ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 16: 7-15

Alimento diário

A Conveniência da partida de Cristo. A promessa do Espírito

 

Assim como era usual que os profetas do Antigo Testamento consolassem a igreja, nas suas calamidades, com a promessa do Messias (Isaias 9.6; Miquéias 5.6; Zacarias 3.8), também, tendo vindo o Messias, a promessa do Espírito era o maior estímulo, e ainda o é.

Aqui temos três coisas a respeito da vinda do Consolador:

I – Que a partida de Cristo era absolutamente necessária para a vinda do Consolador, v. 7. Os discípulos se recusavam tão firmemente a crer nisto, que Cristo viu motivos para afirmá-lo com uma solenidade mais do que usual: “Digo-vos a verdade”. Nós podemos confiar na verdade de tudo o que Cristo nos disse. Ele não tem desejos de se aproveitar de nós. Agora, para deixá-los mais tranquilos, aqui Ele lhes diz que:

1. De maneira geral, era conveniente para eles que Ele partisse. Esta era uma doutrina estranha, mas, se era verdadeira, era suficientemente confortável, e lhes mostrava o quanto a tristeza que sentiam era absurda. “Convém”, não somente para mim, mas também para vocês, “que eu vá”. Embora eles não vissem isto, e se recusassem a crer nisto, era verdade. Observe que:

(1) Aquelas coisas que são realmente convenientes para nós sempre nos parecem dolorosas. Particularmente, nossa partida, quando terminarmos nossa jornada nesta terra.

(2) Nosso Senhor Jesus é sempre favorável àquilo que é mais conveniente para nós, quer pensemos assim ou não. Ele não lida conosco de acordo com a loucura de nossa própria escolha, mas graciosamente a rejeita e nos dá o remédio que não estamos dispostos a tomar, porque Ele sabe que ele é bom para nós.

2. Era conveniente porque tinha o objetivo do envio do Espírito. Observe:

(1) Que a partida de Cristo tinha o objetivo da vinda do Consolador.

[1] Isto está expresso de maneira negativa: “Se eu não for, o Consolador não virá”. E por que não? Em primeiro lugar, assim estava decidido nos conselhos divinos a respeito deste assunto, e a medida não devia ser alterada. A terra será abandonada por causa deles? Aquele que dá livremente pode recolher um dom antes que conceda outro, embora desejássemos retê-los a todos, carinhosamente. Em segundo lugar, é suficientemente coerente que o embaixador extraordinário fosse chamado de volta, antes da vinda do enviado, que deveria residir permanentemente. Em terceiro lugar, o envio do Espírito deveria ser o fruto da compra de Cristo, e esta compra seria feita pela sua morte, que envolveria sua partida. Em quarto lugar, seria uma resposta à sua intercessão dentro do véu. Veja cap. 14.16. Desta maneira, este presente deve ser pago pelo Senhor Jesus, e também pedido a Ele, para que possamos aprender a dar-lhe o devido valor. Em quinto lugar, o grande argumento que o Espírito iria utilizar para convencer o mundo seria a ascensão de Cristo ao céu, e sua acolhida aqui. Veja o versículo 10, e também cap. 7.39. Finalmente, os discípulos devem se desacostumar da sua presença física, a qual eles são muito capazes de amar, antes de estarem plenamente preparados para receber os auxílios e os consolos espirituais de uma nova dispensação.

[2] Está expresso de maneira positiva: “Se eu for, enviar-vo-lo-ei”, como se ele tivesse dito: “Confiem que eu proverei de maneira efetiva, de modo que vocês não percam com minha partida”. O Redentor glorificado não deixa de se preocupar com sua igreja na terra, nem irá deixá-la sem os auxílios necessários. Embora Ele parta, Ele envia o Consolador, ou melhor, Ele parte com o propósito de enviá-lo. Desta maneira, embora uma geração de ministros e cristãos parta, outra se ergue em seu lugar, pois Cristo irá sustentar sua própria causa.

(2) Que a presença do Espírito de Cristo na sua igreja é muito melhor, e mais desejável, que sua presença física. Realmente, era conveniente para nós que Ele partisse, para nos enviar o Consolador. Sua presença física poderia estar em um lugar por vez, mas seu Espírito está em toda parte, em todos os lugares, em todos os momentos, sempre que dois ou três estiverem reunidos no seu nome. A presença física de Cristo atrai os olhos dos homens, mas seu Espírito atrai seus corações. A letra mata, mas o Espírito do Senhor vivifica.

 

II – Que a vinda do Espírito era absolutamente necessária para a realização dos interesses de Cristo na terra (v. 8): “E quando ele vier”. Aquele que é enviado deseja vir, e na sua primeira vinda, Ele fará isto, Ele “reprovará”, ou, como na interpretação da margem (versão inglesa KJV), “convencerá o mundo”, pelo seu ministério, no que diz respeito ao pecado, à justiça e ao juízo.

1. Veja aqui qual é a função do Espírito, e com que missão Ele é enviado.

(1) Para reprovar. O Espírito, pela palavra e pela consciência, é um reprovador. Os ministros são reprovadores por ofício, e por intermédio deles, o Espírito reprova.

(2) Para convencer. Este é um termo legal que muitas vezes representa a função do juiz, ao resumir as evidências e definir uma questão que tinha sido debatida durante muito tempo, sob uma luz clara e verdadeira. Ele “convencerá”, isto é, Ele calará os adversários de Cristo e da sua causa, revelando e demonstrando a falsidade e a falácia daquilo que eles sustentam, e a verdade e a certeza daquilo a que eles se opõem. Observe que o trabalho de convencer é o trabalho do Espírito. Ele pode realizá-lo com eficácia, e ninguém pode fazê-lo, exceto Ele. O homem pode abrir a causa, mas somente o Espírito pode abrir o coração. O Espírito é chamado de Consolador (v. 7), e aqui está escrito: Ele “convencerá”. Poderia pensar-se que este era um consolo frio e distante, mas é o método que o Espírito adota, a saber, primeiro convence, e depois consola, primeiro abre a ferida, e depois aplica os remédios curativos. Ou, interpretando a convicção de modo mais genérico, como uma demonstração daquilo que é certo, isto indica que os consolos do Espírito são sólidos e se baseiam na verdade.

[1] Veja quem são aqueles a quem Ele deverá condenar e convencer: o mundo, tanto os judeus quanto os gentios.

(1) Ele dará ao mundo os meios mais poderosos de convicção, pois os apóstolos deverão ir a todo o mundo, respaldados pelo Espírito, para pregar o Evangelho, que é completa mente comprovado.

(2) Ele irá prover de modo suficiente para o silêncio e a remoção das objeções e preconceitos do mundo contra o Evangelho. Muitos infiéis são convencidos por todos, e julgados por todos, 1 Coríntios 14.24.

(3) Ele irá convencer a muitos no mundo, de maneira efetiva e salvadora, muitos de todas as épocas, em todos os lugares, para sua conversão à fé de Cristo. Era um incentivo para os discípulos, em referência às dificuldades que eles provavelmente iriam encontrar:

[1] Que eles veriam o bem sendo feito, a queda do reino de Satanás como um relâmpago, o que seria sua alegria, assim como era a dele. Mesmo neste mundo maligno, o Espírito irá operar. E a convicção dos pecadores é o consolo dos ministros fiéis.

[2] Que isto seria o fruto dos seus serviços e sofrimentos, que iriam contribuir muito para esta boa obra.

2. Veja do que o Espírito irá convencer o mundo.

(1) “Do pecado, porque não creem em mim” (v. 9).

[1] O Espírito é enviado para convencer os pecadores do pecado, e não simplesmente falar-lhes sobre ele. Na convicção, há mais do que isto. É provar-lhes, e forçá-los a reconhecer, assim como aqueles (cap. 8.9) que foram convencidos pelas suas próprias consciências. Fazê-los conhecer suas abominações. O Espírito convence da realidade do pecado, de que fizemos isto e aquilo; da falha no pecado, de que fizemos mal em fazer isto e aquilo; da tolice do pecado, de que agimos contra a razão e contra nossos verdadeiros interesses; da sujeira do pecado, de que por ele nos tornamos odiosos a Deus; da fonte do pecado, a natureza corrupta; e, por fim, do fruto do pecado, cujo fim é a morte. O Espírito demonstra a depravação e a degeneração de todo o mundo, pelas quais todo o mundo é culpado diante de Deus.

