PSICOLOGIA ANALÍTICA

ASPECTOS PSICOLÓGICOS DETERMINAM SUA SORTE

A crença em fatos aparentemente inexplicáveis e sem relação com as causas reais que os provocam revelam desejo de conferir significados ao que acontece ao nosso redor. Para alguns especialistas, trata-se de uma ilusão cognitiva. O mais curioso, porém, é que, ao contrário do que muita gente imagina, os sortudos têm a seu favor funcionamentos mentais bastante específicos que podem ser construídos e fortalecidos.

Aspectos psicológicos determinam sua sorte

Você perdeu o horário do embarque, mas – por uma dessas alegrias pequenas da vida – ao chegar ao aeroporto descobriu que seu voo também estava atrasado e conseguiu viajar tranquilamente. Ou algo um pouco diferente: saiu cedo de casa, mas por causa do mau tempo precisou aguardar várias horas antes da viagem, mal acomodado numa cadeira desconfortável, pensando que se tivesse marcado a passagem para um dia antes não teria de passar por essa situação. Sorte no primeiro caso, azar no segundo? O fato é que confiar no acaso está na base de nossa visão de mundo. Ao cruzarmos os dedos na esperança de que o gesto nos favoreça ou optar por determinada roupa para atrair bons resultados, estamos, mesmo sem perceber, levando em conta motivos sobrenaturais, que não podemos controlar ou atribuindo relação de causa e efeito a situações que não têm relação direta entre si.

“Muitos psicólogos não gostam de enfrentar temas ligados à superstição, mas a tendência a dar ordem e significado ao que acontece a nossa volta, criando rapidamente relações entre eventos simultâneos ou sucessivos – como o trovão e a tempestade ou a ingestão de comida estragada e o mal-estar-, é indispensável para a sobrevivência”, diz o psicólogo inglês Richard Wiseman. Professor da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra, ele trabalhou como ilusionista na época da graduação e, mais tarde, conduziu um complexo estudo sobre os mecanismos possivelmente relacionados à sorte. O projeto, financiado por várias instituições, entre as quais a Associação Britânica para o Avanço da Ciência, resultou num livro, O fator sorte, já traduzido em mais de 20 idiomas.

O pesquisador faz uma provocação: “Você tem sorte ou não? Por que algumas pessoas parecem estar sempre no lugar certo na hora certa, ao passo que outras atraem o infortúnio? Podemos mudar essa situação?” Decidido a responder a essas perguntas, ele recorreu a um método inusitado para conseguir voluntários para seus estudos: foi a um programa de TV que tinha milhões de telespectadores e pediu para aqueles que se considerassem muito sortudos ou muito azarados que entrassem em contato com o pesquisador. Um milhão de pessoas respondeu, e as mil primeiras receberam um formulário que permitiria classificá-las como sortudas ou azaradas. Nesse formulário, os voluntários também deviam fazer uma aposta na loteria. A pergunta de Wiseman: os sortudos teriam mais chance de se sair melhor? Do total de participantes, pouco mais de 700, somente 36 acertaram algum número, sendo metade deles sortudos e outra parte azarados. Duas pessoas acertaram quatro números e ganharam 58 libras. Uma se considerava sortuda e a outra azarada. Resultado: empate. Conclusão de Wiseman: as pessoas têm a mesma chance de ter sorte, mas a forma como nos comportamos tende a atrair melhores oportunidades para aqueles que se consideravam privilegiados pelo acaso.

Ou seja, a sensação de sermos azarados ou sortudos está mais associada à forma como vivemos os acontecimentos que aos fatos em si. É o que psicólogos chamam de “profecia auto-realizante”: se acreditamos piamente em algo, tendemos a agir – ainda que inconscientemente – para justificar essa crença e alicerçar nossa compreensão dos fenômenos naquilo que cremos. Em linhas gerais, podemos pensar que uma pessoa azarada “se comporta” de maneira azarada e o mesmo ocorre com quem se considera com sorte. Ou seja: alguém é sortudo, basicamente, porque funciona mentalmente de maneira sortuda.

“Chamo os mais inclinados a essa atitude de perseguidores de significado”, afirma a psicóloga Paola Bressan, professora da Universidade de Pádua. Ela acompanhou voluntários que acreditavam em eventos “logicamente inexplicáveis”, e constatou que certos acontecimentos parecem extraordinários simplesmente porque não levamos em conta a probabilidade de que ocorram. Segundo a psicóloga, essas pessoas tendem a subestimar as leis da probabilidade e a encontrar um maior número de “coincidências”, que atribuem à sorte ou a experiências paranormais.

A pesquisadora ressalta que, sob essa perspectiva, as ilusões cognitivas costumam nos ajudar a viver melhor. Ou a evitar a responsabilização, já que imputar os acontecimentos à sorte (ou à falta dela) permite que a pessoa seja mais indulgente consigo mesma. Segundo a teoria da atribuição, proposta em 1958 pelo psicólogo alemão Fritz Heider, quando analisamos a causa de um fato, podemos nos basear em fatores internos ou externos em relação a nós mesmos e estáveis ou instáveis quanto ao tempo. Um exemplo: é possível creditar o mau desempenho em uma prova ao nosso despreparo (fator interno) ou à má vontade do professor (externo) ou à constante antipatia deste em relação a nós (estável no tempo) ou ainda ao próprio hábito de negligenciar os estudos (instável no tempo). Essas atribuições têm a ver com nossas experiências, crenças e, consequente, comportamentos.

“SÓ ACONTECE COMIGO!”

O sucesso e o fracasso são processados de maneiras diferentes pelo cérebro. Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts descobriram que pode haver muito mais por trás desse acontecimento além de apenas um bocado de sorte. Os resultados de um estudo oferecem indicações sobre como a mente aprende com situações positivas e negativas. Ao treinar macacos para realizar tarefas visuais nas quais era possível escolher duas opções, os pesquisadores descobriram que o cérebro dos animais armazenava as experiências recentes tanto de sucesso quanto de fracasso. Porém, a resposta correta produzia um efeito impressionante: melhorava o processamento neural, aumentando o desempenho na prova seguinte. Caso um animal cometesse um erro em uma tentativa, mesmo após ter dominado a tarefa, seu desempenho na prova seguinte era governado pelo acaso – os erros eram descartados, e ele não aprendia. “O sucesso influencia muito mais o cérebro que o fracasso”, explica o neurocientista Earl Miller, que coordenou o estudo. Ele acredita que as descobertas se aplicam a muitos aspectos do cotidiano: o mau êxito, em geral, não recebe atenção, ao contrário do sucesso, que é recompensado com prêmios – como quando comemoramos os strikes na pista de boliche. O sentimento de prazer da vitória é provocado por uma onda no neurotransmissor dopamina. Quando conseguimos acertar “em cheio” a bola nos pinos e fazer o desejado strike, a substância envia sinais ao cérebro para que a ação vitoriosa seja repetida.

