OUTROS OLHARES

DESAPARECIDOS S.A

Com quase 40 mil pessoas sumidas em 12 anos, o México é refém da indústria do sequestro, da extorsão e do tráfico de pessoas, negócio com o qual o crime organizado fatura mais de US$ 50 milhões por ano

Desaparecidos S.A

Passava pouco das 8 da manhã de 11 de julho quando batemos à porta da advogada Maria Guadalupe Rodríguez, de 59 anos. Ela mora em uma das ladeiras da Colônia San Mateo, na cidade de Chilpancingo, capital do estado de Guerrero, no sudoeste do México. A temperatura estava amena, já que a geografia de uma cidade erguida entre vales não permitia que o sol se distribuísse igualmente desde as primeiras horas do dia. Chilpancingo fica a somente três horas da Cidade do México e, mesmo sede do governo local, nem sequer consegue maquiar as dificuldades com que subsiste sua gente. Em todo o estado de Guerrero, 64% da população vive em situação de pobreza e 23% em pobreza extrema. A miséria ali, como em tantos outros lugares, convive também com a violência, e era sobre isso que Lupita, como é chamada, queria falar.

Após dois lances de escada, ela nos conduziu a um cômodo no segundo andar com dois quartos pequenos, um em cada extremidade, unidos por uma sala-cozinha improvisada no meio. Ali, sentada num pequeno banco acolchoado junto à parede, ela mostrou o altar montado pelos netos para o pai, desaparecido desde 4 de junho de 2014. A ideia veio do caçula, Anderson Nazareth Rodriguez, que tinha pouco mais de 5 anos quando tudo aconteceu e costumava acordar aos prantos nas madrugadas. Como os cinco dormem juntos na mesma cama, todos despertaram. “Perguntava a ele: “Por que está chorando, minino?”, lembrou Lupita. E ouvia desconcertada: “Deus veio até mim, abuelita, e me trouxe meu papai, mas ele voltou a ir embora”, dizia o menino, soluçando.

Josué Carlos Rodríguez era estudante de Direito, tinha 30 anos. Saiu de casa no meio da tarde para deixar a mulher na faculdade e não voltou. Nas primeiras horas, a família achou que ele poderia ter sido sequestrado. “Pensei que eles me pediriam dinheiro porque nesses tempos também estavam sequestrando, mas passaram os dias e não pediram nada”, recordou ela, com a voz embargada.

Angustiada, Lupita bateu à porta do Ministério Público (MP) nas primeiras horas do dia seguinte para denunciar o desaparecimento. No México, esse é o procedimento-padrão. A promotoria é quem precisa acionar a polícia. Ela contou que o filho estava com seu carro, um Volkswagen Jetta preto) e também levava o celular quando saiu de casa. Pediu que o telefone e suas ligações fossem rastreados. A única coisa que ouviu foi para aguardar.

A falta de ação a consumiu, e não pôde esperar mais. Com ajuda de conhecidos, ficou sabendo de uma denúncia ao Centro de Controle e Comando do Exército, que auxilia a polícia local. Nunca esqueceu as palavras na gravação: ”Urgente, urgente, estão levando um jovem em um Volkswagen Jetta preto. Três homens com armas curtas o pegaram”. O denunciante dizia que o sequestro havia ocorrido perto da escola técnica de Chilpancingo.

Voltou ao MP e, novamente, foi orientada a ir para casa. Os casos eram muitos, a investigação tomaria tempo, entre outras escusas. Os dias se tornaram semanas, depois meses. Rodríguez não retornou. Lupita e o marido se encarregaram da criação dos três netos, pois a mãe dos meninos ainda não tinha emprego. E a vida da família se converteu em uma eterna busca.

Três meses depois do desaparecimento de Rodríguez, um episódio ainda mais perturbador irrompeu subitamente o já violento cotidiano de Guerrero para marcar outra parte infeliz da história do México. No início da noite da sexta-feira 26 de setembro de 2014, um grupo de 100 estudantes da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, de um vilarejo chamado Ayotzinapa, foi atacado a tiros por policiais na cidade de Iguala, a uns 100 quilômetros de Chilpancingo.

