PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUER AJUDA? PEÇA A QUEM TE REJEITOU

0fato de uma pessoa ter dito não uma vez não significa que o fará novamente – pelo contrário, garantem cientistas. O problema é que o medo de sermos repudiados pode nos fazer desistir de uma segunda tentativa – justamente na que talvez tenhamos melhor chance de obter a resposta afirmativa.

Quer ajuda peça a quem te rejeitou

À primeira vista, a possibilidade de conseguir auxílio de alguém que lhe disse não num primeiro momento pode parecer pouco provável. O pesquisador Daniel A. Newark, doutor em estudos organizacionais, e seus colegas pesquisadores da Universidade Stanford constataram, porém, que não é bem assim: são essas pessoas que mais estariam inclinadas a dizer sim num segundo momento. Os cientistas desenvolveram um experimento para o qual recrutaram 19 estudantes e lhes deram uma tarefa: solicitar a 15 estranhos no campus dois favores. O primeiro: “Você pode preencher um pequeno formulário de pesquisa?”. E o segundo: “Você pode levar uma carta ao posto do correio para mim?”. Os estudantes que pediam ajuda tinham previsto que, em geral, as pessoas que recusassem o pedido inicial também se esquivariam do segundo. Mas na verdade uma proporção significativa dos que não responderam ao questionário concordou em levar a carta. Ou seja: pessoas que já disseram não a uma solicitação parecem mais propensas a dizer sim para outro pedido.

Newark encontrou uma significativa desconexão entre as expectativas de quem procura ajuda e o comportamento dos estranhos; os alunos que pediam favores acreditavam que apenas 18% dos que disseram não à pesquisa acatariam o segundo pedido. No entanto, 43% deles concordaram em enviar a correspondência, e há resultados semelhantes em outros experimentos com centenas de participantes. “As pessoas constantemente subestimam as chances de aceitação depois da rejeição inicial, pois presumem que alguém que disse não uma vez provavelmente o fará novamente”, afirma Newark. Ele observa que os resultados refletem uma tendência média. “Há, claro, algumas pessoas profundamente insensíveis, mas não tantas como se imagina”, diz.

Segundo ele, essa linha de raciocínio pode ser explicada pelo fato de que tendemos a ignorar o desconforto e a culpa que os outros sentem quando nos rejeitam. Quando alguém se nega a nos fazer um favor, supomos (em geral de forma automática e inconsciente) que é por causa de um traço arraigado da personalidade do interlocutor – que seria egoísta ou pouco prestativo. Mas muitas vezes é devido a fatores situacionais – talvez a pessoa quisesse ajudar, mas nem sempre isso seria possível da forma e no momento em que lhe foi solicitado. Na realidade, é frequente que os indivíduos se sintam mal em rejeitar um pedido e que se tornem mais dispostos a ajudar caso a oportunidade surja novamente. Mas, se essa pessoa já foi eliminada como possibilidade, será a última a ser considerada para uma potencial ajuda. Resultado: uma oportunidade real é perdida.

Na vida cotidiana, fazemos isso com amigos e colegas, da mesma forma como fazemos com estranhos. No caso do estudo do campus de Stanford, os participantes estavam basicamente lidando com estranhos, mas todos eram membros da mesma comunidade acadêmica.

Em experimentos relacionados que Newark realizou com os pesquisadores Francis J. Flynn e Vanessa K. Bohns, os voluntários eram orientados a imaginar as reações que teriam ao pedir favores a todo tipo de gente, de estranhos a parentes. E, em estudos posteriores, foi pedido às pessoas que se visualizassem pedindo feedback a colegas sobre slides para uma apresentação ou solicitando conselhos de viagem ou ajuda para um trabalho a conhecidos ou amigos. Independentemente de qual o relacionamento com potenciais ajudantes, os voluntários subestimaram a vontade do outro de fazer um segundo favor depois de recusar o inicial.

É preciso considerar, no entanto, que, quando se trata de favores pequenos, a taxa geral de pessoas dizendo sim pode ser maior. Contudo, o padrão de subestimar a aceitação depois da primeira rejeição é o mesmo. As investigações tendem a se concentrar em vá­ rios pedidos de dificuldade similar: participar de uma pesquisa, em seguida levar uma carta ao correio; passar um dia ajudando numa mudança e deixar o participante dormir na sua casa no fim de semana. Esse foi um ponto de diferenciação, pois a maioria dos trabalhos anteriores se concentrou em como as solicitações de maior ou menor magnitude afetam a vontade de ajudar.

Os comportamentos, entretanto, dependem de variáveis, e as conclusões dos estudos não são unânimes. Em relação aos padrões de concessões de favores, algumas divergências sobre a tática de persuasão conhecida como técnica foot-in-the-door (pé na porta, numa tradução literal) mostram que, se você começar com um pedido pequeno e tiver aceitação inicial, o seu interlocutor tenderá a continuar a dizer sim a coisas maiores, porque não quer quebrar o padrão de ajuda. Ao mesmo tempo, estudos sobre a técnica conhecida como door­in-the face (porta na cara) sugerem que, se você começar com um pedido grande e receber um não inicial, e depois voltar com um pedido menor, seu alvo será mais propenso a dizer sim, porque vai parecer que fez uma concessão.

BOAS RECOMENDAÇÕES

A qualidade da assistência oferecida também poderia ser muito maior do que seria de esperar. Newark constatou que os ajudantes estariam dispostos a dedicar muito mais tempo e esforço a tarefas do que previam as pessoas que fizeram os pedidos. Em outro estudo, o cientista descobriu que as pessoas que foram convidadas a completar o máximo que quisessem de uma pesquisa de até 75 perguntas responderam a 45 questões em seis minutos e 28 segundos, em média, com uma taxa de precisão de 90%. Mas aqueles que apresentavam o questionário haviam previsto apenas 26 perguntas respondidas em 4 minutos e 22 segundos, com uma taxa de precisão de 80%. Em outro trabalho nessa mesma linha, realizado em laboratório, voluntários foram convidados a escrever cartas de recomendação para os colegas participantes da pesquisa. O curioso é que incluíram declarações quase 50% mais positivas e cometeram muito menos erros ortográficos e gramaticais do que seus parceiros tinham antecipado. “Fizemos dois estudos adicionais com cenários hipotéticos envolvendo colegas, conhecidos e amigos e descobrimos a mesma desconexão”, conta Newark. Novamente, os que pediam ajuda falharam em reconhecer o quanto as pessoas se sentiam desconfortáveis em fornecer ajuda de má qualidade.

