PSICOLOGIA ANALÍTICA

SIM, VOCÊ SABE LER MENTES!

A capacidade, nem sempre consciente. de compreender tanto a intenção quanto a dor ou a alegria do outro – mesmo sem que algo tenha sido expresso em palavras – é um atributo da complexa comunicação humana; os mecanismos cerebrais envolvidos nesse processo ajudam neurocientistas a compreender o funcionamento cerebral.

Sim, você sabe ler mentes

Desde pequenos aprendemos uma série de coisas só observando o mundo que nos cerca. Nos primeiros anos de vida começamos a entendera tristeza, alegria, desilusão e ciúmes dos outros como correlatos emocionais de nossos comportamentos. “Não chora, mamãe”, provavelmente dirá a garotinha ao ver a mãe emocionada por alguma razão. Por volta dos 4 anos, as crianças dão os primeiros passos em direção ao domínio das habilidades sociais: copiam gestos, imitam palavras e atitudes e, geralmente, desenvolvem simpatias. Dessa forma, sinalizam que fazem parte dos mesmos círculos de que todos nós participamos para nos tornar “membros da tribo”, capazes de compartilhar comportamentos socialmente contagiantes como chorar, bocejar, sorrir, gargalhar e fazer caretas de nojo.

Imaginar o que se passa com a outra pessoa por qual razão alguém fez ou disse determinada coisa nos confere alguma sensação de tranquilidade, como se o mundo a nosso redor fizesse sentido e, contornado pela lógica, se tornasse menos ameaçador. Esse tipo de intuição surge naturalmente para a maioria de nós – mas não para todos. Pessoas com autismo não dispõem desse recurso. O transtorno do desenvolvimento afeta uma pessoa em cada 500 (essa cifra varia, dependendo de como definimos o distúrbio). Atualmente, tem sido adotado o termo “transtornos do espectro do autismo” para ressaltar que a patologia varia amplamente em grau de seriedade, mas mantém em comum três sintomas: profunda ausência de habilidades sociais, baixa capacidade de comunicação e comportamentos repetitivos. Independentemente da gravidade da manifestação, na base dessas características estão os problemas de intuição social

Autistas têm dificuldade em se aproximar de outras pessoas porque não construíram um repertório de habilidades de desenvolvimento que permite que os humanos se tornem “especialistas em ter a mente alheia”. Não falamos aqui da habilidade especial de descobrir pensamentos, mas da capacidade de inferir o que os outros estão pensando e sentindo em diferentes circunstâncias.

“Existem evidências, com base em estudos de imageamento do cérebro de uma criança autista onde, inicialmente o córtex frontoinsular e o córtex cingulado anterior, normalmente ativados por interações sociais – estão praticamente inativas em autistas”, explica o psicólogo Bruce M. Hood. diretor do Centro de Desenvolvimento Cognitivo de Bristol, da Universidade de Bristol. Inglaterra. “Dados de autópsias também indicam que as estruturas do córtex frontoinsular e do córtex cingulado anterior são alteradas nos casos de autismo.

O pesquisador John Allman, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, acredita que boa parte desse déficit social pode ser atribuída à falta de um tipo especial de neurônios fusiformes, também conhecidos como neurônios de Von Economo, em homenagem ao seu descobridor, que os observou em 1925. Neurônios fusiformes consistem em um neurônio bipolar bem desenvolvido encontrado somente no córtex frontoinsular e no córtex cingulado anterior que, acredita-se, fornece a interconexão entre as áreas do cérebro ativadas pela aprendizagem e pelo contato social. Essa localização pode explicar por que neurônios fusiformes só foram encontrados em espécies particularmente sociais, como todos os grandes símios, elefantes, baleias e golfinhos.

Dentre todos os animais. os humanos são os que têm número maior de neurônios fusiformes localizados no córtex frontoinsular e no córtex cingulado anterior – as mesmas regiões que podem ser comprometidas no espectro de transtornos do autismo. “Acredita-se que os neurônios fusiformes funcionem como rastreadores das experiências sociais levando uma rápida avaliação de situações similares no futuro”, observa Hood. Segundo o pesquisador, essas estruturas fornecem a base da aprendizagem social intuitiva quando observamos e copiamos os outros. “Pode, portanto, não ser coincidência o fato de que a densidade de neurônios fusiformes nas regiões sociais aumenta desde a infância até atingir níveis de adulto já por volta do terceiro ou quarto ano de vida em crianças normais”, ressalta Hood.