Há alguns anos, o físico Richard A.J. Matthews estudou as chamadas leis de Murphy, máxima pessimista, segundo a qual, “se alguma coisa pode dar errado, dará”. Matthews investigou, em particular, por que uma fatia de pão com manteiga cai geralmente com o lado da manteiga para baixo. O fato foi confirmado por um estudo experimental, patrocinado por um fabricante de manteiga: o aparente azar deve-se simplesmente à relação física entre as dimensões da fatia e a altura em que estava colocada. São também explicáveis outros tipos de infortúnio, como o fato de que quando retiramos duas meias da gaveta geralmente elas não são do mesmo par – nesse caso, por meio da lógica das probabilidades.

Obviamente ninguém está livre dos reveses da vida – seja a perda de uma pessoa querida, uma doença grave, problemas profissionais ou a simples alegria de encontrar numa excelente oferta online aquele artigo que há tanto queríamos e, na hora de fechar a compra, perdermos a conexão e a promoção. A questão não é simplesmente o que acontece, mas a maneira como lidamos com os fatos. Algumas pesquisas têm mostrado que o pessimismo prolongado prejudica parte do cérebro que cuida do funcionamento cognitivo e, em alguns casos, nos torna fisicamente mais frágeis. Um estudo desenvolvido por cientistas da Universidade Stanford levantou uma informação curiosa: a reclamação repetitiva não direcionada a quem de fato poderia resolver o problema, além de ser improdutiva, infla o sentimento de impotência diante da situação desagradável e aumenta os níveis de cortisol (hormônio do estresse) na corrente sanguínea. Os pesquisadores de Stanford descobriram que 95% dos consumidores que tinham um produto problemático em mãos e não o reportavam para a companhia falavam dele para oito a 16 pessoas. Resultado: tanto a irritação quanto o problema persistiam. Podemos pensar que, nessas condições, é fácil se sentir cada vez mais azarado.

Quando se fala em acaso, é preciso considerar outro ponto: em geral, só damos atenção a certos fatos quando eles ocorrem (como o início da chuva assim que você coloca os pés na rua), o que contribui para reforçar nossos preconceitos e nos fazer ignorar as leis da probabilidade. “A diferença entre eventos ordinários e extraordinários é subjetiva”, observa o psicólogo Lorenzo Montali, pesquisador da Universidade de Milão-Bicocca. “Estar atrasado, por exemplo, é um fato comum, mas certamente será recordado por toda a vida como um golpe de sorte se graças a ele formos salvos de um acidente.”

BONS AMULETOS

O genial inventor da lâmpada elétrica, Thomas Alva Edison, morto em 1931- com quase 2 mil patentes registradas em seu nome -, teria dito certa vez: “Boa sorte é o que acontece quando a oportunidade encontra o planejamento”. Outra ideia sua sobre esse assunto que terminou por ficar famosa é que os bons resultados são consequência de “99% de transpiração e 1% de inspiração”. Ou seja, a casualidade seria resultante de uma combinação de fatores, entre os quais o empenho tem papel fundamental.

Para a psicanálise não existe acaso – pelo menos não da maneira como estamos acostumados a considerar essa ideia. Freud postula que somos conduzidos por nossos desejos inconscientes sem nos darmos conta desses movimentos e, não raro, nos sentimos completamente à mercê das situações, imersos em certo grau de alienação. Porém, por meio da análise ou do próprio processo de amadurecimento, tendemos a nos apropriar de nossa história, nos tornando mais autônomos tanto para fazer escolhas e arcar com os resultados delas, quanto para aceitar, sem grande sofrimento, que não é possível ter tudo sob nosso controle. A capacidade de receber de bom grado os benefícios que a vida oferece – sem desvalorizar “a medalha de bronze porque não é de ouro ” – perpetua a sensação de satisfação. Nesse sentido, uma das maneiras mais eficientes de atrair a sorte está no nível racional, na opinião de Wiseman.  Segundo ele, desenvolver conscientemente o hábito de nos atermos àquilo que nos faz bem, sem nos apegarmos excessivamente ao que provoca dor. Para o especialista, o desejo de ser feliz e a confiança de que merecemos essa oportunidade são os melhores amuletos.

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PEQUENO MANUAL MAIS ÚTIL QUE TREVO DE QUATRO FOLHAS

No budismo tibetano, existe um recurso milenar, muito usado, que se resume no que pode ser denominado “trazer o resultado para o caminho”. Trata-se de nos fazer sentir, ainda que momentaneamente, as qualidades que queremos alcançar ao longo da evolução espiritual como se já estivessem amplamente desenvolvidas. Por exemplo, se a pessoa deseja desenvolver a generosidade, por alguns instantes sente-se plena de generosidade, em perfeita harmonia consigo, reconhecendo essa característica em si mesma, se identificando profundamente com essa sensação de plenitude. A técnica, usada ao longo dos séculos, encontra respaldo da ciência: exames de neuroimagem revelam que visualizar (que equivale a imaginar uma situação ou estado mental com o máximo possível de detalhes) deflagra no cérebro reações idênticas às que são desencadeadas quando de fato vivemos a situação. Pois bem: quer ter sorte? Aja como se de fato a tivesse, afirmam os cientistas.

Em suas pesquisas, Wiseman constatou que quase todas as pessoas que passaram a adotar “atitudes de vencedores” tiveram mudanças perceptíveis em suas vidas, incluindo um melhor grau de bons acontecimentos e surpresas. O maior ganho, porém, foi em relação à autoconfiança e à autoestima. É compreensível: quando se sente mais segura, a pessoa tende a se arriscar mais, sorri mais, se permite viver experiências e amplia seu círculo de contato, o que aumenta a probabilidade de que surjam boas oportunidades. “É difícil saber se a origem exata desse círculo virtuoso está no comportamento ou na valorização dos bons resultados, mas o fato é que ele parece funcionar”, afirma Wiseman. Ele avaliou os resultados de seus estudos e sistematizou alguns princípios psicológicos e atitudes que “atraem” a boa sorte:

1. APOSTE NA INTUIÇÃO

Do ponto de vista da psicologia, ela não tem nada de sobrenatural. Trata-se, na verdade, de uma forma de inteligência, uma maneira menos óbvia de selecionarmos e organizarmos informações, tanto recentes quanto mais antigas, que nos escapam à consciência imediata e nos guiamos por ela. Entre os entrevistados de Wiseman, que se diziam sortudos, 80% afirmaram que sua capacidade intuitiva tinha papel fundamental em suas escolhas práticas, especialmente profissionais, enquanto 90% disseram confiar nela para se orientar em suas relações pessoais e decisões que envolviam emoções.

