PSICOLOGIA ANALÍTICA

QI: MAIS, MELHOR OU APENAS DIFERENTE?

Alguns estudos revelam um aumento constante do quociente de inteligência (QI) em todas as partes do mundo. Antes de comemorar o fato de os serem humanos estarem se tornando mais espertos, vale a pena considerar alguns fatores. E, talvez, levar em conta que aquilo que chamamos de capacidade intelectual pode ser mais ampla e surpreendente do que imaginamos.

QI - mais, melhor ou apenas diferente

A inteligência é uma das capacidades mais úteis – e, não raro, atraentes. Ainda que saibamos que esse recurso, por si só, não é suficiente para trazer saúde e bem-estar, ao longo dos séculos ela tem sido valorizada e uma das grandes ambições humanas é ampliá-la. Na área da psicologia o tema tem despertado inúmeras discussões. Há pouco mais de 30 anos, o pesquisador James R. Flynn, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, anunciou a descoberta de um fenômeno que os cientistas sociais ainda se esforçam para explicar: os quocientes de inteligência (QI) vêm crescendo constantemente em todo o mundo desde o início do século 20. Por mais questionável que seja essa medição, o resultado da pesquisa de Flynn vale ser considerado. Ele examinou dados de testes de inteligência de mais de 20 países e descobriu que a pontuação está subindo 0,3 ponto por ano – ou 3 pontos por década. Quase 30 anos de estudos de acompanhamento confirmaram a realidade estatística do avanço global, conhecido agora como efeito Flynn. E os pontos continuam subindo.

“Para minha surpresa, no século 21 os aumentos continuam; os últimos dados mostram os ganhos acompanhando a velha taxa de três décimos de ponto por ano”, declarou Flynn. Um dos aspectos mais estranhos desse efeito é certa monotonia – ele não desacelera, para ou recomeça. Apenas se move regularmente para cima. O psicólogo Joseph Rodgers, da Universidade de Oklahoma, examinou os resultados dos testes de quase 13 mil estudantes americanos para ver se poderia detectar o fenômeno numa escala de tempo mais restrita. “Questionamo-nos se os pontos dos estudantes melhorariam num período de cinco ou dez anos. Bem, eles melhoraram num período de um ano. O aumento está lá, sistematicamente, ano após ano.”

O efeito Flynn significa que as crianças vão, em média, conseguir 10 pontos a mais nos testes de QI do que seus pais. Até o fim deste século, nossos descendentes terão uma vantagem de quase 30 pontos sobre nós – a diferença entre a inteligência média e os 2% do topo da população + se o fenômeno se perpetuar. Surgem, porém, algumas questões. A tendência se manterá indefinidamente, levando a um futuro repleto de pessoas que seriam consideradas gênios pelos padrões de hoje? Ou há algum limite natural ao desenvolvimento da inteligência humana? E, mais importante: aumentar a pontuação nesse tipo de teste significa realmente que as pessoas são mais inteligentes ou apenas que o cérebro encontrou formas de obter pontuações mais altas? Não necessariamente.

Para Rodgers, a universalidade do efeito Flynn confirma que é inútil buscar uma causa única: “Deve haver quatro ou cinco causas dominantes, cada uma se levantando contra fluxos ou desaparecimentos de outras”. Melhor nutrição infantil, educação universal, famílias menores e a influência de mães com educação superior, são algumas das mais prováveis. “Desde que duas causas estejam presentes, mesmo quando algo como a Segunda Guerra provoca o desaparecimento de outras duas, o efeito Flynn mantém sua curva. Um fato a ser considerado é que a mente parece estar ficando mais rápida. Uma prática comum na pesquisa reação-tempo é descartar respostas que estejam abaixo de cerca de 200 milissegundos.

“Pensava-se que 200 milissegundos era o mais rápido que as pessoas podiam responder, mas hoje digitamos textos, jogamos videogames, fazemos muito mais coisas que exigem respostas realmente velozes”, diz o psicólogo cognitivo David Hambrick. Isso é bom? Significa que, na prática somos mais espertos? Não necessariamente, já que em muitas tarefas cruciais um instante a mais de hesitação pode significar menor possibilidade de erro. Assim como o efeito Flynn, a rapidez ou a inegável maior quantidade de informações que temos hoje não é, por si só, nem boa nem ruim – é uma evidência de nossa capacidade de adaptação. O que vamos fazer com esses recursos é o que realmente fará diferença.

VIVA, MUTÁVEL E COM VÁRIAS FACES

A definição de inteligência não é óbvia. Em linhas gerais, podemos dizer que se trata do conjunto de características intelectuais que nos possibilitam compreender, aprender, raciocinar, refletir, interpretar e solucionar problemas de diversas ordens. Etimologicamente, a palavra tem origem no latim inteligentia, oriundo de intelligere, em que o prefixo inter significa “entre”, e legere quer dizer “escolha”. Ou seja, faz referência à possibilidade de fazer escolhas. E para decidir é preciso entender a situação, considerar hipóteses, avaliar, pensar e arcar com os riscos. Por isso, não é de estranhar que entre as faculdades que constituem a inteligência também estão a memória, o juízo, a abstração e a imaginação. O conceito de inteligência, entretanto, não é único. O psicólogo americano Howard Gardner, professor da Universidade Harvard, revolucionou a forma de pensar a capacidade intelectual quando propôs que não temos uma única forma de inteligência, mas várias. Suas pesquisas têm avançado pelo campo das ciências sociais, seguindo caminhos diversos da física ou da biologia, em busca do que o psicólogo considera definições novas e mais adequadas e, atualmente, ele já fala em “nove maneiras e meia” de expressar essa característica.

Gardner observa que pesquisadores orientados pela cultura escolástica se concentraram nas habilidades verbais e lógicas, denominando a “inteligência”. “Pessoas com bom desempenho em línguas e lógica são, em geral, bons alunos, e nós as classificamos inteligentes e nada tenho contra isso, desde que se fale em ‘inteligência escolástica’.

Se, porém, sairmos da escola e estudarmos a inteligência de arquitetos, bailarinos ou comerciantes, descobriremos que podem ser excelentes naquilo que fazem, independentemente do desempenho escolar”, afirma. “Se os homens de negócio tivessem inventado o QI, a avaliação mediria, provavelmente, atitude em relação a risco, iniciativa e capacidade de vender e nenhum desses aspectos é medido pelos testes clássicos de inteligência.”

