PSICOLOGIA ANALÍTICA

DESCONFIANÇA PODE CUSTAR CARO

Suspeitar demais das intenções alheias prejudica a chance de ganhar dinheiro.

Desconfiança pode custar caro

A maior parte da população mundial vive hoje em cidades e, na prática, significa, entre outras coisas, que menos pessoas conhecem seus vizinhos. Em algum momento parece inevitável nos perguntarmos se devemos nos aproximar de outras pessoas ou levantar a guarda e nos fecharmos para fugir de eventuais perigos. Alguns pesquisadores acreditam que a falta de confiança pode não apenas prejudicar o convívio social (e nos privar de benefícios que isso traz para a saúde mental), mas também custar dinheiro.

Um número cada vez maior de estudos revela um dado intrigante: pessoas que confiam pouco em seus colegas ganham menos em transações financeiras. Participantes de um estudo de 2009, realizado em laboratório, que se tornou famoso e foi várias vezes replicado, os voluntários subestimaram o número de parceiros que dariam retorno a seu dinheiro em um jogo que seguia princípios da economia, investiram menos e acabaram com receita menor do que poderiam ter conseguido. Agora, um artigo publicado em maio no journal of Personality and Social Psychology estabelece algumas relações curiosas entre o mundo real do prejuízo financeiro e a descrença.

O cientista Daniel Ehlebracht, pesquisador da Universidade de Colônia, na Alemanha, constatou que as pessoas que reconheceram ter visões cínicas da natureza humana tiveram renda menor (em milhares de dólares, após dois e nove anos), em comparação aos seus colegas mais otimistas. Os pesquisadores excluíram várias explicações sugeridas para a ligação entre desconfiança e renda, incluindo personalidade, saúde, educação, idade, gênero e situação de emprego.

Ehlebracht sugere que o cinismo aumenta o sentimento de suspeita, o que dificulta e às vezes impede a cooperação. Se isso é verdade, essa característica não deve ser prejudicial em lugares em que um alto grau de suspeita é justificado. Examinando a situação em 41 países europeus, os pesquisadores constataram que em nações com os índices de criminalidade mais elevados e menos cooperação, o cinismo não se correlacionava com menor renda. Então, conceder aos outros o benefício da dúvida pode não significar dar a chance de ser enganado. Em vez disso, parece compensar, literalmente inclusive.

Desconfiança pode custar caro.2

QUANDO O CÉREBRO VAI ÀS COMPRAS.

Nossas compras costumam ser mais marcadas pela emoção do que pela racionalidade. Duvida? Pense no que desperta em você a visão de um produto (um sapato, um aparelho eletrônico ou até um carro, talvez) que chama sua atenção numa vitrine ou na tela do computador. Diante da visão do objeto desejado, é possível que seu coração acelere e seu cérebro comece imediatamente a buscar uma estratégia para conseguir obter aquilo que quer. Ou, quem sabe, mecanismos de repressão do desejo entrem em cena e você se convença de que é melhor esquecer essa ideia e, assim, evitar fazer dívidas. Para tentar entender como nossa mente funciona quando se trata de lidar com dinheiro, economistas criaram um modelo fictício, denominado Homo economicus, para descrever um administrador eficiente, que não se deixa dominar pelos sentimentos. Psicólogos garantem, porém, que essa proposta pautada pelo objetivo de fazer boas escolhas, sem levar em conta nossa história de vida, o valor simbólico dos bens materiais e as representações psíquicas ligadas a eles, está fadada ao fracasso.

Os cientistas Michael Deppe, da Universidade de Münster, e Peter Kenning, da Universidade de Zeppelin, ambas na Alemanha, fizeram um experimento interessante. Enquanto 22 voluntários eram submetidos a uma tomografia, os pesquisadores apresentavam diferença. A tarefa dos participantes era escolher um dos artigos. As mulheres precisavam decidir entre 15 tipos de café e os homens, optar entre 20 cervejas. De forma aleatória, a marca preferida dos voluntários sempre voltava a compor as duplas, o que facilitava a escolha.

Durante as decisões simples, a tomografia mostrou que a região do córtex pré-frontal dorsolateral (CPFDL) se reduzia e, em compensação, a do córtex pré-frontal ventromedial se mostrava mais intensa. Na prática, o resultado indica que o centro do controle racional do CPFDL é exigido quando o ato de escolher não provoca grandes emoções. Mas, se avistamos aquilo que mais nos agrada, as regiões cerebrais de controle cognitivo são desativadas e aliviadas – e aí, as emoções falam mais alto.