2. MUDE O FOCO

Pesquisadores das universidades de Amsterdã e Bolonha já demonstraram que mergulhar em uma atividade completamente diversa daquela à qual estamos acostumados pode ajudar a resolver um problema ou ter uma ideia criativa. Ao nos afastarmos um pouco da questão, conseguimos ampliar o campo de visão e as respostas tendem a emergir. Sorte? A neurociência ensina que esse “desfocamento” ativa o córtex cingulado anterior, região do cérebro que controla, entre outras funções, a concentração e o processamento de informações que podem resultar em ideias originais.

3. FAÇA DIFERENTE

Sortudos gostam de novidades, mesmo aquelas que parecem fúteis. Fazer pequenas mudanças no cotidiano, como mudar o caminho que faz diariamente para chegar todos os dias ao trabalho, usar um novo meio de transporte, começar um curso para aprender algo que nunca pensou em estudar, pode ser uma maneira divertida de entrar em contato com lugares, pessoas e experiências diferentes. Wiseman salienta, porém, que esse processo deve ser lento, cuidadoso e, sobretudo, fonte de prazer, e não uma autoimposição que seja vista como motivo de desconforto.

4. CORRA RISCOS

Quem tem a convicção de ter a proteção de todos os anjos sobre si, certamente não titubeará em aceitar quando lhe for oferecida uma rifa, por exemplo. Afinal, sua lógica psíquica o leva a crer que tem enormes chances de ganhar. Da mesma maneira irá confiante para uma entrevista de emprego ou para a apresentação de um trabalho. Se algo sair errado, é porque aquela era só uma possibilidade e certamente virão outras – e não a comprovação de que o mundo conspira contra a pessoa. Correr algum risco, portanto, seja de participar de um sorteio ou de se dar mal numa empreitada, se torna menos ameaçador. E se tudo correr bem, melhor – sinal de bons agouros.

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O “AZAR” DE ADOECER

Ao longo dos anos, o acaso tem desafiado a ciência. Recentemente, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins e da Escola de Saúde Pública Bloomberg, nos Estados Unidos, fizeram uma afirmação polêmica.

Segundo eles, a ocorrência da maior parte dos tipos de câncer pode ser atribuída, em grande parte, à “má sorte”. Em um artigo publicado no periódico científico Science, afirmaram acreditar que a explicação para esse fator aleatório está na maneira como os tecidos do corpo se regeneram. A pesquisa revela que dois terços de todos os tipos de câncer analisados são originados por mutações genéticas e a explicação para essa alteração pode estar na maneira como os tecidos do corpo se regeneram. O estudo que levou a essa conclusão tem o objetivo de explicar a razão de alguns tecidos do corpo serem mais vulneráveis ao câncer do que outros.

Células mais antigas e desgastadas são constantemente substituídas por células-tronco, que se dividem para formar novas estruturas celulares. Mas em cada divisão há o risco de que ocorra uma mutação anômala, que aumenta o risco de a célula-tronco se tornar cancerígena. O ritmo dessa renovação varia de acordo com a região do corpo, sendo mais rápida no intestino e mais lenta no cérebro, por exemplo. Os pesquisadores compararam o número de vezes que essas células se dividem em 31 tecidos do corpo durante a vida média de uma pessoa com o índice de incidência de câncer nessas partes do corpo e concluíram que dois terços dos tipos de câncer seriam causados pelo “azar” de células-tronco em processo de divisão sofrerem mutações imprevisíveis. Apesar da observação, pesquisadores de todo o mundo ressaltam que um estilo de vida saudável aumenta muito as chances de uma pessoa não desenvolver a doença. Ou seja, favorece “a sorte” de se manter saudável.

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O PRESENTE QUE VEM DO CÉU

Um fenômeno curioso, chamado de culto à carga, aparece em sociedades tribais quando entram em contato com a civilização industrializada – e nos ajuda a entender nossa relação com superstições. Surge quando nativos observam grupos ocidentais, geralmente militares, recebendo alimentos, cobertores, medicamentos e outros suprimentos por barcos e aviões. Sem compreender a origem dessa carga tão bem-vinda, os nativos acabam atribuindo sua chegada a fatores sobrenaturais. Muitas vezes grupos imitam ritualisticamente a forma de andar e se vestir dos grupos industrializados na esperança de também receber o benefício. Alguns povos chegaram a abrir clareiras na selva imitando aeroportos e construindo rádios, fones de ouvido e até falsos aviões de madeira que serviriam para atrair a atenção e a generosidade das entidades “doadoras”. O primeiro caso de que se tem registro de culto à carga foi nas ilhas Fiji, em 1885, mas ocorreram vários outros, inclusive na Amazônia.

OUTROS OLHARES

CONTRA O FEMINISMO

Em meio a fetos de borracha e conselhos como “feche as pernas”, o que pregam os participantes do 1º Congresso Antifeminista do Brasil.

Contra o feminismo

“Boa noite, meu povo!”, disse ao microfone Alexandre Varela, dono do blog de orientação católica O Catequista, para 150 pessoas reunidas no auditório da Igreja de Sant’Ana, no centro do Rio de Janeiro, no começo da noite do sábado 4 de agosto. A resposta protocolar do público, que se espremia nas cadeiras havia quatro horas e já se preparava para a última palestra, permitiu a réplica do blogueiro: “Eu disse ‘boa noite’, meu povo antifeminista!”, gritou, dessa vez recebendo uma ovação que envolveu palmas, gritos e assobios que atravessaram a nave central da igreja, contigua ao salão onde ocorria o 1° Congresso Antifeminista do Brasil.

Com um público majoritariamente masculino, apesar de a maioria dos palestrantes ser mulher, o evento capitaneado pela ex-feminista Sara Winter – candidata de 26 anos a deputada federal pelo DEM, mas que “não estava ali para pedir voto” – foi concebido com o objetivo de reunir a maior quantidade de pessoas contrárias ao que, em um panfleto rosa-shocking na entrada, era classificado como a “desconstrução moral da mulher”.

