PSICOLOGIA ANALÍTICA

O PODER DOS BONS SENTIMENTOS

Emoções positivas fortalecem o corpo e a mente, além de nos deixar em forma para enfrentar tempos de crise. A mais recente descoberta, porém, é que olhar o mundo através de lentes cor de rosa é algo que se pode treinar

O poder dos bons sentimentos

Há 70 anos, Cecília O’Payne fez seus votos perpétuos na congregação das Irmãs Pobres de Nossa Senhora em Milwaukee, Estados Unidos.

Na ocasião, a madre superiora lhe pediu que escrevesse um breve relato sobre a própria vida, incluindo fatos decisivos da infância e dos tempos de escola, bem como experiências de natureza religiosa que tivessem contribuído para levá-la ao convento.

Décadas depois, o relato de Cecília veio à luz, juntamente com as anotações de outras noviças que haviam ingressado na congregação na mesma época. Três psicólogos da Universidade de Kentucky decidiram examiná-las, no bojo de um amplo estudo sobre envelhecimento e mal de Alzheimer. No total, Deborah Danner, David Snowdon e Wallace Friesen avaliaram 178 relatos autobiográficos, a fim de definir seu “teor emocional” com base em manifestações de felicidade, interesse, amor e esperança. O que observaram foi algo notável, aparentemente, as freiras alegres viveram até dez anos mais que as que pouco enxergavam o lado bom de sua existência terrena. Do ponto de vista estatístico, a atitude positiva diante da vida rendeu a uma pessoa otimista como Cecília mais anos de vida do que um fumante apartado de seu cigarrinho. Ela tem hoje 98 anos.

O estudo das freiras não é um caso isolado. Há muito tempo cientistas notaram que, em média, as pessoas que se sentem bem vivem mais. Essa descoberta, porém, suscita mais perguntas que respostas. Como pode a confiança no futuro ajudar no prolongamento da expectativa de vida? É possível que bons sentimentos vividos hoje tenham consequências de tão longo prazo? E, se é assim, como encarar as emoções positivas, são uma questão de destino ou podem ser geradas deliberadamente?

Uma nova disciplina, a “psicologia positiva”, começa a dar as primeiras respostas a essas perguntas. Foi fundada há menos de uma década, fruto da iniciativa de Martin E. P. Seligman, então presidente da Associação Americana de Psicologia (AAA). Como muitos psicólogos, Seligman dedicou boa parte de sua carreira de pesquisador ao estudo das doenças mentais. No que se refere à busca de uma cura para elas, progressos significativos foram feitos nos últimos 50 anos. Em 1947, não havia tratamento eficaz para nenhuma das enfermidades mentais mais frequentes. Hoje, ao contrário, 16 delas podem ser tratadas por meio da psicoterapia, da psicofarmacologia ou de ambas. Por outro lado, a psicologia produziu poucos métodos capazes de ajudar o ser humano a alcançar maior plenitude pessoal.

Seligman queria corrigir precisamente esse desequilíbrio. Com a ajudado psicólogo Mihaly Csikszenmihalyi, da Universidade de Chicago (o inventor do conceito de “fluxo”, ou flow, para descrever momentos de felicidade), recomendou aos pesquisadores que se dedicassem à investigação daquilo que “faz a vida valer a pena”.

Há diversas razões para os sentimentos positivos terem sido alvo de pouca atenção no passado. Em primeiro lugar, as emoções positivas são mais difíceis de investigar que seus equivalentes negativos. Alegria, prazer e satisfação são sentimentos que não se distinguem um do outro com tanta nitidez quanto irritação, tristeza e medo. Assim, a ciência diferencia apenas um punhado de bons sentimentos: para cada emoção positiva identificada existem três ou quatro negativas.

Também nossas possibilidades de expressão corporal revelam-se mais bem compartimentadas quando se trata de afetos negativos. No mundo todo, qualquer pessoa é capaz de distinguir com precisão um rosto raivoso de outro triste ou amedrontado. No polo oposto, toda expressão espontânea de contentamento – seja ela de júbilo, vitória ou bem-aventurança –  apresenta sempre os mesmos atribui os do chamado “sorriso de Duchenne”, os cantos da boca se alçam e os músculos em torno dos olhos contraem-se involuntariamente, fazendo com que as maçãs do rosto se elevem e pequenas rugas surjam ao redor dos olhos.

A distribuição desigual de recursos atinge até o sistema nervoso vegetativo, que comanda órgãos internos, vasos sanguíneos e glândulas. Há 20 anos, os psicólogos Paul Ekman e Wallace Friesen, da Universidade da Califórnia (San Francisco), e Robert Levenson, da Universidade de Indiana, demonstraram que irritação, medo e tristeza provocam reações mensuráveis do corpo, o que não se verifica em relação a diversas emoções positivas.

Por fim, também a metodologia de investigação representa um problema. Com frequência, cientistas tentaram abordar a questão dos sentimentos bons valendo-se de modelos desenvolvidos para os afetos negativos. Estes trazem consigo o impulso para que se aja de determinada maneira: a irritação gera a necessidade do ataque, o medo compele à fuga, o nojo produz o desejo de vomitar. Decerto, nenhum pesquisador desejará afirmar que as pessoas obedecem às cegas a tais impulsos. Ainda assim, a margem de manobra no tocante à ação se estreita num instante. Quem sente medo não apenas pensa na fuga: também seu corpo se prepara de imediato para essa ação, elevando tanto a frequência cardíaca como a pressão sanguínea, e fazendo com que o sangue flua para as pernas, a fim de abastecer os músculos locomotores da melhor maneira possível.

