PSICOLOGIA ANALÍTICA

POSSIBILIDADES TERAPÊUTICAS DA MACONHA

Estudos recentes indicam que compostos da maconha podem proteger o cérebro dos efeitos do trauma, aliviar espasmos da esclerose múltipla e reduzir crises epilépticas. Trabalho preliminar mostra que as substâncias têm potencial para retardar o crescimento de tumores e reduzir a lesão cerebral em casos de Alzheimer.

Possibilidades terapêuticas da maconha

A polêmica a respeito da Cannabis sativa, a maconha, é antiga, mas vem se tornando cada vez mais atual, à medida que surgem novos estudos a respeito dos efeitos da substância nas funções cerebrais (como atenção, motivação, memória), bem como dos riscos da utilização e de seu potencial terapêutico. Inúmeras pesquisas publicadas nos últimos anos – muitas delas feitas em tubos de ensaio e animais, mas algumas executadas em humanos – sugerem que os canabinoides, ingredientes ativos da maconha, podem ter usos medicinais, até além dos reconhecidos e aprovados legalmente em alguns países.

A questão, porém, não se restringe à compreensão dos efeitos neurológicos que o consumo provoca. É preciso antes entender alguns pontos importantes. O composto químico da maconha que induz além das alucinações, o delta-g-tetraidrocanabinol (THC), foi isolado em 1964. Vários outros componentes foram descritos desde então, inclusive o canabidiol (composto que não provoca euforia), usado por pacientes com epilepsia.

No final da década de 1980 e início dos anos 1990, cientistas passaram a identificar e a mapear dois grupos de moléculas, conhecidos como receptores, no sistema nervoso central e no sistema imune, que ajudam canabinoides a se ligarem às células. Essa interação parece desempenhar um papel crítico sobre diversos efeitos da maconha. O cérebro dispõe de pequenas quantidades de seus próprios canabinoides, os endocanabinoides, que também se ligam a esses receptores.

CB1, o mais comum dos dois receptores principais, se distribui amplamente pelo cérebro, com concentrações elevadas no córtex e no hipocampo (uma região importante para formar novas memórias e mais recentemente reconhecido pela neurociência como uma área importante para conferir o tom emocional associado a recordações). Receptores de CB1 ocorrem também em partes do cérebro envolvidas na percepção da dor. Há níveis baixos de CB1 no tronco cerebral, onde as funções cardíacas e respiratórias são reguladas: sua relativa escassez nessa região pode explicar por que, ao contrário de opioides, mesmo doses pesadas de canabinoides não representam ameaças graves ao coração ou à capacidade respiratória.

CB2. o outro receptor principal de canabinoide, é encontrado principalmente no sistema imune. A sua presença lá interessa a cientistas, pois o sistema imune desencadeia a inflamação, e estudos mostram que a maconha pode ter efeito anti­inflamatório.

No cérebro, quando o componente psicoativo THC se liga ao CB1, ele interfere na ação de neurotransmissores que são moléculas sinalizadoras liberadas pelos neurônios. O resultado é a euforia pela qual a maconha é famosa, muitas vezes acompanhada do prejuízo temporário da memória de curto prazo. Dois outros efeitos bem conhecidos da ligação THC- CB1 são o estímulo do apetite, um benefício para pacientes com aids e outros que precisam manter o peso corporal, e a supressão de náuseas, excelente para alguns pacientes com câncer submetidos à quimioterapia. Foi demonstrado que o THC interrompe a transmissão dos sinais de dor.

Várias pesquisas recentes sugerem que o THC também pode proteger os neurônios do trauma. Os primeiros estudos em tubos de ensaio apontaram para esse efeito, bem como um estudo clínico publicado em outubro passado. Nele, o cirurgião de trauma David Plurad e seus colegas fizeram uma revisão retrospectiva de 446 traumatismos crânio-encefálicos (TCE), casos tratados no Harbor-UCLA Medical Center, de janeiro de 2010 a dezembro de 2012. Segundo estudo publicado na revista American Surgeon, foi descoberto que 82 desses pacientes tiveram teste positivo para THC, e dois deles morreram, o que representa 2.4% da amostra. O índice de mortalidade entre os 364 pacientes que não tinham THC em seu sistema foi de 11.5%, quase cinco vezes superior.

Levando em conta outros fatores como idade, gravidade da lesão e nível de álcool no sangue, pesquisadores concluíram que a relação entre o THC e uma menor taxa de mortalidade nesses pacientes era evidente. Embora os mecanismos não sejam plenamente compreendidos, a investigação anterior sugere que o THC e canabidiol podem aumentar o fluxo sanguíneo no cérebro, trazendo o oxigênio necessário, bem como nutrientes para os neurônios em risco. Como eles inibem o glutamato, podem evitar também efeitos tóxicos que ocorrem após trauma encefálico quando os neurónios podem ser superestimulados pelo neurotransmissor.

Há comprovações de que a maconha prejudica a percepção e o tempo de reação, por isso pode ter contribuído para os acidentes que Plurad estudou – e, ao mesmo tempo, talvez tenha ajudado algumas pessoas a sobreviver a eles. A ironia não passou despercebida pelo cirurgião. “Nunca haverá uma única resposta para questões sobre maconha”, acredita Plurad. “É bom para você: é ruim para você. Nunca será um ou o outro. Ela sempre estará em algum lugar no meio.”

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OUTROS OLHARES

O PRODUTO É VOCÊ

Gigantes da tecnologia ganham bilhões de dólares ao capturar dados de usuários. Um estudo exclusivo revela como Facebook, Google, Uber, entre outras, estão criando uma nova indústria digital explorando a sua privacidade.