Em cinco palestras, das 14 horas às 19 horas, o feminismo foi malhado em diferentes formatos e intensidades, com argumentos que pregavam desde sua suposta incompatibilidade com o cristianismo até uma “agenda comunista” que estaria promovendo secretamente. Os palestrantes também apontaram desonestidades praticadas por feministas. Segundo Winter, quando era ativista do Femen, grupo ucraniano conhecido por protestar de topless, foi ensinada a fingir ter sido agredida pela polícia durante manifestações. No evento do “antifeminismo” – que a ex-ativista não define como um movimento, mas uma reação – também foram proferidas críticas menos convencionais. Logo que pegou o microfone, a professora catarinense de história e candidata a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo, que sempre declara ser “do mesmo partido que o Bolsonaro” ao citar sua legenda (PSL), afirmou com um sorriso: “Quando comecei minha luta, era impensável ver um auditório assim, cheio de gente, quanto mais pessoas cheirosas e que tomam banho, porque sabemos que o público dos eventos de feminismo é um pouco diferente”. Mães e filhas, casais jovens, senhoras de terço na mão e idosos, além de rapazes com devocionários e camisetas em apoio ao candidato à Presidência Jair Bolsonaro, ao libertarianismo e ao falecido político conservador Enéas Carneiro, compunham o auditório sob o olhar de Sant’Ana. Na imagem acima do palco, a mãe da Virgem Maria aparece educando a jovem filha com preceitos cristãos, os mesmos aos quais, “como maioria no país, temos o direito de fazer o Estado se adequar”, segundo Campagnolo diria em sua palestra Antes que o evento começasse, homens uniformizados de verde pareciam vigiar o entra e sai, até que começaram a distribuir panfletos onde se lia “Templários da Pátria”, com a missão de “libertar o Brasil da tirania do comunismo”.

Ainda que o congresso professasse o “antifeminismo” oficialmente, a pauta principal, que motivou a data e a elaboração do encontro, já podia ser reconhecida logo na mesa de identificação. Ao entrar no auditório, os participantes diziam o nome, número de documento e celular ” por razões de segurança”, para logo depois encontrarem, espalhados sobre uma mesa de toalha vermelha, pequenos fetos humanos de borracha. Aproveitando que a descriminalização do aborto até a 12ª semana fora tema de uma audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) no dia anterior, sessão que continuaria na segunda-feira seguinte, os esforços do congresso se concentravam em argumentos contrários à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 442 (a ADPF 442), proposta pelo PSOL. A palavra aborto, no entanto, era frequentemente substituída por assassinato naquela tarde. Com uma hora de atraso, auditório cheio e sistema de som devidamente testado, antes que os argumentos contra a interrupção da gravidez fossem devidamente apresentados, a plateia ficou de pé para as formalidades. Com a ajuda de um padre, os participantes do congresso rezaram o pai­ nosso e cantaram o Hino Nacional – o que fez outro dos palestrantes, o estudante de filosofia Felippe Chaves, enxugar os olhos.

Como organizadora do evento, Winter tomou a palavra em primeiro lugar para dar o mesmo testemunho que já proclamou dezenas de vezes em outras igrejas e encontros de cunho conservador. Antes uma militante feminista que chegou a escrever frases a favor do aborto no peito nu, a estudante de relações internacionais disse que o jogo virou quando fez um aborto há quatro anos, o que não proporcionou “um pingo de empoderamento”. Ela, cujo sobrenome real é Giromini, relatou que, após uma infância difícil com agressões por parte do irmão, demorou cinco segundos para se perder nas “garras do feminismo” quando leu a manchete “Feministas protestam de topless na Ucrânia”. “Eu não sabia onde ficava a Ucrânia, mas sabia o que era topless: sou de uma geração fracassada, não é, gente?” Listou então lições que diz ter aprendido com o “treinamento” que recebeu quando foi ao país do Leste Europeu, com passagem paga pelo Femen.

Entre os princípios básicos de uma feminista, de acordo com Winter, estavam não sorrir, mentir em depoimentos policiais, fingir dor ao ser confrontada pela polícia em manifestações – pelo bem das fotografias na imprensa – e entender que, para alcançar a tão sonhada revolução comunista, é preciso passar por cima de todo valor moral. A convivência com as colegas de Femen também levou a ex-ativista a afirmar que jamais conheceu alguma feminista que tenha vindo de uma família “estruturada”, termo que usou sem maiores explicações, e que o ódio aos homens era regra. “Olhe para o homem do seu lado”, disse ela, forçando alguma interação do público, que permanecia atento. Uma senhora com um terço enrolado no braço lançou um olhar desconfiado para o lado, imaginando o que poderia vir em seguida: “O feminismo me ensinou que esse homem aí do seu lado e que todo homem é um estuprador em potencial”, disse Winter, sem mencionar a luta pela igualdade de direitos que o movimento professa.

Depois de realizar um aborto e ter sido “renegada” pelas companheiras feministas quando passava por complicações médicas em decorrência do procedimento, Winter mudou de discurso e lado no espectro político. Se antes a frase “Fora, Bolsonaro” era vista estampada no próprio corpo, hoje ela posa para fotografias ao lado do presidenciável e também apoia outras pautas que identificam o candidato, como a facilitação à posse de armas e o combate à ideologia de gênero. Sua principal bandeira de lá para cá é a luta contra a interrupção voluntária da gravidez, tema que via ameaçado pela discussão no STF, e pelo “direito à vida”, que lembrou sem mencionar dados como a morte de 2 mil mulheres nos últimos dez anos por abortos induzidos, segundo o SUS.

Apesar da presença dos autoproclamados Templários da Pátria, que afirmavam por escrito querer reviver a luta inicial dos primeiros cruzados há quase 1.000 anos, um super-herói a rigor acompanhava o relato de Winter e tinha outra forma de lutar contra o aborto. Henrique José Vieira, de 58 anos, vestia-se como o personagem de histórias em quadrinhos Doutor Estranho. “Vim assim porque esse herói protege as crianças”, disse, ressaltando que só se fantasia “quando necessário”. Para Vieira, a questão do aborto é de fácil resolução: “Se não quiser o filho, basta entregar para a adoção”, reduzia ele enquanto segurava urna esfera de alumínio, que garante os superpoderes do personagem, com um adesivo em favor de Bolsonaro. Observando Vieira, um dos apoiadores de Winter interrompeu o diálogo prontamente: “Olha, esse rapaz tem problemas psiquiátricos”, disse com um cochicho, procurando deslegitimar a argumentação em desenvolvimento. No mesmo instante, Vieira protestou: “E o senhor por acaso é médico e me examinou, para proclamar assim um laudo?”. Iniciava-se uma discussão que só teria fim minutos depois, com um pedido de desculpas do acusador.

Com uma participação jovem considerável, o 1º Congresso Antifeminista também tinha veteranos na luta contra o aborto, caso de Maria lnêz Medeiros. Hoje desempregada, a católica de 57 anos lembrou ao microfone a primeira vez em que saiu às ruas contra a legalização da prática, em passeata promovida por sua congregação no ano de 1978, no Rio. De lá para cá, Medeiros avaliou, o tema recrudesceu em alguns momentos, mas tomou força em outros mais instáveis, como na atualidade. A questão de quando começa a vida, outro ponto de discordância comum entre os dois lados da discussão, era definida por ela a partir da visão católica, quando há a fusão entre espermatozoide e óvulo. Ao final de sua fala, gritou ao microfone: “Somos pela vida! É melhor já ir se acostumando, aborto não!”, disse em uma fórmula popular entre os apoiadores de Bolsonaro.

