PSICOLOGIA ANALÍTICA

RONCO: UMA EPIDEMIA BARULHENTA

O ronco pode ser um indicador de apneia, uma doença grave. Novos recursos, como estímulos cerebrais, ajudam tanto o paciente quanto quem convive com ele a vencer esse problema.

Ronco - uma epidemia barulhenta

Durante muitos anos, o ronco estrondoso de AI Pierce costumava levar sua mulher a sair do quarto e se aconchegar no sofá da sala de televisão. Após inúmeras noites mal dormidas, ele passou, então, a usar um pequeno controle remoto para ligar um sensor eletrônico implantado no peito. O dispositivo detecta pequenas mudanças no padrão de sua respiração – sinais precoces de que as vias aéreas de Pierce estão começando a entrar em colapso. Ao detectar essas mudanças, ele aciona um leve estímulo elétrico que percorre um fio até o pescoço. O fio termina em um minúsculo eletrodo ligado a um nervo que controla os músculos de sua língua. O nervo, estimulado pela carga, ativa músculos que empurram a língua de Pierce para a frente na boca, levando as vias aéreas a abrirem.

Durante toda a noite, o encanador de 65 anos de Florence, Carolina do Sul, recebe centenas de pequenos choques – mas dorme tranquilamente. Na manhã seguinte, descansado e revigorado, Pierce usa o controle para desligar o dispositivo.

Essa nova tecnologia, chamada estimulação eletrônica das vias aéreas superiores, aprovada no verão passado pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos Estados Unidos, oferece muito mais que alívio de um barulho irritante. O ronco alto de Pierce era o sintoma mais evidente de apneia obstrutiva do sono. O distúrbio é drasticamente subdiagnosticado, com número de atingidos estimado em 25 milhões de americanos. No Brasil, o Instituto do Sono de São Paulo estima que aproximadamente, 33% de pessoas sofrem de apneia. O problema é grave: está associado a hipertensão arterial, cardiopatias, diabetes, depressão e até diminuição da capacidade de aprendizagem, podendo deflagrar ou agravar esses quadros. Em geral, portadores de apneia do sono grave têm o triplo do risco de morte por todas essas causas, em comparação com pessoas sem o distúrbio.

No entanto, não é fácil encontrar auxílio para quem sofre do problema. Uma opção eficaz, uma máscara presa com tira que empurra delicadamente o ar para dentro da garganta para mantê-la aberta, é compreensivelmente rejeitada por grande parte dos que tentam usá-la, por ser bastante desconfortável. Outras opções oferecem resultados contraditórios. Assim, por mais radicais que possam parecer, o implante cirúrgico e a estimulação do nervo talvez sejam a resposta para muitos roncadores. Em um estudo publicado no ano passado no New England Joumal of Medicine, a técnica reduziu episódios de apneia grave em cerca de dois terços. A aprovação da FDA viabiliza o tratamento com cobertura de seguro.

Grande parte dos médicos ainda não se dedicam muito a encontrar terapias para a apneia. Mesmo os pacientes tendem a não considerar que o distúrbio seja grave. “A apneia do sono não aparece em um atestado de óbito”, avalia Patrick J. Strollo Jr., especialista do sono do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh. “Apesar de poder contribuir para a morte, não é realmente uma causa direta e o tratamento costuma ser visto como pouco urgente.”

Aproximadamente metade das pessoas que roncam alto têm apneia do sono, segundo a Fundação Nacional do Sono, nos Estados Unidos – mas nem todos sabem que sofrem desse quadro. Pierce só descobriu que tinha apneia porque sua mulher, Gail, solicitou ao médico uma receita de pílulas para dormir. Ele perguntou o motivo, e ela explicou que o ronco do marido não a deixava descansar. O médico lhe disse que, se as coisas eram assim tão sérias, o marido deveria fazer uma polissonografia. Durante o exame, feito à noite, enquanto o paciente dorme, vários sensores são ligados a ele. A observação revelou que Pierce tinha até 30 episódios de apneia por hora – ou seja, a cada dois minutos apresentava dificuldade para respirar.  Apesar de anos de cansaço contínuo, ele ficou atordoado ao saber do problema médio. “Pensei que era assim que todos viviam; não sabia de nada diferente”, recorda.