Vistas dessa maneira, as emoções negativas nada mais são do que soluções eficazes para problemas recorrentes com que já se debatiam nossos ancestrais. Emoções positivas, no entanto, não se deixam explicar com tanta facilidade. Do ponto de vista evolutivo, alegria, prazer e gratidão parecem ter sido de pouca utilidade na garantia da sobrevivência. Terão representado alguma vantagem na nossa capacidade de adaptação ou apenas sinalizariam ausência de perigo.

O primeiro passo lógico na investigação dos sentimentos bons consiste em abrir mão dos velhos modelos em favor de novos. Em vez de solucionar problemas imediatos, talvez os bons sentimentos ajudem nosso desenvolvimento interior, preparando-nos assim para tempos mais difíceis. Segundo minha teoria do broaden and build (ampliar e construir), emoções positivas ampliam nosso repertório de pensamentos e ações, auxiliando na construção de recursos mentais duradouros.

A influência que estados de ânimo positivos exercem sobre pensamento e comportamento admite investigação psicológica. Em um de nossos experimentos, mostramos trechos curtos de filmes às pessoas, com o intuito de induzi-las a determinado estado emocional. Um bando de pinguins brincalhões gingando no gelo gerou alegria, pacíficas cenas da natureza, serenidade. O medo, nós o suscitamos com imagens de alturas vertiginosas, e a tristeza, mediante cenas de morte e de funerais. Como imagem “de controle”, exibimos um velho e aborrecido protetor de tela de computador.

Imediatamente após essa pequena sessão de cinema, testamos a capacidade dos participantes de entreter novos pensamentos. Para tanto, mostramos a eles um conjunto de três figuras geométricas e perguntamos qual de dois outros conjuntos de baixo mais se parecia ao de cima. Não se tratava de obter uma resposta certa ou errada: em um caso, as figuras se assemelhavam em sua configuração geral, em muro, no detalhe. Esse exame de vista mostrava, porém, se uma pessoa percebia, antes, a impressão geral ou se, ao contrário, se concentrava nos detalhes. O resultado foi que os bem-humorados tenderam a se orientar pela forma global – sinal de pensamento mais abrangente. Os mal-humorados ou neutros, se atinham aos detalhes.

 O poder dos bons sentimentos.2

CRIATIVIDADE E HUMOR

Efeitos semelhantes observou Alice Isen, da Universidade Cornell, em Nova York. Ela vem se dedicando há mais de duas décadas a descobrir se pessoas bem-humoradas pensam de modo diferente. A fim de mensurar o efeito dos sentimentos positivos sobre a criatividade, sua equipe fez uso do teste das “associações remotas” do psicólogo Sarnoff Mednick. A tarefa dos participantes consiste em, diante de três palavras, encontrar uma quarta que apresente nexo temático com as anteriores. Se, por exemplo, as palavras dadas são “humor”, “quadro” e “‘noite”, a resposta correta é “negro”. De início, esse teste era empregado para determinar diferenças individuais de criatividade. lsen, no entanto, aplicou-o apenas a pessoas de bom humor variado. As mais contentes foram as que demonstraram melhor capacidade associativa. Criatividade, portanto, não é só questão de talento, mas também de humor apropriado.

Em outros experimentos, a pesquisadora das emoções pôs-se a investigar se a capacidade diagnóstica de um médico dependia de sua disposição emocional. Para tanto, lsen deu a alguns médicos um saquinho de doces e pediu que pensassem em voz alta enquanto examinavam o caso de um paciente com um problema no fígado. Comparados aos demais, os médicos premiados com doces não apenas avaliaram com mais rapidez os diferentes dados, como demonstraram menor tendência a se aferrar a um único pensamento, revelando-se, antes, dispostos a descartar conclusões precipitadas. Da mesma forma, mediadores bem-humorados saíram-se melhor, em outro experimento, no bom encaminhamento de negociações complexas. Conclusão, o pensamento das pessoas que se sentem bem é mais criativo, mais flexível, mais abrangente e mais aberto.

Mas o que resta quando o sentimento positivo desaparece? Assim como as emoções positivas dão origem a novas ideias e novas possibilidades de ação, elas podem conduzir também a mudanças profundas e duradouras. Quando as crianças riem em plena folia ou os adultos se divertem jogando futebol, sua motivação pode ser meramente hedonista; mas o fato é que, ao fazê-lo, estão construindo recursos físicos, intelectuais e sociais: o movimento faz bem à saúde, as estratégias de jogo contribuem para a capacidade de solucionar problemas, a camaradagem fortalece laços sociais. Estudos mostram que algo semelhante acontece também com macacos, ratos e esquilos.

Recentemente, testamos ainda a relação entre poder de resistência psíquica e alegria ele viver. Em meados do primeiro semestre, solicitamos aos participantes dessa experiência que descrevessem seu estado emocional e sua visão do futuro. No segundo semestre, entrevistamos o mesmo grupo de pessoas. Nesse meio tempo, ocorreu o 11 de setembro.

Em razão dos atentados, quase todos os participantes mostraram-se abatidos na segunda entrevista, alguns revelando também raiva ou medo. Tivemos de classificar mais de 70% deles como deprimidos. Digno de nota, no entanto, foi que aqueles nos quais havíamos identificado capacidade de resistência no início do ano seguiram nutrindo alguns sentimentos positivos, mesmo depois dos ataques nos Estados Unidos. A gratidão foi o mais mencionado. Os otimistas disseram, por exemplo, ter constatado que “a maioria das pessoas neste mundo é boa! – um importante processo de aprendizado, fortalecedor da alegria de viver. Além disso, a probabilidade de essas pessoas se deprimirem era de 50%. O sintoma manifestado diante da vida claramente as protegia da depressão.

