GESTÃO E CARREIRA

QUANTO MAIS CEDO, MELHOR

Com a economia cada vez mais complexa, os adultos precisam redobrar a educação financeira das crianças. Saiba qual é a melhor maneira de ensiná-las.

Quanto mais cedo, melhor

Leandro Guerra, empresário carioca, fez inúmeras dividas ao longo da vida. A dificuldade em administrar as próprias contas, segundo ele, é resultado da falta de educação financeira. Quando criança – e, depois, adolescente -, Leandro nunca teve orientações a respeito de dinheiro. Seu pai, hoje serralheiro, só cursou até a 3ª série; a mãe era dona de casa. Leandro sempre viu a família gastar tudo aquilo que ganhava. Para ajudar em casa, começou a trabalhar cedo, com 14 anos já era jovem aprendiz na Light. Apesar de ter um salário, não fazia ideia de como administrá-lo. “Sempre trabalhei em busca de dinheiro, mas sem propósito algum em torno disso. Já fiz muita besteira por não saber cuidar do meu orçamento”.

Foi só depois de passar dois anos na Europa tocando violão nas ruas que mudou de postura. “Lá, entendi o valor do dinheiro”, diz. Ao voltar para o Brasil, em 2012, montou uma produtora de audiovisual e começou a fazer uma gestão mais eficiente dos rendimentos. Hoje, aos 35 anos, não pretende repetir o erro com o filho, Theo, de 4 anos. Mesmo com a pouca idade, o menino já está sendo educado para lidar bem com o dinheiro. Leandro está certo. Segundo especialistas, quanto antes os familiares começarem a falar a respeito com os pequenos, melhor, sobretudo num contexto econômico cada vez mais complexo.

Três décadas atrás, por exemplo, poupança era sinônimo de cédulas embaixo do colchão. E investimentos se traduziam, basicamente, na compra de imóveis. Hoje, o cenário é outro. Da proliferação de corretoras independentes ao surgimento das criptomoedas, como o Bitcoin, o que não faltam são opções para quem souber fazer a renda engordar.

E é na infância que o indivíduo desenvolve habilidades financeiras. “Falar de dinheiro com crianças e adolescentes é ensiná-los sobre equilíbrio, para usufruir bens de forma balanceada; limites, para não gastar mais do que ganha; e sustentabilidade, para que haja bem-estar no presente e no futuro”, diz Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia econômica e educação financeira e membro do Núcleo de Estudos Comportamentais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Mas, no Brasil, essa não é a realidade. Estudo da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) comparou o nível de conhecimento financeiro de 30 países. O nosso país ficou na 26ª posição. Não é à toa, há cerca de 63,29 milhões de inadimplentes por aqui. Falta ao brasileiro o hábito de poupar e duplicar a grana que recebe.

Isso acontece por falta de conhecimento. Além de não haver investimento público em programas de educação financeira, há razões histórica para nossa falta de tato com os rendimentos. “Não passamos por guerra. Países que sofreram privação de bens e produtos criaram um senso de frugalidade maior que o nosso, diz Vera. Veja, a seguir, dicas de como educar as crianças para que elas se tornem adultos aptos a tomar decisões financeiras mais inteligentes.

1 – DEFINA UMA RENDA PARA ELES

A partir dos 7 anos, os pais já podem dar dinheiro para os próprios filhos administrar. “É importante explicar à criança por que isso está sendo feito, reforçando que ela precisa aprender a ser responsável e a utilizar esse valor para necessidades e desejos”, diz Reinaldo Domingos, especialista em educação financeira do canal Dinheiro à Vista e autor de livros, como O Menino, o Dinheiro e os Três Cofrinhos (Editora DSOP). Há duas formas de fazer isto: mesada ou semanada. Cássia D’Aquino, especialista em educação financeira e autora do livro Dinheiro compra tudo? (Moderna), afirma que a semanada é mais indicada para crianças de até 11 anos, que ainda não lidam de maneira clara com o tempo. Depois disso, vale definir uma renda mensal. Foi o que fez Josefa Oronelas, pedagoga e mãe de dois meninos: Victor, de 16 anos, e Vinícius, de 11. Ela começou o esquema quando o filho mais velho tinha 6 anos. “Ele sempre pedia que eu comprasse figurinhas na saída da escola. Ao ouvir a dica de um economista, adotei a prática da semanada e o orientei sobre e como deveria usá-la”, diz. O mais novo teve o mesmo tratamento. Para estipular o valor ideal, especialistas recomendam levar em consideração, além da condição da família, os hábitos da criança e total de custos que ela terá com passeios e lanches na escola. É importante deixar claro, também, quais gastos devem ser feitos com o valor recebido e pontuar que se gastarem tudo com um único brinquedo, faltará grana para o resto. Por fim, uma vez definido o modo semanada ou mesada, nada de dar dinheiro extra –   isso colocará todo o esforço de ensinar sobre finanças em xeque.