Mas, certamente, algumas pessoas fingem ou rejeitam pedidos de ajuda repetidamente sem nenhum remorso. E os resultados das pesquisas refletem uma tendência média. “Existem pessoas profundamente insensíveis, mas não tantas como se poderia pensar. Por isso, minha conclusão geral é: não presuma o pior, seja mais lento em julgar, perceba que as pessoas estão ocupadas e que um ‘eu não posso ajudá-lo neste momento’ geralmente não significa “não quero ajudá-lo nunca”, ressalta Newark. E salienta: “Se você esquecer isso, corre o risco de se afastar daquelas pessoas com maior propensão a lhe dar assistência válida”.

Numa próxima fase das investigações o pesquisador pretende entender melhor o que os solicitantes esperam quando pedem o mesmo favor a pessoas diferentes. Se o voluntário é inicialmente rejeitado, acha que há algo de errado com o pedido ou consigo mesmo? Ou tende a atribuir o problema à pessoa a quem fez o pedido? A equipe coordenada por Newark está empenhada também em descobrir como a desconexão entre a busca de auxílio e o ato de ajudar ocorre em organizações. Nas empresas, é comum ver como a resposta positiva ou negativa de um executivo em dado momento pode levar esse profissional a ser sobrecarregado com pedidos ou quase nunca voltar a ser procurado, por exemplo.

O que Newark e seus colaboradores parecem ter constatado até este momento é que não importa como vemos uma situação, sempre vale a pena ser persistente. “Especialmente em lugares que têm culturas individualistas, como os países ocidentais, muitas vezes relutamos em admitir que precisamos de ajuda e ficamos ansiosos com a ideia de pedir auxílio, como se isso nos expusesse de alguma forma.” O cientista observa que em geral “tememos a rejeição mais do que deveríamos”. E argumenta: “A maioria das pessoas, mesmo aquelas que o rejeitaram antes, estará mais disposta a lhe dar uma ajuda do que você pensa.” Correr o risco e fazer uma nova tentativa, portanto, pode ser uma boa ideia. Pelo menos na teoria.

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OUTROS OLHARES

 O QUE JESUS VESTIA?

Especialista explica por que túnica surrada até os joelhos e uso de alpargatas são imagens mais realistas do que longos cabelos, pele clara e olhos azuis.

O que Jesus vestia

Durante as últimas décadas, surgiu vez ou outra a pergunta: qual era a aparência de Jesus? Falou-se muito sobre uma reconstrução digital de um homem da Judeia criada para Son of God, documentário da BBC de 2001. A imagem foi feita com base num crânio antigo e, usando tecnologias avançadas para a época, mostra a cabeça de um homem baixo e gordo, com uma expressão ligeiramente preocupada.

É correto afirmar que o tom de pele é bronzeado e o cabelo e a barba são pretos e curtos, mas o nariz, os lábios, o pescoço, os olhos, as pálpebras, as sobrancelhas, a camada de gordura e a expressão são apenas conjecturas. Fazer um homem de carne e osso somente a partir de crânios antigos não é uma ciência exata, porque o tecido mole e a cartilagem são desconhecidos.

Para mim, como historiadora, tentar visualizar Jesus com precisão é uma forma de tentar compreendê-lo com mais precisão também.

O Jesus que herdamos após séculos de arte cristã não é o correto, mas é uma marca poderosa. Sua aparência como um homem de cabelo longo, partido ao meio, com uma barba grande – em geral de pele clara, cabelos castanho-claros e olhos azuis – tornou-se a mais aceita. Imaginamos Jesus usando mantos compridos de mangas largas, da forma como é representado na maioria das obras de arte ao longo dos séculos. Em filmes contemporâneos – de Jesus de Nazaré (1977), de Zeffirelli, em diante – esse estilo predomina, mesmo quando suas roupas são consideradas malfeitas.

Há muitas razões por trás dessa representação aceita como o padrão mundial, e nenhuma delas tem a ver com a preservação da precisão histórica. Eu as exploro em meu novo livro, What did Jesus look like?, mas no fim das contas procuro por pistas do Jesus de verdade em textos antigos e na arqueologia.

Para mim, sua aparência não é só sua carne e osso. Afinal, nossos corpos não são apenas corpos. Como argumenta o sociólogo Chris Shilling, eles são “tanto recursos pessoais como símbolos sociais que ‘emitem’ mensagens sobre identidade”. Podemos ser velhos, novos, altos, baixos, gordos, magros, ter pele clara, pele escura, cabelos crespos, cabelos lisos e assim por diante, mas nossa aparência não começa e termina em nosso corpo físico. Numa multidão, podemos encontrar um amigo por causa de seu cachecol em vez de seu cabelo ou nariz. O que cria uma aparência é o que fazemos com nosso corpo.

Então a aparência de Jesus teria tudo a ver com aquilo que ele vestia. Assim que determinarmos sua paleta de cores correta, levando em conta que ele era um homem judeu do Oriente Médio, como o vestiremos? Como ele parecia para as pessoas de seu tempo?

Não existe uma descrição física nítida de Jesus nos Evangelhos ou na literatura cristã antiga. Existem, sim, detalhes incidentais. Por causa da Bíblia (por exemplo, Marcos 6:56), você consegue descobrir que ele usava um manto – um xale longo (em inglês, himation, palavra de origem grega) – que tinha borlas, descritas como “bordas”; é nitidamente uma versão mais antiga do talit judeu. Normalmente feito de lã, o manto poderia ser grande ou pequeno, grosso ou fino, colorido ou na cor natural, mas os homens preferiam o modelo não tingido.