O produto é você

Se você quer manter algum segredo, precisa escondê-lo de si mesmo. A frase do escritor inglês George Orwell foi publicada no clássico 1984. Escrita em 1948, a obra retratava uma sociedade em que os anseios e desejos mais profundos eram usados como uma forma de controle por quem detinha os recursos tecnológicos para capturar essas informações. Setenta anos depois, as palavras de Orwell nunca foram tão atuais. Não seria exagero dizer que as grandes empresas de tecnologia conhecem melhor cada um dos usuários de seus serviços do que eles mesmos. O Google sabe o que você pesquisa e a sua localização. O Facebook é capaz de descrever detalhadamente seus principais interesses e de sua rede de amigos. 0 Tinder conhece suas preferências sexuais e, até as pessoas que poderiam ser o seu par ideal. O Uber, por sua vez, sabe os trajetos que você costuma percorrer e os locais que frequenta habitualmente. Como um novo petróleo, hoje, toda e qualquer pegada digital é um combustível para que essas empresas desenvolvam e entreguem produtos, serviços e anúncios precisamente personalizados. “Essas plataformas já conhecem os hábitos de saúde, de alimentação e as mais diversas preferências dos seus usuários”, diz Marcelo Crespo, sócio do Patrícia Peck Pinheiro Advogados. O escritório deste produziu um estudo exclusivo que revela como essas gigantes que figuram entre as empresas mais valiosas do planeta estão coletando os seus dados para gerar receitas bilionárias. Detalhe: com o seu consentimento.

O estudo analisou os termos de uso dos serviços das empresas Facebook, Instagram, WhatsApp, Google, YouTube, Microsoft, LinkedIn, Uber, Twitter, Spotify e Tinder. A partir desse levantamento, foi possível identificar quais são as informações dos usuários Capturadas por cada uma dessas companhias, bem como os pontos que podem ser considerados abusivos em suas políticas de privacidade. O assunto nunca esteve tão em destaque. Na semana passada, o presidente Michel Temer sancionou a primeira lei específica que trata da coleta, do armazenamento e da utilização de dados pessoais. As normas seguem o padrão europeu, que entrou em vigor em maio e possibilitam, por exemplo, que qualquer brasileiro solicite consulta e exclusão de informações armazenadas em bancos de dados de qualquer empresa com operações no País. “A economia de dados é o futuro. Ter uma regulamentação é essencial para assegurar que essa atividade flua de forma plena”, diz o deputado federal Orlando Silva (PCdoB), relator da lei brasileira. “E ao mesmo tempo, é preciso garantir o direito à privacidade do usuário, que é um direito básico da sociedade.”

Essas leis impactam diretamente na forma como as gigantes do mercado de bits e bytes ganham dinheiro. Nesse ramo, a empresa que talvez mais se destaque seja o Google. A companhia americana, que foi parte da holding Alphabet, avaliada em USS845 bilhões, coleta mais dados dos usuários do que apenas as pesquisas feitas por eles no famoso buscador. Essas informações, concedidas voluntariamente por quem aceita os termos de uso das plataformas da empresa, incluem nomes, data de nascimento, gêneros, dispositivos usados na conexão, sites visitados, números de telefones, endereços de IP, e-mails enviados e recebidos pelo G mail e até os anúncios com os quais os internautas interagem. Tudo isso é explicado didaticamente nas políticas de privacidade da gigante de buscas. O que não está explicado é o que a Google efetivamente faz com esse verdadeiro dossiê. Os termos de uso limitam-se a informar que os dados podem ser utilizados para fins de publicidade, análises e o aprimoramento dos serviços ofertados, além de poderem ser compartilhados com terceiros, sem especificar quem seriam esses parceiros. A companhia também se reserva o direito de permanecer com as informações capturadas, mesmo que o usuário em questão não utilize mais os seus serviços.

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A ALMA DO NEGÓCIO

Isso explica, por exemplo, como o Google consegue direcionar tão cirurgicamente seus anúncios. Que atire a primeira pedra quem nunca se deparou com uma propaganda on-line – exibida em qualquer site – que guarde alguma relação com um termo pesquisado no buscador. Se você pesquisar, por exemplo, “como é morar em Copacabana”, é provável que seja bombardeado por anúncios relacionados com a venda de imóveis no bairro carioca. “A análise de dados é importante porque ajuda a entender como o usuário se comporta, diz André Miceli, professor e Coordenador do MBA em marketing digital da Fundação Getúlio Vargas. “Dessa forma, os anúncios ganham uma segmentação e uma precisão maior e, por consequência, geram mais valor para os anunciantes dessas plataformas”. Se eticamente a prática é questionável, nos números, ela é uma verdadeira mina de ouro. Dos USS110,8 bilhões faturados pela gigante de buscas em 2017, uma fatia de US$95,3 bilhões foi obtida em publicidade.

Com uma coleta extensa de informações, o Facebook é outra companhia que vê seu negócio cada vez mais fundamentado nos dados de seus usuários. A empresa, avaliada em US$503bilhões, só incorporou a publicidade a partir de 2012. Mas, ao que tudo indica, já nasceu sabendo do poder que as informações capturadas por sua plataforma poderiam gerar. Uma troca de mensagens de Mark Zuckerberg com um colega de Universidade, em 2004, veio à tona seis anos depois, em uma reportagem publicada no site americano Silicon Valley Insider. O diálogo revela que o fundador do Facebook, plataforma usada atualmente por 2 bilhões de pessoas no mundo, tinha em seu banco de dados mais de 4 mil e-mails, fotos e endereços de estudantes de Harvard a partir dos cadastros feitos por esses universitários na então jovem rede social criada por ele em um dormitório estudantil. Questionado pelo amigo sobre o assunto, Zuckerberg zomba “A pessoas simplesmente os enviam para mim, eu não sei porque. Eles ‘confiam em mim’. Bando de idiotas.” Para Daniel Domeneghetti, CEO da E-Consulting, os usuários têm, de fato, sua parcela de responsabilidade nessa relação. “As pessoas não leem os termos”, afirma. Vale ressaltar que, na maioria dos casos, os termos são calhamaços de documentos em linguagem jurídica, que desencorajam a leitura. “O elo de confiança para dar o consentimento a essas plataformas é o irmão, o amigo que já está ali, e não a empresa em si”.

