PSICOLOGIA ANALÍTICA

A VERGONHA QUE FAZ BEM

Em geral visto como negativo, o constrangimento pode não ser de todo mau. Psicólogos constataram a existência de várias facetas desse sentimento – algumas bastante saudáveis. Além disso, a maneira como a desaprovação é comunicada ao infrator pode levar a consequências muito diversas.

A vergonha que faz bem

Quando a americana Valerie Starks, moradora de Denver, descobriu que sua filha de 13 anos estava se passando por uma adolescente mais velha para postar fotografias sensuais na web, recorreu à mídia social para lhe dar uma lição. Repreendeu severamente sua filha em um vídeo do Facebook que se tornou virai em 2015 – em menos de uma semana, contava com mais de 11 milhões de visualizações. Valerie não estava sozinha. Vários pais também fizeram uso das mídias sociais para punir seus filhos. Um fenômeno similar ocorreu no Brasil, também no fim do ano passado, quando mulheres começaram a expor homens machistas que as haviam assediado, usando a hashtag “meu amigo secreto”. Ao longo da história, várias comunidades têm utilizado a humilhação pública para desencorajar os infratores de recair em mau comportamento. Hoje, qualquer um que cometer delitos morais pode estar sujeito à censura globalizada ao ser exposto na internet. Desde a tempestade no Twitter que girou furiosamente em torno de inúmeros relatos de supostos estupros de Bill Cosby até a campanha do #droughtshaming na Califórnia, que denunciava os consumidores que desperdiçavam água, o constrangimento público através da mídia social se tornou uma ocorrência comum. Afinal, uma reputação maculada no mundo digital é como um estigma permanente.

É inegável que a humilhação pública seja uma das muitas formas de punição, usada em diferentes culturas ao longo da história da humanidade, embora já tenha sido demonstrado que induzir avergonha nem sempre é a melhor escolha, uma vez que costuma levar a reações como negação da responsabilidade e busca de justificativas, evitação e agressão, e, em muitos casos, a exposição pode ser destrutiva. Alguns psicólogos, entretanto, têm pesquisa­ do se esse tipo de recurso poderia, de alguma forma, ajudar na reabilitação, e o curioso é que pesquisas recentes sugerem algo surpreendente: sob determinadas circunstâncias, a vergonha pode estimular mudanças positivas, como cooperação e desejo de reparação. Cientistas constataram que existem muitas gradações de vergonha – algumas “melhores” do que outras em promover comportamento construtivo – e que a maneira como comunicamos desaprovação a um infrator pode levar a consequências drasticamente diferentes. Essa nova pesquisa poderia transformar a forma como lidamos com crime e punição, seja nos tribunais, nas escolas ou em casa.

UMA OUTRA DOR

Tanto a vergonha como seu parente mais próximo, a culpa, são sentimentos associados à infração. A última está ligada a uma ação ou comportamento específico, enquanto a primeira se concentra na pessoa em si. Feita essa distinção, não surpreende que a vergonha tenha sido vinculada há tempos com resultados negativos. Afinal de contas, concluir que você é uma má pessoa é mais perturbador do que simplesmente reconhecer que fez algo de errado. A humilhação pública abala não só a autoestima como também o reconhecimento alheio.

Décadas de pesquisas confirmaram que a vergonha dói. A emoção está associada a uma ampla gama de problemas psicológicos, como a depressão e o transtorno de estresse pós-traumático (TE PT), assim como mudanças fisiológicas, incluindo aumento da produção de cortisol (o hormônio liberado em resposta ao estresse) e proteínas que causam inflamações. Segundo esses estudos, sentir vergonha desencadeia uma torrente de sentimentos desconfortáveis que não oferece grandes possibilidades de regeneração. Muito pelo contrário: a vergonha leva os indivíduos a se tornar irritados e auto defensivos; fazia com que negassem acusações, tentassem se esconder ou mesmo investissem contra o acusador de forma violenta. Algumas pessoas acreditavam que reconhecer a culpa – e consequentemente a responsabilidade – era mais eficaz do ponto de vista psicológico do que entrar em contato com a vergonha.

Ainda assim, pesquisadores encontraram indicações de que em certas instâncias o constrangimento é eficiente em motivar o bom comportamento. Em 2008, um grupo de psicólogos da Universidade Tilburg, na Holanda, mostrou que, quando as pessoas sentiam vergonha após imaginar, relembrar ou experimentar um fracasso, agiam de modo mais cooperativo nos dilemas sociais. Um estudo posterior de 2010 revelou que, quando os indivíduos relembravam ou vivenciavam sensação de envergonhar-se em consequência de fracasso em relação a alguma conquista, como um desempenho atlético especialmente ruim ou não passar numa prova fácil, se sentiam motivados a recuperar uma autoimagem positiva e a se esforçar para serem bem-sucedidos.

Em um estudo longitudinal com 476 prisioneiros, publicado em 2014, a psicóloga clínica June Tangney, da Universidade George Mason, e seus colegas constataram que, entre os prisioneiros, aqueles que apresentavam sinais de vergonha e não buscavam atribuir sua transgressão a outra pessoa eram os menos propensos a repetir um delito, em comparação aos que se sentiam vítimas da situação ou não assumiam a responsabilidade. “Pode haver situações e pessoas para as quais a vergonha é um veículo para que ocorram mudanças realmente substanciais” acredita a psicóloga. Há um percurso bem definido começando pelo constrangimento público, seguido pela atribuição de culpa e terminando em comportamento criminoso, segundo ela. Porém, os fatores que levam ao resultado oposto ainda não são totalmente compreendidos.

