PSICOLOGIA ANALÍTICA

TRANSTORNO BIPOLAR NA INFÂNCIA

Conheça essa patologia, que desperta uma série de dúvidas, inclusive nos profissionais da área de saúde, e suas possibilidades de tratamento, bem como a maneira de fazer o diagnóstico correto.

Transtorno bipolar na infância

Será possível afirmar que uma criança apresente o diagnóstico de transtorno bipolar? Compreender acerca dessa patologia pode ajudar pais e/ou cuidadores a não negligenciarem a necessidade de busca por tratamento. De fato, o diagnóstico correto, e consequentemente, o tratamento adequado na infância podem ocasionar melhora do prognóstico na vida adulta.

CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS

Um grande número de pessoas, inclusive profissionais da área de saúde, ainda apresentam dúvidas acerca do que é o transtorno bipolar (TB). Trata-se de uma doença grave, crônica e recorrente, com prevalência estimada em torno de 4% quando engloba suas apresentações clássicas e também subsindrômicas, que são formas mais leves do transtorno. Muito frequentemente a doença se manifesta no final da adolescência e início da vida adulta. No entanto, alguns pacientes experimentam seu primeiro episódio na infância e na adolescência. A prevalência em jovens abaixo de 18 anos é aproximadamente 2%.

O TB é caracterizado por oscilações patológicas do humor, que envolvem episódios de mania ou hipomania e depressão. A mania é um estado em que os indivíduos apresentam irritabilidade, humor expansivo, euforia, autoestima elevada, além do aumento desproporcional e persistente da atividade ou da energia. Na mania, ainda, o indivíduo pode ser inadequado, fazer brincadeiras excessivas, ter desinibição e hipersexualidade. Entretanto, quando esses sintomas são apresentados de forma mais leve, não tão grave e o indivíduo não se põe em risco, considera-se o episódio como hipomania. Na fase de depressão, os portadores de TB apresentam humor rebaixado e perda do interesse ou prazer, dentre outros sintomas como baixa autoestima, isolamento e sentimento de culpa. De fato, não é em todos os momentos da vida que os portadores de TB apresentam esses estados patológicos, eles também podem apresentar o estado de eutimia, isto é, em remissão sintomatológica, em que a doença não fica aparente.

Erroneamente, o senso comum, por vezes, entende o TB como uma simples e repentina alteração do humor. Qualquer pessoa pode apresentar mudanças de humor e isso não significa que seja TB. O diagnóstico preciso deve ser feito por um psiquiatra e inclui análise dos sintomas, seu tempo de duração e o grau de prejuízo para a vida do indivíduo. No passado existia menor conhecimento sobre o TB e o diagnóstico era difícil, levando anos para ser dado corretamente. Todavia, mais recentemente o aumento de estudos sobre a doença proporcionou maior entendimento sobre o transtorno. Nem sempre o transtorno é identificado com facilidade, principalmente quando se trata de uma criança. Nesse sentido, para que o diagnóstico não seja realizado de maneira incorreta é importante preparo do profissional, escuta apurada sobre a história do paciente e avaliação cuidadosa dos seus sintomas.

Durante os últimos 20 anos, uma série de estudos científicos foi realizada acerca do diagnóstico do TB na infância. Existe um crescimento que tem criado controvérsias, gerando preocupação e, então, surge uma questão: o diagnóstico é realizado adequadamente? Todavia, entre 50% e 60% dos adultos com o diagnóstico bem-feito referem que o primeiro episódio foi aos 19 anos e 15 % a 28% experimentaram o primeiro episódio por volta dos 13 anos. Assim, é válido ressaltar que o TB na infância e adolescência não é tão raro quanto se imaginava anteriormente.

DSM-5

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), os critérios para TB na infância são os mesmos que no adulto. Quando uma criança apresenta evidências claras de mania ou hipomania que não são atribuídas ao uso de substâncias de medicamentos ou outra condição médica, o diagnóstico de TB deve ser considerado. O TB tipo I requer a ocorrência de pelo menos um episódio de mania, enquanto o tipo II envolve um episódio depressivo e também um ou mais episódios de hipomania.

Além disso, o DSM inclui uma categoria diagnóstica para outra especificidade de TB e relacionado a transtornos que se caracterizam com os sintomas subsindrômicos e não se adequam aos critérios diagnósticos de TB tipo I e II, mas ainda pode gerar prejuízos de no mínimo 2 ou 3 dias (American Psychiatry Association, 2013).

Embora os critérios diagnósticos em adultos e crianças sejam semelhantes, identificar mania na infância é um desafio. Torna-se difícil, pois as crianças, em geral, apresentam mais flutuações e labilidade de humor que os adultos. Durante a avaliação dos sintomas nas crianças, os profissionais devem conhecer acerca do desenvolvimento e saber reconhecer o que faz parte da idade adequada de cada criança.

Nesse sentido, é possível considerar quais os sintomas que não são apropriados para a idade. Portanto, considera-se normal que a criança até 10 anos fique excitada no parque. Contudo, se isso acontece em outros contextos, muitas vezes, de uma forma inadequada, como na igreja e na sala de aula é possível existir um quadro de mania.

Geralmente, um início mais precoce está relacionado à uma doença mais grave, caracterizada com um número maior de sintomas e comorbidades. Ademais, quando a manifestação do TB ocorre em fases iniciais do desenvolvimento, familiares e cuidadores apresentam resistência em aceitar o diagnóstico e colaborar com o tratamento adequado. Nesse sentido, o atraso no tratamento pode provocar ainda mais prejuízos para o portador. Alguns estudos pontuaram que, comparado com o TB de início da vida adulta, o TB na infância está associado a um curso de doença mais severo, alto nível de resistência a tratamento, alto risco de abuso de substância e suicidalidade, assim como resultados psicossociais pobres.

O curso do TB pode sofrer grande variação entre os indivíduos. No entanto, é comum e frequente a presença de problemas escolares e profissionais, baixa satisfação com a vida, assim como dificuldades com relacionamentos interpessoais. Alguns estudos mostram que portadores de TB apresentam menor qualidade de vida (QV) do que controles saudáveis, mesmo quando estão eutímicos.

Além disso, a literatura aponta que o TB é uma doença potencialmente letal. Existem estimativas de que 25% a 50% dos pacientes com TB vão tentar suicídio pelo menos uma vez na vida, e 15% a 19% vão cometer o suicídio.

No que se refere à infância, estudos apontam que o TB nessa fase provoca nível mais baixo de QV do que outras doenças clínicas e mentais. Desse modo, o baixo nível de QV e a suicidalidade estão associados a pior funcionamento familiar. Ao passo que o funcionamento familiar precário e a baixa QV contribuem para a suicidalidade.