A apneia obstrutiva do sono costuma se desenvolver quando as pessoas envelhecem ou engordam, o que causa o estreitamento do tubo das vias aéreas, assim como a perda do tônus dos músculos da boca e da garganta. Quando os músculos relaxam durante o sono, as vias aéreas sofrem constrição e bloqueiam o fluxo de ar para os pulmões.

Algumas pessoas com apneia grave param de respirar completamente, por até um minuto ou dois, até 600 vezes por noite. Essa privação de oxigênio força o coração a trabalhar mais e cria ondas de adrenalina, que por sua vez provocam picos de pressão arterial.

Além disso, os níveis de oxigênio oscilantes podem provocar danos em células e tecidos nos pulmões e em outros órgãos.

Grandes intervenções, como a cirurgia reconstrutiva da garganta, têm sido ineficazes. Médicos frequentemente recomendam alterações no estilo de vida como perda de peso e às vezes até mesmo tocar instrumentos de sopro para fortalecer e tonificar os músculos da língua. Dilatadores nasais e bocais genéricos, fáceis de adquirir em farmácias, visam o ronco, o sintoma, em vez da apneia subjacente. O problema é que o que ajuda um paciente pode ser completamente inútil para outro. Além disso, qualquer objeto projetado para ficar na boca ou na garganta durante o sono, e manter as vias aéreas abertas, pode incomodar o paciente e realmente atrapalhar o sono. Qualquer tratamento precisa ser confortável, fácil de usar e confiável.

É o caso da máscara de oxigênio, chamada CPAP, que pressiona as vias aéreas: cobrindo o nariz (ou o nariz e a boca), sendo mantida por tiras que envolvem a cabeça. Uma pequena bomba de cabeceira proporciona um fluxo constante de ar pressurizado para a máscara através de tubo plástico. A terapia, disponível desde o início da década de 80, alivia os sintomas de apneia obstrutiva do sono, e pesquisas indicam índices mais baixos de doenças cardiovasculares e mortalidade entre pacientes que a adotam.

Porém, metade das pessoas que tentaram usar a máscara desistiram. Pierce é um deles. Como tantos outros, ele não conseguia dormir facilmente enquanto usava algo sobre o rosto, e ele não gostava do modo como a tubulação restringia seus movimentos na cama.

Strollo é um forte defensor da CPAP, mas há muito reconheceu a necessidade de alternativa. A estimulação eletrônica de vias aéreas superiores pode ser essa opção, segundo ele. O pesquisador conduziu um amplo estudo sobre o novo tratamento, um ensaio de um ano sobre sua segurança e eficácia, envolvendo 126 pessoas com apneia obstrutiva de moderada a grave. Todos os participantes tinham índice de massa corporal (IMC) de 32 ou menos (um homem com 1,77 m de altura e 101 kg de peso tem IMC de 32), tinham tentado CPAP inicialmente e não apresentavam histórico de doença cardiovascular. Em um estudo de janeiro passado no New England Journal of Medicine, Strollo e seus colegas relataram que a terapia, com um dispositivo feito pela Inspire Medical Systems, reduziu eventos de apneia do sono dos participantes em 68%, de uma média de 29,3 eventos por hora para nove por hora, basicamente transformando a apneia grave em um caso leve. (O CPAP, após ajuste, pode ter resultado ainda melhor, reduzindo a quantidade de eventos de apneia grave a menos de cinco por hora, em média, mas apenas em pacientes que o usarem continuamente.)

