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DESAFIOS DE IR E VIR

Nas grandes cidades brasileiras as pessoas costumam levar de uma a quatro horas para se deslocar até o trabalho. Pelo caminho, carros, motos, caminhões e pedestres disputam espaço. Resultado: tensão, problemas afetivos e de saúde.

Desafios de ir e vir

Amanhece chovendo. Para quem mora em grandes cidades, esta simples constatação é sinônimo de tensão logo nas primeiras horas do dia. Trânsito lento, quilômetros de congestionamento e pontos alagados dificultam uma tarefa crítica que consome um tempo considerável na vida de muitas pessoas: o deslocamento entre a casa e o trabalho e vice-versa – um importante fator de estresse na vida de milhões de pessoas no mundo todo, sobretudo em regiões metropolitanas.

As horas gastas dentro de carros, ônibus ou trens, de segunda a sexta, para ir e voltar, acabam desgastando o vigor físico e psíquico de qualquer um. É um tempo morto, que poderia ser mais bem empregado na academia de ginástica ou no convívio com a família ou com os amigos. Para piorar, sempre paira sobre essas pessoas a terrível – e imprevisível – ameaça das condições do tempo e do trânsito. Em cidades como São Paulo há um agravante: a disputa constante (e violenta) entre carros, caminhões, ônibus e motos. Tudo isso deixa marcas no corpo, na mente e nas relações sociais. “Percorrer longas distâncias diariamente requer um esforço corporal e psíquico não apenas do indivíduo, mas também das pessoas que vivem com ele”, diz o sociólogo Norbert Schneider, diretor do Instituto Federal de Pesquisa Populacional, em Wiesbaden, Alemanha. Ele concluiu nos anos 2000 a pesquisa Deslocamento para o trabalho e modo de vida, encomendada pelo governo alemão. Estudo semelhante já foi realizado também pela prefeitura de São Paulo.

CARGA PSICOSSOMÁTICA

Os resultados obtidos por Schneider mostram que a angústia das pessoas que enfrentam longos trajetos diariamente está relacionada ao medo de se atrasar ou sofrer acidentes. Como não poderia deixar de ser, a prevalência de doenças de origem psicossomática nessa população é bem maior do que naqueles que moram perto do emprego. Os problemas mais comuns foram dores nas costas, distúrbios gastrintestinais e de sono, hipertensão, fadiga crônica e dificuldade de concentração.

Uma ideia mais precisa desses efeitos foi fornecida por um levantamento feito pelo Centro de Pesquisas em Psicoterapia de Stuttgart e pela Faculdade de Medicina de Ulm. Os pesquisadores entrevistaram 407 passageiros de trem que viajavam diariamente entre Stuttgart e Ulm por motivos de trabalho. As perguntas se referiam à quantidade de baldeações, duração da viagem, motivos para o deslocamento e experiências subjetivas. Além disso, os participantes responderam a um questionário sobre qualidade de vida e queixas de saúde física e mental.

Os resultados mostraram que 90% dos entrevistados levavam mais de 45 minutos para chegar ao trabalho e o mesmo tempo para retornar. O que mais despertou o interesse dos pesquisadores, porém, foram os dados de longo prazo: 50% dos viajantes percorriam o mesmo trajeto havia mais de cinco anos e 20%, havia mais de uma década. “As condições psicossomáticas dessas pessoas eram assustadoras”, conta o psicólogo Steffen Háfner, coordenador do estudo alemão. Os dados indicaram ainda que o número de entrevistados que se queixaram de dores, tontura, fadiga e privação de sono era duas vezes no grupo que percorria longas distâncias do que no grupo dos que trabalhavam perto de casa. Segundo o psicólogo, 31% dos homens e 37% das mulheres dependiam de medicamentos.

Além dos distúrbios claramente resultantes do estresse crônico, quem viaja todos os dias também está mais exposto a doenças físicas, como infecções (quem depende de transporte público) e artrose (quem fica horas ao volante). Estudo feito na França mostrou que mulheres grávidas que utilizaram o metrô por mais de 90 minutos diários deram à luz bebês abaixo do peso, em comparação a gestantes que não passaram pela mesma situação. Os pesquisadores suspeitam do cansaço físico gerado principalmente pela vibração dos trens e pelas baldeações, que não são poucas em Paris.

SAÚDE BUCAL

Outra pesquisa, feita por cientistas noruegueses, encontrou evidências de que os chamados trabalhadores itinerantes têm mais problemas odontológicos. Mas o que as longas distâncias diárias podem ter a ver com a saúde bucal? Provavelmente essas pessoas chegam tão cansadas que não são capazes de fazer uma boa higienização, não têm uma preocupação preventiva e ficam satisfeitas com medidas reparadoras de curto prazo, argumentam os autores. Na origem do problema, porém, a falta de tempo livre para o cuidado de si parece ser um fator importante na deterioração da saúde dessa população.