Nesta idade, considerada por muitos especialistas em desenvolvimento infantil o divisor de águas, ocorre uma mudança considerável nas habilidades de intuição social. Já pessoas com autismo, que tiveram atividades de áreas do córtex frontoinsular e do córtex cingulado anterior interrompidas, apresentam dificuldade de realizar o que o resto de nós sabe fazer sem ter de pensar muito: descobrir o que se passa com nosso semelhante – basta prestar atenção. No entanto. não raro, subestimamos nossa capacidade de percepção a respeito do que as pessoas sentem e pensam.

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NEURÔNIOS-ESPELHO

É por meio das interações sociais que aprendemos o que é importante para nossa sobrevivência e a nos identificar com as emoções dos outros, reconhecer seus desejos, perspectivas, intenções. Tudo que nosso semelhante faz ou deixa de fazer nós podemos compreender, já que nosso cérebro tem a capacidade de organizar uma representação da vida interior de outra pessoa, independentemente de nosso próprio estado mental. Portanto, experimentos neurocientíficos focados em reações individuais talvez expliquem muito pouco da natureza humana. É preciso considerar também as vivências grupais.

Evidências neurocientíficas a favor da empatia humana começaram a surgir na década de 90, na Itália. A equipe liderada pelo neurocientista Giacomo Rizzolatti, da Universidade de Parma, estava pesquisando o controle motor em macacos, e para isso havia implantado eletrodos em neurônios do córtex pré-motor. Depois de realizarem as tarefas, os macacos recebiam amendoins. Para dar o petisco, o pesquisador se aproximava do animal que havia sido testado até que, de repente, o sensor ao qual o cérebro de um deles estava conectado começou a registrar alguma coisa. Os neurônios do córtex pré­motor estavam sendo ativados, apesar de o macaco permanecer imóvel.

Os italianos chamaram essas células “neurônios-espelho”, porque entram em ação não apenas em situações em que um movimento é executado, mas também quando o indivíduo observa a mesma ação realizada por outros. Os neurônios-espelho nos permitem internalizar a ação alheia e nos colocar virtualmente no lugar do outro. Isso significa que nós não só compreendemos os sentimentos dos outros simplesmente porque nosso cérebro apreende sua perspectiva, mas porque realmente compartilhamos tais sentimentos ou sensações.

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A DOR ALHEIA

Para aprofundar a pesquisa desse fenômeno, 16 casais voluntários participaram de um experimento muito original. A mulher se submetia à ressonância magnética funcional e o marido ou namorado sentava-se ao lado dela. A mão esquerda de ambos estava conectada a eletrodos, pelos quais recebiam descargas elétricas de diferentes intensidades. As mais fortes doíam como uma picada de abelha, mas duravam apenas um segundo e não deixavam marcas. Em um monitor, setas de cores diferentes mostravam para a mulher se o parceiro estava recebendo os choques e a que intensidade. Um não via o rosto do outro, guiavam-se apenas pelos sinais do monitor.

Quando a mulher recebia uma descarga de baixa intensidade, todo o circuito de assimilação da dor de seu cérebro era ativado: ínsula, córtex somatossensorial primário e secundário, córtex cingular anterior, tálamo, cerebelo e certas regiões do tronco cerebral. Essas eram justamente as reações esperadas. Entretanto, quando o parceiro recebia estímulos doloridos, e a mulher era informada disso pelo monitor, a maior parte dessas “áreas da dor” do cérebro dela tomava-se ativa, especialmente regiões emocionalmente relevantes como o córtex cingular anterior e a ínsula. É como se o cérebro se compadecesse da dor do parceiro. Contudo. a magnitude da reação variava entre as mulheres: as que haviam se mostrado especialmente empáticas numa entrevista feita antes do experimento reagiram de forma mais intensa, com uma nítida elevação da atividade nos centros cerebrais associados a dor.

Em compensação, duas importantes regiões do cérebro feminino permaneceram em absoluto silêncio: os córtices somatossensorial primário e secundário, relacionados a localização corporal da dor. O resultado é totalmente plausível pois internalizar a dor subjetivado outro já basta – a informação sensorial não é necessária. Mas, se o estimulo doloroso atinge nosso próprio corpo, temos de saber exatamente onde ele nos afeta para poder combatê-lo ou fugir dele.

