PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUANDO OS AUTISTAS CRESCEM

É frequente que empresas busquem profissionais flexíveis, sociáveis, com boa rede de contatos e capacidade de interação – justamente aspectos de que pessoas diagnosticadas com TEA não dispõem. Em compensação, podem ter outras habilidades muito valiosas. Felizmente, alguns projetos têm ajudado a diminuir o preconceito e ampliar as oportunidades para esses jovens.

Quando os autistas crescem

Maria* tem autismo. Sempre teve dificuldade para fazer amigos, mas se saía bem nos estudos, tirava boas notas. A escola onde estudava oferecia serviços de apoio para alunos com distúrbios do desenvolvimento, o que a ajudou a ingressar numa faculdade local. “No entanto, quando esse tipo de suporte cessou após a graduação, ela praticamente desmoronou”, recorda a mãe, Amira. No primeiro mês na universidade, Maria parou de frequentar as aulas e deixou de completar as tarefas. Depois de algum tempo, evitava a todo custo sair do dormitório. Desistiu da faculdade e voltou para casa, passando a permanecer o dia todo no quarto durante 23 horas por dia.

A história de Maria não é incomum. Muitos pais comparam a experiência do filho com autismo de sair do ensino médio com a de “cair de um penhasco”. “De forma geral, crianças e adolescentes com necessidades especiais têm mais facilidade de conseguir atendimento em instituições do que os mais velhos”, reconhece Ana Maria Mello, superintendente da Associação de Amigos do Autista (AMA), mãe de um rapaz de 37 anos com comprometimento intelectual pronunciado. “Meu filho mesmo não tem condições de trabalhar, mas mesmo para os que têm mais autonomia, infelizmente, há pouquíssimas opções para esse público.” Na própria AMA, com cerca de 200 funcionários, existem só dois contratados pelo regime de cotas. “Como o próprio nome diz, o transtorno do espectro autista (TEA) aparece em variados graus e, de fato, nem todos estão aptos a trabalhar, mesmo em tarefas simples, como empacotar objetos”, explica a superintendente. Além disso, muitos sequer têm a vontade de seguir alguma atividade profissional; é preciso fazer primeiro um trabalho com os jovens que poderiam seguir um encaminhamento mais autônomo.

INTELIGÊNCIA E DIFICULDADE

Espera-se que na idade adulta eles estejam qualificados profissionalmente e encontrem uma ocupação que os ajude a obter alguma autonomia. Até recentemente, quase não existia esse tipo de trabalho para um segmento crescente da população: adultos com autismo de alto funcionamento, mesmo em países industrializados. Estudos americanos, aliás, mostram que esse grupo é subempregado em comparação com pessoas com deficiências cognitivas mais graves, o que pode favorecer a solidão e o abatimento emocional. A combinação única entre inteligência comum ou alta e dificuldades de compreensão social pode deixar esses jovens adultos em uma situação frustrante: muitos apresentam os mesmos objetivos que seus pares com desenvolvimento considerado típico e, ainda que se esforcem, as oportunidades são raras.

Pais, psicólogos, médicos, pesquisadores e educadores reconhecem o problema. Nos últimos anos, surgiram nos Estados Unidos alguns projetos voltados para o atendimento desse grupo negligenciado. Atualmente, por exemplo, Maria está matriculada num plano de estágio em um dos programas mais bem estruturados, o Aspire, com base no Hospital Geral de Massachusetts (MGH). Ela trabalha meio período e diz gostar da socialização com os colegas. “Sair, conversar, usar o transporte público tem sido uma grande mudança”, diz Amira. A prevalência da síndrome continua a subir e, cada vez mais, pessoas com o diagnóstico entram na idade adulta. Alguns projetos buscam facilitar essa transição à medida que a pessoa cresce.

O espectro do autismo abrange um vasto conjunto de sintomas, mas todos com o diagnóstico têm algo em comum: a falta de facilidade de interação social. Adultos jovens que participam de programas específicos manifestam esses prejuízos de diversas formas. Para muitos, é difícil identificar emoções alheias, discernir o tópico da conversa e a maneira apropriada de se comportar em público ou compreender os próprios sentimentos e as necessidades.