OUTROS OLHARES

OS SEM-SEXO

Jovens usam a internet para ampliar conquistas virtuais e se sentir desejados, revela uma pesquisa inédita. Contato físico é o que menos importa.

Os sem sexo

Os jovens não pensam só naquilo. Aliás, quase não pensam. Segundo uma pesquisa inédita sobre relacionamentos na internet, a maioria dos jovens que se registram em aplicativos de relacionamento, como o Tinder, ou flertam nas redes sociais não está à procura de sexo. A maioria busca apenas encontrar “alguém interessante”, revela o levantamento Relações beta, realizado pela consultoria Consumoteca, que entrevistou 1.000 brasileiros entre 18 e 50 anos.

Entre os jovens pesquisados, conhecer pessoas novas, iniciar relacionamentos e atingir um certo número de encontros presenciais são medidores de sucesso mais importantes no uso dessas redes do que o sexo casual. Esta opção foi descrita como um dos objetivos por apenas um quarto dos entrevistados pela consultoria. Um indicativo de como a cultura de relacionamentos se transformou nas últimas décadas.

“É uma tendência mundial. Uma pesquisa no exterior apontou que 94% dos jovens entre 16 e 22 anos preferem ficar sem transar do que abrir mão do celular. O sexo foi perdendo a importância para esses jovens. As relações agora são parte de um processo, que pode envolver transar ou não. O mais importante é mostrar que você quer a pessoa e ela te deseja de volta”, explicou Michel Alcoforado, fundador da Consumoteca. Para o doutor em antropologia, o aspecto carnal não é o mais buscado nos apps. Estamos em uma nova era: a das conquistas.

Para os jovens, pouco importa travar conhecimento real com as pessoas com quem flertam na internet. O que move esse novo processo de sedução é, justamente, o próprio jogo do flerte. O objetivo máximo é se sentir desejado. Por isso mesmo os usuários nos sites de relacionamento buscam vender uma versão “melhorada” de si mesmos. Entram em uma competição na qual vence quem apresenta o estilo de vida mais interessante.

“O comportamento de se vender como uma versão melhor faz parte da cultura digital. E isso tem a ver com as mídias sociais, pois são grandes espaços de flerte. A maioria dos jovens usa essas redes justamente para isso”, afirmou Luciana Nunes, psicóloga e diretora do Instituto Psicoinfo. Para ela, o que move esse novo comportamento é a vontade das novas gerações de brincar com as próprias sensualidade e sexualidade, ainda que “não vá dar em nada”.

Vivemos em uma era de “contatinhos” ou “contratinhos”, como são chamados os diferentes “rolos” que uma pessoa tem ao mesmo tempo, hábito cada vez mais comum entre os jovens. Menos impactados pelas pressões sociais em favor do casamento, os millennials estariam aprendendo a valorizar e a buscar a pluralidade de parceiros, o que é também incentivado pelo formato de “cardápio” e “jogo” em que boa parte dos apps de relacionamento como Tinder, Grindr e Hornet é baseada.

Se no começo da década passada a moda na internet eram sites como o Ok Cupid, em que os usuários preenchiam formulários gigantescos em busca de uma combinação perfeita, o modelo entre os apps é outro. Cada usuário sobe algumas fotos, fornece uma descrição breve sobre si e parte em busca dos “matches”. O superficial é o que dita o sucesso nessas redes. Bastam dez minutos de uso para deparar com dezenas de perfis. A possibilidade de conhecer alguém de uma região, classe social ou escolaridade diferentes nunca foi tão abrangente.

Isso não significa que os jovens tenham se tornado mais aventureiros ou permissivos na hora de descobrir novos parceiros. Pelo contrário, o que mudou foram os filtros. Agora, os perfis mais visados são os que compartilham interesses em comum. De acordo com a pesquisa, três dos quatro fato­ res mais analisados pelos usuários dos apps de relacionamento são “gostos e afinidades parecidos”, “simpatia” e “senso de humor”.

“Vivemos uma era digital, e as pessoas vão atrás do que querem. Pessoas com o mesmo hobby ou interesses similares se aproximam. É sua principal razão de estar on-line. Em um estudo recente feito no exterior, esse é o fator mais levado em conta, depois vêm as crenças e a busca de pessoas para relacionamentos sérios. Só depois estaria o sexo casual”, disse Luciana Nunes, que destaca a importância do surgimento de ferramentas, como geolocalizadores e filtros, para facilitar a supersegmentação.