A experiência puramente corporal sempre está acompanhada de sensações subjetivas que atuam como ameaças e promovem alterações de humor. Os cientistas supõem que nossa aversão emocional a dor está relacionada com a atividade de regiões como o giro cingulado anterior e a insula: ambas permaneceram ativas nas mulheres que sabiam que seus parceiros estavam recebendo uma picada dolorida. Outros estudos têm fornecido informações importantes sobre o possível papel dessas duas estruturas na assimilação da dor, bem como de outras sensações. Estímulos emocionais – mesmo dos negativos, que nos causam desconforto – desencadeiam alterações e reações em nosso corpo: transpiração, taquicardia, aumento da pressão arterial. Os pesquisadores supõem que as informações sobre o estado corporal são enviadas em diversas estações de processamento cerebral para, por fim, serem armazenadas na insula como uma espécie de “pacote subjetivo”.

MENOS RUDES

Outras pesquisas com neuroimageamento mostram que a atividade na ínsula aumenta até quando as pessoas apenas pensam que alguma coisa vai doer. “Fica evidente, portanto, que usamos informações armazenadas em algum tipo de banco de dados emocionais para antecipar certos eventos para nós mesmos, e também para os outros”, salienta o pesquisador Kevin Dutton, do Instituto Faraday da Faculdade St. Edmund, Universidade de Cambridge. Para ele, a capacidade de empatia deve ter a ver com um sistema que codifica experiências pessoais. Nosso próprio universo de sensações torna-se então matéria-prima para a compreensão das emoções alheias, o que permite concluir que podemos nos pôr no lugar de outra pessoa, sentir como ela se sente, se já tivemos alguma vez na vida experimentado sensações parecidas”, afirma.

Portanto, o altruísmo pode ser resultado da arquitetura cerebral. O fato de que propriedades humanas tão profundas tenham um fundamento neuronal é o que torna a neurociência social cognitiva uma área tão interessante. Por que a natureza nos dotou de empatia? Ao que tudo indica, para facilitar a vida em sociedade.

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O JOGO DA IMITAÇÃO

O neurocientista Giacomo Rizzolatti, da Universidade de Parma, pesquisava o controle de movimentos de macacos e para isso havia implantado eletrodos em neurônios do córtex pré-motor nos animais. Rizzolatti e sua equipe descobriram, por acaso, a existência dos “neurônios-espelho”. Essas estruturas microscópicas entram em ação não apenas quando um movimento é executado, mas também quando o indivíduo observa uma ação realizada por outros. Os neurônios-espelho nos permitem internalizar a ação alheia e nos colocar virtualmente no lugar do outro. Isso significa que nós não só compreendemos os sentimentos dos outros simplesmente porque nosso cérebro apreende sua perspectiva, mas porque realmente compartilhamos tais sentimentos ou sensações.

OUTROS OLHARES

O YOUTUBE, AS VACINAS E O AUTISMO

Desinformação e notícias falsas propagadas pela internet levam grande número de pessoas a se expor a doenças desnecessariamente.

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Em 1998, o ministro britânico Andrew Wakefield, juntamente com outros pesquisadores publicou um estudo na conceituada revista Lancet associando a vacina tríplice viral (MMR), utilizada contra sarampo, rubéola e caxumba, à causa de autismo em crianças. Apesar da imediata reação negativa da comunidade científica questionando os resultados e de publicações nos anos posteriores rebaterem as conclusões do estudo, as repercussões dessa publicação são sentidas até hoje.

Atualmente, sabemos que não existe nenhuma relação causal entre vacinas e autismo, mas o debate se arrastou por anos. Diante das inúmeras evidências de que as conclusões de Wakefield não tinham fundamento, em 2010, o Conselho Geral de Medicina do Reino Unido o julgou inapto para o exercício da medicina, qualificando seu comportamento como irresponsável e antiético. A revista cientifica British Medical Journal considerou o episódio de uma “falsificação elaborada”. No mesmo ano, a revista Lancet retirou o artigo de suas publicações, justificando que diversos elementos da publicação original estavam incorretos.

As causas do autismo ainda são desconhecidas, mas a literatura científica converge para a ideia de que estamos diante de uma condição fruto de uma complexa interação entre genes e ambiente. Alterações genéticas, influenciadas pelas condições ambientais no início da vida, desencadeiam modificações na trajetória do desenvolvimento cerebral. Uma delas se reflete na conexão estabelecida entre os neurônios. Algumas regiões encefálicas apresentam hipoconexão entre os neurônios, enquanto em outra, ocorre o contrário – os neurônios ficam hipoconectados. Na quinta versão do Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais (DSM-5), publicado em 2013, diferentes condições, como o transtorno do autismo, a síndrome de Asperger e o transtorno de desenvolvimento pervasivo, foram integradas em um diagnóstico dimensional: o de transtorno do espectro autista (TEA).