2 – DEIXE-OS ERRAR (E BATER CABEÇA)

Se pensarmos na trajetória de executivos de sucesso, os deslizes foram inevitáveis, mas essenciais para seu desenvolvimento de carreira. Com educação financeira não é diferente. “Errar faz parte. Se a criança gastou demais e ficou sem dinheiro num mês, certamente tomará mais cuidado no próximo·, diz Cássia. Um dos deslizes mais comuns nessa fase da vida é decorrente do consumo em grupo: a criança quer ter o mesmo padrão da turma, e acaba trocando os pés pelas mãos. “Os pais devem sempre reforçar qual é a condição financeira da família e dar orientações claras sobre os gastos”, conclui a especialista.

Vinícius, o filho mais novo de Josefa, é “gastão”. “Certa vez, ele quis tanto uma camiseta de futebol da França que passou oito meses sem receber mesada para quitar a dívida”, conta. É nesse tipo de situação que os pais devem falar sobre as consequências de se gastar mais do que tem – e sobre juros, empréstimos etc. “Eles podem até optar por dar o dinheiro extra, mas devem desconta-lo no mês seguinte”, diz Carlos Heitor Campani, consultor de finanças pessoais e professor de finanças do Coppead, Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Isso, quando feito com o propósito de ensinar, desenvolve um senso interessante de economia”, afirma. O contrário também é bacana. ”Se ao final do ano, a criança conseguir guardar algum dinheiro, calcule os juros como bonificação, o que cria a cultura da poupança desde cedo”, diz Carlos Heitor.

3 – INCENTIVE – OS A POUPAR NO DIA A DIA

Quanto mais o espírito poupador for estimulado, há mais chances de o pequeno se tornar um investidor em potencial no futuro. Afinal, apenas com a prática de economizar, será possível crescer com valores bem definidos em relação ao dinheiro.

Mas esse ensinamento deve ser feito aos poucos e com exemplos pertinentes à idade. “Uma criança de 6 anos não se motivará a poupar para a faculdade, por exemplo, mas entenderá o conceito se for para comprar um novo jogo de videogame”, afirma Cássia. Criar junto com o filho planos para guardar dinheiro é o melhor jeito de desenvolver o prazer em economizar. Reinaldo aconselha estipular planos de curto (até três meses), médio (até seis meses) e longo (mais de seis meses) prazos. A poupança pode começar com coelhinhos e, por volta dos 14 anos, com a abertura de uma conta-poupança. Um pouco mais para a frente, por volta dos 16, os pais podem iniciar assuntos mais complexos sobre investimentos.

4- ENSINE DE UM JEITO DIVERTIDO

“Quanto mais simples e divertido for o ensinamento, mais fácil será para a criança absorver”, diz Vera Rita, da CVM. O importante é ter uma metodologia e identificar o perfil do pequeno. Há desde livros e filmes até a possibilidade de usar atividades com pintura, brincadeiras de faz de conta e jogos. Uma forma lúdica de iniciar esse processo é dizer que no cofrinho não se guarda apenas dinheiro e, sim, sonhos. Leandro Guerra, pai de Theo, usa esse tipo de estratégia. “Temos um porquinho e toda semana o incentivo a enchê-lo com as moedas que dou, sempre explicando que precisa juntar algumas para comprar o que deseja”, diz. Leandro também usa livros e jogos para ensinar Theo. De acordo como empresário, que tem também duas enteadas, a ideia é mostrar a importância do valor de cada produto. “Sempre que posso levo-o ao supermercado comigo. Acho que é um ótimo laboratório.” Aplicativos como o Trato, criado pelo Banco do Brasil; o canal Turma da Bolsa, da Bovespa; o jogo online Racha a Cuca; e a série especial sobre educação financeira da Turma da Mônica, feita em parceria com o Sicredi, instituição financeira, também podem ajudar a ensinar crianças menores sem ser maçante.