Ele usava alpargatas, como sugerido por múltiplas passagens da Bíblia (ver Mateus 3:11; Marcos 1:7, 6:9; João 1:27), e sabemos agora como eram as sandálias antigas usadas na Judeia, pois foram preservadas, em cavernas secas, pelo Mar Morto.

Usava uma túnica, quiton, que para os homens ficava um pouco abaixo do joelho, e não no tornozelo. Apenas os mais ricos usavam as compridas. Inclusive, Jesus identifica que especificamente esses homens de túnicas longas (Marcos 12:38) não merecem as honras que recebem de pessoas que se impressionam com seus trajes finos, pois, na verdade, eles devoram injustamente as casas das viúvas.

A túnica de Jesus também foi feita a partir de apenas um pedaço de tecido (João 19:23-24). Isso é estranho, porque a maioria delas era feita de dois tecidos costurados no ombro e nas laterais. Normalmente, mantos de apenas um pedaço, no primeiro século na Judeia, eram roupas de baixo finas ou roupa infantil. Não devemos pensar nas roupas íntimas contemporâneas, mas usar um artigo de peça única, e só ele, provavelmente não era bem-visto. Era extremamente básico.

É possível que não surpreenda, então, o fato de Jesus ser lembrado como alguém que parecia desleixado por um erudito chamado Celso, em seu tratado contra os cristãos escrito na metade do segundo século. Celso fez seu dever de casa. Entrevistou pessoas e – como nós – estava interessado na aparência de Jesus. De judeus e outros que questionou, ouviu dizer que Jesus “circulava pelos lugares de forma vergonhosa à vista de todos”. Ele “obteve seu sustento de maneira infame e inoportuna” – pedindo esmola ou recebendo doações.

Da perspectiva de pessoas respeitáveis, podemos supor que Jesus aparentava ser relativamente bruto. Quando o escritor cristão Orígenes discutiu com Celso, ele rejeitou muitas de suas declarações, mas não questionou esse fato.

Então, embora Jesus usasse roupas similares, em vários aspectos, às de outros homens judeus, seu “visual” era surrado. Eu duvido que seu cabelo fosse especialmente longo, como era retratado na maioria das obras de arte, devido às normas masculinas da época, mas certamente não era bem cuidado. Usar uma túnica básica que outras pessoas usavam como roupa de baixo combina com a indiferença de Jesus quanto a coisas materiais (Mateus 6:19-21, 28-29; Lucas 6:34-35, 12:22-28) e com sua preocupação com os pobres (Lucas 6:20-23).

Isso, para mim, é o começo de uma maneira diferente de ver Jesus – muito relevante para nossa época de enorme desigualdade entre ricos e pobres, assim como era no Império Romano. Ele ficou do lado dos pobres, e isso teria sido óbvio por seu aspecto. A aparência de Jesus é importante porque reflete a essência de sua mensagem. Independentemente de como é retratado em filmes e obras de arte hoje em dia, ele precisa ser mostrado como alguém que não tinha nada. Seus ensinamentos só podem ser verdadeiramente compreendidos a partir dessa perspectiva.

O que Jesus vestia.2

GESTÃO E CARREIRA

QUANTO MAIS CEDO, MELHOR

Com a economia cada vez mais complexa, os adultos precisam redobrar a educação financeira das crianças. Saiba qual é a melhor maneira de ensiná-las.

Quanto mais cedo, melhor

Leandro Guerra, empresário carioca, fez inúmeras dividas ao longo da vida. A dificuldade em administrar as próprias contas, segundo ele, é resultado da falta de educação financeira. Quando criança – e, depois, adolescente -, Leandro nunca teve orientações a respeito de dinheiro. Seu pai, hoje serralheiro, só cursou até a 3ª série; a mãe era dona de casa. Leandro sempre viu a família gastar tudo aquilo que ganhava. Para ajudar em casa, começou a trabalhar cedo, com 14 anos já era jovem aprendiz na Light. Apesar de ter um salário, não fazia ideia de como administrá-lo. “Sempre trabalhei em busca de dinheiro, mas sem propósito algum em torno disso. Já fiz muita besteira por não saber cuidar do meu orçamento”.

Foi só depois de passar dois anos na Europa tocando violão nas ruas que mudou de postura. “Lá, entendi o valor do dinheiro”, diz. Ao voltar para o Brasil, em 2012, montou uma produtora de audiovisual e começou a fazer uma gestão mais eficiente dos rendimentos. Hoje, aos 35 anos, não pretende repetir o erro com o filho, Theo, de 4 anos. Mesmo com a pouca idade, o menino já está sendo educado para lidar bem com o dinheiro. Leandro está certo. Segundo especialistas, quanto antes os familiares começarem a falar a respeito com os pequenos, melhor, sobretudo num contexto econômico cada vez mais complexo.

Três décadas atrás, por exemplo, poupança era sinônimo de cédulas embaixo do colchão. E investimentos se traduziam, basicamente, na compra de imóveis. Hoje, o cenário é outro. Da proliferação de corretoras independentes ao surgimento das criptomoedas, como o Bitcoin, o que não faltam são opções para quem souber fazer a renda engordar.

E é na infância que o indivíduo desenvolve habilidades financeiras. “Falar de dinheiro com crianças e adolescentes é ensiná-los sobre equilíbrio, para usufruir bens de forma balanceada; limites, para não gastar mais do que ganha; e sustentabilidade, para que haja bem-estar no presente e no futuro”, diz Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia econômica e educação financeira e membro do Núcleo de Estudos Comportamentais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Mas, no Brasil, essa não é a realidade. Estudo da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) comparou o nível de conhecimento financeiro de 30 países. O nosso país ficou na 26ª posição. Não é à toa, há cerca de 63,29 milhões de inadimplentes por aqui. Falta ao brasileiro o hábito de poupar e duplicar a grana que recebe.

Isso acontece por falta de conhecimento. Além de não haver investimento público em programas de educação financeira, há razões histórica para nossa falta de tato com os rendimentos. “Não passamos por guerra. Países que sofreram privação de bens e produtos criaram um senso de frugalidade maior que o nosso, diz Vera. Veja, a seguir, dicas de como educar as crianças para que elas se tornem adultos aptos a tomar decisões financeiras mais inteligentes.