O que também mudou, “pero no mucho”, é a própria maneira de se relacionar. Apesar de os “contatinhos” imperarem e as pessoas se casarem cada vez menos e mais tarde, os jovens continuam a buscar seus parceiros ideais muito mais do que romances casuais. Para Alcoforado, o conflito existe por causa dos valores que receberam de seus pais.

Criados por gerações que se relacionaram à moda antiga, os millennials não serão os primeiros a largar mão do sonho do parceiro perfeito. Segundo o livro Romance moderno (Paralela), escrito pelo comediante Aziz Ansari e pelo sociólogo Eric Klinenberg, a internet trouxe a derrocada das relações “por comodidade”. Com um novo mundo de possibilidades e pessoas a ser descobertas, os jovens tendem a fazer questão de encontrar quem consideram os parceiros ideais. O que gera um grande conflito entre a vontade de estar solteiro e a de estar junto daquele alguém especial.

“É uma geração que foi criada em lares onde a única ideia possível de relacionamento era o tradicional, monogâmico. Mas que também vê as potencialidades da relação do contratinho. Quem está numa relação séria muitas vezes fica querendo estar solteiro. O mesmo vale para o outro lado”, disse o fundador da Consumoteca.

Não à toa, a chegada do on-line dating mudou a maneira como os casais passaram a se conhecer. Segundo pesquisas apontadas em Romance moderno, os casais americanos se conheciam, principalmente, por causa da proximidade geográfica e social. Em 1940, por exemplo, a maioria das pessoas entrava em relacionamentos após elas serem apresentadas pela família, por amigos, vizinhos ou por frequentarem a mesma escola ou igreja. Já em 2010, a figura era outra: a internet aparecia em terceiro lugar, atrás apenas dos amigos em comum e dos bares como cupido de novos romances. Na comunidade LGBT, a importância é ainda maior: em 2006, muito antes da popularização dos apps de relacionamento, quase 70% dos casais homossexuais dos Estados Unidos havia se conhecido on-line.

A distância geográfica importa cada vez menos. Jéssica conheceu Alexandre por meio do Instagram, onde passaram a se corresponder via stories, uma funcionalidade da rede social que permite a seus usuários postar vídeos ou fotos que ficam por 24 horas disponíveis para ser vistos e comentados. Ela mora em Cariacica, no Espírito Santo. Ele, em Viçosa, Minas Gerais. O casal começou a trocar mensagens diárias por um mês inteiro até que a distância pudesse ser vencida. “Quando vimos, já estávamos apaixonados sem mesmo ter dado um beijo. Coisa que nem achava possível. Então viajei para a cidade dele, onde passamos um fim de semana maravilhoso juntos”, disse Jéssica. Um ano depois, o casal continua se vendo pelo menos uma vez por mês. Para Alcoforado, histórias como a de Jéssica revelam urna faceta das possibilidades da tecnologia, a segurança em tratar com desconhecidos. “A tecnologia permite que você se encontre com gente com quem nunca pensou em se encontrar. Traz urna perspectiva de segurança, não só com relacionamentos. Antes, você não entraria no carro de um desconhecido que não fosse um táxi, mas o Uber mudou isso. É o mesmo com o Tinder e ir se encontrar com pessoas desconhecidas”, afirmou.

Para criar uma imagem de si mesmo que seja desejável nas redes sociais, o internauta se vê obrigado a compartilhar fotos ou vídeos em que pareça o mais interessante possível. Isso explica a profusão de imagens de pessoas abraçando animais – mesmo que não sejam os seus -, realizando trabalho voluntário – ainda que tenha sido apenas uma vez – ou indo a shows concorridos – mesmo que seja de bandas de que não gosta tanto. O fundamental é manter a boa aparência digital.

“Se você começa a flertar com alguém nas redes sociais, se vê obrigado a alimentar essa imagem de si mesmo sempre. É preciso vender isso como um estilo de vida, o que faz com que muita gente não consiga se desligar das plataformas”, afirmou Alcoforado.

Outra prática cada vez mais comum é o envio de nudes, fotos sensuais trocadas por mensagens. Existentes quase desde os primórdios da internet, passaram por uma reformulação com o crescimento dos smartphones e dos serviços de troca de mensagem instantânea.