O estudo de Schneider já havia detectado a escassez de tempo como questão crítica também para a manutenção de uma vida social saudável. De 65 pessoas que responderam a um questionário sobre qualidade de vida, 60 % reclamaram não sobrar tempo para si mesmas: vida noturna ou reunião com amigos não faziam parte de seu cotidiano. Quando finalmente chegam em casa, as poucas horas que restam do dia são compartilhadas com o cônjuge e os filhos. Ainda assim, boa parte das vezes, nem isso é suficiente: um terço dos participantes se queixou de não poder dar atenção suficiente à família. Brincar com as crianças ou ter momentos de lazer com o parceiro são atividades restritas aos fins de semana ou às férias. Outra reclamação frequente é a experiência angustiante de não pertencimento a um grupo social e de muitas vezes se sentir um estranho na própria casa. Obviamente, a vida conjugal sofre alguns arranhões. Falta de intimidade, companheirismo com hora marcada e discussões recorrentes sobre divisão das tarefas podem deixar cicatrizes no relacionamento do casal. A pesquisa de Schneider mostrou que dois terços dos parceiros sentiam-se mais incomodados com a situação do que os próprios trabalhadores. E um terço deles afirmou estar frustrado com a relação por ter de dar conta de praticamente todas as tarefas relacionadas à casa e aos filhos. Segundo o psicólogo, isso quase sempre ocorre quando a própria carreira ou outros interesses profissionais são preteridos. Em geral, o sentimento de sobrecarga não tarda a aparecer. Para um terço dos parceiros dos trabalhadores itinerantes, esse estilo de vida não tinha sequer um aspecto positivo. A pergunta que não quer calar é: por que essas pessoas fazem isso consigo mesmas e com a própria família? Os motivos são muitos, mas podem ser resumidos a apenas três.

Em primeiro lugar, o indivíduo que gasta horas para ir trabalhar tem um salário que, na visão dele, faz o esforço valer a pena. Além disso, a justificativa para morar longe do trabalho quase sempre tem a ver com melhor qualidade de vida longe dos grandes centros urbanos. Por fim, as crianças geralmente frequentam a escola do bairro e o cônjuge trabalha perto de casa, não parecendo oportuno mudar de endereço a curto prazo.

Infelizmente, todas as expectativas positivas relacionadas a essa situação não se sustentam a longo prazo. Pior, as desvantagens as superam. Essa foi a conclusão do estudo coordenado pelos economistas Bruno Frey e AIois Stutzer, do Instituto de Pesquisa Econômica da Universidade de Zurique. Eles analisaram os dados de questionários respondidos, ao longo de anos, por mais de mil famílias alemãs. A análise das séries históricas revelou que parâmetros como renda, tempo de deslocamento, condições de moradia e grau de satisfação com a vida mudam no decorrer dos anos. É importante destacar algumas premissas que os pesquisadores consideraram antes da avaliação dos dados. Presumiu-se que os trabalhadores agem de forma racional e consideram a possibilidade de trabalhar longe de casa em virtude de características objetivas do mercado de trabalho e imobiliário. Os economistas calculam a satisfação total de um indivíduo como a soma dos lucros menos a soma dos desgastes. Assim, cada minuto a mais que a pessoa gasta no deslocamento aumenta sua insatisfação com a vida. Em tese, o estresse do vaivém diário deveria ser compensado pelo bem-estar que seria consequência de melhores condições de trabalho e de uma contrapartida financeira que lhe permitisse melhorar o padrão de vida.

Os pesquisadores suíços quantificaram todos esses efeitos baseando-se nas séries históricas que continham dados referentes ao bem-estar geral (escala de zero a dez). O valor médio das sete séries analisadas foi de 7,14. As análises mostraram também que um itinerário de uma hora por trecho (ida ou volta) reduz esse valor em O,16. O mais impressionante, porém, é que, para o salário compensar essa queda, seria necessário um aumento líquido de 40%.

Pode até ser que essas estimativas estejam um pouco distantes da realidade, mas o que não se pode negar é que o trabalhador itinerante, quando aceita uma proposta para trabalhar longe de sua residência, está pensando em algum tipo de compensação profissional ou material que ele não teria em outra oportunidade. O que geralmente escapa à sua compreensão nesse momento é o impacto real dos desgastes físico, psíquico, familiar e social, quase sempre subestimados, de acordo com os especialistas suíços. Além disso, eles ressaltam que as pessoas rapidamente se acostumam a salários mais altos e a mais conforto material, ao passo que o incômodo de ser obrigado a percorrer longos caminhos pouco a pouco se intensifica e pode se tornar intolerável. Frey e Stutzer reconhecem, entretanto, que suas análises tendem a igualar os indivíduos e apagar diferenças importantes na forma como toleram a situação. Schneider lembra que é decisivo saber se esse longo percurso está associado ou não a pressões profissionais ou objetivos pessoais. “Quem toma a decisão de mudar para o campo e assim realizar um sonho de vida, por exemplo, tende a se adaptar melhor a esse tipo de desgaste do que aqueles que acabam se sujeitando a trabalhar longe porque passaram muito tempo desempregados”, explica. Segundo o psicólogo, há pelo menos dois tipos de trabalhadores itinerantes: os que optaram por isso e os que não tiveram escolha.