Diferentemente do TB no adulto, o TB na infância pode apresentar características similares a alguns outros transtornos da infância, como: transtorno de comportamento disruptivo, transtorno de déficit da atenção com hiperatividade (TDAH), transtorno de desregulação do humor e/ou transtorno invasivo do desenvolvimento. Uma vez que existem falhas em discriminar essas patologias, é possível que o diagnóstico e o tratamento sejam realizados de forma inadequada, o que dificulta um prognóstico favorável na vida adulta.

PATOLOGIA SOLITÁRIA?

Com efeito, alguns estudos demonstram que pacientes com TB apresentam apoio social insatisfatório e baixo nível de apoio social comparados com controles saudáveis. Isso indica os prejuízos sociais que podem ocorrer devido ao TB. Talvez isso aconteça, pois, os portadores de TB frequentemente reagem de maneira impulsiva e agressiva.

Nesse sentido, afastam familiares e recebem menos manifestações de compaixão, amor, diversão e alegria. Além disso, o estigma da doença possivelmente contribui para ausência de pessoas no dia a dia desses pacientes, o que pode proporcionar pior prognóstico no TB.

Algumas pesquisas sugerem que o ambiente familiar é um fator que influencia o curso do TB. Infelizmente, é comum nas famílias de um paciente com TB o surgimento de emoções expressas que dizem respeito a presença de criticismo, hostilidade e emoções desagradáveis nos relacionamentos familiares.

Muitas vezes, são emoções expressas: comprometem a comunicação e prejudicam a resolução de problemas, provocando distanciamento entre os familiares e baixo apoio social.

Por vezes, os portadores têm a percepção distorcida como “as pessoas não gostam de mim”, “ninguém me dá atenção” e “ninguém me entende”. Eles exibem maiores níveis de autocrítica, por conta disso se apresentam hostis e têm postura distante diante das pessoas, mesmo estando em redução sintomatológica. Dessa maneira, existe a tendência ao baixo acolhimento e receptividade dos indivíduos que convivem com ela, independentemente dos esforços que as pessoas em sua volta exibem para fazer o melhor, crenças relacionadas a não aceitação são presentes. De fato, lidar com uma doença crônica é complicado, e o efeito disso consiste em emoções desagradáveis e estratégias de enfrentamento negativas e mal adaptativas, não apenas nos pacientes, mas também nessas famílias. É relevante que os familiares compreendam a enorme dificuldade associada ao TB e o impacto da doença na vida desses indivíduos. Isso ajuda a alcançar o resultado satisfatório do tratamento.

CORRENDO CONTRA O TEMPO

Diante de tantos prejuízos, o TB necessita de acompanhamento com profissionais especializados e a formulação de um plano de tratamento adequado. É de extrema importância, o acompanhamento com o psiquiatra, pois principal foco de tratamento dessa patologia, a primeira escolha é a farmacoterapia. Esta geralmente é eficaz e estabiliza o humor. Contudo, não é o suficiente para restaurar a funcionalidade e Q.V da maioria dos indivíduos com TB. Nesse sentido, as intervenções psicossociais contribuem na adesão ao tratamento, prevenindo a recaída, além de darem suporte aos pacientes e suas famílias para lidarem melhor com a doença. A busca por estratégias não farmacológicas pode aumentar a eficácia do tratamento e reduzir os impactos negativos na sua vida.

No que se refere às terapias não medicamentosas, evidências positivas são encontradas na literatura acerca da terapia cognitiva comportamental (TCC) para pacientes com TB I, considerando que é um adjuvante favorável da farmacoterapia no tratamento do TB. Os estudos mostram que a TCC é efetiva na redução de recaídas, melhorando sintomas depressivos, severidade da mania e funcionamento psicossocial.

A TCC envolve uma série de técnicas que tem função de reduzir sintomas e proporcionar melhor funcionamento do indivíduo na sua vida diária. Para o acesso das crianças, é necessária a adequação da linguagem. A criatividade e a escolha de técnicas adequadas podem ajudar no processo de engajar a criança.

DEPOIS DA TEMPESTADE

O TB na infância e adolescência é mais comum do que se pensava anteriormente e carrega um risco considerável de trazer resultados pobres a longo prazo. Desse modo, exige uma responsabilidade grande dos profissionais de reconhecerem precocemente o transtorno e iniciar o tratamento seguro e eficaz. Além do tratamento medicamentoso, são de grande importância as intervenções psicossociais. Dentre elas, encontra-se a TCC, que inclui uma série de técnicas que pode auxiliar a criança e sua família no manejo do transtorno, alcançando uma melhor QV e bem-estar.

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ARCO-ÍRIS DE PAIS

Transtorno Bipolar (TB) e uma doença neurotóxica, em que episódios de mania ou depressão ao O arco-íris surge quando o sol ilumina a umidade suspensa no ar após uma chuva. Os pais precisam transformar- se em arco ­ íris para os filhos, trazendo um aumento da auto- eficácia em lidar com o transtorno. O TB I tem um impacto direto e profundo na família, alterando sua vida. É importante construir um modelo integrador de terapia focada na família.  Alguns pontos importantes a serem trabalhados:

AUTOESTIMA – O que os pais dizem e como eles agem vai fazer diferença no desenvolvimento. Evitar críticas, fazer elogios reforçando comportamentos adequados, pontos fortes e talentos.  Demonstrar respeito pelo esforço aumenta a autoestima.

REGULACÃO EMOCIONAL – Manter as emoções em nível controlável implementando estratégias de enfrentamento adaptativas. Perceber previamente, interferir tentar equilibrar as emoções.

COMUNICAÇÃO EFETIVA – Por meio das diferentes formas de comunicação, os vínculos afetivos são constituídos. O diálogo é uma forma de interação que exige sensibilidade e disponibilidade. Demonstração de interesse mantém aberto esse canal.

ORGANIZAÇÃO DA ROTINA – Assumir compromisso de construir uma rotina previsível, pois gera estabilidade e segurança. Ter horários estabelecidos é sinônimo de ordem. Instruções diretas – Regras precisam estar claras e serem consistentes.

RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS – Ajudar a promover alternativas para resolução de problemas.

INCENTIVOS CONSTANTES – Necessidade de aumento de verbalizações positivas, palavras e frases de incentivos e apoio. Ajuda no desenvolvimento de autoconfiança.

SOCIABILIDADE – Promover relações sociais saudáveis e ajustadas. Planejando, favorecendo e mediando esse processo.

