PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE SEPARA VOCÊ DE SEUS OBJETIVOS?

Do ponto de vista psicológico, é possível falar de quatro tipos de lacunas – sociais, temporais, espaciais e experienciais. Felizmente, essa distância desconfortável pode ser reduzida quando entendemos a linha entre elas e aprendemos a ajustar nossos interesses às condições disponíveis.

O que separa você de seus objetivos

Não é difícil perceber que as decisões que tomamos e aquilo que fazemos nem sempre condizem com a meta que estabelecemos.

Considere as seguintes situações: 1) Você trabalha em uma empresa e está negociando um contrato com um cliente importante, mas seu chefe faz pressão para aumentar as margens de lucro. Como você conduz a situação? 2) Várias semanas atrás, você assumiu a responsabilidade de apresentar um seminário no curso no qual está matriculado(a), mas agora está muito ocupado(a) no trabalho e lamenta aquela decisão. 3) Você e seu (sua) namorado(a) querem viajar nas férias no fim do ano, mas ele(a), insiste que você resolva para onde irão e a data do passeio. Qual sua atitude? 4) Você recebe uma proposta para dividir sociedade num negócio atraente, aparentemente com boas possibilidades de se tornar lucrativo, mas que envolve algum risco e a necessidade de abrir mão de uma colocação profissional atual estável. Que caminho resolve seguir?

Surpreendentemente, um dos principais desafios no centro de todas essas situações aparentemente tão diversas é o mesmo: o que você quer de fato? Afinal, até onde vai o seu desejo e onde começa o do outro? É possível pensar nessas questões de várias maneiras e, como tudo está associado a uma escolha, optamos aqui por uma abordagem que leva em conta não apenas o desejo e a direção que seguimos, mas também como podemos usar a dificuldade a nosso favor. É possível considerar que se sair bem de uma situação cotidiana – pessoal ou profissional – depende, em grande parte, de reduzir o que alguns psicólogos chamam de distância psicológica. Ou seja, diminuir quatro tipos de lacunas: entre você e outras pessoas (distância social), entre o presente e o futuro (distância temporal), entre sua localização física e lugares longínquos (distância espacial) e entre imaginar alguma coisa e de fato vivenciá-la (distância experiencial).

Cada vez que surgem impasses, é preciso considerar não só os próprios interesses, mas também os das outras partes (o que reduz a distância social). A forma eficiente de lidar com o tempo significa prever com precisão quais compromissos serão mais prementes no futuro (distância temporal). É preciso levar em conta não só os objetivos das pessoas com quem nos relacionamos em variados níveis, mas também prever como as situações mudarão ao longo do tempo (distância social e temporal). Complicado?

De fato, não é fácil. Em mais de uma década de pesquisa acadêmica e em seu trabalho com estudantes e executivos, a especialista em psicologia e comportamento Rebecca Hamilton, doutora pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), descobriu que pessoas que reconhecem e compreendem os efeitos da distância psicológica e depois usam estratégias específicas para reduzi-la (ou, às vezes, aumentá-la) costumam ser mais bem-sucedidas, tanto na vida pessoal quanto na profissional.

DO ABSTRATO AO CONCRETO

Quando a distância psicológica é grande, tendemos a pensar em termos mais abstratos, focando o quadro geral; enfatizamos opções que nos agradam e os motivos pelos quais optamos por elas. Em contraste, quando a distância psicológica é pequena, nosso pensamento é mais concreto: tendemos a nos concentrar nos detalhes, na viabilidade das opções e em como vamos usá-las. Exemplo, podemos pensar em uma ação – fazer uma viagem desejada – tanto de forma concreta, como “comprar a passagem”, quanto abstrata, como “fazer um painel com as fotos que pretendo tirar”.

Os exemplos introdutórios destacam alguns dos “riscos” de uma grande distância psicológica. No cenário de negociação, a distância social entre você e seu cliente (comparada com aquela entre você e seu chefe) torna difícil atender aos interesses das duas partes. Quando pedem que você confirme presença em um evento com semanas de antecedência, a distância temporal faz o desejo de incrementar seu perfil profissional ficar maior, e a viabilidade de preparar e apresentar o seminário perde importância. No cenário de liderança em relação à viagem com o namorado, a distância social e temporal faz com que seja mais difícil você passar de uma decisão abstrata para uma definição concreta de objetivo. E a distância experiencial durante o processo de montagem de um negócio profissional pode intimidar.

Claro que nada é tão simples. Sempre estão envolvidas marcas de experiências anteriores, emoções, além de processos inconscientes – mesmo quando, racionalmente, sabemos que a distância psicológica nos induziu ao erro antes.

Em um experimento realizado por Rebecca Hamilton com colegas, os participantes que tinham acabado de apresentar dificuldades para usar um reprodutor de vídeo digital repleto de recursos reconheceram que, da próxima vez, iriam preferir um aparelho mais simples. “Mas, momentos depois, quando lhes pedimos que escolhessem um reprodutor de áudio digital, eles preferiram novamente o modelo com mais penduricalhos”, conta a pesquisadora, atualmente professora de administração e marketing da Universidade Georgetown. Da mesma forma, decisões de poupança para a aposentadoria indicam que, embora as pessoas saibam que devem poupar mais para o futuro, elas continuam economizando muito pouco.

