PSICOLOGIA ANALÍTICA

VOCÊ JÁ VIU ISSO!

De repente surge aquela impressão de já termos vivido algo – e a sensação é, quase sempre, de estranhamento: é o que chamam de déjà-vu. Neurologistas e psicólogos tentam compreender esse misterioso fenômeno da percepção temporal.

Você já viu isso!

Você já se “lembrou” de ter vivido determinado momento segundos antes de ele ter ocorrido? A sensação costuma ser acompanhada de certo desconforto. Mas quando foi isso? Será possível? Esse tipo de experiência de déjà-vu, a sensação difusa de já ter vivido antes uma nova situação exatamente da mesma forma, é comum. Algumas pessoas chegam a sentir esse momento como irreal como num sonho. O sentimento de poder prever com exatidão o que vai acontecer no momento seguinte também não é raro.

E, vez por outra, um lugar parece estranhamente conhecido para uma pessoa, apesar de ela ter certeza de nunca ter estado lá antes. Por isso, desde tempos imemoriais os déjà-vus são considerados indícios de vidas passadas e de renascimentos.

Para o psicólogo e neurocientista Akira O’Connor, pesquisador da Universidade de Saint Andrews, na Escócia, o fenômeno pode ser resultado de uma espécie de “checagem da memória”, realizada periodicamente pelo cérebro. Em um estudo, ele e sua equipe procuraram induzir o déjà-vu em 21 voluntários e os submeteu a exames de ressonância magnética. Ele previa que durante os exames de neuroimagem fossem ativadas as regiões cerebrais associadas a memória (como o hipocampo). mas o pesquisador se surpreendeu com o resultado: o que constatou foi um maior funcionamento das partes que participam das tomadas de decisões. Para O`Connor, os resultados apresentados na Conferência Internacional da Memória, em Budapeste, confirmam que o déjà-vu ocorre quando áreas frontais do cérebro revisam nossas lembranças em busca de algum tipo de erro na memória, o que provocaria uma espécie de conflito entre a busca por uma recordação e a certeza de que não vivemos aquele momento.

NÃO É ALUCINAÇÃO

Também estudioso do assunto, o neurocientista Uwe Wolfradt, professor do Instituto de Psicologia da Universidade Martin, em Halle-Wittenberg, na Alemanha, entrevistou mais de 220 estudantes a respeito dessa experiência. Segundo ele, 80 % disseram acreditar que, durante um déjà-vu, estavam se lembrando inconscientemente de um acontecimento que haviam esquecido temporariamente. Essa noção lembra a ideia de Sigmund Freud (1856-1939) de que déjà-vus resultam do desejo de recapitular eventos reprimidos. Ou seja, um mecanismo de defesa ante às circunstâncias adversas vividas anteriormente.

A psicologia cognitiva também traz à tona processos inconscientes para explicar o déjà-vu, os processos da memória “implícita” ou “não declarativa”. Suponhamos que você veja um velho armário em uma feira de usados e de repente toda a situação lhe parece conhecida, mas você se esqueceu de uma coisa: quando ainda era criança, havia um armário muito parecido na casa dos seus avós!

ESTÍMULOS SUBLIMINARES

Uma teoria da psicologia da cognição diz que nós podemos ter a sensação de que uma pessoa, um local ou um acontecimento nos são familiares mesmo quando já experimentamos anteriormente apenas um aspecto determinado deles – como um odor característico – em outro contexto. Esse elemento unitário – que nós, porém, esquecemos ou percebemos na época apenas inconscientemente – desencadeia uma sensação de familiaridade que é transferida para toda a “composição”.

Algumas suposições também se baseiam no processamento inconsciente de informações, afirmando que falhas de atenção seriam as responsáveis pelo déjà-vu: ao dirigir um carro, por exemplo, você se concentra no trânsito. Você vê uma mulher de blusa vermelha na calçada, com um cachorrinho na coleira, mas não registra a cena conscientemente. Um instante depois, você tem de parar no semáforo e tem tempo de olhar em volta com calma. Nesse momento, a mulher que atravessa com o cão lhe parece estranhamente familiar, apesar de você achar que nunca a viu antes. Expressa de forma generalizada, nessa situação, a primeira percepção sob distração é imediatamente seguida de uma segunda com atenção total.  A informação pouco antes interiorizada inconscientemente é interpretada de forma errônea como lembrança.

Estudos sobre a percepção subliminar fornecem suporte empírico para essa hipótese. O psicólogo Larry L. Jacoby, da Universidade de Washington em St. Louis, e seus colegas mostraram em 1989 aos participantes de seu estudo uma palavra em um monitor durante tempo tão curto que eles mal puderam percebê-la. No entanto, os voluntários declararam com mais frequência mais tarde, durante uma nova apresentação mais longa da mesma palavra, que já a haviam visto antes. O processamento inconsciente de estímulos subliminares faz com que estímulos posteriores semelhantes sejam processados mais rapidamente – um procedimento denominado priming (preparação) e hoje já bastante estudado.