1 – DEFINA UMA RENDA PARA ELES

A partir dos 7 anos, os pais já podem dar dinheiro para os próprios filhos administrar. “É importante explicar à criança por que isso está sendo feito, reforçando que ela precisa aprender a ser responsável e a utilizar esse valor para necessidades e desejos”, diz Reinaldo Domingos, especialista em educação financeira do canal Dinheiro à Vista e autor de livros, como O Menino, o Dinheiro e os Três Cofrinhos (Editora DSOP). Há duas formas de fazer isto: mesada ou semanada. Cássia D’Aquino, especialista em educação financeira e autora do livro Dinheiro compra tudo? (Moderna), afirma que a semanada é mais indicada para crianças de até 11 anos, que ainda não lidam de maneira clara com o tempo. Depois disso, vale definir uma renda mensal. Foi o que fez Josefa Oronelas, pedagoga e mãe de dois meninos: Victor, de 16 anos, e Vinícius, de 11. Ela começou o esquema quando o filho mais velho tinha 6 anos. “Ele sempre pedia que eu comprasse figurinhas na saída da escola. Ao ouvir a dica de um economista, adotei a prática da semanada e o orientei sobre e como deveria usá-la”, diz. O mais novo teve o mesmo tratamento. Para estipular o valor ideal, especialistas recomendam levar em consideração, além da condição da família, os hábitos da criança e total de custos que ela terá com passeios e lanches na escola. É importante deixar claro, também, quais gastos devem ser feitos com o valor recebido e pontuar que se gastarem tudo com um único brinquedo, faltará grana para o resto. Por fim, uma vez definido o modo semanada ou mesada, nada de dar dinheiro extra –   isso colocará todo o esforço de ensinar sobre finanças em xeque.

2 – DEIXE-OS ERRAR (E BATER CABEÇA)

Se pensarmos na trajetória de executivos de sucesso, os deslizes foram inevitáveis, mas essenciais para seu desenvolvimento de carreira. Com educação financeira não é diferente. “Errar faz parte. Se a criança gastou demais e ficou sem dinheiro num mês, certamente tomará mais cuidado no próximo·, diz Cássia. Um dos deslizes mais comuns nessa fase da vida é decorrente do consumo em grupo: a criança quer ter o mesmo padrão da turma, e acaba trocando os pés pelas mãos. “Os pais devem sempre reforçar qual é a condição financeira da família e dar orientações claras sobre os gastos”, conclui a especialista.

Vinícius, o filho mais novo de Josefa, é “gastão”. “Certa vez, ele quis tanto uma camiseta de futebol da França que passou oito meses sem receber mesada para quitar a dívida”, conta. É nesse tipo de situação que os pais devem falar sobre as consequências de se gastar mais do que tem – e sobre juros, empréstimos etc. “Eles podem até optar por dar o dinheiro extra, mas devem desconta-lo no mês seguinte”, diz Carlos Heitor Campani, consultor de finanças pessoais e professor de finanças do Coppead, Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Isso, quando feito com o propósito de ensinar, desenvolve um senso interessante de economia”, afirma. O contrário também é bacana. ”Se ao final do ano, a criança conseguir guardar algum dinheiro, calcule os juros como bonificação, o que cria a cultura da poupança desde cedo”, diz Carlos Heitor.

3 – INCENTIVE – OS A POUPAR NO DIA A DIA

Quanto mais o espírito poupador for estimulado, há mais chances de o pequeno se tornar um investidor em potencial no futuro. Afinal, apenas com a prática de economizar, será possível crescer com valores bem definidos em relação ao dinheiro.

Mas esse ensinamento deve ser feito aos poucos e com exemplos pertinentes à idade. “Uma criança de 6 anos não se motivará a poupar para a faculdade, por exemplo, mas entenderá o conceito se for para comprar um novo jogo de videogame”, afirma Cássia. Criar junto com o filho planos para guardar dinheiro é o melhor jeito de desenvolver o prazer em economizar. Reinaldo aconselha estipular planos de curto (até três meses), médio (até seis meses) e longo (mais de seis meses) prazos. A poupança pode começar com coelhinhos e, por volta dos 14 anos, com a abertura de uma conta-poupança. Um pouco mais para a frente, por volta dos 16, os pais podem iniciar assuntos mais complexos sobre investimentos.

4- ENSINE DE UM JEITO DIVERTIDO

“Quanto mais simples e divertido for o ensinamento, mais fácil será para a criança absorver”, diz Vera Rita, da CVM. O importante é ter uma metodologia e identificar o perfil do pequeno. Há desde livros e filmes até a possibilidade de usar atividades com pintura, brincadeiras de faz de conta e jogos. Uma forma lúdica de iniciar esse processo é dizer que no cofrinho não se guarda apenas dinheiro e, sim, sonhos. Leandro Guerra, pai de Theo, usa esse tipo de estratégia. “Temos um porquinho e toda semana o incentivo a enchê-lo com as moedas que dou, sempre explicando que precisa juntar algumas para comprar o que deseja”, diz. Leandro também usa livros e jogos para ensinar Theo. De acordo como empresário, que tem também duas enteadas, a ideia é mostrar a importância do valor de cada produto. “Sempre que posso levo-o ao supermercado comigo. Acho que é um ótimo laboratório.” Aplicativos como o Trato, criado pelo Banco do Brasil; o canal Turma da Bolsa, da Bovespa; o jogo online Racha a Cuca; e a série especial sobre educação financeira da Turma da Mônica, feita em parceria com o Sicredi, instituição financeira, também podem ajudar a ensinar crianças menores sem ser maçante.

5 – NÃO ATRELE DINHEIRO A OBRIGAÇÃO

Relacionar rendimentos a tarefas domésticas está longe de ser educativo. O filho lavou a louça e arrumou a cama? Então, vai receber uma recompensa financeira por isso. “O dinheiro não deve ser premiação nem punição”, afirma Reinaldo. Segundo ele, isso faz com que os filhos atrelem obrigações e gentilezas ao dinheiro, o que contribui para a formação de um adulto mesquinho e com valores distorcidos.