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ALERTA NA “PREVISÃO”

Pontos importantes para a avaliação diagnóstica do transtorno bipolar na infância, estar alerta para os sinais da mania ou hipomania nos pacientes jovens, apresentados como depressão, transtorno de déficit de atenção, hiperatividade, ansiedade ou instabilidade, incluir informantes confiáveis, como professores e pais, quando estiver fazendo as entrevistas diagnósticas: ser familiarizar com a variedade das apresentações dos sintomas da mania em grupos de idades diferentes, grandiosidade; fuga de ideias, participação em atividades de forma inadequada, fala rápida, forçada e sem sentido, excesso de brincadeiras ou simpatia, euforia ou entusiasmo e distúrbio do sono ou menos sono do que é necessário. Esses dados foram retirados do artigo Finding & Chang, de 2018

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SEXTO NO RANKING

Assim como em adultos, o transtorno bipolar provoca um imenso impacto negativo em pessoas jovens, sendo considerada a sexta causa de incapacidade entre pessoas de 10 a 24 anos em todo o mundo

FERRAMENTAS PRATICAS

SUGESTOES DE TÉCNICAS PARA CRIANÇAS COM TRANSTORNO BIPOLAR

Previsão do Tempo. Entendendo a Bipolaridade Infantil – é um livro infantil que retrata de forma lúdica o transtorno e aborda de forma lúdica uma série de técnicas que a criança e seus familiares podem usar lidar com a bipolaridade infantil.

Trabalhando metaforicamente com o “tempo” associado às características do animal porco-espinho, descreve a psicologia e identifica a sintomatologia de forma clara e leve, facilitando a compreensão por parte da criança e de sua família. De forma orientada com o profissional a criança adquire estratégias de manejo.

É “TEMPO” DE APREN0ER!

Identificação, reconhecimento da sintomatologia e problemas associados. Nomeamos esse processo de psicoeducação do Transtorno, papel importante para o paciente

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COMO ESTA O SEU TEMPO HOJE?

Auto monitoramento emocional que é avaliação sistemática do humor através do reconhecimento   e registro. Promove a autoconsciência e fornece dados para o terapeuta conduzir análises mais funcionais delimitando objetivos de intervenção.

 EM BUSCA DE UM “TEMPO” ESTAVEL

Modificar cognições através da reestruturação cognitiva. Enfatizando a mudança e substituição de pensamentos distorcidos e construir gradualmente uma nova base de pensamentos adaptativos.

 POR OUE SOLTO ESPINHOS?

Identificação dos gatilhos (situações) que provocam as tempestades emocionais. Com ajuda do Registro Diário de Pensamento (RDP) São percebidas as  variáveis  que controlam os comportamentos, permitindo o autoconhecimento e possíveis mudanças.

É TEMPESTADE, O OUE FAZER?

Como proposta de distrações, instalar respostas de enfrentamento eficazes. Redirecionar a atenção e focalizar eventos externos, para alivio imediato.

“DEPOIS DA TEMPESTADE, VEM A CALMARIA”

Inserção de técnicas de relaxamento, que facilitam a redução de sintomas.

  • Relaxamento respiratório/diafragmático: Relaxamento muscular progressivo ou relaxamento mental

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PROTEGENDO-ME DA TEMPESTADE

Estabelecimento de um suporte social e familiar, listar pessoas que podem ajudar efetivamente no momento de crise, como rede de apoio.

CHUVA DE IDEIAS PARA RESOLVER O PROBLEMA

Modificar hábitos não adaptativos, com a resolução de problemas. Emergir uma quantidade de respostas alternativas (chuva de ideias) para lidar com uma situação possibilitando a escolha de respostas adequadas na tomada de decisão.

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ESPINHOS DE PROTEÇÃO

Trabalhar com foco do aumento da autoestima reforçando os pontos fortes.

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COMO ESTÁ O TEMPO? O QUE VOU USAR HOJE?

Cartões de enfrentamento, ajuda na construção

OUTROS OLHARES

NÃO AO RETROCESSO

A queda dos índices de vacinação no Brasil é um sério risco à saúde pública. A campanha agora iniciada deve ajudar, mas a solução depende de ação do governo, em conjunto com a sociedade.

Não ao retrocesso

A vacinação é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) o segundo maior avanço da história da humanidade no campo da saúde pública, atrás apenas da ampliação da oferta de água potável. As vacinas estão prestes a livrar o mundo da pólio e a encerrar a epidemia de meningite A, que assolou a África por décadas. Anualmente, elas são capazes de evitar entre 2 milhões e 3 milhões de mortes por difteria, tétano, coqueluche e sarampo.

Criado no Brasil em 1973 e hoje reconhecido como referência internacional, o Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde consolidou e ampliou uma série de políticas que se iniciaram no longínquo ano de 1832, quando foi estabelecida a primeira legislação de vacinação obrigatória no país. De lá para cá, o Brasil conseguiu erradicar a varíola (1971), a poliomielite (1989) e, depois, eliminou a circulação endêmica da rubéola e da rubéola congênita (2015), do sarampo (2016) e do tétano materno e neonatal (2017). Trata-se de avanços inequívocos, a ser celebrados como um marco. Domar essas doenças é um enfático indicador de desenvolvimento do país.

A situação, porém, emite neste momento preocupantes sinais de retrocesso. As baixas coberturas vacinais em crianças menores de 1 ano ao longo de 2017, as piores dos últimos dezesseis anos, e os mais de 1.000 casos de sarampo no Amazonas, em Roraima e em outros estados acenderam um alerta vermelho para a possibilidade real do retorno dessas doenças ao nosso cotidiano (à exceção da varíola, cujo vírus selvagem não circula mais no planeta).

Vislumbrar o que poderá acontecer caso os números de vacinação permaneçam insatisfatórios não é difícil se fizermos uma rápida visita ao passado. Em 1991, de acordo com dados do Ministério da Saúde, foram registrados no Brasil 42.532 casos de sarampo e 690 mortes decorrentes da doença. Em 1992, foi dada a largada no Plano Nacional de Eliminação do Sarampo e seus efeitos positivos já se fizeram sentir: os registros caíram de forma significativa – para 7.700 ocorrências e 29 mortes, respectivamente.

