PSICOLOGIA ANALÍTICA

RECEBER PRESENTES: UM PRAZER CEREBRAL

O anseio de receber é lentamente construído no cérebro graças à liberação dos “hormônios da expectativa.”

Receber presentes - um prazer cerebral

No momento em que recebemos: um presente que corresponde às nossas expectativas, sentimos uma onda de prazer. Essa sensação reside em conjuntos de neurônios especializados na percepção do prazer. Surgidos ao longo da evolução, eles cumprem uma função crucial, a manutenção da vida. Os sistemas cerebrais que mais influenciam o comportamento são os que nos levam a satisfazer as necessidades vitais (comer, beber, reproduzir-se e proteger-se). O prazer é o meio empregado pela evolução para que essas funções sejam asseguradas. Para favorecê-las, foi desenvolvido o sistema neuronal da recompensa. Esse circuito está no centro de nossas atividades.

Durante a evolução, o cérebro humano diferenciou-se do de outros mamíferos, principalmente mediante o desenvolvimento do córtex, o que propiciou um aumento na complexidade das conexões nervosas. As estruturas mais antigas, onde estão as células nervosas do sistema de recompensa no animal, permaneceram inseridas no cérebro ancestral, chamado de reptiliano. Na década de 50, os fisiologistas ingleses James Olds e Peter Milner fizeram uma experiência sobre o circuito da recompensa: eles implantaram, em uma determinada região do cérebro de ratos, o núcleo accumbens, eletrodos ligados a uma alavanca que o rato podia acionar. Observaram que o animal apoiava-se sem cessar sobre a alavanca, estimulando essa região de seu cérebro, esquecendo até mesmo de comer e beber. Essas experiências foram feitas também em seres humanos que passavam por operações cirúrgicas.

No sistema hedônico, principalmente na área tegmental ventral e no núcleo accumbens, o principal mensageiro químico endógeno é a dopamina. É esta a substância liberada no cérebro dos raios estimulados por um eletrodo. A maioria das drogas reforça a ação da dopamina. Constatou-se, por exemplo, que os raios se auto administram drogas na área tegmental ventral ou no núcleo accumbens quando um dispositivo lhes permite. Todas as drogas lícitas (álcool, tabaco) ou ilícitas (heroína, maconha, cocaína) causam um acréscimo na concentração de dopamina no núcleo accumbens, embora não diretamente proporcional à sensação de prazer. As substâncias psicoativas consumidas parecem ter uma propriedade comparável à dos sinais naturais de recompensa, elas aumentam a concentração de dopamina. Há, contudo, uma diferença notável: a modificação da atividade das células nervosas do circuito, sob a ação de recompensas naturais, dura apenas um ou dois segundos, enquanto as drogas exercem uma ação de várias dezenas de minutos. Isto foi demonstrado no animal e no homem, graças ao imageamento por ressonância magnética e à tomografia por emissão de pósitrons.

Uma injeção de morfina provoca no rato uma liberação de dopamina que dura alguns segundos e, no ser humano, a visualização de uma imagem agradável (doces ou cenas eróticas) tem os mesmos efeitos. A oferta de dopamina no núcleo accumbens produz o efeito hedônico. Além disso, após aprender, um animal pode se auto administrar, e de maneira repetitiva, a dopamina. Da mesma forma, parece que o prazer de receber um presente corresponde a uma disponibilidade de dopamina no núcleo accumbens.

Mas isso não é tudo. Há outro fator no prazer experimentado, a tensão que precede a recompensa. O neurologista Ray Dolan e seus colegas do Instituto de Neurologia da Universidade de Londres mostraram que o prazer associado ao alimento, por exemplo, só é acompanhado por uma liberação de dopamina se o consumo era esperado, o que corresponde à noção de desejo. Ressaltemos que a dopamina, hormônio do prazer par excelência, é liberada sob a influência de dois tipos de substâncias chamadas de neuropeptídios, secretadas pelo cérebro. Um deles, os peptídeos opioides endógenos, ou encefalinas, fixam-se sobre receptores chamados opioides de tipo u e engendrando resistência à dor, depois prazer e euforia e, em caso de excesso, sedação: eles imitam a ação da morfina. Os outros aumentam o nível de vigilância, protegendo o animal contra os predadores, a colecistocinina é um desses tipos de substância.