Zuckerberg, é verdade, se desculpou pelo posicionamento que considerou imaturo e irresponsável. Isso não significa, contudo, que abdicou das informações que simplesmente chegavam gratuitamente em suas mãos. De acordo com o estudo, a rede social se reserva o direito, por exemplo, de transferir a licença da guarda dos dados para terceiros. Essa licença, aliás, é considerada pelo escritório de advocacia Patrícia Peck Pinheiro como “muito ampla”, pois vai além do que a empresa realmente precisaria para operar o serviço. De qualquer forma, o modelo fez com que a empresa – dona ainda do mensageiro instantâneo WhatsApp e do álbum de fotos virtual Instagram – ganhasse USS 39 bilhões com publicidade em 2017. O montante representa quase que a totalidade do faturamento anual da companhia de Menlo Park no ano passado, de USS 40,6 bilhões.

A indústria de big data, termo usado para se referir a captura e a análise de uma grande quantidade de dados, deve movimentar USS 168,7 bilhões no mundo neste ano, conforme um estudo realizado pela consultoria americana Frost & Sulivan. Mas, ao mesmo tempo em que gigantes da tecnologia ganham fortunas com informações dos usuários, elas também correm o risco de pagarem um preço alto. Em 2016, a Uber teve 57 milhões de dados roubados de sua plataforma por hackers. Em março deste ano, outro escândalo. A consultoria britânica Cambridge Analytica usou indevidamente dados de 87 milhões de usuários do Facebook na tentativa de manipular as eleições americanas e o referendo do Brexit. O caso chegou a fazer com que a rede social perdesse mais de USS 90 bilhões em valor de mercado e colocou em xeque os limites morais, éticos e legais da prática. A falta de transparência é outro ponto que precisa ser levado mais a sério por esses barões digitais. Em abril, um grupo formado por 23 entidades de defesa das crianças registrou uma denúncia na Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos acusando o Google de coletar dados de crianças, sem o consentimento e o aviso direto aos pais. A suposta captura ocorreria por meio do YouTube, a plataforma de vídeos da companhia americana, e teria como finalidade o envio de anúncios específicos a esse público. Em sua defesa a empresa negou que o serviço é voltado a usuários maiores de 13 anos.

Os termos, nebulosos e os riscos à privacidade não estão restritos ao Facebook, Google e aos demais negócios dessas gigantes, como o WhatsApp, o Instagram e o YouTube. E vão além das práticas relacionadas diretamente à publicidade. É o caso do LinkedIn, rede social de propriedade da Microsoft, que gera boa parte de suas receitas a partir das assinaturas de profissionais e empresas. Uma das cláusulas consideradas abusivas refere-se ao encerramento da conta na plataforma. Ela estabelece que as informações compartilhadas até então pelos usuários seguirão visíveis mesmo após o perfil ser deletado, o que abre a possibilidade, inclusive, de serem exibidas nos serviços de terceiros. A Uber, avaliada em US$ 72 bilhões, e com uma receita de USS 37 bilhões em 2017, gerado, majoritariamente pelas taxas cobradas por cada corrida, também tem políticas que suscitam questionamentos. Uma delas estabelece que, ao aceitar os termos propostos, o usuário concede uma licença global, perpétua, irrevogável, intransferível e isenta de royalties para que o aplicativo possa explorar das mais variadas formas os conteúdos produzidos por aquela pessoa nas interações com a empresa. “É um direito do usuário revogar seu consentimento a qualquer tempo”, diz Crespo.

O estudo destaca outros componentes críticos. O Twitter, o YouTube e a Microsoft, por exemplo, podem modificar os termos de consentimento a qualquer momento, sem que precisem avisar previamente os usuários. O Spotify utiliza serviços de terceiros e compartilha os dados dos usuários com parceiros comerciais. O WhatsApp, por sua vez, não garante que as informações fornecidas nessas regras sejam “exatas, estejam completas, ou sejam úteis”.  A Microsoft também informa que os dados coletados podem ser armazenados em qualquer lugar do mundo. Assim como o Tínder e o Instagram. “Essas informações podem ser enviadas a países nos quais as leis de proteção de dados sejam mais brandas”, afirma Crespo. “A combinação de tantos dados e fontes traz riscos que estamos apenas começando a abordar”, diz Tarun Wadhwa, CEO da consultoria americana Day One Insight e professor convidado da Carnegie Mellon University. “Os usuários não têm consciência das barganhas que estão fazendo para utilizar esses serviços.”

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ENTRE A CRUZ E A ESPADA

Encontrar um equilíbrio nessa relação não é uma missão fácil. O grande desafio de uma política de privacidade é dar clareza para o titular dos dados sem escancarar o seu modelo de negócios para a concorrência, diz Crespo. A opinião é compartilhada por outro especialista. “É como perguntar a fórmula da Coca-Cola. Entra no campo do segredo industrial”. E os mercados entendem que é melhor correr esse risco do que sufocar a competição e o crescimento da economia”, afirma Domeneghetti.