Esses transtornos são definidos pela presença de alterações na interação social e comunicação e pela presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Alterações nestes domínios se manifestarão de diferentes maneiras, como por exemplo, limitações em iniciar e manter relacionamentos ou de se ajustar a diversas situações sociais; exibição de movimentos repetitivos no uso de objetos ou de padrões ritualísticos de comportamentos verbais e não verbais. Estes sintomas manifestam-se nas primeiras etapas do desenvolvimento, mas a idade varia em função da demanda social e das capacidades da criança em desenvolver estratégias para lidar com a alteração.

Na época da publicação do trabalho de Wakefield, ele tentou levantar a hipótese de que a vacina poderia provocar alterações gastrintestinais, as quais levariam a uma inflamação no cérebro, provocando o autismo. Atualmente, sabemos da ligação existente entre a microbiota gastrintestinal e o funcionamento cerebral, mas não existe nenhuma evidência de que a hipótese de Wakefield seja verdadeira. Apesar deste fato, o trabalho do ministro britânico continua provocando estragos. Após a publicação do artigo, a taxa de vacinação contra diversas doenças caiu e em muitos países ainda não voltou a atingir os patamares desejados.

Outra consequência negativa do estudo do médico inglês pode ser observada na discriminação das informações nas mídias sociais. Recentemente, um grupo de pesquisadores da Universidade de Pisa, na Itália, avaliou o conteúdo de vídeos no YouTube usando autismo e vacinas como palavras-chave. Foram analisados 60 vídeos, sendo que a maioria tinha um discurso contrário à vacinação. Esses vídeos eram mais assistidos e compartilhados quando comparados aos vídeos pró-vacinação. Segundo os autores, pessoas que hesitam em usar vacinas são mais sensíveis a ser afetadas negativamente em relação ao uso, fazendo com que as mídias digitais funcionem como uma “câmara de eco” antivacinação. Além disso, na coluna do lado direito da tela, o YouTube recomenda vídeos com conteúdos similares ao que está sendo assistido. Apesar de os algoritmos utilizados para a seleção dos vídeos sugeridos não serem conhecidos, a maior quantidade de vídeos antivacinação disponíveis aumenta a chance de o usuário assistir a esses vídeos e, consequentemente, tornar-se menos receptivos às campanhas de vacinação.

Vivemos num tempo no qual está se tornando cada vez mais difícil separar notícias falsas de verdadeiras. Quase 20 anos após a comprovação da fraude de Wakefield, ainda estamos pagando um alto preço. Fica o alerta. Antes de compartilhar informações, devemos tomar precauções; por exemplo, checar a fonte e verificar se notícias semelhantes estão disponíveis em outros sites e blogues são maneiras de detectar possíveis fake news. Todo cuidado é pouco num mundo onde cliques valem dinheiro.

GESTÃO E CARREIRA

A RESPONSABILIDADE DOS GENES

Cientistas acreditam que o hábito de adiar tarefas pode ser uma espécie de subproduto de uma outra característica considerada oposta, a impulsividade. Mas o fato de essas características estarem no DNA não serve como desculpa para se acomodar.

A responsabilidade dos genes

 Recentemente, um grupo de cientistas da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, constatou que a tendência a adiar obrigações que assumimos está associada à genética. O pesquisador Daniel Gustavson argumenta que procrastinação e impulsividade são traços geneticamente ligados e provavelmente resultantes de origens evolutivas semelhantes. Ter atitudes impulsivas pode ter ajudado nossos antepassados a agir de forma rápida, garantindo recompensas imediatas e a sobrevivência, em tempos tão incertos. Em tempos mais recentes da história humana, em que há muitas metas a serem atingidas, podemos nos dar ao luxo de adiar algumas delas.