O cientista Alan R. Schwartz, especialista do sono na Universidade Johns Hopkins e responsável por grande parte do trabalho inicial de estimulação no nervo – ele mostrou, em animais, que dar choque no nervo controlador da língua abriria as vias aéreas -, diz estar satisfeito, mas cauteloso. “Ainda temos muito a aprender”, observa ele, ressaltando que pessoas com sobrepeso e obesas, grupo que representa porcentagem significativa da população com apneia obstrutiva, não são consideradas boas candidatas para o procedimento devido ao excesso de tecido em vias aéreas.

Além disso, a estimulação envolve um procedimento invasivo. A cirurgia para implante do dispositivo leva cerca de duas horas. Um cirurgião de cabeça e pescoço, operando através de uma incisão na lateral do pescoço, sob o queixo do paciente, coloca um eletrodo sobre o nervo hipoglosso, que controla os músculos da língua. Ele também implanta um conjunto de bateria e um sensor no peito e os conecta ao eletrodo com um fio condutor. Geralmente, o paciente tem alta no dia seguinte; o dispositivo é ligado e ajustado após um mês.

Pesquisadores investigam alternativas, como medicação. Em um estudo de seis semanas envolvendo 120 pacientes, David W. Carley, médico da Universidade de Illinois, em Chicago, está testando um fármaco denominado dronabinol, versão sintética de um composto ativo da maconha. Ele está comparando pessoas que recebem o medicamento com as que não o recebem. O dronabinol pode prevenir ou reduzir episódios de apneia do sono, estimulando certa atividade dos neurotransmissores no cérebro. Outros pesquisadores examinam o papel exercido pela leptina, hormônio que suprime o apetite e pode melhorar a função respiratória. Um pequeno estudo de 26 obesos com IMC superior a 45 sugere que determinados níveis de leptina podem minimizar o colapso das vias aéreas superiores.

Schwartz também quer modificar a técnica de estimulação, testando um dispositivo que elimina o sensor. Em vez disso, ele envia uma carga repetida ao nervo da língua para manter as vias aéreas abertas. Esse refinamento deve simplificar a cirurgia e reduzir peças que poderiam falhar, segundo Schwartz. Pierce, no entanto, está muito feliz com seu sistema. Seja acordado ou dormindo tranquilamente, ele nem percebe a presença do dispositivo.

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OUTROS OLHARES

PEÇA RARA

A extinção do filho do meio na família moderna.

Peça rara

Negligenciado, esquecido, sem papel definido. Não bastasse o sentimento de abandono que usualmente o acompanha, o filho do meio parece estar com os dias contados, pelo menos nos países ocidentais. Os riscos a sua existência decorrem, claro, da decisão dos casais de terem, no máximo, dois filhos.

Há vários indicadores de que famílias pequenas são o novo padrão. A taxa de fecundidade atingiu 1,76 nos Estados Unidos no ano passado, o menor índice em 30 anos. Na Europa, 47% das famílias têm um único filho, 40% chegaram aos dois rebentos e apenas 13% possuem três ou mais, ao menos nos 65 milhões de famílias pesquisadas pela Eurostat, o órgão que abastece a Comunidade Europeia com dados sobre populações. No Brasil, o índice de fecundidade foi de 1,72 em 2015.

Os especialistas concordam em relação aos motivos principais para o fim da família numerosa. O conflito entre a carreira da mulher e a maternidade e a delonga para ter o primeiro filho são alguns deles. O psicanalista Christian Dunker, autor de Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano, também aponta expectativas de desempenho idealizadas, que fazem os pais apostar mais em menos fichas. “Quando para ser pai ou mãe não basta ser pai ou mãe, mas envolve a comparação constante com os melhores pais, a tarefa é pesada demais”, afirmou. “Narcisicamente pesada demais.”

A psicóloga americana Catherine Salmon agrega às justificativas para uma prole menor o alto custo com educação e a necessidade dos pais de reservar tempo para si mesmos. Em parceria com a jornalista Katrin Schumann, ela escreveu The secret power of middle children (O poder secreto dos filhos do meio), ainda sem edição em português. “O principal motivo por trás do livro é derrubar mitos em torno desse indivíduo”, afirmou a psicóloga. “O número de filhos do meio está visivelmente decrescendo nos Estados Unidos e no Canadá, por exemplo, mas queremos ajudar os milhões que vieram – e ainda vêm – ao mundo nessa posição a se entenderem melhor, já que foram largamente ignorados pelos pesquisadores.”