Obviamente essas dificuldades pesam muito na hora de encontrar e manter um emprego. Pessoas com outros tipos de problema, como distúrbios da fala e linguagem, dificuldades de aprendizagem e até mesmo deficiência intelectual, apresentam taxas muito mais elevadas de emprego, o que sugere que os números entre os adultos com autismo não podem ser explicados somente pelos prejuízos. “Em geral, as empresas buscam profissionais flexíveis, sociáveis, com boa rede de contatos e capacidade de interação, e é justamente nessas áreas que a pessoa com autismo tem dificuldade”, observa a psicóloga Fernanda Lima, diretora de formação da Specialisterne. A empresa social foi fundada há 13 anos na Dinamarca, quando um diretor do departamento de tecnologia de informação (TI), pai de um menino autista, na ocasião com 7 anos, viu que o filho havia desenhado um complexo índice de um mapa, extremamente preciso, com mais de 500 caracteres, incluindo letras e números – e não havia cometido um erro sequer. Hoje, está em 32 cidades em 15 países, onde possibilitou a colocação profissional de mais de mil pessoas, vinculadas diretamente aos escritórios e por meio de parcerias.

A consultoria chegou ao Brasil há um ano e até agora já foram formadas 33 pessoas, 13 delas colocadas no mercado de trabalho e as demais em processo de inclusão profissional. As contratações ocorreram nas cidades de São Paulo e São Leopoldo e, em breve, no Rio de Janeiro. Mas a proposta é aumentar esse número e, para isso, terá início um novo curso de formação em São Paulo, com duração de cinco meses. Em 2015, no Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, foi iniciado um debate na Organização das Nações Unidas (ONU) entre representantes da Specialisterne e as duas maiores empresas mundiais do setor de TI, a SAP e a HP, para apresentar os benefícios de contratar pessoa com TEA. A SAP tem hoje mais de cem contratados e a HP, 37.

“A ideia não é que as empresas sejam benevolentes em relação a essas contratações, mas percebam o valor agregado que essa mão de obra especializada oferece”, salienta a psicóloga. Entre as vantagens profissionais de pessoas autistas de alto funcionamento (com os quais a Specialisterne trabalha) estão características como excelente memória, facilidade de raciocínio lógico e de manter a atenção prolongada no desempenho de uma tarefa que outros poderiam considerar desinteressante e tediosa, habilidade para detectar erros e padrões repetitivos, perseverança, honestidade (até pela falta de familiaridade com a dissimulação). “É o que chamamos de ‘paixão pelos detalhes’, que pode ser tão útil para o mercado”, diz Fernanda Lima.

A estimativa é que, pelo mundo afora, mais de 80% dos adultos com diagnóstico de autismo estejam fora do mercado de trabalho. “O fato é que, apesar das iniciativas que temos hoje, esses jovens estão em alto risco, principalmente após a saída do ensino médio, um período atribulado em que devem encontrar maneiras de participar do mundo do trabalho e da vida acadêmica”, afirma o psicólogo Paul Shattuck, professor na Universidade Drexel. Segundo ele, essa situação existe, em parte, porque os serviços de apoio foram criados levando em conta as necessidades de pessoas com deficiência intelectual, e não evoluiu muito ao longo do tempo. “Quem tem quociente intelectual (QI) mediano, mesmo que apresente dificuldades e peculiaridades na interação social, raramente consegue ajuda”, diz. Isso é realidade para muitos adultos que participam do Aspire. Apesar de o rótulo “síndrome de Asperger” não estar mais incluído no DSM-5, o manual psiquiátrico de transtornos mentais, muitos clientes do programa carregam esse diagnóstico ou se identificam com ele. Outros preferem autismo de alto funcionamento ou TID, que se refere ao transtorno invasivo do desenvolvimento, outro termo que não aparece mais no DSM, mas está associado a um nível relativamente alto de habilidades.

Mesmo quando essas pessoas encontram emprego, em geral as empresas costumam oferecer regime de voluntariado ou de meio período. Um levantamento mostrou que apenas 27 dos 48 participantes da amostra já haviam trabalhado desde o ensino médio; destes, apenas um era capaz de se sustentar. Já o Aspire, não disponível no Brasil, foi lançado há 12 anos, quando se separou do YouthCare (um programa de assistência a jovens), um projeto maior, que atende crianças com diversos tipos de problemas de saúde mental. O psicólogo clínico e diretor-executivo do Aspire, Scott McLeod, esclarece que o número de diagnósticos havia aumentado. E a YouthCare recebia muitos casos de pacientes no espectro. Os conselheiros decidiram, então, que precisavam de um programa voltado exclusivamente para o autismo.