Cercados por diversas patrulhas policiais quando deixavam a cidade, os estudantes enfrentaram horas de terror. Quando amanheceu o dia seguinte, o saldo era de três mortos e um baleado na cabeça – em coma. Outros 43 foram levados pela polícia, mas não apareceram em nenhuma delegacia da região naquele dia ou em qualquer outro desde 2014. As primeiras notícias do pandemônio saíram nas redes sociais e logo ganharam o país e o mundo. Daquela madrugada em diante, ninguém mais poderia ignorar a existência dos mais de 30 mil desaparecidos em todo o México desde 2006.

Palssados quatro anos do desaparecimento em massa, fomos a Ayotzinapa encontrar Ernesto Guerrero, de 15 anos, um sobrevivente daquela noite. De Chilpancingo até a comunidade não se leva muito mais do que 30 minutos. A estrada contorna os vales da região e em grande parte é asfaltada. Quem está nela observa a capital do estado do alto e também é facilmente monitorado, já que a maior parte do caminho possui pouca vegetação. Assim, ataques, sequestros e assassinatos eram rotina em estradas como aquela. Sobretudo contra os taxistas. Havia muito os moradores das cercanias não confiavam em nenhuma força de segurança do estado. Menos ainda depois de tudo que aconteceu. Agora, para se proteger, os moradores das comunidades rurais criaram brigadas campesinas de “autodefesa”.

No começo da tarde de 11 de julho de 2018, Ernesto Guerrero, o Marlboro, e os colegas de turma se preparavam para a formatura, dois dias depois. Como são internos, a graduação também é uma despedida da casa onde viveram nos últimos anos. Chegamos lá no momento em que ele e os outros retiravam suas roupas, livros e móveis dos quartos. A música em uma caixa de som contrastava com expressões carregadas de seriedade. Alegria e melancolia se misturavam nos corredores porque aquela era a turma de 35 dos 43 estudantes desaparecidos.

Depois do ataque, a exposição midiática do caso trouxe alguns recursos e melhorias para o local – construído em 1926 e que sofria com a falta de manutenção. Logo na entrada ainda está o prédio clássico de murais de pedra e vitrais arredondados. Nos fundos do terreno, porém, foram erguidos novos edifícios tanto para os quartos como para as salas de aula. Ali foram grafitados murais coloridos com imagens de estudantes e trabalhadores e frases de luta como “nem um minuto de silêncio” ou “abram escolas para fechar prisões” – mantendo a tradição das pichações na escola que possui em diferentes paredes desenhos de Che Guevara e Lucio Cabanas, guerrilheiro egresso da escola e morto em 1974, após combates com o Exército.

Sentado em uma carteira no pátio novo, Ernesto Guerrero se lembrou do ataque como se tivesse acontecido havia apenas poucas horas. Os estudantes tinham terminado de fazer um “boteo”, campanha para arrecadar dinheiro. Os normalistas, que estudam para ser professores, precisavam de verba para viajar até a Cidade do México. Eles pretendiam ir a um ato em memória do Massacre de Tlatelolco, que ocorreu em 2 de outubro de 1968 e deixou, à época, cerca de 300 estudantes mortos.

Para garantir a viagem, os normalistas também haviam confiscado cinco ónibus do terminal municipal de Iguala. A toma, que pode ser vista como rara por um desconhecido, é prática comum em diferentes estados no interior do país. Uma vez usados, os coletivos são devolvidos, e, para garantir a manutenção, as empresas chegam a orientar os motoristas a permanecer com os ônibus até a devolução. Naquela noite, não houve sequer conversa.

Os jovens deixaram o terminal em dois grupos. Dois ônibus saíram na direção sul e outros três rumo ao norte. Ernesto Guerrero viajava no último coletivo que tomou essa rota. Já próximo da saída da cidade, cinco ou seis patrulhas alcançaram o comboio na esquina das ruas Juan Álvarez e Periférico Norte. “Eu estava no terceiro ônibus quando os policiais começaram a disparar. Primeiro, eram tiros ao ar. Nós descemos para nos defender e vimos quando eles miraram os ônibus”, lembrou. A tentativa de dizer que não estavam armados de nada adiantou.