O Congresso Antifeminista, após um coffee break – com os fetos de borracha ao lado de biscoitos e caixas de suco -, foi retomado pela professora de inglês e youtuber Thais Azevedo, que em seu canal de 40 mil inscritos prega contra o feminismo. Para um público que a abordava com pedidos de selfie momentos antes de sua entrada, Azevedo classificou o evento até então como um “encontro de comadres”, afirmando querer mais “sangue nos olhos”. Para a professora, o feminismo não é sobre igualdade, uma vez que “ignora o sofrimento emocional do homem” e, pela defesa do aborto, põe apenas a mulher na discussão. A máxima do feminismo “meu corpo, minhas regras” foi resolvida com um apelo religioso às feministas: “Não é seu corpo e, se você é cristã, sabe disso. Se não quer engravidar, então se proteja e feche as pernas!”, disse, recebendo aplausos.

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GESTÃO E CARREIRA

PROTEÇÃO CONTRA A TEMPESTADE

Vivemos um momento delicado, que pode trazer fragilidades à tona, mas também favorece oportunidades de autoconhecimento. Estabelecer prioridades, rever projetos e encontrar recursos internos para manter a saúde física e mental são itens de primeira necessidade no kit de sobrevivência à crise.

Proteção conrta a tempestade

Nos últimos tempos, para qualquer lugar que se olhe, salta aos olhos a palavra crise – seja na economia, na política, nos valores sociais e éticos e nas instituições. Usado desde a Antiguidade, o substantivo tem origem dupla. Do latim, crisis, incorporado ao vocabulário da medicina, refere-se à súbita mudança de estado em que uma doença pode tanto evoluir para a cura quanto acarretar a morte; também relaciona-se à ideia de “busca de remédio”. Do grego, krisis faz alusão à capacidade de fazer escolhas, estabelecer prioridades. Derivada do verbo krínõ com sentido de “separar”, “decidir”, “julgar”, o vocábulo começou a ser usado no contexto econômico no século 1 para designar um período de transição entre uma fase de maior prosperidade e outra de depressão.

Hoje em dia, parece bastante apropriado retomar etimologia da palavra e, em suas raízes, descobrir possibilidades para lidar com oscilações que, em vários âmbitos, afetam a dinâmica do planeta, do país e, consequentemente, dos indivíduos. Separar aquilo que nos é realmente caro do que já não serve, estabelecer prioridades, rever projetos e maneira de executá-los e encontrar recursos internos para manter a saúde física e mental parecem ser itens de primeira necessidade no kit de sobrevivência à crise.

Não raro, em épocas mais difíceis, em que é preciso administrar com maior cuidado aquilo de que dispomos – seja dinheiro, água ou tempo – surgem armadilhas internas que, em outras ocasiões, poderiam até passar despercebidas, mas em momentos mais sensíveis fazem vir à tona, junto com a instabilidade, inseguranças, ansiedade, depressão, pânico e outros tantos sinais de fragilidade emocional. Claro que nem sempre é assim. As “ciladas internas” são apenas parte da história, já que momentos de transição também nos tiram de zonas de conforto ao promover questionamentos, nos ajudando a colocar crenças em perspectiva, além de favorecer o amadurecimento emocional.

 SÍNDROME DO IMPOSTOR

Ainda assim, identificar pelo menos alguns dos riscos que costumam surgir é o primeiro passo para lidar com armadilhas. Uma delas aparece por meio da perigosa conclusão de que se coisas não vão bem nada do que foi feito de bom antes teve validade. Essa atitude pode aparecer entre aqueles que perderam o emprego, por exemplo, que passam a se sentir farsantes. Em condições normais, essas pessoas já vivem um dilema: embora assumam seu papel social e desempenhem suas funções de forma esperada, enfrentam enorme insegurança, não se sentindo aptas a realizar o que é de sua competência – mesmo que a cada dia a realidade prove o contrário. Nas situações adversas essa atitude pode se agravar ainda mais.

A psicóloga Pauline Clance, pesquisadora da Universidade do Estado da Geórgia, em Atlanta, foi a primeira a usar o termo “síndrome do impostor” para falar do comportamento de homens e mulheres com aguçada consciência de suas fraquezas, que não acreditam que seus sucessos possam ser atribuídos à própria capacidade. Em alguns casos, chegam a se convencer de que a boa avaliação de seu desempenho se deu apenas ao acaso ou mesmo à intervenção divina. Com frequência, comparam-se aos outros – e sentem-se em desvantagem. A tendência a não se considerar responsável por resultados positivos, atribuindo-os a circunstâncias externas, provoca o medo constante de que alguém descubra sua suposta farsa. Em situações de fragilidade ambiental, como a perda do emprego, por exemplo, essa crença na própria incapacidade tende a agravar-se.

Como é possível romper esse ciclo do pensamento? Pauline Clance acredita que um ponto de partida central seja aprender a atribuir o bom desempenho à própria capacidade quando isso é justo. Ainda que no início pareça estranho, é necessário acostumar-se a suportar o sucesso, arcar com as responsabilidades que advêm dele e aceitar que também estamos sujeitos a falhas e dificuldades, apesar de nossas qualidades.

CRIATIVIDADE

Outro risco é procurar fazer as coisas exatamente da mesma maneira como se fazia em outras ocasiões – quando as condições eram outras -, deixando de lado a possibilidade de usar a criatividade a seu próprio favor. Corre nas redes sociais um postem que é retirada a letra “s” da palavra “crise” e ela se transforma em “crie”. A mensagem da “brincadeira” gráfica é óbvia: é preciso apelar para a originalidade, uma qualidade com a qual nem sempre estamos habituados, mas que pode ser incorporada ao dia a dia. E a neurociência aposta que todos podemos favorecer momentos de insights com a ajuda de algumas técnicas simples. Uma delas é aprender sobre o tema a respeito do qual queremos ter uma ideia brilhante. Afinal, seja para formular uma teoria complexa ou para planejar uma festa, é indispensável pesquisar com antecedência para ser original.

Depois de mergulhar no problema, a melhor maneira de chegar a uma solução criativa é parar de pensar conscientemente sobre o assunto. A história está repleta de exemplos de pessoas criativas que receberam inspirações num devaneio ou enquanto faziam uma tarefa diferente. O escritor Robert Louis Stevenson e o músico Paul McCartney, por exemplo, usaram sonhos como ponto de partida para novas obras. Muitas situações cotidianas podem ser resolvidas assim, o que ajuda a explicar por que nos lembramos de uma ideia equivocada e reconsideramos uma que cena passou, na hora da ducha, no trabalho ou simplesmente enquanto voltamos para a casa.