A parte dos segredos de cada empresa, algumas aplicações baseadas nos dados coletados já são mais conhecidas. A mais comum é o desenvolvimento ou melhoria de produtos e serviços. Além de recomendar artistas similares àqueles ouvidos habilmente pelo usuário, o Spotify, por exemplo, está testando um algoritmo para sugerir músicas de gêneros que, a princípio, dificilmente figurariam nas playlists daquela pessoa. A conexão é feita por trechos específicos dessas canções, que possuem paralelos como gosto musical do usuário. No geral, abordagens semelhantes são adotadas por várias dessas plataformas. “Essas informações são valiosas para que essas empresas sigam dominando o mercado”, diz Regina Cantele, coordenadora acadêmica dos Curso de MBA em Engenharia de Dados da FIAP.

Na trilha aberta pelo big data, o potencial de desenvolvimento de produtos e serviços é imenso. E, para os especialistas consultados, o pacote à disposição não traz, necessariamente, apenas ofertas com consequências negativas para os usuários. Um exemplo citado é o caso de seguradoras que, a partir de dados coletados por um aplicativo de GPS, como o Waze, podem oferecer uma apólice mais adequada – e, em alguns casos, mais barata – ao perfil do motorista em questão. Ainda no campo dos aplicativos de transportes, outra possibilidade é a sugestão de um trajeto que inclua uma determinada loja que atenda precisamente aos hábitos de compra do condutor. A área da saúde é mais uma frente. Já existem pesquisas sendo realizadas com o auxílio da inteligência artificial e que reúnem prontuários de milhares de pacientes em todo o mundo, sob o consentimento. A ideia é reunir uma massa crítica de casos para avançar no diagnóstico e tratamento de doenças, como o câncer. A americana IBM, com a plataforma Watson, é uma das que estão investindo nessa frente.

Seja qual for a aplicação, os especialistas alertam que a questão central é o usuário conhecer claramente as regras do jogo e ter em mãos elementos suficientes para decidir se está disposto a trocar suas informações por aquilo que enxerga ser um benefício. Afinal a princípio, essa escolha é dele. Mas, em uma sociedade no qual a tecnologia se torna cada vez mais onipresente na vida das pessoas, até mesmo a opção por exercer esse poder tende a ser um desafio. “Estamos caminhando para um cenário de cidades inteligentes, onde tudo estará conectado e monitorado”, diz Regina. “Você pode até não estar em nenhuma rede social ou plataforma, mas existirão outros dispositivos que seguirão a sua jornada”. Daniel Domeneghetti também enxerga pouco espaço para a existência de eremitas totalmente isolados dessa avalanche digital.  “Hoje, é quase impossível preservar totalmente a sua privacidade. Mesmo que você não se exponha nas redes, alguém fará isso por você.

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O QUE DIZEM AS EMPRESAS

Procurada, a assessoria do Uber afirmou que teve sua política de privacidade atualizada globalmente em maio para adequá-la às normas europeias, e disse que segue as leis de cada país onde opera. Também por meio de nota, a assessoria do Twitter informou que mantém informações detalhadas em sua política de privacidade e que a empresa “acredita que os usuários devem saber quais tipos de informações compartilham com a companhia e como ela os utiliza”. O departamento Jurídico da Microsoft afirmou que “a privacidade é um direito humano fundamental” e que “os dados são sempre do cliente e, por isso, sempre damos a ele total controle para decidir a forma como eles serão utilizados.” As assessorias das empresas Facebook e WhatsApp não responderam a questionamentos enviados por e-mail. Os representantes das empresas Tinder e Spotify não se manifestaram sobre o assunto. Já as assessorias do Google, do YouTube e do Instagram, não responderam aos contatos.

GESTÃO E CARREIRA

NÃO ENTENDI, SORRY

Adotar expressões – e siglas – em inglês virou moda no mundo corporativo. Mas especialistas advertem: use com moderação.

Não entendi, sorry

Na reunião, o gerente diz que é preciso preparar um report para ossiakehojders. O coordenador responde que vai startar o job assim que fizer o call de briefing. No e-mail, as pessoas enviam mensagens com siglas como POV, Asap e fYI. Isso sem falar na febre do “C”, que se espalhou pelos escritórios do país. Hoje, cada empresa tem, além do CEO, o CFO, o CHRO, o COO, o CMO e o CTO, que nada mais são do que diretores de finanças, RH, operações, marketing e tecnologia, respectivamente.

Num mundo cada vez mais globalizado – e conectado -, os estrangeirismos se tornaram onipresentes no ambiente corporativo. “Na verdade, ao importar palavras, importamos conceitos. E no ambiente de trabalho, os americanos introduzem novidades”, afirma leda Maria Alves, professora titular do Curso de Letras da Universidade da São Paulo.

Um exemplo do que a professora fala são expressões como coaching e coworking, termos que carregam ideias e não possuem correspondentes exatos no Brasil. Portanto, a invasão dos estrangeirismos não é aleatória. Boa parte deles surge dentro de multinacionais e startups de fora, que costumam estar à frente das novidades em gestão de pessoas e de negócios, e acabam se espalhando pelos mercados locais. Isso faz mais sentido em segmentos como o turismo. Não há como negar que expressões como check-in e overbooking universalizam e facilitam a comunicação. Mas, na maioria dos casos, subscritos no idioma nativo poderiam ser usados sem que houvesse prejuízo à mensagem.