Essas e outras hipóteses sobre atenção impressionam, principalmente porque são bastante adequadas às circunstâncias que acompanham o déjà-vu. No início do século passado, Gerhar Heymans, considerado o fundador da psicologia na Holanda, realizou um estudo com 42 universitários. O pesquisador lhes pediu que, durante seis meses, preenchessem um curto questionário imediatamente após uma experiência de déjà-vu. Assim, descobriu que pessoas que sofrem de variações de humor, fases de apatia ou que têm um ritmo de trabalho irregular são mais afetadas por essas ilusões da memória.

Vários autores associam os déjà-vus a um grande volume de viagens, forte cansaço e grande fardo devido ao estresse. Em um estudo da Universidade de Halle-Wittenberg, 46% dos estudantes se lembravam de estar mais relaxados na ocasião do fenômeno; cerca de um terço chegou mesmo a descrever seu estado de espírito como alegre.

Provavelmente, o dejà-vu não é desencadeado imediatamente no momento da tensão por estresse, quando estamos extremamente vigilantes, mas depois, quando nos tornamos cansados e relaxamos. Porém, também são plausíveis outras circunstâncias nas quais nós, por um curto período, não percebemos mais nosso entorno conscientemente. Um de nossos estudos com mais de 300 universitários mostrou, por exemplo, que déjà-vus estão fortemente relacionados à capacidade de mergulhar em fantasias, deixando-se levar pela imaginação. Hoje os déjà-vus estão incluídos entre os distúrbios da memória, mas nada indica que pessoas que os experimentam com frequência sofram de problemas nessa área.

Você já viu isso!.3

OUTROS OLHARES

VAMOS CHACOALHAAAAR!

É preciso que o Brasil enxergue com clareza o grave problema da exploração sexual de crianças e adolescentes no país. Enxergando-o, não há como se omitir.

Vamos Chacoalhaaaar

Vou começar este artigo com uma pergunta que, acredito, todos deveriam fazer-se: o que eu quero que esteja escrito na minha lápide? Para quem crê em Deus, na alma e acredita que o que fazemos nesta vida é o que determinará como será a próxima, essa pergunta é fundamental. Mas, mesmo para quem não é crente, ela é muito importante, pois fala de qual marca queremos deixar nesta vida e de como queremos ser lembrados.

Muitas pessoas acham que basta não fazer o mal que sua missão está cumprida. Não há como acreditar nisso. Não estamos todos juntos neste planeta simplesmente para não fazer mal uns aos outros (isso já seria algo muito bom, é claro), mas para fazermos o bem uns aos outros. Todos temos essa obrigação, mas com certeza as condições e capacidades para isso mudam. Por exemplo, quem tem muito dinheiro, muito mais do que o suficiente para viver bem, o que faz? Guarda? Poupar é importante, para garantir um futuro mais tranquilo, mas será que é mesmo necessário deixar grandes somas aos herdeiros? Há problemas tão graves no mundo, tanta gente precisando de socorro, e um monte de dinheiro, que poderia ajudar tanta gente, guardado…

Outra coisa que as pessoas pensam é que, quando doamos, estamos fazendo bem aos outros. É verdade, mas estamos, mais que tudo, fazendo bem a nós mesmos. Se acreditamos que há vida depois da morte, sabemos que, praticando o bem, vamos ter uma vida boa lá do outro lado. Se não acreditamos em outra vida, vale a mesma afirmação, porque, quando fazemos bem aos outros aqui, tornamos este mundo um lugar melhor para nós, nossos filhos e netos. Quando fazemos da doação uma prática e damos esse exemplo a nossos filhos (que certamente farão o mesmo), ajudamos a circular uma energia melhor no mundo, uma energia de amor e de solidariedade.

Comprometi a maior parte de meus pertences para apoiar causas sociais. Fiz isso com total apoio de minha família, que entende a importância desse gesto, e influenciado pelo meu pai, que doou todo o seu patrimônio quando morreu.

Entre as causas que procuramos fortalecer hoje está o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil. Apoiamos um instituto, o Liberta, que tem como missão conscientizar a sociedade dessa triste realidade e gerar uma indignação capaz de “desnaturalizar” esse comportamento e mudar uma cultura permissiva em relação ao problema.