Se vergonha se aplica ao ego, uma questão importante e por muito tempo ignorada é simplesmente como esse “eu” é diminuído quando a pessoa faz algo vergonhoso. “É possível pensar: “Como pude fazer isso, que tipo de pessoa eu sou?’ ou “O que os outros vão pensar de mim?”, cogita o psicólogo Nicolay Gausel, professor da Universidade 0stfold College, na Noruega. Em outras palavras, é uma questão de referencial interno ou externo: podemos nos reavaliar ou ficar preocupados com a opinião alheia.

Em 2011, Gausel e o psicólogo Colin Leach, da Universidade de Connecticut, sugeriram que as pessoas que pensam da primeira maneira concluirão que deixaram de corresponder às próprias expectativas, o que por sua vez pode levar a que se esforcem para melhorar e buscar reparar relações sociais. A última opção, vinculada às avaliações alheias, pode encorajar motivações auto defensivas. Segundo os pesquisadores, os sentimentos de rejeição e inferioridade que acompanham uma reputação maculada são responsáveis pelos resultados negativos geralmente atribuídos à vergonha.

Essa observação foi confirmada em um estudo posterior, realizado em 2012, em que trouxeram à memória de 379 noruegueses as perseguições de minorias étnicas promovidas no passado por seu país. Utilizando um questionário detalhado, a equipe descobriu que a preocupação de serem censurados e os sentimentos de rejeição provocavam inclinações defensivas, enquanto um senso de vergonha pessoal levava ao remorso e ao desejo de oferecer reparação. Efeitos semelhantes no nível de transgressão individual foram revelados em um estudo em 2015 que avaliou como 197 participantes reagiam a falhas morais como maltratar um membro da família ou não conseguir manter um segredo.

O psicólogo Rupert Brown e seus colegas da Universidade de Sussex, na Inglaterra, trabalham com uma ideia similar. Em um estudo de 2014, sobre as atitudes do povo britânico em relação às atrocidades cometidas por seu país durante a Guerra do Iraque, os cientistas propuseram que os voluntários distinguissem o “tipo” de vergonha que sentiam, se estava relacionada à sua moralidade pessoal ou se simplesmente feria sua imagem. Em três estudos, os pesquisadores recrutaram centenas de pessoas e solicitaram que lessem artigos nos canais de comunicação da mídia britânica (BBC e The Guardian) que narravam abusos de prisioneiros por soldados britânicos no Iraque. Os participantes então avaliavam o quanto concordavam com uma série de afirmações sobre sua atitude em relação às ações de seu país. Algumas dessas declarações envolviam   moralidade pessoal – por exemplo, “nosso tratamento ao povo iraquiano me faz sentir meio envergonhado quanto ao que significa ser britânico”. Outras afirmações, como “pensar na maneira como a Grã-Bretanha é vista a partir desse tratamento do povo iraquiano me faz sentir vergonha”, relacionavam-se mais à reputação. As pessoas que se sentiam moralmente envergonhadas eram mais propensas a apoiar a restauração da relação do país com o Iraque por meio de um pedido de desculpas oficial ou da assistência financeira, enquanto aqueles que principalmente sentiam que sua imagem estava em risco exibiam estratégias mais defensivas, como evitação, irritação e o desejo de encobrir o erro.

Essas distinções podem ajudar a entender a maneira como as pessoas respondem ao constrangimento público na mídia social. A humilhação pública é uma faca de dois gumes. As redes sociais são muito eficientes em espalhar notícia e mudar a percepção pública do acusado. Mas a ampla circulação da difamação pode também retardar a aceitação e o arrependimento.

FORÇA PARA MUDAR

A vergonha, todavia, costuma ser vinculada à reputação. Feliz mente, um segundo conjunto de descobertas sugere que o prejuízo resultante para a imagem pública da pessoa não precisa inexoravelmente levar à atitude defensiva e à retaliação. Em uma metanálise de 71 estudos sobre vergonha publicados no último mês de dezembro, Leach e o aluno de doutorado Atilla Cidam, da Universidade de Connecticut, constataram que, mesmo quando a vergonha mancha a imagem social de uma pessoa, ela é capaz de inspirar escolhas construtivas, contanto que tenha oportunidade de se redimir.

Segundo Leach, por afetar nossa autoavaliação, a vergonha é mais danosa quando não há nada que se possa fazer para mudar a situação. Porém, acreditarmos que a mudança é possível pode ser um grande motivador para o bom comportamento. Um estudo publicado em 2014 pelo periódico científico Emotion revelou que sentir vergonha é mais eficiente do que a culpa de motivar o desejo da pessoa de mudar para melhor. Nessa mesma linha, as autoridades hídricas em áreas assoladas pela seca notificam os cidadãos que mais desperdiçam água de que seus nomes constarão em uma lista pública, caso não melhorem seu comportamento e ofereçam apoio para ajudar a reduzir o consumo. A tática funciona. Em novembro do ano passado, The Guardian relatou que esse método “frequentemente se mostrou uma maneira eficiente de mudar os hábitos de consumo de água” para a Southern Nevada Water Authority.