De acordo com a pesquisa Relações beta, a maioria dos entrevistados já enviou ou recebeu fotos desse tipo. E elas têm se tornado cada vez mais complexas e trabalhadas, com algumas chegando a receber filtros e tratamento em programas de edição de imagem. A maior segurança proporcionada por funcionalidades como o stories do Instagram, que deleta as fotografias após 24 horas e avisa caso elas sejam salvas por alguém, impulsionou o crescimento dos nudes.

Os sem sexo.2

GESTÃO E CARREIRA

DE VOLTA ÀS ORIGENS

Professor de inglês e fundador do Alibaba, Jack Ma anuncia a sua saída da gigante chinesa para voltar a se dedicar à educação.

De volta às origens

A aposentadoria está marcada para setembro do ano que vem, quando executivo completará 20 anos à frente da varejista digital e permanecerá somente no conselho diretor. A partir dessa data, o Alibaba passará a ser comandado integralmente por Daniel Zhang, que já ocupava o cargo de CEO desde 2015. “Ele demonstrou um excelente talento, visão de negócios e liderança determinada. Sua mente analítica é incomparável”, disse Ma. “Os professores sempre querem que seus alunos os excedam.” Pelas características, em teoria, Zhang parece um substituto à altura para comandar a empresa, especialmente porque Ma já não participava das decisões do dia a dia do conglomerado chinês. “Ma não esteve envolvido nas decisões diárias e a nova administração é capaz de seguir o barco”, diz Sandy Shen, diretor de pesquisas da consultoria Gartner. “É um movimento que estabelece uma estrutura e um sistema de organização sustentável.”

Na prática, porém, a história é outra. Zhang assume as rédeas em um momento de extrema competição para o Alibaba na Ásia. Um exemplo é no setor de pagamentos móveis. O aplicativo Alipay é usado em 53% das transações, mas o WeChat, da rival Tencent, tem 40% do mercado. No e-commerce a disputa é com a JD.com. No primeiro semestre, de acordo com dados da consultoria Statista, a companhia foi responsável por 16,3% das vendas pela internet na China, contra 58,2% do Alibaba. Outro desafio para ser superado está na expansão internacional da empresa. Nos EUA isso se tornou uma missão quase impossível por conta da guerra comercial travada pelos dois países.

Visto como um homem arrojado, ousado e determinado, Ma saiu do nada para se transformar na principal figura de um negócio que superou as dificuldades de empreender em um país comunista e que não vê com bons olhos o crescimento de uma mega companhia. Em 2014, a varejista registrou o maior IPO da história do mercado de capitais ao captar US$ 25 bilhões na Bolsa de Nova York. O recorde persiste até hoje. Em 2017, a gigante de Hangzhou ampliou o seu valor de mercado em 62%, chegando a US$ 433 bilhões. Em junho, a avaliação da BABA teve mais uma alta histórica, atingindo US$ 553,9 bilhões. O valor foi registrado antes dos resultados do segundo trimestre do ano, que ficaram abaixo das expectativas dos acionistas.

Em números, a operação de comércio eletrônico chinesa só fica atrás da americana Amazon. Mas a companhia de Jeff Bezos, que chegou recentemente a ser avaliada em US$ 1 trilhão, nunca conseguiu fincar de vez os pés no mercado chinês. A empresa de Seattle registrou apenas 0,7% das vendas locais nos primeiros seis meses do ano. Outra companhia que não conseguiu fazer sombra para o Alibaba na China foi o eBay. A tentativa, aliás, rendeu uma alcunha curiosa para Ma. Em 2003, às vésperas da incursão americana, o eBay era classificado como um tubarão que devorava seus concorrentes. Na época, Ma apelidou a si mesmo como “o crocodilo do rio Yangtzé”, em referência ao rio que banha a cidade Hangzhou, onde está a sede do Alibaba. O réptil levou a melhor.

Se a trajetória inspiradora e os números jogam contra qualquer sucessor de Ma, a cultura chinesa também não parece ser um fator que vá ajudar na transição de comando. Isso porque as grandes empresas do país costumam ser lideradas por seus fundadores. Avaliada em US$ 374,8 bilhões, a Tencent é comandada por Ma Huateng. O serviço de buscas Baidu, que vale US$ 76,5 bilhões, tem o cofundador Robin Li como seu homem-forte. Principal rival da Uber, a Didi Chuxing, que tem capital fechado e está avaliada em US$ 80 bilhões, segue liderada por Cheng Wei. “Esse movimento é uma quebra de paradigma”, diz In Hsieh, cofundador da China Brazil Internet Promotion. “Ma nunca será desassociado ao Alibaba. Ele é o rosto da empresa.”

