PSICOLOGIA ANALÍTICA

A VERGONHA QUE FAZ BEM

Em geral visto como negativo, o constrangimento pode não ser de todo mau. Psicólogos constataram a existência de várias facetas desse sentimento – algumas bastante saudáveis. Além disso, a maneira como a desaprovação é comunicada ao infrator pode levar a consequências muito diversas.

A vergonha que faz bem

Quando a americana Valerie Starks, moradora de Denver, descobriu que sua filha de 13 anos estava se passando por uma adolescente mais velha para postar fotografias sensuais na web, recorreu à mídia social para lhe dar uma lição. Repreendeu severamente sua filha em um vídeo do Facebook que se tornou virai em 2015 – em menos de uma semana, contava com mais de 11 milhões de visualizações. Valerie não estava sozinha. Vários pais também fizeram uso das mídias sociais para punir seus filhos. Um fenômeno similar ocorreu no Brasil, também no fim do ano passado, quando mulheres começaram a expor homens machistas que as haviam assediado, usando a hashtag “meu amigo secreto”. Ao longo da história, várias comunidades têm utilizado a humilhação pública para desencorajar os infratores de recair em mau comportamento. Hoje, qualquer um que cometer delitos morais pode estar sujeito à censura globalizada ao ser exposto na internet. Desde a tempestade no Twitter que girou furiosamente em torno de inúmeros relatos de supostos estupros de Bill Cosby até a campanha do #droughtshaming na Califórnia, que denunciava os consumidores que desperdiçavam água, o constrangimento público através da mídia social se tornou uma ocorrência comum. Afinal, uma reputação maculada no mundo digital é como um estigma permanente.

É inegável que a humilhação pública seja uma das muitas formas de punição, usada em diferentes culturas ao longo da história da humanidade, embora já tenha sido demonstrado que induzir avergonha nem sempre é a melhor escolha, uma vez que costuma levar a reações como negação da responsabilidade e busca de justificativas, evitação e agressão, e, em muitos casos, a exposição pode ser destrutiva. Alguns psicólogos, entretanto, têm pesquisa­ do se esse tipo de recurso poderia, de alguma forma, ajudar na reabilitação, e o curioso é que pesquisas recentes sugerem algo surpreendente: sob determinadas circunstâncias, a vergonha pode estimular mudanças positivas, como cooperação e desejo de reparação. Cientistas constataram que existem muitas gradações de vergonha – algumas “melhores” do que outras em promover comportamento construtivo – e que a maneira como comunicamos desaprovação a um infrator pode levar a consequências drasticamente diferentes. Essa nova pesquisa poderia transformar a forma como lidamos com crime e punição, seja nos tribunais, nas escolas ou em casa.

UMA OUTRA DOR

Tanto a vergonha como seu parente mais próximo, a culpa, são sentimentos associados à infração. A última está ligada a uma ação ou comportamento específico, enquanto a primeira se concentra na pessoa em si. Feita essa distinção, não surpreende que a vergonha tenha sido vinculada há tempos com resultados negativos. Afinal de contas, concluir que você é uma má pessoa é mais perturbador do que simplesmente reconhecer que fez algo de errado. A humilhação pública abala não só a autoestima como também o reconhecimento alheio.

Décadas de pesquisas confirmaram que a vergonha dói. A emoção está associada a uma ampla gama de problemas psicológicos, como a depressão e o transtorno de estresse pós-traumático (TE PT), assim como mudanças fisiológicas, incluindo aumento da produção de cortisol (o hormônio liberado em resposta ao estresse) e proteínas que causam inflamações. Segundo esses estudos, sentir vergonha desencadeia uma torrente de sentimentos desconfortáveis que não oferece grandes possibilidades de regeneração. Muito pelo contrário: a vergonha leva os indivíduos a se tornar irritados e auto defensivos; fazia com que negassem acusações, tentassem se esconder ou mesmo investissem contra o acusador de forma violenta. Algumas pessoas acreditavam que reconhecer a culpa – e consequentemente a responsabilidade – era mais eficaz do ponto de vista psicológico do que entrar em contato com a vergonha.

Ainda assim, pesquisadores encontraram indicações de que em certas instâncias o constrangimento é eficiente em motivar o bom comportamento. Em 2008, um grupo de psicólogos da Universidade Tilburg, na Holanda, mostrou que, quando as pessoas sentiam vergonha após imaginar, relembrar ou experimentar um fracasso, agiam de modo mais cooperativo nos dilemas sociais. Um estudo posterior de 2010 revelou que, quando os indivíduos relembravam ou vivenciavam sensação de envergonhar-se em consequência de fracasso em relação a alguma conquista, como um desempenho atlético especialmente ruim ou não passar numa prova fácil, se sentiam motivados a recuperar uma autoimagem positiva e a se esforçar para serem bem-sucedidos.