Pelas últimas estimativas, cerca de 500.000 meninas e meninos são explorados sexualmente todos os anos, o que faz do Brasil o segundo país com os piores índices de prostituição infantil. A maioria das vítimas tem entre 7 e 14 anos. O problema da exploração sexual de crianças e adolescentes existe no mundo todo, mas nos países cuja população é mais vulnerável esse quadro se agrava, e muito.

Um quadro que começa com a cultura do abuso sexual. É assustador pensar que, em pleno século XXI, homens (pais, padrastos, tios, avôs etc.) se julgam no direito de utilizar-se do corpo de crianças e jovens que estão, de alguma forma, sob o seu domínio. Tratam meninas como objetos, cuja propriedade lhes pertence. Muitos desses homens nem compreendem a gravidade de seus atos, porque viram acontecer isso desde sempre e não se enxergam como os criminosos que são. É o que chamamos de cultura do abuso, na qual são comuns frases como: “Quem planta a bananeira tem o direito de comer o primeiro fruto” ou “Eu que fiz, vão usar, tenho o direito de usar primeiro”.

A exploração sexual é uma questão diferente do abuso, apesar de os dois estarem totalmente conectados. Enquanto o abuso se dá normalmente nos espaços familiares, nos quais as crianças deveriam estar protegidas, a exploração sexual é uma questão mercantil, pois as vítimas recebem dinheiro ou qualquer outro produto em troca de sexo.

São diversas as facetas da exploração sexual, desde o tráfico de pessoas até a venda de filhos pelas famílias e a “pseudoescolha” desse caminho pelas vítimas.

O abuso é um assunto gravíssimo que merece muita atenção, mas a exploração sexual também. Digo isso porque parece que boa parte da sociedade enxerga a exploração como um crime menor, menos grave.

Pesquisa feita pelo instituto Datafolha revela que a maioria das pessoas sabe que pagar para fazer sexo com uma criança ou adolescente é crime. No entanto, quando questionadas se denunciaram algum caso do qual tiveram ciência, a resposta é negativa. Cerca de 24% dos entrevistados declararam já ter visto uma situação de exploração sexual infantil. Destes, 72% afirmaram não ter feito denúncia.

Não podemos fechar os olhos a esse crime, pois as consequências são terríveis. Primeiro, porque são crianças e adolescentes “escravos” de uma situação, ainda que às vezes acreditem que seja uma escolha. Trata-se, sem dúvida, de uma grande violação dos direitos humanos, tanto que a Organização Internacional do Trabalho (Oin, uma agência da Organização das Nações Unidas, classifica a prostituição infantil como o pior tipo de trabalho infantil. Em segundo lugar, porque o custo social de negligenciarmos essa questão é absurdo. São meninas que saem da escola, envolvem-se com álcool e drogas, adquirem doenças sexualmente transmissíveis e têm filhos muito cedo. Filhos que não terão condições de cuidar e que acabarão no colo do Estado, seja nos abrigos, nas instituições correcionais ou nas prisões. Portanto, é um ciclo perverso de miséria que não se rompe.

Acreditamos que a educação tem um papel fundamental no processo de transformação dessa realidade. Crianças e adolescentes precisam encontrar na escola um ambiente em que possam falar e pedir socorro, e os professores devem estar preparados para ajudá-los.

Enfim, o Instituto Liberta tem como missão discutir essa indignidade à qual milhares de crianças e adolescentes estão submetidos cotidianamente. Queremos CHACOALHAAAR a nós e aos outros para sairmos dessa situação de indiferença. Temos de insistir no assunto para que todos enxerguem com a clareza necessária. Assim, não há como se omitir. Como ficar tranquilo quando meninas, iguais às suas filhas e netas, estão servindo de “escravas sexuais”? Sabendo disso, nós nos vemos na obrigação de agir, e queremos alertar a todos para que também se sintam obrigados a tomar uma atitude. Aí, voltamos à questão inicial: o que você quer que esteja escrito na sua lápide?

 

*ELIA HOM – é empresário e fundador da Cyrela e do Instituto Liberta.

GESTÃO E CARREIRA

O TEMPO DE PRODUZIR

Houve um tempo em que o ócio era um direito, mesmo que para poucos, e esse era um comportamento condicionante para se alcançar o status maior na sociedade da época. O que mudou hoje?

O tempo de produzir

Até algum tempo atrás ainda se valorizavam as pessoas que podiam passar os dias sem produzir nada. Hoje tudo mudou!

Os tempos alteram os costumes e até mesmo a moral reinante. Nos dias atuais, alguém que não produz, mesmo sendo abastado financeiramente, é visto com olhares diferenciados pelo grupo social. De fato, muitas vezes, a própria pessoa não consegue desenvolver uma boa autoestima por ter esse padrão de vida.