Uma experiência com colegas de faculdade comprova essa capacidade geradora de recursos presente nos sentimentos positivos. Pedimos aos participantes que, durante um mês, refletissem diariamente sobre que sentido positivo podiam extrair dos piores e dos melhores acontecimentos de seu dia-a-dia, bem como daqueles que lhes pareciam sem importância. Bastaram quatro semanas para que seu poder de resistência psíquica se elevasse em relação às pessoas do grupo de controle.

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DE CORAÇÃO LEVE

Encontramos, enfim, uma maneira de medir o efeito fisiológico provocado pelas emoções positivas. Era plausível supor que sentimentos bons modificassem a reação de stress do corpo a eventos desgastantes. Ela se deixa verificar muito bem no sistema nervoso vegetativo e na circulação cardiovascular.

Em um de nossos experimentos, submetemos os participantes a uma situação de pressão comunicando-lhes que teriam exatamente um minuto para preparar um discurso, que seria registrado em vídeo e avaliado pelos demais participantes. O prazo curtíssimo para o cumprimento da tarefa gerou angústia, elevando a frequência cardíaca e a pressão sanguínea. Logo em seguida, mostramos a cada participante um de quatro filmes: dois deles tendiam a provocar sentimentos positivos – diversão e contentamento -, ao passo que o terceiro pouco os afetava e o quarto provocava tristeza. Enquanto assistiam ao filme, acompanhamos os indicadores de stress.

Nos participantes que assistiram a um dos filmes alegres, o valor do stress medido retornou ao inicial com mais rapidez que nas pessoas que viram o neutro. E os que só podiam se entristecer com o quarto filme foram os que precisaram de mais tempo para se recuperar do susto.

Fica evidente que os sentimentos positivos exerceram influência benéfica no agitado sistema cardiovascular. Contudo, são ainda em grande parte desconhecidos os mecanismos cognitivos e fisiológicos que estão por trás desses processos. Tampouco nossa pergunta inicial encontra-se respondida, de que forma os sentimentos positivos promovem a longevidade. Está claro que fazem mais que produzir mero bem-estar momentâneo.

Sua atuação moderadora em situações estressantes sugere que eles poderiam, a longo prazo, reduzir o dano causado ao sistema cardiovascular pelos sentimentos negativos. A isso vem se somar, no entanto, outro fenômeno: quem está contente hoje já está a caminho de ser igualmente mais feliz no futuro.

Em conjunto com Thomas Joiner, examinamos se a disposição positiva de ânimo e o pensamento mais abrangente estimulam ou mesmo fortalecem um ao outro. Com o auxílio de testes-padrão e intervalo de cinco semanas, comparamos o estado de ânimo e a postura mental de 138 estudantes. O resultado foi que a disposição positiva na primeira etapa redundou, na segunda num incremento desse mesmo estado de ânimo e em maior abrangência de pensamento.  Do mesmo modo, mas em sentido inverso, o pensamento mais abrangente na primeira etapa incrementou tanto o ânimo positivo como a abrangência de pensamento na segunda. Ou seja, pessoas em geral bem-humoradas evidentemente se deixam alçar com mais facilidade numa contínua espiral ascendente.

Sentimentos positivos não modificam apenas o indivíduo: atuam de forma contagiosa. Assim foi que Alice lsen descobriu serem os otimistas mais prestativos. Boas ações, por sua vez, geram contentamento, porque podemos nos orgulhar delas. Os que receberam ajuda sentem-se agradecidos, e mesmo “espectadores” casuais se alegraram com o que viram. Numa reação em cadeia, os sentimentos positivos conduzem a uma postura mental abrangente e à solicitude, o que, por sua vez, desencadeia mais emoções positivas.

Tudo isso mostra que necessitamos de métodos que nos permitam experimentar sentimentos positivos com mais frequência. De certo, o humor e o riso parecem oferecer o caminho mais curto; em tempos difíceis, todavia, é mais fácil falar do que fazer. Tendo por base nossos experimentos mais recentes com universitários, meu conselho é que procuremos a felicidade em todas as situações da vida e nas coisas mais simples. Quem deseja descobrir algo de bom num mundo complexo e, em parte, opressivo, precisa apelar para as próprias forças e para as de seus semelhantes. Afinal, o mais poderoso aliado no caminho para a maturidade e a força interior é nossa consciência.

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OUTROS OLHARES

A LUTA PELA DOAÇÃO

Cerca de 40% das famílias brasileiras não autorizam doar órgãos, mas está em ação um grande esforço para derrubar esse alto índice de recusa. Uma medida simples pode ajudar muito: é só avisar aos mais próximos de que deseja ser doador.

A luta pela doação

Yuri Sousa Aurélio, 29 anos, Bruna Damasceno de Sousa, 30 anos, Cilene Pereira, 52 anos, Edson Araki, 56 anos, Fabiana Pighini, 37 anos. Dar o nome e sobrenome das pessoas que aparecem nas fotos desta reportagem é uma obrigação jornalística. Nesse caso, no entanto, é acima de tudo a forma de evidenciar por meio das histórias desses cinco indivíduos a importância de apenas um gesto para que a vida continue. De outro jeito, é verdade, mas ela continua. Todos foram beneficiados por doações de órgãos imprescindíveis para que pudessem continuar seus caminhos. Sem o ato de generosidade de alguém que não conhecem – e que não os conhece – certamente não estariam aqui estampando o sorriso que ilustra esses retratos.