Mesmo se um erro específico não puder ser reparado, as pessoas poderão redimir sua imagem. “Algumas pessoas pensam que sua identidade moral é mais flexível e acreditam que pode ser melhorada e desenvolvida, como uma habilidade. Outras sentem que ela é fixa”, afirma Leach. Suas descobertas sugerem que o primeiro grupo é mais propenso do que o segundo a melhorar o seu comportamento. Terapeutas, pessoas queridas e a sociedade podem ajudar a inocentar essas atitudes. “Se há possibilidade de reparação, é possível intervir, transformar”, diz June Tangney. “Nem sempre é impossível desfazer o prejuízo causado, mas há maneiras de obter efeitos positivos.”

Teses semelhantes são defendidas por pesquisadores que estudam comportamento criminoso. Em 1989, o criminólogo John Braithwaite, da Universidade Nacional da Austrália, apresentou a ideia de exposição pública reintegrativa, em que a comunidade ajuda o infrator a retornar para a sociedade após confrontar seu crime. Ele estabeleceu uma relação entre sociedades que recorrem a essa combinação de punição e compaixão com índices mais baixos de crime e as comunidades que utilizam formas mais estigmatizantes de constrangimento público.

Certas culturas aplicam a exposição pública reintegrativa ao enxergar o transgressor como alguém que precisa de reabilitação – e não como um criminoso irreversivelmente arruinado. Por exemplo, os índios americanos navajos acreditam que nayéé (monstros) atuam como um obstáculo à fruição de uma vida plena. Organizam cerimônias de cura para ajudar a se livrarem desses seres. No Japão, há o conceito de mushi (inseto ou verme), que infecta as pessoas, levando-as a cometer atrocidades, e é o apoio da comunidade que pode ajudar a curar essa doença.

“A vergonha tem potencial para o bem, mas as pessoas precisam acreditar que podem mudar; deixar um ser humano constrangido sentir-se irremediavelmente péssimo em relação a si mesmo por raiva ou vingança é destrutivo para todas as partes e deve ser evitado”, salienta Braithwaite.

MUDANÇA DE RUMO

Neste momento, pesquisadores só estão começando a compreender como induzir formas criativas de lidar com a vergonha. Até hoje a maioria dos estudos se concentrou em motivação em vez de ação; se o desejo de se tornar uma pessoa melhor resultará efetivamente em um comportamento melhor, isso ainda não está claro.

Enquanto isso, há algumas regras práticas que podem ajudar nossa sociedade a colher os benefícios da vergonha. Por exemplo, na educação das crianças é possível enfatizar os comportamentos positivos, respeitar as diferenças e evitar o desrespeito. “Não é tão complicado o que precisamos fazer – trata-se de levar a transgressão e a vergonha a sério, pois não queremos viver numa sociedade em que o estupro e a violência não sejam vergonhosos”, diz Braithwaite. “Mas precisamos ser cuidadosos em relação à comunicação, à escolha das palavras.” Ele sugere a criação de espaços seguros para aqueles que vivenciaram fracassos morais e evitação de táticas que os tornem párias.

Logo depois de Valerie Starks ter constrangido sua filha online, Wayman Gresham, um pai da Flórida, postou o próprio vídeo no Facebook. O clip começa como outros vídeos de humilhação pública, com Gresham empunhando um barbeador elétrico, prestes a rapar o cabelo do filho como punição, dizendo: “Quando for hora de fazer a coisa certa, espero que meu filho não se esqueça do que aprendeu”. Mas a gravação toma um rumo diferente. Em vez de continuar com a punição, Gresham dá um abraço no rapaz e diz: “Não há o menor risco de que eu, alguma vez, venha a constranger meu filho dessa maneira”.

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OUTROS OLHARES

A TABELINHA ELETRÔNICA

É aprovado o primeiro aplicativo antigravidez – seguro, mas com eficácia inferior à da pílula e do DIU.

A tabelinha eletrônica.

A tabelinha é um dos mais antigos recursos contraceptivos, usada por mulheres desde priscas eras. Por meio dela, estima-se o período de fertilidade com base nos dias do ciclo menstrual. Com eficácia avaliada em apenas 70%, foi naturalmente substituída, com o tempo, por métodos mais modernos e seguros, como a pílula e o DIU. Agora, a FDA, a agência americana de medicamentos, avalizou a comercialização de uma curiosa invenção que atrela a singela contagem cotidiana a um aplicativo para smartphone. O nome comercial do produto, desenvolvido com tecnologia sueca, é Natural Cycles (ciclos naturais).

Desenhado para celulares, o sistema é alimentado por duas informações básicas: o ciclo menstrual e a temperatura corporal. Ancorado num algoritmo, o programinha calcula em quais dias do mês a mulher está fértil, e pode, portanto, engravidar. O funcionamento é simples. Todas as manhãs, ao longo do mês, a mulher deve medir a própria temperatura, pela boca, com um termômetro ultrassensível, vendido no pacote. Depois, ela põe os dados no celular, e pronto – tudo é calculado automaticamente. A explicação é fisiológica. Durante a ovulação, o organismo feminino aumenta a produção do hormônio progesterona, o composto – chave da gravidez (o nome vem do latim progestare – ou a favor da gestação). A substância eleva em até 0,5 grau a temperatura do corpo – o que é imperceptível por medições comuns. Se o resultado for verde, a usuária não estará ovulando. Se for vermelho, será contraindicado ter relações sexuais sem proteção. A assinatura do aplicativo, já em uso em países escandinavos, custa 50 dólares por ano.