[2] Ao convencer o Espírito se prende especialmente ao pecado da incredulidade, que consiste no fato de não se crer em Cristo. Em primeiro lugar, por este ser um grande pecado dominante. Havia, e há, muitas pessoas que não creem em Jesus Cristo, e elas não se dão conta de que este é seu pecado. A consciência natural lhes diz que matar e roubar são pecados. Mas é a obra sobrenatural do Espírito convencê-las de que há um pecado em não crer no Evangelho, e rejeitar a salvação que ele oferece. A religião natural, depois que nos fornece suas melhores revelações e orientações, estabelece e nos deixa sob esta obrigação adicional, que, a qualquer revelação divina que nos seja feita, a qualquer tempo, com evidências suficientes que provem sua origem divina, nós devemos aceitar e sujeitar-nos. Transgridem esta lei aqueles que, quando Deus nos fala por intermédio do seu Filho, rejeitam aquele que fala, e, por isto, é pecado. Em segundo lugar, por este ser um grande peca­ do destruidor. Todo pecado é destruidor em sua própria natureza. Porém, nenhum pecado pode destruir aqueles que creem em Cristo e se mantêm em santificação. De modo que é a incredulidade que destrói os pecadores. É por esta causa que eles não podem entrar no repouso, que não podem escapar à ira de Deus. Este pecado combate contra o remédio. Em terceiro lugar, por este ser um pecado que está no fundo de todo pecado. O Espírito irá convencer o mundo de que a verdadeira razão pela qual o pecado reina sobre eles consiste no fato de que eles não estão unidos a Cristo pela fé. Não devemos supor que, separados de Cristo, tenhamos sequer uma gota de retidão.

(2) “Da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais”, v. 10. Nós podemos interpretar isto:

[1] Como a justiça pessoal de Cristo. Ele convencerá o mundo de que Jesus de Nazaré era Cristo, o Justo (1 João 2.1), assim como o centurião reconheceu (Lucas 23.47): “Na verdade, este homem era justo”. Os inimigos de Jesus lhe atribuíam as piores características, e as multidões não se convenciam, ou não queriam se convencer, de que Ele não era um homem mau, o que fortalecia seus preconceitos contra sua doutrina. Mas Ele é justificado pelo Espírito (1 Timóteo 3.16), Ele prova ser um homem justo, e não um enganador. E então o ponto é realmente ganho, pois Ele é o grande Redentor ou a grande trapaça. Mas uma trapaça, nós temos certeza de que Ele não é. Agora, por qual meio ou argumento o Espírito irá convencer os homens da sinceridade do Senhor Jesus? Em primeiro lugar, o fato de que eles não mais o verão irá contribuir, de certa maneira, para a remoção dos seus preconceitos. Eles não mais o verão na semelhança da carne pecadora, na forma de um servo, que fez com que eles o desprezassem. Moisés foi mais respeitado depois de ser removido do que antes. Mas, em segundo lugar, sua ida ao Pai traria uma convicção completa disto. A vinda do Espírito, segundo a promessa, era uma prova da exaltação de Cristo à direita de Deus (Atos 2.33), e uma demonstração da sua justiça, pois o santo Deus nunca colocaria um enganador à sua direita.

[2] Como a justiça de Cristo transmitida a nós, para nossa justificação e salvação, que é a justiça eterna que o Messias devia trazer, Daniel 9.24. Veja que, em primeiro lugar, o Espírito irá convencer os homens desta justiça. Tendo, pela convicção do pecado, lhes mostrado a necessidade que tinham de justiça, para que isto não os levasse ao desespero, Ele irá lhes mostrar onde ela pode ser encontrada, e como eles podem, se crerem, ser absolvidos da culpa e ser aceitos como justificados, diante de Deus. Era difícil convencer desta justiça àqueles que tentavam estabelecer a sua própria (Romanos 10.3), mas o Espírito o fará. Em segundo lugar, a ascensão de Cristo é o grande argumento apropriado para convencer os homens desta justiça: Eu “vou para meu Pai”, e, como evidência de que serei bem recebido junto a Ele, “não me vereis mais”. Se Cristo tivesse deixado alguma parte da sua missão inacabada, Ele teria sido enviado de volta. Mas agora que temos a certeza de que Ele está à direita de Deus, temos a certeza de que somos justificados por meio dele.

(3) “Do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado”, v.11. Observe aqui:

[1] O Diabo, o príncipe deste mundo, foi julgado, foi considerado como um grande enganador e destruidor, e, como tal, recebeu julgamento e a execução foi realizada, em parte. Ele foi expulso do mundo gentílico quando seus oráculos foram silenciados, e seus altares, abandonados. Foi expulso do corpo de muitos, em nome de Cristo, cujo poder milagroso continua na igreja. Ele foi expulso das almas das pessoas, pela graça de Deus, através da operação do Evangelho de Cristo. Ele caiu como um relâmpago do céu.

[2] Este é um bom argumento, com o qual o Espírito convence o mundo do juízo, isto é, em primeiro lugar, da santidade e santificação inerentes, Mateus 12.18. Pelo juízo do príncipe deste mundo, fica evidente que Cristo é mais forte que Satanás, e pode desarmá-lo e destituí-lo, e estabelecer seu trono sobre a ruína do dele. Em segundo lugar, de uma nova e melhor dispensação das coisas. Ele irá mostrar que a missão de Cristo no mundo foi a de estabelecer as coisas para endireitá-lo, e dar início aos tempos de transformação e regeneração. E Ele prova isto com o fato de que o príncipe deste mundo, o grande mestre do desgoverno, é julgado e expulso. Tudo estará bem quando for quebrado o poder daquele que fazia tantas maldades. Em terceiro lugar, do poder e do domínio do Senhor Jesus. Ele convencerá o mundo de que todo o juízo é dado ao Senhor Jesus, e que Ele é o Senhor de tudo e de todos. A evidência disto é que Ele julgou o príncipe deste mundo, feriu a cabeça da serpente, destruiu aquele que tinha o poder da morte, e despojou os principados. Se Satanás foi dominado desta maneira por Cristo, nós podemos ter a certeza de que nenhum outro poder pode se erguer diante dele. Em quarto lugar, do dia do juízo final: todos os inimigos obstinados do Evangelho e do reino de Cristo certamente receberão, por fim, seu tratamento, pois o Diabo, seu cabeça, será julgado.

 

III – Que a vinda do Espírito seria de um benefício indescritível para os próprios discípulos. O Espírito tem trabalho para realizar, não somente sobre os inimigos de Cristo, para convencê-los e humilhá-los, mas também sobre seus servos e agentes, para instruí-los e consolá-los. E por isto era conveniente para eles que Ele partisse.

1. O Senhor lhes indica a terna percepção que tinha da sua debilidade em sua condição humana (v.12): ”Ainda tenho muito que vos dizer” (não que tais palavras devessem ter sido ditas, mas que Ele poderia e desejaria tê-las dito), “mas vós não o podeis suportar agora”. Veja que professor maravilhoso é Cristo.

(1) Não há ninguém como Ele, em termos de abundância de informações. Quando já tinha dito muito, Ele ainda tinha muitas outras coisas para dizer. Os tesouros da sabedoria e do conhecimento ficam escondidos nele, se nós não os buscarmos.

(2) Não há ninguém como Ele, inclusive em termos de compaixão. Ele lhes teria dito mais sobre as coisas pertencentes ao reino de Deus, particularmente sobre a rejeição dos judeus e o chamado dos gentios, mas eles não podiam suportá-lo, isto os teria confundido e embaraçado, e não lhes traria qualquer satisfação. Quando, depois da sua ressurreição, eles lhe falaram sobre a restauração do reino de Israel, o Senhor lembrou-lhes da vinda do Espírito Santo, pelo qual eles receberiam poder para suportar estas revelações, que eram tão contrárias às noções que eles tinham recebido, e que não poderiam suportar agora.

2. Ele lhes assegura auxílios suficientes, através do derramamento do Espírito. Eles estavam agora conscientes da sua grande ignorância, e dos seus muitos enganos. E o que será deles, agora que seu Mestre os está deixando? “Mas quando Ele, o Espírito de Verdade, vier, vocês ficarão tranquilos, e tudo ficará bem”. Realmente bem. Pois Ele se encarregará de guiar os apóstolos e de glorificar a Cristo.