As fotos farão parte de uma exposição a ser montada em São Paulo como parte de um pacote de iniciativas para estimular a doação de órgãos no Brasil. A decisão de exibir as cicatrizes intenciona, também, quebrar o conceito equivocado de que corpo bonito é corpo sem marcas. A ideia da mostra partiu da Bruna, que passou por quatro transplantes (três de fígado e um de rim), necessários por causa de complicações causadas por uma doença metabólica, e do cantor Bruno Saike, ativista e idealizador da ação #Juntos pela doação de órgãos. Na quinta-feira 27, comemorou-se o dia da Nacional de Incentivo à Doação de órgãos, desde então já foram realizadas outras ações. Do movimento #Juntos, por exemplo, incluiu-se o lançamento nas plataformas digitais de uma coletânea com gravações de artistas como Pitty, Irá! e He Saike e um ato na quarta-feira 26, na Arena Corínthians, antes do início da semifinal entre Corinthians e Flamengo pela Copa do Brasil. A Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) também preparou um calendário de eventos que teve seu ponto alto no dia 27, com a iluminação em verde (cor da campanha) do prédio da FIESP, na Avenida Paulista.

São ações mais do que necessárias. Entre janeiro e junho, quase 33 mil adultos aguardavam por um órgão, segundo a ABTO. Crianças somavam 706. A fila maior é para rins, seguida pela de fígado e de coração. Dos 5,4 mil adultos que ingressaram na lista no primeiro semestre, 728 morreram. Das 159 crianças, 7 perderam a vida antes que conseguissem uma doação.

Falar em doação de órgãos é daqueles assuntos sobre os quais ninguém quer conversar a respeito. Discutir o tema lembra a morte e, por isso mesmo, é compreensível que cause desconforto. Mas é nessa mudança de comportamento que residirá boa parte da virada de jogo para tirar muita gente da espera e tomar o Brasil mais solidário. O número de pacientes que aguardam por um transplante só é tão alto porque, basicamente, faltam doadores. Capacidade técnica, em gente e em equipamentos, o País possui. ”Poderíamos aumentar o total de cirurgias porque os hospitais têm estruturas muito bem estabelecidas”, afirma o cirurgião André Ibrahim David, do Departamento do Transplante de Fígado da ABTO.

É verdade que há deficiências, como limitações nos hospitais para o reconhecimento de potenciais doadores e sua notificação à central de Transplantes. Mas é fato que times bem organizados – médicos, enfermeiras, assistentes sociais, psicólogas, nutricionistas – trabalham com maestria desde a captação de órgãos até a recuperação do transplantado. Um belo exemplo é a equipe chefiada pela enfermeira Vanessa Gonçalves, coordenadora de uma das quatro que atuam na capital paulista na captação de órgãos. Ela comanda uma espécie de esquadrão da vida acionado sempre que chega ao serviço a informação de um possível doador nos hospitais.

A luta pela doação.2

MOMENTO DIFÍCIL E DECISIVO

E é ai, com treinamento e sensibilidade, que começa um trabalho que, horas depois, pode transformar a morte em vida novamente. Vanessa e seu time têm a missão de explicar aos familiares que órgãos da pessoa que acabam de perder podem ser doados se apresentarem condições para tal. Antes de abordar a família, é preciso identificar a reação emocional dos envolvidos e aproximar-se quando for possível. É um momento difícil, mas decisivo. Ainda atordoados pela notícia do falecimento, os familiares precisam entender conceitos como o de morte encefálica – completa e irreversível parada das funções cerebrais – e deduzir se permitem a doação. Só quem pode autorizar são parentes em até segundo grau, cônjuges ou companheiros. Em geral, quatro em cada dez famílias não permitem a doação. Nos primeiros seis meses do ano, o índice médio de recusa no País foi de 43%. No Mato Grosso, 90% disseram não à doação. O mais impressionante é que 60% das negativas acontecem porque a família simplesmente não sabe se a pessoa queria ser doadora. Na dúvida, prefere manter o corpo preservado. Quando as pessoas sabem do desejo que o indivíduo tinha de doar, a autorização é dada sem vacilação. É uma forma de cumprir o último desejo de quem partiu. Às vezes, os familiares incluem a opção por doar, como foi o caso de Sérgio Miwa quando seu pai, Setsuo Miwa, morreu, há dois anos. “Ele foi uma pessoa que ajudava os outros. Achei que gostaria de ter ajudado mais uma vez”, conta Sérgio. A doação de Setsuo salvou três pessoas.

Por essa razão, um dos esforços é estimular que as pessoas digam, principalmente aos familiares, que desejam ser doadores. “Informe a sua família sobre seu desejo”, diz a enfermeira Vanessa. Em outra frente, especialistas envolvidos na batalha pelo aumento dos transplantes lutam pela criação de um estatuto do doador com medidas que possibilitem, por exemplo, que as pessoas registrem seu posicionamento. “Também pensamos em criar um aplicativo por meio do qual o usuário registre que é doador. Pode servir de fonte de pesquisa para a família se solicitada a doar os órgãos do parente falecido”, conta o cirurgião André Ibrahim. Colocar-se à disposição para salvar vidas, portanto, é mais simples do que parece. É só dizer “Sim, sou doador.”