Lembre-se: a educação financeira tem a ver com ética e responsabilidade, não com troca de favores. “A criança pode começar a colocar preço em tudo e a achar que se compra qualquer coisa, até afeto,” diz o educador. Na casa de Josefa, a mesada é para realizar metas e desejos. Victor; o filho mais velho, de 16 anos, economizou desde os 8 para fazer um intercâmbio. Aos 12, já tinha conta no banco para guardar o pé de meia. A passagem e a hospedagem para o Canadá, país em que estará por dois anos, ficaram a cargo dos pais, mas as despesas diárias são dele. “Fizemos juntos o cálculo de quanto gastaria com comida e demais atividades para ele saber quanto deveria guardar por mês da mesada”, diz Josefa. Hoje, o filho recebe 400 dólares canadenses todo mês e administra, de lá, o dinheiro que ele mesmo economizou.

 Quanto mais cedo, melhor.2 

CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA

Descubra qual é a melhor maneira de falar sobre dinheiro com as crianças nas diferentes fases da vida.

DE 2 A 4 ANOS

Fazem birra e têm dificuldade em ouvir não. Ainda são bastante voltados para si, pensando primeiro nas próprias necessidades. É comum que queiram tudo o que veem pela frente.

COMO FALAR SOBRE DINHEIRO:

  • Converse sobre desejos e explique que cada um deles tem um valor. Mostre que gastar todo o dinheiro com balas inviabilizará o parquinho.
  • Adote três cofrinhos de tamanhos diferentes. Peça à criança que coloque em cada um deles desejos (em forma de desenho) e distribua moedas em cada um deles. Dessa forma, ele verá que o cofrinho menor encherá mais rápido e entenderá que coisas maiores demoram mais a ser conquistadas.

 

DE 5 A 8 ANOS

Gostam de brincadeiras de faz de conta; obedecem às ordens por temer as consequências. Mesmo

assim, sua noção de certo e errado é relativa. Enxergam os pais como modelos a ser seguidos.

COMO FALAR SOBRE DIHHEIRO:

  • Simule em brincadeiras compras em supermercados ou lojas com o uso de moedas e cédulas que imitam as reais. O faz de conta ajuda na elaboração do que é dinheiro.
  • A partir dos 7 anos, já pode ser implantada a mesada financeira semanal.
  • Inclua personagens animados nas explicações. O tio Patinhas, da Disney pode ser usado como um exemplo a não ser seguido pois só pensa em guardar e não realiza sonhos. Já o Marcelinho, da Turma da Mônica, é um modelo inteligente de como ser econômico – até na hora de usar água.

 

DE 9 A 12 ANOS

Nessa fase, eles têm vergonha da exposição, sofrem forte influência dos amigos e já compreendem bem as regras sociais.

COMO FALAR SOBRE DINHEIRO:

  • Como possuem noção de certo e errado, é interessante demonstrar com histórias reais, o que acontece quando o consumo não é consciente e ultrapassa o poder de compras da família.
  • É o momento de começar a poupar e a aprender sobre juros. Deixe-os participar ativamente das compras, analisando os preços.

 

DE 13 A 16 ANOS

Na pré-adolescência, eles já se preocupam com marcas e estilo de roupa e acessórios. São impulsivos e supercríticos em relação a si mesmos e aos outros. Por outro lado, costumam ser generosos e altruístas nesse momento da vida.

COMO FALAR SOBRE DINHEIRO:

Busque jogos que incentivem cooperação (e não competição). Banco imobiliário e jogo da vida não são recomendados para trabalhar a educação financeira.

  • Converse com o jovem para mapear objetivos e ajude-o a estipular uma poupança para realizar alguns deles, como a compra do carro aos 18 anos.
  • Vá a uma instituição com ele e abra uma conta. Assim, o adolescente começará a ganhar autonomia e a compreender a dinâmica do banco.

Quanto mais cedo, melhor.3

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 14: 4-11

Alimento diário

O Sermão Consolador de Cristo

 

Tendo disposto a felicidade do céu diante deles, como o fim, Cristo aqui mostra a si mesmo como sendo o caminho para se chegar a ela, e lhes diz que eles estavam mais familiarizados, tanto com o fim que deveriam ter em mente, como com o caminho que deviam percorrer, do que pensavam estar: “Vós sabeis”, isto é:

1. “Vocês podem saber. Não é uma daquelas coisas secretas que não pertencem a vocês, mas uma das coisas reveladas. Vocês não precisam subir ao céu, nem descer às profundezas, pois a palavra está junto de vocês (Romanos 10.6-8), no mesmo nível que vocês”.

2. “Vocês realmente sabem. Vocês sabem qual é a casa e qual é o caminho, embora talvez não os conheçam como a casa e o caminho. Eu lhes ensinei, e vocês não podem deixar de saber. Basta que vocês estejam dispostos a se lembrar e a considerar isto”. Observe que Jesus Cristo está desejoso de aproveitar ao máximo o conhecimento do seu povo, embora ele seja fraco e defeituoso. Ele conhece o bem que há neles, melhor do que eles mesmos, e tem certeza de que eles têm aquele conhecimento, e fé, e amor, dos quais eles mesmos não se dão conta, nem têm certeza.

Esta mensagem de Cristo deu oportunidade para que dois dos seus discípulos se dirigissem a Ele, e Ele responde aos dois.

I – Tomé perguntou sobre o caminho (v. 5), sem nenhum pedido de desculpas por contradizer ao seu Mestre.