O programa, no entanto, não representa segurança total: a natureza não é tão lógica quanto a inteligência artificial. O corpo humano segue um ritmo biológico que pode ser impactado por algumas variações ambientais, como o stress, o tipo de alimentação, o consumo de álcool e o uso de remédios. O ciclo pode sofrer alterações. O Natural Cycles, dada essa pequena margem de incerteza, tem 93¾ de eficácia – ou seja, de 100 mulheres que o utilizam, sete podem engravidar. A pílula é 98¾ certeira. O DIU hormonal chega a 99,8%. “O índice desse novo produto pode ser bom, mas as estratégias já consolidadas ainda são mais seguras para quem não quer engravidar”, diz o ginecologista Márcio Coslovsky, médico da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida.

Não há hormônios envolvidos no aplicativo, como na pílula anticoncepcional. E essa é uma boa vantagem. Diz Eduardo Zlotnik, ginecologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo: “Um número cada vez maior de mulheres busca métodos contraceptivos naturais e sem intervenções”. As pílulas modernas são seguras, mas raramente isentas de efeitos colaterais. Aumento de peso, es- pinhas, alterações de humor e trombose estão entre eles. Os hormônios das pílulas anticoncepcionais, no entanto, revolucionaram o mundo. Surgidas na década de 60, elas foram o estopim da revolução sexual, dando às mulheres a possibilidade de controlar a própria reprodução, de fazer sexo por prazer e não apenas para reproduzir. “Uma das sete maravilhas do mundo”, na definição de uma reportagem da revista inglesa The Economisc.

 A tabelinha eletrônica.2

 

A tabelinha eletrônica.3

 

GESTÃO E CARREIRA

ENSINANDO A CHEFIAR

Ensinando a chefiar

Fred Kofman lecionava economia na Universidade de Buenos Aires quando, em meados dos anos 80, decidiu viajar para os Estados Unidos para fazer urna pós­ graduação na Universidade da Califórnia, em Berkeley. O foco de seus estudos era o impacto de incentivos financeiros no engajamento de funcionários. De lá para cá, tornou-se professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), passou a ministrar workshops para grandes companhias e fundou a própria consultoria. Virou uma espécie de guru da liderança. Da convivência com executivos, ganhou uma convicção: dinheiro não basta para fazer trabalhadores cooperarem de forma genuína com um negócio. Cinco anos atrás, a convite do Linkedin, deixou sua firma para assumir o cargo de vice-presidente de desenvolvimento executivo e filósofo de liderança. Seu trabalho consiste em ajudar a rede a cumprir sua missão: conectar profissionais do mundo inteiro para torná-los mais produtivos e bem-sucedidos. Fred tenta criar o que chama de líderes “transcendentes”, conceito que ele explica no trecho de seu novo livro.

TATEANDO A MORTE

Em 18 de fevereiro de 2004, Mark Bertolini, executivo sênior na gigante de seguros de saúde Aetna, estava esquiando com sua família em Killington, no estado de Vermont, quando perdeu o controle, bateu em uma árvore, caiu de um barranco e quebrou o pescoço. Antes do acidente, Bertolini estava em boa forma; portanto, tinha uma resiliência boa que o ajudou a se recuperar surpreendentemente rápido. Depois disso, porém, ele passou a ter dores constantes. Seu médico prescreveu os analgésicos tradicionais que, ele sabia, poderiam deixá-lo viciado, por isso Mark preferiu intervenções menos convencionais, como ioga, alongamento e meditação. Ele melhorou, voltou ao trabalho e foi nomeado presidente da empresa.

Bertolini passou a usar um amuleto de metal brilhante no pescoço em vez de gravata. O amuleto trazia gravado a inscrição em sânscrito “soham”, que significa “eu sou isso”, o mantra usado para controlar a respiração durante a meditação. Significa uma conexão espiritual com o universo. Para onde vá na empresa, as pessoas notam o amuleto e admiram a força de seu líder.

O novo CEO achou que aquilo que o ajudou a se curar tão bem seria igualmente proveitoso para seus funcionários e clientes, por isso passou a usar sua empresa como laboratório.

Duzentos e trinta e nove funcionários se voluntariaram para um experimento: um terço praticou ioga, um terço teve aulas de atenção plena e o restante ficou no grupo de controle. Ao cabo de três meses, os funcionários nas aulas de ioga e na turma de atenção plena reportaram uma redução considerável em estresse e dificuldades de dormir; seus exames de sangue mostraram também uma queda nos hormônios de estresse.

Algum tempo depois, quando o senhor Bertolini revisou a performance financeira da Aetna para 2012, percebeu algo surpreendente: os pedidos de atendimento médico por funcionário caíram 7.3%, poupando quase 9 milhões de dólares em gastos. Como a produtividade aumentou, a empresa aumentou o salário mínimo de seus trabalhadores de 12 para 16 dólares por hora e reduziu gastos do próprio bolso como planos de saúde. “Se podemos criar pessoas mais saudáveis, podemos criar um mundo e uma empresa mais saudáveis”, disse Bertolini aos empregados, que levaram suas palavras a sério.