Por outro lado, a distância psicológica pode ser uma vantagem em determinados cenários. Uma pesquisa coordenada pela doutora em psicologia Cheryl Wakslak, professora do Departamento de Administração e Organização da Universidade do Sul da Califórnia, mostra que ocupar cargos de liderança se associa à distância psicológica. Isso explica, pelo menos em parte, por que gestores recém-promovidos geralmente têm dificuldades para se equilibrar entre manter a amizade com ex-colegas e supervisioná-los. A distância temporal permite que a pessoa estabeleça metas mais desafiadoras. Quando alguém sai de casa para ir trabalhar, cria a separação que lhe permite deixar de lado as preocupações domésticas e se concentrar nas profissionais. E a distância experiencial pode levar a um pensamento mais amplo – esse é um dos motivos pelos quais as supervisões de atendi­ mentos clínicos podem ser transformadoras no caso de alguns atendimentos.

Esses exemplos deixam claro que não há um grau específico de distância psicológica que seja sempre mais adequado. Na vida prática, o ideal é procurar estreitar ou ampliar as lacunas conforme for necessário para alcançar a distância psicológica ideal. E, segundo essa linha de raciocínio, podemos conseguir isso de duas formas: ajustando a distância ou substituindo um tipo de distância por outro.

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AJUSTANDO A DISTÂNCIA

Muitas técnicas psicológicas voltadas para a “gestão pessoal” enquadram-se nessa categoria. A teoria da distância psicológica nos ajuda a entender quando e por que elas são eficazes. Vamos examinar os quatro tipos separadamente.

SOCIAL – Psicólogos especializados em negociação e liderança defendem há muito tempo a visão em perspectiva – ou seja, buscando entender pensamentos, sentimentos e motivos de seu interlocutor. O resultado é a redução da distância social. A capacidade empática de se colocar no lugar de outra pessoa surge mais naturalmente para alguns indivíduos do que para outros, mas os estudos revelam que até mesmo uma instrução simples, como “tente se concentrar nas intenções e nos interesses do seu interlocutor”, pode melhorar os resultados. Uma pesquisa em larga escala mostrou que as pessoas sentem maior satisfação no trabalho quando os líderes de equipes oferecem uma comunicação abstrata, visionária (embora elas ainda queiram que seus supervisores diretos lhes deem retornos concretos).

TEMPORAL – Prazos auto impostos são uma forma fácil de reduzir a distância temporal, melhorando assim o foco e até seu desempenho em qualquer área da vida. Os pesquisadores Dan Ariely, doutor em psicologia cognitiva e hoje professor da Universidade Duke, e Klaus Wertenbroch, doutor em psicologia e ciência comportamental, permitiram que seus alunos estabelecessem os próprios prazos – de cumprimento obrigatório – para uma série de tarefas, com a condição de que todas fossem concluídas até o fim do curso. Os estudantes que fixaram prazos menores tiveram um desempenho melhor que os demais. Outra estratégia para gerir a distância temporal é visualizar o futuro. Por exemplo: se, ao receber aquele convite para apresentar o seminário no curso, você fica preocupado, temendo que seja um compromisso muito exigente, imagine que tenha de fazer a apresentação dois dias depois. Você ainda está interessado? Concentrar-se nos resultados desejados – talvez autorrealização, aprendizagem, boa nota e maior prestígio entre os colegas – pode ajudá-lo a identificar temas e pontos que o conduzam a eles. É possível fazer ajustes semelhantes quando estamos tentando definir metas desafiadoras para nós mesmos em relação a mudanças de hábitos alimentares ou exercícios físicos. O aumento da distância temporal faz com que as razões para estabelecer metas fiquem mais proeminentes do que os passos necessários para alcançá-las.

ESPACIAL – Em geral, temos maior controle sobre esse tipo de distância – e seu manejo pode render benefícios surpreendentes. Se temos um assunto delicado a tratar, é quase sempre melhor fazê-lo pessoalmente: conversas cara a cara e visitas à casa de uma pessoa são formas óbvias de reduzir a distância espacial (e social), levando a pensar de forma mais concreta. No processo psicoterápico, por exemplo, a intenção de um paciente encerrar o tratamento muitas vezes é revertida quando a pessoa comparece àquela que seria sua “última” sessão. Já no caso de um relacionamento afetivo difícil que reconhecemos como destrutivo, pode ser mais fácil terminar de longe que ao vivo. Isso ocorre porque mesmo uma ação simples como ficar de frente para um objeto nos faz percebê-lo como se estivesse mais próximo. Na prática, quando você quiser aumentar a distância espacial a fim de estimular o pensamento abstrato, tente ir para um lugar diferente. As pesquisadoras Joan Meyers-Levy e Juliet Zhu, da Universidade de Minnesota, mostraram que mudanças sutis em espaços de escritório e de varejo, tais como tetos mais altos, encorajam as pessoas a pensar de forma mais criativa e a estabelecer mais conexões entre conceitos nesses ambientes.

EXPERIENCIAL – Gerentes de produto interessados em reduzir a distância experiencial devem considerar a opção de deixar de lado questões hipotéticas e usar técnicas como pedir que os clientes escolham e usem protótipos. Por exemplo: empresas de bens de consumo embalados costumam pedir aos participantes de estudos que “façam compras” em prateleiras abastecidas, o que incentiva as pessoas a pensar mais concretamente no preço e na marca. Não por acaso, quando empresas de alimentos lançam novos produtos, geralmente os levam a mercados de teste antes de investir em sua implantação plena. Nos anos 90, em vez de realizar testes exaustivos em poucos mercados, como era sua prática habitual, os executivos do McDonald’s se deixaram influenciar por pesquisas indicando que quase nove entre dez consumidores estavam dispostos a experimentar carne com baixo teor de gordura. Em pesquisas como essa, os consumidores tendem a se concentrar mais no desejo (melhorar sua dieta) do que na realidade (hambúrgueres menos saborosos e preço mais alto, além de demorarem mais para ser preparados). Na vida pessoal, podemos pensar na pessoa sedentária que paga um ano inteiro de academia, sem levar em conta eventuais dificuldades. A intenção é ótima: fazer exercício físico, emagrecer, sentir-se mais saudável e bem-disposto. E, no impulso, não raro, as dificuldades reais de incluir atividade física no cotidiano ficam em segundo plano – embora sejam elas que, ao serem negligenciadas, ganham força e sabotam as melhores intenções.

