PSICOLOGIA ANALÍTICA

A PSICOLOGIA DO TERROR

Estudos têm revelado uma realidade perturbadora: em determinadas circunstâncias, praticamente qualquer um pode ser levado a cometer ações de extrema violência, ainda que não raiva ou mágoa de suas vítimas. Afinal, qual funcionamento psíquico motiva os atos cruéis cometidos por terroristas? Para especialistas, a dinâmica dos grupos é fundamental para entender esse processo.

A psicologia do terror

A ascensão abrupta e violenta do terrorismo está entre as tendências atuais mais perturbadoras. Embora o Brasil não esteja na “rota do terror”, é impossível não nos perguntarmos sobre o risco de atentados em nosso país. Segundo o Index Global de Terrorismo de 2017, mortes relacionadas a atentados terroristas aumentaram quase dez vezes desde o começo do século 21, subindo de 3.329 em 2000 para 13.885 em 2017. Apenas entre 2013 e 2014, cresceram 80%. Para psicólogos e psicanalistas, essa intensificação suscita perguntas urgentes. final, como os grupos extremistas são capazes de tratar outros seres humanos com tamanha crueldade? Por que seus atos atraem jovens do mundo todo? Quem são seus recrutas e no que eles pensam quando tiram vidas inocentes?

Muitos acreditam que apenas psicopatas ou sádicos – indivíduos “totalmente diferentes de nós” – seriam capazes de vestir coletes suicidas ou brandir a espada da execução. Mas, infelizmente, esse pensamento está equivocado. Graças a estudos realizados nos anos 60 e 70, sabemos que até mesmo pessoas estáveis poderiam machucar gravemente outros seres humanos dos quais não tenham nenhuma mágoa. A clássica pesquisa de “obediência à autoridade”, de Stanley Milgram, mostrou que voluntários de um estudo estavam dispostos a aplicar o que eles acreditavam serem choques elétricos fatais em outras pessoas quando o pedido era feito pelo pesquisador do laboratório. Já o “experimento da prisão de Stanford”, conduzido pelo psicólogo Philip Zimbardo, revelou que universitários voluntários que interpretavam o papel de guardas de uma cadeia fictícia abusavam do lugar de poder, agredindo e humilhando outros estudantes que faziam o papel de prisioneiros.

Esses estudos chegaram a uma conclusão perturbadora: praticamente qualquer um, em determinadas circunstâncias, pode ser levado a perpetrar ações de extrema violência. E assim é com terroristas. Da perspectiva psicológica, a maioria dos partidários de grupos radicais não são monstros – como gostaríamos de acreditar-, pelo menos não mais do que qualquer um dos americanos “normais” que participaram das investigações de Milgram ou Zimbardo. “Eles são pessoas comuns, e isso é o mais assustador”, diz o antropólogo Scott Atran, autor do livro Talking to the enemy (Editora Harper Collins, não lançado no Brasil). Segundo ele, o que torna alguém um fanático “não é um defeito inato de personalidade, mas sim a dinâmica do grupo” ao qual pertence.

Para Milgram e Zimbardo, essa dinâmica nos grupos estava relacionada ao conformismo – obedecer a um líder ou compartilhar o ponto de vista da maioria. Durante a última metade do século passado, no entanto, nossa compreensão de como as pessoas se comportam dentro dos grupos avançou. Descobertas recentes desafiam a noção de que indivíduos se tornem zumbis em grupos ou de que um fanático carismático possa facilmente fazer uma lavagem cerebral nessas pessoas.

Esse novo entendimento oferece uma visão mais atual sobre a psicologia dos aspirantes a terroristas e as experiências que podem levá-los ao radicalismo. Mais especificamente, estamos aprendendo que radicalismo não acontece num vácuo, mas sim, em parte, por causa de brechas entre grupos que extremistas procuram criar, explorar exacerbar. Se é possível provocar um número enorme de não muçulmanos a tratar todos os muçulmanos com medo e hostilidade, então aqueles muçulmanos que anteriormente evitavam conflito podem começar a se sentir marginalizados e prestar atenção nas vozes mais radicais entre eles. Da mesma maneira, se podemos provocar muçulmanos o suficiente a ser hostis com ocidentais, a maioria no Ocidente pode também começar a endossar uma liderança mais combativa. Embora pensemos frequentemente que extremistas islâmicos e islamofóbicos são diametralmente opostos, eles estão inextricavelmente interligados. E essa percepção significa que soluções para a praga do terror estarão tanto “conosco” quanto com “eles”.

SEGUINDO O LÍDER

Os achados de Milgram e Zimbardo mostraram que quase qualquer um poderia se tornar abusivo. Se você olhar atentamente os resultados deles, no entanto, a maior parte dos participantes não o fez. Então o que distinguiu aqueles que fizeram? Nos anos 80, o trabalho pioneiro dos psicólogos sociais Henri Tajfel e John Turner, apesar de não relacionado, sugeriu parte da resposta. Eles argumentaram que o comportamento de um grupo e a influência de seus líderes dependiam criticamente de dois fatores inter-relacionados: identificação e desidentificação. Especificamente, para alguém seguir um grupo – possivelmente até o ponto da violência -, é necessário identificar­ se com seus membros e, ao mesmo tempo, desapegar-se de pessoas de fora do grupo, deixando de vê-las com preocupação.

Confirmamos essa dinâmica em nosso próprio trabalho, que revisitou os paradigmas de Zimbardo e Milgram. Por meio de vários outros estudos, descobrimos que, assim como Tajfel e Turner propuseram, participantes estão dispostos a agir de maneira opressora apenas enquanto ainda se identificam com a causa para a qual estão trabalhando – e se desidentificam com aqueles que estão prejudicando. Quanto mais acreditam que a causa vale a pena, mais justificam suas ações como lamentáveis, porém necessárias.

Essa compreensão de que a identidade social, e não a pressão para obedecer, é que determina quão longe uma pessoa irá corroborar descobertas sobre o que realmente motiva terroristas. Em seu livro Understanding terror networks (Universidade da Pensilvânia, 2014, não publicado no Brasil), o psiquiatra forense Marc Sageman, antigo oficial de casos da CIA, enfatizou que terroristas são em geral verdadeiros crentes que sabem exatamente o que estão fazendo. “Os mujahedin eram assassinos entusiasmados, não robôs que simplesmente respondem a pressões sociais ou dinâmicas de grupo”, escreve. Sageman não descartou a importância de líderes convincentes – como Osama bin Laden e Abu Bakr al-Baghdadi, do Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Isis) -, mas sugere que eles servem mais para proporcionar inspiração do que dirigir operações ou emitir comandos.

De fato, existe pouca evidência de que mentores orquestram atos de terror, apesar da linguagem que a mídia usa frequentemente quando reporta esses eventos. O que nos leva para uma segunda alteração na nossa maneira de pensar sobre dinâmica de grupos: nós observamos que quando pessoas se submetem à influência de autoridades, malevolentes ou não, elas não mostram obediência servil, mas encontram maneiras únicas e individuais de estender a agenda do grupo.

Depois que o experimento da prisão de Stanford foi concluído, por exemplo, um dos guardas mais zelosos perguntou a um dos prisioneiros de quem ele havia abusado o que ele teria feito em seu lugar. O prisioneiro respondeu: “Eu não acredito que teria sido tão criativo quanto você. Não acho que eu teria aplicado tanta imaginação ao que estava fazendo”. Terroristas individuais também tendem a ser, ao mesmo tempo, autônomos e criativos, e a falta de um comando hierárquico estrutural é parte do que torna o terrorismo difícil de combater.

“NOBRES” INICIATIVAS

Como líderes do terror atraem seguidores tão engajados e inovadores se não estão dando ordens diretas? Outras descobertas das últimas décadas (sintetizadas em nosso livro de 2011, em coautoria com Michael). Platow, The new psychology of leadership) destacam o papel que líderes têm em desenvolver um senso de identidade e propósito compartilhados por um grupo, ajudando membros a construir suas experiências. Eles empoderam seus seguidores estabelecendo uma causa comum e ganham poder dando formato a ela. De fato, os experimentos de Milgram e Zimbardo são aulas de como criar uma identidade compartilhada e então usá-la para mobilizar pessoas em prol de um fim destrutivo. Da mesma maneira como eles convenceram participantes de seus estudos a infligir dor em nome do processo científico, líderes bem-sucedidos precisam convencer o grupo de que suas iniciativas são honradas e nobres.