A caminhada que culminou com o certificado de área livre do sarampo, concedido às Américas pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), em 2016, não foi livre de percalços. Devido à alta transmissibilidade da doença, à facilidade de deslocamento da população e à circulação do vírus em regiões de forte apelo turístico – a Europa, por exemplo, enfrenta uma epidemia há mais de um ano, com mais de 20.000 casos notificados -, lidamos com alguns surtos de grandes proporções.  Em 1997, a chegada de duas pessoas infectadas da Itália e uma do Japão, combinada ao resultado de adesão aquém do esperado à campanha do ano anterior, causou uma epidemia que afetou mais de 5.000 pessoas e matou sessenta no Brasil – quase dez vezes o número de mortes registradas em 1996. A última vez em que o sarampo havia tomado a forma de um surto no país foi entre 2013 e 2015, mas de maneira localizada, no Ceará.

A volta ao passado traz consequências nefastas. É bom conhecê-las para dimensionar o problema e alertar para a premência de preveni-lo. Além dos óbitos que provocam, o sarampo e, principalmente, a poliomielite podem levar a sequelas que comprometem o desenvolvimento na infância e a saúde e o bem-estar por toda a vida adulta. No caso do sarampo, há o risco de cegueira e quadros neurológicos crônicos, como paralisia cerebral e convulsões. Já no da poliomielite, podem ocorrer dificuldades de fala, deformação nos membros e dependência de ventilação mecânica para respirar. São incalculáveis os prejuízos psicológicos, sociais e econômicos.

No século XXI, com tanto conhecimento científico acumulado e tamanho acesso às vacinas, cabe mergulhar nas razões que explicam um retrocesso como este que estamos vivendo. Como em toda questão dessa complexidade, a resposta não é fácil nem única. Certamente a sensação de segurança gerada pelo desaparecimento das doenças – que é, aliás, global – faz com que uma significativa parcela da população imagine que a prevenção não é mais prioritária. Às vezes, o medo volta, é verdade, mas em casos isolados. Como esquecer as brigas travadas em unidades básicas de saúde pelo imunizante contra a febre amarela no auge dos últimos surtos? No geral, porém, as vacinas ficaram em segundo plano.

A isso, soma-se a onda de notícias falsas, que ajudam a sepultar ganhos acumulados em décadas. Apesar da excelência do trabalho para garantir a eficácia dos imunizantes – desde os testes laboratoriais até o monitoramento de eventos adversos após a vacina começar a ser aplicada em massa -, as redes sociais e os aplicativos de mensagens foram tomados por todo tipo de absurdo. O mais célebre, sem dúvida, é a existência de uma suposta relação entre a tríplice viral (vacina que ataca o sarampo, a caxumba e a rubéola) e o autismo, já desmentida por inúmeras pesquisas científicas. Combater o discurso do medo é hoje primordial. Em 2015, a Sociedade Brasileira de Imunizações lançou a iniciativa Vacina É Proteção para Todos, da qual se originou o portal Família SBim (familia.sbim.org.br). A página, uma espécie de enciclopédia on-line, foi a primeira em língua portuguesa a ser incluída pela OMS na Vaccine Safety Net, lista de sites com informações confiáveis sobre vacinação.

Outro ponto que emperra o avanço da imunização é a falta de conhecimento de que a vacinação não termina na infância. Adolescentes, adultos e idosos têm calendários a cumprir e algumas vacinas, como a dupla ou tríplice bacteriana e a da gripe, precisam ser tomadas regularmente para que seja mantida a proteção. Apesar de sua importância, a campanha de vacinação contra a gripe precisou ser estendida seguidas vezes neste ano para que 90% do grupo prioritário fosse alcançado. Além disso, a maior incidência de febre amarela se observou justamente em pessoas acima dos 20 anos. Cerca de 75% dos infectados no surto de hepatite A que ocorre em São Paulo desde 2017 têm entre 18 e 39 anos.

Que esses números sirvam de alerta a todos. Ajustes são absolutamente necessários para que o país não volte no tempo. Do ponto de vista de quem trabalha com políticas públicas, entre representantes de entidades médicas e da sociedade civil organizada, é preciso atuar com cada vez mais empenho para elaborar estratégias de comunicação adaptadas aos novos tempos. É preciso também que haja maior clareza em uma mensagem elementar: o êxito da vacinação não está apenas nas campanhas contra doenças específicas, como a da pólio, que eternizou o Zé Gotinha no imaginário popular. Seu sucesso sustentável só será obtido por meio da vacinação de rotina e das campanhas de multivacinação. Nesse sentido, a campanha nacional que se iniciou agora, para a aplicação de vacinas contra sarampo e poliomielite em todas as crianças de 1 a 5 anos, tenham ou não sido imunizadas antes, pode ser de muita ajuda.

Dada a grandeza do tema, vale o investimento em estabelecer turnos de atendimento alternativos para abarcar a demanda de quem não pode ir às unidades básicas de saúde em horário comercial, ter um programa consistente de vacinação escolar e aumentar a prescrição de vacinas por parte de médicos não pediatras. A responsabilidade é de todos. O Brasil não pode olhar no retrovisor.

GESTÃO E CARREIRA

TECNOLOGIAS PARA TODOS OS TAMANHOS

Soluções normalmente usadas por grandes corporações ganham espaço entre empresas de porte menor. Saiba o que está acontecendo no mercado, inspire-se e aplique no seu negócio.

Tecnologias para todos os tamanhos

Foi-se o tempo em que soluções tecnológicas eram uma realidade cara e inacessível para a empresa. Se antes, apenas as grandes corporações tinham capital e estrutura humana para usar a tecnologia a favor da operação, agora o cenário é outro: tem para todos os portes e caixas.

No escritório de advogados Urbano Vitalino, a inteligência artificial tem sido uma “mão na roda” para a equipe de profissionais. No dia a dia, a Carol, como o robô da IBM foi apelidado dentro do escritório, está colaborando diretamente com os advogados para o cadastramento de processos no sistema interno, a partir da leitura de informações básicas, como a vara e a cidade relacionada ao processo. “A assistente virtual já consegue entender os termos jurídicos e ler também os documentos juntados como prova fornecidos pelos clientes”, explica o diretor-presidente do escritório, Urbano Vitalino Neto.

Ao fazer o cadastramento das informações no sistema do escritório, por exemplo, o índice de acerto humano é de 75%, com a Carol, chega a 98%. Isso ajuda no ganho de tempo e na otimização dessas atividades mais repetitivas. A ideia surgiu depois que Vitalino Neto participou de um dos vários eventos que costuma acompanhar sobre tendências em tecnologia e teve acesso às informações sobre o Watson – nome original da solução.

O escritório hoje investe em tecnologia há muito tempo, está sempre buscando inovar e utilizar a tecnologia a seu favor. Desde 2012, o escritório conta com o Knox, software próprio que permite que os principais gestores e executivos do escritório acompanhem indicadores, metas e apresentem soluções par as áreas que coordenam. A ferramenta agiliza a geração de relatórios e prestação de contas para sócios e clientes”, diz o executivo do escritório.

