GESTÃO E CARREIRA

O PSICOPATA NA MESA AO LADO

Eles são charmosos e carismáticos, mas também ambiciosos e indiferentes aos sentimentos dos outros; profissionais com fortes traços de personalidade antissocial não hesitam em prejudicar colegas para obter ascensão profissional. Ao valorizar excessivamente características relacionadas à liderança – como confiança, capacidade de persuasão e praticidade -, algumas corporações tendem a incentivar essa conduta.

O psicopata na mesa ao lado

Simpático, sedutor, bem articulado, inteligente, com boa retórica, capaz de oferecer exatamente (pelo menos num primeiro momento) o que o outro espera. Quem não gostaria de ter um funcionário assim? O problema é quando, após algum tempo, aqueles que convivem com a pessoa que demonstrava ter tantas qualidades se dão conta de que muitas das qualificações são inventadas e – pior – a palavra “compaixão” parece não existir em seu vocabulário. Pelo contrário: se precisar burlar normas ou prejudicar quem quer que seja para se beneficiar, ela não hesita. Indivíduos com esse tipo de comportamento foram chamados psicopatas pelo psicólogo canadense Robert Hare, professor da Universidade da Colúmbia Britânica, Vancouver. Embora alguns creiam se tratar de um distúrbio, parece ser mais adequado falar em uma estrutura psíquica, uma forma de funcionamento que os psicanalistas denominam “perverso”. Nessa mesma linha de pensamento, alguns grupos da área da saúde mental adotaram a designação personalidade antissocial ou dissocial.

Eventuais associações com um ícone extremo de perversão, o canibal Hannibal Lecter, protagonista do filme O silêncio dos inocentes e, mais recentemente, da série Hannibal, não estão totalmente fora de propósito. O personagem, interpretado pelo ator Anthony Hopkins e por Mads Mikkelsen no seriado, pode ser considerado um exemplo extremo desse transtorno. É típico da personalidade dissocial crônico desrespeito às leis e às normas, falta de cuidado com os que o cercam e total indiferença aos sentimentos alheios. Muitas das pessoas que apresentam o quadro são propensas a comportamentos agressivos e violentos. Não por acaso, os que têm essas características representam grande parte dos criminosos de alta periculosidade que estão na cadeia. Também é frequente que corruptos apresentem essa estrutura psíquica. É importante considerar, porém, que a psicopatia tem variados graus e nem todas as personalidades dissociais serão violentas e se tornarão criminosos. A sua forma branda é a mais difundida: são indivíduos que desrespeitam as regras sociais, infernizam colegas de trabalho, são manipuladores, egoístas, procuram sempre levar vantagem, mas nem sempre afrontam o Código Penal.

Robert Hare acredita que grande parte desses “psicopatas funcionais” não é identificada de imediato, mas prolifera nos cargos de chefia das empresas. São em geral bastante ambiciosos, não raro podem ser identificados com esse tipo de “transtorno”, tiranizam colegas e subordinados, e alguns chegam até a causar grandes prejuízos. Em uma pesquisa, o psicólogo americano Paul Babiak mostrou como essas pessoas disputam altos cargos e salários. Ele analisou o quadro de funcionários de três empresas de porte médio e descobriu três pessoas com fortes traços de psicopatia. Babiak traçou a trajetória de um deles desde que foi contratado. Um comportamento do rapaz, que inicialmente parecia ser uma ótima aquisição para a empresa, chamou atenção de forma bastante desagradável algumas semanas após sua contratação. Sem nenhum motivo, queixou-se de uma secretária, reconhecida por ser confiável e responsável, chamando-a de “incompetente e atrevida”.

 

JEITO DE SER

Foi um primeiro alerta. Nos meses seguintes, seu chefe percebeu que ele faltava a seus compromissos sem justificativa razoável e, depois de um ano, suspeitou que o jovem havia desviado dinheiro da empresa. Questionado sobre onde estariam os recursos, deu respostas evasivas e contou mentiras. O chefe decidiu então procurar a presidência da empresa e descobriu que o funcionário já havia se queixado dele também e foi ignorado: o presidente teceu elogios ao novo e esforçado talento da empresa. Por fim, o rapaz foi promovido e o que o havia contratado, transferido a um posto de menor destaque. Com base em estudos de caso como esse, Babiak distinguiu cinco fases.

Segundo especialistas como o psicólogo Delroy L. Paulus, da Universidade da Colúmbia Britânica, a ausência de empatia e preocupação com o outro é o que faz personalidades dissociais serem potencialmente tão ardilosas – e não necessariamente a inteligência. A falta de escrúpulos faz com que essas pessoas recorram a táticas que outros, mais conscienciosos, jamais usariam. Robert Hare mostrou em uma pesquisa recente que elas não deixam transparecer nenhum sinal físico de medo. Ele analisou um grupo de voluntários, anteriormente diagnosticados com transtorno de personalidade dissocial, e um grupo de controle sem o distúrbio. Ambos deveriam observar um cronômetro, que marcava de dez a zero. No zero, um inofensivo (mas doloroso) choque elétrico seria liberado. Os voluntários do grupo de controle demostraram, durante a contagem regressiva, sinais psicológicos de ansiedade e medo crescente, como sudorese e aumento da pulsação. Em indivíduos com estrutura perversa, essas reações simplesmente não se manifestaram.