Tanto a AI Qaeda quanto o Isis utilizam essa estratégia. O que atrai seus simpatizantes é, em grande parte, o fato de que eles promovem o terror em nome de uma sociedade melhor – uma que relembre a comunidade pacífica que cercava o profeta Mohammed. No ano passado, a professora de jornalismo Shahira Fahmy, da Universidade do Arizona, fez uma análise sistemática da propaganda do Isis e descobriu que apenas 5% retratam o tipo de violência brutal que vemos frequentemente nas televisões ocidentais. A grande maioria traz visões de um “califado ideal”, que iria unir todos os muçulmanos de maneira harmoniosa. Aliás, um elemento significativo do sucesso do Isis – um que o torna mais ameaçador do que a AI Qaeda – está no fato de seus líderes clamarem a soberania do Estado. Na cabeça de seus acólitos pelo menos, eles têm os meios de tentar fazer esse califado utópico se tornar realidade.

Crucialmente, no entanto, a credibilidade e a influência dos líderes (especialmente aqueles que promovem conflito e violência) dependem não somente do que eles dizem e fazem, mas também do comportamento de seu oponente. Prova desse fato veio à tona depois de uma série de experimentos conduzidos por um de nós (Haslam) e llka Gleibs, na Faculdade de Economia de Londres, que observou como pessoas elegem líderes. Uma das descobertas centrais foi que indivíduos serão mais inclinados a escolher um líder belicoso se seu grupo estiver competindo com outro que esteja agindo de maneira beligerante. Nos Estados Unidos, o candidato republicano Donald Trump talvez tivesse sido sábio em ponderar isso antes de sugerir que todos os imigrantes muçulmanos são inimigos em potencial que devem ser barrados de entrar no seu país. Longe de enfraquecer os radicais, essa afirmação providencia o combustível que alimenta o motor da causa deles. De fato, depois que Trump deu essa declaração, um membro da AI Qaeda a reproduziu como parte da estratégia de propaganda.

A ZONA CINZENTA

Assim como o Isis se alimenta de políticos ocidentais imoderados, esses mesmos políticos também se alimentam do Isis para angariar apoio para si mesmos. Essa troca é parte daquilo que o estudioso de religião Douglas Pratt, da Universidade de Waikato, na Nova Zelândia, chama de corradicalização. E aqui habita o verdadeiro poder do terrorismo: ela pode ser usada para provocar grupos a tratar o grupo de outrem como perigoso – o que ajuda a consolidar seguidores ao redor daqueles mesmos líderes que pregam inimizades. Terrorismo não é tanto sobre disseminar o medo quanto é sobre plantar retaliação e novos conflitos. O pesquisador sênior Shiraz Maher, do Centro Internacional de Estudos de Radicalização e Políticas Violentas, na King’s College de Londres, mostrou como o Isis procura ativamente incitar países ocidentais a reagir de maneira que torne mais difícil para muçulmanos sentirem que pertencem a essas comunidades.

Em fevereiro de 2015, a Dabig, revista dirigida pelo Isis, trazia um editorial intitulado “A extinção da zona cinzenta”. Seus escritores lamentavam o fato de que tantos muçulmanos não enxergavam o Ocidente como seu inimigo e que muitos refugiados abandonando a Síria e o Afeganistão realmente viam países ocidentais como terras da oportunidade. Eles clamavam pelo fim da “zona cinzenta” de coexistência construtiva e a criação de um mundo claramente dividido entre muçulmanos e não muçulmanos, no qual todos ou apoiariam o Isis ou os kuffar (não crentes).

Também explicavam os ataques na redação da revista francesa Charlie Hebdo exatamente nestes termos: havia chegado “o tempo de outro evento – ampliado pela presença do Califado no cenário global – para trazer a divisão para o mundo”.

Em resumo, terrorismo está relacionado à polarização. Trata-se de reconfigurar relações intergrupais de modo que liderança extrema pareça ser a maneira mais sensata de lidar com um mundo extremo. Desse ponto de vista, terrorismo é o oposto de destruição não pensada. É uma estratégia consciente – e efetiva – para atrair seguidores para o âmbito de líderes que buscam confronto. Assim, quando se trata de entender por que líderes radicais continuam patrocinando o terrorismo, nós precisamos examinar suas ações e nossas reações. Como o editor David Roth kopf escreveu em Foreign Policy, depois dos massacres de Paris e Isis em novembro passado, “reações exageradas são precisamente a resposta errada para o terrorismo e é exatamente o que os terroristas querem; elas fazem o trabalho dos terroristas e para os terroristas”.

Em muitos países, os esforços antiterroristas atuais levam pouco em consideração como nossas respostas podem estar aumentando as apostas. Essas iniciativas focam apenas indivíduos e presumem que a radicalização começa quando algo enfraquece o senso de propósito e de si mesmo de uma pessoa: discriminação, perda dos pais, bullying, mudanças radicais ou qualquer outra coisa que deixe a pessoa confusa, incerta ou sozinha. O psicólogo Erik Erikson nota que jovens (ainda no processo de formação de uma identidade sólida) são mais vulneráveis a esse tipo de “descarrilamento”. “Nesse estado, eles se tornam uma presa fácil para os grupos radicais, que oferecem o que eles dizem ser uma sociedade acolhedora em busca de um objetivo nobre”, ressalta.

Não temos dúvida de que essa é uma parte importante no processo pelo qual pessoas são levadas a grupos terroristas. Muitas evidências apontam para a importância dos laços de pequenos grupos e, de acordo com Atran e Sageman, terroristas muçulmanos são caracteristicamente centrados em grupos de amigos e parentes. Mas essas lealdades por si só não são suficientes para explicar o que Sageman chama de “problema da especificidade”. Muitos grupos proporcionam laços de camaradagem envolta de uma causa compartilhada: grupos de esporte, cultura, meio ambiente. Até mesmo a maioria das facções religiosas – incluindo grupos muçulmanos – promove a comunidade e sem incentivar a violência. Então por que, especificamente, alguns são atraídos para os poucos grupos muçulmanos que pregam a violência e o confronto?

Argumentamos que esses grupos estão oferecendo mais do que consolo e apoio. Eles fornecem também narrativas que ressoam com seus recrutas e os ajudam a dar sentido às suas experiências. Nesse caso, nós precisamos examinar seriamente as ideias que militantes muçulmanos propagam – incluindo a noção de que o Ocidente é um velho inimigo que odeia todos os muçulmanos. Será que a “maioria” das reações do nosso grupo de alguma maneira dá crédito às vozes de grupos radicais minoritários na comunidade muçulmana? Será que policiais, professores e outras figuras proeminentes fazem jovens muçulmanos no Ocidente se sentirem excluídos ou rejeitados – a ponto de eles começarem a ver o Estado menos como um protetor e mais como um adversário? Se sim, como isso muda o comportamento deles? Para começar a descobrir, um de nós (Reicher), trabalhando com os psicólogos Leda Blackwood, agora na Universidade de Bath, na Inglaterra, e Nicholas Hopkings, da Universidade de Dundee, na Escócia, conduziu entrevistas individuais e em grupo em aeroportos escoceses, em 2013. Como barreiras nacionais, aeroportos mandam sinais claros sobre pertencimento e identidade. Nós descobrimos que a maioria dos escoceses – muçulmanos ou não – tinha uma sensação de “retornar a casa” depois de uma viagem para fora. Ainda assim, muitos escoceses muçulmanos já haviam se sentido ameaçados por causa de suspeitas vindas de seguranças do aeroporto. Por que eu fui puxado para o lado? Por que me perguntaram todas aquelas coisas? Por que minha bagagem foi revistada?

UMA OUTRA PRISÃO

Nós demos o nome de “reconhecimento falho” a essa experiência em que outros não notaram ou negaram uma identidade valiosa para uma pessoa. Isso gerou, sistematicamente, raiva ou cinismo para com autoridades. levou esses indivíduos a se distanciar de pessoas aparentemente britânicas. Depois dessas experiências, um muçulmano escocês disse que se sentiria ridículo se continuasse a incentivar confiança em agências que o tinham humilhado. Em outras palavras, o reconheci­ mento falho pode silenciar aqueles que, tendo uma vez se sentido alinhados com o Ocidente, talvez estivessem mais bem alocados para prevenir uma polarização maior. Para ficar claro, o reconhecimento falho não tornou pessoas moderadas em terroristas ou extremistas instantaneamente. Mas a balança do poder começou a pender menos para o lado de líderes que dizem “trabalhe com as autoridades: elas são suas amigas” e mais para o dos que insistem que “as autoridades são inimigas”.