 A luta pela doação.3

LONGA ESPERA

Entre janeiro e junho de 2018, 32.716 brasileiros estavam na lista de espera por órgãos.

RIM – 21.962 PESSOAS

FÍGADO – 1.239 PESSOAS

CORAÇÃO – 232 PESSOAS

PULMÃO – 177 PESSOAS

PÂNCREAS – 32 PESSOAS

PÂNCREA/RIM – 500 PESSOAS

CÓRNEA – 8.574 PESSOAS

 

CRIANÇAS ERAM 706

RIM – 364

FÍGADO – 46

CORAÇÃO – 37

PULMÃO – 21

PÂNCREA/RIM – 1

CÓRNEA – 237

GESTÃO E CARREIRA

NÃO QUERO SER SOCIÁVEL

Para alguém de Q.I. alto, interação com os outros é perda de tempo.

Não quero ser sociável

O inferno são os outros, decretou Jean-Paul Sartre em Entre Quatro Paredes, peça teatral de 1944. Mais de 70 anos depois, estudo de pesquisadores da London School of Economics e da Singapore Management University, publicado no British Journal of Psychology, parece reforçar a tese do pensador: embora tradicionalmente a socialização de grupos humanos tenha sido fundamental para a sobrevivência da espécie, os autores descobriram que, quanto mais densa a área habitada, menor é o grau de satisfação das pessoas – uma das causas óbvias, por exemplo, seriam as longas distâncias entre a casa e o trabalho, percorridas em ruas congestionadas ou no transporte público lotado. Esta conclusão confirma estudos anteriores que detectaram o fenômeno do “gradiente de felicidade urbano-rural”: residentes em áreas rurais isoladas são mais felizes que habitantes de pequenas cidades, que por sua vez são mais felizes que os de cidades médias…

Entrevistando 15 mil pessoas entre 18 e 28 anos, a pesquisa revelou um dado interessante: quanto maior o nível de inteligência do entrevistado, menor é seu grau de interação social. Para essas pessoas, interações com os outros são perda de tempo que apenas as desviam de objetivos maiores, projetos ambiciosos ou estudos profundos, aumentando seu grau de insatisfação. Além disso, os mais inteligentes estariam mais habilitados a enfrentar os desafios impostos pelos novos tempos à sociedade humana, como rápidas mudanças no mercado de trabalho ou na tecnologia da informação, dispensando a ajuda de outros. Mas cuidado com o truque da insociabilidade forçada. Subordinados menos brilhantes muitas vezes se tornam mais frios e calculistas para parecer mais inteligentes do que são. Isso prejudica o ambiente no trabalho.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 16: 28-33

Alimento diário

As Revelações de Cristo sobre si mesmo

Aqui Cristo consola seus discípulos com duas coisas:

 

I – Com a certeza de que, embora Ele estivesse deixando o mundo, Ele estaria retornando ao seu Pai, de quem Ele tinha vindo, vv. 28-32, onde temos:

1. Uma declaração clara sobre a missão de Cristo, enviado pelo Pai, e seu retorno até Ele (v. 28): “Saí do Pai e vim”, como podem ver, “ao mundo; outra vez, deixo o mundo”, comoverão em breve, “e vou para o Pai”. Esta é a conclusão de todo o assunto. Não havia nada que Ele tivesse inculcado mais neles do que estas duas coisas – de onde Ele vinha e para onde ia, o alfa e o ômega do mistério da piedade (1 Timóteo 3.16). O Redentor, na sua vinda, era Deus manifestado em carne, e na sua partida, seria “recebido acima, na glória”.

(1). Estas duas grandes verdades aqui estão:

[1] Resumidas, e expressas em poucas palavras. Os sumários breves da doutrina cristã são de grande utilidade para os novos convertidos. Os princípios dos oráculos de Deus trazidos a um pequeno âmbito nos credos e catecismos, como os raios do sol convergentes em uma lente, transmitem a luz e o calor divinos com um poder maravilhoso. Temos este assunto em várias passagens, como, por exemplo, Jó 28.28; Eclesiastes 12.13; 1 Timóteo 1.15; Tito 2.11,12; 1 João 5.11.

[2] Comparadas, e colocadas uma contra a outra. Existe uma harmonia admirável nas verdades divinas. Elas corroboram e ilustram umas às outras. A vinda e a partida de Cristo fazem isto. Cristo tinha elogiado seus discípulos por crerem que Ele vinha de Deus (v. 27), e consequentemente deduz a necessidade e justiça do seu retorno, outra vez, a Deus, que, portanto, não deveria parecer a eles nem estranho nem triste. Observe que o devido aprimoramento daquilo que conhecemos e reconhecemos nos ajuda a compreender aquilo que parece difícil e duvidoso.

(2). Se perguntarmos sobre o Redentor, de onde Ele vinha e para onde ia, saberemos:

[1] Que Ele vinha do Pai, que o santificou e selou. Ele veio a este mundo, a este mundo inferior, a este mundo da humanidade, em cujo meio, pela sua encarnação, Ele se alegrou por se incorporar. Aqui estão seus afazeres, e Ele veio aqui para realizá-los. Ele trocou sua casa por este país estranho, trocou seu palácio por esta cabana. Que maravilhosa condescendência!

[2] Que, quando Ele concluiu sua obra na terra, Ele deixou o mundo e voltou para seu Pai, por ocasião da sua ascensão. Ele não foi forçado a ir, mas decidiu-se, por sua livre vontade, a deixar o mundo, a não mais retornar a ele até que viesse para acabar com ele. Mas, ainda assim, Ele está presente espiritualmente com sua igreja, e assim estará até o fim.