Nos dois últimos anos, a importância do sistema opioide interno na dependência psíquica às drogas foi demonstrada graças a raios desprovidos dos receptores de tipo u, eles deixam de se auto administrar álcool ou cocaína. As encefalinas intervêm então no comportamento ligado à dependência e são provavelmente secretadas enquanto aguardamos uma recompensa. Utilizando a técnica conhecida como micro diálise, nós medimos a concentração sináptica de peptídeos no núcleo accumbens de ratos previamente condicionados à morfina.

O dispositivo experimental era constituído por duas áreas diferenciadas pela cor das paredes e pelo revestimento do chão. A primeira etapa foi a de aprendizagem ou condicionamento. A cada dois dias os animais tomavam uma injeção de morfina e eram depois colocados em uma das divisões, no dia seguinte, recebiam um placebo antes de trocar de área. Assim, o animal aprendia a associar um meio específico com os efeitos positivos da morfina. Após o período de condicionamento, os ratos eram recolocados (sem injeção da droga) em uma das divisões e depois na outra. Quando retornava ao meio associado à injeção de morfina, constatamos um aumento das encefalinas: o animal antecipava a recompensa. Ao ser colocado no compartimento associado à injeção de placebo, notamos uma diminuição das encefalinas.

NEUROBIOLOGIA DO PRAZER

À luz desses dados, seria possível falar em uma neurobiologia do prazer ligado aos presentes? Sem dúvida. As modulações bioquímicas observadas durante certas situações, por exemplo, no período de festas que anuncia a chegada de presentes, certamente influenciam nosso estado de espírito. Extrapolando esses dados, digamos que o prazer experimentado quando ganhamos um presente esteja ligado a uma ativação do sistema hedônico proporcionado por nossos neuromediadores de prazer (dopamina e encefalinas). Se, por infelicidade, o presente não chega, é possível que a atividade hedônica do circuito diminua, ocasionando uma baixa momentânea de encefalinas (como no animal colocado no compartimento em que recebeu o placebo). Essa reação desencadeia uma sensação de frustração, como a decepção da criança que não ganha um presente ou que recebe um presente diferente do esperado. A realidade, entretanto, não é assim tão simples, e o prazer está muitas vezes misturado à felicidade, que não pode ser reduzida à equilíbrios neuroquímicos. A felicidade é um estado complexo que necessita do prazer para se exprimir, mas também de sua representação, ou seja, depende da noção adquirida, após diversas experiências   do que seja um presente apropriado para se receber no Natal.

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OUTROS OLHARES

FOME DE FOTOS

Hoje, tudo se fotografa e as imagens funcionam como recortes daquilo que se gostaria de ser, representando um ideal de ego, isto é, como gostaríamos de ser vistos.

Fome de fotos

Recentemente testemunhei a seguinte cena num restaurante: eram dois adolescentes com os pais. Logo que a comida chegou, um apetitoso sanduiche acompanhado de batatas fritas, cada membro da família sacou do bolso seu celular e fotografou o prato antes mesmo de experimentá-lo. Parecia uma cena de faroeste. Estavam ávidos e felizes por registrar o cheeseburguer que comeriam em segundos. Orgulhosos. A ligeireza em fotografar a cena veio antes que a fome. Surpreendi-me, também, por não ter me espantado, assisti à cena como quem contempla um movimento habitual do sujeito contemporâneo: a pausa para a fotografia.

Carioso pensar que, apesar do imediatismo ser uma marca forte do tempo em que vivemos, essa suspensão está sempre presente. Pausa antes de postar, pausa para registrar foto ou filmar, pausa na conversa ao vivo para responder a um documentário do mundo virtual.

Os diálogos pelos aplicativos de mensagens instantânea, nada têm de instantâneos, todos somos escravos desse mesmo tempo de espera. Atualmente, essa forma de comunicação é muito mais frequente do que os telefonemas, possibilitando um tempo de reflexão antes da resposta, uma reformulação da frase antes do envio e, muitas vezes, uma quebra da espontaneidade.

O lugar mais temido pelos adolescentes hoje são as marcas atrás do WhatsApp, que indicam que o outro visualizou a mensagem e não respondeu. Elas tornam real o maior pesadelo dessa geração: a sensação de invisibilidade.

POSTO, LOGO EXISTO

As fotos hoje são compartilhadas em busca da validação de uma experiência. É preciso que alguém testemunhe minha vivência, assista às minhas experiencias, dê likes nos meus registros fotográficos para que a cena seja completa. A função da rede social é de uma plateia que assiste, contempla, celebra um fragmento do tempo recortado e editado numa imagem.