Os estudiosos americanos “acompanharam” 181 pares de gêmeos (idênticos que apresentam compatibilidade de 100% dos genes) e 166 duplas de gêmeos fraternos (que compartilham apenas 50% de seus genes). Foi avaliada a habilidade de todos eles de estabelecer e manter objetivos, bem como sua propensão à impulsividade de procrastinação. Considerando a similaridade de comportamentos entre aqueles com carga genética mais compatível, os cientistas concluíram que as duas características sofrem influência genética. E mais: há indícios de que haja uma “sobreposição genética” entre procrastinação e impulsividade. Isso significa que os traços não se manifestam sozinhos: a procrastinação seria, assim, um subproduto da evolução da impulsividade.

Os genes, porém, não servem de desculpa para o adiamento de tarefas. Após um longo levantamento sobre formas de lidar com o problema, a doutora em psicologia Fuschia Sirois, professora da Universidade de Sheffield, sistematizou algumas maneiras que comprovadamente podem ser aliadas na luta contra o adiamento de tarefas.

O psicólogo canadense Tim Pychlyl ressalta que a procrastinação é mais comum em pessoas propensas ao perfeccionismo, que se sentem pressionadas pela opinião alheia e temem o fracasso. Parece contraditório, mas nesse caso o adiamento de tarefas pode aparecer como uma forma de defesa. Duvidando da própria capacidade, elas deixam para fazer a atividade na última hora e, caso não consigam realizá-la a contento, podem “acalmar” a si mesmas com a desculpa de que poderiam ter obtido sucesso se tivessem se dedicado mais. É como se ficassem sempre com a possibilidade de “um dia conseguir” caso se empenhem com maior afinco.

O problema é que essa possibilidade permanece suspensa e o que predomina é a angústia, associada ao estresse, à ansiedade e a decepção consigo mesmo. Nos casos em que a pessoa se coloca com frequência em armadilhas que sabotam seu potencial, ato que traz fortes desconfortos emocionais e psíquicos para seu cotidiano, o comportamento pode ser identificado como um sintoma, um sinal de que algo maior não vai bem. “Não raro, a procrastinação reflete um problema existencial mais profundo, como a dificuldade de se identificar com as próprias escolhas e, nesses casos, costuma ser muito produtivo tratar essa situação em psicoterapia”, diz o psicólogo.

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MÃOS À OBRA!

Algumas técnicas testadas por psicólogos com grupos de voluntários são bastante úteis na hora de realizar tarefas necessárias.

1- RESPIRE. O uso de técnicas de meditação mindfulness (ou atenção plena), na qual a pessoa se senta em uma posição confortável, com a coluna reta, e se concentra no ar que entra e sai de suas narinas por alguns minutos é muito eficiente para acalmar os pensamentos e organizar prioridades. A proposta é não fazer julgamentos, apenas observar a dinâmica da própria mente. O exercício, de simples execução, ajuda a pessoa a estabelecer a própria meta. Nos últimos anos, na Universidade de Buckingham, na Inglaterra, a técnica da consciência (ou atenção) plena tem sido adotada com êxito para ajudar estudantes e professores a combater a procrastinação.

2 – DIVIDA A TAREFA. Uma das razões de adiarmos o que devemos fazer é que as metas a que nos propomos são em geral grandes e vagas, o que as torna intimadoras e desagradáveis. Assim, em vez de se propor a escrever uma monografia de uma única vez, comece por focar urna parte específica do trabalho, um capítulo, talvez. Na Universidade de Warwick fazem parte do currículo as aulas que ensinam aos estudantes técnicas de mapeamento mental, com objetivo de ajudá-los a encontrar formas de dividir tarefas difíceis, seguindo os passos necessários para completar seus projetos.

3 -NÃO SE CASTIGUE. Adiou, perdeu o prazo? Entregou um trabalho mais fraco do que o que você gostaria? Sim, é ruim, mas não adianta se atormentar. A pesquisa sobre o tema desenvolvida na Universidade de Carleton, no Canadá, por Tim Pychlyl, confirma que os estudantes que reconhecem o erro, sem ser duros demais consigo mesmos por procrastinar, tendem a não repeti-lo em sua próxima tarefa. Ou seja: o auto castigo não enfraquece o comportamento indesejável, pelo contrário. Parece que se a pessoa já “pagou” pelo seu erro pode cometê-lo novamente.

4 – PENSE NO “EU D0 FUTURO”. Em uma experiência bastante replicada, um grupo de voluntários vê uma imagem de seu próprio rosto envelhecido eletronicamente. Após essa experiência, as pessoas são questionadas sobre suas prioridades e muitos falam sobre o desejo de reservar mais dinheiro para a aposentadoria, por exemplo, pois passaram a sentir um laço mais forte com seu “eu futuro”. Em uma situação mais corriqueira, quando é necessário entregar um trabalho às 9h, por exemplo, é possível imaginar-se tentando terminá­lo desesperadamente na madrugada. Isso pode ajudar a começar a tarefa mais cedo.