Gardner defende que os divulgadores de ciência e mesmo os pesquisadores devem ser cuidadosos e não reforçar o senso comum, muitas vezes equivocado.  Ele lembra que o filósofo Bertrand    Russell disse certa vez que as ideias de todos os grandes pensadores podem ser resumidas em uma ou duas frases: o que os torna notáveis é a estrutura argumentativa que criaram para sustentar as afirmações e defendê-las das críticas.

“Se eu transmitir às pessoas apenas o conceito de que, além da escolástica, existe outras formas de inteligência, já será um enorme progresso. Creio que já alcancei algo nesse sentido”, diz.

Nos anos 90, o psicólogo Daniel Goleman, que também foi pesquisador da Universidade Harvard, conseguiu avanços quando sistematizou e apresentou seu conceito de inteligência emocional, com apelo intuitivo, aludindo às experiências do cotidiano, no mundo do trabalho e na educação. Goleman chamou atenção para um fato óbvio e que merecia atenção: um profissional de uma empresa, por exemplo, pode ter grande capacidade intelectual e uma mente perfeitamente organizada, mas se mostrar um desastre para motivar colegas e subordinados.

Uma das principais objeções à teoria de Gardner tem sido a impossibilidade de mensurar as formas de inteligência mencionadas por ele. O próprio psicólogo reconhece que se trata de uma crítica bem razoável, mas afirma que o desenvolvimento de ferramentas capazes de medir as várias inteligências jamais foi uma prioridade para ele. Robert J. Sternberg – idealizador da teoria triárquica, segundo a qual a inteligência se manifesta em três modalidades distintas: analítica, criativa e prática – tentou fazê-lo no âmbito de sua pesquisa, mas os resultados suscitaram dúvidas.

Gardner observa que há fenômenos que esses estudos não explicam, em particular as razões que nos tornam tão diferentes uns dos outros. “Um cientista pode passar a vida tentando acumular provas da existência de uma inteligência geral, mostrando como esta se correlaciona a este ou àquele fator; ou pode tentar explicar por que as pessoas têm habilidades tão diversas, quais as causas dessas diferenças e a que servem”, afirma.

A visão tradicional a respeito da inteligência, que prevalece há centenas de anos, sustenta que em nosso cérebro existe um único computador, de capacidade muito geral. Quando funciona bem, a pessoa é capaz de destacar-se em qualquer atividade. Se o desempenho for apenas razoável, o portador consegue resultado satisfatório em diversas circunstâncias. Mas se funcionar mal, o dono desse equipamento é um tolo, incapaz de estabelecer relações coerentes. Gardner discorda disso tudo: “Creio que a relação entre cérebro e mente pode ser descrita como um conjunto de oito ou nove sistemas distintos de elaborações fundamentais. Um deles pode atuar muito bem enquanto outro apresenta rendimento mediano e um terceiro funciona mal”.

Ele evoca um argumento difícil de refutar: existem pessoas dotadas de grande talento artístico ou com habilidade para números e xadrez que, no entanto, são incapazes de compreender os outros e manter relacionamentos. “A medicina oficial as considera casos pato lógicos, mas eu sustento que esses fenômenos são normais”, ressalta. Depende do tipo de inteligência de cada um.

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COMO SE MEDE O QI?

Um teste popular é o Wechsler lntelligence Scale for Children, que consiste em múltiplos subtestes. Alguns medem o vocabulário, habilidade em aritmética ou conhecimentos gerais da criança – o que adultos podem chamar de trivialidades. Outros examinam a capacidade conceituai da criança. No teste de similaridades, por exemplo, ela tem de considerar similaridades abstratas entre palavras (como raposa e coelho, por exemplo). Só nessas categorias conceituais os pontos dos testes subiram. E o efeito Flynn mostra que estamos ficando mais familiarizados com a abstração.

 OS VÁRIOS TALENTOS

A teoria das inteligências múltiplas (IM) parte da ideia de que todos nós temos capacidade de desenvolver diversos tipos de habilidades. O potencial de cada um é resultado da interação dessas competências, que aparecem em doses variadas até no mesmo indivíduo ao longo da vida. Além das oito, descritas abaixo, Gardner fala de uma “meia inteligência”, uma espécie de “marca pessoal”, que torna único o somatório das capacidades de cada pessoa.

1 – Domínio da linguagem e facilidade em usar as palavras ou desejo de explorar suas possibilidades. Própria de poetas, escritores, linguistas.

2 – Capacidade de compreender o mundo visual, modificar percepções e recriar experiências visuais mesmo sem estímulo físico. Comum em arquitetos, artistas, escultores, cartógrafos, navegadores, enxadristas.

3 – Habilidade para confrontar e avaliar objetos e abstrações, bem como discernir suas relações e princípios subjacentes. Típica de matemáticos, cientistas, filósofos.

4 – Competência para ouvir, compor e executar obras com intensidade e ritmo. Pode estar relacionada a outras inteligências, como linguística, espacial e corporal-cinestésica. Aguçada em compositores, maestros, músicos, críticos de música.

5 – Capacidade de controlar e comandar movimentos do corpo e manejar objetos habilmente. Bastante desenvolvida em dançarinos, atletas, atores.

6 – Possibilidade de determinar humores, sentimentos e outros estados mentais em si mesmo (inteligência intrapessoal) e em outros (interpessoal). Presente em psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, políticos, líderes religiosos, antropólogos.

7 – Talento para reconhecer e categorizar objetos naturais. Biólogos e naturalistas costumam ter essa habilidade.

8 – Facilidade para apreender questões amplas, fundamentais da existência. Própria de líderes espirituais, pensadores, filósofos.