Como uma mãe que aplaude o filho em seus passos, os amigos virtuais reafirmam nosso narcisismo: (há inclusive, um emoji de palmas). O espelho virtual representa algo muito valioso para todos nós, aquele primeiro olhar que delineia nossa existência e de onde vem o amor: o olhar materno. Seria esse o lugar onde se iniciam as primeiras trocas significativas com o mundo. Esse espelho inaugura nosso psiquismo e traz uma sensação que buscamos a vida inteira: a de segurança.

Possivelmente, essa é a causa de serem tão poucos os que conseguem não se render aos encantos da Internet. A busca por curtidas seria uma forma de resgatar a lembrança de que existimos para alguém de maneira concreta. Não é raro ouvir de pacientes apaixonados: “Estou feliz, ele curtiu minha foto. Ou seja, Ele se lembrou de min, eu tenho a prova viva”.

Há também os que se filmam em seus stories, enquanto olham para a tela, conversam com seus seguidores e pedem opinião sobre roupas, corte de cabelo etc. ou divagam sobre a vida. Existem também as filmagens ao vivo, os lives, nos quais as pessoas, em tempo real, interagem com outros usuários da rede. Seria possível se isentar da persecutoriedade nesse tipo de reportagem? Pois essa posição traz riscos, haters e falas de estranhos protegidos pelo escudo da tela de computador. Nem tudo é like, há também o haters. Freud diria que entre fezes e sangue nascemos. Não dá para esperar só aplausos da plateia virtual.

O que chama Atenção para um outro ponto que considero interessante: o que aparece nos filtros, virtuais é um fragmento da realidade, um pedaço muitas vezes, editado com o objetivo de contar ao outro sobre o quanto sou feliz. É comum, por exemplo. as postagens serem recados endereçados para alguém com uma finalidade provocativa. Uma bela foto de um momento pode não revelar o que de fato, se passava no instante, pois há um aspecto da cena que é impossível de ser captado em sua totalidade: as emoções.

A psicanalista Marielle Kellerman Barbosa escreve, “Podemos considerar a virtualização das relações, da comunicação, sob essa perspectiva freudiana de busca da felicidade, na medida em que recriamos para nós uma realidade mais agradável e digerível. A tecnologia nos permite fazer um photoshop das relações, dos momentos, da imagem com que nos apresentamos ao mundo: As fotos poderiam ser recortes daquilo que gostaríamos de ser, representando um ideal de ego, isto é, como gostaríamos de ser vistos e como acreditamos que um dia fomos tratados em nossa tenra infância.

No artigo do jornal Folha de S. Paulo, Felicidade nas telas de 2010, contudo Calligaris discute a necessidade de expor a felicidade nas redes sociais como sendo um desejo de ter a vida invejada pelo outro: “Além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência:  para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova da minha felicidade é a inveja dos outros,

Recentemente li um post com fotos das pessoas tiradas na semana ou até no dia em que se suicidaram como um alerta. Era uma campanha chamada “Depressão não tem cara qual fotografias de cenas felizes, repletas de pessoas sorrindo e aparentemente leves, escondiam a morte que as espreitava. Vendo as fotos imagina-se algo bem diferente do que se passava internamente com as personagens que ilustravam as fotos.

Em outro artigo, ‘A inveja dos outros, de 2013, Calligaris acrescenta um ponto bastante interessante: num mundo em que a inveja é um regulador social, as aparências são decisivas, pois comandam a inveja dos outros. Por exemplo, o que conta não ser feliz, mas parecer invejavelmente feliz. Nesse mundo o ter é mais importante do que o ser apenas porque, à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugigangas ao invejoso. Complicado será lhes mostrar, vestígios da vida interior e pedir que nos invejem por isso.

RECORDAÇÃO

Esquecer-se de fotografar uma experiência deveria ser sinal de estar vivendo-a com plenitude, de maneira inteira e, no entanto, há uma lástima: “Puxa, nem sequer tiramos fotos!” Mas por que a lástima?

Na cultura americana uma pessoa não deixa de existir quando morre, mas sim quando ninguém mais fala dela. Por isso, o dia dos mortos é tão importante. Para que a memória do falecido nunca se perca na história de uma família, todos aqueles que partiram são rememorados nesse dia.

Na plataforma virtual a morte também não é sinônimo de esquecimento. Hoje, nas redes sociais, não é incomum homenagear, no Dia das Mães ou dos Pais, os que já faleceram numa tentativa de, em algum lugar, reativar aquela lembrança e, principalmente, buscar alguma solidariedade, seja na forma de comentário ou de curtida. Nesse sentido, a rede social se torna um espaço de acolhimento pela identificação. Busco alguém que saiba o que estou sentindo, comunico ao mundo minha dor: uma espécie de catarse eletrônica.