Salmon lembra que o principal estigma a rondar os filhos do meio é o do tímido amargurado, aquela flor de estufa para a qual ninguém dá bola. “É uma visão negativa que não corresponde a todo o seu desempenho diplomático”, declarou. A psicóloga explicou que, não raro, o filho do meio apara arestas de relacionamento entre o mais velho e o caçula.

Ana Cláudia Bastos de Pinho Pessoa, de 27 anos, resume sua função: “Considero que minha ponte entre eles é importante, sim. Quando um não entende o outro, sempre tento acalmar as coisas”, disse. Nascida em Fortaleza, a revisora de livros didáticos vive em Hyêres, no sudeste da França, onde trabalha como missionária em uma comunidade religiosa. Ali, a garota introspectiva da infância toca percussão, dança, dá palestras e trabalha como vendedora no santuário onde vive. “Acho que outra característica dos filhos do meio é saber executar tarefas direcionadas a eles e, ao mesmo tempo, exercer papel de liderança em outros momentos”, afirmou Pessoa. Sua irmã mais velha, de quem se disse “de alguma maneira submissa” quando criança, hoje tem 29 anos. O caçula, de quem cuidou de perto, fez 24.

Lutar pela diferenciação seria outra marca registrada do filho do meio. Em meio às novidades trazidas tanto pelo mais velho quanto pelo mais novo, ele precisa fazer malabarismos para alcançar uma identidade própria. Esse comportamento por vezes é associado à rebeldia, mas não passaria da necessidade do filho do meio de ganhar cor em meio a uma posição bege.

“Existe no imaginário social este ‘não ficou nem lá nem cá’, uma situação intermediária em que até a nomeação ‘do meio’ parece carecer de sentido”, disse a psicanalista Carmen Àvila, de São Paulo. Por isso os que integram essa categoria invariavelmente apelam para a criatividade, ” por uma questão de sobrevivência”. Nos sites em que filhos do meio mostram estratégias para driblar a invisibilidade, as fotos retratam crianças fazendo caretas para a câmera, vestindo um saco amarelo na cabeça ou invadindo a cena de um jeito inusitado. Às vezes escapa um olhar atravessado para o caçula. “O do meio já foi o bebê da família, mas perde esse lugar com a chegada do terceiro”, lembrou Ávila.

Dependendo do intervalo de tempo para que isso aconteça, o ciúme pode vir a cavalo. “Quando minha mãe ficou grávida de meu irmão mais novo, eu tinha 12 anos e vivi uma crise profunda de ciúme”, afirmou Fábio Henrique Novais de Mesquita, de 38 anos, professor de língua portuguesa no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão. “Pensei que minha mãe implicava com tudo que eu fazia só porque estava grávida. Cheguei a dizer que ela tinha ‘enjoado’ de mim”, recordou, rindo. Mas era séria sua premência de aparecer depois que o irmão adentrou a casa. “Eu gostava de ajudar nas tarefas domésticas para ser elogiado, gostava de ser necessário. Não apenas útil, mas necessário.”

Mesquita tem um irmão, e não uma irmã, mais velho que ele. Para os estudiosos do tema, faz diferença os três filhos serem ou não do mesmo sexo. “Todos meninos ou todas meninas significa uma competição direta maior”, afirmou a americana Salmon. No caso de três homens, disse Dunker, haveria um conflito agudo para o filho do meio, que ou se volta muito para os pais ou se volta pouquíssimo, o que estimularia sua independência. Mesquita sempre foi mais família. “Mesmo com a vida financeira estável, permaneci em casa cuidando de meus pais, enquanto meus irmãos casaram e foram fazer a vida fora”, disse ele, que mora em São Luís, no Maranhão. Quando o trio é feminino, Dunker aponta a forte pressão para a do meio se destacar e a necessidade de os pais não furarem preferências. Nas combinações mistas, as tensões têm nuances diferentes.