Por outro lado – principalmente do globo terrestre –, existe uma tendência para que os fundadores deixem o batente. O mercado de tecnologia tem bons exemplos. São os casos de Steve Jobs (1955 – 2011), Michael Dell e Jerry Yang. Os três saíram de suas empresas, mas retornaram anos depois por conta de problemas com seus sucessores. “Foram executivos que não conseguiram liderar os negócios de maneira adequada”, diz Shen, do Gartner. “Os fundadores precisam voltar para recolocar as companhias nos trilhos.” Isso nem sempre deu certo, como no caso do Yahoo (veja mais detalhes no quadro abaixo). Já quem conseguiu fazer uma transição adequada foi Bill Gates. O fundador da Microsoft passou o bastão da companhia para Steve Ballmer e, posteriormente, para Satya Nadella. Gates, que já foi o homem mais rico de seu país, se aposentou para dedicar-se às atividades filantrópicas. É uma história que, para Ma, felizmente soa familiar.

De volta às origens.2

 

De volta às origens.3

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 13: 18-30 – PARTE II

Alimento diário

A Traição de Judas é profetizada. A Ansiedade dos discípulos

 

VI – Os discípulos ficaram ansiosos para que seu Mestre se explicasse, e lhes dissesse a quem, em particular, Ele se referia, porque somente isso podia tirá-los da sua dor atual, pois cada um deles acreditava que tinha motivo para suspeitar tanto de si mesmo como de qualquer um de seus irmãos. Neste momento:

1. De todos os discípulos, João era o mais apto a perguntar, pois ele era o favorito e sentava-se junto a seu Mestre (v. 23): “Um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava, estava reclinado no seio de Jesus”. Parece que este discípulo era João, ao comparar-se com João 21.20,24. Observe:

(1) O carinho especial que Jesus tinha por ele. Ele era conhecido por esta paráfrase, que ele era o discípulo “a quem Jesus amava”. Jesus amava a todos (v. 1), mas João lhe era particularmente querido. Seu nome te m o sentido de “gracioso”. Daniel, que fora exaltado com as revelações do Antigo Testamento, assim como João, do Novo, era um homem muito amado, Daniel 9.23. Observe que, entre os discípulos de Cristo, alguns lhe eram mais caros do que outros.

(2) Seu lugar e postura neste momento: ele “estava reclinado no seio de Jesus”. Alguns dizem que era costume, naquelas nações, sentar-se à mesa em posição reclinada, de modo que o segundo repousava no seio do primeiro, e assim por diante, o que não me parece provável, pois, em tal posição, eles não poderiam comer nem beber de forma conveniente. Porém, quer fosse este ou não o caso, João agora se reclinava no seio de Cristo, e isto parece ser uma expressão extraordinária de carinho usada naquele momento. Observe que havia alguns discípulos de Cristo que se reclinavam ao seu seio, que possuíam uma comunhão mais próxima e acessível com Ele do que outros. O Pai amava ao Filho, e este estavam em seu seio (cap.1.18), e os crentes são, da mesma maneira, um com Cristo, cap. 17.21. Esta glória todos os santos terão, em breve, no seio de Abraão. Cristo trará ao seu seio aqueles que se lançarem aos seus pés.

(3) Que o escritor não declara o nome do discípulo que estava reclinado no seio de Jesus, pois ele era o próprio escritor da história. Em vez de seu nome, ele se designou dessa maneira para mostrar que estava contente com isto. Ser o discípulo “a quem Jesus amava” era seu título honorífico, da mesma forma como na corte de Davi e de Salomão havia alguém que era o amigo do rei. Por esta razão, ele não registrou seu nome, para não se exaltar por ter recebido tão grande bênção, para que não parecesse que se gloriava disso. Paulo, em uma situação similar diz: “Conheço um homem em Cristo”