No entanto, em alguns casos em que você pretende incorporar um novo hábito (seu ou de outras pessoas), a maior distância experiencial pode ser benéfica. Uma apresentação gráfica com tópicos destacando os recursos de um novo produto pode ser mais convincente do que uma demonstração ao vivo. Por exemplo: quando a BMW lançou o iDrive, uma nova e poderosa interface de usuário para seus veículos, os especialistas em automóveis ficaram confusos durante seus primeiros test-drives, o que provocou opiniões contraditórias. Se clientes ou especialistas têm oportunidade de testar um novo produto ou serviço complicado apenas uma vez, essa experiência pode prejudicar as vendas. No exemplo da academia: pagar o ano todo, sem possibilidade de devolução do dinheiro, pode funcionar para muitas pessoas como um forte incentivo para vencer a preguiça.

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UM TIPO PELO OUTRO

Como toda distância psicológica envolve os mesmos processos subjacentes de pensamento, substituir um tipo por outro pode estimular um pensamento mais abstrato ou mais concreto. O “truque” funciona tão bem que pesquisadores acadêmicos o usam para determinar se o que eles estão manejando é realmente a distância psicológica: se for, então qualquer tipo – social, temporal, espacial ou experiencial – deve produzir o mesmo efeito.

SOCIAL – Ao procurar uma base comum durante uma negociação, você pode tirar proveito da distância temporal imaginando que proposta apresentaria se um acordo tivesse de ser alcançado em duas horas. Você não está fazendo nada para mudar a distância social em relação a seu interlocutor – você não se sente mais próximo dele-, mas a urgência imposta pela distância temporal reduzida pode mudar seu modo de pensar e de propor um acordo. Se a pessoa está em uma situação na qual precisa impor respeito entre seus colegas (ou seja, aumentar a distância social), a distância espacial pode ser um substituto. Nesse caso, mude-se para um novo escritório no fim do corredor e ocupe um pouco mais de espaço na mesa de reuniões, em vez de se espremer entre seus colegas. Também é possível recorrer à distância temporal: visualize o legado que gostaria de criar em seu local de trabalho e use isso como incentivo para pensar e se comunicar de forma mais abstrata.

TEMPORAL – Imagine alguém com dificuldades com uma grande distância temporal – adiando um projeto de conclusão de um curso de especialização, por exemplo, ou fazendo planos para a aposentadoria – e tente jogar com a distância social. Marque uma reunião com o professor a quem você terá de entregar o trabalho concluído. Ou visualize a si mesmo no futuro: pesquisas feitas na Universidade Yale demonstraram que, quando são exibidas a voluntários fotos dos próprios rostos envelhecidos, eles se identificam mais estreitamente com a versão mais idosa de si mesmos e, como resultado, aumentam acentuadamente a quantia que pretendem investir na aposentadoria.

Mas se você está se sentindo estressado com um prazo prestes a terminar, o aumento da distância espacial pode ajudar. Simplesmente afaste um pouco a cabeça da tela de seu computador. Pode parecer pouco, mas tem efeitos práticos. Um estudo conduzido recentemente pelos professores Manoj Thomas, da Universidade de Cornell, e Claire Tsai, da Universidade de Toronto, com pessoas ansiosas mostra que aquelas que fizeram isso consideraram as tarefas que haviam recebido muito menos difíceis e angustiantes, em comparação com as que cumpriram as mesmas tarefas inclinadas em direção à tela.

ESPACIAL – Talvez a distância substituta mais óbvia para a espacial seja a social. Se uma pessoa está fisicamente separada daqueles que gostaria de influenciar, pode reduzir essa distância não só visitando-as, mas também enfatizando suas características e interesses em comum. Pontos comuns – conhecer os mesmos lugares ou ter vivências similares – tendem a aproximar as pessoas. Não por acaso algumas empresas investem no sentimento de familiaridade para vender sua imagem – e seus produtos – com slogans do gênero “da nossa família para a sua” ou “fazemos nossos produtos como você mesmo faria”. A empresa americana Zappos encontrou uma forma curiosa de enfatizar a conexão com clientes geograficamente distantes: passou a compartilhar em seu site de vendas fotos das equipes que trabalham para entregar as encomendas.

EXPERIENCIAL – Uma forma de combater a tentação (tanto a própria quanto a dos outros) de escolher produtos tecnológicos com uma série de recursos – ou aqueles que substituem a forma pela função -, em vez de versões mais amigáveis para o usuário, é reduzir a distância temporal. Se for necessário começar a usar a maior parte dos recursos imediatamente após a aquisição de um aparelho de celular e não “quando houver tempo para aprender” (o que em muitos casos nunca acontece), ainda parece um bom investimento comprar o aparelho? Também podemos reduzir a distância experiencial recorrendo à distância social. Em uma pesquisa global recente, 70% dos participantes disseram que o conteúdo on-line fornecido por outros consumidores os ajudou a decidir se comprariam um produto, e o boca a boca na internet é particularmente influente quando a distância social é pequena. Da mesma forma, a validação social é uma forma poderosa de convencer os outros: determinadas práticas parecem seguras porque pessoas conhecidas as aprovaram antes.