Todavia, há certas pessoas que, se não morrem na nossa história assombram todo nosso trajeto e nos aprisionam. Servem apenas para assombrar nosso disco rígido mental, sobrecarregando-o. É o caso dos ex amores, por exemplo, que nas redes sociais só deixam de existir quando bloqueados ou deletados e, para isso, é necessária muita força de vontade no dedo indicador. Visitas virtuais às páginas da pessoa que um dia amamos não são raros, pelo contrário. Trazem mal-estar, alimentando, assim, a melancolia e impedindo-nos de completar o trabalho do luto. Uma memória permanece semiviva rondando as Timelines da nossa mente. Se antigamente, quando terminávamos uma relação, temíamos encontrar nosso antigo amor na fila do cinema, hoje nos deparamos com vídeos diversos daquele alguém vivendo uma outra história e somos, muitas vezes, espectadores de cenas virtuais desnecessárias e que afetam nossa vida real: como um beijo apaixonado daquele pedaço da sua história que hoje tem vida própria.

MAIS UM NA MULTIDÃO

Hoje, as crianças brincam com tablets, disputam com seus pais os celulares, dividem seu tempo com a onipresença dos aparelhos eletrônicos.

Estamos todos unidos pelo mesmo fio invisível e poderoso, o fio da ilusão. De acordo com o Comitê Invisível, em Motim e Destruição Agora (2017, p.57): “A condição do reino dos Gafa (Google, Apple, Facebook, Amazon) é que os seres, os lugares, os fragmentos do mundo permaneçam sem contato real. Onde os Gafa pretendem “vincular o mundo inteiro” é, ao contrário, trabalhar para o isolamento real de cada um. É imobilizar os corpos. É manter cada um recluso em sua bolha significante. O golpe da força cibernética consiste em gerar em cada um, a sensação de ter acesso ao mundo inteiro, quando se está na realidade, cada vez mais separado de ter cada vez mais inimigos; quando se é cada vez mais “autista”.

O sujeito contemporâneo mantém a ilusão de estar sempre conectado, e essa ilusão contribui para sua solidão. Se hoje Freud pudesse acrescentar algo à sua tese “é preciso amar para não adoecer”, acrescentaria: ‘é preciso desconectar para no adoecer”.

Não há antidoto contra o desamparo, condição inerente ao ser humano. Não há escudo que nos proteja dos riscos da existência e das dores da vida.

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FACEBOOK SERÁ UM ENORME CATÁLOGO

Ao registrar momentos em nossos iPhones, nossos “eus” de bolso, criamos também uma ilusão de poder a qualquer momento revisitar aquela memória. Um pedaço de nossa história poderia ficar salvo eternamente da passagem do tempo, aprisionado numa nuvem virtual como lembranças que nunca se apagam. A prova de que um dia eu existi. Daqui a alguns anos o Facebook será um enorme catálogo de pessoas que já não existem mais. Para quem poderemos escrever no mural, visitar as fotos, pensar nos pensamentos políticos, se eram ou não coerentes e ale mesmo postar flores nas páginas daqueles que se foram ao invés de visitar seus túmulos no dia de Finados. Um pedaço da nossa vida que pode ficar inesquecível.

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NARCISO

Tal qual a bruxa da história de Branca de Neve, o espelho de pixels contemporâneo tem uma função oracular. Seria esse oráculo poderoso o suficiente para evitar o fim trágico do sujeito atual que nos remeteria à história de Narciso? Há muitos registros de pessoas que arriscam sua vida para fazer uma selfie em lugares perigosos, colocando-se em situações de risco e morrendo. Não é uma Causa Mortis comum, inclusive vem crescendo. O mito de Narciso segue mesmo bastante atual.

Fome de fotos.3 

MELANCOLIA

Termo usado por Freud em Luto e Melancolia, que descreve o estado da mente diante da perda de um objeto de amor, em que há a suspensão do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar. “A sombra do objeto recai sobre o próprio ego. O luto profundo em reação à mortede uma pessoa amada contém o mesmo estado de ânimo dolorosa, omesmo desinvestimento no mundo externo, a perda da capacidade de encontrar um novo objeto de amor – em substituição ao pranteado – porém não há o rebaixamento de autoestima.