“Quando começaram os disparos contra os ônibus, eu tentei subir de novo, mas as portas estavam fechadas. Sai correndo e entrei no primeiro ônibus”, contou. O primeiro coletivo tentou arrancar, mas foi interceptado por outra patrulha que fechou a passagem. Eles desceram outra vez, mas os policiais já atiravam para matar. “‘Ali acertaram a cabeça do companheiro Aldo, que até hoje está hospitalizado”, denunciou.

Aos berros de “não disparem”, Ernesto diz que se arrastou até a parte de trás do primeiro ônibus. Ficou ali por 30 minutos com outros colegas, enquanto os policiais retiravam os estudantes que ainda estavam dentro dos ônibus, fazendo com que deitassem com o rosto virado para o chão. Pouco depois os obrigaram a subir na parte traseira de algumas caminhonetes. “‘Nós vimos claramente quando as patrulhas da cidade de Iguala os levaram”, recordou. Os policiais, então arrancaram com os carros e foram embora. Só então os estudantes puderam socorrer dois alunos feridos e, ainda sob adrenalina, passaram a chamar as famílias, professores e jornalistas para o local. Queriam denunciar o ocorrido. Pouco a pouco tomavam conhecimento de que os outros dois ônibus, que tinham ido em direção sul, também tinham sido atacados e lá outro grupo de estudantes havia sido levado pela polícia.

Justo no momento em que falavam com jornalistas algumas caminhonetes pararam perto do grupo e homens encapuzados dispararam contra o grupo. Com tiros nas costas e na cabeça, os alunos Júlio César Ramirez Nava e Daniel Solís Gallardo morreram na hora. Os demais correram para se proteger e se dispersaram pelas ruas da cidade. As 9h30 do domingo, o Exército comunicou ao MP o encontro de um cadáver perto da central de patrulhas de Iguala. Era Júlio César Mondragón. Ele estava sem os olhos e sem parte da pele do rosto. “tinha marcas de queimadura nos braços.

Até hoje, o episódio gera mais dúvidas do que respostas. O relatório final da investigação afirmou que a ordem do ataque teria vindo do então prefeito de Iguala, José Luís Abarca, e de sua mulher, Maria de los Ãngeles Pineda, irmã de traficantes do cartel Guerreros Unidos. Nas palavras do procurador Jesús Murillo Karam, “a verdade histórica” era que a primeira-dama temeu ser constrangida durante um discurso que proferia como presidente do Sistema Municipal de Desenvolvimento Integral da Família (DIF).

Foi o destino dos 43 desaparecidos contudo, que causou mais revolta. Os jovens teriam sido entregues a sicários desse cartel, e, depois de mortos a tiros, os corpos foram queimados em um lixão chamado Cocula.

Ao todo, 111 pessoas foram presas – 78 eram policiais ou autoridades municipais, entre os quais o   casal Abarca Pineda. Em 2015, a Comissão lnteramericana de Direitos Humanos fez uma investigação independente e achou diversas fraudes no trabalho da PGR, entre elas a impossibilidade da destruição completa dos corpos no lixão. As famílias aguardam, agora, a instauração de uma Comissão da Verdade sobre o caso.

O desaparecimento dos 43 estudantes deu um solavanco no governo mexicano. O governador do estado de Guerrero, Ángel Aguirre Rivero, renunciou ao cargo. Protestos derreteram ainda mais a popularidade da administração do presidente Enrique Pena Nieto e a crise se aprofundou, dois meses depois, quando o portal Aristegui Noticias revelou que o presidente e a primeira-dama viviam em uma mansão de quase US$ 7 milhões que estava no nome do Grupo Higa, uma empresa com contratos com o governo federal;

Nos primeiros 20 meses de gestão, Pena Nieto até tinha conseguido aprovar reformas trabalhista, judicial, energética, educacional e fiscal no pais. No cotidiano violento, porém, quase nada mudou. O México bate recordes nacionais de homicídios ano após ano e o Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade, encabeçado pelo poeta Javier Sicilia, já identificara inúmeras denúncias de desaparecimentos ao percorrer as praças do país. No entanto, foi só com a grita dos pais e amigos dos normalistas que os desaparecimentos fincaram pé de uma vez na administração Pena Nieto. O pranto ecoou além das ruas de Iguala e Chilpancilgo.