2. A satisfação dos discípulos com esta declaração (vv. 29,30): “Eis que, agora, falas abertamente”. Aparentemente, esta única mensagem de Cristo lhes fez mais bem do que todas as outras, embora Ele tivesse dito muitas outras coisas igualmente suficientes para influenciá-los. O Espírito, como o vento, assopra onde quer, e com esta mensagem o Senhor os satisfaz. Talvez uma mensagem que foi transmitida uma vez, ou duas, e não foi compreendida, se for suficientemente repetida, por fim será aceita. Com esta mensagem, eles são aprimorados em duas coisas:

(1). No conhecimento: “Eis que, agora, falas abertamente”. Quando eles estavam às escuras, sem entender o que Jesus dizia, eles não disseram: Eis que, agora, falas obscuramente, como culpando-o. Mas agora que compreendem o que Ele quer dizer, eles lhe dão glória por ser condescendente com a capacidade deles: “Eis que, agora, falas abertamente”. As verdades divinas têm mais probabilidade de fazer o bem quando são ditas claramente, 1 Coríntios 2.4. Observe como eles triunfaram, como o matemático triunfou com seu heureka, heureka, quando chegou a uma comprovação que tinha procurado por muito tempo: Descobri, descobri. Observe que, quando Cristo se alegra em falar claramente às nossas almas, e, com o rosto descoberto, nos levar a contemplar sua glória, nós temos motivos para nos alegrarmos com isto.

(2). Na fé: ”Agora, conhecemos”. Observe:

[1] Em que criam: “Cremos que saíste de Deus”. Ele tinha dito (v. 27) que eles deviam crer nisto. “Senhor”, dizem eles, “nós cremos, e temos motivos para crer, e sabemos que cremos, e temos o consolo disto”.

[2] Qual era o motivo da fé deles – a onisciência de Jesus. Isto provava que Ele era um mestre vindo de Deus, e mais do que um profeta, que Ele conhecia todas as coisas, do que eles se convenceram, porque Ele solucionava as dúvidas que estavam ocultas nos seus corações, e reagia aos escrúpulos que eles não tinham confessado. Observe que conhecem bem a Cristo aqueles que o conhecem por experiência, que podem dizer, ares­ peito do seu poder: Ele opera em mim, e a respeito do seu amor: Ele me amou. E isto prova que Cristo não somente tem uma missão divina, mas que é uma pessoa divina, uma vez que Ele discerne os pensamentos e as intenções do coração, e por isto é a Palavra essencial e eterna, Hebreus 4.12,13. Ele faz com que todas as igrejas saibam que Ele sonda as mentes e os corações, Apocalipse 2.23. Isto confirmou a fé dos discípulos aqui, como fez a primeira impressão sobre a mulher samaritana, a quem Cristo disse todas as coisas que ela tinha feito (cap. 4.29), e sobre Natanael, a quem Cristo viu debaixo da figueira, cap. 1.48,49.

As palavras: “E não precisas de que alguém te interrogue”, podem também significar, ou, em primeiro lugar, a aptidão que Cristo tinha para ensinar. Ele nos ad­ verte com suas instruções, e transmite os tesouros de sabedoria e conhecimento que estão escondidos nele, e não precisa ser importunado. Ou, em segundo lugar, sua capacidade de ensinar: “Tu não precisas, como outros professores, ouvir as dúvidas dos alunos, pois tu sabes em que eles tropeçam, sem que alguém te conte”. O melhor dos professores somente pode responder ao que é perguntado, mas Cristo pode responder ao que é pensado, ao que temos medo de perguntar, como os discípulos aqui, Marcos 9.32. Desta maneira, Ele pode se compadecer; Hebreus 5.2.

3. A gentil repreensão que Cristo fez aos seus discípulos, pela confiança que tinham de que agora o entendiam, vv. 31,32. Observando como eles triunfavam nas suas conquistas, Ele perguntou: “‘Credes, agora?’ Agora vos considerais discípulos avançados e confirmados?

Agora pensais que não cometereis mais erros tolos? Ai! Vós não conheceis a própria fraqueza. Em breve, “sereis dispersos, cada um para sua casa” etc. Aqui temos:

(1). Uma pergunta que pretendia fazê-los refletir: “Credes, agora?”

[1] “Se creem agora, por que não creram antes? Vocês não ouviram as mesmas coisas, muitas vezes, antes?” Aqueles que, depois de muitas instruções e muitos convites, são, por fim, persuadidos a crer, têm motivos para se sentirem envergonhados porque não o fizeram durante tanto tempo.

[2] “Se agora, por que não sempre? Quando chegar uma hora de tentação, onde estará sua fé?” Enquanto houver inconstância na nossa fé, há motivos para questionarmos a sinceridade desta fé, e perguntar: “Nós realmente cremos?”

(1). Uma predição do fracasso deles, de que, por mais confiantes que estivessem agora da sua própria estabilidade, dentro de pouco tempo todos o abandonariam, o que se cumpriu naquela mesma noite, quando, depois de Cristo ter sido aprisionado por um grupo de guardas, “todos os discípulos, deixando-o, fugiram”, Mateus 26.56. Eles se dispersaram:

[1] Uns dos outros. Cada um deles procurou sua própria segurança, sem nenhum cuidado ou preocupação pelos outros. Os tempos de tribulação são tempos de dispersão para as sociedades cristãs. No dia de nuvens e de escuridão, o rebanho de Cristo se dispersa, Ezequiel 34.12. Cristo, como uma sociedade, não é visível.