(1) Guiar os apóstolos. Ele irá cuidar:

[1] Para que eles não percam seu caminho: Ele vos guiará, como o acampamento de Israel foi guiado, pelo deserto, pela coluna de nuvem e fogo. O Espírito guiaria suas línguas ao falar, e suas penas, ao escrever, para evitar que cometessem enganos. O Espírito nos é dado para ser nosso guia (Romanos 8.14), não somente para nos mostrar o caminho, mas para seguir conosco, pelos seus auxílios e influências constantes.

[2] Para que eles não deixem de alcançar seu objetivo: Ele os guiará em toda a verdade, como o piloto hábil guia o navio ao porto ao qual se destina. Ser guiado na verdade é mais do que simplesmente conhecê-la. É estar intimamente e experimentalmente familiarizado com ela. É estar piedosamente e vigorosamente afetado por ela. Não somente ter sua noção em nossas mentes, mas também seu sentimento nos nossos corações. Isto indica um descobrimento gradual da verdade, que brilha cada vez mais: “Ele os guiará por aquelas verdades que são claras e fáceis, em direção àquelas que são mais difíceis”. Mas, como em toda a verdade? O significado é:

Em primeiro lugar, em toda a verdade relativa à sua missão. Eles seriam plenamente instruídos sobre qual­ quer coisa que fosse necessário, ou útil, que eles soubessem, para desempenharem devidamente seu trabalho. O Espírito lhes ensinaria as verdades que eles deveriam ensinar aos outros, lhes daria o entendimento de tais verdades, e os capacitaria para explicá-las e defendê-las.

Em segundo lugar, em nada, exceto a verdade. Tudo aquilo em que Ele os guiar será a verdade (1 João 2.27). A unção é verdadeira. Nas palavras seguintes, Ele prova estas duas coisas:

1. “O Espírito não lhes ensinará nada, exceto a verdade, pois Ele não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e que souber que é a vontade do Pai, e Ele só falará isto”. Isto sugere:

(1) Que o testemunho do Espírito, na palavra e pelos apóstolos, é aquilo em que podemos confiar. O Espírito conhece e sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus, e os apóstolos receberam este Espírito (1 Coríntios 2.10,11), de modo que podemos aventurar nossas almas na palavra do Espírito.

(2) Que o testemunho do Espírito sempre está de acordo com a palavra de Cristo, pois Ele não fala de si mesmo, não tem interesses ou intenções próprias, mas, tanto na essência quanto nos antecedentes, Ele é um só com o Pai e o Filho, 1 João 5.7. A palavra e o espírito dos homens frequentemente estão em desacordo, mas com a Palavra Eterna e o Espírito Eterno, isto nunca acontece.

2. “Ele lhes ensinará toda a verdade, e não reterá nada que seja proveitoso a vocês, pois Ele lhes anunciará o que há de vir”. O Espírito era, nos apóstolos, um Espírito de profecia. Tinha sido predito que Ele o seria (Joel 2.28), e Ele realmente o era. O Espírito lhes mostraria as coisas futuras, conforme Atos 11.28; 20.23; 21.11. O Espírito falou da apostasia dos últimos tempos, 1 Timóteo 4.1. João, quando estava no Espírito, recebeu coisas que lhe foram mostradas em visões. Isto era uma grande satisfação para suas próprias mentes, e muito útil para eles na sua conduta, e também era uma grande confirmação da sua missão. Jansênio faz uma observação piedosa sobre isto: “Nós não devemos reclamar pelo fato de o Espírito não nos mostrar tantas coisas futuras neste mundo, como fez com os apóstolos. Deve ser suficiente para nós o fato de que o Espírito nos mostrou as coisas que virão no outro mundo, que são nosso principal interesse”.

(2) O Espírito se encarregou de glorificar a Cristo, vv. 14,15.

[1] Até mesmo o envio do Espírito era uma glorificação a Cristo. Deus, o Pai, o glorificou no céu, e o Espírito o glorificou na terra. Era a honra do Redentor o fato de que o Espírito fosse enviado em seu nome e também na sua missão, para dar prosseguimento à sua tarefa, e aperfeiçoá-la. Todos os dons e graças do Espírito, toda a pregação e todos os textos escritos pelos apóstolos, sob a influência do Espírito, as línguas e milagres, são maravilhas que glorificam a Cristo.

[2] O Espírito glorificou a Cristo conduzindo seus seguidores na verdade, como ela está em Jesus, Efésios 4.21. Ele lhes garante, em primeiro lugar, que o Espírito lhes transmitiria as coisas de Cristo: Ele “há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar”. Assim como, em essência, o Espírito procedia do Filho, Ele também derivava dele em influência e operação. Ele terá daquilo que é meu. Tudo o que o Espírito nos mostra, isto é, nos dá para nossa instrução e consolo, tudo o que Ele nos dá para nosso fortalecimento e vivificação, e tudo o que Ele nos garante e sela, tudo pertence a Cristo, e foi recebido dele. Tudo é dele, pois Ele o comprou, e pagou caro por isto, e, portanto, Ele tinha motivos para chamar de seu. Seu, pois Ele o recebeu primeiro. Foi dado a Ele, como o cabeça da igreja, para ser transmitido por Ele a todos os seus membros. O Espírito não veio para edificar um novo reino, mas para promover e estabelecer o mesmo reino que Cristo tinha edificado, para manter o mesmo interesse e procurar o mesmo desígnio. Portanto, aqueles que aspiram ao Espírito e difamam a Cristo, se contradizem e desmentem, pois Ele veio para glorificar a Cristo. Em segundo lugar, que assim as coisas de Deus deveriam nos ser transmitidas. Para que ninguém se esquecesse de que o recebimento de tão grande bênção lhe tornaria muito mais rico, o Senhor acrescenta: “Tudo quanto o Pai tem é meu”. Como Deus, Ele tem toda aquela luz auto- existente e toda aquela felicidade auto- suficiente que o Pai tem. Como Mediador, todas as coisas lhe são entregues pelo Pai (Mateus 11.27). Toda aquela graça e verdade que Deus, o Pai, desejava nos mostrar, Ele colocou nas mãos do Senhor Jesus, Colossenses 1.19. As bênçãos espirituais nas coisas celestiais são dadas pelo Pai ao Filho, para nós, e o Filho encarrega o Espírito de transmiti-las a nós. Alguns relacionam isto ao que foi dito há pouco: Ele “vos anunciará o que há de vir”, e assim está explicado por Apocalipse 1.1. Deus, o Pai, deu tudo a Cristo, e Ele o anunciou a João, que, por sua vez, escreveu o que o Espírito disse, Apocalipse 1.1.

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

BATIMENTOS CARDÍACOS PODEM ENGANAR PERCEPÇÕES

Pessoas muito sensíveis a seus estados internos, como a consciência da pulsação do próprio sangue, tendem a ser mais propensas a transtornos de ansiedade e pânico.

Batimentos cardíacos podem enganar percepções

Você sente seu coração batendo? A maior parte das pessoas não consegue, a menos que estejam agitadas ou com medo. Isso ocorre porque, em condições normais, o cérebro disfarça essa percepção para garantir um equilíbrio delicado e necessário: precisamos ser capazes de sentir o músculo cardíaco disparar ocasionalmente para reconhecer o medo ou a excitação. Porém, perceber o ritmo constante na maior parte do tempo nos distrairia demais ou até nos enlouqueceria. Atualmente, várias pesquisas sugerem, no entanto, que, devido à forma como o cérebro compensa (e disfarça) nossos batimentos, ele poderia estar vulnerável a ilusões sensoriais.

Cientistas de uma equipe do Instituto de Tecnologia Federal Suíço, em Lausanne, conduziram uma série de estudos com 143 participantes e constataram que os voluntários levavam mais tempo para identificar um objeto que “aparecia e sumia” quando surgia em sincronia com seus batimentos cardíacos. Utilizando uma ressonância magnética funcional, os especialistas notaram também que a atividade na ínsula, uma área cerebral associada à autopercepção, era suprimida quando as pessoas viam essas imagens sincronizadas.