Por isso, não faz sentido abusar delas, correndo o risco de comprometer o recado que quer passar aos empregados. É por isso que muitos executivos já vêm mudando a forma de falar. Eduardo Marchiori, CEO da consultoria americana Mercer no Brasil tomou consciência disso após fazer uma reunião sobre números do negócio para toda a empresa.

Dias depois da apresentação, tomando café com os funcionários, ele descobriu que algumas das 300 pessoas que estavam ali não entenderam parte do que foi dito devido ao excesso de inglês. “Percebi, conversando com eles, que alguns não compreenderam expressões importantes como grotech markets (mercados com potencial de crescimento”, relembra.

Desde então, Eduardo toma o cuidado de traduzir – ou explicar, quando não há uma boa tradução correspondente no português – o vocabulário que usa nos encontros de resultado, que faz a cada três meses. Além disso, ele convocou um comitê, formado por profissionais dos times de marketing, RH e jurídico, entre outros, para elaborar uma cartilha em que conste um glossário de termos e expressões. Nela, há palavras como onboarding, que quer dizer recepção de novos funcionários, e MCG, de Multinacional, Client Group, ou grupo de clientes formado por multinacionais.

Se por um lado é importante maneirar nos estrangeirismos para evitar ruídos no discurso, por outro vale investir naquilo que já caiu na boca do povo. Isso ocorre, em geral, com expressões do inglês cujo peso semântico é maior que seus equivalentes. “A palavra gestor, por exemplo, tem conotação ampla. Então, quando você diz CEO, está falando “do” gestor, exemplifica Tatiana Farias, coordenadora de pós-graduações em letras, linguística, literaturas e artes da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Marco Tulio Zaniru, professor e pesquisador de comportamento organizacional da Fundação Getúlio Vargas, vai além.

Segundo ele, algumas palavras em inglês trazem dinamismo e funcionalidade para a comunicação corporativa. “Call significa telefonema, mas, no ambiente de trabalho, é uma maneira formal de marcar um alinhamento sobre um determinado assunto. E todo mundo entende.

Porém, numa companhia grande, com diferentes níveis hierárquicos departamentos, vale refletir o uso excessivo de expressões em outro idioma. No topo da pirâmide corporativa o chamado Top Management, já que estamos no território dos estrangeirismos, saber inglês é mandatório. Na base, a história é outra.

Na Atlas Schindler, multinacional de elevadores com cerca de 5.500 empregados no Brasil, palavras estrangeiras foram praticamente limadas no dia a dia. O cuidado foi tomado para que as equipes operacionais não se perdessem em meio à enxurrada de termos em inglês (e alemão) que vinham da matriz, na Suíça. Procuramos traduzir os conceitos para que todos, do executivo ao técnico, entendam e fiquem na mesma página”, diz Carlos Augusto Junior, diretor de pessoas e comunicação no Brasil. A companhia também se vale de um glossário, entregue aos novos funcionários, com a tradução de siglas e expressões que, por alguma razão, ainda precisam ser usadas, como KW; como são chamadas as fábricas da empresa no exterior, e EI, instalações existentes. São feitas ainda reuniões para discutir a adaptação ao contexto brasileiro de todo material enviado à subsidiária.

PERGUNTAR NÃO OFENDE

Diante do mar de expressões e termos estrangeiros, não é raro um profissional se encontrar à deriva. Se os termos aparecerem num e­ mail, é simples: basta “dar um Google”. Mas a coisa complica quando eles surgem no meio de uma reunião importante ou na entrevista de emprego. Como admitir que não entendeu o que foi dito?

De acordo com Rannison Silva, gerente de negócios da consultoria de recrutamento Robert Half, o indivíduo não é obrigado a conhecer todos os jargões corporativos e não há razão para se sentir pormenorizado caso os desconheça. O melhor é perguntar.  “Isso demonstra que você tem interesse pelo assunto e pode enviar sinais positivos, como os de humildade, disposição para aprender e até autoconfiança, diz. Rannison sugere que o questionamento seja feito de forma direta, dizendo algo na linha: “Não estou familiarizado com o termo, o que quer dizer exatamente?”.

Foi justamente para evitar esse tipo de constrangimento que a área responsável pelos treinamentos da Claro, operadora de celular do grupo mexicano América Móvil, decidiu limitar os termos em inglês nos materiais de ensino. “Um dos poucos que me chamaram a atenção eram as palavras americanizadas e as siglas, que o aluno não entendia e tinha vergonha de perguntar”, afirma Ronaldo Domingues, gerente de treinamento comercial da empresa. Na capacitação do time comercial da Claro, expressões como decoder e DTH foram traduzidas como “receptor de sinal” e “‘direto para casa, respectivamente.

A Spin Design, consultoria com foco em treinamentos, retirou siglas e palavras em inglês de materiais que desenvolve a pedido de seus clientes “O funcionário demora mais para entender a informação, e a curva de desempenho dele fica lenta”, afirma Renato Gangoni, CEO da empresa. De fato, a comunicação só é efetivada quando o outro compreende plenamente a mensagem. Basta uma palavra estranha para comprometer o discurso. “Por isso, é essencial avaliar com quem está falando”, diz Bruno Carramenha, diretor da 4CO, consultoria de comunicação corporativa e cultura organizacional. Para ele, os estrangeirismos só são eficazes quando geram aproximação entre as partes. Esse é o caso das startups, cujo inglês serve como uma espécie de elo entre empreendedores e investidores que compõem o ecossistema. “Esse tipo de linguagem faz parte da cultura dessas empresas. Se tentarem mudar isso pode ser que os fundadores não consigam se expressar da forma devida, afirma Renan Brito, diretor de operações da Ozonean, aceleradora de São Paulo.

