GESTÃO E CARREIRA

NÃO ENTENDI, SORRY

Adotar expressões – e siglas – em inglês virou moda no mundo corporativo. Mas especialistas advertem: use com moderação.

Não entendi, sorry

Na reunião, o gerente diz que é preciso preparar um report para ossiakehojders. O coordenador responde que vai startar o job assim que fizer o call de briefing. No e-mail, as pessoas enviam mensagens com siglas como POV, Asap e fYI. Isso sem falar na febre do “C”, que se espalhou pelos escritórios do país. Hoje, cada empresa tem, além do CEO, o CFO, o CHRO, o COO, o CMO e o CTO, que nada mais são do que diretores de finanças, RH, operações, marketing e tecnologia, respectivamente.

Num mundo cada vez mais globalizado – e conectado -, os estrangeirismos se tornaram onipresentes no ambiente corporativo. “Na verdade, ao importar palavras, importamos conceitos. E no ambiente de trabalho, os americanos introduzem novidades”, afirma leda Maria Alves, professora titular do Curso de Letras da Universidade da São Paulo.

Um exemplo do que a professora fala são expressões como coaching e coworking, termos que carregam ideias e não possuem correspondentes exatos no Brasil. Portanto, a invasão dos estrangeirismos não é aleatória. Boa parte deles surge dentro de multinacionais e startups de fora, que costumam estar à frente das novidades em gestão de pessoas e de negócios, e acabam se espalhando pelos mercados locais. Isso faz mais sentido em segmentos como o turismo. Não há como negar que expressões como check-in e overbooking universalizam e facilitam a comunicação. Mas, na maioria dos casos, subscritos no idioma nativo poderiam ser usados sem que houvesse prejuízo à mensagem.

Por isso, não faz sentido abusar delas, correndo o risco de comprometer o recado que quer passar aos empregados. É por isso que muitos executivos já vêm mudando a forma de falar. Eduardo Marchiori, CEO da consultoria americana Mercer no Brasil tomou consciência disso após fazer uma reunião sobre números do negócio para toda a empresa.

Dias depois da apresentação, tomando café com os funcionários, ele descobriu que algumas das 300 pessoas que estavam ali não entenderam parte do que foi dito devido ao excesso de inglês. “Percebi, conversando com eles, que alguns não compreenderam expressões importantes como grotech markets (mercados com potencial de crescimento”, relembra.

Desde então, Eduardo toma o cuidado de traduzir – ou explicar, quando não há uma boa tradução correspondente no português – o vocabulário que usa nos encontros de resultado, que faz a cada três meses. Além disso, ele convocou um comitê, formado por profissionais dos times de marketing, RH e jurídico, entre outros, para elaborar uma cartilha em que conste um glossário de termos e expressões. Nela, há palavras como onboarding, que quer dizer recepção de novos funcionários, e MCG, de Multinacional, Client Group, ou grupo de clientes formado por multinacionais.

Se por um lado é importante maneirar nos estrangeirismos para evitar ruídos no discurso, por outro vale investir naquilo que já caiu na boca do povo. Isso ocorre, em geral, com expressões do inglês cujo peso semântico é maior que seus equivalentes. “A palavra gestor, por exemplo, tem conotação ampla. Então, quando você diz CEO, está falando “do” gestor, exemplifica Tatiana Farias, coordenadora de pós-graduações em letras, linguística, literaturas e artes da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Marco Tulio Zaniru, professor e pesquisador de comportamento organizacional da Fundação Getúlio Vargas, vai além.

Segundo ele, algumas palavras em inglês trazem dinamismo e funcionalidade para a comunicação corporativa. “Call significa telefonema, mas, no ambiente de trabalho, é uma maneira formal de marcar um alinhamento sobre um determinado assunto. E todo mundo entende.

Porém, numa companhia grande, com diferentes níveis hierárquicos departamentos, vale refletir o uso excessivo de expressões em outro idioma. No topo da pirâmide corporativa o chamado Top Management, já que estamos no território dos estrangeirismos, saber inglês é mandatório. Na base, a história é outra.

Na Atlas Schindler, multinacional de elevadores com cerca de 5.500 empregados no Brasil, palavras estrangeiras foram praticamente limadas no dia a dia. O cuidado foi tomado para que as equipes operacionais não se perdessem em meio à enxurrada de termos em inglês (e alemão) que vinham da matriz, na Suíça. Procuramos traduzir os conceitos para que todos, do executivo ao técnico, entendam e fiquem na mesma página”, diz Carlos Augusto Junior, diretor de pessoas e comunicação no Brasil. A companhia também se vale de um glossário, entregue aos novos funcionários, com a tradução de siglas e expressões que, por alguma razão, ainda precisam ser usadas, como KW; como são chamadas as fábricas da empresa no exterior, e EI, instalações existentes. São feitas ainda reuniões para discutir a adaptação ao contexto brasileiro de todo material enviado à subsidiária.