O neurologista Ray Dolan, pesquisador do Instituto de Neurologia da Universidade College de Londres, comprovou que falta a esses indivíduos não só a capacidade de temer como também qualquer forma de colocar-se no lugar do outro, compreender seu sofrimento e desejar aliviá-lo. Ele chegou a essa conclusão ao comparar o que ocorre na amígdala, estrutura que reage a informações que despertam emoções. Em geral, ela é ativada quando se veem imagens de pessoas tristes ou que passam por necessidades. No entanto, no grupo diagnosticado com transtorno de personalidade dissocial, não foi identificado nenhum aumento de atividade da amígdala. “Em geral, a empatia ocorre de forma automática e não pode ser controlada segundo sua vontade. Quando vemos alguém sofrendo, sentimos compaixão, querendo ou não”, explica Dolan. Por isso, ele suspeita que a ausência dessa reação seja congênita.

Essas pessoas não percebem o próprio comportamento como anomalia ou um problema pessoal – o que faz com que dificilmente a psicoterapia surta efeito. Aliás, elas não costumam buscar ajuda de psicólogos ou psicanalistas, a não ser por determinação judicial. Outra característica é que não sofrem de alucinações auditivas, ou seja, obediência a “vozes” internas que lhes ditam ordens. Por isso, são considerados indivíduos com responsabilidade penal. O problema é que a pena não surte efeito. “Indivíduos com esse perfil agem de forma consciente e não se incomodam com a transgressão; eles se julgam no direito de fazer o que querem, pois se orientam pelo próprio sistema de valores”, afirma Hare, que há mais de 35 anos trabalha com detentos. Segundo ele, mesmo após ficarem anos na prisão costumam ser mais reincidentes do que outros criminosos. E, quando não entram em conflito com a lei, deixam o clima carregado no trabalho. Se atingem cargos de chefia, fica difícil combater seus desmandos.

Por isso, Hare, no Canadá, e Babiak, nos Estados Unidos, decidiram ajudar empresas a reconhecer funcionários com esse tipo de comportamento. Eles criaram um método psicológico que pode identificar os supostos “psicopatas de escritório” ainda no processo de seleção. O questionário B-Scan 360 retoma o catálogo de sinais diagnósticos de psicopatas criado em 1941 pelo psicólogo Hervey Cleckley. Hare adaptou-o com base nos resultados de seus estudos, transformando-o no chamado Psycho­pathy Checklist- Revised, conhecido como PCL-R. O B-Scan 360 registra o grau de manifestação de características críticas por meio de várias perguntas.

Detalhe: o questionário não é preenchido por quem procura emprego, e sim por ex-colegas e ex-chefes. ” Em um teste convencional, no qual o próprio candidato responde às perguntas, é possível inventar respostas para obter o melhor resultado possível”, diz Babiak. Segundo ele, aliás, esse é um talento das pessoas com traços predominantemente perversos: perceber a expectativa e as fragilidades alheias e atender a elas. Com base nos dados recolhidos, os psicólogos Hare e Babiak pretendem alertar os empregadores sobre o fato de que aparentes características relacionadas à liderança – como confiança e capacidade de persuasão, praticidade e demonstração de frieza – podem, em certos casos, ocultar tendências patológicas.

Alguns profissionais, como o psicólogo organizacional Michael Frese, da Universidade Giessen, na Alemanha, por exemplo, têm dúvidas de que o B-Scan seja um instrumento eficaz e ético. “Incentivar um funcionário a exprimir sua opinião sobre um colega, dizendo que ele ambiciona poder e sucesso, pode deflagrar a difamação”, comenta. No entanto, Frese reconhece que seja justificada a preocupação dos cientistas americanos. “No mundo corporativo, personalidades dissociais não são um fenômeno de massa, ainda assim não podemos negar que estejam presentes em muitas empresas, e, não raro, as próprias instituições incentivam comportamentos bastante cruéis em nome da produtividade.”

De fato, muitas pessoas com marcantes traços de personalidade dissocial conseguem ir longe na carreira e obter sucesso profissional – pelo menos por algum tempo. É claro que os organogramas e a forma como as empresas estão estruturadas colaboram para que indivíduos com comportamento egocêntrico alcancem cargos de chefia. Babiak vê um motivo para o êxito de algumas personalidades dissociais nas estruturas intrincadas de muitas corporações. Em algumas delas, que crescem rapidamente e adotam constantes mudanças de funcionários, as intrigas são dissimuladas por muito tempo, até que venham à tona. Psicólogos organizacionais advertem para o fato de que as próprias corporações podem abrigar uma estrutura doente e atrair funcionários com qualidades semelhantes: empresas doentes tendem a empregar pessoas que combinem com sua estrutura e exigem delas o mesmo tipo de personalidade, o que reforça o estilo inescrupuloso do grupo.