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AS RAÍZES NEURAIS DA NTELIGÊNCIA

NEURÔNIOS NUMERADOS

Os estudos com imagens do cérebro revelam muitas áreas nas quais a quantidade de massa cinzenta (formada por corpos e células neurais) está correlacionada aos resultados dos testes de inteligência. Os trechos coloridos ao lado indicam a localização aproximada das áreas de Brodmann: agrupamentos estruturais de neurônios numerados de acordo com a tradição histórica. As letras de cada área de Brodmann indicam com quais fatores de inteligência estão associados: (g) geral; (s) espacial, e (e), cristalizados, ou conhecimentos factuais. Todo indivíduo tem um padrão singular de massa cinzenta nessas áreas, o que dá origem a vantagens e desvantagens cognitivas diversas. As 74 áreas de Brodmann (em laranja) são consistentemente inclusas em estudos de inteligência relacionados à estrutura e funções cerebrais. O neuro-fisicólogo Rex E. Jung, da Universidade do Novo México, e eu revisamos os estudos e identificamos essa rede, denominando-a teoria integração parietofrontal (P-FIT) porque as áreas nos lobos parietais (verde) e frontais (azul) foram consistentes na maioria dos estudos. A maioria das áreas de P-FIT está envolvida na computação (áreas frontais) e na integração sensorial (áreas parietais), no processamento e na compreensão consciente de informações sensoriais.

OUTROS OLHARES

CONHECENDO OS MÓRMONS

A religião mórmon é uma das que mais crescem no mundo. Como nenhuma outra, ela se alimenta do proselitismo de seus missionários.

Os Mórmons

Eles são inconfundíveis. Andam em dupla, usam cabelo curto e bem penteado, estão sempre sorrindo. Vestem camisa branca de manga curta, gravata com prendedor e calça de terno. Os sapatos com solas de borracha reforçada, como os usados pelos carteiros, permitem a eles passar o dia na rua, batendo de porta em porta, testando pacientemente seu poder de persuasão. Nas placas presas no lado esquerdo do peito, antes do nome, são identificados como “élder”. É um tratamento religioso, também reservado a idosos. Mas eles são jovens, muito jovens. Muitos ainda têm espinhas no rosto e corpo de adolescente. Alguns são estrangeiros e falam com sotaque. Eles são os missionários mórmons.

Os missionários são a face aparente – e a espinha dorsal – de uma fé que se alimenta, como nenhuma outra, de conversões. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, nome oficial da religião, é uma das que mais crescem. Estima-se que dois terços dos mórmons são convertidos. Isso quer dizer que eles não nasceram em família mórmon. Em algum momento da vida, foram convencidos a aderir à fé, muito provavelmente por missionários. A igreja afirma ter mais de 12 milhões de adeptos no mundo. Por ano, diz ganhar 400 mil novos fiéis. Em 2080, poderão chegar a 267 milhões, de acordo com o sociólogo americano Rodney Stark, professor da Universidade Baylor, no Texas.

Esses números fariam dos mórmons a segunda igreja cristã do mundo. Estariam à frente de qualquer grupo evangélico e atrás apenas dos católicos. Recentemente, os mórmons entraram na ordem do dia por causa da série de TV Big Love, que fala de uma família polígama. Injustamente, segundo os mórmons, já que a religião aboliu a prática no fim do século XIX.

O Brasil tem, de acordo com o último censo, 199.641 mórmons. É praticamente a mesma quantidade de budistas, o dobro de praticantes do candomblé e o triplo de judeus. Mas os cadastros da igreja apresentam números muito maiores. Os mórmons brasileiros formariam o terceiro maior rebanho do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, onde a religião nasceu, e do México. Em 1985, eles seriam 240 mil. Dez anos depois, chegariam a 558 mil – mais que o dobro. Hoje, seriam por volta de 940 mil. Em duas décadas, o número de adeptos teria aumentado quatro vezes.

Segundo a igreja, cerca 3.500 missionários atuavam no Brasil há dez anos. Hoje, seriam 4.440. O trabalho deles é voluntário. Os missionários têm entre 19 e 26 anos. Podem pregar em seu país, mas em outra cidade, ou no exterior. A missão dura dois anos para os homens e 18 meses para as mulheres. Nesse período, ficam isolados. Só podem telefonar para casa em duas datas: no Dia das Mães e no Natal. No único dia de folga da semana, podem mandar e-mails, mas apenas pelo provedor da igreja. Estão proibidos de ir ao cinema, assistir à televisão e ler jornais. “Sem interferência de fora, eles conseguem se concentrar melhor nas questões espirituais”, diz Gérson Jacques, do Departamento de Assuntos Públicos da igreja no Brasil.

Durante esses dois anos, os missionários pagam os próprios custos. Por mês, cada um gasta em média R$ 500, entre moradia, transporte e alimentação. Quando completou 15 anos, Aristóteles Tavares Júnior, o élder Tavares, ganhou uma poupança dos pais para um dia fazer a missão. Há um ano e quatro meses, deixou João Pessoa em direção a São Paulo. Ele tem 21 anos e é solteiro. “Mas tem muita menina me esperando. Quem foi missionário tem status entre elas”, diz. Seu parceiro, Daniel Sulyvan Dias, o élder Sulyvan, de 25 anos, deixou a namorada em Belém. Já se passou um ano e dez meses. Até agora ele não recebeu a “carta azul”. No jargão dos mórmons, é quando a menina dá o fora no namorado durante a missão. “Quero me casar, mas não me preocupo com isso agora. A fé absorve minha energia”, afirma.

O crescimento da religião se deve, em grande parte, a esse intenso proselitismo. O trabalho de conversão está em suas origens. Em 1823, no Estado de Nova York, um filho de fazendeiros chamado Joseph Smith disse ter recebido uma revelação. Um anjo teria lhe dito onde estavam enterradas placas de ouro com os ensinamentos da “verdadeira fé”, escritos em “egípcio reformado”. Reza a história que Smith teria traduzido os hieróglifos com a ajuda de uma pedra mágica colocada dentro de um chapéu. Ao enterrar a cara no chapéu, dizem os relatos, as letras surgiam em sua mente.

Quando terminou a tradução, Smith teria mandado imprimir os ensinamentos, formando o chamado Livro de Mórmon. Dizem as escrituras que, por volta do ano 600 a.C., uma tribo hebraica chefiada por um homem chamado Lehi teria saído de barco de Israel e chegado à costa dos Estados Unidos. Após a morte do líder, a tribo teria se dividido em duas. Uma parte passaria a ser chefiada pelo virtuoso Néfi, a outra pelo indolente Laman.