Nós podemos levar essa análise do reconhecimento falho e suas consequências um passo além. Quando nós adaptamos o estudo da prisão de Zimbardo em nossa própria pesquisa, nós queríamos reexaminar o que acontece quando você mistura dois grupos com níveis de poder desiguais. Nós queríamos testar algumas das mais recentes teorias sobre como a identidade social afeta as dinâmicas de um grupo. Por exemplo, achamos que prisioneiros se identificariam com seu grupo somente se não tivessem perspectivas de deixá-lo. Então, informamos os voluntários que fariam o papel de prisioneiros de que poderiam ser promovidos a guardas se tivessem as qualidades certas. Então, depois de apenas uma rodada com essas promoções, dissemos que não haveria mais mudanças. Eles estavam presos àquelas posições.

Nós discutimos o efeito dessa manipulação em muitas publicações, mas existe uma descoberta sobre a qual não escrevemos em nenhum lugar antes – uma observação que é especialmente relevante para nossa discussão de extremismos. Desde o início do nosso estudo, um prisioneiro em particular tinha ambições muito claras de ser um futuro guarda. Ele via a si mesmo como capaz de unir os guardas e fazê-los trabalhar como uma equipe (coisa que eles estavam tendo dificuldade em fazer). Outros prisioneiros o provocavam; eles falavam de motim, o que ele ignorava. Então, durante o processo de promoção, os guardas não olharam para esse prisioneiro e promoveram alguém que ele enxergava como menos eficiente e mais fraco. Sua vontade de identificar-se como guarda foi publicamente rejeitada de maneira humilhante.

Quase imediatamente, seu comportamento mudou. Antes ele era um preso modelo que evitava seus companheiros, mas agora se identificava fortemente com eles. Ele havia desencorajado os prisioneiros de minar a autoridade dos guardas, mas agora se juntava a eles com grande entusiasmo. E, apesar de ter apoiado a ordem antiga e ajudado a manter a sua existência, ele começou a ser o principal instigador de uma série de atos subversivos que levaram à destruição do regime dos guardas.

Sua conversão dramática veio depois de uma série de passos psicológicos que ocorrem regularmente em comunidades hoje: vontade de pertencer, falha nesse reconhecimento, separação e falta de identificação. Fora de nossa prisão experimental, a história acontece mais ou menos assim: líderes de minorias radicais usam a violência e o ódio para provocar a autoridade das maiorias a instituir uma cultura de vigilância contra membros de grupos minoritários. Essa cultura causa falha no reconhecimento dessas pessoas como membros daquela maioria e sua comunidade, o que leva à não identificação e à separação da corrente principal. E esse distanciamento pode tornar os argumentos dos radicais difíceis de recusar. O ponto é que vozes da minoria radical não são suficientes para radicalizar alguém, nem as experiências individuais das pessoas. O que é potente, no entanto, é a junção das duas e a habilidade de uma reforçar e ampliar a outra.

A análise do terrorismo que apresentamos aqui é, claro, provisória, na medida em que continuamos a coletar evidência. Nós não negamos que alguns indivíduos terroristas tenham de fato personalidades patológicas. Mas o terrorismo junta muitas pessoas que normalmente não se sentiriam inclinadas a disparar o gatilho ou a plantar uma bomba. E, portanto, não pode haver dúvida de que o entendimento desse fator pede um exame em nível grupal – não apenas de radicais, mas da dinâmica grupal que impulsiona o comportamento deles. Esse é o contexto do qual todos nós fazemos parte, algo que todos nós ajudamos a moldar. Nós tratamos minorias com desconfiança? Aqueles que nos governam questionam suas reivindicações de cidadania? Nós reagimos ao terror com pedidos de contraterror? A boa notícia é que, do mesmo modo que nossa análise nos vê como parte do problema, também nos torna parte da solução.

A psicologia do terror.2

OUTROS OLHARES

DESAPARECIDOS S.A

Com quase 40 mil pessoas sumidas em 12 anos, o México é refém da indústria do sequestro, da extorsão e do tráfico de pessoas, negócio com o qual o crime organizado fatura mais de US$ 50 milhões por ano

Desaparecidos S.A

Passava pouco das 8 da manhã de 11 de julho quando batemos à porta da advogada Maria Guadalupe Rodríguez, de 59 anos. Ela mora em uma das ladeiras da Colônia San Mateo, na cidade de Chilpancingo, capital do estado de Guerrero, no sudoeste do México. A temperatura estava amena, já que a geografia de uma cidade erguida entre vales não permitia que o sol se distribuísse igualmente desde as primeiras horas do dia. Chilpancingo fica a somente três horas da Cidade do México e, mesmo sede do governo local, nem sequer consegue maquiar as dificuldades com que subsiste sua gente. Em todo o estado de Guerrero, 64% da população vive em situação de pobreza e 23% em pobreza extrema. A miséria ali, como em tantos outros lugares, convive também com a violência, e era sobre isso que Lupita, como é chamada, queria falar.

Após dois lances de escada, ela nos conduziu a um cômodo no segundo andar com dois quartos pequenos, um em cada extremidade, unidos por uma sala-cozinha improvisada no meio. Ali, sentada num pequeno banco acolchoado junto à parede, ela mostrou o altar montado pelos netos para o pai, desaparecido desde 4 de junho de 2014. A ideia veio do caçula, Anderson Nazareth Rodriguez, que tinha pouco mais de 5 anos quando tudo aconteceu e costumava acordar aos prantos nas madrugadas. Como os cinco dormem juntos na mesma cama, todos despertaram. “Perguntava a ele: “Por que está chorando, minino?”, lembrou Lupita. E ouvia desconcertada: “Deus veio até mim, abuelita, e me trouxe meu papai, mas ele voltou a ir embora”, dizia o menino, soluçando.

Josué Carlos Rodríguez era estudante de Direito, tinha 30 anos. Saiu de casa no meio da tarde para deixar a mulher na faculdade e não voltou. Nas primeiras horas, a família achou que ele poderia ter sido sequestrado. “Pensei que eles me pediriam dinheiro porque nesses tempos também estavam sequestrando, mas passaram os dias e não pediram nada”, recordou ela, com a voz embargada.

Angustiada, Lupita bateu à porta do Ministério Público (MP) nas primeiras horas do dia seguinte para denunciar o desaparecimento. No México, esse é o procedimento-padrão. A promotoria é quem precisa acionar a polícia. Ela contou que o filho estava com seu carro, um Volkswagen Jetta preto) e também levava o celular quando saiu de casa. Pediu que o telefone e suas ligações fossem rastreados. A única coisa que ouviu foi para aguardar.

A falta de ação a consumiu, e não pôde esperar mais. Com ajuda de conhecidos, ficou sabendo de uma denúncia ao Centro de Controle e Comando do Exército, que auxilia a polícia local. Nunca esqueceu as palavras na gravação: ”Urgente, urgente, estão levando um jovem em um Volkswagen Jetta preto. Três homens com armas curtas o pegaram”. O denunciante dizia que o sequestro havia ocorrido perto da escola técnica de Chilpancingo.

Voltou ao MP e, novamente, foi orientada a ir para casa. Os casos eram muitos, a investigação tomaria tempo, entre outras escusas. Os dias se tornaram semanas, depois meses. Rodríguez não retornou. Lupita e o marido se encarregaram da criação dos três netos, pois a mãe dos meninos ainda não tinha emprego. E a vida da família se converteu em uma eterna busca.

Três meses depois do desaparecimento de Rodríguez, um episódio ainda mais perturbador irrompeu subitamente o já violento cotidiano de Guerrero para marcar outra parte infeliz da história do México. No início da noite da sexta-feira 26 de setembro de 2014, um grupo de 100 estudantes da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, de um vilarejo chamado Ayotzinapa, foi atacado a tiros por policiais na cidade de Iguala, a uns 100 quilômetros de Chilpancingo.

Cercados por diversas patrulhas policiais quando deixavam a cidade, os estudantes enfrentaram horas de terror. Quando amanheceu o dia seguinte, o saldo era de três mortos e um baleado na cabeça – em coma. Outros 43 foram levados pela polícia, mas não apareceram em nenhuma delegacia da região naquele dia ou em qualquer outro desde 2014. As primeiras notícias do pandemônio saíram nas redes sociais e logo ganharam o país e o mundo. Daquela madrugada em diante, ninguém mais poderia ignorar a existência dos mais de 30 mil desaparecidos em todo o México desde 2006.