Em um estudo longitudinal com 476 prisioneiros, publicado em 2014, a psicóloga clínica June Tangney, da Universidade George Mason, e seus colegas constataram que, entre os prisioneiros, aqueles que apresentavam sinais de vergonha e não buscavam atribuir sua transgressão a outra pessoa eram os menos propensos a repetir um delito, em comparação aos que se sentiam vítimas da situação ou não assumiam a responsabilidade. “Pode haver situações e pessoas para as quais a vergonha é um veículo para que ocorram mudanças realmente substanciais” acredita a psicóloga. Há um percurso bem definido começando pelo constrangimento público, seguido pela atribuição de culpa e terminando em comportamento criminoso, segundo ela. Porém, os fatores que levam ao resultado oposto ainda não são totalmente compreendidos.

Se vergonha se aplica ao ego, uma questão importante e por muito tempo ignorada é simplesmente como esse “eu” é diminuído quando a pessoa faz algo vergonhoso. “É possível pensar: “Como pude fazer isso, que tipo de pessoa eu sou?’ ou “O que os outros vão pensar de mim?”, cogita o psicólogo Nicolay Gausel, professor da Universidade 0stfold College, na Noruega. Em outras palavras, é uma questão de referencial interno ou externo: podemos nos reavaliar ou ficar preocupados com a opinião alheia.

Em 2011, Gausel e o psicólogo Colin Leach, da Universidade de Connecticut, sugeriram que as pessoas que pensam da primeira maneira concluirão que deixaram de corresponder às próprias expectativas, o que por sua vez pode levar a que se esforcem para melhorar e buscar reparar relações sociais. A última opção, vinculada às avaliações alheias, pode encorajar motivações auto defensivas. Segundo os pesquisadores, os sentimentos de rejeição e inferioridade que acompanham uma reputação maculada são responsáveis pelos resultados negativos geralmente atribuídos à vergonha.

Essa observação foi confirmada em um estudo posterior, realizado em 2012, em que trouxeram à memória de 379 noruegueses as perseguições de minorias étnicas promovidas no passado por seu país. Utilizando um questionário detalhado, a equipe descobriu que a preocupação de serem censurados e os sentimentos de rejeição provocavam inclinações defensivas, enquanto um senso de vergonha pessoal levava ao remorso e ao desejo de oferecer reparação. Efeitos semelhantes no nível de transgressão individual foram revelados em um estudo em 2015 que avaliou como 197 participantes reagiam a falhas morais como maltratar um membro da família ou não conseguir manter um segredo.

O psicólogo Rupert Brown e seus colegas da Universidade de Sussex, na Inglaterra, trabalham com uma ideia similar. Em um estudo de 2014, sobre as atitudes do povo britânico em relação às atrocidades cometidas por seu país durante a Guerra do Iraque, os cientistas propuseram que os voluntários distinguissem o “tipo” de vergonha que sentiam, se estava relacionada à sua moralidade pessoal ou se simplesmente feria sua imagem. Em três estudos, os pesquisadores recrutaram centenas de pessoas e solicitaram que lessem artigos nos canais de comunicação da mídia britânica (BBC e The Guardian) que narravam abusos de prisioneiros por soldados britânicos no Iraque. Os participantes então avaliavam o quanto concordavam com uma série de afirmações sobre sua atitude em relação às ações de seu país. Algumas dessas declarações envolviam   moralidade pessoal – por exemplo, “nosso tratamento ao povo iraquiano me faz sentir meio envergonhado quanto ao que significa ser britânico”. Outras afirmações, como “pensar na maneira como a Grã-Bretanha é vista a partir desse tratamento do povo iraquiano me faz sentir vergonha”, relacionavam-se mais à reputação. As pessoas que se sentiam moralmente envergonhadas eram mais propensas a apoiar a restauração da relação do país com o Iraque por meio de um pedido de desculpas oficial ou da assistência financeira, enquanto aqueles que principalmente sentiam que sua imagem estava em risco exibiam estratégias mais defensivas, como evitação, irritação e o desejo de encobrir o erro.

Essas distinções podem ajudar a entender a maneira como as pessoas respondem ao constrangimento público na mídia social. A humilhação pública é uma faca de dois gumes. As redes sociais são muito eficientes em espalhar notícia e mudar a percepção pública do acusado. Mas a ampla circulação da difamação pode também retardar a aceitação e o arrependimento.

FORÇA PARA MUDAR

A vergonha, todavia, costuma ser vinculada à reputação. Feliz mente, um segundo conjunto de descobertas sugere que o prejuízo resultante para a imagem pública da pessoa não precisa inexoravelmente levar à atitude defensiva e à retaliação. Em uma metanálise de 71 estudos sobre vergonha publicados no último mês de dezembro, Leach e o aluno de doutorado Atilla Cidam, da Universidade de Connecticut, constataram que, mesmo quando a vergonha mancha a imagem social de uma pessoa, ela é capaz de inspirar escolhas construtivas, contanto que tenha oportunidade de se redimir.