GESTÃO E CARREIRA

NÃO TENHA VERGONHA DE OPINAR

Ficar quieto para obter “segurança psicológica” é um mau negócio.

Não tenha vergonha de opinar

Você talvez já tenha vivido essa situação: durante uma reunião, não expressou críticas ou fez propostas possivelmente melhores que as de outros participantes por receio de ofender alguém ou mesmo ser repreendido pelo chefe por uma suposta inconveniência. Essa opção pelo silêncio é o resultado, segundo Amy Edmondson, professora da Harvard Business School, de um fenômeno que ela chama de “segurança psicológica”. Nosso cérebro segue a programação de sempre se preocupar com o que os outros pensam sobre nós e as consequências disso. É algo que remonta a milênios da civilização humana: na pré-história, entrar em conflito com os outros poderia significar a expulsão da tribo, ameaçando diretamente a própria sobrevivência, daí o instinto de evitar tais situações.

Mas a omissão e o recato em nada ajudam seu progresso profissional – ao contrário. E a falta de participação também afeta diretamente o desempenho geral da equipe. Por isso, aconselha a professora de Harvard, devemos ter consciência desse fenômeno e superá-lo, sem medo de ter opiniões ou propostas diferentes – basta saber expressá-las com habilidade. Isto também nos garantirá a tal “segurança psicológica” que, segundo estudo divulgado pelo Google People  Operations (seu setor de RH), é o principal dos cinco traços característicos das empresas mais bem-sucedidas (os outros são confiabilidade mútua, clareza de metas, significado do trabalho e impacto do trabalho).

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 16: 23-27

Alimento diário

O Incentivo à Oração

Aqui é prometida uma resposta às suas perguntas, para seu maior consolo. Há duas maneiras de perguntar: perguntar com o objetivo de investigar, que é o modo de perguntar daqueles que não possuem conhecimento, e perguntar com o objetivo de pedir, que é o modo de perguntar daqueles que estão necessitados. Aqui Cristo se refere às duas maneiras.

 

I – Com o objetivo de investigar, eles não teriam necessidade de perguntar (v. 23): “Naquele dia, nada me perguntareis”. “Vocês terão tal conhecimento dos mistérios do Evangelho, pela abertura do seu entendimento, que não precisarão investigar” (como em Hebreus 8.11, não ensinarão). “Vocês terão mais conhecimento, de repente, do que tiveram até então, por acompanhamento diligente”. Eles tinham feito algumas perguntas ignorantes (como João 9.2), algumas ambiciosas (como Mateus 18.1), algumas desconfiadas (como Mateus 19.27), algumas impertinentes (como cap. 21.21), e algumas curiosas (como Atos 1.6). Mas depois do derramamento do Espírito, não mais as fariam. Na história dos Atos dos apóstolos, raramente os vemos fazendo perguntas, como Davi: Devo fazer isto? Ou: Devo ir para lá? Pois estavam constantemente sob a orientação divina. Naquele caso difícil da pregação do Evangelho aos gentios, Pedro foi sem duvidar, Atos 10.20. Fazer perguntas pressupõe que estamos confusos, ou, pelo menos, à espera, e o melhor de nós sente a necessidade de fazer perguntas. Mas nós devemos desejar total segurança de entendimento para que possamos não hesitar, porém ser constantemente levados em um caminho fácil, tanto de verdade quanto de dever.

O Senhor lhes dá uma razão (v. 25), que claramente lembra esta promessa, do porque eles não precisariam fazer perguntas: “Disse-vos isso por parábolas”, de uma maneira que não julgastes tão clara e compreensível como desejaríeis, mas é chegada a hora em que vos falarei abertamente, tão abertamente quanto podeis desejar, sobre o Pai, de modo que não precisareis fazer perguntas”.

1. A bênção grandiosa à qual Cristo os conduziria era o conhecimento de Deus: “Eu lhes mostrarei o Pai, e os farei conhecê-lo”. Isto é o que Cristo deseja dar, e o que todos os verdadeiros cristãos devem desejar ter. Quando Cristo deseja falar do maior favor destinado aos seus discípulos, Ele lhes diz que lhes mostraria claramente o Pai. Pois qual é a felicidade do céu, senão ver a Deus, imediatamente e eternamente? Conhecer a Deus como o Pai do nosso Senhor Jesus Cristo é o maior mistério com cuja contemplação o entendimento pode se satisfazer, e conhecê-lo como nosso Pai é a maior felicidade com cuja escolha e cujo prazer a vontade e os sentimentos podem se satisfazer.