5 – COMEMORE! Busque recompensas ao término de suas tarefas diárias, após terminar o que tinha que ser feito. Permita-se ter momentos de diversão, como conversar com os amigos ou assistir a uma série, com a consciência de que tudo o que você tinha que fazer já está pronto. Alguns educadores já utilizam métodos com os alunos para poder vencer a procrastinação e conseguir mais atenção durante a aula. É o caso do “tempo conquistado “(TC), que pode ser utilizado para atividades lúdicas quando a tarefa foi realiza da antes do prazo.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 13: 1-17 – PARTE I

Alimento diário

Cristo Lavando os Pés dos Discípulos. A Necessidade de Obediência

 

É geralmente dado como certo pelos comentaristas que a lavagem dos pés dos discípulos por parte de Cristo, e o sermão que se seguiu, aconteceram na mesma noite em que Ele foi traído, e na mesma reunião em que Ele comeu a Páscoa e instituiu a Ceia do Senhor. Mas eles não estão de acordo quanto a se a lavagem dos pés ocorreu antes da solenidade haver começado, ou depois de ter terminado, ou ainda entre a ceia da Páscoa e a instituição da Ceia do Senhor. Este evangelista reúne aquelas passagens que os outros haviam omitido, habilmente omite aquelas que os outros haviam relatado, ocasionando alguma dificuldade em juntá-las. Se assim foi, nós supomos que Judas saiu (v. 30) para preparar os homens que iriam prender o Senhor Jesus no jardim. Mas o Dr. Lightfoot é claramente da opinião de que isso foi feito e dito, tudo o que está relatado até o final do capítulo 14, não na ceia da Páscoa, pois aqui foi dito que (v. 1 ) “antes da festa da Páscoa”, na ceia em Betânia, dois dias antes da Páscoa (sobre a qual lemos em Mateus 26.2-6), Maria, pela segunda vez, ungiu a cabeça de Cristo com seu vaso de unguento. Ou poderia ser em qualquer outra ceia em qualquer noite antes da Páscoa, não como a que houve na casa de Simão, o leproso, mas nos próprios alojamentos dele, onde Ele não tinha ninguém, senão seus discípulos, à sua volta, e podia estar mais à vontade com eles.

Nestes versículos, nós temos o relato de Cristo lavando os pés de seus discípulos. Era um ato de natureza singular. Não se tratava de nenhum milagre, a menos que chamemos isso de um milagre de humildade. Maria havia há pouco ungido a cabeça de Jesus. Agora, para que sua aceitação desse fato não se parecesse com um apego à ostentação, Ele logo em seguida equilibra isso com este gesto de humilhação. Mas por que Cristo faria isso? Se os pés dos discípulos precisavam ser lavados, eles próprios poderiam lavá-los. Um homem sábio não fará uma coisa que pareça estranha e incomum, senão por razões muito boas e por consideração. Nós estamos certos de que isso não foi por brincadeira ou diversão. Não, o procedimento foi muito solene, e continuou com grande seriedade, e quatro razões são aqui sugeridas de por que Cristo fez isso:

1. Para que pudesse afirmar seu amor por seus discípulos, vv. 1,2. 2. Para que pudesse dar um exemplo de sua própria humildade e condescendência voluntárias, vv. 3-5. 3. Para que pudesse lhes passar a ideia de uma lavagem espiritual, a qual é referida em sua conversa com Pedro, vv. 6-11. 4. Para que pudesse dar a eles um exemplo, vv. 12-17. E o esclarecimento dessas quatro razões levará à exposição de toda a história.

 

I – Cristo lavou os pés de seus discípulos para que pudesse dar uma prova do grande amor com o qual Ele os amou, amou-os até o fim, v. 1,2.

1. O fato de nosso Senhor Jesus ter “amado os seus que estavam no mundo”, amando-os “até ao fim”, é estabelecido aqui como uma verdade indubitável, v. 1.