Segundo Leach, por afetar nossa autoavaliação, a vergonha é mais danosa quando não há nada que se possa fazer para mudar a situação. Porém, acreditarmos que a mudança é possível pode ser um grande motivador para o bom comportamento. Um estudo publicado em 2014 pelo periódico científico Emotion revelou que sentir vergonha é mais eficiente do que a culpa de motivar o desejo da pessoa de mudar para melhor. Nessa mesma linha, as autoridades hídricas em áreas assoladas pela seca notificam os cidadãos que mais desperdiçam água de que seus nomes constarão em uma lista pública, caso não melhorem seu comportamento e ofereçam apoio para ajudar a reduzir o consumo. A tática funciona. Em novembro do ano passado, The Guardian relatou que esse método “frequentemente se mostrou uma maneira eficiente de mudar os hábitos de consumo de água” para a Southern Nevada Water Authority.

Mesmo se um erro específico não puder ser reparado, as pessoas poderão redimir sua imagem. “Algumas pessoas pensam que sua identidade moral é mais flexível e acreditam que pode ser melhorada e desenvolvida, como uma habilidade. Outras sentem que ela é fixa”, afirma Leach. Suas descobertas sugerem que o primeiro grupo é mais propenso do que o segundo a melhorar o seu comportamento. Terapeutas, pessoas queridas e a sociedade podem ajudar a inocentar essas atitudes. “Se há possibilidade de reparação, é possível intervir, transformar”, diz June Tangney. “Nem sempre é impossível desfazer o prejuízo causado, mas há maneiras de obter efeitos positivos.”

Teses semelhantes são defendidas por pesquisadores que estudam comportamento criminoso. Em 1989, o criminólogo John Braithwaite, da Universidade Nacional da Austrália, apresentou a ideia de exposição pública reintegrativa, em que a comunidade ajuda o infrator a retornar para a sociedade após confrontar seu crime. Ele estabeleceu uma relação entre sociedades que recorrem a essa combinação de punição e compaixão com índices mais baixos de crime e as comunidades que utilizam formas mais estigmatizantes de constrangimento público.

Certas culturas aplicam a exposição pública reintegrativa ao enxergar o transgressor como alguém que precisa de reabilitação – e não como um criminoso irreversivelmente arruinado. Por exemplo, os índios americanos navajos acreditam que nayéé (monstros) atuam como um obstáculo à fruição de uma vida plena. Organizam cerimônias de cura para ajudar a se livrarem desses seres. No Japão, há o conceito de mushi (inseto ou verme), que infecta as pessoas, levando-as a cometer atrocidades, e é o apoio da comunidade que pode ajudar a curar essa doença.

“A vergonha tem potencial para o bem, mas as pessoas precisam acreditar que podem mudar; deixar um ser humano constrangido sentir-se irremediavelmente péssimo em relação a si mesmo por raiva ou vingança é destrutivo para todas as partes e deve ser evitado”, salienta Braithwaite.

MUDANÇA DE RUMO

Neste momento, pesquisadores só estão começando a compreender como induzir formas criativas de lidar com a vergonha. Até hoje a maioria dos estudos se concentrou em motivação em vez de ação; se o desejo de se tornar uma pessoa melhor resultará efetivamente em um comportamento melhor, isso ainda não está claro.

Enquanto isso, há algumas regras práticas que podem ajudar nossa sociedade a colher os benefícios da vergonha. Por exemplo, na educação das crianças é possível enfatizar os comportamentos positivos, respeitar as diferenças e evitar o desrespeito. “Não é tão complicado o que precisamos fazer – trata-se de levar a transgressão e a vergonha a sério, pois não queremos viver numa sociedade em que o estupro e a violência não sejam vergonhosos”, diz Braithwaite. “Mas precisamos ser cuidadosos em relação à comunicação, à escolha das palavras.” Ele sugere a criação de espaços seguros para aqueles que vivenciaram fracassos morais e evitação de táticas que os tornem párias.

Logo depois de Valerie Starks ter constrangido sua filha online, Wayman Gresham, um pai da Flórida, postou o próprio vídeo no Facebook. O clip começa como outros vídeos de humilhação pública, com Gresham empunhando um barbeador elétrico, prestes a rapar o cabelo do filho como punição, dizendo: “Quando for hora de fazer a coisa certa, espero que meu filho não se esqueça do que aprendeu”. Mas a gravação toma um rumo diferente. Em vez de continuar com a punição, Gresham dá um abraço no rapaz e diz: “Não há o menor risco de que eu, alguma vez, venha a constranger meu filho dessa maneira”.

A vergonha que faz bem.2

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.