Segundo a psicóloga escolar e diretora do programa, Dot Lucci, o objetivo é abordar o que a equipe do Aspire chama de três S: self-awareness (autoconhecimento), social competency (competência social) e stress management (gestão do estresse). Ela afirma que muitos que participam do projeto são brilhantes. “Mas, se você não é consciente de si nem apto socialmente e é incapaz de lidar com a ansiedade, nem toda inteligência do mundo pode ajudar. Nessas condições, dificilmente a pessoa será capaz de conseguir se manter um emprego ou permanecer num relacionamento”, argumenta.

NO TRABALHO

Alex se senta à mesa em uma conferência ao lado de seu supervisor, Kevin Heffernan. Ele está chegando ao fim de seu estágio de 14 semanas na divisão de Imobiliário Corporativo da Liberty Mutual. O rapaz conseguiu a vaga por meio do programa Aspire, que coloca profissionalmente jovens adultos com autismo em empresas nos arredores de Boston, além de oferecer apoio e orientação. Alex está entusiasmado com a experiência. “A oportunidade me deu um motivo para acordar”, diz. A experiência também lhe ensinou habilidades de trabalho essenciais, como fazer tabelas dinâmicas no Excel, algo de que se orgulha muito, a julgar pelo sorriso tímido em seu rosto quando menciona isso.

Heffernan conta que assim que terminar o estágio o garoto pode se candidatar a alguns cargos na empresa, e tem boas chances de conseguir uma vaga. “O céu é o limite para ele”, diz sorrindo. Não é somente sua capacidade de trabalho que impressiona o supervisor, mas também a forma como interage com os colegas. Antes de Alex começar a trabalhar, Heffernan foi avisado de que o rapaz era tímido e ficava ansioso em algumas situações sociais. “Meu radar ficava ligado”, admite o patrão. Mas com o tempo Alex foi se sentindo mais à vontade com os colegas de trabalho. “Ele está indo muito bem, obrigado”, comemora Heffernan.

Estudos sobre programas de treinamento profissional para pessoas com autismo, embora preliminares, sugerem que a abordagem pode ajudar os mais crescidos, como Alex, a ter sucesso. Por exemplo, em um ensaio clínico do programa de transição do ensino médio – projeto SEARCH, que atende adultos com a síndrome nos Estados Unidos, os participantes completaram um programa de estágio de nove meses incorporado em um negócio grande da comunidade, como um hospital, por exemplo, em que passaram por diferentes postos de trabalho e aprenderam diversas habilidades práticas, como usar o transporte público para chegar ao local. Eles tiveram também apoio individualizado de especialistas em autismo. Enquanto isso, o grupo de controle recebeu os serviços-padrão prestados pela escola. Os dados são animadores: dos 24 adultos que concluíram o estágio, 21 conseguiram um emprego, em comparação com apenas um dos 16 entre os outros voluntários. Essa diferença se manteve por três meses. E talvez ainda mais importante: os que participaram do programa ganharam independência ao longo do tempo – isto é, precisavam cada vez menos de suporte – o que, infelizmente, não foi observado no grupo de controle.

O projeto oferece orientação, atividades sociais em grupo e oportunidades de estágio. O Aspire dispõe também de serviços que facilitam a aproximação entre os estudantes, como o acampamento de verão do primeiro ano, em que os alunos têm a oportunidade de desenvolver habilidades práticas relacionadas à vida no campus. Assim que ingressam na faculdade, podem se inscrever no programa de tutoria do Aspire. Cada participante conhece um universitário bem articulado no campus, com quem forma um par. Esse aluno ajuda a pessoa com autismo a se familiarizar com os serviços e principais recursos, oferecendo suporte contínuo.

Para quem tem deficiência intelectual, programas como Next Steps (próximos passos), da Universidade Vanderbilt, permitem que os alunos tenham aulas ao lado de colegas, aprendam competências profissionais e sociais e ganhem um certificado após dois anos. Nos Estados Unidos, outras iniciativas para adultos com a síndrome também focam o emprego e a educação continuada. Um exemplo é o Programa de Estágio da Faculdade, com base em Indiana, Califórnia, Massachusetts e Nova York, voltado para estudantes universitários no espectro do autismo que não apresentam prejuízos intelectuais.