Já que na vida profissional atual valores como força, capacidade de persuasão e controle das emoções estão em alta, à primeira vista as características desses indivíduos são uma vantagem. “A capacidade de exercer poder é entendida como algo positivo pelos executivos”, observa Frese. “Carisma é um conceito relacionado aos valores de uma sociedade; se alguém os incorpora ou finge incorporá-los, somos facilmente atraídos.” É fundamental, portanto, analisar de forma crítica o que pode estar por trás de um currículo eficiente ou mesmo de um excelente vendedor das próprias qualidades. Nesses casos, a presença de psicólogos na empresa costuma ser um diferencial importante.

 

NÃO É DOENÇA

A psicopatia é uma construção clínica definida por um conjunto de traços de personalidade e comportamentos, incluindo megalomania, egocentrismo, emoções superficiais, falta de empatia ou remorso, irresponsabilidade, impulsividade e tendência a ignorar ou a violar as normas sociais. A maioria das pesquisas empíricas sobre a psicopatia envolve populações forenses mais comumente avaliadas com o Psychopathy Checklist-Revised (PCL-R), uma escala de avaliação com 20 itens que mede quatro fatores relacionados ou dimensões (interpessoal, afetiva, estilo de vida e comportamentos antissociais). Recentemente, os pesquisadores voltaram sua atenção para a natureza e as implicações de recursos psicopatas no local de trabalho. Essa pesquisa tem sido dificultada pela falta de uma ferramenta de avaliação orientada para o mundo corporativo. Embora mais pesquisas sejam necessárias antes que o B-Scan 360 seja mais amplamente usado em ambientes organizacionais, a ferramenta pode ser bastante útil no estudo de psicopatia.

TESTE DE ADMISSÃO – B-Scan 360

A ferramenta ajuda a revelar “psicopatas no trabalho” com base nos seguintes indícios:

  • Charme superficial
  • Mentira patológica
  • Sede de estímulos
  • Tendência ao desânimo
  • Caráter manipulador
  • Falta de sentimento de culpa
  • Afetos superficiais
  • Falta de empatia
  • Estilo de vida parasitário
  • Falta de controle emocional
  • Promiscuidade
  • Transtorno de comportamento desde a infância
  • Carência de objetivos realistas a longo prazo
  • Impulsividade
  • Ausência de senso de responsabilidade
  • Incapacidade de admitir os próprios erros
  • Casamentos pouco duradouros
  • Criminalidade precoce

PASSO A PASSO

FASE l: INGRESSO NA EMPRESA

Primeiro, na entrevista de emprego, o candidato mostra-se cativante, charmoso e seguro.

FASE 2: AVALIAÇÃO

Uma vez admitido, procura descobrir o mais rápido possível quem tem voz ativa na empresa e constrói relações pessoais, às vezes íntimas, com funcionários influentes.

FASE 3: MANIPULAÇÃO

De modo intencional, espalha falsas informações para que seja visto de forma positiva e os outros, de maneira negativa. Semeia desconfiança, contando aos colegas que outros os teriam difamado. Assim, cria contato individual com as pessoas, mas evita situações em que precise se posicionar diante do grupo.

FASE 4: CONFRONTO

Ele abandona as pessoas que havia cortejado quando não são mais úteis à sua escalada profissional. Em geral, suas vítimas são humilhadas e, quanto mais exploradas, menos se dispõem a falar sobre suas experiências.

FASE 5: ASCENSÃO

Por fim, aplica o golpe. Coloca os chefes uns contra os outros e toma o lugar de seu superior.

GENTE SEM CULPA

Segundo a Classificação Internacional de Transtornos Psíquicos (CID), o que chama atenção no transtorno de personalidade antissocial é a grande discrepância entre comportamento e normas sociais vigentes. Suas principais características são:

  • Indiferença aos sentimentos alheios, em especial o sofrimento.
  • Incapacidade de manter relações duradouras, facilidade de iniciar múltiplos relacionamentos.
  • Pouquíssima tolerância a frustrações e tendência ao comportamento violento.
  • Incapacidade de experimentar consciência de culpa e de aprender com a experiência.
  • Tendência a culpar os outros e a dar explicações superficiais sobre os próprios erros.

Para o diagnóstico, no mínimo três traços ou modos de comportamento devem estar presentes de forma persistente. Estima-se que esse transtorno atinja entre 1% e 3% da população adulta. Segundo Robert Hare, mulheres e homens são afetados igualmente, mas eles tendem mais claramente a desenvolver a forma violenta. O quadro engloba modelos de comportamento enraizados e contínuos que se manifestam em reações constantes a diferentes situações pessoais e sociais.

As pessoas com essa forma de funcionamento mental agem assim não apenas no trabalho, mas em todos os setores da vida. Atualmente não há consenso a respeito de o quadro ser congênito ou se desenvolver em decorrência de experiências traumáticas na infância. O neurologista Adrian Raine, da Universidade do Sudeste da Califórnia, em Los Angeles, supõe que a causa esteja na atrofia do lobo frontal, parte do cérebro intimamente relacionada à regulação do comportamento.

 

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.