Palssados quatro anos do desaparecimento em massa, fomos a Ayotzinapa encontrar Ernesto Guerrero, de 15 anos, um sobrevivente daquela noite. De Chilpancingo até a comunidade não se leva muito mais do que 30 minutos. A estrada contorna os vales da região e em grande parte é asfaltada. Quem está nela observa a capital do estado do alto e também é facilmente monitorado, já que a maior parte do caminho possui pouca vegetação. Assim, ataques, sequestros e assassinatos eram rotina em estradas como aquela. Sobretudo contra os taxistas. Havia muito os moradores das cercanias não confiavam em nenhuma força de segurança do estado. Menos ainda depois de tudo que aconteceu. Agora, para se proteger, os moradores das comunidades rurais criaram brigadas campesinas de “autodefesa”.

No começo da tarde de 11 de julho de 2018, Ernesto Guerrero, o Marlboro, e os colegas de turma se preparavam para a formatura, dois dias depois. Como são internos, a graduação também é uma despedida da casa onde viveram nos últimos anos. Chegamos lá no momento em que ele e os outros retiravam suas roupas, livros e móveis dos quartos. A música em uma caixa de som contrastava com expressões carregadas de seriedade. Alegria e melancolia se misturavam nos corredores porque aquela era a turma de 35 dos 43 estudantes desaparecidos.

Depois do ataque, a exposição midiática do caso trouxe alguns recursos e melhorias para o local – construído em 1926 e que sofria com a falta de manutenção. Logo na entrada ainda está o prédio clássico de murais de pedra e vitrais arredondados. Nos fundos do terreno, porém, foram erguidos novos edifícios tanto para os quartos como para as salas de aula. Ali foram grafitados murais coloridos com imagens de estudantes e trabalhadores e frases de luta como “nem um minuto de silêncio” ou “abram escolas para fechar prisões” – mantendo a tradição das pichações na escola que possui em diferentes paredes desenhos de Che Guevara e Lucio Cabanas, guerrilheiro egresso da escola e morto em 1974, após combates com o Exército.

Sentado em uma carteira no pátio novo, Ernesto Guerrero se lembrou do ataque como se tivesse acontecido havia apenas poucas horas. Os estudantes tinham terminado de fazer um “boteo”, campanha para arrecadar dinheiro. Os normalistas, que estudam para ser professores, precisavam de verba para viajar até a Cidade do México. Eles pretendiam ir a um ato em memória do Massacre de Tlatelolco, que ocorreu em 2 de outubro de 1968 e deixou, à época, cerca de 300 estudantes mortos.

Para garantir a viagem, os normalistas também haviam confiscado cinco ónibus do terminal municipal de Iguala. A toma, que pode ser vista como rara por um desconhecido, é prática comum em diferentes estados no interior do país. Uma vez usados, os coletivos são devolvidos, e, para garantir a manutenção, as empresas chegam a orientar os motoristas a permanecer com os ônibus até a devolução. Naquela noite, não houve sequer conversa.

Os jovens deixaram o terminal em dois grupos. Dois ônibus saíram na direção sul e outros três rumo ao norte. Ernesto Guerrero viajava no último coletivo que tomou essa rota. Já próximo da saída da cidade, cinco ou seis patrulhas alcançaram o comboio na esquina das ruas Juan Álvarez e Periférico Norte. “Eu estava no terceiro ônibus quando os policiais começaram a disparar. Primeiro, eram tiros ao ar. Nós descemos para nos defender e vimos quando eles miraram os ônibus”, lembrou. A tentativa de dizer que não estavam armados de nada adiantou.

“Quando começaram os disparos contra os ônibus, eu tentei subir de novo, mas as portas estavam fechadas. Sai correndo e entrei no primeiro ônibus”, contou. O primeiro coletivo tentou arrancar, mas foi interceptado por outra patrulha que fechou a passagem. Eles desceram outra vez, mas os policiais já atiravam para matar. “‘Ali acertaram a cabeça do companheiro Aldo, que até hoje está hospitalizado”, denunciou.

Aos berros de “não disparem”, Ernesto diz que se arrastou até a parte de trás do primeiro ônibus. Ficou ali por 30 minutos com outros colegas, enquanto os policiais retiravam os estudantes que ainda estavam dentro dos ônibus, fazendo com que deitassem com o rosto virado para o chão. Pouco depois os obrigaram a subir na parte traseira de algumas caminhonetes. “‘Nós vimos claramente quando as patrulhas da cidade de Iguala os levaram”, recordou. Os policiais, então arrancaram com os carros e foram embora. Só então os estudantes puderam socorrer dois alunos feridos e, ainda sob adrenalina, passaram a chamar as famílias, professores e jornalistas para o local. Queriam denunciar o ocorrido. Pouco a pouco tomavam conhecimento de que os outros dois ônibus, que tinham ido em direção sul, também tinham sido atacados e lá outro grupo de estudantes havia sido levado pela polícia.

Justo no momento em que falavam com jornalistas algumas caminhonetes pararam perto do grupo e homens encapuzados dispararam contra o grupo. Com tiros nas costas e na cabeça, os alunos Júlio César Ramirez Nava e Daniel Solís Gallardo morreram na hora. Os demais correram para se proteger e se dispersaram pelas ruas da cidade. As 9h30 do domingo, o Exército comunicou ao MP o encontro de um cadáver perto da central de patrulhas de Iguala. Era Júlio César Mondragón. Ele estava sem os olhos e sem parte da pele do rosto. “tinha marcas de queimadura nos braços.

Até hoje, o episódio gera mais dúvidas do que respostas. O relatório final da investigação afirmou que a ordem do ataque teria vindo do então prefeito de Iguala, José Luís Abarca, e de sua mulher, Maria de los Ãngeles Pineda, irmã de traficantes do cartel Guerreros Unidos. Nas palavras do procurador Jesús Murillo Karam, “a verdade histórica” era que a primeira-dama temeu ser constrangida durante um discurso que proferia como presidente do Sistema Municipal de Desenvolvimento Integral da Família (DIF).

Foi o destino dos 43 desaparecidos contudo, que causou mais revolta. Os jovens teriam sido entregues a sicários desse cartel, e, depois de mortos a tiros, os corpos foram queimados em um lixão chamado Cocula.

Ao todo, 111 pessoas foram presas – 78 eram policiais ou autoridades municipais, entre os quais o   casal Abarca Pineda. Em 2015, a Comissão lnteramericana de Direitos Humanos fez uma investigação independente e achou diversas fraudes no trabalho da PGR, entre elas a impossibilidade da destruição completa dos corpos no lixão. As famílias aguardam, agora, a instauração de uma Comissão da Verdade sobre o caso.

O desaparecimento dos 43 estudantes deu um solavanco no governo mexicano. O governador do estado de Guerrero, Ángel Aguirre Rivero, renunciou ao cargo. Protestos derreteram ainda mais a popularidade da administração do presidente Enrique Pena Nieto e a crise se aprofundou, dois meses depois, quando o portal Aristegui Noticias revelou que o presidente e a primeira-dama viviam em uma mansão de quase US$ 7 milhões que estava no nome do Grupo Higa, uma empresa com contratos com o governo federal;

Nos primeiros 20 meses de gestão, Pena Nieto até tinha conseguido aprovar reformas trabalhista, judicial, energética, educacional e fiscal no pais. No cotidiano violento, porém, quase nada mudou. O México bate recordes nacionais de homicídios ano após ano e o Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade, encabeçado pelo poeta Javier Sicilia, já identificara inúmeras denúncias de desaparecimentos ao percorrer as praças do país. No entanto, foi só com a grita dos pais e amigos dos normalistas que os desaparecimentos fincaram pé de uma vez na administração Pena Nieto. O pranto ecoou além das ruas de Iguala e Chilpancilgo.

Em abril de 2018, a última atualização do Registro Nacional de Dados de Pessoas Desaparecidas (RNPED) apontava um total de 37.455 desde 2006. O banco de informações, porém, é amplamente criticado, porque costumava apagar informações sobre possíveis “localizados”, impossibilitando a   produção de séries históricas. A crise fez com que o governo entendesse a complexidade do tema e a diferença entre tentar localizar pessoas ainda vivas e investigar ocultação de cadáveres. Como resultado foi aprovada no final do ano passado a Lei dos Desaparecidos – exigindo a criação de um sistema nacional de busca, com escritórios estaduais e um novo banco de dados, sobre o qual ainda não se tem clareza de como será feito. A missão será assumida pelo próximo presidente, Andrés Manuel Lópes Obrador, do recém-criado partido Morena, que toma posse em dezembro.