Mas por que as pessoas que sofrem com esses longos percursos simplesmente não tentam modificar sua vida? Segundo Steffen Hafner, o vaivém diário se transforma facilmente em solução indesejada e duradoura, graças a boas doses de resignação. No início muitos pensam: “Faço isso por um ou dois anos, e depois vejo como fica”. Quase sempre essa ideia se revela ilusória. A força do hábito, a escassez crônica de tempo, o cansaço e a falta de motivação impedem o indivíduo de procurar uma alternativa melhor. Outras vezes aversão ao risco e comodidade acabam falando mais alto. “Trabalhadores itinerantes não conseguem imaginar uma alternativa para o statu quo. Mudar de emprego ou de residência simplesmente não passa pela cabeça deles, independentemente do quanto sofrem percorrendo longas distâncias”, diz Schneider. Segundo ele, viver perto do local de trabalho é sempre a melhor solução e traz consequências positivas para a profissão, a vida familiar e a saúde, além de ser mais barato.

Para quem mesmo assim não arreda pé de suas escolhas e prefere continuar com as longas jornadas, o conselho dos especialistas é tentar tornar a rotina um pouco mais leve. Dar carona, por exemplo, além de ser mais econômico, pode tornar a viagem de carro mais divertida. Para quem vai de ônibus ou de trem, ler ou ouvir música pode ajudar a cultivar um excelente hábito que, além do mais, ajuda a combater o estresse.

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LONGE DE CASA

Quase um terço dos brasileiros leva de uma a quatro horas para se deslocar de casa até o trabalho e vice-versa. O dado faz parte do levantamento Os custos do deslocamento do trabalho no Brasil, realizado pela prefeitura de São Paulo em 2014 com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), feita pelo IBGE.

O estudo revela também que o tempo de deslocamento dos brasileiros para ir ao trabalho e voltar, especialmente os que vivem nas regiões metropolitanas, vem aumentando nos últimos anos, embora tenha havido tendência de queda no início dos anos 90. O Distrito Federal, São Paulo e Rio de Janeiro foram as cidades com maior proporção de cidadãos que gastam mais de uma hora no vai e vem diário: 42%, 50% e 57%, respectivamente.

O levantamento aponta ainda para a relação entre tempo de deslocamento e rendimento médio do trabalhador. De forma geral, quanto maior a renda, mais tempo ele gasta para ir e voltar, embora haja exceções regionais. Em São Paulo e no Rio, por exemplo, quem tem renda maior pode levar até duas horas no trajeto, enquanto os que ganham menos levam ainda mais tempo. Em algumas capitais como Belém, Recife e Salvador, por outro lado, os profissionais mais bem pagos trabalham a mais de quatro horas da residência.

O foco da pesquisa, porém, foi o custo monetário do tempo despendido entre o domicílio e o trabalho. Levando-se em conta as horas gastas nesse deslocamento, o rendimento médio auferido por hora trabalhada e a massa de horas não trabalhadas estritamente por esse motivo, há uma perda potencial de quase R$ 93 bilhões ao ano. Se o tempo em circulação fosse trabalhado e remunerado, as pessoas teriam 15% a 20% de aumento na sua renda.

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MENOS FILHOS

As pessoas que trabalham longe de casa costumam ser bem qualificadas e bem pagas e têm 30 a 50 anos. Elas costumam ter menos filhos que a média da população, sobretudo se forem mulheres, segundo o sociólogo Norbert Schneider, diretor do Instituto Federal de Pesquisa Populacional, em Wiesbaden, Alemanha. Um de seus estudos mostrou que boa parte dos homens que adotou esse estilo de vida vive casamentos tradicionais, em que as mulheres se dedicam exclusivamente aos cuidados da casa e das crianças.

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COCHILO NO ÔNIBUS

Pessoas matutinas, isto é, que têm facilidade de acordar cedo, são as que mais sofrem com as longas distâncias até o trabalho. Apesar de despertarem bem-dispostas, não é raro que se sintam esgotadas no fim do dia, já os tipos vespertinos, que gostam das madrugadas e dificilmente se adaptam ao despertador, estão mais bem-dispostos no fim da tarde e começo da noite e tendem a compensar a privação de sono com cochilos no ônibus ou no metrô.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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