EM GRUPO É MELHOR

Outra grande armadilha da crise é acreditar que estamos sozinhos – e sozinhos podemos lidar com aquilo que nos incomoda ou mesmo nos assombra. Inúmeros estudos têm comprovado que contar com a ajuda dos outros traz benefícios porque aumenta a autoconfiança A rede de segurança reforça a convicção na superação de obstáculos. Como resultado, a tendência é resolver problemas de forma mais ativa em vez de evitar desafios. Afinal, os vínculos proporcionam maior estabilidade; um grupo que trabalha unido é mais forte do que apenas um indivíduo. No âmbito biológico, os laços sociais estimulam a liberação da oxitocina, hormônio que ajuda a reduzir a ansiedade e o medo, ao limitar a resposta do cortisol ao estresse (a oxitocina também favorece reações emotivas e sentimentos de pertencimento e confiança, que estimulam a socialização).

De fato, armadilhas internas não faltam – e se evidenciam em tempos difíceis. Mas seria ilusão atribuir nossos problemas unicamente à crise – qualquer que seja ela. Felizmente, algumas atitudes podem nos fortalecer, justamente quando isso se faz mais necessário. Flexibilidade para aceitar sucessos e limitações, criatividade para rever a própria vida sob outros ângulos e discernimento para buscar o que realmente faz bem (e nem sempre pode ser adquirido com dinheiro) não traduzem fórmulas mágicas, mas são imprescindíveis para o bem-estar emocional. Em dias de tempestade ou de calmaria.

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E SE ALGO DER ERRADO?

A sensação de que é preciso acertar sempre, aliada ao receio deque os outros (quaisquer que sejam eles) “descubram” que somos passíveis de erro pode ser bastante perigosa para a saúde mental. E nos colocar em uma cadeia de opressão – o que, em geral, não traz nenhum benefício. Reavaliar os padrões que costumamos repetir e pelo menos suspeitar de que não precisamos ser infalíveis pode ser um bom começo para fugir dessa prisão, segundo o doutor em psicologia comportamental Martin M. Antony, professor e coordenador do Departamento de Psicologia da Universidade de Ryerson, em Toronto, autor do livro When perfect isn’t good enough, de 2009 (Quando ser perfeito não é bom o suficiente , não publicado no Brasil).

Ele sugere que a pessoa pergunte a si mesma, ao perceber que está se pressionando: “O que aconteceria se eu relaxasse um pouco mais?”. Antony não faz apologia ao descaso consigo mesmo ou com as próprias obrigações, mas sugere atitudes mais flexíveis. O primeiro passo nesse sentido pode ser identificar pensamentos perfeccionistas como “devo dizer coisas inteligentes o tempo todo”. O psicólogo também sugere a avaliação de evidências para confirmar suas crenças – digamos, será que algo realmente grave vai acontecer se você executar uma tarefa de forma imperfeita ou até incorreta? Se esse tipo de consideração não oferecer grandes resultados, pode ser conveniente optar pela ajuda de um psicanalista, mais indicado para tratar de processos e funcionamentos de forma ampla que com a simples erradicação de sintomas. Esse profissional pode acompanha ­ lo na tarefa de elaborar e ressignificar experiências.

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É PRECISO TER PLANO B

Ainda que uma motivação pareça forte, ela nem sempre é suficiente para colocar nossas boas intenções em prática. Há uma considerável lacuna entre a intenção e o comportamento. E nosso bicho-preguiça interior representa um grande desafio tanto para quem lida diariamente com ele, quanto para estudiosos e profissionais da área da saúde. Para superar esse resistente “monstrinho sabotador”, o psicólogo social Peter Gollwitzer, da Universidade de Nova York, recomenda o planejamento concreto de atividades que determinem precisamente quando, onde e como o comportamento que temos planos de adotar deve ocorrer.

Podemos pensar, hipoteticamente, no caso de uma pessoa que deseja incluir exercícios físicos em sua rotina, mas teme os conhecidos deslizes. Por exemplo: quando nosso personagem, que podemos chamar de N. for para a cama na noite anterior a um dia de trabalho e se levantará às 6h30. Após tomar um café da manhã leve e nutritivo e colocar a roupa de treino, vai pegar sua bicicleta e sair para pedalar. A situação (“quando… então”) serve como desencadeadora e fornece o impulso para o comportamento decidido. Mas sempre pode aparecer algo que atrapalhe nossos planos. No caso de N., a chuva comprometeria seus propósitos. Por isso, o melhor é ter um plano B – como se exercitar na esteira do prédio, talvez. O planejamento paralelo funciona como um escudo de intenções: reconhecemos precocemente situações “perigosas” e impedimentos e nos motivamos novamente, já que os imprevistos são os grandes inimigos das boas intenções.

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ATÉ AUTOCONFIANÇA EM EXCESSO FAZ MAL

Reconhecer o próprio valor é um diferencial importante – especialmente quando as coisas não vão bem. As pessoas que conseguem fazer isso em geral tiram proveito dessa capacidade. Mas, em excesso, autoestima pode trazer sérias desvantagens. Além disso, a busca contínua por reconhecimento é claramente nociva. Buscar obstinadamente alcançar sucesso em projetos que aumentem o próprio poder, sem que haja um objetivo maior além de simplesmente “vencer”, nos torna emocionalmente vulneráveis a angústias e frustrações inevitáveis da vida e, não raro, deflagra comportamentos prejudiciais ao desenvolvimento de competências e ao cultivo de relações pessoais saudáveis. Parece que, na contramão do que costuma pregar a cultura vigente no mercado de trabalho, popularizada pela mídia e pela publicidade, o caminho mais eficaz para desenvolver e preservar a autovalorização é, ironicamente, pensar menos sobre si mesmo. Desenvolver compaixão pelos outros e por si próprio, de uma perspectiva menos egocêntrica, reforça a motivação para atingir metas pessoais. Principalmente em momentos de dificuldades, ajuda a aprender com os próprios erros e a fortalecer laços de amizade.

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EXERCÍCIOS PARA MANTER O FOCO

Relaxar em meio à tormenta e simplesmente respirar pode fazer enorme diferença para a saúde e para o bem-estar físico e emocional. E o melhor é que nem é tão difícil. Basta um pouco de treino: o importante é incorporar os exercícios ao cotidiano, ainda que sejam dedicados a eles apenas alguns minutos por dia. A seguir, algumas sugestões de técnicas simples e eficientes

1. DE OLHO NO HORIZONTE

De pé, em posição ereta, com os braços ao longo do tronco, sinta o peso do seu corpo e olhe para um ponto fixo à sua frente. Desloque o peso do corpo para o pé esquerdo e flexione o joelho direito elevando-o lentamente enquanto inspira com profundidade. Delicadamente, segure o joelho com as duas mãos por alguns segundos e mantenha a coluna naturalmente ereta. Faça cinco respirações profundas. Abaixe a perna enquanto solta o ar. Repita o procedimento levantando a outra perna. Ao terminar, pense que uma linha imaginária passa pela sua coluna e vai até o topo de sua cabeça, mantendo-o equilibrado em todos os seus movimentos.