Depois da ressurreição, Cristo teria ido ao Novo Continente para apaziguar as diferenças. A paz teria durado quatro séculos. Por volta de 400 d.C., os lamanitas teriam massacrado os nefitas. O comportamento maldoso dos lamanitas teria levado Deus a escurecer a pele deles – por isso Cristóvão Colombo teria encontrado apenas índios quando chegou à América. O líder dos nefitas nesse tempo se chamaria Mórmon. Seu filho, Moroni, seria o último sobrevivente. Teria sido ele, na forma de anjo, quem teria revelado o local onde estavam as placas de ouro a Joseph Smith. Com o livro na mão, Smith teria começado a pregação – como se fosse o primeiro missionário da igreja.

Os mórmons não se consideram uma religião a mais, e sim a igreja restaurada de Jesus – por isso, eles também seguem a Bíblia. Como os demais cristãos, acreditam que Jesus voltará. Somente quem tiver a alma pura e uma postura exemplar se salvará do Juízo Final e viverá ao lado de Deus, também chamado de Pai Celestial. Por essa razão, os mórmons se autodenominam “santos”. Para eles, os espíritos podem chegar a ser tão perfeitos quanto Deus. “O homem pode se tornar Deus. Ele tem o potencial. Nossa vida pode progredir na imortalidade”, afirmou o atual presidente da igreja, Gordon Hinckley, num documentário produzido pela rede americana NBC.

O presidente é a autoridade máxima da igreja. Ele é considerado um profeta, como foram Abraão e Moisés, e também é chamado por esse tratamento. Abaixo do presidente, como nos primeiros anos do cristianismo, estão 12 apóstolos. A idade é um critério usado na ascensão aos cargos mais altos. Os presidentes são, em geral, anciões. E somente homens participam da alta hierarquia.

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No Brasil, pela grande dimensão, a igreja é liderada por dois presidentes. Cada um cuida de uma área. O americano Mervyn Arnold, de 57 anos, é o responsável pela área sul, que abrange os Estados abaixo do Espírito Santo e tem sede em São Paulo. O uruguaio Walter Gonzalez, de 53, administra a área norte, cujo escritório fica no Recife. Arnold trabalhou como administrador público. Gonzalez é professor de computação. Ambos largaram seus respectivos empregos para se dedicar integralmente à igreja. Segundo a igreja, os presidentes regionais, assim como todas as lideranças, não recebem salário, apenas uma ajuda de custo.

Pelas normas, os presidentes de área se dedicam às atividades da igreja, por livre iniciativa, até cumprir 70 anos. A não ser que sejam nomeados como um dos 12 apóstolos. A função de Arnold e Gonzalez é supervisionar a formação dos líderes e a administração dos quatro templos, onde acontecem as cerimônias de batismo e casamento, e as 990 capelas, onde são realizadas reuniões abertas a todos, inclusive não-mórmons. Mas essas são funções apenas de apoio à sede mundial da igreja, em Salt Lake City.

Os mórmons acreditam que qualquer um pode receber revelações diretas de Deus. Mas somente o profeta poderia receber revelações que possam alterar a doutrina da igreja e as normas de conduta dos fiéis. O fim da poligamia teria sido decidido por uma revelação. “Mais que qualquer outra coisa, essa mudança singular de política da igreja foi o que a transformou em surpreendente sucesso até os dias de hoje. Desistindo da poligamia, os mórmons foram gradualmente perdendo o estigma de seita de lunáticos”, afirma o jornalista Jon Krakauer no livro Pela Bandeira do Paraíso, em que narra a origem da religião e da divisão em seitas dissidentes.

Outra revelação que acabou sendo útil à igreja foi a admissão de negros nas cerimônias nos templos, recebida pelo presidente Spencer Kimball, em 1978. Essas cerimônias são secretas e proibidas aos não-mórmons. É nos templos que os mórmons se casam. Antes da revelação, os negros podiam ser batizados na igreja. Sem se casar, no entanto, não poderiam ser considerados santos e nem um dia viver ao lado de Deus. A aceitação de negros ampliou as possibilidades de conversão em muitos países. Foi nesse período que explodiu o crescimento dos mórmons no Brasil. Em 1975, segundo dados da igreja, eles seriam 47 mil. Dez anos depois, chegariam a 240 mil – quase cinco vezes mais.

A religião impõe uma série de sacrifícios. No documentário da NBC, o profeta Hinckley afirma: “Não é fácil pertencer a essa igreja. Exigimos muito de nosso povo”. Os mórmons são orientados a manter a castidade até o casamento. Seria uma interpretação da menção bíblica de que o corpo é um “templo de Deus”. Por essa razão, deve ser preservado. O recato é adotado até na intimidade. Homens e mulheres usam por baixo da roupa um conjunto de camiseta e calça chamado garment. As peças são brancas. Representam pureza.

Como o corpo é um “templo divino”, também não poderia ser maculado com chá preto, café, cigarro, álcool ou drogas ilícitas, segundo eles. Outra obrigação imposta aos adeptos é o pagamento do dízimo, “um dinheiro que pertence a Deus”. A igreja orienta o adepto a separar essa quantia assim que o salário entra na conta. Só depois ele deve se preocupar com os pagamentos do mês.

O torneiro mecânico Jorge Ismael, de 48 anos, recém-convertido, diz cumprir religiosamente o mandamento. Ele está desempregado há mais de um ano. Sofre de osteoporose na bacia. Por mês, recebe R$ 600 do INSS. A décima parte desse dinheiro pesa no orçamento. A mulher de Ismael é dona de casa. Dos cinco enteados, apenas a mais velha trabalha. Eles moram numa casa de um quarto, na Vila Moraes, bairro pobre de São Paulo. Para Ismael, porém, o dízimo é um investimento. “Estava sempre atormentado, brigava muito com minha mulher. Encontrei uma paz que não conhecia”, afirma.

A contribuição de adeptos como Ismael é a principal fonte de receita da igreja. As contas não são divulgadas, mas um levantamento feito pela revista americana Time estima os ativos da entidade em US$ 30 bilhões. Por ano, a arrecadação com o dízimo giraria em torno de US$ 6 bilhões. A riqueza é visível no acabamento dos templos – são 124 no mundo inteiro. O templo de São Paulo tem vitrais importados da Itália nas 118 salas. Muitos fiéis optam por morar perto do luxuoso prédio. Localizado a 100 metros, o condomínio Vertentes do Morumbi recebeu o apelido, entre os próprios mórmons, de Mormolândia.