2. De todos os discípulos, Pedro era o mais ansioso para saber, v. 24. Pedro, sentado a certa distância, acenou para João, através de algum sinal ou de alguma outra maneira, para que perguntasse. Pedro era geralmente o líder, o mais propenso a se colocar na frente, e aqueles cujo temperamento natural os leva a ser assim ousados em responder e perguntar, se refreados pelas leis da humildade e sabedoria, tornam-se muito úteis. Deus concede seus dons de forma variada, mas para que os homens impetuosos na igreja não se julguem melhores, nem os modestos se desanimem, deve ser observado que o discípulo amado não era Pedro, mas João. Pedro estava desejoso de saber, não apenas para que pudesse ter a certeza de que não era ele, mas para que, sabendo quem era, pudessem fugir dele, protegerem-se dele e, se possível, frustrar seu objetivo. Seria desejável, poderíamos pensar, saber quem na igreja nos desapontará, porém deixemos que isto baste – Cristo sabe, embora nós não saibamos. O motivo pelo qual o próprio Pedro não perguntou foi que João tinha uma oportunidade muito melhor, devido à vantagem da sua posição à mesa, de cochichar a pergunta aos ouvidos de Cristo, e receber uma resposta quase pessoal. É bom nos aproximarmos daqueles que estão mais próximos a Cristo, e conseguir que nos incluam em suas orações. Conhecemos alguém que temos razões para pensar que se reclina ao seio de Cristo? Peçamos que esta pessoa nos ajude em oração.

3. A pergunta foi feita de maneira adequada (v. 25): Então, aquele discípulo, “inclinando-se… sobre o peito de Jesus”, e tendo assim a conveniência de sussurrar para Ele, lhe disse: “Senhor, quem é?” Neste momento, João demonstra:

(1) Consideração por seu condiscípulo, e pelo gesto que ele fez. Embora Pedro não tivesse a honra que João tinha nesse momento, o apóstolo amado não desdenha a sugestão e a insinuação que Pedro lhe fez. Observe que aqueles que descansam no seio de Cristo podem, não raramente, aprender alguma coisa que lhes será proveitosa com aqueles que estão aos pés do Senhor. Eles também podem ser lembrados a respeito daquilo que por si mesmos não considerariam. João, tendo aqui uma oportunidade tão auspiciosa, desejava cooperar com Pedro. Cada um de nós recebeu ao menos um dom, e deve ministrá-lo para o bem comum, Romanos 12.6.

(2) Reverência por seu Mestre. Embora ele sussurrasse isto no ouvido de Cristo, ainda assim ele o chamou de Senhor. A intimidade de que ele desfrutava não diminuiu, de forma alguma, seu respeito por seu Mestre. Convém a nós, expressarmo-nos com reverência e observar o decoro até mesmo em nossas devoções privadas, que não são testemunhadas por ninguém, bem como em reuniões públicas. Quanto mais íntima for a ligação que as almas bondosas tiverem com Cristo, mais conscientes elas serão da excelência dele e de sua própria indignidade, como em Gênesis 18.27.

4. Cristo deu uma rápida resposta a esta pergunta, todavia a sussurrou ao ouvido de João, pois parece (v.29) que o resto não estava a par do assunto. “É aquele a quem eu der o bocado molhado”, um pedaço, um a casquinha, quando o imergir no molho. “E, molhando o bocado”, enquanto João observava com atenção seu gesto, “o deu a Judas”, e Judas aceitou-o prontamente, sem suspeitar do seu intento, mas sentindo-se contente com o saboroso bocado que levaria à boca.

(1) Cristo identificou o traidor através de um sinal. Ele podia ter dito a João, pelo nome, quem ele era (“O adversário e inimigo é aquele perverso Judas, ele é o traidor, só ele e mais ninguém”). Mas, desta maneira, o Senhor exercitaria a capacidade de observação de João, e insinuaria a necessidade que seus ministros têm do espírito de discernimento, pois os falsos irmãos contra os quais devemos nos guardar não nos são dados a conhecer por palavras, mas por sinais. Eles nos serão dados a conhecer por seus frutos, por seu espírito. A consolidação de um julgamento correto a respeito deles exige grande diligência e prudência.

(2) Esse sinal consistiu no bocado que Cristo lhe deu, um sinal muito apropriado, pois, como cumprimento das Escrituras (v. 18), o traidor deveria ser alguém que comesse o pão com Ele, alguém que, nesse momento, fosse um indivíduo do povo, como Ele. Havia também um significado nisso, e nos ensina:

[1] Que Cristo, às vezes, dá bocados aos traidores. Riquezas terrenas, honras e prazeres são bocados (se pudermos falar assim) que a Providência, às vezes, coloca nas mãos dos perversos. Judas talvez se considerasse um favorito, pois ele havia recebido o bocado, embora fosse, em si mesmo, alguém sem valor, como Benjamim à mesa de José. Dessa maneira, a prosperidade dos tolos, como um espantoso bocado, contribui para destruí-los.