Sem contar que a ferramenta realiza ainda o controle de processos de todos os segmentos de atuação do escritório, de forma integrada com os prazos de tramitação na justiça, colaborando para o cumprimento dos prazos e a qualidade do serviço prestado.

Com a estratégia que aposta na tecnologia, profissionais foram liberados para outras atividades. ”Esses profissionais foram transferidos para uma área mais estratégica de e de checagem dos processos, então conseguimos dar ainda mais qualidade para esta etapa inicial, que é muito mais importante para alcançarmos um bom resultado para o cliente, além de treinar a Carol para as tarefas designadas”, comenta Vitalino Neto.

MAIS INTELIGÊNCIA

A inteligência artificial pode ser apontada como a solução com maior destaque na atualidade. É que as decisões necessitam ser baseadas em dados.

Mais do que resultados do último mês, é preciso que as empresas acompanhem o andamento dos negócios durante o dia todo e consigam responder rapidamente às frequentes mudanças externas para manter seu negócio competitivo e rentável. Foi pensando nisso que a TOTVS desenvolveu a Carol, plataforma de dado de qualidade e inteligência artificial.

Entre as aplicações da nova tecnologia está a integração da Carol com Bemacash, solução única para ponto de venda voltada aos micro e pequenos varejos. “O objetivo é aprimorar a propriedade dos dados nas organizações e ampliar a capacidade de análise e a velocidade de tomada de decisões diante de um volume crescente de informações, fornecendo insights de negócios”, explica o VP de Micro e Pequenos Negócios e Hardware e CEO da Bematech, Eros Jantsch.

Segundo ele, a plataforma disponibiliza informações estratégicas, permitindo que as empresas consigam visualizar sua performance no segmento em que atuam. Assim, os empreendedores têm acesso à previsão de vendas que o auxiliam diretamente na gestão, inclusive, para planejar uma expansão do seu negócio. Além disso, a plataforma auxilia na tomada de decisão, especialmente em situações difíceis de mensurar, como a precificação de produtos.

REALIDADE VIRTUAL

O Bemacash conta com sistema de frente de caixa, área de gestão e equipamentos voltados para a automação comercial. O cliente paga uma mensalidade a partir de R$99,00/mês pelo sistema e os equipamentos custam a partir de R$1.599,00, que podem ser pagos em até dez parcelas. Esses valores contemplam também a solução de inteligência artificial, atualizações e o suporte técnico do produto.

Outra tecnologia que tem sido usada por muitos negócios é a realidade virtual. Na rede de agências de viagens Vai Voando, a solução é usada para auxiliar nas vendas. A empresa oferece aos clientes a possibilidade de utilizar óculos de realidade virtual em pontos de venda para desmistificar tanto o aeroporto quanto a viagem de avião, principalmente para quem nunca passou por essa experiência. O cliente pode colocar os óculos e vivenciar o momento do check-in, conversar com um atendente, despachar sua bagagem, passar pelo raio X, conhecer a área de embarque, a aeronave, experimentar a decolagem e o pouso, localizar sua mala na esteira de bagagem e, por fim, conhecer um pouco do seu destino. “Se para o revendedor da Vai Voando é uma ferramenta para garantir um bom atendimento, para o cliente é um jeito fácil e divertido de se informar”, comenta o diretor da Vai Voando, Luiz Andreaza.

A Vai Voando foca as classes C e D e tem forte presença em favelas e comunidades das principais capitais do País. ”O projeto de realidade virtual foi desenvolvido ao longo de 2016 com a Wire Consultoria e contou, principalmente, com a parceria da GOL Linhas Aéreas Inteligentes”, revela o executivo da empresa.

SEGURANÇA

A tecnologia também pode ser usada como prevenção de crimes. Dados da ferramenta Facewatch mostram que são registradas, em média, 3,6 milhões de ocorrências e crimes no varejo, o que representa cerca de R$1 bilhão em prejuízos.

Cenário que merece atenção ainda maior. O Facewatch aposta na prevenção desse tipo de caso. É uma plataforma de segurança baseada em nuvem que usa tecnologia de reconhecimento facial. O sistema tem todos os níveis de segurança e criptografia de ponta, garantindo a proteção de todas as imagens, além de compliance com protocolos de segurança e proteção de dados.

A ferramenta compara rostos com base de dados de procurados em segundos após entrarem no local e envia um alerta imediato para verificação e ação. O Facewatch analisa imagens de câmera de segurança em tempo real, compara com um banco de dados local e gera alertas que servem para distinguir pessoas suspeitas no meio da multidão, isso em apenas cinco segundos”, explica o CEO da Retina, Matheus Torres.

A solução pode ser usada para qualquer tipo de negócio e até para residências, caso assim queiram. A ferramenta é europeia. “No Brasil, o processo foi de tropicalização: conhecer os pré-requisitos do sistema que opera no Reino Unido e reconhecer os pontos que se aplicam à nossa realidade e os gaps que precisavam ser fechados para que ele se adaptasse à nossa realidade, diz Torres. Todo esse trabalho foi feito pela Retina.

O Facewatch passou por uma atualização recente: mais leve e segura. As próximas atualizações serão em instâncias móveis com o lançamento do app para iOS e Android.

SOLUÇÕES NO MERCADO

A tecnologia dentro do ambiente corporativo das pequenas empresas é também uma questão de mudança de mentalidade por parte do empresário.

Segundo o CEO da Opah IT Consulting, João Moressi Junior, existem muitas soluções gratuitas de código aberto e totalmente estáveis que podem ser utilizadas por qualquer empresa, apenas investindo em um profissional técnico capacitado. “Essas tecnologias proporcionam uma grande possibilidade de transformação digital sem um alto custo de licenças”, pontua Moressi.

Moressi diz que, atualmente, existem soluções de ERP (Interprise Resource Planning), CRM (Customer Relationship Management), e-commerce, entre outras gratuitas e acessíveis para empresas de pequeno porte. Inclusive, podendo até utilizá-las na nuvem (cloud) com baixo custo.