Segundo especialistas, no fundo, há certo encantamento nacional por aquilo que é de fora – a tal síndrome de vira-latas – bem como uma crença equivocada de que utilizar expressões de outro idioma confere certo status, a profissional acha que falar inglês o coloca em outro patamar. O que não é verdade. “Se o indivíduo domina a língua nativa, não é necessário usar palavras estrangeiras para mostrar que é bom”, diz Lígia Velozo Crispino, sócia da Companhia de Idiomas.

Foi o que percebeu a administradora de empresas Cecília Viriato, de 35 anos. Vinda do mercado financeiro, onde tinha muito contato com investidores estrangeiros, ela migrou em 2012 para grandes companhias nacionais, como o Grupo Iguatemi e o Pão de Açúcar, onde liderava projetos com pessoas não bilingues. “E acontecia de eu falar duas, três palavras em inglês numa única frase, o que virava motivo de piada. Foi aí que eu percebi que havia mudado de ambiente”, diz ela, que hoje é gerente de planejamento estratégico no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, local em que segue controlando o maneirismo. “Antes, eu falava: “vamos fazer um wrap up rapidinho, pessoal”. Agora, digo: “Vamos elencar os principais pontos, pessoal”. Nada como o bom e velho português.

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SUGLAS DA MODA

Veja as mais usadas e o que elas significam

ASAP (As Soon As Possible): O Mais Breve Possível.

BSC (Balanced Score Card): Indicadores Balanceados de Desempenho.

BTW (By The Way): Por Falar Nisso.

CRM (Customer Relationship Management): Gestão do Relacionamento com o Cliente. Sigla utilizada em times responsáveis por interações diretas com consumidores.

FYI&A (For Your Information and Action): Para Sua Informação e Ação.

KPI (Key Performance Indicator), Indicador-Chave de Desempenho, usado para medir a eficácia de uma ação no cumprimento de seus objetivos propostos.

POV (Point Of View): Ponto de Vista.

ROI (Return Over Investiment): Retorno sobre Investimento; esse indicador aponta quanto uma empresa está ganhando ou perdendo em um projeto.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 14: 1-3

Alimento diário

O Sermão Consolador de Cristo

 

Nestes versículos, temos:

I – Uma advertência geral que Cristo faz aos seus discípulos, contra a perturbação no coração (v.1): “Não se turbe o vosso coração”. Agora eles começavam a se perturbar, eles estavam no início desta tentação. Aqui vemos:

1. Como Cristo percebeu isto. Talvez isto estivesse aparente na fisionomia dos discípulos. Está escrito que (cap. 13.22) “os discípulos olhavam uns para os outros”, com ansiedade e preocupação, e Cristo olhou para todos eles, e percebeu que eles começavam a se perturbar. Pelo menos, foi perceptível para o Senhor Jesus, que conhece todas as nossas tristezas secretas e não reveladas, a ferida que sangra internamente. Ele não somente sabe como somos afligidos, mas como ficamos influenciados sob nossas aflições, e como elas estão próximas dos nossos corações. Ele conhece todas as dificuldades a que seu povo, em qualquer ocasião, corre o risco de estar sujeito. Ele conhece nossas almas na adversidade. Muitas coisas contribuíam para perturbar os discípulos agora.

(1) Cristo tinha acabado de contar-lhes sobre a crueldade que Ele iria sofrer de alguns deles, e isto os perturbou a todos. Pedro, sem dúvida, parecia muito pesaroso com o que Cristo lhe tinha dito, e todos os demais estavam tristes, por Ele e por si mesmos também, sem saber quem seria o próximo de quem se diria que iria fazer alguma coisa ruim. Quanto a isto, Cristo os consola. Embora um zelo saudável sobre nós mesmos seja muito útil para nos conservar humildes e vigilantes, ainda as­ sim não deve predominar a ponto de inquietar nosso espírito e desalentar nossa santa alegria.

(2) Ele tinha acabado de lhes contar sobre sua separação deles, que não somente Ele iria embora, mas iria embora em uma nuvem de sofrimentos. Logo eles o veriam sobrecarregado de acusações, e estas seriam como uma espada nos seus ossos. Eles o veriam barbaramente maltratado e levado à morte, e isto também seria uma espada perfurando suas próprias almas, pois eles o tinham amado, e aceitado, e tinham deixado tudo para segui-lo. Quando olhamos o Cristo perfurado, não podemos deixar de lamentar e sentir amargura, embora vejamos o resultado e os frutos gloriosos deste seu sofrimento. Muito mais pesarosa deve ter sido esta visão para eles, que não podiam, então, ver nada à frente. Se Cristo os deixasse:

[1] Eles se sentiriam vergonhosamente desapontados, pois eles pensavam que este seria aquele que deveria libertar Israel, e deveria ter estabelecido seu reino, em poder e glória seculares, e, na expectativa disto, tinham deixado tudo para segui-lo. Agora, se o Senhor deixasse o mundo nas mesmas circunstâncias de miséria e pobreza em que o mundo estava quando Ele tinha vivido, e piores, eles se sentiriam derrotados.