Além da possibilidade de um dia viver ao lado de Deus, a igreja acena com outro atrativo aos fiéis: a ideia de que a família pode permanecer unida pela eternidade. Para assegurar que os parentes continuem juntos no plano espiritual, eles casam até mesmo antepassados mortos em cerimônias reservadas. A igreja também incentiva os fiéis a ter famílias numerosas. Os mórmons dedicam um dia da semana às chamadas reuniões familiares. Na casa do empresário Steven Sorensen, de 60 anos, em São Paulo, o ritual acontece às segundas-feiras. Kassie, a caçula de 3 anos, costuma abrir o encontro com uma oração. A mãe, Roseli Sorensen, de 44, conta um episódio do Livro de Mórmon. Para dar dramaticidade, ela usa bonecos de papel de personagens. Kaylie, a filha mais velha, de 9 anos, interpreta a história. “Os laços que criamos se manterão por essa vida e depois dela”, diz Sorensen.

Para assegurar a sobrevivência da família nesta vida, os mórmons são orientados a armazenar comida por um ano. Para isso, utilizam diversas técnicas. A banqueteira Jeannie Mingorane, de 63 anos, queima o oxigênio dentro dos potes de alimento. Também consegue guardar grãos em garrafas de refrigerante de 2 litros formando vácuo. O depósito de sua casa, no Morumbi, parece um supermercado. Nas prateleiras, Jeannie tem leite em pó, carne enlatada, frutas em conserva, cogumelos shiitake secos, temperos indianos. “Precisamos estar preparados para desgraças, como desemprego ou enchentes”, diz Jeannie. Essa seria a explicação – mas não seria necessária. Em nenhuma religião jamais se precisou da razão para acreditar em histórias, seguir costumes e defender dogmas. É tudo questão de fé.

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MAIS DE UMA MULHER?

Os mórmons aboliram a poligamia há mais de um século. Mas, em seriados de televisão ou em crimes na vida real, a prática ainda é associada à religião.

Os mórmons são associados à poligamia. De todas as polêmicas em torno da religião, essa é a principal. A associação aparece de tempos em tempos, em seriados de televisão e na vida real. Em outubro, estreou no Brasil o seriado Big Love, produzido pela HBO. O protagonista é Bill, um fazendeiro americano com três mulheres e sete filhos. O personagem é baseado em Warren Jeffs, um líder religioso que tinha mais de 70 mulheres quando foi preso, em agosto. Ele era acusado de promover casamentos entre menores de idade e adultos. Estava entre as dez pessoas mais procuradas pelo FBI, a polícia federal dos Estados Unidos. Jacqueline LeBaron, líder de outro culto poligâmico, também faz parte dessa lista. Ela é acusada de participar de quatro assassinatos de ex-membros da seita. No livro Pela Bandeira do Paraíso, o jornalista Jon Krakauer relata diversos crimes relacionados à poligamia, de autoria de religiosos que se dizem mórmons. Um deles foi cometido pelos irmãos Ron e Dan Lafferty, em 1984, no Utah. Eles assassinaram a mulher e a filha de 15 meses de outro irmão obedecendo a um “mandamento divino”.

Mas tanto os protagonistas do seriado como os criminosos não são mórmons. Eles pertencem, na verdade, a seitas dissidentes. O “casamento plural” era um dos princípios da igreja em seu início. Joseph Smith, que teria recebido as revelações do anjo Moroni e se tornado o primeiro profeta, teria tido 48 mulheres. As autoridades faziam vista grossa à prática, proibida em todos os Estados americanos. Com as seguidas denúncias de estupro e violência, a pressão contra os mórmons aumentou. Em 1890, depois de uma suposta revelação ao então profeta Wilford Woodruff, a poligamia foi abolida. Muitos membros inconformados formaram cultos fundamentalistas. Atualmente, cerca de 40 mil americanos praticam a poligamia em comunidades isoladas nos Estados do Utah e do Arizona.

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GESTÃO E CARREIRA

QUANDO ELAS ESTÃO NO COMANDO

Embora elas ainda estejam em minoria, a conquista feminina de postos de liderança é uma realidade já consolidada. Mas como se comportam aquelas que chegam ao topo? Há indícios de que tendem a privilegiar a colaboração enquanto os homens costumam favorecer a hierarquia.

Quando elas estão no comando

Nunca tantas ocuparam tantos cargos de chefia – seja no setor público, em empresas privadas, no Judiciário ou no Executivo. A presença feminina em postos-chave tem se tornado cada vez mais comum – uma realidade impensável há pouco mais de duas décadas, e parece irreversível. Na população em geral, essa situação já tem aparecido nos resultados das pesquisas: dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, atualmente, em 35% dos lares as mulheres são chefes de família. E pela primeira vez no Brasil uma representante do sexo feminino chegou à presidência da República.

A conquista de visibilidade e de espaço e o aumento de responsabilidades fora de casa, porém, ainda são relativamente recentes. Não raro, ainda associamos ao poder um rosto masculino. Até há poucos anos era difícil encontrar uma mulher que pudesse representar um modelo de liderança – e acabava-se recorrendo a exemplos atípicos como Golda Meir ou Margaret Thatcher. Porém, agora que a situação está mudando, pesquisadores começam a se voltar para esta questão buscando compreender como as mulheres se comportam quando chegam ao poder. Será que tendem, inevitavelmente, a assumir um estilo masculino de comando?

Mulheres em posição de liderança, porém, encontram dificuldade de ser consideradas competentes e ao mesmo tempo admiradas. É o que revelam pesquisas – reunidas sob o título Double bind – realizadas pela empresa americana Catalyst, com a contribuição da IBM. Foram entrevistadas mais de 1.200 executivas na Europa e nos Estados Unidos. Em outras palavras, se elas assumem comportamentos femininos são consideradas menos competentes; se, ao contrário, adotam um estilo de liderança masculina são criticadas pela dureza. Historicamente, as primeiras executivas costumavam apoiar-se na cultura masculina dominante, eliminando a própria identidade. Hoje isso não é mais necessário. Mas parece que ainda é preciso aprender a não dar importância aos julgamentos, aos comentários sobre a aparência e à falta de popularidade.

