais corajosamente, reivindicar as glórias do outro mundo. Que o mesmo espírito esteja em nós. “Senhor, dê as glórias deste mundo a quem desejar dá-las, mas permita-me ter minha quota de glória no mundo que há de vir. Não importa que eu seja difamado com os homens, mas Pai, glorifique-me junto de si mesmo”.

Em segundo lugar, veja aqui o que Ele alegou: Eu “glorifiquei-te”, e agora, em consideração a isto, “glorifica-me tu”. Pois:

1. Havia urna justiça e urna admirável conveniência no fato de que, se Deus era glorificado nele, devia glorificá-lo em si mesmo, corno Ele tinha observado, cap. 13.32. Havia um valor tão infinito no que Cristo fez para glorificar ao seu Pai, que Ele, com justiça, merecia todas as glórias do seu estado exaltado. Se o Pai tinha um acréscimo na sua glória, através da humilhação do Filho, era adequado que o Filho não sofresse, corno consequência, alguma perda na sua glória.

2. Estava de acordo com o concerto que havia entre eles, que, se o Filho fizesse da sua alma urna oferta pelo pecado, Ele deveria dividir os despojos com os poderosos (Isaias 53.10,12), e o reino seria seu. E isto Ele visava, e nisto confiava, em meio aos seus sofrimentos. Foi pelo gozo que lhe estava proposto que Ele suportou a cruz, e agora, no seu estado exaltado, o Senhor Jesus ainda espera a finalização da sua exaltação, porque Ele aperfeiçoou sua missão, Hebreus 10.13. 3. Esta era a evidência mais adequada da aceitação e da aprovação do Pai à obra que Ele tinha concluído. Pela glorificação de Cristo, nós nos satisfazemos porque Deus está satisfeito, e com isto foi dada urna verdadeira demonstração de que o Pai se comprazia nele, corno seu Filho amado.

3. Assim devemos aprender que aqueles, e somente aqueles, que glorificam a Deus na terra, e perseveram na obra que Deus lhes deu para fazer, serão glorificados com o Pai quando não mais estiverem neste mundo. Não que possamos merecer a glória, corno Cristo mereceu, mas o fato de glorificarmos a Deus é necessário corno urna evidência do nosso interesse em Cristo, por meio de quem a vida eterna é o dom gratuito de Deus.