ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 13: 1-17 – PARTE II

Alimento diário

Cristo Lavando os Pés dos Discípulos. A Necessidade de Obediência

 

II – Cristo lavou os pés de seus discípulos para nos dar um exemplo de sua própria e maravilhosa humildade, e mostrar como Ele era modesto e condescendente, e para que o mundo inteiro soubesse o quanto Ele podia humilhar-se por amor aos seus. Isto está indicado nos versículos 3-5. Jesus, sabendo, e agora considerando de fato, e talvez discursando sobre suas virtudes como Mediador, e dizendo a seus amigos que “o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas… levantou-se da ceia”, e, para grande surpresa dos companheiros, que desejavam saber o que Ele iria fazer, “começou a lavar os pés aos discípulos”.

1. Aqui está a justa glorificação do Senhor Jesus. Coisas gloriosas são ditas aqui a respeito de Cristo como Mediador.

(1) O Pai havia “depositado nas suas mãos todas as coisas”, havia dado a Ele dignidade em tudo, e poder sobre tudo, como possuidor do céu e da terra, de acordo com os grandes desígnios de sua missão. Veja Mateus 11.27. O acerto e a conciliação de todas as questões em divergência entre Deus e os homens foram depositadas em suas mãos como o grande árbitro e juiz, e a administração do reino de Deus entre os homens, em todos os seus aspectos, fora confiada a Ele, de forma que todas as ações, tanto de autoridade quanto de julgamento, passavam por suas mãos. Ele é “herdeiro de tudo”.

(2) Ele veio de Deus. Isso implica em que Ele estava no princípio com Deus, e tinha existência e glória, não apenas antes que nascesse neste mundo, mas antes que o próprio mundo fosse criado, e que, quando Ele veio ao mundo, veio como embaixador de Deus, comissionado por Ele. Ele veio de Deus como o Filho de Deus, e o enviado de Deus. Os profetas do Antigo Testamento foram levantados e usados por Deus, mas Cristo veio diretamente dele.

(3) Ele “ia para Deus”, para ser glorificado com Ele, com a mesma glória que Ele tinha com Deus desde a eternidade. Aquele que vem de Deus deverá ir para Deus. Aqueles que nascem do céu são destinados ao céu. Assim como Cr isto veio de Deus, para ser o representante dele na terra, da mesma forma Ele foi para Deus, para ser nosso representante no céu, e é um alivio para nós pensarmos no quanto Ele é bem-vindo lá. Ele foi trazido para perto do “ancião de dias”, Daniel 7.13. Foi-lhe dito: “Assenta-te à minha mão direita”, Salmos 110.1.

(4) Ele sabia de tudo isso. Não era como um príncipe no berço, que não sabe nada sobre a glória para a qual nasceu, ou como Moisés, que não sabia que sua face brilhava. Não, Ele tinha uma visão completa de todas as honras de sua condição elevada, e mesmo assim se humilhou a tal ponto. Mas como isso se encaixa aqui?

[1] Como um estímulo para que Ele agora deixasse rapidamente quaisquer que fossem as lições e legados que tivesse que deixar para seus discípulos, porque era agora chegada sua hora, quando Ele deveria despedir-se deles e ser elevado acima daquela convivência familiar que nesse momento Ele tinha com eles, v. 1.

[2] Pode se encaixar como aquilo que o apoiou em seus sofrimentos, e manteve seu ânimo ao longo de sua batalha tão feroz. Judas agora o estava traindo, e Ele sabia disso, e sabia quais seriam a consequências. Porém, sabendo também “que havia saído de Deus, e que ia para Deus”, Ele não recuou, mas foi em frente com ânimo.

[3) Isso parece se inserir como um realce para sua condescendência, para torná-la ainda mais admirável. As razões da graça divina são, algumas vezes, descritas nas Escrituras como estranhas e surpreendentes (como Isaias 57.17,18; Oseias 2.13,14). Assim, aqui isto é concedido como um incentivo a Cristo para humilhar-se, o que, ao contrário, poderia ter sido um motivo para Ele mostrar pompa, pois os pensamentos de Deus não são como os nossos. Compare esta passagem com aquelas que prefaciam os exemplos mais notáveis da graça, com as demonstrações da glória divina, como, por exemplo, Salmos 68.4,5; Isaías 57.15; 66.1,2.

2. Apesar disso, eis aqui a humilhação voluntária de nosso Senhor Jesus. Conhecendo Jesus sua própria glória como Deus, e sua própria autoridade e poder como Mediador, seria de se pensar que deveria seguir-se um ritual como este: Ele se levantaria da mesa, tiraria suas vestes habituais, requisitaria togas, ordenaria que mantivessem distância, e o homenageassem. Mas não, aconteceu algo totalmente contrário. Ele passou a dar o maior de todos os exemplos de humildade. Observe que uma bem fundamentada certeza do céu e da felicidade, em vez de fazer um homem inchar de orgulho, o tornará e o manterá muito humilde. Aqueles que desejarem ser considerados semelhantes a Cristo, compartilhando seu espírito, devem procurar conservar seus pensamentos humildes em meio aos maiores progressos. Cristo se humilhou, lavando os pés de seus discípulos.