Em abril de 2018, a última atualização do Registro Nacional de Dados de Pessoas Desaparecidas (RNPED) apontava um total de 37.455 desde 2006. O banco de informações, porém, é amplamente criticado, porque costumava apagar informações sobre possíveis “localizados”, impossibilitando a   produção de séries históricas. A crise fez com que o governo entendesse a complexidade do tema e a diferença entre tentar localizar pessoas ainda vivas e investigar ocultação de cadáveres. Como resultado foi aprovada no final do ano passado a Lei dos Desaparecidos – exigindo a criação de um sistema nacional de busca, com escritórios estaduais e um novo banco de dados, sobre o qual ainda não se tem clareza de como será feito. A missão será assumida pelo próximo presidente, Andrés Manuel Lópes Obrador, do recém-criado partido Morena, que toma posse em dezembro.

Encontrar respostas sobre como o país acumulou tantos desaparecidos não é simples, até porque os assassinatos também ultrapassam os 230 mil no mesmo período. Até integrantes do Estado admitem que foi a própria política de enfrentamento às drogas que elevou a violência. “No México, há um histórico de desaparecidos desde os anos 70″, afirmou Joaquín Torrez, coordenador de Direitos Humanos da Procuradoria-Geral da República do México. ” Só que não era um assunto do qual a opinião pública falava tanto. Mas, de 2006 a 2012, quando os combates contra os grupos do crime organizado recrudesceram, esse número disparou, admitiu Torrez, ao lembrar que seu escritório começou a receber frequentemente mães com denúncias a partir de 2013.

Na Biblioteca Americana de Ciências Sociais (Flacso), a advogada Volga de Pina também tenta o exercício. Depois de dois anos auxiliando buscas de famílias e até exumando covas clandestinas, ela agora coordena o Observatório de Desaparecimento e Impunidade da Flacso no México.

Para ela, o somatório de desaparecidos está de alguma maneira relacionado ao contexto violento a partir da “guerra ao narcotráfico”. “Os quase 38 mil que temos agora são todos consequência da violência” explicou. Nesse universo, ela aponta que nem todos os casos se demonstram desde o primeiro momento com um desaparecimento forçado. Também estão presentes os sequestros em que, por alguma razão desconhecida, a pessoa não retorna. Além disso, há o tráfico de pessoas, em especial o de mulheres.

E a lógica por trás das dinâmicas desses crimes está relacionada à transformação que os grupos de narcotraficantes sofreram desde a ascensão do temido Los Zelas, formado por desertores da tropa de elite do Exército mexicano, com treinamento em Israel e nos Estados Unidos. Quando foram recrutados, eles eram apenas a força militar do cartel do Golfo, mas, ao assumirem o poder e disputarem territórios principalmente com o cartel de Sinajoa, do igualmente assombroso Joaquín Guzmnán Loera “El Chapo”, os Zetas passaram a ter de administrar.” Então começaram a fazer sequestros, extorsões, tráfico de pessoas, roubo de combustível e gado. “Toda maneira de se financiar para controlar territórios, Isso teve reflexos em todos os grupos criminosos e nas Forças de Segurança, o que fez disparar a violência no país, apontou a advogada.

A crise não teria a mesma força sem certa cumplicidade de integrantes do Estado. A pesquisadora disse que começou a atuar em casos de desaparecimentos no estado de Veracruz, local de atuação dos Zetas. Até o fim de 2016, Javier Duarte, integrante do tradicional PRI, era o governador do estado e costumava se referir aos desaparecidos como “puros Zetas”. Respondia às queixas das mães por falta de investigações dizendo que não investiria em busca de delinquentes”.

Quando deixou o governo, ele aproveitou sua cidadania americana e fugiu do país, já temendo as investigações sobre o envolvimento do grupo de elite da polícia estadual com os narcotraficantes. Em abril de 2017, foi capturado em um hotel de luxo na Guatemala e extraditado para o México. onde está preso com seu ex-secretário de Segurança, respondendo por acusações de corrupção, mas também de desaparecimento forçado.