Em consultório, é muito comum os profissionais da Psicologia receberem pessoas incompletas, buscando algo além do material ou do conforto, de boas roupas, viagens e tudo que os recursos financeiros podem ofertar. O que seria isso?

Já se foi o tempo em que era válida a frase atribuída ao poeta cubano José Marti: “Há três coisas que um homem deveria fazer na sua vida: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro”. Hoje o padrão tecnológico impõe novas produções que geram valor social.

Assim, ter um blog, um canal no YouTube e contribuir para uma causa social (Médicos sem Fronteiras, por exemplo) podem ter muito mais valia que árvores, livros e filhos. O termo de produção ganha uma nova perspectiva e nem todos estão preparados para isso. O ambiente do trabalho está se deslocando para qualquer lugar onde exista um ponto de internet de boa qualidade. Produtos on-line ultrapassam as vendas das lojas físicas e, mais inovador ainda, produtos virtuais (que só existem dentro das máquinas) ganham força no mercado.

Surge aí o conflito interno nos seres humanos entre o que é de fato uma produção e o que se trata apenas de um tipo de lazer com rentabilidade?

A Revolução Industrial colocou cada um em sua estação de trabalho. Diferentes momentos do processo ocorreram na Inglaterra, no final do século XVIII e início do século XIX. Depois o mundo abraçou o modelo, começando pela França, Bélgica, Holanda, Rússia, Alemanha, e Estados Unidos. Consolidado, tornou-se o modelo de trabalho/produção considerado ideal para a maior parcela da humanidade.

Quem não faz parte desse modelo está à margem da sociedade. Salvo artesãos, homens do plantio, artistas expoentes, todos os que se posicionam de forma contrária ao modelo consagrado não devem receber o respeito de seus pares.

Até mesmo as instituições de ensino que funcionam em modelo de rodízio (os alunos saem e entram e os professores continuam na mesma sala) simulam uma grande fábrica com seus operários e instalações.

Quando a Modernidade apresentou um novo modelo, ainda sem um nome bem definido (o futuro irá nomear, não se preocupe), os humanos não estavam preparados para a alteração no que consideravam trabalho/produção. Não são poucas as pessoas que sofrem, mesmo estando produzindo, apenas porque, internamente, não existe um reconhecimento dentro do antigo padrão estabelecido.

Ocorre que o cérebro, em si, não faz muita distinção do que seja considerado uma produção, desde que a mente consciente assinale como tal. Assim, desenvolve-se uma rotina comportamental que, quando praticada diariamente, ajuda na estruturação de uma autoestima. A capacidade de se reconhecer como membro produzido e merecedor das recompensas.

Será que são esses os passos dessa dinâmica diária para a realização?

Encontre três tarefas pequenas que possa realizar diariamente. Coisas bem simples e fáceis, feitas de forma ininterrupta por pelo menos um mês. É importante que as tarefas sejam realizadas todos os dias que a pessoa considere de produção: segunda a sexta ou segunda a sábado. Pense em coisas realmente simples de serem realizadas: origamis, post em blog, diário pessoal, cuidar de uma planta, fazer artesanato. O importante é que, uma vez; escolhidas as tarefas, elas sejam executadas.

Agora, após cada tarefa executada, você deve se dar um presente. Algo simples também, mas que sinalize ao seu cérebro que você executou uma produção e que, por isso, é merecedor de uma recompensa. Da mesma forma, pense em se dar coisas simples, como: beber uma água de coco, dar uma caminhada, ir ao cinema ou assistir a um filme em casa mesmo.

O que acontece com a mente nesse processo é que ela passa a ser apresentada a uma produção merecedora de crédito, em um formato diferente dos usuais. Assim, com os dias e a rotina estabelecida, o modelo se torna inconsciente. Toda e qualquer produção, por menor que seja, é digna e merece receber recompensas por isso.

Muitas são as vítimas da alteração de modelos de produção e merecimento. E existem muitas possibilidades abertas e novas formas de trabalho, basta você perceber com o que se identifica e colocar em prática, mesmo que seja fora do modelo tradicional de sair de casa, bater o ponto e retornar para o lar após uma jornada exaustiva.

Produzir é necessário não tão somente para o retorno financeiro, mas para nos sentirmos parte atuante do mundo em que vivemos. A recompensa maior é o auto- reconhecimento.

 O tempo de produzir.2

JOÃO OLIVEIRA – é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isecpsc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções! Jogos para Gestão de Pessoas, Maratona para o Desenvolvimento Organizacional, Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida, Saiba Quem Está à sua Frente – Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 12: 20-26

Alimento diário

Certos gregos desejam ver Jesus. A recompensa dos servos de Cristo

 

Aqui alguns gregos que tinham perguntado por Ele, com respeito, o honram. Não lemos que dia era este, na última semana de Cristo. Provavelmente, não era o mesmo dia em que Ele entrou em Jerusalém (pois aquele dia foi dedicado ao trabalho público), mas um dia ou dois depois daquele.

