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TEMPO NOS GAMES: UMA QUESTÃO SOCIAL

Violência urbana, divórcios em escala e a falta de monitoramento sobre o comportamento dos adolescentes contribuem para o aumento do engajamento deles em jogos eletrônicos.

Tempo nos games - uma questão social

Em 2016, o mercado de games faturou mais de 99 bilhões de dólares. Atualmente, a indústria de jogos eletrônicos é terceira maior do mundo, perdendo em faturamento apenas para os segmentos bélico e automobilístico. Consumidores adolescentes são maioria, comparados com outros grupos etários. A preocupação maior desse grupo, comumente, é sobre o uso exagerado e aspectos associados à dependência do jogo. O consumo pode ser tão intenso que o jogador abre mão do convívio social para permanecer jogando. Em casos extremos, isso pode virar um transtorno, trazendo muitos prejuízos para o jogador e também para a família. Estudos sugerem que características psicológicas (por exemplo, extroversão, introversão), características sociodemográficas e relacionamento proximal familiar são variáveis que influenciam fortemente o tempo investido em um jogo eletrônico. Sabe-se, por exemplo, que a qualidade da relação entre pai e filho é inversamente proporcional ao tempo dedicado aos games. Dito de outro modo, quanto melhor é a relação estabelecida entre pais e filho, menor é o número de horas jogadas.

No entanto, em recente estudo publicado por pesquisadores da Universidade Nacional de Incheon, na Coreia do Norte, investigou outras variáveis até então não estudadas. Os cientistas utilizaram uma perspectiva sociológica para estudar o fenômeno, chamando atenção sobre como a organização e a estrutura da comunidade em torno do jogador podem influenciar o tempo despendido nos jogos pelos adolescentes. Por exemplo, jogadores residentes em bairros percebidos como menos seguros e pobres, e que expressam um desejo menor de continuarem vivendo ali, investem mais horas em jogos eletrônicos. Outra característica importante estudada foi a emigração e imigração de pessoas nas comunidades norte-americanas. Quanto maior é o entra e sai de pessoas em uma dada comunidade, maior é a probabilidade de os adolescentes jogarem por mais tempo. Sabiamente, os pesquisadores relacionaram essa taxa de movimentação comunitária com a taxa de divórcios – uma vez que essa é uma das causas principais da saída de um dos pais uma comunidade. O resultado não podia ser diferente: constatou-se que os adolescentes tendem a jogar um maior número de horas em regiões com maiores taxas de divórcio. A separação dos pais diminui a força de monitoramento e supervisão sobre o comportamento dos adolescentes.

A proporção de famílias monoparentais é uma das características estruturais que enfraquece a rede social local, pois segundo os pesquisadores norte-coreanos, pais solteiros não investem tempo e energia suficientes para participar da comunidade local – diminuindo a supervisão coletiva, realizada, inclusive pela vizinhança.

Nesse aspecto, é importante refletirmos sobre o efeito da maneira que nos organizamos socialmente nas grandes cidades. Uma lista aérea das regiões da cidade de São Paulo, por exemplo, sugere um verdadeiro paliteiro de construções desconexas. No final dos anos 1970, a cidade cresceu para todos os lados, sobretudo paro cima, mergulhando de cabeça no mercado multimilionário de condomínios. Diante do crescimento da violência urbana, as pessoas identificaram vantagens e se refugiaram no alto das torres – uma espécie de fortaleza protegida por muros, sem acesso à rua, crianças e adolescentes têm cada vez menos contato com outras pessoas de sua idade e perdem oportunidades importantes para se engajar em brincadeiras extremamente importantes para o desenvolvimento. É brincando que se desenvolvem emoções e   conhecimentos que serão necessários na fase adulta. Dentro das residências, os filhos trabalham apenas o “ego” e passam a lidar com sentimentos como frustração, empatia e solidariedade de uma forma mais automatizada e centrada no seu próprio ego. Por exemplo, não gostou, desliga a TV e o videogame. O mundo passa a ser observado como uma sequência de telas que podem ser detectadas, desfeitas ou até mesmo bloqueadas por meio do touch em uma tela.

Como se não bastasse isso, a taxa de divórcios cresce e, com os pais separados um do outro, a força de monitoramento sobre o comportamento dos adolescentes fica arrefecida, contribuindo para o aumento do engajamento dele em jogos eletrônicos. Uma das soluções propostas pelos autores da pesquisa é investir em programas de assistência social tanto para jovens como para os pais. Ampliar o leque de opções para diversão e entretenimento em espaços públicos. Aumentar a segurança social é outra proposta apresentada. Não há dúvida que esses pontos são essenciais, mas eles dependem bastante de investimentos governamentais e decisões que necessariamente não estão sob o nosso controle.

Então, o que fazer? Esperar o mundo mudar ou provocar pequenas mudanças na forma que agimos? Não há dúvida de que a segunda opção seja possível e a mais adequada, Mesmo com as demandas de uma vida atribulada, os pais podem criar regras para os filhos e também investir tempo em entender o mundo deles. O jantar, com certeza fica mais prazeroso se ao invés da conversa à mesa ser de cobrança de por que o filho não larga o videogame, ela passe a focar no que o jovem ou a criança acham sobre o conteúdo de alguns jogos, quais as suas sensações e percepções acerca das horas que passam ausente desse jogo e quais seus desejos como pessoa. Muitos pais podem ser surpreendidos com as respostas deles.

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TIAGO B. EIGÊNIO – é mestre em Psicologia e Estudos do Comportamento Humano. É designer de aprendizagens na Rhyzos Educação e escreve sobre educação, tecnologias e Neurociências.

E-mail: tiagoeugenio20@gmail.com

Site: www.tiagoeugenio.com.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.