A escolha da solução correta pode representar o desenvolvimento do negócio. Qual o momento certo para investir em soluções tecnológicas? Para Moressi, a empresa precisa entender que a Tecnologia da Informação é necessária para o negócio e não pode seguir sem uma equipe interna ou um parceiro para essa finalidade. “Hoje acredito que todo negócio precisa de soluções tecnológicas e não deve seguir sem ter isso definido. A escolha de um bom parceiro é a melhor forma de obter sucesso”, reforça.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 12: 12-19

Alimento diário

A Entrada de Cristo em Jerusalém

Esta história da entrada triunfal de Cristo em Jerusalém está registrada por todos os evangelistas, por ser merecedora de atenção especial. E nela, podemos observar:

I – O respeito que as pessoas comuns prestavam ao nosso Senhor Jesus, vv. 12.13, onde lemos:

1. Quem eram as pessoas que lhe prestavam tal respeito: muitas pessoas, uma grande multidão daqueles que vieram à festa, não os habitantes de Jerusalém, mas as pessoas do interior, que vinham das partes mais distantes para a adoração na festa. Quanto mais próximos estavam do Templo do Senhor, mais distantes ficavam do Senhor do Templo. Eram as pessoas que tinham vindo para a festa.

(1) Talvez tivessem ouvido a Cristo no campo, e tivessem sido seus grandes admiradores ali. Por isto, entusiasmaram-se a testemunhar o respeito que tinham por Ele, e o fizeram em Jerusalém, onde sabiam que Ele tinha muitos inimigos. Observe que aqueles que verdadeiramente valorizam e veneram a Cristo não sentirão vergonha nem medo de reconhecê-lo diante dos homens, em qualquer circunstância em que o possam honrar.

(2) Talvez eles fossem aqueles judeus mais devotos que tinham vindo para a festa algum tempo antes, para purificar-se, aqueles que tinham mais interesse na religião do que seus vizinhos, e estes eram os que se entusiasmavam tanto em honrar a Cristo. Observe que, quanto mais consideração os homens têm por Cristo e pelo Evangelho em geral, mais predispostos eles estarão para receber a Cristo e ao seu Evangelho, que não destrói, mas aperfeiçoa todas as revelações e instituições anteriores. Estas pessoas que saíam para encontrar a Cristo não eram os líderes, nem os nobres, mas as pessoas comuns. Alguns os teriam chamado de gentalha, de plebe, mas Cristo escolheu as coisas loucas e fracas (1 Coríntios 1.27), e se sente mais honrado pela quantidade do que pela magnificência dos seus seguidores, pois Ele valoriza os homens pelas suas almas, não pelos seus nomes nem seus títulos de honra.

2. O que fizeram nesta ocasião: ouviram que Jesus vinha a Jerusalém. Eles tinham perguntado por Ele (cap. 11.55,56): “Não virá à festa?” E agora ouvem que Ele está vindo, pois ninguém que procura a Cristo, o procura em vão. Agora, depois de ouvir que Ele vinha, eles se apressam para propiciar-lhe uma acolhida agradável. Observe que as notícias da chegada de Cristo e do seu reino devem nos estimular a considerar qual é o trabalho do dia, aquele que pode ser feito neste dia. Israel deve preparar-se para se encontrar com seu Deus (Amós 4.12), e as virgens, para encontrar o esposo.

3. De que maneira eles expressaram seu respeito: eles não tinham as chaves da cidade, para entregar a Ele, nem a espada ou o cetro, para levar diante dele, ninguém para saudá-lo com música, mas o que eles tinham, lhe deram. E mesmo esta multidão desprezível tinha uma débil semelhança com aquela que João viu diante do trono, e diante do Cordeiro, Apocalipse 7.9,10. Embora estes não estivessem diante do trono, estavam diante do Cordeiro, o Cordeiro pascal, que agora, de acordo com a cerimônia usual, quatro dias antes da festa, devia ser separado para ser sacrificado por nós. Sobre este coro celestial, está escrito:

(1) Que tinham nas mãos ramos de palmeiras. O ramo de palmeira sempre tinha sido um emblema de vitória e triunfo. Agora Cristo, pela sua morte, iria conquistar principados e potestades, e, portanto, era adequado que Ele tivesse os ramos de palmeira dos vitoriosos agitados diante de si. Embora Ele estivesse apenas se cingindo, Ele podia gabar-se como se se descingisse. Mas isto não era tudo. O carregar de ramos de palmeira fazia parte da cerimônia da Festa dos Tabernáculos (Levíticos 23.40; Neemias 8.15), e o fato de que as pessoas usem esta expressão de alegria na acolhida que dão ao nosso Senhor Jesus evidencia que todas as festas apontavam para seu Evangelho, cumpriam-se nele, e particularmente a Festa dos Tabernáculos, Zacarias 14.16.

(2) Que eles “clamavam com grande voz, dizendo: Salvação ao nosso Deus” (Apocalipse 7.10). Isto fizeram estes, clamaram diante dele, como é usual em recepções populares: “Hosana! Bendito o Rei de Israel que vem em nome do Senhor!”. Hosana significa salvação. Esta é uma citação de Salmos 118.25,26. Veja como estas pessoas comuns estavam bastante familiarizadas com as Escrituras, e de que maneira pertinente elas as aplicaram ao Messias. Os pensamentos elevados a respeito de Cristo serão mais bem expressos através das palavras das Escrituras. Nas suas aclamações:

[1] Eles reconhecem que nosso Senhor Jesus é o rei de Israel, aquele que vem em nome do Senhor. Embora Ele entrasse agora em pobreza e desgraça, e contrariamente às noções que os escribas lhes tinham dado sobre o Messias, ainda as­ sim eles o reconhecem como sendo um rei, o que evidencia tanto sua dignidade e sua honra, que nós devemos adorar, quanto sua soberania e seu poder, aos quais nós devemos nos submeter. Eles reconhecem que Ele é, em primeiro lugar, um rei legitimo, que vem em nome do Senhor (Salmos 2.6), enviado por Deus, não somente como um profeta, mas como um rei. Em segundo lugar, o rei prometido e esperado por tanto tempo, o Messias, o príncipe, pois Ele é o rei de Israel. De acordo com o conhecimento que tinham, eles o proclamaram rei de Israel nas ruas de Jerusalém. e, sendo eles mesmos israelitas, desta maneira, sancionavam- o como seu rei.

[2] Eles sinceramente desejam o bem deste seu reino, pois este é o significado de Hosana. Que prospere o rei de Israel, as­ sim como quando Salomão foi coroado eles clamaram: “Viva o rei Salomão”, 1 Reis 1.39. Clamando Hosana, eles oravam pedindo três coisas. Em primeiro lugar, que seu reino pudesse vir na sua luz e conhecimento, e no seu poder e eficácia. Que Deus favoreça o arado do Evangelho. Em segundo lugar, que ele possa conquistar, e ser vitorioso sobre toda oposição, Apocalipse 6.2. Em terceiro lugar, que ele possa durar. Hosana significa: Que o rei viva para sempre. Embora seu reino possa ser perturbado, que ele nunca seja destruído, Salmos 72.17.