 

I – Nós lemos quem eram as pessoas que prestaram esta honra ao nosso Senhor Jesus: ”Alguns gregos entre os que tinham subido a adorar no dia da festa”, v. 20. Alguns pensam que eram judeus da dispersão, alguns das doze tribos que estavam dispersos entre os gentios, e eram chamados de gregos, judeus helênicos. Mas outros opinam que eram gentios, os que eram chamados prosélitos do portão, tais como o eunuco e Cornélio. A religião natural pura encontrava a melhor recepção entre os judeus, e, portanto, aqueles entre os gentios que eram mais piedosos os acompanhavam em seus encontros solenes, à medida que isto lhes era permitido. Havia adoradores devotos do Deus verdadeiro até mesmo entre aqueles que eram estranhos à comunidade de Israel. Foi nos últimos tempos da igreja judaica que houve este afluxo de gentios ao Templo de Jerusalém – um feliz presságio da derrubada do muro de separação entre judeus e gentios. A proibição dos sacerdotes, de aceitar qualquer oblação ou sacrifício de um gentio (o que foi feito por Eleazar, filho de Ananias, o sumo sacerdote), diz Josefo, foi uma das coisas que motivou os ataques dos romanos, Way; liv. 2, cap. 30. Embora estes gregos, se incircuncisos, não tivessem permissão para participar da refeição de Páscoa, ainda assim vinham para adorar na festa. Nós devemos, com gratidão, usar os privilégios que temos, embora possa haver outros que nos sejam proibidos.

 

II – Qual foi esta honra que lhe prestaram: eles queriam “ver a Jesus”, v. 21. Tendo vindo para adorar na festa, desejavam fazer o melhor uso possível do seu tempo, e, portanto, dirigiram-se a Filipe, desejando que ele os pusesse no caminho de conseguir uma conversa pessoal com o Senhor Jesus.

1. Tendo um desejo de ver a Cristo, eles foram diligentes no uso dos meios adequados. Eles não concluíram que era impossível conseguir falar com Ele, uma vez que Ele era tão procurado pela multidão, nem ficaram simplesmente desejando, mas decidiram tentar e ver o que poderia ser feito. Observe que aqueles que desejam ter conhecimento de Cristo, devem procurá-lo.

2. Eles procuraram a Filipe, um dos discípulos. Alguns pensam que eles o tinham conhecido anteriormente, e viviam perto de Betsaida, na Galiléia dos gentios. E isto nos ensina que nós devemos aproveitar o conhecimento que temos das pessoas boas, para que nosso conhecimento a respeito de Cristo cresça. Ê bom conhecer aqueles que conhecem o Senhor. Mas, se estes gregos tinham estado perto da Galiléia, é provável que tivessem conhecido Cristo ali, onde Ele residia na maior parte do tempo. Por isto, eu penso que eles se dirigiram a Filipe somente porque viram que ele era um seguidor próximo de Cristo, e foi o primeiro com quem conseguiram falar. Embora parecesse humilde, o fato de que procurassem um dos discípulos de Jesus para conseguir uma oportunidade de conversar com Ele foi um exemplo da veneração que eles tinham por Cristo, um sinal de que eles o consideravam como alguém grandioso. Aqueles que desejam ver a Jesus pela fé, agora que Ele está no céu, devem dirigir-se aos seus ministros, a quem Ele nomeou para este propósito, para guiar as pobres almas na sua busca por Ele. Paulo deveria procurar a Ananias, e Cornélio, a Pedro. A condução destes gregos ao conhecimento de Cristo, por intermédio de Filipe, significou a interferência dos apóstolos, e a utilidade do seu ministério na conversão dos gentios à fé, e no discipulado das nações.

3. As palavras que dirigiram a Filipe foram, em resumo, estas: “Senhor, queríamos ver a Jesus”. Eles lhe dão um título de respeito, como alguém digno de honra, porque se relacionava com Cristo. Seu interesse é que queriam ver a Jesus, não somente ver seu rosto, para que pudessem dizer, quando voltassem para casa, que tinham visto alguém de quem se falava tanto (é provável que o tivessem visto quando apareceu publicamente), mas queriam ter algum tipo de conversa com Ele, e queriam que Ele os ensinas­ se, pois não era fácil encontrá-lo em seu tempo livre, suas mãos estavam muito cheias de trabalho público. Agora que tinham vindo para adorar na festa, queriam ver Jesus. Observe que, em nosso comparecimento às ordenanças sagradas, os cultos ao Senhor, e particularmente à Páscoa do Evangelho, o grande desejo das nossas almas deve consistir em ver Jesus. Ter nossa familiaridade com Ele aumentada, nossa confiança nele fortalecida, nossa conformidade a Ele mantida. Vê-lo como nosso, conservar a comunhão com Ele, e obter comunicações da graça vindas dele. Não alcançaremos o objetivo da nossa vinda se não virmos Jesus.