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PARA CHEGAR PERTO

Quaisquer que sejam as circunstâncias que nos afastam daquilo que queremos – seja completar um trabalho num curto espaço de tempo; fazer uma viagem a médio prazo, ou mudar o estilo de vida, ao longo dos anos, por exemplo-, é importante levar em conta alguns aspectos. Um deles é o fato de que, na hora de vencer os quatro tipos de distância e as dificuldades que vêm junto com os desafios, o amadurecimento psicológico e os traços de personalidade podem funcionar tanto como vilões como importantes aliados. Atitudes práticas como estabelecer os próprios prazos e empregar algum tempo para se planejar antes de iniciar uma tarefa, por exemplo ajuda a evitar a armadilha da procrastinação.

Uma característica que faz grande diferença no desempenho em momentos críticos é a resiliência, definida como “processo de boa adaptação em face de adversidades, traumas, tragédias, ameaças ou motivos significativos de estresse”, pela Associação Americana de Psicologia (APA, na sigla em inglês). Pessoas resilientes não negam dificuldades ou sofrimentos, mas não se apegam exageradamente a eles.

Estudos têm mostrado que algumas atitudes ajudam a acessar essa capacidade – e a incrementá-la. Uma delas é ter em mente que qualquer desconforto, por maior que seja, é transitório. Parece óbvio, mas nem sempre é fácil nos lembrarmos disso quando estamos irritados, tensos, ansiosos ou sobrecarregados. Segundo: para se aproximar do que quer, permita-se afastar-se. Os efeitos benéficos de pausas para “descansar o cérebro” já haviam sido mostrados, com grande impacto científico, há alguns anos pelo neurocientista austríaco Eric Kandel, ganhador do Nobel de Medicina. Mais recentemente, várias outras pesquisas – entre elas uma recente, realizada em conjunto por cientistas das Universidades de Bolonha e Amsterdã – confirmaram que interromper uma atividade mental que exija concentração por várias horas para se dedicar a uma tarefa alternativa não é só prazeroso ou gratificante, também é produtivo, pois aumenta a eficiência no trabalho ou nos estudos, por exemplo. Outra forma de “encurtar distâncias” – talvez a mais simples e fundamental – é conectar-se consigo mesmo. E o melhor jeito de fazer isso é prestar atenção à própria respiração, perceber o movimento de inspiração e expiração e, lentamente, levar o ar para o abdômen. O ciclo de respirações profundas ajuda a diminuir a quantidade de cortisol (o hormônio do estresse) na corrente sanguínea, aumenta a oxigenação cerebral e “avisa” o cérebro que está “tudo bem”, que é possível lidar com a situação, qualquer que seja ela – algo muito útil para encurtar distâncias que às vezes parecem intransponíveis e aproximar a pessoa de si mesma.

OUTROS OLHARES

FEMINICÍDIO: COMO IMPEDIR O MASSACRE DAS MULHERES?

Pelo menos três brasileiras são assassinadas por dia pelo simples fato de serem mulheres. O feminicídio é uma vergonha para o País e seu combate exige transformações sociais e culturais profundas. Elas já começaram.

Como impedir o massacre das mulheres

Três mulheres terão morrido covardemente no Brasil até o dia terminar. Amanhã, mais três. E mais três, mais três e mais três por dia, assim, sucessivamente, até o fim do ano. Mulheres como Adriele Freitas de Sena, golpeada dez vezes com uma faca pelo ex-namorado Valdelício Donizete. Ou Edilma Barbosa, morta a facada pelo marido, Edvan Oliveira. As duas morreram na terça-feira 28. Adriele em Guaíra, no interior de São Paulo, e Edilma em Cubatão, no litoral paulista. Elas foram vítimas de feminicídio, definido legalmente como o assassinato de mulheres por motivos de desigualdade de gênero. Ou seja, mortas pelo simples fato de serem mulheres. Em 2016, foram 929 homicídios enquadrados na classificação. Em 2017, 1.133. Os números consolidam o Brasil como um dos países que mais mata suas mulheres. É uma condição da qual qualquer nação civilizada deve se envergonhar. Figurar entre os campeões de feminicídio nos coloca mais próximos da barbárie do que da modernidade e da igualdade de tratamento e proteção que dela advém. Doído de se enxergar, o retrato coloca à sociedade brasileira o desafio de se mover para que um novo cenário seja criado.

Fácil não é, assim como não é fácil mudar toda realidade amalgamada na cultura de um país. E, aqui, matar e agredir física e emocionalmente mulheres fez parte da construção da identidade nacional, reflexo de uma concepção histórica do papel feminino nas sociedades que preponderou durante séculos e que ainda reverbera. Para muita gente, mulheres incluídas, a mulher é um objeto, uma propriedade do homem, destituída de individualidade e de poder sobre si mesma. Inclusive responsável pelas agressões das quais é vítima, uma vez que seu corpo seria fonte pecaminosa de atração. “Ao longo da história, firmou-se uma concepção de que as tentações do corpo provêm da mulher. O Direito absorveu muito destes conceitos”, afirma a cientista social Ana Figueiredo, de São Paulo. Este caldeirão de princípios equivocados justifica agressões e influencia o atendimento em delegacias, hospitais e outras instituições onde elas procuram ajuda e recebem, em troca, críticas ao próprio comportamento. A brutalidade permeia, ainda, as relações dentro de casas País adentro.

Destruir alicerces tão profundos é o caminho para impedir que o massacre das brasileiras prossiga. É triste que isso não ocorra com a velocidade que o problema exige, mas mudanças começam a acontecer. O próprio estabelecimento da lei do feminicídio é exemplo disto. Instituída em 2015 como uma evolução da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, a legislação tipifica o homicídio das mulheres por questão de gênero como crime hediondo. Significa dizer que é inafiançável e punido com penas mais rigorosas. Persiste, porém, muita confusão na sua caracterização e catalogação. Misturam-se mortes por outros tipos de violência – assaltos, por exemplo – com as resultantes da condição de gênero. Por isso, saber exatamente quantas são as vítimas de feminicídio é uma dificuldade. Os números disponíveis são resultado de levantamentos em instâncias diferentes, como secretarias estaduais de segurança pública e centros de estudo de violência, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública entre eles. Se há um consenso em relação às estatísticas é o de que os casos estão subnotificados.