[2] Eles se considerariam tristemente abandonados e desamparados. Eles sabiam, por experiência, a pouca presença de espírito que tinham em situações difíceis, e sabiam que não podiam ter certeza de nada, exceto de serem destruídos, caso se separassem do seu Mestre. Agora, com referência a tudo isto: “Não se turbe o vosso coração”. Aqui estão três palavras, e a ênfase pode ser colocada sobre qualquer uma delas de maneira significativa. Em primeiro lugar, sobre a expressão “se turbe”. Não se perturbem a ponto de ficarem confusos e agitados, como o mar agitado quando não pode repousar. Ele não diz: “Que seus corações não sejam sensíveis às tristezas, ou não se entristeçam por causa delas”, mas: “Não se confundam nem se descomponham, não se abatam nem se perturbem”, Salmos 42.5. Em segundo lugar sobre a palavra “coração”: “Embora a nação e a cidade se perturbem, embora sua pequena família e seu pequeno rebanho se perturbem, ainda assim não se turbe vosso coração. Mantenham o controle das suas próprias almas, mesmo quando não puderem manter o controle de mais nada”. O coração é a fortaleza principal. Façam o que fizerem, protejam-no dos problemas, protejam-no com toda diligência. O espírito deve suportar a debilidade, portanto cuidem para que ele não seja ferido. Em terceiro lugar, sobre a palavra “vosso”. “Vocês que são meus discípulos e seguidores, meus redimidos, eleitos, santificados, ainda que os outros estejam angustiados com as dificuldades desta época, não fiquem assim vocês também, pois vocês não são tolos. Que os pecadores de Sião tremam, mas “regozijem-se os filhos de Sião no seu Rei”. Com isto, os discípulos de Cristo devem fazer mais que os outros, devem conservar tranquilas suas mentes, quando todo o resto estiver inquieto.

2. O remédio que Jesus prescreve contra esta perturbação de espírito, que Ele via que estava prestes a dominá-los. De maneira geral, crer.

(1) Alguns entendem as duas sentenças de forma imperativa: “Crede em Deus, e nas suas perfeições e providência, e crede também em mim, e na minha mediação. Edifiquem com confiança sobre os grandes princípios reconhecidos da religião natural, que existe um Deus, que Ele é santíssimo, sábio, poderoso e bom, que Ele é o governador do mundo, e tem à disposição soberana sobre todos os eventos. E consolem-se, da mesma maneira, com as doutrinas peculiares daquela santa religião que Eu lhes ensinei”. Mas

(2) Nós entendemos a primeira parte como um reconhecimento de que eles realmente criam em Deus, pelo que Ele os elogia: “Mas, se vocês desejarem realmente prover para um dia de chuva, creiam também em mim”. Por intermédio de Cristo, nós somos levados a um concerto com Deus, e nos tornamos interessados na sua graça e promessa, nas quais, de outra maneira, sendo pecadores, nós perderíamos a esperança, e a lembrança de Deus teria sido uma perturbação para nós. Mas, crendo em Cristo, como o Mediador entre Deus e o homem, nossa fé em Deus se torna confortável. E esta é a vontade de Deus, que todos os homens honrem ao Filho assim como honram ao Pai, crendo no Filho assim como creem no Pai. Aqueles que creem apropriadamente em Deus, crerão em Jesus Cristo, a quem o Pai tornou conhecido a eles. E crer em Deus, por intermédio de Jesus Cristo, é um meio excelente de manter os problemas longe do coração. A alegria da fé é o melhor remédio contra as tristezas dos sentidos. E um remédio que tem uma promessa anexa a si. “O justo viverá da fé”. Um remédio com um anexo a si. “Pereceria sem dúvida, se não cresse”.

 

II – Aqui está uma instrução especial para crer na promessa da vida eterna, vv. 2,3. Jesus os tinha orientado a confiar em Deus, e a confiar nele. Mas para que deveriam eles confiar em Deus e em Cristo? Confiar neles para uma felicidade futura, quando este corpo e este mundo não mais existirem, e para uma felicidade que durará tanto quanto a alma imortal e o mundo eterno durarão. Isto é proposto como um estímulo àqueles que estão sob todas as dificuldades desta época atual, às quais a felicidade do céu é, de maneira admirável, adaptada e adequada. Nas suas mais difíceis situações, os santos se encorajaram com o fato de que o céu compensará a todos. Vejamos como isto é sugerido aqui.

1. Crer e considerar que realmente existe uma felicidade como esta: “Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito”, v. 2.

(1) Veja sob que conceito a felicidade do céu é aqui representada: como moradas, muitas moradas na casa do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

[1] O céu é uma morada, não é uma tenda nem um tabernáculo. É uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus (2 Coríntios 5.1).

[2] É a casa de um Pai: a “casa de meu Pai”. E seu Pai é nosso Pai, ao qual agora Ele iria ascender, de modo que através do direito de seu irmão mais velho, todos os verdadeiros crentes serão bem-vindos a esta felicidade, como à sua casa. É a casa daquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores, que reside na luz e habita na eternidade.

[3] Ali há moradas, isto é, em primeiro lugar, moradas distintas, uma morada para cada pessoa. Talvez aqui haja uma alusão aos aposentos dos sacerdotes que havia no Templo. No céu, há acomodações para santos particulares. Embora todos sejamos unidos a Deus, ainda assim nossa individualidade não se perderá ali. Cada israelita tinha sua parte em Canaã, e cada ancião, um trono, Apocalipse 4.4. Em segundo lugar, moradas duradouras, moradas permanentes. A própria morada é duradoura. Nossa propriedade nela não é por um período limitado, por um período de alguns anos, mas por toda a eternidade. Aqui nós vivemos como se estivéssemos em uma hospedaria. No céu, nós seremos estabelecidos. Os discípulos tinham abandonado suas casas para acompanhar a Cristo, que não tinha onde reclinar a cabeça, mas as moradas no céu irão lhes compensar isto.