Os pesquisadores que conduziram o estudo, publicado em maio de 2016 no Journal of Neuroscience, sugerem que o objeto era suprimido pelo cérebro, pois se “misturava” com todas as outras alterações do corpo que ocorrem com cada batimento cardíaco, das quais não nos damos conta: os olhos fazem movimentos minúsculos, a pressão ocular muda ligeiramente, o tórax se expande e se contrai. “O cérebro ‘sabe’ que o batimento é proveniente da própria pessoa, por isso é como se não se incomodasse com as consequências sensoriais desses sinais”, diz Roy Salomon, um dos a tores do estudo.

Outra pesquisa já havia mostrado que as pessoas percebem mais prontamente que um órgão ou membro de realidade virtual é realmente o seu próprio quando surge junto a um estímulo que “aparece e some” em sincronia com seus batimentos cardíacos. Na extremidade oposta do espectro estão resultados de estudos que revelam que as sensações cardíacas podem intensificar o processo de identificação de ameaças. Indivíduos detectam com mais facilidade imagens assustadoras que aparecem ao mesmo tempo que os batimentos cardíacos e as consideram mais intensas. Talvez em razão de um batimento cardíaco perceptível estar frequentemente associado ao medo e à ansiedade, o cérebro tende a confundir o estímulo sincronizado, como se estivesse associado à reação de estresse que nos impulsiona a lutar ou fugir. A descoberta ajuda a explicar por que as pessoas muito sensíveis a seus estados internos, incluindo a consciência de seus bati- mentos cardíacos, tendem a ser mais propensas a transtornos de ansiedade e pânico. Para a maioria de nós, porém, o coração continua sua labuta sem ser notado – e pode ser que as peculiaridades perceptuais relacionadas também não estejam sendo notadas.

Batimentos cardíacos podem enganar percepções.2

OUTROS OLHARES

TEMPO NOS GAMES: UMA QUESTÃO SOCIAL

Violência urbana, divórcios em escala e a falta de monitoramento sobre o comportamento dos adolescentes contribuem para o aumento do engajamento deles em jogos eletrônicos.

Tempo nos games - uma questão social

Em 2016, o mercado de games faturou mais de 99 bilhões de dólares. Atualmente, a indústria de jogos eletrônicos é terceira maior do mundo, perdendo em faturamento apenas para os segmentos bélico e automobilístico. Consumidores adolescentes são maioria, comparados com outros grupos etários. A preocupação maior desse grupo, comumente, é sobre o uso exagerado e aspectos associados à dependência do jogo. O consumo pode ser tão intenso que o jogador abre mão do convívio social para permanecer jogando. Em casos extremos, isso pode virar um transtorno, trazendo muitos prejuízos para o jogador e também para a família. Estudos sugerem que características psicológicas (por exemplo, extroversão, introversão), características sociodemográficas e relacionamento proximal familiar são variáveis que influenciam fortemente o tempo investido em um jogo eletrônico. Sabe-se, por exemplo, que a qualidade da relação entre pai e filho é inversamente proporcional ao tempo dedicado aos games. Dito de outro modo, quanto melhor é a relação estabelecida entre pais e filho, menor é o número de horas jogadas.

No entanto, em recente estudo publicado por pesquisadores da Universidade Nacional de Incheon, na Coreia do Norte, investigou outras variáveis até então não estudadas. Os cientistas utilizaram uma perspectiva sociológica para estudar o fenômeno, chamando atenção sobre como a organização e a estrutura da comunidade em torno do jogador podem influenciar o tempo despendido nos jogos pelos adolescentes. Por exemplo, jogadores residentes em bairros percebidos como menos seguros e pobres, e que expressam um desejo menor de continuarem vivendo ali, investem mais horas em jogos eletrônicos. Outra característica importante estudada foi a emigração e imigração de pessoas nas comunidades norte-americanas. Quanto maior é o entra e sai de pessoas em uma dada comunidade, maior é a probabilidade de os adolescentes jogarem por mais tempo. Sabiamente, os pesquisadores relacionaram essa taxa de movimentação comunitária com a taxa de divórcios – uma vez que essa é uma das causas principais da saída de um dos pais uma comunidade. O resultado não podia ser diferente: constatou-se que os adolescentes tendem a jogar um maior número de horas em regiões com maiores taxas de divórcio. A separação dos pais diminui a força de monitoramento e supervisão sobre o comportamento dos adolescentes.

A proporção de famílias monoparentais é uma das características estruturais que enfraquece a rede social local, pois segundo os pesquisadores norte-coreanos, pais solteiros não investem tempo e energia suficientes para participar da comunidade local – diminuindo a supervisão coletiva, realizada, inclusive pela vizinhança.

Nesse aspecto, é importante refletirmos sobre o efeito da maneira que nos organizamos socialmente nas grandes cidades. Uma lista aérea das regiões da cidade de São Paulo, por exemplo, sugere um verdadeiro paliteiro de construções desconexas. No final dos anos 1970, a cidade cresceu para todos os lados, sobretudo paro cima, mergulhando de cabeça no mercado multimilionário de condomínios. Diante do crescimento da violência urbana, as pessoas identificaram vantagens e se refugiaram no alto das torres – uma espécie de fortaleza protegida por muros, sem acesso à rua, crianças e adolescentes têm cada vez menos contato com outras pessoas de sua idade e perdem oportunidades importantes para se engajar em brincadeiras extremamente importantes para o desenvolvimento. É brincando que se desenvolvem emoções e   conhecimentos que serão necessários na fase adulta. Dentro das residências, os filhos trabalham apenas o “ego” e passam a lidar com sentimentos como frustração, empatia e solidariedade de uma forma mais automatizada e centrada no seu próprio ego. Por exemplo, não gostou, desliga a TV e o videogame. O mundo passa a ser observado como uma sequência de telas que podem ser detectadas, desfeitas ou até mesmo bloqueadas por meio do touch em uma tela.

Como se não bastasse isso, a taxa de divórcios cresce e, com os pais separados um do outro, a força de monitoramento sobre o comportamento dos adolescentes fica arrefecida, contribuindo para o aumento do engajamento dele em jogos eletrônicos. Uma das soluções propostas pelos autores da pesquisa é investir em programas de assistência social tanto para jovens como para os pais. Ampliar o leque de opções para diversão e entretenimento em espaços públicos. Aumentar a segurança social é outra proposta apresentada. Não há dúvida que esses pontos são essenciais, mas eles dependem bastante de investimentos governamentais e decisões que necessariamente não estão sob o nosso controle.

Então, o que fazer? Esperar o mundo mudar ou provocar pequenas mudanças na forma que agimos? Não há dúvida de que a segunda opção seja possível e a mais adequada, Mesmo com as demandas de uma vida atribulada, os pais podem criar regras para os filhos e também investir tempo em entender o mundo deles. O jantar, com certeza fica mais prazeroso se ao invés da conversa à mesa ser de cobrança de por que o filho não larga o videogame, ela passe a focar no que o jovem ou a criança acham sobre o conteúdo de alguns jogos, quais as suas sensações e percepções acerca das horas que passam ausente desse jogo e quais seus desejos como pessoa. Muitos pais podem ser surpreendidos com as respostas deles.

Tempo nos games - uma questão social.2

TIAGO B. EIGÊNIO – é mestre em Psicologia e Estudos do Comportamento Humano. É designer de aprendizagens na Rhyzos Educação e escreve sobre educação, tecnologias e Neurociências.

E-mail: tiagoeugenio20@gmail.com

Site: www.tiagoeugenio.com.br

GESTÃO E CARREIRA

A SÍNDROME DO SUCESSO

Trabalho colaborativo sobrecarrega os profissionais mais talentosos.

A síndrome do sucesso

A onda do trabalho colaborativo tomou conta das empresas na última década – graças aos e-mails, às videoconferências e aos aplicativos de smartphones. Colegas trocam figurinhas o tempo todo sobre as tarefas a resolver, mesmo que estejam em continentes e fusos horários diferentes. Embora exaltado como símbolo dos novos tempos, esse fenômeno está fazendo uma vítima: aquele funcionário mais capacitado e criativo, que passa a ser bombardeado com dúvidas e solicitações alheias, sendo impedido, em consequência, de trabalhar com calma e produzir mais. Por conta da pressão, ele acaba, muitas vezes, deixando a empresa. É o que um estudo publicado pela Harvard Business Review qualifica de “síndrome do sucesso”: quanto mais talentoso o profissional, mais tarefas sobram para ele.