1. Ele disse: “Senhor, nós não sabemos para onde vais”, para que lugar ou condição, e como podemos saber o caminho’, em que devemos te seguir? Nós não podemos nem imaginar onde é, nem perguntar, mas ainda estaremos perdidos”. O testemunho de Cristo a respeito do conhecimento deles os deixou mais conscientes da sua ignorância e mais inquisitivos em busca de esclarecimento adicional. Tomé aqui mostra uma modéstia maior do que a de Pedro, que pensava que poderia seguir a Cristo agora. Pedro era o mais preocupado em saber para onde Cristo ia. Aqui Tomé, embora se queixe de não saber isto, parece mais preocupado em saber o caminho. Veja:

(1) A confissão da sua ignorância foi suficientemente recomendável. Se os homens bons estão às escuras, e conhecem somente parte das coisas, ainda assim estão dispostos a reconhecer seus defeitos. Mas

(2) A causa da sua ignorância era passível de culpa. Eles não sabiam para onde Cristo ia, porque sonhavam com um reino temporal, em pompa e poder externos, e se iludiam com isto, apesar do fato de que Ele contradizia isto repetidas vezes. Consequentemente, quando Cristo falou de ir embora e dos discípulos seguindo-o, eles imaginaram que Ele iria a alguma cidade extraordinária, Belém, Nazaré, Cafarnaum, ou algumas das cidades dos gentios, como Davi foi a Hebrom, para ser ungido rei e para restaurar o reino de Israel. E qual era o caminho para este lugar, onde deveriam ser construídos castelos no ar, se era para o leste, oeste, norte, ou sul, eles não sabiam, e, portanto, não sabiam o caminho. Desta maneira, nós consideramos que ainda estamos mais às escuras do que precisamos estar, a respeito do estado futuro da igreja, porque esperamos sua prosperidade terrena, ao passo que é para seu progresso espiritual que a promessa aponta. Se Tomé tivesse compreendido, como poderia ter sido capaz de compreender, que Cristo estava indo para o mundo invisível, o mundo dos espíritos, ao qual as coisas espirituais estão relacionadas, ele não teria dito: “Senhor, nós não sabemos… o caminho”.

 

II – A esta queixa da sua ignorância, que incluía um desejo de ser ensinado, Cristo dá uma resposta completa, vv. 6,7. Tomé tinha perguntado tanto para onde Ele ia como também qual era o caminho, e Cristo responde estas duas perguntas, e explica o que tinha dito, que eles não teriam necessidade de nenhuma res­ posta, se tivessem compreendido corretamente, pois eles o conheciam, e Ele era o caminho. Eles conheciam o Pai, e chegar à presença dele era o maior objetivo. “Portanto, ‘vós sabeis para onde vou e conheceis o caminho’. Crede em Deus como o destino da caminhada, e em mim, como o caminho (v. 1), e fazei tudo o que deveis fazer”.

1. Ele fala de si mesmo como sendo o caminho, v. 6. “Vocês não sabem o caminho? ‘Eu sou o caminho’, e Eu somente, pois ‘ninguém vem ao Pai senão por mim”‘. Grandes coisas Cristo diz aqui a seu respeito, mostrando-nos:

(1) A natureza da sua mediação: Ele é “o caminho, e a verdade, e a vida”.

Em primeiro lugar, consideremos estas coisas distintamente.

1. Cristo é o “caminho”, o caminho predito, Isaías 35.8. Cristo foi seu próprio caminho, pois pelo seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário (Hebreus 9.12), e Ele é nosso caminho, pois nós entramos por seu intermédio. Com sua doutrina e seu exemplo, Ele nos ensina nosso dever, com seu mérito e sua intercessão, Ele busca nossa felicidade, e, desta maneira, Ele é o caminho. Nele, Deus e homem se encontram e se reúnem. Nós não conseguimos chegar à árvore da vida pelo caminho da inocência, mas Cristo é outro caminho para se chegar até ela. Por intermédio de Cristo, sendo o caminho, um relacionamento se estabelece e se mantém entre o céu e a terra. Os anjos de Deus sobem e descem. Nossas orações vão até Deus, e suas bênçãos vêm até nós, por intermédio de Cristo. Este é o caminho que leva ao descanso, o bom e antigo caminho. Os discípulos o seguiam, e Cristo lhes diz que eles seguiam o caminho e, enquanto continuassem seguindo-o, nunca sairiam do caminho.

2. Ele é “a verdade”.

(1) Assim como a verdade se opõe a figuras e sombras. Cristo é a essência de todos os tipos do Antigo Testamento, que, portanto, são considerados figuras do verdadeiro, Hebreus 9.24. Cristo é o verdadeiro maná (cap. 6.32), o verdadeiro Tabernáculo, Hebreus 8.2.

(2) Assim com o a verdade se opõe à falsidade e ao erro. A doutrina de Cristo é uma doutrina verdadeira. Quando procuramos a verdade, nós não precisamos aprender nada além da verdade que existe em Jesus.

(3) Assim como a verdade se opõe à falácia e à fraude. Ele é verdadeiro a todos os que confiam nele, tão verdade iro como a verdade propriamente dita, 2 Coríntios 1.20.

3. Ele é “a vida”, pois nós estamos vivos para Deus, e em Cristo Jesus, Romanos 6.11. O Cristo formado em nós é, para nossas almas, aquilo que nossas almas são para nossos corpos. Cristo é “a ressurreição e a vida”.

Em segundo lugar, consideremos estas coisas conjuntamente, e referindo-se umas às outras. Cristo é “o caminho, e a verdade, e a vida”, isto é:

1. Ele é o princípio, o meio e o fim. Nele nós devemos iniciar, prosseguir e terminar. Como a verdade, Ele é o guia do nosso caminho. Como a vida, Ele é o fim dele.

2. Ele é o caminho vivo e verdadeiro (Hebreus 10.20). Existe verdade e existe vida no caminho, assim como no seu final.

3. Ele é o verdadeiro caminho para a vida, o único caminho verdadeiro. Outros caminhos podem parecer corretos, mas o fim deles é o caminho da morte.

(2) A necessidade da sua mediação: “Ninguém vem ao Pai senão por mim”. O homem caído deve ir até Deus como a um Juiz, mas não pode ir até Ele como a um Pai, senão por intermédio de Cristo, como Mediador. Nós não podemos cumprir o dever de ir até Deus, pelo arrependimento e pelos atos de adoração, sem o Espírito e a graça de Cristo, nem obter a felicidade de ir até Deus, como nosso Pai, sem seu mérito e sua justiça. Ele é “sumo sacerdote da nossa confissão”, nosso advogado.