2. Até aqui, Ele lhes tinha falado sobre isto na forma de parábolas, que são mensagens sábias e instrutivas, mas figuradas e generalizadas. Cristo lhes tinha dito muitas coisas, com muita clareza, e explicado suas parábolas em particular aos discípulos, mas:

(1) Considerando a tolice e a incapacidade que eles tinham de entender o que Ele lhes dizia, podiam dizer que Ele falava por parábolas. O que Ele lhes dizia era como um livro selado, Isaías 29.11.

(2) Comparando as revelações que Ele lhes tinha dado, em que Ele tinha falado aos seus ouvidos, com aquilo que Ele lhes faria, quando colocasse seu Espírito nos corações deles, tudo, até este momento, tinha sido parábolas. Seria uma surpresa agradável para eles, e eles julgariam estar em um novo mundo, quando refletissem sobre todas as suas primeiras noções, e as vissem confusas e enigmáticas, em comparação com seu conhecimento atual, claro e distinto, sobre as coisas divinas. O ministério da letra não era nada, em comparação com o do Espírito, 2 Coríntios 3.8-11.

(3) Limitando-o ao que Ele tinha dito sobre o Pai, e os conselhos do Pai, o que Ele tinha dito era muito obscuro, em comparação com o que seria revelado em breve, Colossenses 2.2.

3. Ele lhes falaria com clareza, com liberdade, sobre o Pai. Quando o Espírito foi derramado, os apóstolos alcançaram um conhecimento muito maior das coisas divinas do que tinham antes, como fica claro pela habilidade de falar que o Espírito lhes deu, Atos 2.4. Eles foram conduzidos ao mistério daquelas coisas das quais eles tinham, anteriormente, uma noção muito confusa. E o que o Espírito lhes mostrou, aqui está escrito que Cristo lhes mostrou, pois, assim como o Pai fala por meio do Filho, também o Filho fala por meio do Espírito. Mas esta promessa se cumprirá plenamente no céu, quando virmos o Pai como Ele é, face a face, não como o vemos agora, por espelho em enigma (1 Coríntios 13.12). Este é um motivo de consolo para nós, sob a nuvem da atual escuridão, e a razão pela qual não podemos ordenar nossas palavras, mas frequentemente as deixamos for a de ordem. Enquanto estamos aqui, temos muitas perguntas para formular a respeito do Deus invisível e do mundo invisível. Mas, naquele dia, nós veremos claramente todas as coisas, e não faremos mais perguntas.

 

II – Ele promete que, com o objetivo de investigar, eles nunca perguntariam nada em vão. Aceita-se como verdadeiro que todos os discípulos de Cristo se dedicam à oração. Ele os ensinou, pelo seu preceito e padrão, a estarem sempre em oração. Isto devia ser seu sustento e consolo quando Ele os tivesse deixado. Sua instrução, orientação, força e sucesso devem ser alcançados pela oração. Agora:

1. Aqui está a promessa expressa de uma concessão, v. 23. A introdução a esta promessa é tal, que a torna inviolavelmente segura, e não deixa espaço para questioná-la: “‘Na verdade, na verdade vos digo’, Eu garanto a veracidade disto”. A promessa propriamente dita é incomparavelmente rica e doce. O cetro de ouro aqui é estendido ao mundo, com as palavras: “Qual é a tua petição? E se te dará”. Pois Ele diz: “Tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há de dar”. Nós já lemos isto antes, cap. 14.13. O que mais podemos desejar? A promessa é tão expressa como podemos desejar.

(1) Aqui nós somos ensinados a pedir. Devemos pedir ao Pai em nome de Cristo. Devemos considerar Deus como nosso Pai, e nos dirigirmos a Ele como filhos, e a Cristo, como Mediador, e nos dirigirmos a Ele como seus dependentes. Pedir ao Pai inclui um senso de bênçãos espirituais, com uma convicção de que elas somente poderão ser obtidas de Deus. Também inclui a humildade ao nos dirigirmos a Ele, com uma forte confiança nele, como o Pai capaz e disposto a nos ajudar. Pedir em nome de Cristo inclui um reconhecimento da nossa própria falta de merecimento de receber qualquer favor de Deus, uma atitude que está de acordo com o método que Deus adotou para manter uma correspondência com seu Filho, e uma completa dependência de Cristo como “o Senhor, Justiça Nossa”.