(1) O ato em si era degradante e servil, e para o qual servos do mais baixo posto eram utilizados. “Eis aqui a tua serva”, disse Abigail, “servirá de criada para lavar os pés dos criados de meu senhor”. Deixe-me com o trabalho mais humilde, 1 Samuel 25.41. Se ele tivesse lavado as mãos ou os rostos deles, isso teria sido uma grande condescendência (Eliseu “deitava água sobre as mãos de Elias”, 2 Reis 3.11), mas o fato de Cristo ter se humilhado a fazer um trabalho como este, bem poderia despertar nossa admiração. Assim, Ele nos ensinou que nada está abaixo de nós quando se trata de podermos ser úteis para a glória de Deus e para o bem de nossos irmãos.

(2) A condescendência era ainda maior porque Ele fez isso para seus próprios discípulos, que, por si só, eram de uma condição humana baixa e desprezível em relação aos nobres deste mundo. Seus pés, é provável, eram raramente lavados, e, portanto, muito sujos. Em relação a Ele, eles eram seus pupilos, seus servos, e, como tal, deveriam ter lavado os pés dele. Eles dependiam dele e esperavam todas as coisas de suas mãos. Muitas das grandes mentes, por outro lado, farão coisas baixas para bajular seus superiores. Elas progridem através da humilhação, e galgam postos pela bajulação. Mas o fato de Cristo fazer isso por seus discípulos não pode­ ria ser um gesto de astúcia nem um desejo de agradar. Esta foi, de fato, uma atitude de pura humildade.

(3) Ele levantou-se da mesa para fazer isso. Embora interpretemos como tendo acontecido no fim da ceia (v. 2), isto é mais bem interpretado como estando a ceia em andamento, ou estando Ele ceando, pois se assentou outra vez à mesa (v. 12), e o encontramos molhando o bocado (v. 26), de modo que Ele fez isso no meio de sua refeição, e, com isso, nos ensinou:

[1] A não considerarmos uma perturbação, nem motivo justo para qualquer intranquilidade, sermos chamados durante nossa refeição para prestarmos a Deus ou aos nossos irmãos qualquer serviço concreto, valorizando mais o cumprimento do nosso dever do que nossa necessidade de alimento, Jó 4.34. Cristo não interromperia suas pregações para fazer um favor aos seus parentes mais próximos (Marcos 3.33), mas abandonaria sua ceia para mostrar seu amor pelos seus discípulos.

[2] A não sermos muito requintados com relação ao nosso alimento. Lavar pés sujos na hora da ceia teria feito revirar muitos estômagos sensíveis, mas Cristo fez isso, não para que pudéssemos aprender a ser rudes e sujos (a higiene e a devoção andam juntas), mas para ensinar-nos a não sermos cuidadosos, a não fazermos nossa vontade, mas a dominarmos a sensibilidade do apetite, dando às boas maneiras seu devido lugar, e nada mais.

(4) Ele se colocou nos trajes de um servo para realizar essa tarefa: Ele “tirou as vestes” da parte superior, para que pudesse dedicar-se a esse serviço mais livre­ mente. Nós devemos nos direcionar para o dever como aqueles que estão decididos a não se agarrar à ostentação, mas a se esforçar. Devemos nos despojar de tudo aquilo que alimentaria nosso orgulho ou nos atrasaria em nosso caminho e nos impediria de fazer o que temos de fazer, devemos cingir os lombos do nosso entendi­ mento, como aqueles que com fervor se prendem ao trabalho.

(5) Ele fez isso com toda a humildade que poderia existir, passou decididamente por todas as etapas do serviço, e não ignorou nenhuma delas. Ele o fez como se tivesse sido acostumado a servir dessa maneira. Ele mesmo o fez sozinho, e não teve ninguém para ajudá-lo nisso. Ele cingiu-se com a toalha, assim como os servos cobrem seu braço com um lenço, ou colocam um avental diante do seu corpo. Ele despejou água na bacia, das talhas que estavam ao lado (cap. 2.6), e então lhes lavou os pés, e, para completar o serviço, enxugou-os. Alguns acham que Ele não lavou os pés de todos eles, mas de apenas quatro ou cinco, sendo isso considerado suficiente para atingir a finalidade. Mas eu não vejo nada que sustente essa hipótese, pois, em outras ocasiões em que Ele fez alguma distinção ou exceção, isso é mencionado, e a lavagem dos pés de todos eles, sem exceção, nos mostra uma caridade universal, que é extensiva a todos os discípulos de Cristo, até mesmo ao menor deles.

(6) Nada parece indicar que Ele não tenha lavado os pés de Judas entre os demais, pois ele estava presente, v. 26. De fato, um dos atributos de uma viúva é que ela tenha lavado os pés dos santos (1 Timóteo 5.10), e havia algum conforto nisso, mas o bendito Jesus aqui lavou os pés de um pecador, o pior dos pecadores, o pior para Ele, que, naquele momento, estava planejando traí-lo.

Muitos intérpretes consideram a lavagem dos pés dos discípulos por parte de Cristo como um simbolismo de toda a sua missão. Ele sabia que era igual a Deus, e que todas as coisas eram suas, e Ele levantou-se de sua mesa em glória, despojou-se de seu manto de luz, cingiu-se com nossa natureza, tomou para si a forma de servo, não veio para ser servido, mas para servir, derramou seu sangue, derramou sua alma até à morte, e, através disso, preparou uma bacia para nos lavar dos nossos pecados, Apocalipse 1.5.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.