5 – NÃO ATRELE DINHEIRO A OBRIGAÇÃO

Relacionar rendimentos a tarefas domésticas está longe de ser educativo. O filho lavou a louça e arrumou a cama? Então, vai receber uma recompensa financeira por isso. “O dinheiro não deve ser premiação nem punição”, afirma Reinaldo. Segundo ele, isso faz com que os filhos atrelem obrigações e gentilezas ao dinheiro, o que contribui para a formação de um adulto mesquinho e com valores distorcidos.

Lembre-se: a educação financeira tem a ver com ética e responsabilidade, não com troca de favores. “A criança pode começar a colocar preço em tudo e a achar que se compra qualquer coisa, até afeto,” diz o educador. Na casa de Josefa, a mesada é para realizar metas e desejos. Victor; o filho mais velho, de 16 anos, economizou desde os 8 para fazer um intercâmbio. Aos 12, já tinha conta no banco para guardar o pé de meia. A passagem e a hospedagem para o Canadá, país em que estará por dois anos, ficaram a cargo dos pais, mas as despesas diárias são dele. “Fizemos juntos o cálculo de quanto gastaria com comida e demais atividades para ele saber quanto deveria guardar por mês da mesada”, diz Josefa. Hoje, o filho recebe 400 dólares canadenses todo mês e administra, de lá, o dinheiro que ele mesmo economizou.

 Quanto mais cedo, melhor.2 

CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA

Descubra qual é a melhor maneira de falar sobre dinheiro com as crianças nas diferentes fases da vida.

DE 2 A 4 ANOS

Fazem birra e têm dificuldade em ouvir não. Ainda são bastante voltados para si, pensando primeiro nas próprias necessidades. É comum que queiram tudo o que veem pela frente.

COMO FALAR SOBRE DINHEIRO:

  • Converse sobre desejos e explique que cada um deles tem um valor. Mostre que gastar todo o dinheiro com balas inviabilizará o parquinho.
  • Adote três cofrinhos de tamanhos diferentes. Peça à criança que coloque em cada um deles desejos (em forma de desenho) e distribua moedas em cada um deles. Dessa forma, ele verá que o cofrinho menor encherá mais rápido e entenderá que coisas maiores demoram mais a ser conquistadas.

 

DE 5 A 8 ANOS

Gostam de brincadeiras de faz de conta; obedecem às ordens por temer as consequências. Mesmo

assim, sua noção de certo e errado é relativa. Enxergam os pais como modelos a ser seguidos.

COMO FALAR SOBRE DIHHEIRO:

  • Simule em brincadeiras compras em supermercados ou lojas com o uso de moedas e cédulas que imitam as reais. O faz de conta ajuda na elaboração do que é dinheiro.
  • A partir dos 7 anos, já pode ser implantada a mesada financeira semanal.
  • Inclua personagens animados nas explicações. O tio Patinhas, da Disney pode ser usado como um exemplo a não ser seguido pois só pensa em guardar e não realiza sonhos. Já o Marcelinho, da Turma da Mônica, é um modelo inteligente de como ser econômico – até na hora de usar água.

 

DE 9 A 12 ANOS

Nessa fase, eles têm vergonha da exposição, sofrem forte influência dos amigos e já compreendem bem as regras sociais.

COMO FALAR SOBRE DINHEIRO:

  • Como possuem noção de certo e errado, é interessante demonstrar com histórias reais, o que acontece quando o consumo não é consciente e ultrapassa o poder de compras da família.
  • É o momento de começar a poupar e a aprender sobre juros. Deixe-os participar ativamente das compras, analisando os preços.

 

DE 13 A 16 ANOS

Na pré-adolescência, eles já se preocupam com marcas e estilo de roupa e acessórios. São impulsivos e supercríticos em relação a si mesmos e aos outros. Por outro lado, costumam ser generosos e altruístas nesse momento da vida.

COMO FALAR SOBRE DINHEIRO:

Busque jogos que incentivem cooperação (e não competição). Banco imobiliário e jogo da vida não são recomendados para trabalhar a educação financeira.

  • Converse com o jovem para mapear objetivos e ajude-o a estipular uma poupança para realizar alguns deles, como a compra do carro aos 18 anos.
  • Vá a uma instituição com ele e abra uma conta. Assim, o adolescente começará a ganhar autonomia e a compreender a dinâmica do banco.

Quanto mais cedo, melhor.3

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.