Bertolini tem um entendimento de liderança muito mais amplo do que a maioria dos líderes, pois viu a morte de perto. Não está mais isolado ou aficionado apenas por dados financeiros. Está pensando em coisas maiores… muito, muito maiores. ‘Eu sou isso’ significa que nós – todos nós, do CEO ao zelador – somos expressões do ‘isso’: uma força vital, animadora e enorme. Quando você aprender a acessar essa descoberta, como Bertolini conseguiu, tornará – se o que chamo de líder transcendente.

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O LÍDER TRANSCENDENTE

Acredito que a angústia mais arraigada, indizível e universal que nos habita é o medo de que nossa vida esteja sendo desperdiçada, que a morte nos surpreenda antes que a canção chegue ao fim. Não nos preocupamos apenas com nossa morte física, mas também, talvez de forma mais significante, com a morte simbólica.

Tememos que nossa vida não tenha importância, que não tenhamos feito diferença, que não deixemos traço nesse mundo quando formos embora. Se você é jovem e saudável, provavelmente ainda não deu muita atenção à esse tipo de angústia. Ela é como um ruminar, um ruído de fundo: como o zumbido baixo das luzes florescentes de um escritório. Vez ou outra, se você se esquivou de uma bala como Mark Bertolini o fez, vai refletir para que serve esse dom inefável da vida. Você poderá se perguntar: “Por que estou aqui?” “Que diferença eu faço?” “Qual será meu legado?”

Se tiver sorte o bastante para confrontar essas perguntas, perceberá que cada segundo que passa, cada oportunidade de fazer o bem no tempo que lhe sobra, terá mais sentido.

A liderança transcendente dissolve os problemas corporativos mais difíceis em uma mistura líquida de significado, nobreza, virtude e solidariedade. Ela oferece um mundo aos que seguem seus princípios de fazer face às angústias cruciais na existência de cada ser humano. É por isso que um líder que propõe um “projeto de imortalidade” simbólico, como o humanista Ernest Becker o chamou – um projeto de perenizar valores para além da vida de uma pessoa -, tem formas incríveis de tirar o que há de melhor em nós.

No passado, esses projetos de imortalidade tomavam forma em campanhas militares e culturais baseadas na atitude de que “nós somos melhores do que vocês, pois podemos derrotá-los e escravizá-los”. No livre mercado, porém, nossa meta não é eliminar a concorrência; queremos, na verdade, oferecer tanto valor às partes interessadas que clientes nos escolham em vez de os concorrentes. Ou os concorrentes seguem o passo, ou perigam ficar para trás. Graças à natureza voluntária das transações, o livre mercado permite a cada parte se “auto excluir” caso ele ou ela sinta que ele ou ela está se valorizando. A única forma de lucrar é fazer outras pessoas lucrarem ou melhorarem. Isso transforma interesse pessoal em serviço e imperialismo em comércio.

É preciso uma pessoa especial para ser um líder transcendente. Quem abraça esse pensamento não necessariamente precisa ver a morte de perto, mas precisa ter olhado o mundo dentro de si mesmo para entender a angústia existencial no âmago de cada um de nós. Precisa encarar o próprio medo da morte de modo a criar um projeto de imortalidade significante e benéfico: uma missão empresarial motivada por serviço e à qual os funcionários possam aderir de coração aberto.

Líderes transcendentes trabalham para coordenar os propósitos individuais daqueles a seu serviço em um propósito maior, coletivo, que torna cada pessoa também maior. Eles entendem que, se alguém quer conciliar responsabilidade e cooperação, é preciso inspirar as pessoas e criar uma cultura de comprometimento e conexão com um propósito maior. Quando isso acontece, as pessoas olham para fora de seus mundinhos fechados e pequenos impasses de tomada de decisão. Elas alinham seus melhores esforços com os da empresa de forma natural, como outros sistemas não podem levar a cabo. É a diferença entre remar e velejar.

Um barco movido pelo vento flui em harmonia com as forças naturais. Uma empresa que avança via autoridade formal é como um barco a remo. Já aquela movida por um propósito transcendente é como um veleiro com vento às costas inflando suas velas.

Líderes transcendentes são raros. Eles existem, porém. Inspiram seguidores não por meio do morde e assopra (oferecendo bons salários, bônus e vantagens materiais ou ameaçando-os com rebaixamento ou demissão), mas, fazendo apelo à crença de que usaram seu dia fazendo bem ao mundo.

Líderes transcendentes tendem a ser modestos. Eles adotam a lição de Lao – tsé: “O mau líder é aquele que o povo despreza. O bom líder é aquele que o povo venera. O grande líder é aquele de quem o povo diz: ‘Nós mesmos fizemos tudo”. “Eles encorajam e empoderam seu povo a seguir na missão, não a eles. Na verdade, eu diria que o verdadeiro líder transcendente não tem seguidores – ponto ao qual voltarei mais tarde. Empresas e outras organizações podem se tornar sedes de propósito construídas sobre fundações de benevolência, serviço e amor.

A liderança transcendente exige a habilidade de olhar fundo dentro de nós mesmos – começando por reconhecer nossa própria e inevitável mortalidade – e a autodisciplina para personificar os princípios capazes de inspirar um comprometimento apaixonado nos outros.