Examinando empresas da lista da Fortune 500, os autores constataram uma tendência crescente nas empresas: a adoção de sistemas duplos de gestão. Traduzindo: os funcionários passaram a responder a dois chefes – uma necessidade surgida da complexidade cada vez maior das tarefas exigidas. É mais uma manifestação do tal trabalho cooperativo que, novamente, acaba colocando mais peso sobre os ombros dos talentosos – não bastasse a solicitação dos colegas, eles agora têm de se reportar a dois superiores. O curioso é que muitos líderes se confessavam surpresos com a queda de produtividade de seus talentos – até se darem conta de que eles estavam recebendo solicitações de todos os lados. Os autores sugerem que as empresas estabeleçam limites ao trabalho colaborativo, poupando os mais capazes de desvios de função.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 16: 1-6

Alimento diário

A Perseguição é predita. A conveniência da partida de Cristo

 

I – Cristo lida fielmente com seus discípulos quando os envia nas suas missões, pois lhes contou o pior para que pudessem se sentar e considerar o custo. Ele lhes tinha dito, no capítulo anteri01 que esperasse m o ódio do mundo. Agora aqui, nestes versículos:

1. Ele lhes dá um motivo pelo qual os alarmou, desta forma, com a expectativa de problemas: “Tenho-vos dito essas coisas para que vos não escandalizeis”, v. 1. 1. Os discípulos de Cristo podem se escandalizar com a cruz, e o escândalo da cruz é uma tentação perigosa, até mesmo para os bons homens, que os tenta a voltar as costas para os caminhos de Deus, ou para se afastar deles, ou para prosseguir pesadamente neles; para deixar, ou sua integridade, ou seu conforto. Não é por acaso que uma ocasião de sofrimento é chamada de “hora da tentação”.

2. Nosso Senhor Jesus, ao nos avisar sobre os problemas, pretendia remover o terror, para que eles não fossem uma surpresa para nós. De todos os adversários da nossa paz, neste mundo de dificuldades, nenhum nos insulta mais violentamente, nem nos deixa mais em desordem, do que os desapontamentos. Mas nós podemos receber facilmente um visitante que esperamos, e estando precavidos, estaremos armados com antecedência.

 

II – Ele prediz particularmente o que eles iriam sofrer (v. 2): “Os que detêm o poder, ‘expulsar-vos-ão das sinagogas’. E isto não é o pior, eles os matarão”. Eis que há duas espadas sacadas contra os seguidores do Senhor Jesus.

1. A espada da reprovação eclesiástica. Ela é sacada, contra eles, pelos judeus, pois eles eram os únicos pretendentes ao poder da igreja. Eles “expulsar-vos-ão das sinagogas”, eles irão excomungá-los.

(1) “Eles irão expulsá-los das sinagogas das quais vocês são membros”. A princípio, eles os açoitaram nas suas sinagogas, por serem pessoas que desprezavam a lei (Mateus 10.17), e no final, os expulsaram, por serem incorrigíveis.

(2) “Eles irão expulsá-los da congregação de Israel em geral, a igreja nacional dos judeus. Irão negar-lhes os privilégios desta igreja, e os colocarão na condição de criminosos”, golpeados na cabeça, como outro lobo. Eles os considerarão como samaritanos, como homens pagãos e publicanos. Eu proíbo a você o uso de água e fogo. E, se não fosse pelas punições, confiscas e anulações, que ocorreram consequentemente, não seria nenhuma ofensa ser expulso, desta maneira, de uma casa infectada e decadente. Observe que sempre foi o destino dos discípulos de Cristo serem injustamente excomungados. Muitas boas verdades foram consideradas anátemas, e muitos filhos de Deus foram entregues a Satanás.

2. A espada do poder civil: “A ocasião é chegada, a hora é chegada. Agora, provavelmente, as coisas serão piores para vocês do que têm sido até agora. Quando vocês forem expulsos como hereges, eles os matarão, e pensarão estar fazendo um serviço a Deus, e muitos outros pensarão a mesma coisa”.

(1) Vocês perceberão que eles são realmente cruéis: eles os matarão. As ovelhas de Cristo eram consideradas como ovelhas para o matadouro. Os doze apóstolos (nós sabemos) foram todos mortos, exceto João. Cristo tinha dito (cap. 15.27): “Vós… testificareis”, vós sereis mártires, selareis a verdade com vosso sangue, o sangue do vosso coração.

(2) Vocês perceberão que eles são, aparentemente, conscienciosos. Eles julgarão fazer um serviço a Deus. Eles parecerão oferecer um bom sacrifício a Deus. Assim como aqueles que expulsavam os servos de Deus antigamente, e diziam: “O Senhor seja glorificado”, Isaías 66.5. Observe:

[1] É possível que aqueles que são verdadeiros inimigos do serviço a Deus finjam ter um zelo vigoroso por ele. A obra do Diabo, muitas vezes, foi feita usando o uniforme de Deus, e um dos mais perversos inimigos que o cristianismo jamais teve esteve no templo de Deus. Na verdade:

[2] É comum tratar com condescendência a um inimigo do Evangelho, sob o pretexto de um dever para com Deus, e um serviço à sua igreja. O povo de Deus sofreu as maiores aflições por parte de perseguidores conscienciosos. Paulo realmente pensava que tinha que fazer o que fez, contra o nome de Jesus. Isto não diminui, em nada, o pecado dos perseguidores, pois as vilanias nunca serão consagradas, ainda que lhes seja atribuído o nome de Deus. Mas acentua os sofrimentos dos perseguidos o fato de que morram considerados inimigos de Deus. Porém, no grande dia, haverá uma ressurreição pessoal e individual, que incluirá nomes e corpos.

 

III – Ele lhes dá a verdadeira razão da inimizade e da ira do mundo contra eles (v. 3): “Isso vos farão’’, não porque vós lhes tendes feito qualquer mal, mas ‘porque não conheceram ao Pai nem a mim’. Que o fato de que ninguém será inimigo de vocês, exceto os piores homens, possa consolar vocês”. Observe:

1. Muitos que fingem conhecer a Deus são desgraçadamente ignorantes sobre Ele. Aqueles que fingem servir a Deus pensam que o conhecem, mas, na verdade, têm uma noção errada a respeito dele. Israel traspassou o concerto, e ainda clamou: “Deus meu! Nós, Israel, te conhecemos”, Oséias 8.1,2.

2. Aqueles que são ignorantes a respeito de Cristo não podem ter nenhum conhecimento correto a respeito de Deus. Em vão, os homens fingem conhecer a Deus e ao Evangelho, enquanto desprezam a Cristo e ao cristianismo.

3. São realmente muito ignorantes a respeito de Deus e de Cristo aqueles que julgam que a perseguição das pessoas boas seja um serviço aceitável à Divindade. Aqueles que conhecem a Cristo sabem que Ele “não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las”; que Ele governa pelo poder da verdade e do amor, e não do fogo e da espada. Não há igreja tão perseguidora como aquela que faz da ignorância a mãe da devoção.

 

IV – Ele lhes diz por que lhes deu este aviso agora, e por que não o fez antes.

1. Ele lhes diz isto agora (v. 4), não para desencorajá-los, ou aumentar seu sofrimento atual. Também não lhes falou do perigo que corriam para que pudessem planejar como evitá-lo, mas para que, quando chegasse “aquela hora” (e podem ter a certeza de que ela chegaria), eles se lembrassem de que o Senhor já lhes tinha falado sobre ela. Observe que, quando chega a hora do sofrimento, é útil que nos lembremos daquilo que Cristo nos disse sobre este.

(1) Ele lhes diz isto agora para que nossa fé na previsão e na fidelidade de Cristo possa ser confirmada. E:

(2) Para que as dificuldades possam ser menos dolorosas, pois já nos foi falado sobre elas anteriormente, e para que nos dediquemos à nossa profissão de fé na expectativa delas, de modo que elas não sejam uma surpresa, nem sejam interpretadas como um mal que nos é feito. Assim como Cristo, nos seus sofrimentos, também seus seguidores, nos seus sofrimentos, objetivam o cumprimento das Escrituras.

2. Por que Ele não lhes contou isto antes: “Eu não vos disse isso desde o princípio”, quando nos conhecemos, “porque estava convosco”.

