PSICOLOGIA ANALÍTICA

DEJÁ-VU: OUTRA FORMA DE CAPTAR A REALIDADE

Durante a vivência, duvidamos da realidade por uma fração de segundo. Para neurocientistas, observar o fenômeno pode ajudar a entender melhor a consciência, os distúrbios de memória e como o cérebro produz uma imagem continua do que experienciamos.

Dejá-vu - outra forma de captar a realidade

Há mais de um século já se especulava sobre o que seria realmente o déjà-vu. Uma das conquistas recentes da ciência é a diferenciação entre o fenômeno e distúrbios específicos. Por exemplo: alucinações são percepções não associadas a estímulos externos, enquanto as imagens no déjà-vu são sempre vinculadas à realidade. A ilusão, neste último caso, consiste no fato de que, por um curto instante, algo desconhecido desencadeia uma sensação de familiaridade.

Atualmente, os fundamentos neuronais do déjà-vu ainda são conhecidos apenas de forma fragmentada. Durante muito tempo, foi bastante popular a ideia de que uma transmissão neuronal atrasada seria responsável por ele. Naturalmente, nos mais altos centros de processamento do cérebro, as informações ambientais vindas de diferentes regiões precisam ser fundidas a qualquer momento em uma impressão coerente. Seria, portanto, muito plausível que atrasos em um dos caminhos de transmissão causassem uma grande confusão e talvez também um déjà-vu.

O pesquisador Robert Efron já causou sensação em 1963 com uma teoria detalhada, feita no Hospital Administrativo dos Veteranos em Boston, em Massachusetts. Seus experimentos com a percepção temporal o levaram à hipótese de que o hemisfério esquerdo, mais especificamente o lobo temporal, seria responsável pela organização de tempo das impressões que chegam ao cérebro. Ali, todas as imagens apreendidas pela visão chegariam duas vezes, consecutivamente, com um intervalo de poucos milissegundos, uma vez diretamente, outra com um desvio pelo hemisfério direito. Se a transmissão indireta se atrasasse por algum motivo, então o lobo temporal esquerdo perceberia a diferença interpretando a cena, na segunda vez, como algo que já ocorreu.

CONEXÕES COM EPILEPSIA

A ideia básica de Efron da dupla percepção até hoje nunca foi refutada nem comprovada e, por outro lado, sabe-se que os lobos temporais têm um importante papel. Assim, alguns pacientes com dano nessa região cerebral relataram experiências frequentes de déjà-vu. O mesmo ocorreu com pessoas que sofriam de epilepsia. Foi constatado que o foco epilético se encontrava no lobo temporal. A partir daí, alguns estudiosos supuseram que os déjà-vus fossem nada menos que mini acessos do cérebro.

Avanços no campo da neurologia logo reforçaram a importância do lobo temporal. Quando um grupo de pesquisadores. coordenado pelo neurocirurgião Wilder Penfield (1891-1976), em Montreal estimulou eletricamente o cérebro aberto de seus pacientes epiléticos durante uma operação em 1959, alguns deles relataram experiências do tipo déjà-vu. O neurofisiologista Jean Bancaud (1921-1993) e seus colegas do Centro Paul Broca, em Paris, fizeram um relato semelhante em 1994: a estimulação do lobo temporal lateral ou medial desencadeou ocasionalmente em seus pacientes “estados oníricos”, entre os quais o déjà-vu também está incluído.

Apesar de ser questionável o quanto a experiência desencadeada artificialmente se assemelhasse à natural, as descobertas são plausíveis: afinal. o lobo temporal medial comprovadamente participa da memória declarativa e consciente. O hipocampo é fundamental para memorização de eventos específicos, o que nos permite revivê-los mentalmente mais tarde, como um filme. Ao seu lado estão o córtex para hipocampal e o rinal, assim como as amigdalas.

John D. E. Gabrieli e pesquisadores da Universidade Stanford apresentaram na Science resultados que sugerem que o córtex para-hipocampal e o hipocampo cumprem diferentes funções no processo da memória: enquanto o último permite a lembrança consciente de vivências, o giro para-hipocampal poderia distinguir entre estimules conhecidos e não conhecidos, e sem obrigatoriamente recorrer a uma lembrança concreta. A partir disso, Josef Spatt, do Instituto Ludwig Boltzmann, por exemplo, formulou em Viena a hipótese de que um déjà-vu surge quando o para-hipocampo desencadeia uma sensação de familiaridade sem a participação do hipocampo. Nesse instante, uma cena momentaneamente percebida seria entendida como conhecida, mesmo que não possa ter clara referência temporal. Provavelmente, diversas regiões cerebrais participam do déjà-vu: a intensiva sensação de estranhamento de si mesmo e da realidade, por exemplo, assim como a noção de tempo às vezes alterada indicam complexos processos conscientes. Durante um déjà-vu, nós duvidamos da realidade por uma fração de segundo. Ao mesmo tempo, essa pequena falha possibilita aos neurocientistas observar processos da consciência. Talvez as próximas pesquisas sobre déjà-vu ajudem não apenas a explicar como surgem distúrbios de memória, mas também como o cérebro consegue produzir uma nova imagem contínua da realidade

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.