Há quatro anos acompanhando desaparecimentos, o repórter da Associated Press Eduardo Castillo apontou que, em Guerrero, o domínio até 2009 era do cartel dos irmãos Beltrán Leyva, quando morreu o líder Marcos Arturo Beltrán Leyva. “Quando o matam, começam as disputas, e um caos absoluto se instala”, disse Castillo. A cisão principal fica entre Los Rojos” e “Guerreiros Unidos”. E Guerrero é um estado-chave para os cartéis de droga. Estima­ se que 90% da papoula mexicana, planta-base para a cocaína, seja produzida no estado de Guerrero. Quem domina o estado domina a produção da droga. Lá a ligação entre o estado e os traficantes se tornou evidente justamente pelo desaparecimento dos 43 de Ayotzinapa.

Quando os pais dos estudantes tomaram as ruas, a advogada Maria Guadalupe Rodríguez se somou às marchas com as fotos do filho. Antes disso, só em seu caminhar, passou a ser ameaçada por ligações de números desconhecidos. Ao juntar-se aos demais, sentiu que não estava sozinha. Depois dos 43, houve o rompimento do medo”, disse. Eles foram os valentes que deram o primeiro grito de “já basta”

Com ela vieram a público de diferentes lados os parentes dos outros desaparecidos Maria Guadalupe então fundou o Coletivo de Desaparecidos e Assassinados em Chilpancingo, para ajudar outras famílias. Em um retiro espiritual, ela foi apresentada a Guadalupe Casarubias, de 58 anos. Além do mesmo nome, a mulher também dividia a mesma dor. O filho Pedro Leiva Casarubias tinha 28 anos quando saiu para trabalhar em 27 de outubro de 2012. Recordou-se dos planos dele de montar uma casa para a mulher e as duas filhas.

Casarubias era garçom e foi rendido dentro de seu trabalho – em pleno expediente e na frente dos colegas – por três homens armados pouco depois da uma hora da tarde. Ele trabalhava no restaurante Tecuân – que fica justamente na Carretera 95, que corta Chilpancingo e liga a Cidade do México a Acapulco, foi posto em cima de uma caminhonete e levado pela estrada.

Passaram-se apenas alguns minutos para que a família tomasse conhecimento do sequestro pois o próprio dono do restaurante telefonou para avisar. Atônitos tentaram eles próprios investigar e acharam nos arredores, câmeras de segurança com imagens nas quais se podiam identificar os sequestradores. Tudo foi denunciado à promotoria, que uma vez mais empilhou a denúncia sobre tantas outras.

As crianças evidenciam a face mais crua dos efeitos da violência. A dona de casa Nora Elsi, de 33 anos. mãe de quatro filhos, viu-se, da noite para o dia, sem saber do companheiro ou como sustentaria os filhos. Ela morava em uma casa no mesmo terreno dos sogros quando o marido, José Vasquei, de 32 anos, sumiu, em 5 de junho de 2013. Não podiam esbanjar, mas viviam bem com o salário que o marido ganhava como motorista da empresa coletora de lixo da cidade.

Ele saiu para trabalhar no fim da tarde e, pouco depois, já não respondia mais ao celular. Horas depois um colega de trabalho ligou para avisar que ele estava em seu carro quando foi abordado por dois homens armados que, em seguida, o renderam e o levaram. O pânico batia em mais uma porta. Nora saiu para procura-lo desde o primeiro instante. Distribuiu cartazes com suas fotos pela cidade. Os sogros, apesar da tristeza, não viam a atitude com bons olhos.

Cinco anos depois, ela mora com a mãe, a tia, três sobrinhos e os filhos em um barraco. Em um espaço com cerca de 15 metros quadrados os nove se acomodam entre um beliche e duas camas improvisadas. No canto esquerdo, logo na entrada foi instalado um fogão e forjada uma cozinha. Não há armários e as roupas ficam guardadas em sacos. Nas paredes de madeira bruta, Nora colocou fotos das crianças e da família.

“Fui desalojada. Meus sogros disseram que já não era bom a gente viver ali”, revelou, com as mãos cruzadas e o olhar fixo no chão. Eles disseram que eu coloquei a denúncia na promotoria e que estava metida em coletivos de busca, então agora os criminosos também viriam atrás da família”, lembrou ela.