ELES FORTES, ELAS CHATAS

Muitos estudos analisam a diferença entre valores de homens e mulheres, buscando identificar se, de fato, elas dedicam mais atenção a temas como paz, meio ambiente e educação.

A psicóloga italiana Donata Francescato desenvolveu um estudo sobre o assunto, publicado no periódico Psicologia di comunità. Para isso, realizou entrevistas com 109 dos 154 parlamentares de seu país e aplicou questionários para identificar características de personalidade e valores. “Queríamos verificar se as mulheres bem-sucedidas na política têm traços predominantemente masculinos, como energia, assertividade, iniciativa, dinamismo e estabilidade emocional”, diz Donata. Segundo ela, as parlamentares apresentam uma “boa mistura” de traços masculinos e femininos. “Particularmente as que obtêm mais sucesso em sua carreira tiveram pontuação mais alta em relação à média das mulheres não só quando se trata de valores “masculinos”, mas também nos aspectos considerados femininos, como sensibilidade, empatia e tendência a cooperar”, observa a pesquisadora.

Ela sugere que as líderes têm um “algo a mais” – e não apenas as que atuam na política. Um estudo sobre a bolsa de valores francesa publicado no jornal Financial Times revelou que a manutenção dos preços das ações está ligada à presença feminina na direção das empresas. “Uma pesquisa americana também indica que a percepção e a sensibilidade femininas possivelmente reduziriam o risco de desastres em Wall Street. Outras análises mostram ainda que as empresas administradas por mulheres foram menos prejudicadas pela crise mundial”, salienta Donata. As executivas, no entanto, tendem a ser extremamente exigentes e até cruéis consigo mesmas – e muitas vezes têm atitude similar com seus subordinados. E, não raro, encontram em outra mulher com a qual trabalham o espectro daquilo que temem.

Apesar dos avanços e das transformações sociais, é possível que muita gente ainda acredite que, para não ter problemas no âmbito profissional, as mulheres devessem aceitar o modelo que ainda impera no imaginário masculino: aquela que deseja ser conquistada, a secretária que faz tudo sem nunca pedir nada em troca, a mãe que acolhe e apoia. Mas hoje muitas se sentem livres para exigir, competir, ser protagonistas, e isso deixa muitos – e muitas – colegas desconfortáveis. Disso resulta uma equação simplista: mais poder para “elas”, menos para eles. Mesmo em cargos de chefia, muitas mulheres enfrentam a resistência velada quando, por exemplo, decisões são tomadas em sua ausência – como se houvesse um nível sutil de acesso a elas não permitido.

A reação explícita a essas situações, entretanto, pode custar caro. Em geral, existe uma crença tácita: só quem tem taxa elevada de testosterona está autorizado a revelar a própria arrogância e a intervir de forma agressiva. O homem que grita e dá um murro na mesa pode ser considerado grosseiro, mas também é visto como forte. Se uma mulher agir de forma semelhante, fala-se de descontrole, loucura e, não raro, surgem comentários maldosos sobre sua vida pessoal. Quando uma mulher tem prestígio e é determinada, geralmente já é definida como intransigente – mesmo por aqueles que não convivem com ela. Possivelmente prevalece um estereótipo difícil de superar: a competência feminina ameaça mais que a masculina – e isso vale tanto para homens quanto para outras mulheres. Neles, porém, a arrogância costuma ser perdoada, mas nelas não: ele é forte; ela é chata.

Pesquisa da Universidade de Michigan indicou que os estrógenos podem ter papel semelhante no organismo, independentemente do gênero. Um teste revela o aumento da produção de hormônios nas mulheres que têm comportamento dominante nas situações de conflito. Outros estudos, entretanto, mostram que elas são menos avessas à dominação social e mais inclinadas a tomar atitudes que favoreçam o igualitarismo, enquanto eles tendem a favorecer as hierarquias. Além disso, estão mais propensos a valorizar o próprio trabalho, aceitando compensações e reconhecimentos, ainda que não merecidos.

QUESTÃO DE AUTO ESTIMA

Já as mulheres muitas vezes sentem que devem render ainda mais, como se as rondasse a culpa de ter feito “um pouco menos” – mesmo que na prática isso não se confirme. E as críticas mais mordazes, não raro, vêm de outras mulheres – o que é compreensível, pois pretendem que as outras também sejam perfeitas. Em geral, o processo se repete em casa, na relação entre mães e filhas. Resultado: espera-se de uma mulher na chefia mais compreensão, e de uma subordinada, mais esforço. Talvez não seja por acaso que as mulheres se afirmem principalmente em alguns setores. Quando não estão ocupando posições importantes por motivos familiares, geralmente são executivas em setores como jurídico, comunicação, finanças. É difícil encontrá-las nos cargos mais altos, principalmente das redes de comércio e vendas. Parece que, na prática, é mais fácil para elas dirigir pequenas equipes. Por outro lado, é pouco provável que se tornem figuras carismáticas que arrebatam as massas.

Estudos desenvolvidos na Universidade de Michigan revelam que, em situações de grupos, inevitavelmente há o reconhecimento da autoridade feminina – ainda que isso não seja necessariamente de bom grado para a maioria – desde que a competência profissional se evidencie. Com os homens essa aceitação em geral se dá de forma mais fácil: eles parecem ter menos a provar em relação ao direito de ocupar determinado lugar.

Às vezes, o difícil é separar o pessoal do profissional, entrar em confronto com os colegas sem que isso interfira na amizade – e nisso parece mais fácil para os homens seguir o ditado “Amigos, amigos, negócios à parte”. Um “truque” que alguns consultores costumam ensinar a executivos é observar aquilo que estão vivendo como se fosse uma cena de um filme, e depois pensar nos conselhos a serem dados ao “ator” ou à “atriz” que interpreta o papel. Isso ajuda, por exemplo, a fugir de uma armadilha comum: o risco de exagerar na empatia quando estão em jogo decisões que influenciam a vida das pessoas. É frequente, por exemplo, que as mulheres se sintam responsáveis pelos outros e em condições de enxergar mais adiante, ocupando-se de problemas que as afastam da decisão momentânea.