Encontrar respostas sobre como o país acumulou tantos desaparecidos não é simples, até porque os assassinatos também ultrapassam os 230 mil no mesmo período. Até integrantes do Estado admitem que foi a própria política de enfrentamento às drogas que elevou a violência. “No México, há um histórico de desaparecidos desde os anos 70″, afirmou Joaquín Torrez, coordenador de Direitos Humanos da Procuradoria-Geral da República do México. ” Só que não era um assunto do qual a opinião pública falava tanto. Mas, de 2006 a 2012, quando os combates contra os grupos do crime organizado recrudesceram, esse número disparou, admitiu Torrez, ao lembrar que seu escritório começou a receber frequentemente mães com denúncias a partir de 2013.

Na Biblioteca Americana de Ciências Sociais (Flacso), a advogada Volga de Pina também tenta o exercício. Depois de dois anos auxiliando buscas de famílias e até exumando covas clandestinas, ela agora coordena o Observatório de Desaparecimento e Impunidade da Flacso no México.

Para ela, o somatório de desaparecidos está de alguma maneira relacionado ao contexto violento a partir da “guerra ao narcotráfico”. “Os quase 38 mil que temos agora são todos consequência da violência” explicou. Nesse universo, ela aponta que nem todos os casos se demonstram desde o primeiro momento com um desaparecimento forçado. Também estão presentes os sequestros em que, por alguma razão desconhecida, a pessoa não retorna. Além disso, há o tráfico de pessoas, em especial o de mulheres.

E a lógica por trás das dinâmicas desses crimes está relacionada à transformação que os grupos de narcotraficantes sofreram desde a ascensão do temido Los Zelas, formado por desertores da tropa de elite do Exército mexicano, com treinamento em Israel e nos Estados Unidos. Quando foram recrutados, eles eram apenas a força militar do cartel do Golfo, mas, ao assumirem o poder e disputarem territórios principalmente com o cartel de Sinajoa, do igualmente assombroso Joaquín Guzmnán Loera “El Chapo”, os Zetas passaram a ter de administrar.” Então começaram a fazer sequestros, extorsões, tráfico de pessoas, roubo de combustível e gado. “Toda maneira de se financiar para controlar territórios, Isso teve reflexos em todos os grupos criminosos e nas Forças de Segurança, o que fez disparar a violência no país, apontou a advogada.

A crise não teria a mesma força sem certa cumplicidade de integrantes do Estado. A pesquisadora disse que começou a atuar em casos de desaparecimentos no estado de Veracruz, local de atuação dos Zetas. Até o fim de 2016, Javier Duarte, integrante do tradicional PRI, era o governador do estado e costumava se referir aos desaparecidos como “puros Zetas”. Respondia às queixas das mães por falta de investigações dizendo que não investiria em busca de delinquentes”.

Quando deixou o governo, ele aproveitou sua cidadania americana e fugiu do país, já temendo as investigações sobre o envolvimento do grupo de elite da polícia estadual com os narcotraficantes. Em abril de 2017, foi capturado em um hotel de luxo na Guatemala e extraditado para o México. onde está preso com seu ex-secretário de Segurança, respondendo por acusações de corrupção, mas também de desaparecimento forçado.

Há quatro anos acompanhando desaparecimentos, o repórter da Associated Press Eduardo Castillo apontou que, em Guerrero, o domínio até 2009 era do cartel dos irmãos Beltrán Leyva, quando morreu o líder Marcos Arturo Beltrán Leyva. “Quando o matam, começam as disputas, e um caos absoluto se instala”, disse Castillo. A cisão principal fica entre Los Rojos” e “Guerreiros Unidos”. E Guerrero é um estado-chave para os cartéis de droga. Estima­ se que 90% da papoula mexicana, planta-base para a cocaína, seja produzida no estado de Guerrero. Quem domina o estado domina a produção da droga. Lá a ligação entre o estado e os traficantes se tornou evidente justamente pelo desaparecimento dos 43 de Ayotzinapa.

Quando os pais dos estudantes tomaram as ruas, a advogada Maria Guadalupe Rodríguez se somou às marchas com as fotos do filho. Antes disso, só em seu caminhar, passou a ser ameaçada por ligações de números desconhecidos. Ao juntar-se aos demais, sentiu que não estava sozinha. Depois dos 43, houve o rompimento do medo”, disse. Eles foram os valentes que deram o primeiro grito de “já basta”

Com ela vieram a público de diferentes lados os parentes dos outros desaparecidos Maria Guadalupe então fundou o Coletivo de Desaparecidos e Assassinados em Chilpancingo, para ajudar outras famílias. Em um retiro espiritual, ela foi apresentada a Guadalupe Casarubias, de 58 anos. Além do mesmo nome, a mulher também dividia a mesma dor. O filho Pedro Leiva Casarubias tinha 28 anos quando saiu para trabalhar em 27 de outubro de 2012. Recordou-se dos planos dele de montar uma casa para a mulher e as duas filhas.

Casarubias era garçom e foi rendido dentro de seu trabalho – em pleno expediente e na frente dos colegas – por três homens armados pouco depois da uma hora da tarde. Ele trabalhava no restaurante Tecuân – que fica justamente na Carretera 95, que corta Chilpancingo e liga a Cidade do México a Acapulco, foi posto em cima de uma caminhonete e levado pela estrada.

Passaram-se apenas alguns minutos para que a família tomasse conhecimento do sequestro pois o próprio dono do restaurante telefonou para avisar. Atônitos tentaram eles próprios investigar e acharam nos arredores, câmeras de segurança com imagens nas quais se podiam identificar os sequestradores. Tudo foi denunciado à promotoria, que uma vez mais empilhou a denúncia sobre tantas outras.

As crianças evidenciam a face mais crua dos efeitos da violência. A dona de casa Nora Elsi, de 33 anos. mãe de quatro filhos, viu-se, da noite para o dia, sem saber do companheiro ou como sustentaria os filhos. Ela morava em uma casa no mesmo terreno dos sogros quando o marido, José Vasquei, de 32 anos, sumiu, em 5 de junho de 2013. Não podiam esbanjar, mas viviam bem com o salário que o marido ganhava como motorista da empresa coletora de lixo da cidade.

Ele saiu para trabalhar no fim da tarde e, pouco depois, já não respondia mais ao celular. Horas depois um colega de trabalho ligou para avisar que ele estava em seu carro quando foi abordado por dois homens armados que, em seguida, o renderam e o levaram. O pânico batia em mais uma porta. Nora saiu para procura-lo desde o primeiro instante. Distribuiu cartazes com suas fotos pela cidade. Os sogros, apesar da tristeza, não viam a atitude com bons olhos.

Cinco anos depois, ela mora com a mãe, a tia, três sobrinhos e os filhos em um barraco. Em um espaço com cerca de 15 metros quadrados os nove se acomodam entre um beliche e duas camas improvisadas. No canto esquerdo, logo na entrada foi instalado um fogão e forjada uma cozinha. Não há armários e as roupas ficam guardadas em sacos. Nas paredes de madeira bruta, Nora colocou fotos das crianças e da família.

“Fui desalojada. Meus sogros disseram que já não era bom a gente viver ali”, revelou, com as mãos cruzadas e o olhar fixo no chão. Eles disseram que eu coloquei a denúncia na promotoria e que estava metida em coletivos de busca, então agora os criminosos também viriam atrás da família”, lembrou ela.

No outro extremo de Chilpancingo, na Colônia Omilteni, uma mãe convive não apenas com o desaparecimento do filho, um adolescente de 15 anos, mas também com a cruel dúvida de que ele esteja sendo obrigado a trabalhar para traficantes.

A cozinheira Esther de Aquino Velasquez, de 54 anos, também vivia em situação difícil com o filho caçula, Luiz Giovani Velasquez.

No local estão duas camas de solteiro, um sofá e uma arara com as roupas. Na cômoda, logo na entrada, um altar com fotos de Luiz, a Bíblia e uma vela branca. Sentada em sua cama, ela mal conseguiu começar a contar que o filho era seu companheirinho e logo um misto de choro, desabafo e nervosismo a impediu de respirar.

Era 14 de junho de 2016, uma terça-feira, e Luiz foi chamado por alguns vizinhos para brincar. Ele estava terminando de comer. Comeu rápido, ouvindo sermões da mãe, e logo foi jogar conversa fora com os meninos na frente de casa. Enquanto os meninos brincavam, um Nissan Versa branco passou em baixa velocidade observando os garotos. Os meninos repararam, mas não deram grande atenção. Minutos depois decidiram ir jogar bola em um campinho, algumas quadras acima no morro, e foram os quatro pelas vielas da colônia. De longe, enquanto estavam na quadra, viram o mesmo carro. Ignoraram de novo.