(1) Enquanto estava com eles, Ele suportava o choque da maldade do mundo, e permanecia na linha de frente da batalha. Contra Ele, os poderes das trevas apontaram toda a sua força, não contra pequenos ou grandes, mas somente contra o rei de Israel. Ele não tinha necessidade de falar tanto aos discípulos sobre os sofrimentos, porque eles não tinham grande participação neles. Mas descobrimos que, desde o princípio, Ele lhes pedia que se preparassem para os sofrimentos. E, portanto:

(2) Isto parece indicar a promessa de “outro consolador”. Ele tinha lhes falado pouco sobre isto no início, porque Ele mesmo estava com eles, para instruí-los, orientá-los e consolá-los, e então não precisavam da promessa da presença extraordinária do Espírito. Os filhos da câmara nupcial não têm tanta necessidade de um consolador, até que o esposo seja retirado.

 

V – Jesus expressa uma preocupação muito afetuosa com a atual tristeza dos seus discípulos, por causa do que Ele lhes tinha dito (vv. 5,6): “Agora Eu não devo mais ficar convosco, mas devo seguir meu caminho em direção ‘àquele que me enviou’, para repousar ali, depois desta fadiga. ‘E nenhum de vós me pergunta’, com alguma coragem: ‘Para onde vais?’ Mas, em vez de procurar o que poderia consolar-vos, vós vos aprofundais no que parece melancólico, e o ‘vosso coração se encheu de tristeza”‘.

1. Ele lhes tinha dito que estava prestes a deixá-los: ”Agora, vou”. Ele não era afastado pela força, mas partia voluntariamente. Sua vida não era extraída dele, mas entregue por Ele. Ele foi para aquele que o enviou, para prestar contas da sua obra. Assim, quando nós partirmos deste mundo, nós iremos para aquele que nos enviou a ele, e isto deveria nos fazer, a todos, interessados em viver com bons objetivos, lembrando que temos uma tarefa que nos foi confiada, que deve ser desempenhada até um dia determinado.

2. Ele lhes tinha advertido sobre as dificuldades que sofreriam quando Ele tivesse partido, e que não deveriam esperar uma vida tão tranquila como a que tinham tido. Consequentemente, se este era o legado que Ele tinha para deixar a eles, que tinham deixado tudo por Ele, eles seriam tentados a pensar que tinham feito um mau negócio, e estavam, nesta ocasião, em consternação, em razão do que seu Mestre se solidariza com eles, mas ainda assim os repreende:

(1) Porque eles não se preocuparam com o consolo, e não se mobilizaram para procurá-lo: “Nenhum de vós me pergunta: Para onde vais?” Pedro tinha feito esta pergunta (cap. 13.36), e Tomé a tinha repetido (cap. 14.5), mas eles não perseveraram, eles não prestaram atenção à resposta. Eles estavam no escuro, no que dizia respeito a ela, e não investigaram nem procuraram um esclarecimento mais completo. Eles não continuaram a procurar, não continuaram batendo. Veja que Mestre misericordioso é Cristo, e corno Ele é condescendente com os fracos e ignorantes. Muitos professores não toleram que o aprendiz faça a mesma pergunta duas vezes. Se ele não consegue entender algo rapidamente, que continue sem entendê-lo. Mas nosso Senhor Jesus sabe corno lidar com as crianças, que devem ser ensinadas “mandamento sobre mandamento”. Se os discípulos aqui tivessem percebido que a partida de Jesus visava o progresso do seu Evangelho (Pois, por que seriam eles contra este progresso?) e o próprio progresso deles, seu afastamento deles e os sofrimentos deles por Ele não deveriam perturbá-los de urna maneira incomum. Pois uma visão de Jesus à direita de Deus seria um incentivo eficaz para eles, assim como o foi para Estêvão. Observe que uma investigação, com fé e humildade, dos desígnios e das tendências das mais obscuras dispensações da Providência nos ajudaria a nos reconciliarmos com elas, e nos faria sofrer menos, e temer menos, por sua causa. Isto nos faria deixar de perguntar: De onde eles vêm? E nos satisfaria abundantemente perguntar: Para onde eles vão? Pois sabemos que estas coisas contribuem para o bem, Romanos 8.28.

(2) Porque eles estavam excessivamente concentrados nos motivos da sua tristeza: “O vosso coração se encheu de tristeza”. Cristo tinha dito o suficiente para enchê-los de alegria (cap. 15.11). Mas, olhando somente para aquilo que lhes era contrário, e não para aquilo que era feito por eles, eles ficaram tão cheios de tristeza, que não havia espaço para a alegria. Observe que a falha e a tolice comum de cristãos melancólicos consiste em permanecerem no lado escuro da nuvem, para meditar somente no terror, e fazer-se de surdos para a voz de gozo e de alegria. Aquilo que enchia os corações dos discípulos de tristeza, e impedia a operação dos estímulos que Cristo administrava, era um afeto excessivamente grande por esta vida atual. Eles estavam cheios de esperanças com o reino e a glória externos do Mestre, além da esperança de que brilhariam e reinariam com Ele, e, consequentemente, ao invés disto, ouvir nada além de obrigações e aflições os enchia de tristeza. Nada atrapalha mais nossa alegria em Deus do que o amor pelo mundo, e a “tristeza do mundo” é a consequência.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

RONCO: UMA EPIDEMIA BARULHENTA

O ronco pode ser um indicador de apneia, uma doença grave. Novos recursos, como estímulos cerebrais, ajudam tanto o paciente quanto quem convive com ele a vencer esse problema.

Ronco - uma epidemia barulhenta

Durante muitos anos, o ronco estrondoso de AI Pierce costumava levar sua mulher a sair do quarto e se aconchegar no sofá da sala de televisão. Após inúmeras noites mal dormidas, ele passou, então, a usar um pequeno controle remoto para ligar um sensor eletrônico implantado no peito. O dispositivo detecta pequenas mudanças no padrão de sua respiração – sinais precoces de que as vias aéreas de Pierce estão começando a entrar em colapso. Ao detectar essas mudanças, ele aciona um leve estímulo elétrico que percorre um fio até o pescoço. O fio termina em um minúsculo eletrodo ligado a um nervo que controla os músculos de sua língua. O nervo, estimulado pela carga, ativa músculos que empurram a língua de Pierce para a frente na boca, levando as vias aéreas a abrirem.

Durante toda a noite, o encanador de 65 anos de Florence, Carolina do Sul, recebe centenas de pequenos choques – mas dorme tranquilamente. Na manhã seguinte, descansado e revigorado, Pierce usa o controle para desligar o dispositivo.

Essa nova tecnologia, chamada estimulação eletrônica das vias aéreas superiores, aprovada no verão passado pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos Estados Unidos, oferece muito mais que alívio de um barulho irritante. O ronco alto de Pierce era o sintoma mais evidente de apneia obstrutiva do sono. O distúrbio é drasticamente subdiagnosticado, com número de atingidos estimado em 25 milhões de americanos. No Brasil, o Instituto do Sono de São Paulo estima que aproximadamente, 33% de pessoas sofrem de apneia. O problema é grave: está associado a hipertensão arterial, cardiopatias, diabetes, depressão e até diminuição da capacidade de aprendizagem, podendo deflagrar ou agravar esses quadros. Em geral, portadores de apneia do sono grave têm o triplo do risco de morte por todas essas causas, em comparação com pessoas sem o distúrbio.

No entanto, não é fácil encontrar auxílio para quem sofre do problema. Uma opção eficaz, uma máscara presa com tira que empurra delicadamente o ar para dentro da garganta para mantê-la aberta, é compreensivelmente rejeitada por grande parte dos que tentam usá-la, por ser bastante desconfortável. Outras opções oferecem resultados contraditórios. Assim, por mais radicais que possam parecer, o implante cirúrgico e a estimulação do nervo talvez sejam a resposta para muitos roncadores. Em um estudo publicado no ano passado no New England Joumal of Medicine, a técnica reduziu episódios de apneia grave em cerca de dois terços. A aprovação da FDA viabiliza o tratamento com cobertura de seguro.

Grande parte dos médicos ainda não se dedicam muito a encontrar terapias para a apneia. Mesmo os pacientes tendem a não considerar que o distúrbio seja grave. “A apneia do sono não aparece em um atestado de óbito”, avalia Patrick J. Strollo Jr., especialista do sono do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh. “Apesar de poder contribuir para a morte, não é realmente uma causa direta e o tratamento costuma ser visto como pouco urgente.”