No outro extremo de Chilpancingo, na Colônia Omilteni, uma mãe convive não apenas com o desaparecimento do filho, um adolescente de 15 anos, mas também com a cruel dúvida de que ele esteja sendo obrigado a trabalhar para traficantes.

A cozinheira Esther de Aquino Velasquez, de 54 anos, também vivia em situação difícil com o filho caçula, Luiz Giovani Velasquez.

No local estão duas camas de solteiro, um sofá e uma arara com as roupas. Na cômoda, logo na entrada, um altar com fotos de Luiz, a Bíblia e uma vela branca. Sentada em sua cama, ela mal conseguiu começar a contar que o filho era seu companheirinho e logo um misto de choro, desabafo e nervosismo a impediu de respirar.

Era 14 de junho de 2016, uma terça-feira, e Luiz foi chamado por alguns vizinhos para brincar. Ele estava terminando de comer. Comeu rápido, ouvindo sermões da mãe, e logo foi jogar conversa fora com os meninos na frente de casa. Enquanto os meninos brincavam, um Nissan Versa branco passou em baixa velocidade observando os garotos. Os meninos repararam, mas não deram grande atenção. Minutos depois decidiram ir jogar bola em um campinho, algumas quadras acima no morro, e foram os quatro pelas vielas da colônia. De longe, enquanto estavam na quadra, viram o mesmo carro. Ignoraram de novo.

Algum tempo depois, já cansados, decidiram voltar para casa. Quando desciam a rua, perceberam que o carro os seguia já acelerado. Assustaram-se e passaram a correr em fila. Luiz era o primeiro quando o automóvel os fechou, e um homem desceu do carro e agarrou o menino. Os outros três correram enquanto ele era colocado dentro do carro. Não o viram mais. Chegaram em casa esbaforidos e amedrontados, contando o que aconteceu.

Naquela tarde mesmo, Esther e os parentes iniciaram uma busca por ruas do bairro, hospitais e onde mais conseguiram. No outro dia, cedo foram à promotoria, que se recusou a registrar o caso, dizendo que eram necessárias 24 horas para aceitar a denúncia. Quando voltaram na manhã seguinte, ouviram insinuações de que o menino estava naquela situação porque seria um criminoso, o que revoltou a família. “Disse ao promotor: ‘Você acha que eu estaria aqui se fosse assim?”, relembrou.

O alerta “amber”, emitido em caso de menores, foi acionado, mas retirado no dia seguinte, quando servidores colheram o DNA de Esther para o banco genético de parentes de vítimas. A prática costuma irritar os pais, que querem que as autoridades procurem seus filhos vivos, não que fiquem à espera de exames com cadáveres.

Quase um ano se passou sem que Esther tivesse qualquer notícia de seu filho. Em abril deste ano, em meio a uma caravana de procura de desaparecidos, uma informação voltou a deixá-la inquieta. Como a sistematização de dados ainda é bastante falha, as famílias fazem buscas até dentro das prisões. A cozinheira entrou no corredor de celas com a foto do filho junto ao peito e, minutos depois, um preso passou a encará-la, o que foi notado pela comissão.

“Um dos comissionados me pegou pelo braço e disse ‘venha’. Quando cheguei à outra sala, o rapaz estava lá e disse: ‘Conheço seu filho, ele está em tal lugar e lá está trabalhando”, lembrou ela, ao dizer que o homem identificou a colônia e alertou que o jovem é vigiado por traficantes. Três meses depois a promotoria não fez nenhuma ação para tentar localizar Luiz. Na casa de Esther, a agonia tem lhe custado a fé. “Às vezes, tenho raiva de Deus”, desabafou. “Era só um menino quando tiraram sua liberdade.”

Casos semelhantes já foram noticiados pela imprensa mexicana tanto na Revista Proceso como no projeto Animal Político. Estima-se que os sequestros rendam até USS 50 milhões por ano para o crime organizado. Para a médica Patricia Retana, de 51 anos, a tentativa de salvar o filho lhe custou US$ 3 mil e, mesmo assim, não teve sucesso. Aos 17 anos, José Ismael Martin Retana trabalhava como DJ na boate malquerida em uma das praias da Baía de Acapulco.