1. Ele fala de seu Pai como o fim (v. 7): ‘”Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai’, e, daqui por diante, pela glória que vistes em mim, e pela doutrina que ouvistes de mim, ‘já desde agora o conheceis e o tendes visto”‘. Aqui temos:

(1) Uma tácita repreensão aos discípulos, pela tolice e pela desatenção que estavam demonstrando, não se familiarizando com Jesus Cristo, embora tivessem sido seus constantes seguidores e colaboradores: “Se vós me conhecêsseis a mim”. Eles o conheciam, e ainda assim não o conheciam tão bem como poderiam e como deveriam tê-lo conhecido. Eles sabiam que Ele era o Cristo, mas não prosseguiram para conhecer a Deus através dele. Cristo tinha dito aos judeus (cap. 8.19): “Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai”. E aqui a mesma coisa Ele diz aos seus discípulos. Pois é difícil dizer o que é mais estranho, se a deliberada ignorância daqueles que são inimigos da luz, ou se os defeitos e enganos dos filhos da luz, que tiveram tais oportunidades de conhecimento. Se eles tivessem conhecido adequadamente a Cristo, teriam sabido que seu reino é espiritual, e não é deste mundo, que Ele desceu do céu, e, portanto, deveria retornar ao céu. E então eles teriam também conhecido ao seu Pai, teriam sabido para onde Ele deveria ir, quando disse: “Vou para o Pai”, para uma glória no outro mundo, e não neste. Se conhecêssemos melhor o cristianismo, nós conheceríamos melhor a religião natural.

(2) Uma indicação favorável de que Ele estava muito satisfeito a respeito da sinceridade deles, apesar da fraqueza do seu entendimento: “E já desde agora”, depois que lhes dei esta pista, que lhes servirá como chave para todas as instruções que Eu lhes dei até aqui, deixem-me dizer a vocês, ‘o conheceis e o tendes visto’, tanto quanto me conhecem e me têm visto”. Pois no rosto de Cristo nós vemos a glória de Deus, assim como vemos um pai no seu filho, pelo fato do filho se parecer com seu pai. Cristo diz aos seus discípulos que eles não eram tão ignorantes quanto pareciam ser, pois, embora fossem criancinhas, ainda assim conheciam o Pai, 1 João 2.13. Observe que muitos dos discípulos de Cristo têm mais conhecimento e mais graça do que pensam ter, e Cristo percebe isto, e fica satisfeito com este bem que eles possuem e que não se dão conta de possuí-lo, pois aqueles que conhecem a Deus não sabem, imediatamente, que o conhecem, 1 João 2.3.

 

III – Filipe perguntou sobre o Pai (v. 8), e Cristo lhe respondeu, vv. 9-11. Observe:

1. O pedido de Filipe por alguma revelação extraordinária do Pai. Ele não era tão disposto a falar como outros, entre eles, eram, e ainda assim, com um fervoroso desejo de mais luz, ele clama: “Mostra-nos o Pai”. Filipe ouviu tudo o que Cristo disse a Tomé, e se deteve nas últimas palavras: “O tendes visto”. “Não”, diz Filipe, “isto é o que nós queremos, é o que desejamos: “Mostra-nos o Pai, o que nos basta”.

(1) Isto pressupõe um fervoroso desejo de conhecer a Deus como Pai. O pedido é: “‘Mostra-nos o Pai’. Deixe-nos conhecê-lo neste relacionamento”. E isto ele implora, não somente para si mesmo, mas para o resto dos discípulos. A alegação é: “Nos basta”. Ele não somente professa isto por si mesmo, mas fala também pelos seus co-discípulos. Conceda-nos somente uma visão do Pai, e teremos o suficiente. “Embora Filipe não quisesse dizer isto, ainda assim o Espírito Santo, pela sua boca, desejava aqui nos ensinar que a satisfação e a felicidade de uma alma consiste em ver a Deus, e desfrutar sua gloriosa presença”, Salmos 16.11; 17.15. No conhecimento de Deus, baseia-se todo o entendimento, e ele está no topo do nosso anelo. No conhecimento de Deus, como nosso Pai, a alma se satisfaz. Uma visão do Pai é um céu sobre a terra, e nos enche de uma alegria indescritível.

(2) A maneira como Filipe fala aqui indica que ele não estava satisfeito com esta revelação do Pai que Cristo julgava adequado fazer-lhes. Ele deseja argumentar com o Senhor e pressioná-lo, pedindo algo além, e nada menos que alguma aparição visível da glória de Deus, como aquela que fora dada a Moisés (Êxodo 33.22), e aos anciãos de Israel, Êxodo 24.9-11. “Deixa-nos ver o Pai com nossos olhos físicos, como vemos a ti, e isto nos basta. Nós não te perturbaremos com mais perguntas do tipo: Para onde vais?” Isto manifesta não somente a debilidade da sua fé, mas sua ignorância sobre a maneira como o Evangelho manifesta o Pai, que é espiritual e imperceptível. Uma visão de Deus como esta, pensa Filipe, lhes bastaria, e ainda assim, àqueles que o viram desta maneira não bastou, mas eles logo se corromperam e fizeram urna imagem de escultura. As instituições de Cristo proveram melhor para a confirmação da nossa fé do que nossas próprias invenções poderiam fazê-lo.