O projeto SEARCH também atende esse perfil ou quem apresenta qualquer prejuízo significativo no desenvolvimento. É importante fazer essas distinções por causa da grande variabilidade de funcionamento de pessoas com autismo. Não é fácil oferecer tratamento a essa população tendo em vista a heterogeneidade dentro do espectro. Diferenciar os casos também ajuda a assegurar programas de financiamento – a maioria vem de doações filantrópicas privadas, o que permite oferecer auxílio financeiro às famílias dos clientes.

Esses programas favorecem não só conseguir emprego, mas também mantê-lo com sucesso, o que, muitas vezes, exige ter de lidar com situações delicadas. Um dos estagiários do Aspire se mostrou bastante angustiado, por exemplo, depois de encontrar um colega de trabalho de etnia diferente da sua. Disse ao supervisor que não poderia trabalhar com essa pessoa porque já havia passado por uma experiência negativa com alguém da mesma cultura. Ana Maria Mello, da AMA, também se lembra de que, em uma entrevista de um candidato a uma vaga de emprego, ouviu do rapaz que nove horas era “muito cedo” para começar a trabalhar e ele não gostava de acordar cedo. “Sincero e sem rodeios”, comenta.

Essas situações podem ser desconfortáveis, mas McLeod enxerga isso como uma ótima oportunidade de aprender onde mais importa: na hora e na vida real. De fato, “fazer intervenções no cotidiano”, como ele mesmo diz, é a chave da abordagem do Aspire. “Um dos principais desafios para quem tem a síndrome é a transferência e generalização das habilidades”, argumenta. Ele acredita que compreender a perspectiva do outro pode fazer sentido num consultório terapêutico, mas ser algo extremamente difícil de praticar na vida diária.

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DE OLHO NO FUTURO

Maria se senta com um pequeno grupo de homens e mulheres jovens à mesa numa sala de reuniões, esperando começar o seminário semanal de estágio. Ela conversa com uma garota morena e sorridente chamada Nicole enquanto os outros verificam os smartphones. Um quadro de avisos na parede tem um papel que diz: “Eu almejo…”. Logo ao lado, há algumas estrelas desenhadas com metas escritas pelos clientes, desde sonhos a coisas simples: “Seja um piloto da Nascar”; “Chegue ao trabalho cinco minutos antes”; “Pergunte aos outros sobre seus interesses”. O psicólogo clínico Bretton Mulder, diretor do departamento de adolescentes e jovens adultos do Aspire, começa a sessão perguntando aos estagiários como foram as coisas nas primeiras duas semanas de trabalho. Maria se queixa de que levou duas horas para pegar seu crachá de segurança na MGH, onde tem atuado na área de gestão de materiais. Outros mencionam problemas de tráfego ou da socialização por meio da música. Depois de ouvir o grupo, Mulder discute maneiras de distinguir comentários relacionados ao tema na hora de participar de reuniões. Fala também sobre a importância de evitar julgar colegas de trabalho com base na aparência ou no nível de educação, por exemplo.

Durante a reunião, sem se dar conta, Nicole interrompe seus companheiros, mas logo em seguida percebe. Coloca uma das mãos sobre a boca e gentilmente sinaliza com a outra na direção de quem estava na vez de falar, como se dissesse, “Opa… vá em frente”. McLeod destaca que para muitas pessoas com a síndrome é um desafio demonstrar esse nível de autoconsciência exemplificado por Nicole. “No autismo, a dificuldade de compreender a perspectiva alheia pode vir acompanhada da confusão entre si e o outro”, explica. Para ajudar os participantes do Aspire e de outros programas a descobrir a própria identidade, os tutores os incentivam a refletir sobre suas forças, fraquezas, seus pensamentos e sentimentos. Um processo que pode levar a importantes compreensões: “Sou uma pessoa brilhante, mas que costuma reagir intensa- mente a certos estímulos sensoriais”, exemplifica McLeod. Os clientes são encorajados a partilhar esses aspectos relevantes da personalidade com amigos ou colegas de trabalho, o que tende a favorecer a aceitação e compreensão mais rapidamente.