Saiu de casa na noite de 13 de agosto de 2017, como tantas outras vezes. Patrícia reparou que o filho ainda não tinha chegado, mas saiu porque estava de plantão. Pouco antes de atender o primeiro paciente, um número desconhecido ligou para seu celular. Ela disse que quando atendeu ouviu a voz de José Ismael: “Mãe, tenho um problema. Estou com algumas pessoas que querem falar contigo”, contou ela, com voz embargada, dizendo que foi a última vez que o ouviu. “Ele passou o telefone e a pessoa disse: ‘Sabes quê? Queremos uma certa quantia de dinheiro para devolver seu filho”, recordou Patrícia.

Mal desligou o telefone, ela solicitou ajuda da promotoria antissequestro para monitorar as ligações. Resolveu fazer a entrega do resgate com apoio da polícia. “Fui sozinha deixar o dinheiro, mas havia gente da promotoria monitorando. Só que eles não prenderam ninguém. Disseram que os sequestradores escaparam.” Ela, porém, prestou muita atenção na padaria onde deixou a bolsa com o dinheiro e reparou ainda no homem que falava ao celular na esquina da rua.

Quando voltou para casa, passou a pesquisá-lo em notícias sobre presos. Acabou por encontrá-lo no Facebook, o que o levou à prisão.

Ele, porém, não admitiu o sequestro, e agora ela é quem convive com um ambiente de medo e ameaças. Patrícia integra o grupo Famílias de Acapulco em Busca de Seus Desaparecidos, com mais 100 pessoas na mesma situação.

Se há quem tenha esperança de encontrar parentes vivos, os pais também precisam conviver com o pesar de ter de identificar seus filhos mortos. Alguns, cansados de viver a agonia da ausência, passaram a subir morros e escavar o chão em busca de covas clandestinas. Até o fim de 2016, a Comissão Nacional de Direitos Humanos do México identificou 855 covas clandestinas.

No estado de Guerrero, isso significou a instalação de um cenário de completo caos no Serviço Médico Forense (Semefo), que passou a acumular corpos sem identificação desde 2011. Hoje, são 656 cadáveres, distribuídos em três unidades. O mau cheiro infestava até as ruas próximas da sede da Semefo. “O cheiro era tão forte que às vezes mal se podia estar aqui”, contou Ben Martinez Ychuda, diretor da Semefo.

O cenário de desolação estrutural só começou a mudar a partir de novembro de 2016, quando a Semefo passou a produzir arquivos básicos desses corpos antes que eles fossem enterrados, em um trabalho que tem até hoje consultoria do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Essas pastas possuem exames de DNA, autópsia, estudo antropológico, entre outros dados que permitem a identificação após o sepultamento em covas numeradas. Há dúvida sobre como serão pagos os 15 milhões de pesos – RS 3 milhões – necessários para produzir as pastas de arquivos básicos dos 656 corpos acumulados. O maior desafio é a implementação do sistema de busca e investigação criado pela Lei dos Desaparecidos, esperança para que outras famílias mexicanas não vivam mais em meio ao descaso. Uma responsabilidade que será assumida pelo novo presidente, Andrés Manuel López Obrador, a partir de 1º de dezembro.

Desaparecidos S.A.2

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

Blog O Cristão Pentecostal

"Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva. Convertam-se! Convertam-se dos seus maus caminhos!" Ezequiel 33:11b

Agayana

Tek ve Yek

Envision Eden

When We Improve Ourselves, We Improve The World

4000 Wu Otto

Drink the fuel!

Ms. C. Loves

If music be the food of love, play on✨

troca de óleo automotivo do mané

Venda e prestação de serviço automotivo

darkblack78

Siyah neden gökkuşağında olmak istesin ki gece tamamıyla ona aittken 💫

Babysitting all right

Serviço babysitting todos os dias, também serviços com outras componentes educacionais complementares em diversas disciplinas.

M.A aka Hellion's BookNook

Interviews, reviews, marketing for writers and artists across the globe

Gaveta de notas

Guardando idéias, pensamentos e opiniões...

Isabela Lima Escreve.

Reflexões sobre psicoterapia e sobre a vida!

Roopkathaa

high on stories

La otra luna de Picasso

El arte es la esencia de la espiritualidad humana.

%d blogueiros gostam disto: