PSICOLOGFIA ANALÍTICA

SERÁ O EGO INESGOTÁVEL?

Há situações em que pesquisas mostram resultados desconcertantes, que desafiam convicções dos cientistas. Nesses casos, é conveniente insistir na hipótese original, a despeito das evidências ou é preciso rever-se?

Será o ego inesgotável

Um interessante caso recente diz respeito ao “esgotamento do ego”, conceito cunhado em 1998 pelo psicólogo norte-americano Roy Baumeister para referir-se à crescente dificuldade de autocontrole à medida que a pessoa realiza atividades mentais até extenuar-se. Variações cotidianas no autocontrole, na “força de vontade”, seriam perceptíveis, por exemplo, na adesão a dietas alimentares, presumivelmente mais fácil pela manhã do que à noite. Experimentos de laboratório mostram efeitos compatíveis com a teoria em comportamentos tão diversos quanto alimentação, atos de generosidade, expressão de opiniões ou motivação para realizar tarefas adicionais.

Visando explicar por que o autocontrole é um recurso limitado, Baumeister e colaboradores publicaram em 2017 evidências de que a realização de autocontrole reduz os níveis de glicose no sangue. Mostraram ainda que a ingestão de glicose aumenta o autocontrole e que níveis baixos de glicose predizem falta de autocontrole subsequente. Também em 2017, um estudo eletroencefalográfico independente sugeriu que o córtex cingulado anterior desempenha um papel direto no “esgotamento do ego”.

O sucesso acadêmico da teoria e seu amplo potencial explicativo a tornaram cada vez mais popular. Nas palavras de Baumeister, “a maioria dos problemas que aflige os indivíduos em nossa sociedade moderna – dependência, excessos, crime, violência doméstica, doenças sexualmente transmissíveis, preconceito, dívidas, gravidez indesejada, insucesso escolar, mau desempenho no trabalho, falta de poupança, falta de exercício – envolve algum grau de falha no autocontrole”.

A despeito de seu grande impacto na psicologia e ampla aceitação pelo público leigo, o conceito de “esgotamento do ego” acaba de ser duramente questionado por um consórcio multinacional de laboratórios através de um tipo muito particular de estudo: uma replicação pré-registrada, em que todas as análises estatísticas são previamente definidas e publicadas. Ao todo, 23 tentativas independentes de replicação foram feitas em 11 países, chegando a um total de 2.141 voluntários de pesquisa. O protocolo foi pré-aprovado por três especialistas, inclusive Baumeister.

Os resultados foram desconcertantes. Contrariando as expectativas, dados compatíveis com o “esgotamento do ego” foram observados em apenas dois dos 23 laboratórios participantes. Em um dos laboratórios o efeito foi inverso e nos outros 20 não houve nenhum efeito. Baumeister publicou em seguida uma crítica ao estudo, lamentando ter aprovado o protocolo registrado sem dar importância ao fato de que as tarefas psicológicas a serem utilizadas eram todas computacionais – portanto, bem diferentes das que ele utilizou originalmente.

Após intensa troca de argumentos, Baumeister anunciou planos para conduzir outra tentativa de replicação previamente registrada. Será o ego inesgotável? O debate continua.

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OUTROS OLHARES

CORAÇÃO VALENTE

Novo remédio e experimentos com terapia genética reduzem os riscos de óbito por insuficiência cardíaca, uma das principais causas de internações e mortes no mundo.

Coração valente

Quando uma pessoa saudável chega aos 75 anos, seu coração terá bombeado quase 180 milhões de litros de sangue para o corpo. Para cumprir a tarefa, bateu aproximadamente 100 mil vezes por dia. Desta forma, assegurou ao organismo oxigênio e nutrientes necessários ao funcionamento dos órgãos. Nem sempre isso ocorre com perfeição. Cerca de três milhões de brasileiros sofrem de insuficiência cardíaca, doença caracterizada pela deficiência do coração em bombear ou encher-se de sangue de maneira adequada. Nos Estados Unidos, são seis milhões de pessoas. Lá, como aqui, a enfermidade está entre as principais causas de hospitalizações e de óbitos, especialmente entre indivíduos com mais de sessenta anos.

Até há pouco tempo, as opções de tratamento não tinham se diversificado. Recentemente, o avanço no conhecimento da enfermidade permitiu o surgimento de novas possibilidades. Uma delas é o medicamento Entresto, da farmacêutica Novartis. É a primeira novidade em remédios depois de vinte anos. A medicação associa uma substância já usada, a valsartana, a uma molécula nova (sacubitril), inaugurando uma nova classe de drogas contra a insuficiência.

Disponível há um ano no Brasil, o remédio faz diferença na vida do engenheiro José Luís Matheus, 57 anos. O fôlego e a disposição de Matheus ficaram frágeis por causa da insuficiência cardíaca que surgiu após dois infartos. Voltaram depois que começou a usar o remédio. “Agora consigo caminhar ao menos uma hora todos os dias”, diz Matheus. Infartos são responsáveis por cerca de 30% dos casos. Entre as outras causas estão a hipertensão, a diabetes, cardiomiopatias de origens diversas e, no caso do Brasil, a doença de Chagas.

Coração valente.2

MENOS INTERNAÇÕES

Os estudos demonstraram que a droga reduziu em 20% o risco de morte por causa cardiovascular em comparação ao tratamento padrão (com apenas um remédio), diminuiu em 21% as internações decorrentes de complicações e melhorou a qualidade de vida. Responsável pela indicação do remédio a cerca de 60 pacientes, o cardiologista Paulo Bertini, de São Paulo, está entusiasmado. “A melhora clínica é impressionante”, afirma.

O Entresto foi aprovado pela FDA — agência americana responsável pela liberação de remédios — em regime de fast-track, no qual drogas com potencial para suprir necessidades não atendidas têm seu processo de revisão acelerado. Um artigo publicado pelo cientista Arthur Feldman, da Temple University (EUA), porém, sugeriu que a medicação elevaria a chance de desenvolvimento de Alzheimer, doença neurodegenerativa, e de degeneração macular relacionada à idade, uma das principais causas de cegueira. “Os médicos estão prescrevendo sem saber dos riscos”, escreveu. A Novartis afirma que as chances são teóricas, sem comprovação clínica. E que se comprometeu com a agência a incluir testes de cognição em pesquisas futuras, assegurando que, em estudos com cobaias e humanos saudáveis não encontrou associações.

Na Escola de Medicina Mount Sinai, em Nova York, os cientistas trabalham em outra frente: terapia genética. Uma experiência em animais mostrou que a intervenção em um gene associado à doença a reverteu em até 25% e diminuiu em 10% o tamanho do coração das cobaias. “Será uma opção viável de tratamento”, disse Roger Hajjar, coordenador do trabalho.

BOMBA DEFEITUOSA

O QUE É: Incapacidade de o coração bombear o sangue de forma adequada. Os órgãos não recebem oxigênio e nutrientes como deveriam.

CAUSAS: Qualquer distúrbio que afete o coração pode levar à insuficiência cardíaca.

AS MAIS COMUNS

  • Doenças arteriais coronárias
  • Infarto
  • Inflamação do músculo cardíaco por infecções virais ou bacterianas
  • Alguns tipos de remédios
  • Distúrbios que afetam a condução elétrica no coração
  • Hipertensão pulmonar
  • No Brasil, Doença de Chagas

POR QUE O REMÉDIO É INOVADOR

  • Associa duas substâncias (sacubitril e valsartana), agindo sobre alvos diferentes.
  • Em comparação ao tratamento convencional, reduz em 20% o risco de morte por causa cardiovascular.

 

GESTÃO E CARREIRA

O MEDO DE SER UMA FARSA

A síndrome do impostor, que aparece de forma mais intensa no ambiente profissional, pode estar associada ao risco de depressão.

O medo de ser uma farsa

Em algum momento da vida profissional, a maioria de nós já se sentiu uma farsa. E, em pequenas doses, essa sensação eventual pode ser até benéfica, nos fazendo rever valores e objetivos. O problema é que, para alguns, a impressão de ser uma fraude é persistente – independentemente do quanto saibam sobre suas áreas de atuação, se esforcem ou mesmo tenham acumulado conquistas e reconhecimento de seus pares e chefes. Essa condição, descrita pela primeira vez nos anos 70, é chamada de “fenômeno do impostor”. Apesar de anos de pesquisa, não se sabe quais os aspectos psicológicos específicos que levam a esse quadro e não há consenso sobre fatores externos com maior probabilidade de causar a síndrome.

Recentemente, pesquisadores da Universidade de Ghent, na Bélgica, publicaram um estudo que lança algumas luzes sobre o tema. Os cientistas solicitaram a 201 executivos de alto escalão que preenchessem oito questionários com mais de 130 questões. A pesquisa avaliou até que ponto esses funcionários sofriam do fenômeno do impostor e como eles se auto avaliavam em relação a algumas características como instabilidade emocional, responsabilidade, cuidado consigo mesmo e com os outros, amabilidade, sinceridade, extroversão, perfeccionismo, satisfação profissional e comprometimento com o trabalho.

O fenômeno do impostor estava presente em cerca de 20% dos voluntários em todos os níveis da organização. Pessoas que atribuíram a si mesmas altos escores em instabilidade emocional e baixos escores em cuidado eram as mais propensas a se sentir impostoras. Os psicólogos Jasmine Vergauwe, Bart Wille, Marjolein Feys, Filip de Fruyt e Frederik Anseel, autores do estudo, especulam que indivíduos que se sentem impostores apresentam maior tendência para autocrítica e perfeccionismo. Em outras palavras, podem exigir demais de si mesmos e ser mais comprometidos, exigentes e responsáveis do que se descrevem.

Outra descoberta interessante: profissionais que se sentem impostores mostram pontuações mais baixas em medidas do que os que os pesquisadores chamaram de “cidadania organizacional”, o que significa que são menos propensos a ajudar colegas, participar de reuniões opcionais ou desempenhar outras tarefas que não sejam essenciais para seu trabalho. Obviamente, sentir-se um impostor é angustiante – e também contraproducente. Os cientistas acreditam que o acompanhamento psicoterapêutico possa ser de grande utilidade para a redução do perfeccionismo, que muitas vezes aparece como forma de dar conta de sentimentos de insegurança e baixa autoestima. Com frequência, durante o processo terapêutico, as pessoas se dão conta de experiências vividas no passado que sustentam crenças nem sempre conscientes, de autodesvalorização, que desencadeiam sentimentos intensos de raiva, culpa, tornando-as mais propensas à depressão.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 13: 18-30 – PARTE I

Alimento diário

A Traição de Judas é profetizada. A Ansiedade dos discípulos

 

Aqui temos a descoberta do plano de Judas para trair seu Mestre. Cristo o sabia desde o princípio, entretanto revelou isso primeiro para seus discípulos, que não esperavam que Ele fosse traído, muito menos suspeitavam que um deles o fizesse, embora Ele tivesse frequentemente lhes dito isso. Sendo assim, aqui:

 

I –  Cristo lhes dá uma vaga indicação sobre isso (v. 18): “Não falo de todos vós”, Eu não posso esperar que todos vós fareis essas coisas, pois “eu bem sei os que tenho escolhido”, e quem deixei de lado, mas para que se cumpra a Escritura (Salmos 41.9): “O que come o pão comigo levantou contra mim o seu calcanhar”. Ele ainda não fala abertamente sobre o crime ou sobre o criminoso, mas aumenta a expectativa dos discípulos sobre uma revelação posterior.

1. Ele lhes indica que nem todos eram justos. Ele tinha dito (v. 10): “Vós estais limpos, mas não todos”. Portanto, neste ponto, “não falo de todos vós”. Observe que o que é dito das virtudes dos discípulos de Cristo não pode ser dito de todos os que assim são chamados. A palavra de Cristo é uma palavra distinta que diferencia “entre gado miúdo e gado miúdo”, e direcionará ao inferno milhares que se alimentaram com esperanças de que estavam indo para o céu. “Eu não falo de todos vós… Vós, meus discípulos e seguidores”. Observe que existe uma mistura do mau com o bom nas melhores sociedades, um Judas entre os apóstolos. Será assim até que cheguemos àquela sociedade abençoada, onde não entrará nada impuro ou dissimulado.

2. Porque Ele sabia quem era justo e quem não era: “Eu bem sei os que tenho escolhido”, quem são os poucos que são escolhidos entre os muitos que são chamados. Observe que:

(1) Aqueles que são escolhidos, o próprio Cristo os escolheu. Ele chamou pelo nome aqueles que tomou para si.

(2) Aqueles que são escolhidos são conhecidos de Cristo, pois Ele nunca esquece alguém a quem uma vez teve em seus pensamentos de amor, 2 Timóteo 2.19.

3. A Escritura se cumpriu na traição daquele que se mostrou falso para com Ele, o que remove deste fato uma grande parte da surpresa e da transgressão. Cristo introduziu em sua família alguém a quem Ele previu que seria um traidor e não evitou, através da graça efetiva, que ele o fosse, para que a Escritura se cumprisse. Que isso, portanto, não seja um obstáculo para ninguém, pois, embora isso, de maneira alguma, diminua o delito de Judas, pode minimizar os nossos. As Esc1ituras usadas como referência são as da queixa de Davi sobre a traição de alguns dos seus inimigos. Os intérpretes judeus, e os nossos, geralmente entendem isso corno se referindo a Aitofel. Grotius acha que isso sugere que a morte de Judas seria como a de Aitofel. Mas como aquele salmo fala da enfermidade de Davi, da qual nada é dito no momento em que Aitofel o está abandonando, isso pode ser mais bem entendido corno se referindo a algum outro de seus amigos que se tenha mostrado desleal a ele. Nosso Salvador aplica estas palavras a Judas.

(1) Judas, corno um apóstolo, foi admitido ao mais alto privilégio: ele comeu pão com Cristo. Ele era alguém próximo ao Senhor Jesus, e estimado por Ele. Era alguém de sua família, um daqueles a quem Ele era intimamente ligado. Davi diz de seu amigo traiçoeiro: Ele “comia do meu pão”. Mas Cristo, sendo pobre, não tinha um pão a que pudesse chamar propriamente de seu. Ele disse: “O que come o pão comigo”, como se o tivesse obtido pela bondade de seus amigos, que o ajudavam, tendo seus discípulos sua parte, e Judas estava entre eles. Onde quer que Cristo fosse, Judas era bem-vindo com Ele, não jantava entre os servos, mas sentava-se à mesa com seu Mestre, comia do mesmo prato, bebia do mesmo copo, e em todos os sentidos comia o que Ele comia. Ele comeu o pão milagroso com Ele, quando os pães foram multiplicados, comeu a ceia da Páscoa com Ele. Observe que nem todos os que comem pão com Cristo são seus discípulos. Veja 1 Coríntios 10. 3-5.

(2) Judas, como um apóstata, era culpado da mais baixa traição: ele levantou seu calcanhar contra Cristo.

[1] Ele o abandonou, deu suas costas a Ele, retirou-se da comunhão de seus discípulos, v. 30.

[2] Ele o menosprezou, sacudiu o pó de seus pés contra Ele, em desprezo a Ele e ao seu Evangelho. Além disso:

[3] Ele tornou-se inimigo de Cristo, mostrou desprezo por Ele, como fazem os lutadores com seus adversários, a quem desejam derrotar. Observe que não é novidade que alguns que pareciam ser amigos de Cristo mais tarde demonstrassem ser, na verdade, seus inimigos. Aqueles que fingem louvá-lo, engrandecem-se contra Ele, e com isso mostram-se culpados, não apenas da mais desprezível ingratidão, mas da mais baixa traição e deslealdade.

II – Ele lhes dá um motivo pelo qual lhes contou de antemão sobre a traição de Judas (v.19): “Vo-lo digo, antes que aconteça”, antes que Judas tenha posto em execução seu perverso complô, para que, quando acontecer, possais, em vez de vos chocardes com isso, serdes confirmados em vossa fé de que Eu sou aquele que deveria vir”.

1. Por sua clara e exata previsão das coisas que viriam, da qual nesta, como em outras ocasiões, Ele dá prova incontestável, Ele demonstra ser o verdadeiro Deus, diante do qual todas as coisas estão nuas e patentes. Cristo previu que Judas o trairia quando não existia base que suportasse tal coisa, e provou assim que Ele é a Palavra eterna, que discerne os pensamentos e intenções do coração. As profecias do Novo Testamento relativas à apostasia do final dos tempos (o que temos em 2 Tessalonicenses 2, 1 Timóteo 4, e no Apocalipse), sendo evidentemente consumadas, são uma prova de que esses textos eram de inspiração divina, e confirma nossa fé em todo o conjunto de livros das Escrituras.