[3] Eles lhe dão as boas-vindas a Jerusalém: “Bem-vindo o que vem. Nós estamos sinceramente felizes por vê-lo. Entre, bendito do Senhor, e possamos nós receber, bendizendo, aquele que vem ao nosso encontro com suas ricas bênçãos”. Esta acolhida é como a de Salmos 24.7-9: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças”. Da mesma maneira, cada um de nós deve acolher a Cristo em nossos corações, isto é, devemos louvá-lo e nos alegrarmos com sua presença. Assim como nós devemos ficar altamente satisfeitos com a existência e os atributos de Deus, e seu relacionamento conosco, também devemos nos alegrar com a pessoa e as funções do Senhor Jesus, e sua mediação entre nós e Deus. A fé diz: “Bendito o que vem”.

 

 

II – A postura que Cristo adota para receber os respeitos que lhe são prestados (v. 14): depois de ter encontrado, ou procurado, um jumentinho, Jesus se assentou sobre ele. Era apenas uma pobre imagem a que Ele transmitia, sozinho, sentado sobre um jumentinho, com uma multidão de pessoas ao seu redor gritando “Hosana”.

1. Isto era muito mais pompa do que Ele estava acostumado a ter. Ele costumava viajar a pé, mas agora estava montado. Embora seus seguidores devam estar dispostos a se satisfazer com coisas humildes, e não desejar nada que pareça grandioso, ainda assim têm a permissão de usar os serviços das criaturas inferiores. Podemos usar todas as coisas que o Senhor Deus nos provê, de acordo com o modo que Ele determinou. Pelo seu concerto com Noé e seus filhos, o Senhor dá ao homem a posse particular destas coisas, juntamente com o domínio geral delas.

2. Mas era uma pompa muito menor do que os grandes do mundo normalmente têm. Se Ele quisesse ter feito uma entrada pública, de acordo com a condição de um homem de alto nível, Ele deveria ter entrado em um palanquim como o de Salomão (Cantares 3.9,10), com colunas de prata, o estrado de ouro, com um assento e cobertura de púrpura. Mas, se julgarmos de acordo com a moda deste mundo, ser apresentado desta maneira era mais um menosprezo do que qualquer honra ao rei de Israel, pois daria a impressão de que Ele queria parecer grandioso e não sabia como. Seu reino não era deste mundo, e por isto não veio com pompa exterior. Agora Ele se humilhava, mas, no seu estado exaltado, João o vê em uma visão sobre um cavalo branco, com um arco e uma coroa (Apocalipse 6.2).

 

III – O cumprimento das Escrituras neste evento: “Como está escrito: Não temas, ó filha de Sião!”, vv. 14,15. Isto é uma citação de Zacarias 9.9. Todos os profetas deram testemunho a respeito dele, e particularmente este.

1. Tinha sido predito que o rei de Sião viria, viria desta maneira, sentado sobre um jumentinho. Até mesmo o detalhe desta circunstância tinha sido predito, e Cristo tomou cuidado para que ele fosse minuciosamente cumprido. Observe:

(1) Cristo é o rei de Sião. O santo monte Sião estava destinado, há muito tempo, a ser a metrópole, ou a cidade real do Messias.

(2) O rei de Sião cuida e cuidará dela, e virá a ela. Embora Ele se ausente por um curto período de tempo, no tempo devido retornará.

(3) Embora Ele venha lentamente (um jumentinho caminha devagar), ainda assim Ele vem com certeza, e com tais expressões de humildade e condescendência, de modo a incentivar enormemente a procura e a expectativa dos seus súditos leais. Os suplicantes humildes podem conseguir falar com Ele. Se o fato de que seu rei não venha em maior poder ou pompa é um desencorajamento para Sião, é bom que ela saiba que, embora Ele venha a ela montado sobre um jumentinho, ainda assim Ele investe contra seus inimigos cavalgando sobre os céus para ajudá-la, Deuteronômio 33.26.

2. A filha de Sião, portanto, é convocada a contemplar seu r ei, para observá-lo, e sua aproximação. Saí e contemplai, pois Ele vem para ser observado, embora não com pompa exterior, Cantares 3.11. “Não temas”. Na profecia, está escrito que Sião deve alegrar-se muito, e exultar, mas aqui está traduzido: “Não temas”. Os temores da descrença são inimigos das alegrias espirituais. Se eles foram curados, se forem dominados, a alegria virá naturalmente. Cristo vem ao seu povo para silenciar seus temores. Se a situação for tal, a ponto de não conseguirmos exultar de alegria, ainda assim devemos nos esforçar para sair da opressão do medo. ”Alegra-te muito”, ou, pelo menos, “não temas”.

 

IV – A observação feita pelo evangelista a respeito dos discípulos (v. 16): “Os seus discípulos, porém, não entenderam isso no princípio”, por que Cristo fez isto, e como as Escrituras se cumpriram, “mas, quando Jesus foi glorificado”, e, em seguida, o Espírito foi derramado, “então, se lembraram de que isso estava escrito dele” no Antigo Testamento, e que eles e outros, em consequência disso, tinham-lhe feito estas coisas.

1. Veja aqui a imperfeição dos discípulos, no seu estado infantil. Nem mesmo eles entenderam estas coisas no princípio. Eles não consideraram, quando apanharam o jumentinho e assentaram Jesus sobre ele, que estavam realizando a cerimônia de posse oficial do rei de Sião. Observe:

(1) As Escrituras frequentemente se cumprem por meio daqueles que não a têm por propósito no que fazem, Isaías 45.4.

(2) Há muitas coisas excelentes, tanto na Palavra quanto na providência de Deus, que os próprios discípulos não compreendiam no princípio, nem no seu primeiro encontro com as coisas de Deus, enquanto veem os homens como árvores que andam, nem as situações na primeira vez que lhes foram propostas, para que as vissem e considerassem. Aquilo que posteriormente ficou claro, era, no princípio, obscuro e duvidoso.

(3) Convém aos discípulos de Cristo, quando estão amadurecidos em conhecimento, refletir frequentemente sobre as tolices e fraquezas do seu início, par a que a graça possa ter a glória da sua proficiência, e para que possam ter compaixão dos ignorantes. “Quando eu era menino, falava como menino”.