De qualquer forma, dar um nome à questão assegura tratamento jurídico diferenciado e maior visibilidade a ela. Isso faz parte da mudança e aparece simbólica e concretamente em uma iniciativa que acaba de ser lançada pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. A exemplo de outras instâncias judiciárias do País, a corte gaúcha já dispunha de serviços específicos para atendimento a vítimas de violência doméstica. Elas contam, por exemplo, com ajuda psicológica e apoio para encontrar trabalho, auxílios fundamentais para que recomecem a vida. No entanto, aquelas que tinham passado por tentativas de assassinato não dispunham da assistência porque os processos correm nas varas criminais, e não nas designadas para violência doméstica, onde o serviço era oferecido.

Há duas semanas, o mesmo atendimento começou a ser garantido a elas. Além disso, o feminicídio ganhou seu espaço e identificação própria nas varas criminais. Os processos, cobertos por capas cor de rosa marcadas por um laço lilás, agora ficam em escaninhos separados. “É uma forma de dar visibilidade aos casos e também de ajudar a identificar as mulheres que podem ser beneficiadas pelo programa de apoio”, explica a juíza Madgéli Machado, titular do Primeiro Juizado da Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher da Comarca de Porto Alegre.

A experiência trouxe bons resultados. A presença de psicólogos na antessala das audiências, por exemplo, acalma as vítimas e assegura maior segurança na hora do depoimento. Diálogos semanais em grupo amenizam a dor ao compartilhá-la e sessões de arteterapia ajudam a exteriorizar sentimentos difíceis de serem verbalizados.

O modelo do judiciário gaúcho é parecido com projetos semelhantes existentes em outros estados. Todos possuem mecanismos para auxiliar as mulheres a encontrar trabalho e quebrar a dependência financeira, uma das amarras que mantém as vítimas presas aos agressores. Sem qualificações e muitas vezes sem experiência profissional, a mulher enfrenta dificuldade para sustentar a si e aos filhos. De acordo com dados do Ministério Público de São Paulo, responsável por programas de apoio no estado, 60% das mulheres não conseguem sair da violência porque não trabalham. Para atacar o problema pontualmente, a instituição firmou parceria com empresas privadas. As vítimas serão encaminhadas para concorrer a vagas para as quais o processo seletivo irá considerar a vulnerabilidade das candidatas.

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TRATAMENTO PARA ELES

Está claro que o combate ao flagelo das mulheres passa pelo atendimento a eles, os agressores. Por essa razão, começam a se espalhar pelo País grupos que reúnem os homens envolvidos com casos de feminicídio e outros tipos de agressões. O “Tempo de Despertar”, por exemplo, trabalho social e educativo direcionado a eles, funciona em todos os estados, à exceção de Roraima. “A lei Maria da Penha prevê a ressocialização. Participar pode diminuir a pena. Mas os homens que frequentam as discussões querem melhorar”, afuma o sociólogo Sérgio Barbosa, criador do projeto.

Nos primeiros encontros, as conversas entre os participantes são duras. É difícil fazê-los enxergar seus atos como agressão. “Eles dizem que são vítimas, injustiçados, que não cometeram crimes”, conta o psicólogo Flávio Urra, coordenador do programa “E agora, José?”, em São Paulo. Encorajados a falarem eles próprios das situações, muitos finalmente identificam seus erros. “Eles saem reproduzindo os princípios de respeito e observância da lei”, diz Urra.

A história de Bruno Cabral, 34 anos, de São Paulo, corrobora o que diz o psicólogo. Na verdade, ela é exemplar em todos os sentidos. Embute os elementos clássicos que levam ao feminicídio e de que forma é possível transformá-los. Há três anos, o histórico de violência contra a ex-mulher, Paloma da Silva, 31anos, chegou ao ápice quando ele tentou matá-la com uma faca. Antes, episódios de ameaças, espancamentos, manifestações de ciúme excessivo, se sucediam. Paloma, como muitas mulheres na mesma situação, assentia. Quando foi à delegacia denunciá-lo, ouviu do delegado que precisava refletir se queria mesmo que o marido fosse preso. Quis, mas por pouco tempo. “Voltei à delegada sem contar para ninguém. Disse que o lugar dele era na clínica, não na prisão”. Bruno foi solto. Depois da tentativa de assassinato, acabou condenado, passou trinta dias preso e foi obrigado a participar dos grupos de agressores. “Nos primeiros encontros não aceitava estar ali. Quando passamos a falar sobre o machismo, quebrei minha armadura”, conta. “Entendi que a gente agride física e psicologicamente. Eu bancava a casa. Então, se chegasse final de semana e eu quisesse ficar deitado no sofá e não ajudar em mais nada, eu poderia. As discussões eram muito em tomo dessa falta de apoio”, lembra. Há um ano ele se casou nova­ mente e vive uma relação sem registro de violência.