4. Aqui está o relato que Filipe fez deste fato ao seu Mestre, v. 22. Ele conta a André, que também era de Betsaida, e um veterano no grupo dos apóstolos, contemporâneo de Pedro, e lhe pergunta o que deviam fazer, se ele julgava que o pedido seria aceito ou não, porque Cristo tinha dito algumas vezes que Ele havia sido enviado somente à casa de Israel. Eles estão de acordo que o pedido devia ser feito, mas então Filipe deseja que André o acompanhe, provavelmente lembrando da aceitação favorável que Cristo lhes tinha prometido, caso dois deles concordassem na terra acerca de qual­ quer coisa que pedissem, Mateus 18.19. Observe que os ministros de Cristo devem ajudar-se mutuamente e contribuir para ajudar a levar as almas a Cristo: “Melhor é serem dois do que um”. Parece que André e Filipe levaram esta mensagem a Cristo quando Ele estava ensinando em público, pois lemos (v. 29) a respeito da multidão que ali estava. Raramente Ele estava sozinho.

 

III – A aceitação de Cristo desta honra que lhe era dedicada, representada pelo que Ele disse às pessoas que ali estavam, v. 23ss., em que o Senhor prediz tanto a honra que Ele mesmo teria por ser seguido (vv. 23,24) quanto a honra que ter iam aqueles que o seguissem, vv. 25,26. Isto tinha o propósito de orienta r e incentivar estes gregos, e todos os demais que desejassem conhecê-lo.

1. Ele prevê uma abundante colheita, na conversão dos gentios, da qual esta era uma espécie de primícias, v. 23. Cristo disse aos dois discípulos que vieram trazer o pedido dos egos, mas duvidavam se seriam bem-sucedidos ou não: “É chegada a hora em que o Filho do Homem há de ser glorificado”, pela ascensão dos gentios à igreja e para isto, Ele devia ser rejeitado pelos judeus. Observe:

O objetivo designado, que é a glorificação do Redentor: “É verdade? Os gentios começam a me procurar? A estrela da manhã começa a aparecer para eles? Já estão sentindo o alvorecer do novo dia? A bendita salvação tem sua hora e lugar, e está começando a alcançar os confins da terra? Então é chegada a hora em que o Filho do Homem há de ser glorificado”. Isto não era surpresa para Cristo, mas um paradoxo para os que estavam ao seu redor. Observe:

[1] O chamado, o efetivo chamado, dos gentios à igreja de Deus contribuiu enormemente para a glória do Filho do homem. A multiplicação dos redimidos era a exaltação do Redentor.

[2] Havia uma hora, uma hora indicada, uma hora certa, para a glorificação do Filho do homem, que, por fim, chegou, quando os dias da sua humilhação estavam contados e terminados, e Ele fala da chegada desta hora com exultação e triunfo: “É chegada a hora”.

(2) A estranha maneira como este fim seria alcançado, que seria pela morte de Cristo, evidenciada naquela semelhança (v. 24): “Na verdade, na verdade vos digo”, a quem falei da minha morte e dos meus sofrimentos, “que, se o grão de trigo, caindo”, não somente na, mas dentro da, “terra, não morrer”, e ser enterrado e extraviado, “fica ele só”, e nunca mais será visto; “mas, se morrer”, de acordo com o curso da natureza (caso contrário, seria um milagre), “dá muito fruto”, Deus dá a cada semente seu próprio corpo. Cristo é o grão de trigo, o grão mais valioso e útil. Aqui temos:

[1] A necessidade da humilhação de Cristo é evidenciada. Ele nunca teria sido a viva e vivificante cabeça e raiz da igreja se não tivesse descido do céu a esta terra amaldiçoada, e se não tivesse sido erguido desta no madeiro maldito, obtendo, desta maneira, nossa redenção. Ele deve derramar sua alma na morte, caso contrário não poderá ter parte com os poderosos, Isaías 53.12. Ele terá uma semente, que lhe será dada, mas Ele deve derramar seu sangue para comprá-la e purificá-la, deve ganhá-la e usá-la. Da mesma maneira, isto era necessário como uma qualificação para aquela glória que Ele teria, quando as multidões se unissem à sua igreja. Pois, se o Senhor Jesus não tivesse, pelos seus sofrimentos, expia­ do o pecado, apresentando, desta maneira, uma justiça duradoura, Ele não seria suficientemente qualificado para receber aqueles que viessem a Ele, e, portanto, de­ veria permanecer sozinho.