[2] Dispersaram-se por causa dele: “Me deixareis só”. Eles deviam ter sido testemunhas a favor dele, no seu julgamento, deveriam ter ministrado a Ele, nos seus sofri­ mentos. Se eles não podiam ter-lhe dado nenhum consolo, deviam ter-lhe dado algum crédito. Mas eles se envergonharam quando Ele foi preso, e temeram compartilhar com Ele seus sofrimentos, e o deixaram sozinho. Observe que muitas boas causas, quando são atormentadas por seus inimigos, são abandonadas por seus amigos. Os discípulos tinham permanecido com Cristo nas suas outras tentações, mas voltaram-lhe as costas agora. Aqueles que são postos à prova, nem sempre se provam confiáveis. Se, em alguma ocasião, julgarmos nossos amigos pouco corteses conosco, recordemos que os amigos de Cristo também o foram com Ele. Quando o deixaram sozinho, dispersaram-se, cada homem para sua casa. Não às suas próprias propriedades e residências, pois estas eram na Galileia, mas aos seus próprios amigos e conhecidos, em Jerusalém. Cada um seguiu seu próprio caminho, onde acreditava que estaria mais seguro. Cada homem protegeu o que era seu, a si mesmo, e à sua própria vida. Observe que aqueles que procuram suas próprias coisas mais do que as coisas de Cristo, e que consideram as coisas deste mundo como tardia – sua própria propriedade, em que está sua felicidade, não ousarão sofrer pelo Evangelho. Observe aqui que, em primeiro lugar, Cristo sabia de antemão que seus discípulos o abandonariam no momento crítico, e ainda assim era carinhoso com eles, sem ser, de nenhuma maneira, descortês. Nós estamos prontos a dizer, a respeito de algumas pessoas: “Se pudéssemos ter predito sua ingratidão, não teríamos sido tão gentis nos nossos favores a elas”. Cristo predisse a ingratidão dos discípulos, e ainda assim foi gentil com eles. Em segundo lugar, Ele lhes falou disto como uma censura à exultação deles pelas suas conquistas atuais: “‘Credes, agora?’ Não se tenham em alto conceito, mas temam, pois, em pouco tempo, descobrirão sua fé tão dolorosamente abalada, a ponto de tornar questionável se ela é sincera ou não”. Observe que, mesmo quando estamos recebendo o consolo das nossas graças, é bom que nos lembremos dos perigos que corremos por causa das nossas corrupções. Quando nossa fé é forte, nosso amor, flamejante, e nossas evidências, claras, ainda assim não podemos concluir, a partir disto, que o amanhã será como este dia. Mesmo quando temos mais motivos para pensar que permaneceremos em pé, ainda teremos razões suficientes para tomar cuidado para não cair. Em terceiro lugar, Ele falou sobre isto como sendo algo muito próximo. De certa maneira, era chegada a hora em que eles se sentiriam tão precavidos contra Ele quanto sempre tinham sentido carinho por Ele. Observe que um período curto de tempo produz grandes mudanças, tanto a nosso respeito quanto em nós.

(3) Não obstante, uma garantia da sua própria consolação: “Mas não estou só”. Ele não desejava que interpretassem que Ele estivesse se queixando porque eles o deixavam, como se nisto houvesse algum prejuízo real para Ele, pois, na ausência deles, Ele teria a certeza da presença do seu Pai, que era – tudo: “O Pai está comigo”. Podemos considerar isto:

[1] Como um privilégio peculiar ao Senhor Jesus: o Pai esteve com Ele nos seus sofrimentos como nunca Ele esteve com ninguém, pois Ele ainda estava no seio do Pai. A natureza divina não abandonou a natureza humana, mas a suportou, e concedeu uma consolação invencível e um valor inestimável aos seus sofrimentos. O Pai tinha se comprometido a estar com Ele durante toda a sua missão (Salmos 89.21ss.), e a preservá-lo (Isaias 49.8). Isto lhe dava coragem, Isaías 50.7. Mesmo quando Ele reclamou que seu Pai o abandonou, ainda o chamou de “meu Deus”, e imediatamente depois teve tanta certeza da sua presença favorável, que entregou seu espírito em suas mãos. O Senhor Jesus tinha se consolado, todo o tempo, com isto (cap. 8.29): ”Aquele que me enviou está comigo; o Pai não me tem deixado só”, e especialmente agora, no final. Isto auxilia nossa fé na aceitação da expiação de Cristo. Sem dúvida, o Pai se comprazia nele, pois acompanhou-o em sua missão, desde o início até o final.

[2] Como um privilégio comum a todos os crentes, em virtude da sua união com Cristo. Quando estiverem sozinhos, não estarão sós, mas o Pai estará com cada um deles. Em primeiro lugar, quando a solidão for uma escolha de cada um deles, quando estiverem sós, como Isaque no campo, Natanael debaixo da figueira, e Pedro no terraço, meditando e orando, o Pai estará com eles. Aqueles que estão com Deus, em meio à solidão, nunca estão realmente a sós. O Deus bom e um bom coração são boas companhias em qualquer ocasião. Em segundo lugar, quando a solidão é sua aflição, seus inimigos os deixam sós, e seus amigos também, seu círculo de relacionamentos, como o de Jó, se esvazia. Ainda assim, não estão tão sós quanto pensam estar, pois o Pai está com eles, assim como esteve com José na sua prisão, e com João no seu exílio. Nas suas maiores dificuldades, eles são como aquele de quem seu pai se apieda, como aquele a quem sua mãe consola. E, enquanto tivermos a presença favorável de Deus conosco, seremos felizes, e deveremos ficar tranquilos. Nós não estaremos conferindo a honra devida a Deus, amenos que o consideremos o único todo-suficiente. Calvino.