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PEQUENOS CIDADÃOS

Nenhuma transformação será consistente, porém, se não alcançar toda a sociedade. Nesse aspecto, há movimentos coletivos inspiradores, como as dezenas de organizações femininas que se mobilizam em defesa das mulheres, e as iniciativas que colocam os homens como aliados na mesma luta. Criado há quatro anos pela ONU, o movimento ElesPorElas (HeForShe, em inglês) envolve homens do mundo todo com o objetivo de quebrar barreiras sociais e culturais que ameaçam a população feminina. Hoje, são milhares de participantes, incluindo chefes de Estado, empresários e atores – no Brasil, Bruno Gagliasso e Mateus Solano entre eles. Uma das últimas ações do braço brasileiro do movimento foi o lançamento recente, em Porto Alegre, de uma campanha de repúdio ao assédio à mulher no transporte público. Os cartazes, ilustrados com a foto de um homem, alertam os usuários de ônibus, trens e metrô da capital gaúcha sobre o problema – grave em todo o País – e estimulam a denúncia de casos.

Dentro de casa já são observadas também modificações estruturais importantes. Aparecem com maior frequência exemplos de pais que estão ajudando a criar cidadãos para os quais a igualdade de gênero deve estar na base das relações e integra o conjunto de características que torna uma nação civilizada. O tema é um dos assuntos das conversas do empresário Facundo Guerra, 44 anos, com a filha Pina, 6 anos. “Falo com ela que os gêneros são diferentes, que cada um tem o seu, mas os direitos são iguais para todos”, diz Facundo, que já levou a menina a uma manifestação em defesa do direito das mulheres. A endocrinologista Cristina Formiga Bueno, 38 anos, é mãe de Arthur, 4 anos. Junto com o pai, o cardiologista Bruno Bueno, passa ao menino os mesmos princípios de equidade. “Ensinamos que não deve existir preconceito e nem superioridade de gênero”, diz. “Dizemos a ele que meninos podem se abraçar, ele veste rosa quando quer e o deixamos brincar com o que deseja. Tentamos não valorizar estereótipos. Se agirmos com igualdade de gênero com as crianças desde pequenas, tratando todos com o mesmo respeito, podemos diminuir a violência no futuro.” Esse é o caminho.

GESTÃO E CARREIRA

OS PERIGOS DO “VÍCIO DA RACIONALIDADE”

Nem sempre a decisão racional é a melhor escolha.

Os perigos do vício da racionalidade

Você sofre do chamado “vício da racionalidade”? Seus sintomas, segundo o autor e professor Raj  Raghunathan, da Universidade do Texas, se manifestam pela tendência a ignorar ou subestimar a  importância de instintos e emoções naturais, sempre preferindo adotar as soluções “racionais”. Mas isso pode ser uma fonte de infelicidade. O professor cita como exemplo um conhecido experimento feito pela Universidade de Chicago, no qual os participantes deveriam escolher entre chocolates em forma de coração, que valiam US$ 0,50 cada, ou em forma de barata, valendo US$ 2 cada. Pois 68% deles optaram pela barata, apenas porque valia mais que o coração. Prevaleceu a decisão “racional” de obter mais vantagens, ainda que a forma da guloseima fosse repugnante e seu gosto duvidoso (apenas 46% deles achavam previamente que gostariam do seu sabor).

Na carreira profissional, alerta o professor, esse vício da racionalidade pode gerar escolhas erradas, como aceitar um emprego mais bem remunerado, mas em um ambiente hostil de trabalho. Em longo prazo, trabalhar em um clima de cooperação e camaradagem, ainda que com remuneração menor, pode gerar resultados mais positivos. Raghunathan, no entanto, ressalva: o segredo da tomada de decisões é saber sempre ponderar qual consequência esta ou aquela resolução poderá ter em sua vida. Decisões que envolvam finalidades concretas, como a compra de um imóvel, por exemplo, devem vir essencialmente de um processo racional. O truque é não se viciar nele.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 14: 28-31

Alimento diário

O Sermão Consolador de Cristo

Aqui Cristo dá aos seus discípulos outro motivo pelo qual seus corações não deviam se perturbar com sua partida, porque seu coração não estava perturbado. E aqui Ele lhes diz o que o capacitava a suportar a cruz e desprezar a afronta, para que eles pudessem olhar para Ele e ter paciência. Ele se consolava:

 

I – Com o fato de que, embora estivesse partindo, Ele viria outra vez: “‘Ouvistes o que eu vos disse’, e agora digo outra vez, ‘vou e venho para vós”‘. Observe que o que nós ouvimos da doutrina de Cristo, especialmente a respeito da sua segunda vinda, nós temos necessidade de ouvir repetidas vezes. Quando estamos sob o poder de algum arrebatamento de paixão, tristeza ou temor, ou preocupação, nós nos esquecemos de que Cristo virá outra vez. Veja Filipenses 4.5. Nos seus sofrimentos e na sua morte, Cristo se consolava com o fato de que Ele vi­ ria outra vez, e a mesma coisa nos deve consolar, quando partirmos, na morte. Nós vamos, mas viveremos. A despedida que fazemos aos nossos amigos, nesta ocasião, é somente uma despedida de “boa noite” ou “até breve”, e não um adeus definitivo. Veja 1 Tessalonicenses 4.13,14.

 

II – Com o fato de que Ele ia para seu Pai: “‘Se me amásseis’, como, pela vossa tristeza, dizeis que amais, vós vos alegraríeis em vez de lamentar, porque, embora Eu vos deixe, Eu disse: ‘Vou para o Pai’, que não é somente meu, mas também é vosso Pai, o que será um benefício para mim e um progresso para vós, pois “o Pai é maior do que eu”. Observe aqui:

1. O fato de que Ele vai par a o Pai, para tomar posse pelos órfãos, e para interceder pelos transgressores, é um motivo de alegria para os discípulos de Cristo. Sua partida tem um lado positivo, além de um negativo. Por isto Ele enviou esta mensagem consoladora depois da sua ressurreição (cap. 20.17): “Eu subo para meu Pai e vosso Pai”.