[2] Que não devemos ser cruéis com aqueles que sabemos que são muito mal-intencionados contra nós. Cristo serviu a Judas com a mesma gentileza com que serviu aos outros à mesa, embora soubesse que ele estava, então, conspirando para sua morte. “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer”. Isto é fazer como Cristo faz.

 

VII – O próprio Judas, em vez de ficar convencido, através disso, de sua maldade, foi ainda mais confirmado nela, e o alerta que foi dado, foi para ele “cheiro de morte para morte”, pois segue-se que:

1. O Diabo logo após tomou posse dele (v. 27): ”Após o bocado, entrou nele Satanás”, não para lhe causar tristeza, nem para perturbá-lo, que é o efeito que o inimigo causa ao possuir alguns; não para precipitá-lo no fogo, nem na água. Feliz teria sido ele se isso fosse a pior das coisas, ou se, como os porcos, tivesse sido atirado ao mar. Mas Satanás entrou nele para possuí-lo com um predominante preconceito contra Cristo e sua doutrina, e um desprezo por Ele, como alguém cuja vida era de pouco valor, para provocar nele um desejo ávido pelo prêmio da injustiça e uma determinação de não deixar que nada o impedisse de obtê-lo. Porém:

(1). Satanás já não estava antes nele? Como, então, é dito que agora Satanás entrou nele? Judas era desde o começo “um diabo” (cap. 6.70), o “filho da perdição”, mas agora Satanás obteve uma posse maior dele, entrou nele mais completamente. Seu propósito de trair seu Mestre havia agora amadurecido, tornando-se uma decisão imutável. Agora ele retornara com sete outros espíritos piores do que ele próprio, Lucas 11.26. Observe que:

[1] Embora o Diabo esteja em todo homem perverso que realiza suas obras (Efésios 2.2), ainda assim, às vezes, ele entra mais manifestamente e mais fortemente do que em outras vezes, quando os coloca sob uma enorme perversidade, que atemoriza a humanidade e a consciência natural.

[2] Traidores de Cristo têm, em si, muito do Diabo. Cristo fala do pecado de Judas como sendo maior do que o de qualquer de seus perseguidores.

(2). Como Satanás pôde entrar nele “após o bocado”? Talvez ele estivesse sabendo naquele momento que fora descoberto, tornando suas decisões desesperadas. Muitos se tornam piores pelas dádivas da generosidade de Cristo, e são confirmados em sua obstinação pelo erro, por aquilo que deveria levá-los a se arrepender. As brasas sobre suas cabeças, em vez de enternecê-los, os endurecem.

2. Cristo logo depois o dispensa e o abandona aos desejos de seu próprio coração: “Disse, pois, Jesus: O que fazes, faze-o depressa”. Isto não deve ser entendido como alertando-o para sua maldade ou justificando-o nela, mas, ou:

(1) Como o abandono de Judas ao comando e poder de Satanás. Cristo sabia que Satanás havia entrado nele e tinha posse pacífica, e agora Ele o dá por perdido. Os vários métodos que Cristo havia utilizado para seu convencimento foram ineficazes, por isso Ele diz: “O que fazes, faze-o depressa. Se estiveres decidido a te desgraçar, vá em frente, e aceite o que vier”. Observe que quando o espírito maligno é aceito de boa vontade, o bom Espírito, de maneira adequada, se retira. Ou

(2) Como o desafiando a fazer seu pior: “Você está planejando contra mim, coloque seu complô em andamento e fique à vontade, quanto antes, melhor, não tenho medo de você, estou pronto para você”. Observe que nosso Senhor Jesus estava muito entusiasmado para sofrer e morrer por nós, e estava impaciente com a demora na conclusão de sua tarefa. Cristo fala da traição de Judas como alguma coisa que Judas estivesse fazendo naquele momento, embora ele apenas a estivesse tramando. Aqueles que estão tramando e planejando o mal já estão, na visão de Deus, fazendo o mal.

3. Aqueles que estavam à mesa não entenderam o que Jesus quis dizer, pois eles não ouviram o que Ele sussurrara a João (vv. 28,29): “Nenhum dos que estavam assentados à mesa”, nem os discípulos, nem quaisquer outros dos convidados, exceto João, sabia com que intenção Ele dissera isto.