(1) Isto é verdadeiro para os discípulos que eram seus seguidores imediatos, em especial os doze. Eles eram os seus no mundo, sua família, sua escola, seus amigos íntimos. Ele não teve filhos para chamar de seus, mas adotou os discípulos, e os recebeu como se fossem seus. Ele tinha aqueles que eram seus no outro mundo, mas os deixou, durante certo tempo, para cuidar dos seus neste mundo. Esses Ele amou, chamou-os para fazer parte de sua comunhão, conversava amigavelmente com eles, sempre cuidava deles, e de seu conforto e honra. Ele permitia-lhes ficar muito à vontade com Ele, e era paciente com suas fraquezas. Ele os amou até o fim, e seu amor por eles permaneceu enquanto viveu, e após sua ressurreição. Ele nunca retirou sua bondade. Embora houvesse algumas pessoas de qualidade que aderiram à sua causa, Ele nunca abandonou seus velhos amigos para abrir espaço para novos, mas continuou apegado a seus pobres pescadores. Eles eram fracos e falhos em conhecimento e graça, tolos e esquecidos, e, embora os censurasse com frequência, Ele nunca deixou de amar e de cuidar deles.

(2) Isso é verdadeiro para todos os crentes, porque esses doze patriarcas eram os representantes de todas as tribos do Israel espiritual de Deus. Observe que:

[1] Nosso Senhor Jesus tem no mundo um povo que é seu. Seu, porque lhe foi dado pelo Pai, Ele o comprou e pagou um preço elevado por ele, e o separou para si. Seu, porque eles se devotaram a Ele como um povo eleito. “Seus”. Onde se disse “seus” dos que “não o receberam”, a expressão é tous idiozis suas próprias pessoas, como a esposa e os filhos de um homem são seus, as pessoas com quem ele mantém um relacionamento permanente.

[2] Cristo tem um amor cordial pelos seus que estão no mundo. Ele os amou com um amor repleto de boa vontade quando se deu pela redenção deles. Ele os ama com um amor de complacência quando os aceita em comunhão consigo. Embora eles estejam neste mundo, um mundo de trevas e distância, de pecado e corrupção, Ele os ama. Ele estava agora indo ter com os seus no céu, os espíritos dos homens justos ali aperfeiçoados, mas Ele parece mais voltado para os seus na terra, porque a maioria deles precisava de seus cuidados. O filho enfermo é aquele que geralmente requer mais cuidados.

[3] Aqueles a quem Cristo ama, Ele ama até o fim. Ele é constante em seu amor para com seu povo. Ele descansará no amor de seu povo. Ele ama com um amor eterno (Jeremias 31.3), eterno desde suas deliberações até suas consequências. Nada pode separar um crente “do amor de Cristo”. Ele ama os seus, até a perfeição, pois Ele aperfeiçoará aquilo que lhes diz respeito, os levará àquele mundo onde o amor é prefeito.

2. Cristo manifestou seu amor pelos seus ao lavar os pés de seus discípulos, como aquela boa mulher (Lucas 7.38) demonstrou seu amor por Ele ao lavar e enxugar seus pés. Desse modo, Ele desejava mostrar que, assim como seu amor por eles era constante, também era condescendente – que, dando prosseguimento aos desígnios deste amor, Ele estava disposto a se humilhar-, e que as glórias de sua condição elevada, nas quais Ele estava agora adentrando, não deveriam ser obstáculo, de maneira alguma, para a generosidade que Ele tinha para com seus escolhidos. E desse modo, Ele confirmaria a promessa que tinha feito a todos os santos de que “os fará assentar à mesa, e, chegando-se, os servirá” (Lucas 12.37). Ele os exaltará de forma tão incrível e surpreendente como um senhor que serve aos seus servos. Os discípulos haviam acabado de revelar a fraqueza de seu amor por Ele, ao se indignarem pelo unguento que fora derramado sobre sua cabeça (Mateus 26.8), no entanto Ele logo em seguida dá essa prova de seu amor por eles. Nossas fraquezas contrastam com as bondades de Cristo, e as realçam.

3. Ele escolheu esse momento para fazer isso, um pouco antes de sua última Páscoa, por duas razões:

(1) Porque Ele sabia “que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai”. A hora que Ele havia esperado por um longo tempo. Observe aqui:

[1] A mudança que nosso Senhor Jesus estava prestes a empreender. Ele devia partir. Ela começou com sua morte, e foi completada em sua ascensão. Como o próprio Cristo, assim todos os crentes, em virtude de sua união com Ele, quando deixam o mundo, deixando seus corpos vão para o Pai, e passam a estar presentes com o Senhor. É a partida do mundo, este mundo cruel, insultuoso, descrente e traiçoeiro, este mundo de trabalho, trabalho árduo e tentações, este vale de lágrimas. É caminhar para o Pai, para a visão do “Pai dos espíritos”, e a bênção de desfrutar dele como nosso Deus e Pai.