2. O motivo para isto é: “Porque o Pai é maior do que eu”, o que, se for uma prova apropriada daquilo que ela justifica (como sem dúvida o é), deve ser compreendida como indicando que seu estado com seu Pai seria muito mais excelente e glorioso do que seu estado atual. Seu retorno ao seu Pai (segundo o Dr. Hammond) seria, para Ele, estar em uma condição muito mais elevada do que aquela em que Ele se encontrava agora. Ou sua ida ao Pai, pessoalmente, e levando todos os seus seguidores para si mesmo ali, era o fim definitivo da sua missão, e, portanto, maior do que os meios. Assim, Cristo eleva os pensamentos e as expectativas dos seus discípulos a algo maior do que aquilo de que eles julgavam que toda sua felicidade dependia. O reino do Pai, onde Ele estará no final, será maior do que o reino da mediação.

3. Os discípulos de Cristo devem mostrar que o amam, alegrando-se com as glórias da sua exaltação, em vez de lamentar a tristeza da sua humilhação, e alegrando-se com o fato de que Ele foi para seu Pai, onde desejava estar, e onde nós estaremos com Ele, em breve. Muitos que amam a Cristo deixam que seu amor percorra um caminho errado. Eles pensam que, se o amam, devem estar continuamente em sofrimento por causa dele. Ao passo que aqueles que o amam devem permanecer tranquilamente nele, alegrando-se em Cristo Jesus.

III – Com o fato de que sua ida, em comparação com as profecias que houve em relação a este assunto, seria um meio de confirmar a fé dos seus discípulos (v. 29): “Eu vo-lo disse, agora, antes que aconteça”, que Eu devo morrer e ressuscitar, e subir para o Pai, e enviar o Consolador, “para que, quando acontecer, vós acrediteis”. Veja esta razão, cap. 13.19; 16.4. Cristo contou aos seus discípulos sobre sua morte, embora Ele soubesse que isto iria confundi-los e entristecê-los, porque isto, posterior­ mente, resultaria na confirmação da sua fé, em dois aspectos:

1. Que aquele que tinha predito estas coisas tinha uma presciência divina, e sabia, de antemão, qual o dia em que isto iria acontecer. Quando o apóstolo Paulo estava indo para Jerusalém, ele não sabia o que o esperava ali, mas Cristo sabia.

2. Que as coisas preditas estavam de acordo com o propósito e o desígnio divinos. Não eram de­ terminações repentinas, mas as contrapartidas de um conselho eterno. Portanto, eles não deveriam se perturbar com aquilo que aconteceria para a confirmação da sua fé, resultando, assim, em seu real benefício. Pois a prova da nossa fé é muito preciosa, embora nos cause uma tristeza atual, por várias tentações, 1 Pedro 1.6.

 

IV – Com o fato de que Ele estava certo de uma vitória sobre Satanás, com quem Ele sabia que devia ter uma batalha na sua partida (v. 30): “Já não falarei muito convosco, não tendo muito a dizer, exceto o que pode ser adiado até o derramamento do Espírito”. Ele teve muitas conversas boas com eles depois disto (caps. 15 e 16), mas, em comparação com o que Ele já tinha dito, estas palavras eram resumidas. Seu tempo era curto, e, por essa razão, Ele falava demoradamente com eles agora, porque a oportunidade, em breve, estaria terminada. Observe que nós sempre devemos nos esforçar para ser objetivos ao falar, porque talvez não tenhamos tempo de falar muito. Nós não sabemos quando nosso fôlego irá terminar, e por isto devemos sempre respirar aquilo que é bom. Quando ficarmos doentes e morrermos, talvez nós não sejamos capazes de falar muito com quem estiver à nossa volta, e, portanto, qualquer que seja o bom conselho que tivermos para dar, é melhor darmos enquanto temos saúde. Uma razão pela qual Ele não desejava falar muito com eles era por que Ele tinha outro trabalho ao qual dedicar-se agora: “Se aproxima o príncipe deste mundo”. Ele chamava o Diabo de príncipe deste mundo, cap. 12.31. Os discípulos sonhavam com seu Mestre sendo o príncipe deste mundo, e que eles seriam príncipes terrenos, subordinados a Ele. Mas Cristo lhes diz que o príncipe deste mundo era seu inimigo, e assim eram os príncipes deste mundo que atuavam e eram regidos pelo Diabo, 1 Coríntios 2.8. Mas ele “nada tem em mim”. Observe aqui:

1. A perspectiva que Cristo tinha de um conflito próximo, não somente com os homens, mas com os poderes das trevas. O Diabo o tinha atacado com suas tentações (Mateus 4), tinha lhe oferecido os reinos do mundo, se Ele os considerasse subordinados a ele, e por isto Cristo o chama, com desdém, de príncipe deste mundo. Então, o Diabo “ausentou-se dele por algum tempo”. “Mas agora”, diz Cristo, “Eu o vejo atacando novamente, preparando-se para um ataque furioso, e desejando obter com terrores o que ele não conseguiu obter com seduções”. Assustá-lo e afastá-lo da sua mis­ são, quando Ele não podia ser afastado dela. Observe que a previsão de uma tentação nos dá grande vantagem na nossa resistência a ela, pois, estando avisados antecipadamente, nós podemos estar armados antecipadamente. Enquanto estamos aqui, podemos ver Satanás continuamente vindo nos atacar, e por isto devemos sempre estar em guarda.