2. Veja aqui o aperfeiçoamento dos discípulos, no seu estado adulto. Embora tivessem sido crianças, não foram sempre assim, mas prosseguiram para se aperfeiçoarem. Observe:

(1) Quando eles entenderam: “Quando Jesus foi glorificado”, pois:

[1] Até então, eles não tinham compreendido corretam ente a natureza do seu reino, mas esperavam que ele surgisse com pompa e poder externos, e, portanto, não souberam aplicar as Escrituras que o descreviam com aparência tão humilde. Observe que o entendimento correto da natureza espiritual do reino de Cristo, dos seus poderes, glórias e vitórias, nos impedirá de interpretar e aplicar mal as Escrituras que falam dele.

[2] Até então, o Espírito, que devia conduzi-los em toda a verdade, não fora derramado. Observe que os discípulos de Cristo são capacitados para compreender as Escrituras pelo mesmo Espírito que as escreveu. O espírito de revelação é, para todos os santos, espírito de sabedoria, Efésios 1.17,18.

(2) Como eles entenderam. Eles compararam a profecia com o evento, e puseram-nos lado a lado, para que um pudesse ser esclarecido pelo outro, e assim conseguiram compreender as duas coisas: “Então, se lembraram de que isso estava escrito dele” pelos profetas, consoante ao que lhe fizeram. Observe que existe uma harmonia tão admirável entre a Palavra e as obras de Deus, que a lembrança daquilo que está escrito irá nos capacitar a compreender o que é feito, e a observação do que é feito irá nos auxiliar a compreender o que está escrito. Assim como ouvimos, também vimos. As Escrituras se cumprem todos os dias.

 

V – A razão que levou as pessoas a prestarem este respeito ao nosso Senhor Jesus na sua vinda a Jerusalém, embora o governo fosse tão contrário a Ele. Foi por causa do ilustre milagre que Ele tinha realizado recentemente, ao ressuscitar a Lázaro.

1. Veja aqui a importância que eles atribuíam a este milagre, e a certeza que tinham dele. Sem dúvida, acida­ de toda falava sobre isto, a notícia estava na boca de todos. Mas aqueles que o consideravam como uma prova da missão de Cristo, e uma base para a fé nele, para que pudessem ficar satisfeitos com os fatos, verificaram o relato com aqueles que tinham sido testemunhas oculares do milagre, para que pudessem conhecer a certeza dele com a maior evidência possível: ”A multidão, pois, que estava com ele quando Lázaro foi chamado da sepultura”, sendo encontrada e examinada, “testificava”, v. 17. Unanimemente declararam que era verdade, sem discussão ou contradição, e estavam prontos, se necessário fosse, a depor sob juramento, pois isto é o que implica a palavra emartyrei. Observe que a verdade dos milagres de Cristo era evidenciada por provas incontestáveis. É provável que aqueles que tinham visto este milagre não somente o afirmassem para aqueles que lhes perguntavam, mas declaravam sem ser perguntados, para que isto pudesse somar-se aos triunfos deste dia solene, e a vinda de Cristo agora de Betânia, onde o milagre tinha se realizado, os lembraria a todos dele. Observe que aqueles que desejam o bem do reino de Cristo devem estar dispostos a proclamar o que sabem, para que isto possa redundar em sua honra.

2. Que uso fizeram deste fato, e que influência ele teve sobre eles (v.18): “Pelo que”, tanto quanto quaisquer outros, “a multidão lhe saiu ao encontro”.

(1) Alguns, por curiosidade, estavam desejosos de ver aquele que tinha realizado uma obra tão maravilhosa. Ele tinha pregado muitos bons sermões em Jerusalém que não tinham atraído tal multidão como este único milagre. Mas:

(2) Outros, com consciência, procuravam honrá-lo, como alguém enviado por Deus. Este milagre estava reservado para ser um dos últimos, para poder confirmar aqueles que aconteceram antes, e poder obter esta honra para Ele, justa­ mente antes dos seus sofrimentos. As obras de Cristo não somente eram todas bem feitas (Marcos 7.7), mas também bem programadas.

 

VI – A indignação dos fariseus com tudo isto. Alguns deles, provavelmente, viram, e logo todos ouviram falar da entrada pública de Cristo. Quando Jesus se retirou para o isolamento, o comitê indicado para encontrar expedientes para esmagá-lo pensou que tinha conseguido seu intento, e pensou que Ele logo seria esqueci­ do em Jerusalém, mas agora eles se enfureciam e irritavam quando viam que tinham imaginado algo inútil.

1. Eles reconheceram que não tinham conquistado terreno contra Ele. Era claramente perceptível que eles não tinham controlado nada. Eles não tinham podido, com todas as suas insinuações, afastar o afeto das pessoas por Jesus, nem com suas ameaças, impedi-los de mostrar seu afeto por Ele. Observe que aqueles que se opõem a Cristo, e combatem seu reino, serão levados a perceber que não predominam sobre nada. Deus irá alcançar seus objetivos, apesar deles e dos pequenos esforços da sua maldade impotente. “Vós não prevaleceis sobre nada”. Observe que não se consegue nada através de uma oposição a Cristo.

2. Eles reconhecem que Ele tinha conquistado terreno: “Todos vão após ele”. Há uma vasta multidão que o acompanha, um mundo de gente, uma hipérbole comum na maioria dos idiomas. Mas aqui, como Caifás, antes que se dessem conta disto, eles profetizaram que o mundo iria após Ele, pessoas de todos os tipos, e de todas as partes, as nações serão discipuladas. Mas com qual objetivo isto foi dito?

(1) Desta maneira, eles expressavam sua própria irritação com o crescimento do interesse que Ele despertava. A inveja que sentiam os irritava. Se a força do justo se exaltar em glória, o ímpio verá isto e se enraivecerá (Salmos 112.9,10). Considerando como eram grandiosos estes fariseus, e a abundância de respeito que lhes era prestada, poderíamos pensar que eles não precisariam invejar a Cristo por uma honra tão insignificante como esta que Ele recebia agora. Mas os homens orgulhosos desejam monopolizar a honra, e não querem que ninguém a compartilhe, como Hamã.

(2) Desta maneira, eles se estimulavam uns aos outros para um prosseguimento ainda mais vigoroso na guerra contra Cristo. Era como se dissessem: “Perder tempo assim e retardar, é algo que nunca dará certo. Nós devemos tomar outro rumo, mais efetivo, para dar um fim a esta infecção. É hora de usar nossos maiores talentos e forças, antes que nosso desgosto seja irremediável”. Desta maneira, os inimigos do Evangelho se tornam mais resolutos e ativos quando se sentem frustrados. E será que os amigos do Evangelho deveriam se deixar desencorajar devido a cada desapontamento, mesmo sabendo que sua causa é justa e que, no final, será vitoriosa?