Algum tempo depois, já cansados, decidiram voltar para casa. Quando desciam a rua, perceberam que o carro os seguia já acelerado. Assustaram-se e passaram a correr em fila. Luiz era o primeiro quando o automóvel os fechou, e um homem desceu do carro e agarrou o menino. Os outros três correram enquanto ele era colocado dentro do carro. Não o viram mais. Chegaram em casa esbaforidos e amedrontados, contando o que aconteceu.

Naquela tarde mesmo, Esther e os parentes iniciaram uma busca por ruas do bairro, hospitais e onde mais conseguiram. No outro dia, cedo foram à promotoria, que se recusou a registrar o caso, dizendo que eram necessárias 24 horas para aceitar a denúncia. Quando voltaram na manhã seguinte, ouviram insinuações de que o menino estava naquela situação porque seria um criminoso, o que revoltou a família. “Disse ao promotor: ‘Você acha que eu estaria aqui se fosse assim?”, relembrou.

O alerta “amber”, emitido em caso de menores, foi acionado, mas retirado no dia seguinte, quando servidores colheram o DNA de Esther para o banco genético de parentes de vítimas. A prática costuma irritar os pais, que querem que as autoridades procurem seus filhos vivos, não que fiquem à espera de exames com cadáveres.

Quase um ano se passou sem que Esther tivesse qualquer notícia de seu filho. Em abril deste ano, em meio a uma caravana de procura de desaparecidos, uma informação voltou a deixá-la inquieta. Como a sistematização de dados ainda é bastante falha, as famílias fazem buscas até dentro das prisões. A cozinheira entrou no corredor de celas com a foto do filho junto ao peito e, minutos depois, um preso passou a encará-la, o que foi notado pela comissão.

“Um dos comissionados me pegou pelo braço e disse ‘venha’. Quando cheguei à outra sala, o rapaz estava lá e disse: ‘Conheço seu filho, ele está em tal lugar e lá está trabalhando”, lembrou ela, ao dizer que o homem identificou a colônia e alertou que o jovem é vigiado por traficantes. Três meses depois a promotoria não fez nenhuma ação para tentar localizar Luiz. Na casa de Esther, a agonia tem lhe custado a fé. “Às vezes, tenho raiva de Deus”, desabafou. “Era só um menino quando tiraram sua liberdade.”

Casos semelhantes já foram noticiados pela imprensa mexicana tanto na Revista Proceso como no projeto Animal Político. Estima-se que os sequestros rendam até USS 50 milhões por ano para o crime organizado. Para a médica Patricia Retana, de 51 anos, a tentativa de salvar o filho lhe custou US$ 3 mil e, mesmo assim, não teve sucesso. Aos 17 anos, José Ismael Martin Retana trabalhava como DJ na boate malquerida em uma das praias da Baía de Acapulco.

Saiu de casa na noite de 13 de agosto de 2017, como tantas outras vezes. Patrícia reparou que o filho ainda não tinha chegado, mas saiu porque estava de plantão. Pouco antes de atender o primeiro paciente, um número desconhecido ligou para seu celular. Ela disse que quando atendeu ouviu a voz de José Ismael: “Mãe, tenho um problema. Estou com algumas pessoas que querem falar contigo”, contou ela, com voz embargada, dizendo que foi a última vez que o ouviu. “Ele passou o telefone e a pessoa disse: ‘Sabes quê? Queremos uma certa quantia de dinheiro para devolver seu filho”, recordou Patrícia.

Mal desligou o telefone, ela solicitou ajuda da promotoria antissequestro para monitorar as ligações. Resolveu fazer a entrega do resgate com apoio da polícia. “Fui sozinha deixar o dinheiro, mas havia gente da promotoria monitorando. Só que eles não prenderam ninguém. Disseram que os sequestradores escaparam.” Ela, porém, prestou muita atenção na padaria onde deixou a bolsa com o dinheiro e reparou ainda no homem que falava ao celular na esquina da rua.

Quando voltou para casa, passou a pesquisá-lo em notícias sobre presos. Acabou por encontrá-lo no Facebook, o que o levou à prisão.

Ele, porém, não admitiu o sequestro, e agora ela é quem convive com um ambiente de medo e ameaças. Patrícia integra o grupo Famílias de Acapulco em Busca de Seus Desaparecidos, com mais 100 pessoas na mesma situação.

Se há quem tenha esperança de encontrar parentes vivos, os pais também precisam conviver com o pesar de ter de identificar seus filhos mortos. Alguns, cansados de viver a agonia da ausência, passaram a subir morros e escavar o chão em busca de covas clandestinas. Até o fim de 2016, a Comissão Nacional de Direitos Humanos do México identificou 855 covas clandestinas.

No estado de Guerrero, isso significou a instalação de um cenário de completo caos no Serviço Médico Forense (Semefo), que passou a acumular corpos sem identificação desde 2011. Hoje, são 656 cadáveres, distribuídos em três unidades. O mau cheiro infestava até as ruas próximas da sede da Semefo. “O cheiro era tão forte que às vezes mal se podia estar aqui”, contou Ben Martinez Ychuda, diretor da Semefo.

O cenário de desolação estrutural só começou a mudar a partir de novembro de 2016, quando a Semefo passou a produzir arquivos básicos desses corpos antes que eles fossem enterrados, em um trabalho que tem até hoje consultoria do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Essas pastas possuem exames de DNA, autópsia, estudo antropológico, entre outros dados que permitem a identificação após o sepultamento em covas numeradas. Há dúvida sobre como serão pagos os 15 milhões de pesos – RS 3 milhões – necessários para produzir as pastas de arquivos básicos dos 656 corpos acumulados. O maior desafio é a implementação do sistema de busca e investigação criado pela Lei dos Desaparecidos, esperança para que outras famílias mexicanas não vivam mais em meio ao descaso. Uma responsabilidade que será assumida pelo novo presidente, Andrés Manuel López Obrador, a partir de 1º de dezembro.

Desaparecidos S.A.2

GESTÃO E CARREIRA

PRISÃO INTERIOR

Eles não querem estar na empresa, mas também não saem. Saiba identificar os profissionais entrincheirados, por que isso acontece e como lidar com a situação.

Prisão interior

Marlene Dias acorda todo dia às 6 horas para estar às 8 em ponto no setor de administração da empresa em que trabalha. Quando entrou na organização, em 2016, ela despertava pronta para os desafios profissionais do dia. Dois anos depois, Marlene levanta sem o entusiasmo de antes. “Não aguento mais fazer a mesma coisa, mas não posso deixar o emprego. Tenho dois filhos na faculdade e preciso dos benefícios. Além disso, o mercado está ruim. Se saio, talvez não consiga um cargo tão bom quanto o que tenho”, afirma. Marlene não sabe, mas é uma profissional entrincheirada. O conceito, proposto pelos pesquisadores americanos Kerry Carson, Paula Carson e Arthur Bedeian, refere-se ao funcionário que permanece no serviço, sobretudo por necessidade. Segundo os autores, o indivíduo entrincheirado leva em consideração três conjuntos de fatores para continuar no emprego.

O primeiro seria o investimento para estar em seu cargo. Aqui, entram treinamentos feitos para realizar atividades específicas, o tempo que levou para se adaptar a processos corporativos, o reconhecimento conquistado e o relacionamento com colegas. Se o trabalhador sente que perderá isso saindo da empresa, ele acaba ficando. O segundo conjunto refere-se à estabilidade financeira e aos benefícios em geral, como férias, 13° salário, bônus e participação nos lucros. Se a pessoa está implicada financeiramente e não pode abrir mão dessas regalias, ela também permanece na organização. No entanto, é o terceiro conjunto de fatores que define a amarra invisível: quando o empregado desconfia que não conseguirá outra posição caso deixe a companhia seja por enxergar lacunas em seu perfil profissional, seja por considerar que sua idade desfavorece sua reinserção no mercado de trabalho, entre outros.

IDENTIFIQUE OS APRISIONADOS

A tese de doutorado Trabalhador entrincheirado ou comprometido?, da professora Ana Carolina de Aguiar Rodrigues, doutora em psicologia social e do trabalho pela Universidade Federal da Bahia, corrobora a ideia de que a percepção do funcionário sobre falta de alternativa configura o entrincheiramento – e é um bom começo para o líder de RH. Com base nisso, pode se perguntar por que o empregado tem essa sensação? Quando, como e de que maneira as expectativas dele se desalinharam com as da corporação? Quando isso acontece, é o fim de um ciclo ou ainda há o que fazer?