Aproximadamente metade das pessoas que roncam alto têm apneia do sono, segundo a Fundação Nacional do Sono, nos Estados Unidos – mas nem todos sabem que sofrem desse quadro. Pierce só descobriu que tinha apneia porque sua mulher, Gail, solicitou ao médico uma receita de pílulas para dormir. Ele perguntou o motivo, e ela explicou que o ronco do marido não a deixava descansar. O médico lhe disse que, se as coisas eram assim tão sérias, o marido deveria fazer uma polissonografia. Durante o exame, feito à noite, enquanto o paciente dorme, vários sensores são ligados a ele. A observação revelou que Pierce tinha até 30 episódios de apneia por hora – ou seja, a cada dois minutos apresentava dificuldade para respirar.  Apesar de anos de cansaço contínuo, ele ficou atordoado ao saber do problema médio. “Pensei que era assim que todos viviam; não sabia de nada diferente”, recorda.

A apneia obstrutiva do sono costuma se desenvolver quando as pessoas envelhecem ou engordam, o que causa o estreitamento do tubo das vias aéreas, assim como a perda do tônus dos músculos da boca e da garganta. Quando os músculos relaxam durante o sono, as vias aéreas sofrem constrição e bloqueiam o fluxo de ar para os pulmões.

Algumas pessoas com apneia grave param de respirar completamente, por até um minuto ou dois, até 600 vezes por noite. Essa privação de oxigênio força o coração a trabalhar mais e cria ondas de adrenalina, que por sua vez provocam picos de pressão arterial.

Além disso, os níveis de oxigênio oscilantes podem provocar danos em células e tecidos nos pulmões e em outros órgãos.

Grandes intervenções, como a cirurgia reconstrutiva da garganta, têm sido ineficazes. Médicos frequentemente recomendam alterações no estilo de vida como perda de peso e às vezes até mesmo tocar instrumentos de sopro para fortalecer e tonificar os músculos da língua. Dilatadores nasais e bocais genéricos, fáceis de adquirir em farmácias, visam o ronco, o sintoma, em vez da apneia subjacente. O problema é que o que ajuda um paciente pode ser completamente inútil para outro. Além disso, qualquer objeto projetado para ficar na boca ou na garganta durante o sono, e manter as vias aéreas abertas, pode incomodar o paciente e realmente atrapalhar o sono. Qualquer tratamento precisa ser confortável, fácil de usar e confiável.

É o caso da máscara de oxigênio, chamada CPAP, que pressiona as vias aéreas: cobrindo o nariz (ou o nariz e a boca), sendo mantida por tiras que envolvem a cabeça. Uma pequena bomba de cabeceira proporciona um fluxo constante de ar pressurizado para a máscara através de tubo plástico. A terapia, disponível desde o início da década de 80, alivia os sintomas de apneia obstrutiva do sono, e pesquisas indicam índices mais baixos de doenças cardiovasculares e mortalidade entre pacientes que a adotam.

Porém, metade das pessoas que tentaram usar a máscara desistiram. Pierce é um deles. Como tantos outros, ele não conseguia dormir facilmente enquanto usava algo sobre o rosto, e ele não gostava do modo como a tubulação restringia seus movimentos na cama.

Strollo é um forte defensor da CPAP, mas há muito reconheceu a necessidade de alternativa. A estimulação eletrônica de vias aéreas superiores pode ser essa opção, segundo ele. O pesquisador conduziu um amplo estudo sobre o novo tratamento, um ensaio de um ano sobre sua segurança e eficácia, envolvendo 126 pessoas com apneia obstrutiva de moderada a grave. Todos os participantes tinham índice de massa corporal (IMC) de 32 ou menos (um homem com 1,77 m de altura e 101 kg de peso tem IMC de 32), tinham tentado CPAP inicialmente e não apresentavam histórico de doença cardiovascular. Em um estudo de janeiro passado no New England Journal of Medicine, Strollo e seus colegas relataram que a terapia, com um dispositivo feito pela Inspire Medical Systems, reduziu eventos de apneia do sono dos participantes em 68%, de uma média de 29,3 eventos por hora para nove por hora, basicamente transformando a apneia grave em um caso leve. (O CPAP, após ajuste, pode ter resultado ainda melhor, reduzindo a quantidade de eventos de apneia grave a menos de cinco por hora, em média, mas apenas em pacientes que o usarem continuamente.)

O cientista Alan R. Schwartz, especialista do sono na Universidade Johns Hopkins e responsável por grande parte do trabalho inicial de estimulação no nervo – ele mostrou, em animais, que dar choque no nervo controlador da língua abriria as vias aéreas -, diz estar satisfeito, mas cauteloso. “Ainda temos muito a aprender”, observa ele, ressaltando que pessoas com sobrepeso e obesas, grupo que representa porcentagem significativa da população com apneia obstrutiva, não são consideradas boas candidatas para o procedimento devido ao excesso de tecido em vias aéreas.

Além disso, a estimulação envolve um procedimento invasivo. A cirurgia para implante do dispositivo leva cerca de duas horas. Um cirurgião de cabeça e pescoço, operando através de uma incisão na lateral do pescoço, sob o queixo do paciente, coloca um eletrodo sobre o nervo hipoglosso, que controla os músculos da língua. Ele também implanta um conjunto de bateria e um sensor no peito e os conecta ao eletrodo com um fio condutor. Geralmente, o paciente tem alta no dia seguinte; o dispositivo é ligado e ajustado após um mês.

Pesquisadores investigam alternativas, como medicação. Em um estudo de seis semanas envolvendo 120 pacientes, David W. Carley, médico da Universidade de Illinois, em Chicago, está testando um fármaco denominado dronabinol, versão sintética de um composto ativo da maconha. Ele está comparando pessoas que recebem o medicamento com as que não o recebem. O dronabinol pode prevenir ou reduzir episódios de apneia do sono, estimulando certa atividade dos neurotransmissores no cérebro. Outros pesquisadores examinam o papel exercido pela leptina, hormônio que suprime o apetite e pode melhorar a função respiratória. Um pequeno estudo de 26 obesos com IMC superior a 45 sugere que determinados níveis de leptina podem minimizar o colapso das vias aéreas superiores.

Schwartz também quer modificar a técnica de estimulação, testando um dispositivo que elimina o sensor. Em vez disso, ele envia uma carga repetida ao nervo da língua para manter as vias aéreas abertas. Esse refinamento deve simplificar a cirurgia e reduzir peças que poderiam falhar, segundo Schwartz. Pierce, no entanto, está muito feliz com seu sistema. Seja acordado ou dormindo tranquilamente, ele nem percebe a presença do dispositivo.

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OUTROS OLHARES

PEÇA RARA

A extinção do filho do meio na família moderna.

Peça rara

Negligenciado, esquecido, sem papel definido. Não bastasse o sentimento de abandono que usualmente o acompanha, o filho do meio parece estar com os dias contados, pelo menos nos países ocidentais. Os riscos a sua existência decorrem, claro, da decisão dos casais de terem, no máximo, dois filhos.

Há vários indicadores de que famílias pequenas são o novo padrão. A taxa de fecundidade atingiu 1,76 nos Estados Unidos no ano passado, o menor índice em 30 anos. Na Europa, 47% das famílias têm um único filho, 40% chegaram aos dois rebentos e apenas 13% possuem três ou mais, ao menos nos 65 milhões de famílias pesquisadas pela Eurostat, o órgão que abastece a Comunidade Europeia com dados sobre populações. No Brasil, o índice de fecundidade foi de 1,72 em 2015.

Os especialistas concordam em relação aos motivos principais para o fim da família numerosa. O conflito entre a carreira da mulher e a maternidade e a delonga para ter o primeiro filho são alguns deles. O psicanalista Christian Dunker, autor de Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano, também aponta expectativas de desempenho idealizadas, que fazem os pais apostar mais em menos fichas. “Quando para ser pai ou mãe não basta ser pai ou mãe, mas envolve a comparação constante com os melhores pais, a tarefa é pesada demais”, afirmou. “Narcisicamente pesada demais.”