Considerando a autoconsciência como base mental e as habilidades sociais aplicadas como componentes práticos, um terceiro fator, não raro deixado de lado, mas crucial para auxiliar adultos no espectro do autismo, é a capacidade de lidar com o estresse. Muitos projetos, incluindo o Aspire, ensinam a seus clientes técnicas da medi- tação mindfulness e ioga, por exemplo. Os dados preliminares indicam que, com esses três pilares, muitos clientes conseguem arrumar um trabalho e, em algum momento, dispensar os programas de apoio. No entanto, a prevalência do transtorno continua crescendo. Uma em cada 68 crianças tem autismo, segundo estimativas de 2010 dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), um aumento de 30% em relação aos números publicados em 2008. Pesquisas recentes sugerem que uma das principais razões dessa diferença se deve ao diagnóstico mais frequente precisamente do perfil atendido pelo Aspire: pessoas cognitivamente mais capazes.

Embora o projeto ainda não tenha mensurado os resultados, os dados da pesquisa sugerem que os clientes e suas famílias es- tão bem satisfeitos. Para algumas pessoas como Maria, o programa tem sido uma espécie de bote salva-vidas. O estágio na MGH pode não ser o emprego dos sonhos. “Qualquer um pode fazer isso”, ela diz a seus colegas com naturalidade durante o seminário de estágio. No entanto, Maria encara isso como um grande passo em direção ao seu objetivo de longo prazo, que é ser paramédica. E, talvez mais importante, Amira conta que a equipe ajuda a filha a se sentir “respeitada e admirada. Essas pessoas enxergam as possibilidades e o potencial que ela tem”. Como resultado, a perspectiva de Maria mudou drasticamente. “Ela costumava dizer que não tinha futuro”, desabafa a mãe. “Agora, minha filha faz planos.”

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PESSOAS QUE PRECISAM DE PESSOAS

Um rapaz de 19 anos, de pele clara e cabelos escuros, chamado Mateus, permanece no centro de um círculo, cercado por seus pares sentados em cadeiras dobráveis. “Preciso ganhar dinheiro rapidamente. O que devo fazer?”, pergunta.

“Roubar todo o ouro da cidade… ou assaltar um banco em Paris!”, exclama Dani.

“Trabalhar turnos de 24 horas para o resto da vida”, Nicolas sugere.

“Vender os braços e as pernas”, diz Jane, que escuta muitas risadas.

Esses jovens adultos com autismo participam de um jogo de improvisação chamado Bad advice (mau conselho), promovido no Aspire. A pessoa no centro do círculo apresenta um problema a ser resolvido, enquanto o restante tenta chegar à pior sugestão possível. Além de ser uma atividade divertida para “quebrar o gelo”, o exercício oferece o conceito de “prós e contras” sociais; a premissa é que ensinar como não se comportar em situações coletivas registra nos participantes, de maneira implícita, como devem agir.

Depois, começa mais uma sessão de grupo Excursões de Sábado do Aspire. Para a maioria dos clientes, os encontros proporcionam um passeio extremamente necessário. Embora muitos com autismo sejam considerados distantes e desinteressados na socialização, para outros tantos, o oposto é verdadeiro. Um estudo da Universidade do Missouri com adultos diagnosticados com a síndrome, publicado em abril passado, revela que uma boa parte sofre com a solidão e o isolamento, o que pode levar à depressão e à ansiedade. O afastamento social pode ser grave: um estudo nacional feito com adolescentes com autismo, publicado em 2011, mostra que mais da metade não havia se aproximado de um amigo no ano anterior. E, quando outro grupo de pesquisadores perguntou aos pais de adultos com a síndrome sobre necessidades não atendidas dos filhos, muitos citaram a interação coletiva. Um grande número de autistas nessa idade anseia se relacionar socialmente, mas não sabe como.

A excursão oferece uma oportunidade não só de desfrutar da companhia um do outro, mas de praticar habilidades em que os jovens adultos têm dificuldade, como o que a equipe chama de “atividades cotidianas” – tarefas como organizar um passeio e gerir tempo e dinheiro.  Após o jogo de improvisação e antes que o grupo sinta o vento de primavera no início da tarde, os profissionais da Aspire lembram a todos que vão assistir a um filme no centro da cidade durante a semana. Eles reveem a programação para o dia, verificam a rota de metrô para o cinema e distribuem carteiras com cartões de débito pré-carregados e bilhetes de metrô. No caminho de ida e volta do teatro, há bastante tempo para praticar outra habilidade essencial: a conversa.

Dan, um jovem com o cabelo muito rente e óculos de sol, pergunta a data de aniversário dos colegas para ler o horóscopo num aplicativo de smartphone. Atualmente, as saídas são tranquilas.