2. OLHOS ABERTOS, OLHOS FECHADOS

Esse exercício é feito em duas etapas. Primeiro, escolha um objeto qualquer, como um lápis, por exemplo. Coloque ­ o na sua frente. Olhe firmemente e concentre a sua atenção nele. Deixe que o objeto ocupe todo o espaço mental durante o tempo que for possível. Aumente gradualmente o tempo da duração do exercício. Na segunda fase, feche os olhos e visualize em sua mente o mesmo objeto. Concentre-se nesta imagem virtual, atendo-se a todos os detalhes, pensando apenas nessa tarefa. Caso se distraia, recomece a imaginar o objeto e aumente progressivamente a duração do exercício. Com a prática, verá que fica cada vez mais fácil manter­ se focado.

3. TIQUE-TAQUE

Escolha um ambiente silencioso, sente ­ se em posição confortável. Pegue um relógio que faça barulho e coloque-o a trabalhar. Concentre sua atenção no ritmo e deixe que o som ocupe todo o seu espaço mental. Se alguns pensamentos passarem por sua mente, não se a pegue a eles, deixe-os passar e retome a concentração.

4. A CHAMA DA VELA

Como essa prática é mais longa, com duração de aproximadamente15 minutos, convém ler as orientações a seguir até se familiarizar com elas, para que não precise se ater ao texto durante sua realização. Ao criar uma imagem mental de uma chama, o fluxo de pensamentos que causam distração tende a ficar mais lento e você poderá atingir uma sensação de bem-estar, com mais consciência de seu corpo.

 

  • Acomode-se num lugar calmo e confortável. Acenda uma vela e coloque-a a cerca de um metro à sua frente. Sente ­ se com as pernas cruzadas no chão, sobre uma almofada ou, se preferir, numa cadeira, mantendo as costas retas contra o encosto e as pernas separadas. Feche os olhos e tome consciência de cada uma das partes do seu corpo, relaxando uma de cada vez. Respire calma e profundamente, enquanto percorre mentalmente todo o seu corpo.

 

  • Fique nessa posição, com os olhos fechados. Conscientize-se do ritmo de sua respiração, que ficará cada vez mais regular. Abra os olhos e foque a chama da vela. Se os seus pensamentos tentarem “fugir”, traga-os lentamente de volta à chama. Relaxe os músculos faciais e mais uma vez feche os olhos. Inspire e expire profundamente, prestando atenção a esse movimento, sentindo o abdômen subir e descer. Leve o tempo que for necessário até sentir-se relaxado, como se estivesse sendo embalado por ondas produzidas pela respiração. Pense que está calmo e tranquilo.

 

  • Visualize a imagem da chama na sua mente. Permaneça focado em seus movimentos intermináveis. Isso ocupa a totalidade da sua mente. É como se você estivesse hipnotizado pela dança e cores da chama. Quando um pensamento tomar conta de sua mente, deixe-o ser consumido pelo fogo. Aproxime um pouco mais o rosto da chama e sinta seu calor, sempre de forma relaxada. Após algum tempo comece a mover seus músculos e membro s lentamente e alongue-se devagar, antes de se levantar.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 13: 36-38

Alimento diário

A Autoconfiança de Pedro

Nestes versículos, temos:

I – A curiosidade de Pedro, e o basta que foi dado a ela.

1. A pergunta de Pedro era ousada e rude (v. 36): “Senhor, para onde vais?” Referindo-se ao que Cristo dissera (v. 33): “Para onde eu vou não podeis vós ir”. As instruções práticas que Cristo havia fornecido relativas ao amor fraternal, Ele ignora e nada pergunta sobre elas, mas se concentra naquilo sobre o que Ele, propositalmente, os havia mantido desinformados. Observe que é um defeito comum entre nós, sermos mais inquisitivos a respeito de coisas secretas, que pertencem apenas a Deus, do que a respeito daquelas que se referem às coisas reveladas, que pertencem a nós e aos nossos filhos. Somos mais desejosos de ter nossa curiosidade satisfeita do que nossas consciências instruídas, de saber o que é feito no céu do que o que podemos fazer para ir para lá. É fácil observar isso na convivência dos cristãos, com que rapidez uma conversa sobre aquilo que é verdadeiro e edificante é abandonada, e nada mais é dito, o assunto é esgotado, o que, em um debate incerto, se transforma em uma interminável disputa de palavras.

2. A resposta de Cristo foi esclarecedora. Ele não o agradou com qualquer versão específica do mundo para o onde Ele estava indo, nem jamais profetizou suas glórias e alergias tão claramente como o fizera com seus sofrimentos, mas disse o que dissera antes (v. 36): Que isto baste: “Não podes, agora, seguir-me, mas, depois, me seguirás”.

(1) Podemos entender isto como se referindo a Pedro seguindo-o até a cruz: “Você ainda não tem intensidade de fé e determinação suficientes para beber do meu cálice”. E Pedro se mostrou assim pela sua covardia quando Cristo estava sofrendo. Por este motivo, quando Cristo foi capturado, ele providenciou a segurança de seus discípulos. “Deixai ir estes”, pois eles não o podiam seguir agora. Cristo leva em consideração a estrutura de seus discípulos e não planejará para eles trabalho e sofrimentos para os quais eles ainda não estão preparados. O dia deve estar de acordo com a força deles. Pedro, embora destinado ao martírio, não pode seguir a Cristo agora, não tendo ainda atingido sua plenitude, mas o seguirá depois. Ele será crucificado por último, como seu Mestre. Que não pense ele que porque es­ capa do sofrimento agora, nunca sofrerá. Ao escaparmos da cruz uma vez, não devemos concluir que nunca a conheceremos. Devemos estar preparados para julga­ mentos maiores do que aqueles pelos quais já passamos.

(2) Podemos entender isto como se referindo a Pedro seguindo-o até a recompensa. Jesus estava agora a caminho da sua glória, e Pedro desejava muito ir com Ele: “Não”, diz Cristo, “não podes agora seguir-me, ainda não estás pronto para o céu, nem terminaste teu trabalho na terra. O percussor deve entrar primeiro para preparar um lugar para ti, mas depois tu me seguirás, após teres combatido o bom combate, e na hora fixada”. Observe que os crentes não devem esperar ser glorifica­ dos tão logo sejam efetivamente chamados, pois há uma distância imensa entre o Mar Vermelho e Canaã.