A pesquisa feita por Donata revela que as parlamentares progressistas são as que têm menos disposição para a liderança, bem como para perceber as dificuldades advindas de serem deixadas de lado ou da escassa exposição na mídia. Os homens conseguem obter visibilidade com muito menos esforço. Para elas, com frequência a política é fonte de ansiedade, traz um sentimento de precariedade, de incerteza. Durante muito tempo, as parlamentares de esquerda acharam difícil se imaginar como líderes, vivendo a competição pelo poder como uma oportunidade de trazer à tona capacidades ocultas. E, não raro, elas preferem ficar na sombra – uma posição, aliás, bastante comum também nas empresas. E a maioria delas tem como referência um homem de poder, como se, apesar do sucesso que alcançaram, devessem se dedicar de alguma forma a uma figura masculina.

UM PREÇO A PAGAR

De vez em quando, porém, são justamente elas que têm uma visão negativa do poder, encarado como um obstáculo que se acrescenta àqueles que a sociedade já lhes traz. Se pensarmos no contexto histórico , no qual a mulher ficou durante tanto tempo escondida em casa, faz sentido que restem em muitas os resquícios do medo de “sujar as mãos” com decisões que lhes trarão algum ônus , e não se dão conta de que, inevitavelmente, o poder tem um lado obscuro, mas também há outro positivo. A diferença está em desejar esse poder para si ou para a organização. Não é por acaso que muitas profissionais crescem na carreira em contextos nos quais o compromisso com questões sociais é claro. Muitos defendem que elas são mais sensíveis à justiça e têm um sentido mais amplo do que é coletivo, mas faltam pesquisas que comprovem essa opinião. No caso delas, a maior satisfação vem principalmente de saber que executam bem suas funções e que seu trabalho é reconhecido pelos chefes e colaboradores. Exceções à parte – e elas sem dúvida existem -, os homens gostam de exibir o poder, enquanto as mulheres escolhem o estilo “baixo perfil”. Em uma pesquisa na Universidade de Roma, foram ouvidos homens e mulheres acerca de uma mesma situação fictícia: todas as manhãs se formava, em frente a determinado escritório, uma fila de pessoas em busca de atendimento. Eles viam o fato como um símbolo de status e importância do serviço, associavam palavras que expressavam sentimentos de gratificação, orgulho e admiração. já as voluntárias encaravam a situação como um transtorno, um problema a ser resolvido, e vinculavam à cena ideias de preocupação e angústia.

Em alguns casos, porém, o poder pode trazer medo. Afinal, em última instância nosso ideal é que todos nos amem, mas para quem é “o chefe” isso dificilmente é possível. É raro que alguém se torne uma unanimidade quando se concentra em suas mãos a possibilidade de tomar decisões, e, muitas vezes, as escolhas são interpretadas como incorretas. Impopularidade e solidão quase sempre são companhia certa daqueles que assumem postos de comando. E isso parece pesar mais para as mulheres; nesses casos, uma amiga (ou amigo), o marido ou até o terapeuta podem funcionar como interlocutor, ajudando a equalizar sentimento e razão. Para os homens, entretanto, ficar só e “retirar-se para a caverna” costuma ser suficiente para administrar o estresse.

 Quando elas estão no comando.2

DUPLA JORNADA

No Brasil, cada vez mais mulheres estão encarregadas do sustento da família e das decisões tomadas no ambiente doméstico. Um perfil traçado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) por meio do cruzamento de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2009 divulgados em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que entre 2001 e 2009 a proporção de famílias chefiadas por mulheres no Brasil subiu de aproximadamente 27% para 35%. Só em 2009, 21,9 milhões famílias se identificaram nessa condição. Esse quadro, porém, não alterou os valores tradicionais: o trabalho doméstico não foi transferido para os homens, e a maioria das mulheres ainda cumpre jornada dupla. O resultado dessa configuração é a sobrecarga da mulher em todos os perfis estudados. Dados do Ipea indicam que o tradicional arranjo “casal com filhos tendo o homem como cabeça” passa a ser substituído por situações em que a mulher é a pessoa de referência na casa.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 13; 31-35 – PARTE II

Alimento diário

A Partida de Cristo é prevista

 

II – Ele fala com eles quanto à grande obrigação relacionada ao amor fraternal (vv. 34,35): “Vos ameis uns aos outros”. Judas já havia saído, e havia se mostrado um falso irmão, mas eles não deviam, por isso, abrigar tal inveja e suspeitas uns dos outros, pois isso seria a ruína do amor. Embora tivessem um Judas entre eles, ainda assim eles não eram todos traidores. Agora que a inimizade dos judeus contra Cristo e seus seguidores estava crescendo até às alturas, e eles deveriam esperar um tratamento como o que teve seu Mestre, interessava a eles se fortalecerem uns aos outros através do amor fraternal. Três argumentos em favor do amor mútuo são aqui ressaltados:

1. A ordem de seu Mestre (v. 34): “Um novo mandamento vos dou”. Ele não apenas o recomenda como agradável e gratificante, não apenas o aconselha como extraordinário e produtivo, mas o ordena, e o torna uma das leis fundamentais de seu reino. O amor caminha lado a lado com o mandamento de crer em Cristo. 1 João 3.23; 1 Pedro 1.22. Esta é a ordem do nosso rei, que tem o direito de emanar leis para nós. Ê a ordem do nosso Redentor, que nos dá esta lei a fim de curar nossas enfermidades espirituais e de nos preparar para nossa bem-aventurança eterna. É um novo mandamento, isto é:

(1) É um mandamento renovado. Era um mandamento desde o princípio (1 João 2.7), tão antigo quanto a lei da natureza, era o segundo grande mandamento da lei de Moisés. Ainda assim, porque é também um dos grandes mandamentos do Novo Testamento, de Cristo, o novo Legislador, é chamado de novo mandamento. Ê como um livro antigo em uma nova edição, corrigida e ampliada. Este mandamento foi tão corrompido pelas tradições da igreja judaica, que quando Cristo o restaurou, e o colocou sob a verdadeira luz, ele pôde muito bem ser chamado de um novo mandamento. Leis de vingança e retaliação estavam tanto em uso, e o amor próprio era tão predominante, que a lei do amor fraternal havia sido negligenciada como obsoleta e desatualizada. Desta forma, tendo vindo como um mandamento de Cristo, este era um mandamento novo para muitas pessoas.