2. Por esta alusão dos sinais e profecias do Antigo Testamento a si mesmo, Jesus demonstrou ser Ele o verdadeiro Messias, de quem todos os profetas deram testem unho. ”Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse”, e Ele padeceu exatamente como estava escrito, Lucas 24.25,26; cap. 8.28.

 

III – Ele dá uma palavra de encorajamento a seus apóstolos, e a todos os seus ministros a quem Ele emprega em seu serviço (v. 20): “Se alguém receber o que eu enviar, me recebe a mim”. O significado dessas palavras é o mesmo que temos em outras passagens das Escrituras, porém não é fácil perceber sua coerência aqui. Cristo havia dito aos seus discípulos que eles deveriam se humilhar e se rebaixar. “E”, diz Ele, “embora possam existir aqueles que vos desprezarão por vossa condescendência, ainda assim haverá aqueles que vos louvarão, e assim sereis honrados por isso”. Aqueles que se reconhecem dignificados pela incumbência dada por Cristo podem se contentar em ser vilipendiados pela opinião do mundo. Ou Ele pretendia silenciar os escrúpulos daqueles que, por haver um traidor entre os apóstolos, se recusariam a aceitar a qualquer um deles, pois, se um deles trairia seu Mestre, a quem qualquer deles seria fiel? Não, assim como Cristo nunca pensará o pior sobre eles, por conta do crime de Judas, da mesma forma Ele permanecerá ao lado deles, e os confessará, e da mesma forma os ressuscitará e os aceitará. Aqueles que haviam aceitado Judas quando ele era um pregador, e talvez ti­ vessem se convertido e sido edificados por sua pregação, não estavam em situação pior, nem deveriam se lamentar, de qualquer forma, por isso, embora ele posteriormente se mostrasse um traidor, pois ele era um a quem Cristo tinha enviado. Não sabemos como os homens são, muito menos o que se tornarão, mas aqueles que pare­ cem ter sido enviados por Cristo, nós devemos aceitar até que o contrário se torne aparente. Embora alguns, ao acolherem estranhos, tenham, por descuido, acolhido ladrões, mesmo assim devemos ser hospitaleiros, pois, através disso, muitos “hospedaram anjos”. Os abusos cometidos contra nossa caridade, embora sempre deter­ minados com muita discrição, nunca justificarão nossa falta de generosidade, nem nos impedirão de receber as recompensas que teremos por causa de nossa caridade.

1. Somos aqui incentivados a aceitar os ministros como enviados por Cristo: “Se alguém receber o que eu enviar”. Devemos receber aqueles que parecem ser frágeis e pobres, e sujeitos às mesmas paixões que os outros (pois, assim como a lei, também o Evangelho “constitui sumos sacerdotes a homens fracos”). “Se aquele que for chamado entregar minha mensagem, e for chamado e designado com regularidade para fazê-lo, e como um sacerdote se dedicar à Palavra e à oração, aquele que o acolher será reconhecido como meu amigo”. Cristo estava agora deixando o mundo, porém deixaria uma ordem de homens para serem seus agentes, para comunicarem sua Palavra, e aqueles que a recebem, na sua luz e amor por ela, recebem a Ele. Crer na doutrina de Cristo, obedecer à sua lei, e aceitar a salvação oferecida nos termos propostos, é o mesmo que receber aqueles que Cristo envia, e é receber o próprio Senhor Jesus Cristo.

2. Somos aqui encorajados a receber a Cristo como enviado de Deus: “Quem me recebe a mim”, quem recebe a Cristo em seus ministros, recebe também ao Pai, pois eles, da mesma forma, levam sua Palavra, batizando em nome do Pai, assim como do Filho. Ou, de maneira geral: “Quem me recebe a mim”, como seu príncipe e Salvador, “recebe aquele que me enviou”, como sua porção e felicidade. Cristo foi enviado por Deus, o Pai, e ao aceitarmos seu Evangelho, nós aceitamos a única religião verdadeira.