 

II – Ele os consola com uma promessa de paz em si mesmo, em virtude da sua vitória sobre o mundo, sejam quais forem as dificuldades com que eles se depararem (v. 33): “‘Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz’. E, se não a tiverdes comigo, não a tereis nunca, de maneira nenhuma, pois no mundo tereis tribulações. Vós não deveis esperar por mais ninguém, mas deveis alegrar-vos, pois Eu venci o mundo”. Observe:

1. O objetivo que o Senhor Jesus Cristo tinha ao pregar este sermão de despedida aos seus discípulos: que nele, eles pudessem ter paz. Com isto, Ele não pretendia dar-lhes uma visão completa daquela doutrina da qual, em pouco tempo, eles se tornariam mestres, pelo derramamento do Espírito, mas somente fazê-los perceber, neste momento, que seu afastamento deles tinha, realmente, as melhores intenções. Ou podemos interpretar de maneira mais genérica: Cristo tinha dito tudo isto a eles, para que, quando se alegrassem nele, pudessem sentir a melhor alegria em si mesmos. Observe:

(1)  É a vontade de Cristo que todos os seus discípulos tenham paz interior, quaisquer que sejam os problemas externos. 

(2) A paz em Cristo é a única paz verdadeira, e somente nele os crentes a têm, pois Ele mesmo é nossa paz, Mateus 5.5. Por intermédio dele, nós temos paz com Deus, e, da mesma forma, nele, nós temos paz no nosso espírito.

(3) Este é o objetivo da Palavra de Cristo, que nele possamos ter paz. A paz é o fruto dos lábios, e especialmente dos lábios santos do Senhor Jesus, Isaías 57.19.

2. A acolhida que eles provavelmente encontrariam no mundo: “Vocês não terão uma paz exterior, nunca esperem tê-la”. Embora fossem enviados para proclamar a paz na terra, e a boa vontade para com os homens, eles deveriam esperar problemas na terra, e má vontade por parte dos homens. Observe que a sorte dos discípulos de Cristo era ter tribulações neste mundo, maiores ou menores. Os homens os perseguem por serem tão bons, e Deus os corrige por não serem melhores. Os homens desejam eliminá-los da terra, e Deus deseja, pelos sofrimentos, torná-los adequados para o céu. E desta maneira, entre ambos, eles terão tribulações.

3. O incentivo que Cristo lhes dá com referência a isto: “Mas tende bom ânimo”. “Não somente se sintam consolados, mas tenham coragem. Tenham bom ânimo, e tudo ficará bem”. Observe que, em meio às tribulações deste mundo, é o dever e o interesse dos discípulos de Cristo ter bom ânimo, par a que possam conservar seu deleite em Deus, independentemente daquilo que os estiver pressionando. E sua esperança em Deus também deverá ser mantida, independentemente daquilo que os estiver ameaçando. Eles, sem dúvida, estarão contristados, de acordo com o estado de espírito da ocasião, e ainda assim estarão sempre alegres, sempre de bom ânimo (2 Coríntios 6.10), mesmo em meio às tribulações, Romanos 5.3.

4. A base para tal incentivo: “Eu venci o mundo”. A vitória de Cristo é um triunfo cristão. Cristo venceu o príncipe deste mundo, desarmou-o, e expulsou-o. E ainda esmaga Satanás debaixo dos nossos pés (Romanos 16.20). Ele venceu os filhos deste mundo, pela conversão de muitos à fé e à obediência do seu Evangelho, tornando-os filhos do seu reino. Quando Ele envia seus discípulos para pregar o Evangelho a todo o mundo, “Tende bom ânimo”, diz Ele, “‘Eu venci o mundo’, e assim como Eu venci, vós também vencereis. Embora tenhais tribulações no mundo, ainda assim ganhareis seu espaço e cativareis o mundo”, Apocalipse 6.2. Ele venceu os maldosos do mundo, pois muitas vezes o Senhor silenciou seus inimigos, pela vergonha. “E tenham bom ânimo, pois o Espírito os capacitará para que possam fazer a mesma coisa”. Ele venceu as coisas malignas do mundo, sujeitando-se a elas. Ele suportou a cruz, desprezando-a, e se sujeitou a uma grande vergonha. O Senhor também venceu as coisas boas deste mundo, estando completamente morto para elas. Seus olhos não viram beleza nas suas honras, nem encantos nos seus prazeres. Nunca houve no mundo um vencedor como Cristo, e nós devemos nos sentir encorajados por isto:

(1) Pelo fato de Cristo ter vencido o mundo antes de nós, podemos considerar o mundo como um inimigo derrotado, que muitas vezes foi frustrado. Na verdade:

(2) O Senhor o venceu por nós, sendo o capitão da nossa salvação. Nós temos interesse na sua vitória: Pela sua cruz, o mundo foi crucificado para nós, o que indica que o mundo foi completamente derrotado e transferido para nossa possessão. ‘Tudo pertence ao Senhor, até o mundo. Tendo Cristo vencido o mundo, os crentes nada têm a fazer, senão buscar sua vitória e dividir os despojos. E isto nós fazemos pela fé, 1 João 5.4. Nós somos mais do que vencedores por meio daquele que nos amou.