A psicóloga americana Catherine Salmon agrega às justificativas para uma prole menor o alto custo com educação e a necessidade dos pais de reservar tempo para si mesmos. Em parceria com a jornalista Katrin Schumann, ela escreveu The secret power of middle children (O poder secreto dos filhos do meio), ainda sem edição em português. “O principal motivo por trás do livro é derrubar mitos em torno desse indivíduo”, afirmou a psicóloga. “O número de filhos do meio está visivelmente decrescendo nos Estados Unidos e no Canadá, por exemplo, mas queremos ajudar os milhões que vieram – e ainda vêm – ao mundo nessa posição a se entenderem melhor, já que foram largamente ignorados pelos pesquisadores.”

Salmon lembra que o principal estigma a rondar os filhos do meio é o do tímido amargurado, aquela flor de estufa para a qual ninguém dá bola. “É uma visão negativa que não corresponde a todo o seu desempenho diplomático”, declarou. A psicóloga explicou que, não raro, o filho do meio apara arestas de relacionamento entre o mais velho e o caçula.

Ana Cláudia Bastos de Pinho Pessoa, de 27 anos, resume sua função: “Considero que minha ponte entre eles é importante, sim. Quando um não entende o outro, sempre tento acalmar as coisas”, disse. Nascida em Fortaleza, a revisora de livros didáticos vive em Hyêres, no sudeste da França, onde trabalha como missionária em uma comunidade religiosa. Ali, a garota introspectiva da infância toca percussão, dança, dá palestras e trabalha como vendedora no santuário onde vive. “Acho que outra característica dos filhos do meio é saber executar tarefas direcionadas a eles e, ao mesmo tempo, exercer papel de liderança em outros momentos”, afirmou Pessoa. Sua irmã mais velha, de quem se disse “de alguma maneira submissa” quando criança, hoje tem 29 anos. O caçula, de quem cuidou de perto, fez 24.

Lutar pela diferenciação seria outra marca registrada do filho do meio. Em meio às novidades trazidas tanto pelo mais velho quanto pelo mais novo, ele precisa fazer malabarismos para alcançar uma identidade própria. Esse comportamento por vezes é associado à rebeldia, mas não passaria da necessidade do filho do meio de ganhar cor em meio a uma posição bege.

“Existe no imaginário social este ‘não ficou nem lá nem cá’, uma situação intermediária em que até a nomeação ‘do meio’ parece carecer de sentido”, disse a psicanalista Carmen Àvila, de São Paulo. Por isso os que integram essa categoria invariavelmente apelam para a criatividade, ” por uma questão de sobrevivência”. Nos sites em que filhos do meio mostram estratégias para driblar a invisibilidade, as fotos retratam crianças fazendo caretas para a câmera, vestindo um saco amarelo na cabeça ou invadindo a cena de um jeito inusitado. Às vezes escapa um olhar atravessado para o caçula. “O do meio já foi o bebê da família, mas perde esse lugar com a chegada do terceiro”, lembrou Ávila.

Dependendo do intervalo de tempo para que isso aconteça, o ciúme pode vir a cavalo. “Quando minha mãe ficou grávida de meu irmão mais novo, eu tinha 12 anos e vivi uma crise profunda de ciúme”, afirmou Fábio Henrique Novais de Mesquita, de 38 anos, professor de língua portuguesa no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão. “Pensei que minha mãe implicava com tudo que eu fazia só porque estava grávida. Cheguei a dizer que ela tinha ‘enjoado’ de mim”, recordou, rindo. Mas era séria sua premência de aparecer depois que o irmão adentrou a casa. “Eu gostava de ajudar nas tarefas domésticas para ser elogiado, gostava de ser necessário. Não apenas útil, mas necessário.”

Mesquita tem um irmão, e não uma irmã, mais velho que ele. Para os estudiosos do tema, faz diferença os três filhos serem ou não do mesmo sexo. “Todos meninos ou todas meninas significa uma competição direta maior”, afirmou a americana Salmon. No caso de três homens, disse Dunker, haveria um conflito agudo para o filho do meio, que ou se volta muito para os pais ou se volta pouquíssimo, o que estimularia sua independência. Mesquita sempre foi mais família. “Mesmo com a vida financeira estável, permaneci em casa cuidando de meus pais, enquanto meus irmãos casaram e foram fazer a vida fora”, disse ele, que mora em São Luís, no Maranhão. Quando o trio é feminino, Dunker aponta a forte pressão para a do meio se destacar e a necessidade de os pais não furarem preferências. Nas combinações mistas, as tensões têm nuances diferentes.

Há casos em que as famílias são surpreendidas pela vinda de gêmeos quando pensavam em acrescentar apenas mais um lugar à mesa. A chegada de Beatriz e Helena surpreendeu Renata Campos Pagano, de 47 anos, que mora em Rio Claro, São Paulo. Ela já tinha João, então com 1 ano e 10 meses, quando se soube grávida das pequenas. A diferença de dois minutos entre uma e outra, embora ínfima, estabeleceu os papéis. Beatriz, hoje com 19 anos, é a do meio e assim se sente. “Eu cuido de minha irmã, sou mais proativa, mas não acho que sofro com isso, não preciso de atenção”, afirmou, resoluta. Ao que os irmãos respondem, em coro: “Mais ou menos”. Da última vez em que a mãe e a irmã foram comer hambúrguer e não a chamaram, bateu certo sentimento de indignada rejeição, outro sintoma típico do filho intermediário.

Já a portuguesa Betina Natel não sente essa diferença nos gêmeos Alina e Dominic, que chegaram três anos depois de Marc. A menina despontou três minutos antes do irmão, mas a mãe disse não sentir que Alina seja preterida – nem preferida. “Os gêmeos estão com 9 anos e alternam as fases; quando um está num período mais difícil, o outro espera”, afirmou. O pai das crianças é suíço, e a família vive no cantão de Zurique.

Com cerca de 8 milhões de habitantes, a Suíça está engatinhando em direção às famílias mais numerosas. De acordo com reportagem do jornal Blick, em 2016 nasceram 10 mil terceiros filhos, 2 mil a mais que em 2006. Seriam, a priori, 10 mil filhos do meio reclamando atenção ou saindo à luta. Uma instituição cristã suíça chamada IG Familie 3plus oferece apoio a casais com três filhos ou mais, como o próprio nome revela, providenciando roupas, brinquedos, férias com desconto, cadastro para ajuda financeira e respiro para mães exaustas. “Encorajamento mútuo é nosso objetivo”, anuncia o bordão da IG.

A realidade brasileira caminha para outro cenário, o das famílias menores. “Penso que, hoje, os casamentos tendem a durar, no máximo, dois filhos”, disse Dunker. Proliferaram os recasamentos, com meios-irmãos exibindo grande diferença de idade e propostas de criação. Isso talvez altere o conceito de filho do meio, ponderou o psicanalista. Fica mais forte a variável “filho desta relação” ou “filho da relação anterior”. Não que isso seja menos desafiador. “A orquestração dos modos de amor e de respeito nessas migrações, associada à prática maciça de abandono tácito, em que cada pai deixa para o outro as decisões mais difíceis, traz efeitos de longo prazo com os quais estamos nos deparando agora”, afirmou.

Na opinião da psicóloga Salmon, que não desgruda o olhar do filho do meio, tudo depende de quando essas famílias se rearranjam: “Muito da personalidade da pessoa é soldada nos primeiros dez anos de vida, portanto os efeitos vão depender da idade da criança quando a nova configuração se formar”. Deduz-se que o filho do meio pode continuar se sentindo assim, como veio ao mundo no núcleo original, ainda que seja o quarto ou sexto no layout familiar recente. “No fundo, a forma como esse indivíduo responde à ordem de chegada depende do entrelaçamento entre a estrutura psíquica dos pais, da estrutura psíquica da criança e do contexto sociocultural em que navega essa família”, acrescentou a psicanalista Ávila.

O que talvez anime o filho intermediário é saber que personalidades como Martin Luther King Jr., Abraham Lincoln, John F. Kennedy, Madonna, princesa Diana, David Letterman, Ayrton Senna e Bill Gates foram o que foram apesar de ser miolo de sanduíche – ou por causa disso. E que o calendário americano reserva um dia para as middle children. É o 12 de agosto, criado ainda nos anos 1980 para valorizar quem se sente ofuscado em casa, mas que justamente por esse motivo pode ganhar o universo.