PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUASE TODOS DO MESMO LADO

A pressão social em prol da homogeneidade pode explicar por que há seis vezes mais pessoas destras que canhotas; cientistas especulam as vantagens evolutivas de usar uma mão ou outra e como a lateralidade aparece em outra espécie.

Quase todos do mesmo lado

Com que mão você escreve? A probabilidade maior é que seja com a direita. Ao questionarmos por que a maior parte das pessoas é destra, a resposta pode cair na mesma linha que a da pergunta “por que os peixes andam em cardumes?”. Os neurocientistas Giorgio Vallortigara, da Universidade de Trieste, na Itália, e Lesley Rogers, da Universidade da Nova Inglaterra, na Austrália, sugerem que as pressões sociais levam tanto pessoas quanto animais a coordenar seus comportamentos de maneira que todos no grupo ganhem uma vantagem evolutiva.

O fato é que mais de 80% da população prefere usar a mão direita, que é controlada pelo hemisfério esquerdo do cérebro. Um benefício – pelo menos teórico, mas não necessariamente prático – de colocar uma função particular em um hemisfério é que isso libera o outro para lidar com outras tarefas. Mas essa hipótese não explica por que há tendências para utilizarmos mais uma mão ou outra. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, que acompanham gêmeos para estudar a hereditariedade, acreditam que o cérebro de destros e canhotos tenha algumas pequenas diferenças. Eles suspeitam que isso ocorra porque os genes que formam o cérebro dos destros têm estruturas com lados ligeiramente desiguais e os canhotos parecem ter perdido aqueles genes. A diferença resulta em um cérebro um pouco mais simétrico nos canhotos, com os dois lados mais iguais, segundo o neurogeneticista Daniel Geschwind, que conduziu a equipe de pesquisa. O que isso representa, exatamente, ainda é objeto de investigação.

Há alguns anos, cientistas acreditavam que a escolha por um dos lados fosse subproduto da especialização do cérebro na área da linguagem – o que tornaria apenas os humanos canhotos ou destros, mas uma série de estudos revelou a lateralização cerebral em várias espécies, de peixes a primatas. Cientistas descobriram, por exemplo, que os chimpanzés mostram preferência por uma das mãos, em condições selvagens.

Vallortigara e Rogers defendem que a presença da lateralização em vários segmentos do reino animal sugere a existência de alguma vantagem nessa característica. Os dois cientistas publicaram um artigo no periódico científico Behavioral and Brain Science, em que apresentaram evidências de que as pressões sociais forçam os indivíduos para o mesmo tipo de assimetria (prevalência de um dos lados). Eles perceberam, por exemplo, que pintinhos atacam mais prontamente quando uma ameaça aparece em seu lado esquerdo. Rogers descobriu que, curiosamente, esses filhotes com cérebros mais assimétricos formam grupos sociais especialmente estáveis.

A lateralização parece conferir benefício para alguns peixes também. Em certas espécies, a maioria tende a nadar para a esquerda quando um predador ataca, enquanto que outras espécies vão para a direita. As vantagens potenciais de padrões como esses podem não aparecer de maneira intuitiva: um predador poderia aprender que atacar um peixe de um lado específico funciona melhor. Mas a ideia de Vallortigara e Rogers combina com a explica o convencional da razão pela qual os peixes andam em cardumes. Quando ameaçados, o fato de todos virarem na mesma direção garante a eles maior chance de sobrevivência do que se eles se espalharem para se tornar um confuso conjunto de peixes fugitivos. E os que sobrevivem repassam seus genes a seus descendentes – que têm possibilidade ampliada de manter o comportamento.

Ainda assim, dados sobre peixes e pássaros não explicam a assimetria humana. “Talvez essa característica venha de muito antes do surgimento dos mamíferos, especula Robin Dunbar, psicólogo evolucionista da Universidade de Liverpool. “Se fosse assim, mamíferos teriam a preferência lateral simplesmente porque seus ancestrais tinham, o que retorna às origens dos peixes. “Elizabeth V. Lonsdorf, do Zoológico do lincoln Park de Chicago, e William D. Hopkins, do Centro Nacional Yerkes de Pesquisa de Primatas, de Atlanta, publicaram um estudo sobre macacos que reforçou essa ideia. Seus dados mostram que chimpanzés selvagens mostram preferências hereditárias de mãos para realização de certas tarefas com ferramentas – por exemplo, dois terços dos chimpanzés selvagens observados preferiam usar a mão esquerda para retirar cupins de um buraco, cutucando-o com um galho. Antes disso, os primatas já tinham mostrado preferências por uma mão ou outra em cativeiro, mas não em ambiente selvagem. Isso fazia os cientistas especularem que os macacos se lateralizavam por meio da interação com humanos.

As descobertas com os chimpanzés preenchem o que era considerado um misterioso “elo perdido” entre vertebrados inferiores e humanos. “Escapar do argumento de fuga da singularidade humana foi bom, fez pessoas repensarem de verdade algumas de suas teses”, diz Hopkins. Outras explicações para a lateralização existem – por exemplo, a de que foi transmitida como parte de um pacote genético maior. Um grupo de genes poderia dar vantagens a seu possuidor, mas de maneira não relacionada à preferência lateral. “Eu rejeitaria a ideia de que há uma explicação definitiva, porque é um problema muito complexo para ter uma única explicação, parece mais ser resultante de um conjunto de fatores”, acredita o neurocientista Jeffrey Hutsler, da Universidade de Michigan em Ann Arbor.

Dadas possíveis razões evolutivas para explicar a norma, o que dizer sobre os canhotos? A segurança dos predadores aumenta com o tamanho do grupo, mas a competição também cresce, o que torna benéfico o comportamento diferenciado. Estudos sobre o fato de ser canhoto em alguns esportes individuais, como o boxe, sugerem o mesmo.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.