[4] Há muitas moradas, pois há muitos filhos para serem levados à glória, e Cristo conhece com exatidão seu número, e eles não serão confinados pela chegada de um grupo maior do que Ele espera. Ele tinha dito a Pedro que ele o seguiria (cap. 13.36), mas que os demais não se sintam desencorajados, no céu há moradas para todos. “Reobote”, Gênesis 26.22.

(2) Veja a segurança que temos da realidade da felicidade propriamente dita, e a sinceridade da sua oferta a nós: “‘Se não fosse assim, eu vo-lo teria dito’. Se vos tivésseis enganado quando deixastes suas profissões e arriscastes suas vidas por mim, com a perspectiva de uma felicidade futura e invisível, eu logo lhes teria apontado o engano”. A segurança é construída:

[1] Sobre a veracidade da sua palavra. Está implícito: “Se não houvesse tal felicidade, valiosa e atingível, eu não lhes teria dito que havia”.

[2] Sobre a sinceridade do seu afeto por eles. Assim como Ele é verdadeiro, e não desejava se aproveitar deles, também é bondoso, e não toleraria que eles fossem enganados. Se não existissem estas moradas, ou ninguém que tivesse abandonado tudo para segui-lo estivesse designado para elas, Ele lhes teria dado um aviso oportuno do engano, para que pudessem fazer uma retirada honrosa de volta para o mundo, e conseguir nele o melhor que pudessem. Observe que a boa vontade de Cristo para conosco é um grande incentivo para nossa esperança nele. Ele nos ama demais, e quer muito nosso bem, para desapontar as expectativas que Ele mesmo desperta, ou permitir que aqueles que mais tinham sido obedientes a Ele fossem os mais infelizes.

2. Crer e considerar que o desígnio da partida de Cristo era o de preparar um lugar no céu para seus discípulos. “Vocês estão tristes por pensar que Eu estou indo embora, mas Eu vou em uma missão por vocês, como precursor. Eu devo iniciá-la, por vocês”. Ele foi para preparar um lugar para nós, isto é:

(1) Para tomar posse por nós, como nosso advogado ou procurador, e assegurar, desta maneira, nosso título como irrevogável. Cristo tem o senhorio, e este beneficia todos aqueles que nele crerem.

(2) Para fazer provisões para nós, como nosso amigo e pai. A felicidade do céu, embora preparada antes da fundação do mundo, ainda deve ser tornada mais adequada para o homem no seu estado caído. Consistindo muito da presença de Cristo ali, era, portanto, necessário que Ele fosse antes, para entrar naquela glória que seus discípulos deveriam compartilhar. O céu seria um lugar despreparado para um cristão, se Cristo não estivesse ali. Ele foi para preparar-lhes uma mesa, para preparar tronos para eles, Lucas 22.30. Desta maneira, Cristo declara a adequação da felicidade do céu para os santos, para quem ela está preparada.

3. Crer e considerar que, portanto, Ele certamente viria outra vez, na ocasião devida, para levá-los àquele bendito lugar do qual Ele agora estava indo tomar posse, para si mesmo, e preparar para eles (v.3): ‘”Se eu for e vos preparar lugar’, se esta for a missão da minha jornada, podeis ter certeza, quando tudo estiver pronto, ‘virei outra vez e vos levarei para mim mesmo’, de modo que deveis seguir-me daqui por diante, “para que, onde eu estiver, estejais vós também”. Estas são palavras verdadeiramente consoladoras.

(1) Que Jesus Cristo virá outra vez – Eu venho, sugerindo a certeza de que Ele virá, e de que Ele está vindo diariamente. Nós dizemos que “estamos indo”, quando estamos ocupados, preparando-nos para nos mover. O mesmo pode ser dito pelo Senhor. Tudo o que Ele faz tem uma referência à sua segunda vinda, e aponta para esta. Observe que a crença na segunda vinda de Cristo, da qual Ele nos dá plena certeza, é uma excelente proteção contra as perturbações do coração, Filipenses 4.5; Tiago 5.8.

(2) Que Ele virá outra vez, para levar todos os seus fiéis seguidores para si mesmo. Ele os chama individualmente na morte, e os reúne, um por um. Mas eles devem fazer sua entrada pública no estado solene, todos juntos, no último dia, e então o próprio Cristo virá para recebê-los, para conduzi-los à abundância da sua graça, e para acolhê-los na abundância do seu amor. Com isto, Ele irá testemunhar o máximo respeito e carinho que se possa imaginar. A vinda de Cristo tem a finalidade de nos unir a Ele, para todo o sempre, 2 Tessalonicenses 2.1.

(3) Que onde Ele estiver, eles também estarão. Isto evidencia aquilo que muitas outras passagens das Escrituras declaram, que a quintessência da felicidade do céu é estar ali com Cristo, cap. 17.24; Filipenses 1.23; 1 Tessalonicenses 4.17. Cristo fala da sua estada ali como presente agora: “Onde eu estiver”. Onde Eu estarei dentro de pouco tempo, onde Eu estarei eternamente, ali vocês estarão dentro de pouco tempo, ali vocês estarão eternamente”. Não somente ali, no mesmo lugar, mas aqui, na mesma condição. Não somente espectadores da sua glória, como os três discípulos no monte, mas compartilhando dela.

(4) Que isto pode ser deduzido do fato de que Ele está indo para preparar um lugar para nós, pois seus preparativos não serão em vão. Ele não irá construir e fornecer moradas, e deixá-las vazias. Ele irá concluir aquilo de que Ele é o autor. Se Ele preparou o lugar para nós, Ele irá nos preparar para este lugar, e, no devido tempo, nos dará a posse dele. Assim como a ressurreição de Cristo é a garantia da nossa ressurreição, também sua ascensão, vitória e glória são a garantia da nossa.