Há casos em que as famílias são surpreendidas pela vinda de gêmeos quando pensavam em acrescentar apenas mais um lugar à mesa. A chegada de Beatriz e Helena surpreendeu Renata Campos Pagano, de 47 anos, que mora em Rio Claro, São Paulo. Ela já tinha João, então com 1 ano e 10 meses, quando se soube grávida das pequenas. A diferença de dois minutos entre uma e outra, embora ínfima, estabeleceu os papéis. Beatriz, hoje com 19 anos, é a do meio e assim se sente. “Eu cuido de minha irmã, sou mais proativa, mas não acho que sofro com isso, não preciso de atenção”, afirmou, resoluta. Ao que os irmãos respondem, em coro: “Mais ou menos”. Da última vez em que a mãe e a irmã foram comer hambúrguer e não a chamaram, bateu certo sentimento de indignada rejeição, outro sintoma típico do filho intermediário.

Já a portuguesa Betina Natel não sente essa diferença nos gêmeos Alina e Dominic, que chegaram três anos depois de Marc. A menina despontou três minutos antes do irmão, mas a mãe disse não sentir que Alina seja preterida – nem preferida. “Os gêmeos estão com 9 anos e alternam as fases; quando um está num período mais difícil, o outro espera”, afirmou. O pai das crianças é suíço, e a família vive no cantão de Zurique.

Com cerca de 8 milhões de habitantes, a Suíça está engatinhando em direção às famílias mais numerosas. De acordo com reportagem do jornal Blick, em 2016 nasceram 10 mil terceiros filhos, 2 mil a mais que em 2006. Seriam, a priori, 10 mil filhos do meio reclamando atenção ou saindo à luta. Uma instituição cristã suíça chamada IG Familie 3plus oferece apoio a casais com três filhos ou mais, como o próprio nome revela, providenciando roupas, brinquedos, férias com desconto, cadastro para ajuda financeira e respiro para mães exaustas. “Encorajamento mútuo é nosso objetivo”, anuncia o bordão da IG.

A realidade brasileira caminha para outro cenário, o das famílias menores. “Penso que, hoje, os casamentos tendem a durar, no máximo, dois filhos”, disse Dunker. Proliferaram os recasamentos, com meios-irmãos exibindo grande diferença de idade e propostas de criação. Isso talvez altere o conceito de filho do meio, ponderou o psicanalista. Fica mais forte a variável “filho desta relação” ou “filho da relação anterior”. Não que isso seja menos desafiador. “A orquestração dos modos de amor e de respeito nessas migrações, associada à prática maciça de abandono tácito, em que cada pai deixa para o outro as decisões mais difíceis, traz efeitos de longo prazo com os quais estamos nos deparando agora”, afirmou.

Na opinião da psicóloga Salmon, que não desgruda o olhar do filho do meio, tudo depende de quando essas famílias se rearranjam: “Muito da personalidade da pessoa é soldada nos primeiros dez anos de vida, portanto os efeitos vão depender da idade da criança quando a nova configuração se formar”. Deduz-se que o filho do meio pode continuar se sentindo assim, como veio ao mundo no núcleo original, ainda que seja o quarto ou sexto no layout familiar recente. “No fundo, a forma como esse indivíduo responde à ordem de chegada depende do entrelaçamento entre a estrutura psíquica dos pais, da estrutura psíquica da criança e do contexto sociocultural em que navega essa família”, acrescentou a psicanalista Ávila.

O que talvez anime o filho intermediário é saber que personalidades como Martin Luther King Jr., Abraham Lincoln, John F. Kennedy, Madonna, princesa Diana, David Letterman, Ayrton Senna e Bill Gates foram o que foram apesar de ser miolo de sanduíche – ou por causa disso. E que o calendário americano reserva um dia para as middle children. É o 12 de agosto, criado ainda nos anos 1980 para valorizar quem se sente ofuscado em casa, mas que justamente por esse motivo pode ganhar o universo.