[2] A vantagem da humilhação de Cristo é exemplificada. Ele se humilhou ao máximo na sua encarnação, parecendo que estava sendo enterrado vivo nesta terra, tal a maneira como sua glória foi ocultada. Mas isto não era tudo: Ele morreu. O Deus imortal se submeteu à lei da mortalidade, e esteve no sepulcro como uma semente sob a terra. Mas, assim como a semente aflora novamente, verde e fresca, e floresce, e cresce, o Cristo morto trouxe a si milhares de cristãos vivos, e se tornou sua raiz. A salvação das almas até aqui, e daqui até o final dos tempos, deve-se à morte deste grão de trigo. Deste modo, o Pai e o Filho são glorificados, a igreja é abastecida, o corpo místico é mantido, e será, no final, completado. E quando o tempo já não existir mais, o Capitão da nossa salvação, trazendo muitos filhos à glória, pela virtude da sua morte e ressurreição, e tendo sido aperfeiçoado pelos sofrimentos, será celebrado par a sempre, pelos louvores alegres dos santos e dos anjos, Hebreus 2.10,13.

2. Ele prevê e promete uma abundante recompensa àqueles que o aceitarem cordialmente, e ao seu Evangelho, e aos seus interesses, e evidenciarem que o fazem pela sua fidelidade, sofrendo por Ele ou servindo-o.

(1) Sofrendo por Ele (v. 25): “Quem ama a sua vida”, mais do que a Cristo, “perdê-la-á”, mas “quem, neste mundo, aborrece a sua vida”, e prefere a graça de Deus e o interesse em Cristo a ela, “guardá-la-á para a vida eterna”. Cristo insistia muito nesta doutrina, pois o grande desígnio do seu Evangelho é nos desacostumar deste mundo, colocando-nos diante de outro.

[1] Veja aqui as consequências fatais de um desordenado amor à vida. Muitos homens se abraçam à morte, e perdem sua vida, amando-a demais. Aquele que amar tanto sua vida física neste mundo, sua vida animal, a ponto de ser indulgente com seus desejos, e fizer provisões para a carne, satisfazer sua luxúria, estará encurtando seus dias, perderá esta vida que tanto aprecia, além de outra, infinitamente melhor. Aquele que ama tanto a vida do corpo, e seus prazeres e delícias, a ponto de, temendo arriscá-los, renegar a Cristo, os perderá, isto é, perderá a verdadeira felicidade no outro mundo, enquanto pensa estar garantindo uma felicidade imaginária neste. “Pele por pele” um homem pode dar pela sua vida, e será capaz de fazer um negócio aparentemente bom, mas aquele que dá sua alma, seu Deus, seu céu, pela sua vida, paga por ela um preço muito alto, e é culpado de cometer a mesma tolice daquele que vendeu sua primogenitura por um guisado.

[2] Veja também a abençoada recompensa de um sagrado desprezo pela vida. Aquele que aborrece tanto a vida do corpo, a ponto de arriscá-la para preservar a vida da sua alma, achará a ambas, com vantagens indescritíveis, na vida eterna. Observe que, em primeiro lugar, é necessário que os discípulos de Cristo aborreçam sua vida neste mundo. Uma vida neste mundo pressupõe uma vida no mundo porvir, e esta é aborrecida quando é menos amada do que aquela. Nossa vida neste mundo inclui todas as alegrias deste nosso estado atual, riquezas, honras, prazeres, e uma longa vida. Mesmo possuindo tudo isto, nós devemos aborrecer, isto é, desprezar estas coisas, por serem inúteis e insuficientes para nos fazer felizes, odiar as tentações que há nelas, e separar-nos delas alegremente, quando competirem com o serviço a Cristo, Atos 20.24; 21.13; Apocalipse 12.11. Veja aqui o poder da santidade, que conquista os mais fortes afetos naturais, e o mistério da santidade, que é a maior sabedoria, e ainda assim faz com que os homens detestem suas próprias vidas. Em segundo lugar, aqueles que, por amor a Cristo, aborrecem sua vida neste mundo, serão abundantemente recompensados na ressurreição dos justos. Aquele que “aborrece a sua vida, guardá-la-á”. Cada crente deve colocar sua vida nas mãos daquele que a guardará para a vida eterna, e a de­ volverá com uma melhoria tão grande quanto a que a vida celestial pode fazer da vida terrena.