Para Marcia Fernandes, diretora da Fundação Promon de Previdência Social e diretora de RH há 20 anos, o primeiro passo é identificar os “aprisionados” – tarefa nem sempre fácil. “Pesquisas de clima e avaliações periódicas ajudam. Apesar de o entrincheirado não ser um funcionário ruim, essa sensação acaba gerando alguma consequência em seu trabalho e no dos que estão à sua volta”, diz.

Algumas pistas ajudam a enxergar um empregado assim. Segundo Henrique Vailati, diretor de recursos Humanos da Roche Diagnóstica, os que se sentem presos perdem o interesse em se atualizar e inventam desculpas pela carência de resultados. “Além disso, tendem a colocar a responsabilidade de suas ações, ou a falta dela, nos outros”, afirma. Marcia percebeu ainda que a pessoa deixa de oferecer além do que é esperado para sua função. “Se a empresa implementa grupos, como os de estudo, e o funcionário nunca participa, isso pode ser um indicio de entrincheiramento.”

COMPARTILHE A RESPONSABILIDADE

Não basta, entretanto, focar apenas as falhas do indivíduo. A área de gestão de pessoas também tem sua cota de responsabilidade nessas situações. “Se a corporação não oferece treinamentos, desafios, não valoriza o profissional que merece ser promovido nem institui uma boa política de feedback, ela pode frustrar as expectativas do trabalhador, a ponto de ele ficar no emprego só por necessidade”, afirma Marcia.

A executiva destaca que as trincheiras podem surgir de situações circunstanciais. “Investimos num MBA no exterior para um empregado, com o intuito de que ele voltasse à companhia e assumisse mais responsabilidades”, diz Marcia. Mas houve uma mudança de cenário e, quando o profissional voltou, a Promon não tinha um cargo adequado às suas novas habilidades. Ele ficou um tempo conosco em seu cargo anterior, por necessidade. Como não tínhamos como suprir suas expectativas, preferimos desligá-lo e tê-lo no radar para outro momento da companhia.”

Francisco Cherny, diretor e especialista em liderança e gestão de pessoas na consultoria Axialent, afirma que o assunto é visto como tabu. “O funcionário teme falar que está na corporação por necessidade e ser demitido. A área de recursos humanos por sua vez, encara a demissão do entrincheirado como a única saída, o que é equivocado.” Apesar de não existir um manual aplicável a todos os “prisioneiros”, uma coisa deve ser feita em qualquer situação: conversar com empatia para entender porque a pessoa se sente presa, para, junto com ela, chegar a uma solução adequada para ambos os lados, ou se o profissional percebe que a companhia vai ajudá-lo, ele tende a falar com franqueza sobre assuntos importantes, como satisfação, motivação, engajamento e expectativas”, diz Cherny.

ENTENDA AS AMARRAS

Ana Carolina Rodrigues, que dá aulas na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, recomenda ao RH evitar uma visão rígida sobre motivação, satisfação e engajamento do entrincheirado – até porque nem sempre ele está completamente desmotivado, insatisfeito e desengajado. “Muitas vezes, vê-se a motivação como um conceito generalizado, mas ela está relacionada a uma atividade específica”, diz a professora. “O trabalhador pode se animar para realizar algumas atividades; outras, não. O que deve ser analisado são os estados de frequência motivacional”.  A satisfação tampouco, é única: o indivíduo pode estar satisfeito com a equipe, mas não com o líder, por exemplo. Dificilmente há contentamento em todos os aspectos do trabalho. Em relação ao engajamento, há duas variáveis: mobilização e aplicação de energia – e o significado das tarefas para o indivíduo.

Esses três conceitos (motivação, satisfação e engajamento) estão relacionados ao entrincheiramento e, por isso, devem ser pauta na conversa com os empregados. “A pessoa faz um balanço desses fatores para avaliar sua relação com a empresa. A organização, por sua vez, analisa resultados, motivação, satisfação e engajamento do funcionário para ver o que pode ou não ser melhorado. É esse alinhamento de expectativas que balizará a decisão a respeito da saída ou não de alguém” diz Vailati, da Roche. Ele reitera a importância de mostrar às pessoas que essa é uma percepção, não uma realidade. “Apesar de o profissional sentir que não tem saída, há sempre uma solução.”

Pequenas transformações também melhoram a percepção do indivíduo. “Às vezes, o empregado quer mudanças simples, como fazer home office uma vez por semana. Se a companhia oferece isso, ele pode se reengajar em suas atividades”, diz Cherny, da Axialent. Por isso, a importância de conversar abertamente.

ABRA AS CORRENTES

Além das pesquisas de clima e avaliação constante, outra forma de minimizar a sensação de prisão é abrir espaços para assuntos de interesse dos funcionários que estejam conectados à estratégia da organização. Na startup Social Miner, que implementa soluções de inteligência artificial em marketing, o RH criou o programa Missões, no qual o pessoal propõe e lidera projetos na companhia. Terena Sarpi, líder em gestão de pessoas, acredita que a iniciativa tem potencial para reconectar os profissionais. “Eles se sentem desafiados a fazer um cruzamento entre assuntos que os motivam e nossas áreas de atuação. Além disso, tem a oportunidade de exercitar habilidades que não necessariamente usam no dia a dia”, diz. Um exemplo é o da funcionária da área de atendimento ao cliente que montou um plano para conscientizar os colegas de trabalho sobre o impacto ambiental do lixo e elaborou uma proposta para a Social Miner descartar adequadamente os materiais.

O envolvimento da área de recursos humanos com os medos e os anseios dos trabalhadores é essencial para minimizar o entrincheiramento. A Roche Diagnóstica tirou o peso negativo que a palavra “avaliação” costuma ter: “Estabelecemos o check-in, uma maneira mais informal de o gestor dar feedback aos trabalhadores”, afirma Vailati. No lugar daquele processo com data marcada, os funcionários são incentivados a tomar um café com o chefe e a falar sobre expectativas e objetivos – inclusive ouvindo as aspirações do líder.

Com mais diálogo e sensibilidade, quem sabe as empresas conseguirão se reconectar ás Marlene que existem mundo afora.

 Prisão interior.2

QUEM É O ENTRINCHEIRADO

O perfil mais comum é o que apresenta satisfação, motivação e engajamento baixos de forma geral. Há também aquele que demonstra níveis considerados adequados para a empresa, mas que gostaria de estar mais satisfeito, motivado e engajado. É possível que esse funcionário cumpra as expectativas do chefe, entregando o que precisa, mas que esteja deixando de lado as próprias expectativas de carreira. Nos dois casos, quando há um desalinhamento entre perspectivas e o trabalhador não sai porque não vê outra possibilidade no mercado, há o entrincheiramento.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 14: 15-17

Alimento diário

O Sermão Consolador de Cristo

Cristo não apenas lhes propõe estas coisas como sendo a questão do seu consolo, mas aqui Ele lhes pro­ mete enviar o Espírito, cuja função seria a de ser seu Consolador, para gravar neles estas coisas.

 

I – Ele estabelece como premissa a isto a lembrança de um dever (v. 15): “Se me amardes, guardareis os meus mandamentos”. Guardar os mandamentos de Cristo é aqui colocado como a prática da bondade em geral, e como o desempenho fiel e diligente do seu trabalho como apóstolos, em particular. Observe:

1. Quando Cristo os está consolando, Ele lhes pede que guardem seus mandamentos, pois não devemos esperar consolo, exceto no caminho do dever. A mesma palavra significa tanto exortar quanto consolar.

2. No momento em que eles estavam preocupados quanto ao que deveriam fazer e o que aconteceria com eles, agora que seu Mestre os estava deixando, Ele lhes pede que guardem seus mandamentos, e então nada de errado acontecerá com eles. Em tempos difíceis, nossa preocupação com os eventos do dia deve ser sobrepujada pela preocupação com os deveres do dia.

3. No momento em que eles estavam mostrando seu amor por Ele, pela tristeza que sentiam ao pensar na sua partida, e pela tristeza que encheu seus corações devido a esta perspectiva, Ele lhes diz que, se desejavam mostrar seu amor por Ele, fizessem isto, não pelas paixões fracas e humanas, mas pela sua preocupação consciente em realizar o que lhes havia sido confiado, e por uma obediência universal aos seus mandamentos. Isto é melhor do que o sacrifício, é melhor do que as lágrimas. “Amas-me? Apascenta as minhas ovelhas”. 4. Depois de ter-lhes dado as preciosas promessas da resposta às suas orações e da vinda do Consolador; Ele estipula, como uma limitação às promessas, isto: “Desde que vocês guardem meus mandamentos, por um princípio de amor por mim”. Cristo não será advogado de ninguém, a não ser daqueles que desejarem ser governados e orientados por Ele como seu Conselheiro. Sigam a conduta do Espírito, e terão o consolo do Espírito.