GESTÃO E CARREIRA

A ILUSÃO DO CEO BADALADO

Aceitar salário menor para trabalhar com um astro pode ser mau negócio.

A ilusão do CEO badalado

Embora o senso comum indique que a oferta de melhor remuneração é a justificativa decisiva para optar por um emprego, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e da Universidade de Nova York descobriram que não é bem assim. Avaliando cerca de 700 propostas de trabalho a candidatos que cursaram MBAs de elite, seu estudo, publicado no jornal Sociological Science, descobriu que muitos graduados escolhem certos empregos não pelo maior salário, mais sim aqueles resultantes de networking que oferecem perspectivas futuras mais promissoras para desenvolver a carreira, mesmo que isso cobre um custo financeiro inicial. Em vez de utilizar canais formais, como o recrutamento a partir das universidades, esses candidatos utilizam sua rede de contatos sociais para tentar ingressar em empresas comandadas por famosos CEOs. Acreditam que assim podem absorver o conhecimento dos “ídolos”, além de tornar o emprego mais charmoso entre colegas no mercado de trabalho.

OK, mas isso funciona mesmo? Estudo feito por pesquisadores da Universidade de Notre Dame, por exemplo, alerta para as limitações dessa estratégia de carreira. Sua conclusão básica: ter um superstar como mentor ou protetor não significa necessariamente que a pessoa disponha das habilidades essenciais para o aprendizado, e isso pode gerar estresses na relação. Embora sua pesquisa tenha se concentrado em dados da National Football League (NFL) americana, os autores argumentam que suas constatações são úteis a qualquer profissão. Tomando como base resultados de carreiras de cerca de 1,3 mil técnicos e dirigentes da NFL entre 1980 e 2010, incluindo número de vitórias e campeonatos conquistados, a pesquisa avaliou o desempenho dos jogadores que tinham maior prestígio inicial junto a seus líderes, descobrindo que muitos não corresponderam a essas expectativas e acabaram se desgastando, indo para o banco de reservas ou sendo dispensados.

É a consequência do chamado “efeito halo” (de auréola), quando a avaliação do desempenho de alguém é distorcida por algum tipo de viés que acaba gerando conclusões equivocadas. Elaborado em 1920 por Edward Lee Thorndike, professor da Universidade de Columbia e um pioneiro da psicologia educacional, esse conceito permanece válido até hoje. Em empresas ocorre o mesmo fenômeno: ser protegido e promovido por um CEO badalado não é garantia de sucesso, pois seu desempenho depende essencialmente de sua qualificação para o cargo e, ao não corresponder às expectativas, sua carreira tende a estagnar em vez de avançar.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 15: 26-27

Alimento diário

O Anúncio do Consolador

Tendo falado sobre a grande oposição que seu Evangelho provavelmente iria encontrar no mundo, e as dificuldades que seriam impostas aos que o pregassem, para que ninguém temesse que eles e o Evangelho fossem destruídos por esta violenta torrente, aqui Ele sugere a todos aqueles que desejavam o bem da sua causa e dos seus interesses a provisão efetiva que foi feita para apoiá-los, tanto pelo testemunho principal do Espírito (v. 26) quanto pelo testemunho secundário dos apóstolos (v. 27), e os testemunhos são os apoios adequados da verdade.

 

I – Aqui está a promessa de que o bendito Espírito irá manter a causa de Cristo no mundo, apesar de toda a oposição que ela encontrar. Cristo, quando foi ofendido, entregou sua causa ofendida ao seu Pai, e não perdeu pelo seu silêncio, pois o Consolador veio, defendeu-a vigorosamente e prosseguiu com ela triunfantemente. “Quando vier o Consolador”, ou Advogado, ‘que procede do Pai’, e ‘que eu da parte do Pai vos hei de enviar’, para suprir a falta da minha presença física, Ele ‘testificará de mim’ contra aqueles que me odeiam sem causa”. Neste versículo, nós temos mais informações a respeito do Espírito Santo do que em qualquer outro versículo na Bíblia. E, sendo batizados no seu nome, nós devemos nos interessar em conhecê-lo, tanto quanto Ele é revelado.