(2) Aqui lemos como seremos bem-sucedidos: “Ele vo-lo há de dar”. O que mais podemos desejar, exceto ter aquilo que nos falta, ou melhor, aquilo que desejamos, em conformidade com a vontade de Deus, após pedir? Aquele de quem procede “toda boa dádiva e todo dom perfeito”, lhes dará o necessário. Aquilo que Cristo comprou, pelo mérito da sua morte, Ele não necessitava para si mesmo, mas o destinava e transferia aos seus fiéis seguidores. E, tendo demonstrado uma valiosa consideração por isto, que foi plenamente aceita, por esta promessa Ele saca uma nota, como se fosse sobre o tesouro no céu, que nós devemos apresentar por meio da oração, e em seu nome pedir aquilo que está comprado e prometido, de acordo com o verdadeiro intento do novo concerto. Cristo tinha prometido aos discípulos grande esclarecimento pelo Espírito, mas eles deviam orar pedindo-o, e o fizeram, Atos 1.14. Deve-se investigar a vontade de Deus para isto. Ele tinha prometido a eles a perfeição no futuro, mas o que eles fariam neste ínterim? Eles deviam continuar orando. O usufruto perfeito está reservado para a terra do nosso repouso. Pedir e receber são o consolo da terra da nossa peregrinação.

2. Aqui está um convite para que eles façam a petição. Julga-se suficiente que os grandes homens permitam que nos dirijamos a eles, mas Cristo nos convida à petição, v. 24.

(1) Ele examina o procedimento deles até então: ”Até agora, nada pedistes em meu nome”. Isto pode referir-se, ou:

[1] Ao assunto das suas orações: “Vocês nada pediram, comparativamente, nada daquilo que podiam ter pedido, e pedirão quando o Espírito for derramado”. Veja que generoso benfeitor é nosso Senhor Jesus, acima de todos os benfeitores. Ele dá liberalmente, e está tão longe de nos censurar pela frequência e quantidade dos seus dons, que Ele prefere nos censurar pela pouca frequência e pela escassez dos nossos pedidos: “Vocês nada pediram, em comparação com o que lhes falta, e o que Eu tenho para dar, e prometi dar”. Nós recebemos a instrução de abrir completamente nossa boca. Ou:

[2] Ao nome no qual eles oravam. Eles faziam muitas orações, mas nunca tão expressamente no nome de Cristo como agora Ele lhes instruía a fazer. Pois Ele ainda não tinha oferecido aquele grande sacrifício, em virtude do qual nossas orações seriam aceitas, nem tinha iniciado sua intercessão por nós, cujo incenso devia perfumar todas as nossas devoções, capacitando-nos, assim, a orar em seu nome. Até aqui, eles tinham expulsado demônios e curado doenças no nome de Cristo, como um rei e um profeta, mas não podiam distintamente orar em seu nome, como um sacerdote.

(2) Ele examina o procedimento deles no futuro: “Pedi e recebereis, para que a vossa alegria se cumpra”. Aqui:

[1] Ele os instrui a pedir por tudo o que eles necessitavam, e que Ele tinha prometido.

[2] Ele lhes garante que irão receber. Aquilo que nós pedirmos, a partir de um princípio de graça, Deus irá dar graciosamente: “Recebereis”. Nisto, existe algo a mais do que a promessa de que Ele o dará. O Pai não somente o dará, mas dará para que vocês recebam, dará a vocês o consolo e o benefício, um coração para daí comer, Eclesiastes 6.2.

[3] Ele lhes garante que, com isto, a alegria deles seria completa. Isto indica, em primeiro lugar, o abençoado resultado da oração da fé. Ele ajuda a completar a alegria da fé. Se desejarmos ter nossa alegria completa, tão completa como ela pode ser neste mundo, nós devemos estar sempre em oração. Quando recebemos a instrução de nos regozijarmos sempre, a consequência imediata é: “Orai sem cessar”. Veja quanto devemos visar em oração – não somente a paz, mas a alegria, “abundância de alegria”. Ou, em segundo lugar, os abençoados efeitos da resposta de paz: “Peçam, e receberão aquilo que irá completar sua alegria”. Os dons de Deus, por intermédio de Cristo, enchem os tesouros da alma, e trazem alegria, Provérbios 8.21. “Peçam pelo dom do Espírito Santo e o receberão, e, embora outro conhecimento aumente a tristeza (Eclesiastes 1.18), o conhecimento que Ele dá irá aumentar, irá completar, a alegria de vocês”.