(1) Eles não suspeitaram de que Cristo o dissera a Judas, como traidor, porque não havia entrado em suas cabeças que Judas fosse um traidor, nem que se tornasse um. Observe que é uma estupidez perdoável nos discípulos de Cristo não serem perspicazes em suas críticas. A maioria está pronta a dizer, quando ouve coisas ásperas ditas de forma genérica: Uma hora quer dizer uma coisa, e mais tarde, outra. Mas os discípulos de Cristo eram tão bem ensinados a amar uns aos outros que não podiam aprender a suspeitar facilmente uns dos outros. A caridade não pensa mal.

(2) Eles, portanto, aceitaram como verdade que Jesus dissera isso a Judas como ao depositário ou tesoureiro da casa, dando-lhe ordem para gastar algum dinheiro. A conjectura deles, neste caso, nos expõe os usos e propósitos para os quais nosso Senhor Jesus comumente direcionava os gastos, do pouco que possuía em reserva, e assim nos ensina como honrar ao Senhor com nossos recursos. Eles concluíram que algo deveria ser desembolsado, ou

[1] Em obras de piedade: “Compra o que nos é necessário para a festa”. Não obstante Ele tivesse alugado um salão no qual poderiam comer a ceia da Páscoa, Ele também comprara provisões para ela. Os valores que forem desembolsados para a aquisição daquilo que for necessário para a manutenção da obra de Deus entre nós deve ser considerado bem aplicado, e agora temos menos razões para invejar os gastos do passado, pois o Evangelho está longe de ser tão custoso como era a adoração na dispensação da lei de Moisés.

[2} Ou em obras de caridade: “Ou que desse alguma coisa aos pobres”. Por causa disso, parece, em primeiro lugar, que embora nosso Senhor Jesus vivesse, Ele próprio, de esmolas (Lucas 8.3), Ele dava esmolas aos pobres, um pouco do pouco. Embora pudesse muito bem ser isentado, não apenas porque Ele próprio era pobre, mas porque fez tanto bem de outras maneiras, curando tantos gratuitamente, mesmo assim, para estabelecer um exemplo para nós, Jesus dava, para alívio dos pobres, daquilo que Ele tinha para subsistência de sua família. Veja Efésios 4.28. Em segundo lugar, que a ocasião de uma festa religiosa era considerada um momento adequado para obras de caridade. Quando celebrava a Páscoa, o Senhor Jesus sempre dava alguma coisa para os pobres. Ao sentirmos a bondade de Deus para conosco, devemos ser bondosos para com os pobres.

4. Judas, em consequência disto, se fixa vigorosamente em perseguir seu intento contra Cristo: ele “saiu”. São observadas:

(1) Sua rapidez na partida: ele saiu imediatamente, e abandonou a casa:

[1] Por medo de ser mais inteiramente exposto ao grupo, pois, se o fosse, ele podia esperar que todos eles caíssem sobre ele, e isto significaria sua morte, ou pelo menos a frustração de seu projeto.

[2] Ele saiu como alguém que está farto da companhia de Cristo, e do seu grupo de apóstolos. Cristo não precisou expulsá-lo, o próprio Judas se excluiu. Observe que retirar-se da comunhão dos fiéis é geralmente o primeiro ato visível de um apóstata, e o início de uma apostasia.

[3] Ele saiu para perseguir seu objetivo, para procurar por aqueles com quem ele iria fazer sua barganha, e para fazer seu acordo com eles. Agora que Satanás havia entrado em Judas, ele o impelia com precipitação, para que Judas não enxergasse seu erro, e se arrependesse.

(2) A hora de sua partida: “Era já noite”.

[1] Embora fosse noite, um horário inoportuno para negócios, tendo Satanás entrado nele, o frio e a escuridão da noite não foram dificuldades para ele. O fato dos servos do Diabo serem tão determinados e arrojados a serviço dele deveria nos envergonhar de nossa preguiça e covardia em nosso serviço a Cristo.

[2] Como era noite, isto lhe dava a vantagem do segredo e do encobrimento. Ele não queria ser visto tratando com os principais dos sacerdotes, e, portanto, escolheu a noite escura como o horário mais apropriado para tais obras das trevas. Aqueles cujas obras são más, amam as trevas e odeiam a luz. Veja Jó 24.13ss.