1. Aqui está uma explicação do Espírito na sua essência, ou mais exatamente, na sua subsistência. Ele é o “Espírito da verdade, que procede do Pai”. Aqui:

(1) Ele é mencionado como uma pessoa distinta, não uma qualidade ou propriedade, mas uma pessoa, sob o nome próprio de “Espírito”, e sob o título adequado de “Espírito da verdade”, um título apropriado para Ele, uma vez que Ele testifica.

(2) Como uma pessoa divina, “que procede do Pai”, que se manifestou desde a antiguidade, desde a eternidade. O espírito ou fôlego do homem, chamado de sopro da vida, procede do homem, e, interagindo com ele, expressa seu pensamento. Por ele estimulado, às vezes o homem exerce sua força para apagar o que ele deseje extinguir, e lutar por aquilo que ele deseje incentivar. Desta maneira, o bendito Espírito é a emanação da luz divina, e a energia do poder divino. Os raios do sol, pelos quais ele transmite e difunde sua luz, seu calor e sua influência, procedem do sol e são um só com ele. O Credo Niceno diz: O Espírito procede do Pai e do Filho, pois é chamado de Espírito do Filho, Gálatas 4.6. E aqui está escrito que o Filho o envia. A igreja grega preferiu dizer: do Pai, por intermédio do Filho.

2. Na sua missão.

(1) Ele virá em um profuso derramamento de seus dons, graças e poderes, mais abundante do que jamais houvera. Cristo tinha sido, por muito tempo, aquele que viria. Agora o bendito Espírito o é.

(2) “Eu da parte do Pai vos hei de enviar”. Ele tinha dito (cap. 14.16): “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador”, o que indica que o Espírito é o fruto da intercessão que Cristo faz, no interior do véu. Aqui Ele diz: “Vos hei de enviar”, o que indica que Ele é o fruto do seu domínio, no interior do véu. O Espírito foi enviado:

[1] Por Cristo, como Mediador, agora elevado às alturas, para dar dons aos homens, e todo o poder seria dado a Ele.

[2] Pelo Pai: “Não somente do céu, da casa de meu Pai” (o Espírito foi dado em meio a um som vindo do céu, Atos 2.2), “mas de acordo com a vontade e a indicação de meu Pai, e, em conformidade com elas, com seu poder e autoridade”.

[3] Aos apóstolos, para instruí-los na sua pregação, capacitá-los para o trabalho, e sustentá-los nos seus sofrimentos. Ele foi dado a eles e aos seus sucessores, tanto no cristianismo quanto no ministério. A eles, à sua posteridade, e à posteridade da sua posteridade, de acordo com a promessa, Isaías 59.21.

3. Na sua função e na sua operação, que são duas:

(1) Uma estava implícita no título dado a Ele. Ele é “o Consolador”, ou Advogado. Um advogado por Cristo, para manter sua causa contra a infidelidade do mundo, um consolador para os santos, contra o ódio do mundo.

(2) Outra, expressa: “Ele testificará de mim”. Ele não é somente um advogado, mas também uma testemunha a favor de Jesus Cr isto. Ele é um dos três que testificam no céu, e o primeiro dos três que testificam na terra, 1 João 5.7,8. Ele instruiu os apóstolos, e os capacitou para que realizassem milagres. Ele inspirou todo o processo de escrita das Escrituras, que são as testemunhas permanentes que testificam a respeito de Cristo, cap. 5.39. O poder do ministério deriva do Espírito, pois Ele qualifica ministros, e o poder do cristianismo, também, pois Ele santifica os cristãos, e nas duas atividades, Ele testifica de Cristo.