 

II – A confiança de Pedro, e o basta que foi dado a ela.

1. Pedro faz uma ousada afirmação sobre sua fidelidade. Ele não está satisfeito por ter sido deixado para trás, todavia pergunta: “‘Por que não posso seguir-te agora?’ Questionas minha sinceridade e determinação? Eu te asseguro que, se houver ocasião, “por ti darei a minha vida”. Alguns acreditam que Pedro tinha uma presunção, como os judeus tiveram em um caso semelhante (cap. 7.35), imaginando que Cristo estivesse planejando uma jornada ou viagem a alguma região remota, e que ele afirmava sua determinação de ir junto com Ele aonde quer que Ele fosse. Mas tendo ouvido seu Mestre falar tão frequentemente de seus próprios sofrimentos, com certeza, ele não conseguia entendê-lo de outra maneira que não se referindo à sua partida através da morte, e ele decide, assim como fizera Tomé, que irá e morrerá com ele. É melhor morrer com Ele do que viver sem Ele. Veja aqui:

(1) Que amor afetuoso Pedro tinha por nosso Senhor Jesus: “Por ti darei a minha vida”, e “não posso fazer nada superior a isto”. Acredito que Pedro falou conforme acreditava, e embora ele fosse imprudente, não fora insincero em sua decisão. Observe que Cristo nos deve ser mais caro do que nossa própria vida, a qual, quando nos for exigida, devemos estar prontos a sacrificar por amor a Ele, Atos 20.24.

(2) Como Pedro se ofendeu por ter sido questionado, o que é indicado neste protesto: “Por que não posso seguir-te agora?” “Suspeitas da minha fidelidade para contigo?” 1 Samuel 29.8. Observe que é com pesar que o verdadeiro amor ouve sua própria sinceridade posta em dúvida, como em João 21.17. Cristo havia dito, com certeza, que um deles era um diabo, mas ele fora descoberto e partira, e por isso Pedro pensa que pode falar com ainda mais segurança de sua própria sinceridade. “Senhor, estou decidido e nunca te deixarei, e, portanto, por que não posso seguir-te?” Temos a tendência de pensar que podemos fazer qualquer coisa, e levamos a mal se nos for dito que não podemos fazer isto e aquilo, ao passo que sem Cristo, nada podemos fazer.

2. Cristo lhe dá uma surpreendente predição de sua infidelidade, v. 38. Jesus Cristo nos conhece melhor do que nós mesmos, e tem muitas maneiras de se revelar àqueles a quem Ele ama e de quem afastará a vaidade.

(1) Ele repreende a Pedro pela sua confiança: “Tu darás a tua vida por mim?” Parece-me que Ele teria dito isto com um sorriso: “Pedro, as promessas que fazes são muito amplas, pródigas demais para serem confiáveis. Tu não levas em conta a relutância e luta com que uma vida é sacrificada, e que dura carga é morrer. É mais fácil falar do que fazer”. Cristo, por meio disto, faz Pedro pensar melhor, não para que ele pudesse revogar sua decisão, ou retroceder, mas para que pudesse inserir nela aquela cláusula necessária: “Senhor, com tua graça me capacitando, darei minha vida por ti”. Asseguras que morrerás por mim? O que! Tu que tremeste ao caminhar sobre as águas até mim? O que! Tu que, quando falei de sofrimentos, gritaste: Senhor, tem compaixão de ti? Foi uma coisa fácil deixar teus barcos e redes para seguir-me, mas renunciar à tua vida não ser á tão fácil”. Seu próprio Mestre se debateu quando sua hora chegou, e não é o servo maior do que seu senhor. Observe que é bom para nós que nos humilhemos por conta da arrogante confiança que temos em nós mesmos. Pode uma cana moída servir como coluna, ou um menino enfermo se tornar um campeão? Que tolo sou quando falo com tamanha arrogância.

(2) Ele claramente antecipa a covardia de Pedro na hora crucial. Para que sua boca parasse de se gabar, para que Pedro não dissesse novamente: Sim Mestre, eu o farei, Cristo solenemente insiste, dizendo: “Na verdade, na verdade te digo que não cantará o galo, enquanto me não tiveres negado três vezes”. Ele não diz, como depois: “Esta noite”, pois parece que isto ocorreu duas noites antes da páscoa, mas: “Em breve me terás negado por três vezes dentro do espaço de uma noite. Na verdade, dentro de um espaço tão curto como entre o primeiro e o último canto do galo: ‘Não cantará o galo’, ele não terá cantado seu canto até que tu tenhas por duas vezes me negado, e isso por medo de sofrer”. O canto do galo é mencionado:

[1) Para revelar que o julgamento no qual ele fracassaria dessa maneira deveria ser à noite, o que era uma circunstância improvável, mas a profecia de Cristo era um exemplo de sua infalível presciência.

[2] Porque o canto do galo seria a oportunidade para seu arrependimento, o que não teria acontecido se Cristo não tivesse dito isto em sua predição. Cristo não somente previu que Judas o trairia, embora ele o planejasse apenas em seu coração, mas também previu que Pedro o negaria, embora ele nem sequer o planejasse, senão o contrário. Ele conhece não apenas a maldade dos pecadores, mas a fraqueza dos santos. Cristo disse a Pedro, em primeiro lugar, que ele o negaria, o repudiaria e o abjuraria: “Tu não só não me seguirás, mas ainda terás vergonha de reconhecer-me, dizendo que jamais me seguiste”. Em segundo lugar, que ele faria isto não apenas uma vez, por um ato falho e precipitado, mas, depois de um intervalo, o repetiria uma segunda e uma terceira vez, e isto se mostrou comprovadamente verdadeiro. Costumamos apresentar argumentos como estes como alguns dos motivos pelos quais as profecias das Escrituras são expressas de forma obscura e figurativa, pois se elas descrevessem claramente o acontecimento, a consumação seria, por meio disso, frustrada ou requereria uma fatalidade inconsistente com a liberdade humana. E apesar dessa clara e objetiva profecia da negação de Cristo por Pedro, isto não tornava Cristo, de forma alguma, conivente com o pecado de Pedro. Mas nós bem podemos imaginar a humilhação que esta declaração foi para a confiança que Pedro tinha em sua própria coragem. Ele teve que ouvir isto, sem sequer se atrever a contradizer o Senhor. Caso contrário, ele teria dito como Hazael: “Pois que é teu servo, que não é mais do que um cão?” Isto só poderia deixá-lo confuso. Observe que os mais seguros são geralmente os que menos estão a salvo, e aqueles que presumem que são os mais fortes, demonstram suas próprias fraquezas, 1 Coríntios 10.12.