Se você planeja motivar pessoas dizendo coisas elevadas sem se tornar de fato um exemplo vivo, seus seguidores vão acabar se tornando cínicos, descomprometidos e raivosos.) Peço que inspire os outros com um propósito comum, um conjunto firme de princípios éticos, uma comunidade de pessoas com ideias afins. Um sentimento de empoderamento incondicional e uma motivação apaixonada por realizações. Não são tarefas fáceis, mas propósito não tem nada a ver com facilidade.

 

***Trecho retirado do livro “LIDERANÇA & PROPÓSITO” – Autor: Fred Kofman – Editora: Harper Collins – Páginas: 352

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 12: 44-50

Alimento diário

O Último Sermão de Cristo aos Judeus

 

Temos aqui a honra que Cristo não assumiu, mas afirmou, para si mesmo, no relato que fez da sua missão e da sua estada no mundo. Provavelmente, este sermão não ocorreu na mesma ocasião que aquele anterior (pois Ele retirou-se deles, v. 36), mas algum tempo depois, quando fez outra aparição pública. E segundo os registros deste evangelista, foi o sermão de despedida de Cristo aos judeus, e seu último sermão público. Tudo o que vier a seguir será privativo, com seus discípulos. Observe como nosso Senhor Jesus transmitiu estas palavras de despedida: Ele “clamou e disse”. “Não clama, porventura, a Sabedoria” (Provérbios 8.1), clama “de fora?” Provérbios 1.20. A elevação da sua voz e seu clamor indicam:

1. Sua coragem ao falar. Embora eles não tivessem coragem de professar abertamente a fé na doutrina de Jesus, Ele tinha coragem de divulgá-la publicam ente. Se nós nos envergonhamos dela, Ele não se envergonhava, mas pôs o rosto como um seixo, Isaías 50.7.

2. Sua veemência ao falar. Ele clamou como alguém que era sério e impertinente, e com fervor no que dizia, e desejoso de transmitir a eles, não somente o Evangelho de Deus, mas até mesmo sua própria alma.

3. Indica seu desejo de que todos prestassem atenção. Sendo esta a última oportunidade da divulgação do seu Evangelho, por Ele mesmo, em pessoa, Ele proclama: “Quem desejar me ouvir, que venha agora”. Qual é a conclusão de toda a questão, este sumário de encerramento de todos os sermões de Cristo? E muito parecida com a de Moisés (Deuteronômio 30.15): “Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, a morte e o mal”. Assim, Cristo aqui deixa o Templo, com uma solene declaração de três coisas:

 

I – Os privilégios e as dignidades daqueles que creem. Isto nos dá um grande encorajamento para crermos em Cristo e professarmos esta fé. É algo de tal natureza, que não precisamos nos envergonhar de fazê-lo ou de reconhecê-lo, pois:

1. Ao crer em Cristo, nós somos trazidos a um honrável conhecimento de Deus (vv. 44,45): “Quem crê em mim”, e “me vê, crê naquele que me enviou”, e o “vê”. Quem crê em Cristo:

(1) Não crê em um mero homem, alguém como Ele parecia ser, e geralmente se considerava que Ele fosse, mas crê naquele que é o Filho de Deus e igual, em poder e glória, com o Pai. Ou, mais exatamente:

(2) Sua fé não ter mina em Cristo, mas, por meio dele, é levada ao Pai, que o enviou. Nosso objetivo maior é chegar à presença de Deus, o Pai, por meio de Cristo, que é o caminho. A doutrina de Cristo é crida e recebida como sendo a verdade de Deus. O descanso de uma alma que crê está em Deus, por meio de Cristo, como Mediador, pois sua resignação a Cristo está de acordo com sua apresentação a Deus. O cristianismo é feito, não de filosofia ou políticas, mas de pura divindade. Isto é exemplificado, v. 45. “Quem me vê a mim” (que é a mesma coisa que crer nele. pois a fé é os olhos da alma) “vê aquele que me enviou”. Conhecendo a Cristo, nós chegamos ao conhecimento de Deus. Pois:

[1] Deus se faz conhecer na face de Cristo (2 Coríntios 4.6), que é a expressa imagem da sua pessoa, Hebreus 1.3.

[2] Todos aqueles que enxergam a Cristo com fé são conduzidos, por Ele, ao conhecimento de Deus, o Pai, a quem Cristo nos revelou pela sua Palavra e pelo seu Espírito. Cristo, sendo Deus, era a imagem da pessoa do seu Pai, mas Cristo, sendo Mediador, era o representante do seu Pai no seu relacionamento com o homem. A luz divina, a lei divina, e o amor divino nos são comunicados nele e por meio dele, de modo que, ao vê-lo (isto é, contemplando-o como nosso Salvador, Príncipe e Senhor, no direito da redenção), vemos e contemplamos o Pai como nosso Senhor, governante e benfeitor, no direito da cri ação, pois Deus se alegra em lidar com os homens caídos através da obra salvadora e redentora de seu próprio Filho, Jesus Cristo.

2. Com isto. nós somos levados a uma satisfação pessoal bastante confortável (v. 46): “Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim”, judeu ou gentio, “não permaneça nas trevas”. Observe:

(1) O caráter de Cristo: “Eu sou a luz que vim ao mundo”, para iluminá-lo. Isto significa que Ele tinha uma existência, e uma existência como luz, antes de vir ao mundo, assim como o sol existe antes de nascer. Os profetas e apóstolos se tornaram luzes para o mundo, mas somente Cristo veio como uma luz a este mundo, tendo sido anteriormente uma luz gloriosa no mundo superior, cap. 3.19.