 

IV – Cristo, mais especificamente, os avisa do complô que um deles estava tramando contra Ele (v.21): “Tendo Jesus dito isso”, de forma geral, para prepará-los para uma revelação mais extraordinária, Ele “turbou-se em espírito”, e mostrou isso através de algum gesto ou sinal, e afirmou, declarou solenemente (com a solenidade de uma testemunha sob juramento): “‘Um de vós me há de trair’. Um de vós, meus apóstolos e seguidores permanentes”. De ninguém, de fato, poderia ser dito que o trair ia, senão daqueles em quem Ele depositava confiança, e que eram testemunhas de seus retiros. Isto não definia Judas como o pecador por qualquer obrigatoriedade inevitável, pois, embora o acontecimento seguisse, de fato, a profecia, não decorria da profecia. Cristo não é o autor do pecado, e muito menos deste crime hediondo de Judas:

1. Cristo o anteviu, pois mesmo aquilo que está oculto e que virá, e escondido dos olhos de todos os viventes, está nu e patente aos olhos de Cristo. Ele sabe o que está nos homens melhor do que eles próprios (2 Reis 8.12), e por isso vê o que será feito por eles. “Eu sabia que procederias muito perfidamente”, Isaías 48.8. 

2. Ele o predisse, não apenas em consideração aos demais discípulos, mas em consideração ao próprio Judas, para que ele pudesse ficar alerta e se salvasse do laço do Diabo. Traidores não dão prosseguimento aos seus planos quando percebem que foram descobertos. Com certeza, Judas, ao perceber que seu Mestre sabe de seu desígnio, recuará a tempo, caso contrário agravará sua condenação.

3. Ele falou disto com uma manifesta preocupação. Ele “turbou-se em espírito” quando o mencionou. Ele havia, muitas vezes, falado de seus próprios sofrimentos e morte sem tal turbamento de espírito, como manifestou aqui, quando falou da ingratidão e traição de Judas. Isto o feria profundamente. Observe que os pecados e falhas dos discípulos de Cristo são uma grande inquietação de espírito para seu Mestre. Os pecados dos cristãos são a tristeza de Cristo. “O que! Um de vocês me trair? Vocês, que receberam de mim uma generosidade tão especial. Vocês, de quem Eu tinha motivos para acreditar que seriam confiáveis, que professaram tanto respeito por mim. Que iniquidade vocês encontraram em mim para que um de vocês me traísse?” Isto atingiu seu coração, como a desobediência dos filhos entristece aqueles que os criaram e alimentaram, Isaías 1.2. Veja Salmos 95.10; Isaías 53.10.

 

V – Os discípulos rapidamente se alarmaram. Eles sabiam que seu Mestre não os enganaria nem brincaria com eles, e por isso “olhavam uns para os outros”, com uma manifesta preocupação, “sem saberem de quem Ele falava”.

1. Olhando uns para os outros, eles demonstravam a inquietação em que ficaram ao receberem este aviso. Isto fez cair sobre eles tal horror, que eles mal sabiam para onde olhar, nem o que dizer. Eles viram seu Mestre inquieto, e, por esta razão, ficara m perturbados. Isto ocorreu em uma festividade, onde eles animadamente se divertiam. Porém, a partir daqui, devemos aprender a nos regozijarmos com tremor, e como se não nos regozijássemos. Quando Davi chorou pela rebelião de seu filho, todos os seus seguidores choraram com ele (2 Samuel 15.30). Assim fizeram aqui os discípulos de Cristo. Observe que o que entristece Cristo é, e deveria ser, uma tristeza para todos os seus, especialmente as falhas escandalosas daqueles que são chamados por seu nome: “Quem se escandaliza, que eu não me abrase?”

2. Por meio disto, eles se empenharam em descobrir o traidor. Eles olharam ansiosamente para os rostos uns dos outros, para ver quem se ruborizava, ou, por alguma perturbação no semblante, manifestasse a culpa no coração. Mas, enquanto aqueles que eram fiéis tinha m suas consciências tão limpas que conseguiam levantar seus rostos sem qualquer mácula, aquele que era falso tinha sua consciência tão endurecida que não se desconcertou, nem ficou ruborizado, e, desta forma, nada foi descoberto. Cristo, dessa maneira, causou, por algum tempo, perplexidade em seus discípulos, e os deixou confusos, para que, ao deixá-los abatidos, e sub­ metê-los à prova, pudesse provocar neles uma desconfiança de si próprios e uma indignação contra a infâmia de Judas. É bom para nós, às vezes, sermos levados à contemplação e colocados para pensar.