 

II – Ele lhes promete esta grande e indescritível bênção, vv. 16,17.

1. Está prometido que eles terão outro consolador.

Esta é a grande promessa do Novo Testamento (Atos 1.4), assim como a promessa do Messias foi a grande promessa do Antigo Testamento. Uma promessa adaptada à atual angústia dos discípulos, que estavam tristes e precisavam de um consolador. Observe aqui:

(1) A bênção prometida: Esta expressão é usada somente aqui nestes sermões de Cristo, e em 1 João 2.1, onde é traduzida como Advogado. A versão de Rheims e o Dr. Hammond são favoráveis à preservação da palavra grega Paracleto. Nós lemos, em Atos 9.31, sobre a a consolação do Espírito Santo, incluindo todas as suas funções como um advogado.

[1] Vocês terão outro advogado. A função do Espírito era a de ser um advoga do da parte de Cristo para eles e para outros, defendendo sua causa e cuidando dos seus interesses na terra, ser o Vigário de Cristo, como um dos antigos o chama, e ser o advogado deles frente aos seus opositores. Quando Cristo estava com eles, Ele falava por eles quando havia oportunidade. Mas agora que Ele os está deixando, eles não serão enfraquecidos, pois o Espírito do Pai falará neles, Mateus 10.19,20. E a causa não pode malograr aquilo que é defendido por um advogado como Ele.

[2] Vocês terão outro mestre ou professor, outro exortador. Enquanto Cristo estava com eles, Ele os instigava e exortava para seu dever. Mas agora que Ele está partindo, Ele deixa com eles alguém que irá fazer isto com a mesma eficiência, embora silenciosamente. A palavra mais adequada é um “patrono”, alguém que irá, ao mesmo tempo, instruir e proteger.

[3] “Outro consolador”. Cristo era esperado como a consolação de Israel. Um dos nomes do Messias, entre os judeus, era Menahem o Consolador. Os Targuns chamam os dias do Messias de anos de consolação. Cristo consolava seus discípulos quando estava com eles, e agora que Ele os estava deixando em sua maior necessidade, Ele lhes promete outro Consolador.

(2) Quem dá esta bênção: o Pai dará o Consolador; “meu Pai” e “vosso Pai”. Assim, o Senhor Jesus inclui, nesta expressão, tanto a si mesmo como a seus seguidores. O mesmo que deu o Filho para ser nosso Salvador dará seu Espírito para ser nosso consolador, prosseguindo com o mesmo desígnio. Está escrito que o Filho enviará o Consolador (cap. 15.26), mas o Pai é o agente principal.

(3) Como esta bênção é obtida – pela intercessão do Senhor Jesus: “Eu rogarei ao Pai”. Ele disse (v. 14): “Eu o farei”. Aqui Ele diz: “E u rogarei”, para mostrar não somente que Ele é, ao mesmo tempo, Deus e homem, mas que Ele é, ao mesmo tempo, rei e sacerdote. Como sacerdote, Ele é ordenado para fazer intercessão pelos homens. Como rei, Ele está autorizado, pelo Pai, para realizar julgamento. Quando Cristo diz: “Eu rogarei ao Pai”, isto não pressupõe que o Pai não esteja disposto, ou deva ser importunado para fazer isto, mas somente que o dom do Espírito é um fruto da mediação de Cristo, comprado pelos seus méritos e obtido pela sua intercessão.

(4) A continuidade desta bênção: “Para que fique convosco para sempre”. Isto é:

[1] “Para que fique com vocês, enquanto vocês viverem. Vocês nunca sentirão a falta ele um consolador, nem lamentarão sua partida, como estão agora lamentando a minha”. Observe que o fato de que há consolações duradouras providenciadas para nós eleve nos sustentar na perda daquelas consolações que estavam designadas para nós, durante algum tempo. Não era recomendado que Cristo estivesse com eles para sempre, pois aqueles que são designados para o serviço público não elevem viver apenas uma viela ele aprendizado, mas precisam trabalhar para o Senhor. Eles elevem se dispersar, e por isto um consolador que estaria com todos eles, em todos os lugares, igualmente, por mais dispersos que fossem e por mais aflitos que estivessem, era o único adequado para estar com eles para sempre.

[2] “Com seus sucessores, quando vocês tiverem partido, até o final elos tempos. Seus sucessores no cristianismo, no ministério”.

[3] Se entendermos “para sempre” na sua duração máxima, a promessa será cumprida naquelas consolações ele Deus que serão a alegria eterna ele todos os santos, nos prazeres eternos.

2. Este consolador é o “Espírito ela verdade”, que vós conheceis, vv. 16,17. Eles poderiam pensar que era impossível ter um consolador equivalente àquele que é o Filho ele Deus. “Sim”, diz Cristo, “vocês terão o Espírito ele Deus, que é igual, em poder e glória, ao Filho”.

(1) O consolador prometido é o Espírito, alguém que faria seu trabalho ele uma maneira espiritual, interna­ mente e de modo invisível, trabalhando no espírito elos homens.

(2) Ele é “o Espírito da verdade”. Ele será fiel a vocês, e à sua missão por vocês, que Ele desempenhará completamente. Ele lhes ensinará a verdade, esclarecerá suas mentes com o conhecimento dela, fortalecerá e confirmará sua fé nela, e irá aumentar seu amor por ela. Os gentios, pelas suas idolatrias, e os judeus, pelas suas tradições, foram levados a graves erros e enganos. Porém, o Espírito da verdade não somente os conduzirá a toda a verdade, mas também conduzirá a outros, pelo seu ministério. Cristo é a verdade, e Ele é o Espírito de Cristo, o Espírito com o qual Ele foi ungido.

(3) Ele é aquele que “o mundo não pode receber”, mas “vós o conheceis, porque habita convosco”.

[1] Os discípulos de Cristo são aqui distinguidos do mundo, pois eles são escolhidos e separados do mundo que está na iniquidade. Eles são os filhos e herdeiros do outro mundo, não deste.

[2] A desgraça daqueles que são inquestionavelmente devotados ao mundo consiste no fato de que não podem receber o Espírito da verdade. O espírito do mundo e o de Deus são descritos como diretamente contrários um ao outro (1 Coríntios 2.12), pois onde o espírito do mundo tem influência, o Espírito de Deus é excluído. Mesmo os príncipes deste mundo, embora, sendo príncipes, tivessem as vantagens do conhecimento, ainda assim, sendo príncipes deste mundo, se empenhavam sob preconceitos indestrutíveis, ele modo que não conheciam “as coisas do Espírito de Deus”, 1 Coríntios 2.8,14.

[3] Os homens não podem receber o Espírito da verdade porque não o veem, nem o conhecem. Os consolos do Espírito lhes parecem loucura, assim como a cruz de Cristo, e as grandes coisas do Evangelho, como aquelas sobre a lei, são consideradas coisas estranhas. Estes são julgamentos muito além da sua compreensão. Fale aos filhos deste mundo sobre as operações do Espírito, e vocês serão como um bárbaro para eles.

[4] O melhor conhecimento do Espírito da verdade é aquele que é obtido pela experiência: “Vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós”. Cristo tinha habitado com eles, e, pelo relacionamento que tinham com Ele, não podiam deixar de conhecer o Espírito da verdade. Eles mesmos tinham sido dotados de uma certa porção do Espírito. O que os capacitou a deixar tudo para seguir a Cristo, e a continuar com Ele nas suas tentações? O que os capacitou a pregar o Evangelho, e a realizar milagres, senão o Espírito que habitava neles? As experiências elos santos são as explicações das promessas. O que, para outros, é paradoxo, para eles é axioma.

[5] Aqueles que têm um conhecimento experimental do Espírito têm uma garantia confortável da sua continuidade: Ele “habita convosco, e estará em vós”, pois o bendito Espírito não costuma mudar de residência. Aqueles que o conhecem, sabem como valorizá-lo, convidá-lo e acolhê-lo, e, portanto, Ele estará com eles, como a luz no ar, como a seiva na árvore, como a alma no corpo. Sua comunhão com Ele será íntima, e sua união com Ele será inseparável.

[6] O dom do Espírito Santo é um dom peculiar, concedido aos discípulos de Cristo de uma maneira distinta – a eles, e não ao mundo. Para eles, é o maná escondido e a pedra branca (Apocalipse 2.17). Nenhum consolo é comparável àquele que não se exibe, que não faz ruído. Este é o favor que Deus concede aos seus escolhidos. É a herança daqueles que temem seu nome.