PERGUNTAR NÃO OFENDE

Diante do mar de expressões e termos estrangeiros, não é raro um profissional se encontrar à deriva. Se os termos aparecerem num e­ mail, é simples: basta “dar um Google”. Mas a coisa complica quando eles surgem no meio de uma reunião importante ou na entrevista de emprego. Como admitir que não entendeu o que foi dito?

De acordo com Rannison Silva, gerente de negócios da consultoria de recrutamento Robert Half, o indivíduo não é obrigado a conhecer todos os jargões corporativos e não há razão para se sentir pormenorizado caso os desconheça. O melhor é perguntar.  “Isso demonstra que você tem interesse pelo assunto e pode enviar sinais positivos, como os de humildade, disposição para aprender e até autoconfiança, diz. Rannison sugere que o questionamento seja feito de forma direta, dizendo algo na linha: “Não estou familiarizado com o termo, o que quer dizer exatamente?”.

Foi justamente para evitar esse tipo de constrangimento que a área responsável pelos treinamentos da Claro, operadora de celular do grupo mexicano América Móvil, decidiu limitar os termos em inglês nos materiais de ensino. “Um dos poucos que me chamaram a atenção eram as palavras americanizadas e as siglas, que o aluno não entendia e tinha vergonha de perguntar”, afirma Ronaldo Domingues, gerente de treinamento comercial da empresa. Na capacitação do time comercial da Claro, expressões como decoder e DTH foram traduzidas como “receptor de sinal” e “‘direto para casa, respectivamente.

A Spin Design, consultoria com foco em treinamentos, retirou siglas e palavras em inglês de materiais que desenvolve a pedido de seus clientes “O funcionário demora mais para entender a informação, e a curva de desempenho dele fica lenta”, afirma Renato Gangoni, CEO da empresa. De fato, a comunicação só é efetivada quando o outro compreende plenamente a mensagem. Basta uma palavra estranha para comprometer o discurso. “Por isso, é essencial avaliar com quem está falando”, diz Bruno Carramenha, diretor da 4CO, consultoria de comunicação corporativa e cultura organizacional. Para ele, os estrangeirismos só são eficazes quando geram aproximação entre as partes. Esse é o caso das startups, cujo inglês serve como uma espécie de elo entre empreendedores e investidores que compõem o ecossistema. “Esse tipo de linguagem faz parte da cultura dessas empresas. Se tentarem mudar isso pode ser que os fundadores não consigam se expressar da forma devida, afirma Renan Brito, diretor de operações da Ozonean, aceleradora de São Paulo.

Segundo especialistas, no fundo, há certo encantamento nacional por aquilo que é de fora – a tal síndrome de vira-latas – bem como uma crença equivocada de que utilizar expressões de outro idioma confere certo status, a profissional acha que falar inglês o coloca em outro patamar. O que não é verdade. “Se o indivíduo domina a língua nativa, não é necessário usar palavras estrangeiras para mostrar que é bom”, diz Lígia Velozo Crispino, sócia da Companhia de Idiomas.

Foi o que percebeu a administradora de empresas Cecília Viriato, de 35 anos. Vinda do mercado financeiro, onde tinha muito contato com investidores estrangeiros, ela migrou em 2012 para grandes companhias nacionais, como o Grupo Iguatemi e o Pão de Açúcar, onde liderava projetos com pessoas não bilingues. “E acontecia de eu falar duas, três palavras em inglês numa única frase, o que virava motivo de piada. Foi aí que eu percebi que havia mudado de ambiente”, diz ela, que hoje é gerente de planejamento estratégico no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, local em que segue controlando o maneirismo. “Antes, eu falava: “vamos fazer um wrap up rapidinho, pessoal”. Agora, digo: “Vamos elencar os principais pontos, pessoal”. Nada como o bom e velho português.

 Não entendi, sorry.2

SUGLAS DA MODA

Veja as mais usadas e o que elas significam

ASAP (As Soon As Possible): O Mais Breve Possível.

BSC (Balanced Score Card): Indicadores Balanceados de Desempenho.

BTW (By The Way): Por Falar Nisso.

CRM (Customer Relationship Management): Gestão do Relacionamento com o Cliente. Sigla utilizada em times responsáveis por interações diretas com consumidores.

FYI&A (For Your Information and Action): Para Sua Informação e Ação.

KPI (Key Performance Indicator), Indicador-Chave de Desempenho, usado para medir a eficácia de uma ação no cumprimento de seus objetivos propostos.

POV (Point Of View): Ponto de Vista.

ROI (Return Over Investiment): Retorno sobre Investimento; esse indicador aponta quanto uma empresa está ganhando ou perdendo em um projeto.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.