 

II – Aqui está a promessa de que os apóstolos também, com a ajuda do Espírito, teriam a honra de ser testemunhas de Cristo (v. 27): “E vós também testificareis” de mim, sendo testemunhas competentes, “pois estivestes comigo desde o princípio” do meu ministério. Observe aqui:

1. Que os apóstolos foram nomeados para serem testemunhas de Cristo no mundo. Quando Ele disse: O Espírito testificará, depois acrescentou: E vós também testificareis. Observe que a obra do Espírito não deve substituir, mas despertar e incentivar a nossa. Embora o Espírito testifique, os ministros também devem dar seu testemunho, e as pessoas devem aceitá-lo, pois o Espírito da graça testemunha e opera através dos meios da graça. Os apóstolos foram as primeiras testemunhas que foram chamadas no famoso julgamento entre Cristo e o príncipe deste mundo, que resultou na expulsão do invasor. Isto evidencia:

(1) A obra destinada a eles. Eles deviam atestar a verdade, toda a verdade, e nada mais que a verdade a respeito de Cristo, para a recuperação do seu justo direito e a manutenção da sua coroa e dignidade. Embora os discípulos de Cristo tivessem fugido quando deviam ter testificado dele, no seu julgamento perante o sumo sacerdote e Pilatos, depois que o Espírito foi derramado sobre eles, eles apareceram corajosos, defendendo a causa de Cristo contra as acusações que lhe eram feitas. A verdade da religião cristã devia ser provada, em grande medida, pela evidência dos fatos, especialmente a ressurreição de Cristo, da qual os apóstolos foram, de uma maneira especial, testemunhas escolhidas (Atos 10.41), e deram seu testemunho de modo adequado, Atos 3.15; 5.32. Os ministros de Cristo são suas testemunhas.

(2) A honra que lhes foi conferida com isto – que eles seriam cooperadores de Deus. “O Espírito testificará de mim, e também vocês, sob a administração do Espírito, e de acordo com o Espírito (que irá impedir que vocês se enganem no que irão relatar, com base no seu próprio conhecimento, e lhes irá informar o que vocês não poderiam saber, exceto por revelações), testificarão. E o fato de que Cristo os tinha honrado e os reconheceria poderia encorajá-los contra o ódio e o desprezo do mundo.

2. Que eles eram qualificados para testificar: “Estivestes comigo desde o princípio”. Eles não somente ouviram seus sermões públicos, mas também tinham um diálogo privado e constante com Ele. Ele andava fazendo o bem, e, enquanto os outros viam somente as maravilhosas e misericordiosas obras que Ele realizava nas suas próprias cidades e regiões, aqueles que viajavam com Ele eram testemunhas de todas elas. Da mesma maneira, eles tinham oportunidade de observar a pureza sem mácula da sua conduta, e podiam testemunhar que nunca viram nele, nem ouviram dele, nada que tivesse a menor semelhança a uma fraqueza humana. Observe que:

(1) Nós temos grandes motivos para receber o registro que os apóstolos deram de Cristo, pois eles não falavam baseados em rumores, mas falavam daquilo sobre o que tinham a maior certeza imaginável, 2 Pedro 1.16; 1 João 1.1,3.

(2) Os mais capacitados para dar testemunho de Cristo são aqueles que estiveram com Ele, pela fé, esperança e amor, e vivendo uma vida de comunhão com Deus nele. Os ministros devem, primeiro, aprender a respeito de Cristo, e depois, pregá-lo. Falam melhor sobre as coisas de Deus aqueles que falam com base em experiências. É particularmente uma grande vantagem o fato de conhecer a Cristo desde o início, e poder compreender todas as coisas de forma detalhada (Lucas 1.3). Ter estado com Ele desde o início dos nossos dias. Conhecer o Senhor o mais cedo possível na vida e viver constantemente no Evangelho de Cristo farão de um homem um bom despenseiro.