(2) É um mandamento excelente, assim como uma nova canção é uma excelente canção, que agrada de forma incomum.

(3) É um mandamento eterno, tão singular que permanecerá para sempre. Assim como o novo concerto, que nunca se deteriorará (Hebreus 8.13), ele se manterá novo por toda a eternidade, quando a fé e a esperança se tornarão obsoletas.

(4) Da forma que Cristo o propõe. ele é novo. Antes era: ”Amarás o teu próximo”, agora é: ”Amai-vos uns aos outros”. Ele é ordenado de uma forma mais convincente quando é exigido dessa forma, como uma obrigação mútua entre as pessoas.

2. O exemplo do Salvador é mais um argumento a favor do amor fraterna l: “Como eu vos amei”. É isto que o torna um “novo mandamento”, que esta causa e motivo do amor (“como eu vos amei”) são completam ente novos, e, como tal, ele esteve oculto de eras e gerações. Entende-se isto:

(1) A partir de todos os exemplos do amor de Cristo por seus discípulos, o que eles já haviam sentido durante o período em que Ele entrava e saía dentre eles. Ele falava gentilmente com eles, muito preocupado com eles, e com seu bem-estar. Ele os instruía, aconselhava e consolava, orava com eles e por eles, justificava-os quando eram acusados, apoiava-os quando eram menosprezados, e os reconhecia publicamente como sendo os mais queridos a Ele, sim, mais do que sua mãe, irmãs ou irmãos. Ele os censurava pelo que estava errado e ainda assim, era compassivamente paciente com suas fraquezas, perdoava-os, conseguia o melhor deles e não dava importância à omissão de muitos. Assim Ele os havia amado e acabara de lavar seus pés, e dessa forma, eles deviam amar uns aos outros, e amar até o fim. Ou

(2) Pode ser entendido a partir do exemplo especial de amor que o Senhor demonstro u por todos os seus discípulos, o exemplo que Ele estava prestes a dar, ao entregar sua vida por eles. “Ninguém tem maior amor do que este”, cap. 15.13. Se Ele amou a todos nós dessa maneira, de maneira justa, Ele pode esperar que nos amemos uns aos outros. Não que sejamos capazes de fazer algo da mesma natureza uns pelos outros (Salmos 49.7), mas devemos amar uns aos outros em alguns aspectos da mesma maneira. Devemos colocar isto diante de nós como nosso modelo, e obter orientação dele. O amor que temos uns pelos outros deve ser voluntário e pronto, ativo e precioso, constante e perseverante. Devemos amar a alma de cada um dos nossos irmãos. Também devemos nos amar uns aos outros pelo seguinte motivo, e com base na seguinte reflexão: porque Cristo nos amou. Veja Romanos 15.1,3; Efésios 5.2,25; Filipenses 2.1-5.

3. A reputação de sua profissão de fé (v. 35): “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. Observe que devemos ter amor, não apenas mostrar amor, mas mantê-lo como fundamento e hábito, e mantê-lo quando não houver qualquer ocasião imediata de demonstrá-lo, mantê-lo disponível. “Por meio disso se tornará patente que vós sois realmente meus seguidores, por me seguirdes nisto”. Observe que o amor fraternal é o distintivo dos discípulos de Cristo. Através disto, Ele os conhece; através disto, eles podem conhecer a si mesmos (1 João 2.14); e através disto, outros podem conhecê-los. Este é o uniforme de sua família, a característica distinta de seus discípulos. Por isto, Ele os faria conhecidos, como aquilo em que eles superavam a todos os outros, o amor de uns pelos outros. O amor era uma qualidade pela qual seu Mestre era famoso. Todos aqueles que já tinham ouvido falar a respeito dele, tinham ouvido sobre seu amor, seu grande amor. Portanto, se vissem quaisquer pessoas sendo mais carinhosas umas com as outras do que aquilo que seria considerado comum, diriam: “Certamente esses são os seguidores de Cristo, eles estiveram com Jesus”. Nestas circunstâncias, parece:

(1) Que o coração de Cristo estava muito interessado em que seus discípulos se amassem uns aos outros. Nisto eles devem ser especiais. Enquanto o estilo do mundo é ser cada um por si, eles deviam ser cordiais uns com os outros. Ele não diz: Nisto conhecerão que sois meus discípulos – se realizardes milagres, pois um realizador de milagres, sem amor, nada é (1 Coríntios 13.1,2), mas: se vos amardes uns aos outros, com base em um princípio de renúncia e gratidão a Cristo. O Senhor Jesus Cristo teria que ser o exemplo vivo de sua religião, o símbolo mais importante da verdadeira igreja.

(2) Que a verdadeira honra dos discípulos de Cristo é se sobressaírem no amor fraternal. Nada será mais efetivo do que isto para recomendá-los à estima e ao respeito dos outros. Veja que poderoso atrativo é o amor, Atos 2.46,47. Tertuliano fala disso como a glória da igreja primitiva, que os cristãos fossem conhecidos por seu amor de uns pelos outros. Seus adversários prestaram atenção nisso e disseram: Vejam como esses cristãos amam uns aos outros, Apologia, cap. 39.

(3) Que, se os seguidores de Cristo não se amarem uns aos outros, eles não apenas trarão uma injusta vergonha sobre sua fé, mas darão um motivo justo para suspeitarem de sua própria sinceridade. Ó Jesus! São esses teus cristãos, essas pessoas agitadas, maliciosas, vingativas e de má índole? Ô Deus! Seria esta a capa de teu Filho? Quando nossos irmãos precisarem da nossa ajuda, e nós tivermos uma chance de ser úteis a eles, quando eles tiverem opiniões e hábitos diferentes dos nossos, ou forem, de alguma maneira, nossos rivais ou nos irritarem, teremos a oportunidade de condescender e perdoar. Em casos como estes, será conhecido se possuímos este sinal dos discípulos de Cristo.