[2] O momento desta mudança: “Era chegada a sua hora”. Ela é, às vezes, chamada a hora de seus inimigos (Lucas 22.53), a hora do triunfo deles; às vezes, sua hora, a hora de seu triunfo, a hora que Ele tivera em vista desde o princípio. O período de seus sofrimentos estava fixado em uma hora, e a duração deles, apenas por uma hora.

[3] Sua antevisão dela: Ele sabia que sua hora era chegada. Ele sabia desde o início que ela chegaria, e quando chegaria, mas agora Ele sabia que ela havia chegado. Nós não sabemos quando nossa hora chegará, e então o que devemos fazer em uma preparação de rotina para ela nunca deve ser negligenciado, mas, quando sabemos pelos sinais que é chegada nossa hora, devemos nos dedicar vigorosamente a uma preparação efetiva, como nosso mestre o fez, 2 Pedro 3.14. Agora fazia parte da visão imediata de sua partida que Ele lavasse os pés de seus discípulos, de modo que, assim como sua própria cabeça acabara de ser ungida na expectativa do dia de seu sepultamento, os pés deles deveriam ser lavados em preparação para o dia de sua consagração através da descida do Espírito Santo, cinquenta dias depois, assim como os sacerdotes eram lavados, Levítico 8.6. Quando virmos nosso dia se aproximando, deveremos fazer todo o bem que pudermos para aqueles que deixaremos para trás.

(2) Porque agora o Diabo já havia “posto no coração de Judas… que o traísse”, v. 2. Estas palavras, em um parêntese, podem ser consideradas:

[1] Como rastreando a traição de Judas até sua origem. Era um pecado de tal natureza, que evidentemente carregava a imagem e a assinatura do Diabo. Não sabemos que meios de acesso o Diabo tem ao coração dos homens, e através de quais métodos ele lança suas sugestões, e as mistura de forma indiscernível com aqueles pensamentos que são os naturais do coração. Mas existem alguns crimes tão excessivamente pecaminosos em sua própria natureza, e para os quais existe tão pouca tentação do mundo e da carne, que é óbvio que Satanás coloca os ovos deles em um coração disposto a ser o ninho para incubá-los. O fato de Judas trair um mestre tão bom, traí-lo por tão pouco, e sob nenhum a provocação, era uma inimizade tão clara contra Deus, que não podia ser forjada senão pelo próprio Satanás, que, com isso, pensou que arruinaria o reino do Redentor, mas, de fato, arruinou o seu próprio.

[2] Como indicando uma razão pela qual Cristo agora lavava os pés dos seus discípulos. Em primeiro lugar, estando Judas agora resolvido a traí-lo, o momento de sua partida não podia estar longe. Estando essa questão definida, é fácil concordar com o apóstolo Paulo: “Eu já estou sendo oferecido”. Note que, quanto mais mal-intencionados percebermos que nossos inimigos estão contra nós, mais habilmente devemos nos preparar para o pior. Em segundo lugar, estando Judas agora caindo na armadilha, e o Diabo apontando para Pedro e para os demais (Lucas 22.31), Cristo iria fortalecer os seus contra ele. Se o lobo agarrou um do rebanho, é tempo de o pastor olhar bem para o resto. Os antídotos devem ser aplicados quando a infecção começa. O Dr. Lightfoot observa que os discípulos tinham aprendido com Judas a murmurar, por ocasião da unção que foi oferecida a Cristo. Compare João 12.4ss. com Mateus 26.8. E para que aqueles que aprendiam com Judas não aprendessem o pior, Ele os fortalece através de uma lição de humildade contra os ataques mais perigosos. Em terceiro lugar, Judas, que estava agora conspirando para traí-lo, era “um dos doze”. Agora Cristo mostraria, através da lavagem de seus pés, que Ele não planejava abandonar a todos eles pelos erros de um. Embora um membro do seu conselho fosse um diabo e um traidor, eles jamais deveriam se sentir mal por causa disso. Cristo ama sua igreja, embora existam hipócritas nela, e ainda tinha carinho para com seus discípulos, mesmo havendo um Judas entre eles e Ele soubesse disso.