(2) O consolo dos cristãos: eles não permanecem nas trevas.

[1] Eles não continuam naquela condição de escuridão na qual estavam, por natureza. Eles são iluminados no Senhor. Eles estão sem nenhum verdadeiro consolo, nem alegria, nem esperança, mas não continuam naquela condição. A luz é semeada para eles.

[2] Qualquer que sejam as trevas de aflição, inquietude ou temor, nas quais eles possam se encontrar posteriormente, há uma provisão feita para que não permaneçam nelas por muito tempo.

[3] Eles são libertados daquelas trevas que são perpétuas, e que permanecem para sempre, aquela escuridão completa onde não há o menor cintilar de luz nem esperança dela.

 

II – O perigo e o risco daqueles que não creem, o que lhes traz uma advertência para que não persistam na incredulidade (vv. 47,48): “‘Se alguém ouvir as minhas palavras e não crer, eu não o julgo’. Não o julgarei sozinho, nem o julgarei agora, para que não seja considerado um juiz injusto, por ser o juiz da minha própria causa. Ainda assim, não pense o infiel que continuará impune. Embora Eu não o julgue, existe alguém que o julgará”. Assim, temos aqui a condenação da incredulidade. Observe:

1. Quem são estes cuja incredulidade é aqui conde­ nada: aqueles que ouvem as palavras de Cristo e ainda assim não creem nelas. Não serão condenados por infidelidade aqueles que nunca tiveram, nem puderam ter, o Evangelho. Todo homem será julgado de acordo com a dispensação da luz que recebeu. Aqueles que pecaram sem lei, serão julgados sem lei. Mas aqueles que ouviram, ou poderiam ter ouvido, e não ouviram, estão sujeitos a esta maldição.

2. Qual é o resulta do da malignidade da incredulidade das pessoas: não receber a palavra de Cristo. Esta atitude é considerada (v.48) uma rejeição a Cristo. Ela evidencia uma rejeição com escárnio e desprezo. Onde a bandeira do Evangelho é desfraldada, não se admite neutralidade. Todo homem é um súdito ou um inimigo.

3. A maravilhosa paciência e tolerância do nosso Senhor Jesus, exercida em relação àqueles que o desprezaram quando Ele estava aqui sobre a terra: “Eu não o julgo”, não agora. Observe que Cristo não era rápido nem precipitado em tirar vantagem contra aqueles que recusavam as primeiras ofertas da sua graça, mas continuava esperando poder ser gracioso. Ele não atingia com a mudez ou com a morte aqueles que o contradiziam, nunca fez uma intercessão contra Israel, como fez Elias. Embora Ele tivesse autoridade para julgar, Ele suspendeu a realização deste juízo, porque tinha um trabalho de outra natureza para realizar antes, que era o de salvar o mundo.

(1) Salvar efetivamente aqueles que lhe foram dados antes que Ele viesse para julgar o corpo degenerado da humanidade.

(2) Oferecer a salvação a todo o mundo, e ir tão longe para salvá-los, a tal ponto, que, se alguns não forem salvos, a culpa será deles mesmos. O Senhor devia eliminar o pecado através de seu próprio sacrifício. O desempenho das atribuições e do poder de um juiz não era coerente com esta missão, Atos 8.33. Na sua humilhação, seu juízo foi removido, foi suspenso por algum tempo.

4. O juízo certo e inevitável dos incrédulos no grande dia, o dia da revelação do justo juízo de Deus: a incredulidade certamente será um pecado que levará muitos à perdição. Alguns pensam que quando Cristo disse: “Eu não o julgo”, Ele queria dizer que os homens já estavam condenados. Não é necessário nenhum processo, eles se auto julgam, nem execução, eles se auto destroem. O juízo vai contra eles naturalmente, Hebreus 2.3. Cristo não precisa aparecer contra eles como seu acusador, pois estarão desgraçados se Ele não aparecer a favor deles como seu advogado de defesa. No entanto, Ele lhes diz claramente onde e quando prestarão contas.

(1) “Já tem quem o julgue”. Nada é mais terrível do que a paciência maltratada, e a graça menosprezada. Embora por enquanto a misericórdia se regozije contra o juízo, ainda haverá juízo sem misericórdia.

(2) Seu juízo final é reservado para o último dia. A este dia de juízo, Cristo intima todos os incrédulos, para que respondam, então, por todo o desprezo que lhe lançaram. A justiça divina indicou um dia, e adiou a sentença até este dia, como em Mateus 26.64.

(3) A palavra de Cristo os irá julgar então: ”As palavras que Eu disse, que vocês consideraram com tanto desprezo, elas mesmas irão julgar os incrédulos no último dia”, da mesma maneira como se diz que os após­ tolos, os que pregam a palavra de Cristo, julgarão, Lucas 22.30. As palavras de Cristo irão julgar os incrédulos de duas maneiras:

[1] Como a evidência do seu crime, elas irão condená-los. Cada palavra que Cristo proferiu, cada sermão, cada argumento, cada oferta generosa, será apresentada como um testemunho contra aqueles que desprezaram tudo o que Ele disse.