3. Aqui estão as razões pelas quais eles podem esperar ser bem-sucedidos (vv. 26,27), que são resumidas pelo apóstolo (1 João 2.1): “Temos um Advogado para com o Pai”.

(1) Nós temos um advogado. Quanto a isto, Cristo viu nesta oportunidade motivos para não insistir neste aspecto, somente para fazer com que o incentivo a seguir resplandecesse mais: ‘”Não vos digo que eu rogarei por vós ao Pai’. Suponde que Eu não vos diga que irei interceder por vós, que não me encarregarei de rogar por cada causa em particular que possais ter pendente, mas, ainda assim, o fato de que Eu estabeleci uma correspondência entre vós e Deus, erigi um trono de graça, e vos consagrei para um novo e vivo caminho para o santuário, pode ser um motivo de consolo geral”. Ele fala como se eles não necessitassem de nenhum favor, uma vez que Ele tinha ordenado que o dom do Espírito Santo intercedesse dentro deles, como o Espírito de adoção, clamando Aba, Pai. Como se eles não tivessem necessidade de que Ele rogasse por eles agora. Mas nós descobriremos que Ele faz mais por nós do que diz que fará. O desempenho dos homens frequentemente fica aquém das suas promessas, mas o de Cristo vai além das suas.

(2) Nós nos relacionam os com um Pai, o que é um incentivo tão grande, que, de certa maneira, excede a outra razão: “‘Pois o mesmo Pai vos ama’, Ele é amigo de vós, e vós não podeis ter amigo melhor”. Observe que os discípulos de Cristo são os amigos do próprio Deus. Cristo não somente afastou a ira de Deus de nós, e nos trouxe a um concerto de paz e reconciliação, como também comprou seu favor para nós, e nos trouxe a um concerto de amizade e comunhão. Observe a ênfase que é colocada sobre isto: “O mesmo Pai vos ama, aquele que é perfeitamente feliz consigo mesmo, cujo amor-próprio é sua infinita retidão e também sua infinita bem-aventurança. E ainda assim Ele se alegra por amar a vós”. O mesmo Pai, a cujo favor vocês perderam o direito, e cuja ira vocês despertaram, e junto a quem vocês precisam de um advogado, Ele mesmo ama vocês. Observe:

[1] Por que o Pai amava os discípulos de Cristo: Porque “vós me amastes e crestes que saí de Deus”, isto é, porque vós sois verdadeiramente meus discípulos. Não como se o amor começasse por parte do ser humano, mas, pela sua graça, Ele operou em nós o sentimento de amor pela sua pessoa. O Senhor se alegra com a obra das suas próprias mãos. Veja aqui, em primeiro lugar, qual é o caráter dos discípulos de Cristo. Eles o amam, porque creem que Ele veio de Deus, é o Unigênito do Pai e seu alto comissário para o mundo. Observe que a fé em Cristo opera pelo amor a Ele, Gálatas 5.6. Se nós cremos que Ele é o Filho de Deus, não podemos deixar de amá-lo como infinitamente adorável. E se cremos que Ele é nosso Salvador, não podemos deixar de amá-lo como o mais gentil para conosco. Observe com que respeito Cristo se alegra de falar do amor dos seus discípulos por Ele, e com que delicadeza Ele o encara. Ele fala disto como aquilo que os recomenda ao favor do seu Pai: “Vocês me amaram, e creram em mim, quando o mundo me odiou e rejeitou. E vocês se diferenciarão por isto”. Em segundo lugar, veja a vantagem que têm os discípulos fiéis de Cristo: o Pai os ama, e isto porque eles amam a Cristo. Tão satisfeito Deus está em Cristo, que Ele se alegra com todos os amigos dele.

[2] Os incentivos que isto lhes dá na oração. Eles não devem temer se dirigir excessivamente depressa àquele que os ama, e que lhes quer bem. Em primeiro lugar, isto nos adverte contra os maus pensamentos sobre Deus. Quando somos ensinados, na oração, a pedir o mérito e a intercessão de Cristo, não é como se toda a bondade estivesse somente em Cristo, e em Deus não houvesse nada além de ira e fúria. Não, a questão não é esta. O amor e a boa vontade do Pai indicaram Cristo para ser o Mediador, de modo que nós devemos o mérito de Cristo à misericórdia de Deus, que nos deu o Salvador. Em segundo lugar, tenhamos e confirmemos em nós bons pensamentos sobre Deus. Os crentes que amam a Cristo devem saber que Deus os ama, e por isto devem ir corajosamente até Ele, como filhos se dirigem a um Pai amoroso.