2. A certeza que Ele tinha do bom resultado do conflito: Ele “nada tem em mim”, ele não tem absolutamente nada.

(1) Não havia culpa em Cristo, para dar autoridade ao príncipe deste mundo, em seus terrores. Está escrito que o Diabo tem o império da morte (Hebreus 2.14). Os judeus o chamavam de anjo da morte, como um executor. Agora, como Cristo não tinha feito nenhum mal, Satanás não tinha nenhum poder legal contra Ele, e, portanto, embora conseguisse crucificá-lo, não conseguiria aterrorizá-lo. Embora ele o apressasse à morte, não o apressaria ao desespero. Quando Satanás vem para nos inquietar, ele tem alguma coisa em nós com que nos confundir, por­ que todos nós pecamos. Mas, quando ele desejou per­ turbar a Cristo, não encontrou oportunidade para fazê-lo.

(2) Não havia corrupção em Cristo, para dar alguma vantagem ao príncipe deste mundo, nas suas tentações. Ele não podia esmagar sua missão, atraindo-o ao pecado, porque não havia nada pecaminoso nele, nada irregular em que suas tentações se apegassem, nenhuma substância inflamável onde ele pudesse atear fogo. A imaculada pureza da natureza de Cristo era tal, que Ele estava acima da possibilidade de pecar. Quanto mais o interesse de Satanás em nós é esmagado e deteriorado, mais confortavelmente nós podemos esperar os sofrimentos e a morte.

 

V – Que sua separação deles estava de acordo com os planos de Deus, o Pai, e era um ato de obediência a Ele. Satanás não poderia tirar sua vida, mas ainda assim Ele iria morrer: “É para que o mundo saiba que eu amo o Pai”, v. 31. Nós podemos interpretar isto:

1. Como confirmando o que Ele tinha dito sempre, que sua missão, como Mediador; era uma demonstração ao mundo:

(1) Da sua submissão ao seu Pai. Com isto, ficava evidente que o Senhor Jesus amava o Pai. Assim como era uma evidência do seu amor pelos homens, o fato de que Ele morresse pela salvação deles, também era uma evidência do seu amor por Deus, o Pai, o fato de que Ele morresse pela sua glória e para cumprir seus propósitos. Que o mundo saiba que, entre o Pai e o Filho, não há nenhuma perda, pois eles são regidos pelo amor. Assim como o Pai amou ao Filho, e tinha depositado nas suas mãos todas as coisas, também o Filho amou ao Pai, e entregou seu Espírito nas suas mãos.

(2) Da sua obediência ao seu Pai: “Eu fiz ‘como o Pai me mandou’ – fiz o que me foi ordenado, na maneira como me foi ordenado”. Observe que a melhor evidência do nosso amor pelo Pai está em fazermos aquilo que Ele nos ordenou. Assim como Cristo amou ao Pai, e obedeceu a Ele, inclusive até a morte, também nós devemos amar a Cristo e obedecer a Ele. A obediência de Cristo ao manda­ mento do Pai, obrigando-o a sofrer e a morrer, o sustentou com alegria, e o levou a superar as relutâncias da natureza. O fato de que o que Ele fez foi por ordem do seu Pai removeu o escândalo da cruz. O comando de Deus é suficiente para nos sustentar naquilo que é mais discutido por outros, e, portanto, deve ser suficiente para nos sustentar naquilo que é mais difícil para nós: “Esta é a vontade daquele que me criou, que me enviou”.

2. Como concluindo o que Ele tinha dito agora. Tendo chegado até est e ponto, aqui Ele conclui: “Para que o mundo saiba que eu amo o Pai”. Vós vereis com que alegria Eu posso encontrar a cruz que me é indicada: “‘Levantai-vos, vamo-nos daqui’ para o jardim”. Assim interpretam alguns. Ou para “Jerusalém”. Quando falamos dos problemas, à distância, é fácil dizer: “Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores”. Mas quando chega o aperto, quando uma cruz inevitável está no caminho do dever, então, dizer: “Levantai-vos, vamos encontrá-la”, em vez de desviar nosso caminho para não encontrá-la, mostra ao mundo que nós amamos o Pai. Se este sermão aconteceu no final da ceia de Páscoa, poderia parecer que, com estas palavras, Ele tenha se levantado da mesa e se retirado para a sala de visitas, onde poderia, com mais liberdade, continuar o sermão com seus discípulos nos capítulos seguintes, e orar com eles. O Dr. Goodwin observa que Cristo mencionou o grande motivo dos seus sofrimentos, o mandamento de seu Pai, com toda a pressa, para que pudesse ir adiante, sofrer e morrer, sem per­ der o momento do encontro com Judas. “Levantai-vos”, diz Ele, “vamo-nos daqui”, mas podemos imaginar que Ele olha pela janela, vê que ainda não é o momento, e por isto se senta outra vez, e faz outro sermão. Veja:

(1) Nestas palavras, Ele dá aos seus discípulos um incentivo para segui-lo. Ele não diz: Eu devo ir; mas: Vamos. Ele não os chama para nenhuma dificuldade, exceto a que Ele mesmo vai enfrentar, diante deles, como seu líder. Eles tinham prometido que não iriam abandoná-lo. “Vamos”, diz Ele, “vamo-nos então. Vejamos como vocês vão cumprir suas palavras”.

(2) Ele lhes dá um exemplo, ensinando-os em todas as ocasiões, especialmente em ocasiões de sofrimento, a serem indiferentes a todas as coisas daqui, e a pensar e falar frequentemente em deixá-las. Embora estejamos confortáveis em meio aos prazeres de uma vida agradável, não devemos pensar em estar sempre aqui. “Levantai-vos, vamo-nos daqui”. Se tudo isto aconteceu no encerramento da ceia pascal, que passou a ser a Ceia do Senhor; então a lição a aprender é que as solenidades da nossa comunhão com Deus não serão sempre constantes neste mundo. Nós nos sentamos à sombra de Cristo, com prazer, e dizemos: “É bom estarmos aqui”. Mas ainda as­ sim devemos pensar em nos levantar e partir dali. Em algum momento será necessário descer do monte.