[2] Como a regra da sua maldição, elas irão condená-los. Eles serão julgados de acordo com o teor daquele concerto que Cristo procurou e promulgou. Estas palavras de Cristo: ”Aquele que crer não será condenado”, julgarão todos os incrédulos e levá-los-ão à destruição eterna. E há muitas palavras semelhantes.

 

III – Uma declaração solene da autoridade que Cristo tem de exigir nossa fé, e exigir que recebamos sua doutrina, sob o risco da condenação, vv. 49,50, onde observe-se:

1. A comissão que nosso Senhor Jesus recebeu do Pai para transmitir sua doutrina ao mundo (v. 49): “Eu não tenho falado de mim mesmo”, como mero homem, muito menos como um homem comum, “mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer “. E a mesma coisa que Ele tinha tido, cap. 7.16. ”A minha doutrina “:

(1) “Não é minha”, pois “eu não tenho falado de mim mesmo”. Cristo, como Filho do homem, não falava aquilo que era de invenção humana. Como Filho de Deus, Ele não agia separadamente, nem por si mesmo, mas o que Ele dizia era o resultado dos conselhos de paz. Como Mediador, sua vinda ao mundo era voluntária, e com seu pleno consentimento, mas não arbitrária, e da sua própria cabeça. Mas

(2) Era daquele que o enviou. Deus, o Pai, lhe deu:

[1] Sua comissão. Deus, o Pai, enviou o Senhor Jesus Cristo como seu representante e plenipotenciário, para consertar a situação entre Ele e o homem, para conseguir colocar em vigor um tratado de paz, e para estabelecer seus artigos.

[2] Suas instruções, aqui chamadas de mandamento, pois eram como aquelas que são entregues a um embaixador, instruindo não somente o que Ele podia dizer, mas o que Ele devia dizer. Ao mensageiro do concerto, foi confiada uma missão que Ele precisava realizar. Observe que nosso Senhor Jesus aprendeu pessoalmente a obediência, antes de nos ensinar, embora Ele fosse Filho. O Senhor Deus ordenou ao primeiro Adão, e ele, com sua desobediência, nos destruiu. Ele ordenou ao segundo Adão, e Ele, com sua obediência, nos salvou. Deus ordenou-lhe o que Ele devia dizer e o que devia falar, duas palavras que significam a mesma coisa, para indicar que todas as palavras eram divinas. Os profetas do Antigo Testamento, às vezes, falavam de si mesmos, mas Cristo falava pelo Espírito em todas as ocasiões. Alguns indicam esta diferença: Ele foi orientado quanto ao que devia dizer nos seus sermões públicos, e o que devia falar, nas suas reuniões familiares. Outros, esta: Ele era orientado quanto ao que devia dizer na sua pregação agora, e o que devia falar, no seu juízo no último dia, pois Ele tinha comissão e instrução para ambos.

2. O escopo, desígnio e a tendência desta comissão:

“E sei que o seu mandamento é a vida eterna”, v. 50. A comissão dada a Cristo tinha uma referência ao estado eterno dos filhos dos homens, e estava de acordo com sua vida e felicidade eternas naquele estado. As instruções dadas a Cristo, como um profeta, eram as de revelar a vida eterna (1 João 5.11), o poder dado a Cristo, como um rei, era o de dar a vida eterna, cap. 17.2. Desta maneira, o mandamento dado a Ele era a vida eterna. Isto Cristo diz que sabia: “Eu sei”, o que indica com que alegria e segurança Cristo prosseguia na sua missão, sabendo muito bem que Ele prosseguia com uma missão boa, que traria frutos para a vida eterna. Indica, da mesma maneira, como é justo que pereçam aqueles que rejeitam a Cristo e à sua palavra. Aqueles que desobedecem a Cristo desprezam a vida eterna, e renunciam a ela, de modo que não apenas as palavras de Cristo irão julgá-los, mas, inclusive, suas próprias palavras. Esta será sua destruição, eles mesmos decidiram, e quem pode isentá-los dela?

3. A observância exata de Cristo, da comissão e das instruções dadas a Ele, e sua atuação firme para realizá-las: “O que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito”. Cristo estava intimamente familiarizado com os conselhos de Deus, e era fiel em revelar aos filhos dos homens o quanto tinha sido determinado que seria revelado e não ocultar nada que fosse aproveitável. Assim como a testemunha fiel liberta almas, também Ele o fazia, e dizia a verdade, toda a verdade, e nada além da verdade. Observe:

(1) Isto é um grande incentivo para a fé. As palavras de Cristo, corretamente interpretadas, são aquilo em que podemos arriscar nossas almas.

(2) É um grande exemplo de obediência. Cristo disse aquilo que o Pai lhe mandou dizer, e nós devemos fazer a mesma coisa. Ele transmitia aquilo que o Pai lhe tinha dito, e nós devemos fazer o mesmo. Veja Atos 4.20. Em meio a todo o respeito que lhe era prestado, a honra que o Senhor Jesus mais valorizava era a de proclamar aquilo que o Pai lhe tinha dito que proclamasse, fazendo a obra da maneira que o Pai desejava que ela fosse feita. E sua glória era que, sendo Filho, Ele era fiel àquele que o nomeou. E nós, através de uma fé infalível em cada palavra de Cristo, e uma completa submissão da alma a ela, devemos dar a Ele a glória devida ao seu nome.