(2) Servindo a Ele (v. 26): “Se alguém me serve, siga-me”, como um servo segue ao seu mestre; “e, onde eu estiver”, ali esteja meu servo. Assim alguns interpretam, indicando parte do dever do servo, que precisa estar perto do Senhor para servi-lo. Nós entendemos como parte da promessa: Ali ele estará em felicidade comigo. E para que isto não pareça pouco, Ele acrescenta: “Se alguém me servir, meu Pai o honrará”. E isto é suficiente, mais que suficiente. Os gregos desejavam ver a Jesus (v.21), mas Cristo os faz saber que não era suficiente vê-lo, eles de­ vem servi-lo. Ele não veio a este mundo para ser um espetáculo para nossa vista, mas para ser um rei, para nos governar. E Ele diz isto para o incentivo daqueles que o procuravam, para se tornarem seus servos. Ao empregar servos, é comum determinar tanto o trabalho quanto o salário. Cristo faz as duas coisas aqui.

[1] Aqui está o trabalho que Cristo espera dos seus servos. É muito fácil, e razoável, e do tipo que lhes é conveniente.

Em primeiro lugar, que acompanhem os movimentos do seu Mestre: “Se alguém me serve, siga-me”. Os cristãos devem seguir a Cristo, seguir seus métodos e suas prescrições, fazer o que Ele diz, seguir seu exemplo e modelo, andar como Ele andou, seguir sua conduta, pela sua providência e pelo seu Espírito. Nós devemos ir aonde Ele nos levar, e pelo caminho pelo qual Ele nos levar. Devemos seguir o Cordeiro a qualquer lugar que Ele nos conduzir. “Se alguém me serve, se ele se coloca neste relacionamento comigo, que se dedique ao meu serviço, e sempre esteja ao meu dispor” Ou: “Se alguém realmente me serve, que faça uma profissão pública e aberta do seu relacionamento comigo, seguindo-me, assim como um servo reconhece seu mestre seguindo-o pelas ruas”.

Em segundo lugar, que acompanhem o repouso do seu Mestre: “Onde eu estiver, ali estará também o meu servo”, para me servir. Cristo está onde estiver sua igreja, nas assembleias dos seus santos, onde são administradas suas ordenanças, e ali deverão estar seus servos, para se apresentarem diante dele, e receberem dele suas instruções. Ou: “Quando Eu estiver no céu, para onde vou agora, ali deverão estar os pensamentos e os afetos dos meus servos, ali deverá estar seu interesse, onde Cristo estiver assentado”. Colossenses 3.1,2.

[2] Aqui estão as recompensas que Cristo promete aos seus servos, e são muito ricas e nobres.

Em primeiro lugar, eles serão felizes com Ele: “Onde eu estiver, ali estará também o meu servo”. Estar com Ele, quando Ele estava aqui, em meio à pobreza e às dificuldades, não seria viver sua primazia. Portanto, sem dúvida, o Senhor se refere à bênção de estar com Ele no paraíso, assentado com Ele à sua mesa, nas alturas, no seu trono ali. Estar com Cristo é a felicidade de todos aqueles que vivem no céu, cap. 17.24. Cristo fala da felicidade do céu como se já estivesse ali: “Onde eu estiver”, porque Ele tinha certeza disto, e estava próximo disto, e isto era seguro aos seus olhos e ao seu coração. E a mesma alegria e glória que Ele julgava recompensa suficiente para todos os seus serviços e sofrimentos são propostas aos seus servos, como recompensa pelos seus. Aqueles que o seguirem ao longo do caminho estarão com Ele no final.

Em segundo lugar, eles serão honrados pelo Pai. Ele os compensará por todos os seus sofrimentos e perdas, conferindo-lhes uma honra, como é conveniente que um grande Deus o faça, mas muito além daquilo que os vermes insignificantes da terra poderiam esperar recebei: Aquele que dá a recompensa é o próprio Deus, que considera os serviços prestados ao Senhor Jesus como sendo prestados a si mesmo. A recompensa é a honra, a verdadeira e eterna honra, a mais elevada honra. E a honra que vem de Deus. Está escrito (Provérbios 27.18): “O que vela pelo seu senhor”, humildem ente e diligentemente “será honrado”. Deus honrará aqueles que servirem a Cristo. Eles serão recompensados no dia determinado por Deus, que agora está oculto de todos, como se estivesse sob um véu. Aqueles que servem a Cristo devem se humilhar, e serão normalmente desprestigiados neste mundo, e, como recompensa por estas duas cosias, eles serão exaltados no momento adequado.

Até aqui, as palavras de Cristo fazem referência àqueles gregos que desejavam vê-lo, incentivando-os a servi-lo. Não sabemos o que aconteceu com aqueles gregos, mas esperamos que todos aqueles que pergunta­ rem qual é o caminho para o céu, com seus rostos voltados para lá, o encontrem, e caminhem nele.