2. A resposta de Cristo, lembrando-o das revelações já feitas sobre o Pai, vv. 9-11.

(1) O Senhor o lembra do que ele tinha visto, v. 9. Ele o censura pela sua ignorância e desatenção: “Estou há tanto tempo convosco”, mais de três anos relacionando-me intimamente convosco, ‘e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?’ Tu desejas pedir aquilo que já tens?” Aqui:

[1] O Senhor o censura por dois motivos. Em primeiro lugar, por não aprimorar seu conhecimento de Cristo, como poderia ter feito, a um conhecimento claro e distinto dele: “Você não me conhece, Filipe, a mim, a quem você seguiu por tanto tempo, e com quem conviveu tanto?” Filipe, no primeiro dia em que veio a Cristo, declarou que sabia que Ele era o Messias (cap. 1.45), e até esta ocasião não sabia que o Pai estava nele. Muitos que têm bom conhecimento das Escrituras e das coisas divinas não conseguem realizar o que se espera deles, por não combinar as ideias que têm e prosseguir rumo à perfeição. Muitos conhecem a Cristo, e ainda assim não sabem dele o que poderiam saber, nem veem nele o que deveriam ver. O que agravava a tolice de Filipe era o fato de que ele tinha tido uma oportunidade de aprimoramento durante muito tempo: “Estou há tanto tempo convosco”. Observe que quanto maior o tempo em que desfrutarmos dos meios do conhecimento e da graça, mais imperdoáveis seremos, se estivermos imperfeitos em termos de graça e conhecimento. Cristo espera que nossa proficiência seja, de alguma maneira, correspondente à nossa condição, para que não sejamos sempre crianças. Vamos refletir sobre isto: “Eu tenho sido um ouvinte de sermões, um estudioso das Escrituras, um aluno da escola de Cristo, por tanto tempo, e ainda assim estou tão fraco no conhecimento de Cristo, e tão inexperiente na palavra da justiça?” Em segundo lugar, Ele o censura pela sua fraqueza no pedido que faz: “Mostra-nos o Pai”. Observe que aqui fica evidente uma grande fraqueza dos discípulos de Cristo, que eles não sabiam o que deviam pedir nas orações, como lhes convinha (Romanos 8.26), e frequentemente pediam mal (Tiago 4.3), aquilo que não era prometido ou que já tinha sido concedido no sentido de promessa, corno aqui.

[2] O Senhor o instrui, e lhe dá uma máxima, que não somente enaltece ao próprio Senhor Jesus Cristo, de maneira geral, e nos conduz ao conhecimento de Deus nele, mas justifica aquilo que o Senhor já tinha dito (v. 7): Vós “o conheceis e o tendes visto”, e responde ao que Filipe tinha lhe pedido: “Mostra-nos o Pai”. “Ora”, diz Cristo, “o problema logo estará resolvido, pois quem me vê a mim vê o Pai”. Em primeiro lugar, todos os que viam a Cristo na carne podiam ter visto o Pai nele, se Satanás não tivesse cegado seus entendimentos, e não os tivesse mantido afastados de uma visão de Cristo como imagem de Deus, 2 Coríntios 4.4. Em segundo lugar, todos os que viam a Cristo, pela fé, viam nele o Pai, embora não percebessem imediatamente que isto acontecia. À luz da doutrina de Cristo, eles viam a Deus como o “Pai das luzes”. Nos milagres, eles viam a Deus como o Deus de poder, o dedo de Deus. A santidade de Deus resplandecia na imaculada pureza da vida de Cristo, e sua graça, em todos os atos de graça que Ele realizou.

(2) O Senhor o lembra daquilo em que ele tinha motivos para crer (vv. 10,11): “‘Não crês tu que eu estou no Pai e que o Pai está em mim”, e que, portanto, ao ver-me a mim, tu vês o Pai? Tu não crês nisto? Se não crês, aceita minha palavra e creia agora”.

[1] Veja aqui em que devemos crer: “Que eu estou no Pai e que o Pai está em mim”, isto é, como Ele tinha dito (cap.10.30), “Eu e o Pai somos um”. Ele fala do Pai e de si mesmo como duas pessoas, e ainda assim são “um só”, como jamais quaisquer duas outras pessoas poderão ser. Ao conhecer a Cristo como Deus de Deus, luz da luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, e sendo de uma substância com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas, nós conhecemos o Pai. E ao vê-lo desta maneira, nós vemos o Pai. Em Cristo, nós contemplamos mais da glória de Deus do que Moisés contemplou no monte Horebe.

[2] Veja aqui que motivos nós temos para crer nisto, e são dois. Nós devemos crer nisto, em primeiro lugar, pela sua palavra: ”As palavras que eu vos digo, não as digo de mim mesmo”. Veja cap. 7.16: ”A minha doutrina não é minha”. O que Ele dizia lhes parecia negligente como a palavra do homem, como se falasse seu próprio pensamento, de acordo com sua vontade. Mas, na realidade, era a sabedoria de Deus que compunha tais palavras, e a vontade de Deus que as impunha. Ele não falava somente de si mesmo, mas da mente de Deus, de acordo com os conselhos eternos. Em segundo lugar, pelas suas obras: “O Pai, que está em mim, é quem faz as obras”, e, portanto, creiam em mim por causa delas. Observe:

1. Está escrito que o Pai está nele, Ele habita em mim, pela união inseparável da natureza divina e humana. Deus nunca teve um templo como este para habitar na terra, como o corpo do Senhor Jesus, cap. 2.21. Aqui estava a verdadeira Shekinah, da qual aquela que estava no Tabernáculo era apenas um tipo. “Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”, Colossenses 2.9. O Pai habita tanto em Cristo, que nele pode ser encontrado, como um homem pode ser encontrado onde mora. Buscai ao Senhor, buscai-o em Cristo, e o encontrarão, pois nele Ele habita.

2. Ele “é quem faz as obras”. O Senhor Jesus Cristo proferiu muitas palavras poderosas, e realizou muitas obras de misericórdia, e o Pai as realizou através dele. E a obra de redenção, de maneira geral, é a própria obra de Deus.

3. Nós devemos crer nisto “por causa das mesmas obras”. Assim como nós devemos crer na existência e nas perfeições de Deus, por causa das obras da criação, que declaram sua glória, também devemos crer na revelação de Deus ao homem em Jesus Cristo, por causa das obras do Redentor, aquelas poderosas obras que, exibidas (Mateus 14.2), o exibem, e nele, a Deus. Observe que os milagres de Cristo são provas da sua missão divina, não somente para a condenação dos infiéis, mas para a confirmação da fé dos seus próprios discípulos, cap. 2.11; 5.36; 10.37.