Depois do evento, todos costumam se reunir para discutir os “altos e baixos”. (Consenso: assistir ao filme Lego foi considerado positivo; Caminhar contra o vento, negativo.) No entanto, há percalços ocasionais.  Em uma viagem para o Arsenal da Marinha, com um grupo diferente, um dos membros, cansado de caminhar, se deitou para descansar em uma cama a bordo de um navio. Essas situações complicadas podem ser uma boa oportunidade de discutir comportamentos sociais adequados – por exemplo, explicando que, em algumas ocasiões, é necessário agir de forma diferente em público e no privado.

O programa Aspire realiza a maior parte das intervenções coletivamente, em vez de trabalhar no caso a caso. “Acreditamos que ações individuais não são desafiadoras; entendemos que o grupo é um dos lugares mais poderosos para aprender aptidões”, observa o psicólogo Scott McLeod. Ao mesmo tempo, esse contexto é possível causar mais segurança e previsibilidade do que diversas situações cotidianas, o que pode permitir que os clientes se sintam menos apreensivos e pratiquem habilidades que talvez de outra forma não os deixassem à vontade. “A razão de não demonstrar determinada capacidade social, em geral, se deve a fatores muito mais complexos do que apenas não ter tal habilidade”, completa. Em muitos casos, outras questões pesam, como ansiedade, dificuldade de compreender a perspectiva alheia ou simplesmente não assimilar o propósito de certos comportamentos coletivos. É por isso que o Aspire evita simplesmente desenvolver aptidões nos clientes, uma abordagem que, segundo McLeod, “falhou completamente”.

Poucos estudos (e distantes entre si) abordam a melhor forma de ajudar adultos com autismo a aprender e a praticar habilidades sociais. O programa desenvolveu um estilo de trabalho a partir de diversos métodos com base em evidências psicológicas. Um tutor enfatiza os pontos fortes do cliente e oferece comentários positivos e negativos, uma técnica apoiada nos princípios da psicologia positiva.

Eles também encorajam os participantes a raciocinar sobre os pensamentos e sentimentos subjacentes ao comportamento alheio e próprio, um princípio central da terapia cognitivo-comportamental. “A premissa é que podemos aprender aptidões coletivas por meio da troca com os pares, respeitando o próprio tempo e o do outro.

Mas, se não temos ideia do que está em jogo, isso se torna superficial. Tudo se desfaz ao encararmos uma situação diferente”, argumenta Dot Lucci. “Por isso, propomos algo diferente.”

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OUTROS OLHARES

DIVERSÃO COM RESPONSABILIDADE

No mundo infinito da internet, há de tudo, criando uma necessidade de abordar temas que englobam os impactos da exposição de crianças e adolescentes na web.

Diversão com responsailidade

Em um vídeo postado no YouTube e no Facebook, um menino de apenas 5 anos realiza um experimento curioso. Durante 30 dias, a criança elogia uma planta enquanto “maltrata” outra do mesmo tamanho. É um experimento sobre o efeito do bullying. No final, a criança se emociona ao perceber que a planta alvo de seu desafeto morreu. Em outro vídeo, duas crianças dançam sorridentes ao som do funk Sarrada no Ar, enquanto seus pais falam em alto e bom som “continuem”, “não parem não”. Enquanto isso, os filhos dançam até o chão. Não demora para eu achar um vídeo de duas adolescentes ensinando como camuflar o celular para usá-lo em sala de aula sem alertar o professor.

Não há dúvida de que o primeiro vídeo citado é interessante e resguarda uma mensagem positiva – um gargalo para as generalizações grotescas contra a internet. Generalizar é mais fácil, mas esse e tantos outros exemplos demonstram o quão perigoso é trilhar pelo caminho mais curto e simples. Quando falamos em conteúdo protagonizado por crianças e adolescentes, vale uma investigação mais profunda. Nesse caso, a raiz são os pais, que precisam ser ouvidos e explicar a origem desses canais virais e a maneira como veem essas produções compartilhadas na internet. Falar é um ato de coragem e escutar sobre aprendizagem nos ajuda a lidar com esses conflitos do ciberespaço.

Participei como ouvinte do 3° Workshop “Impactos da Exposição de Crianças e Adolescentes na Internet”, organizado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGl.br) e Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), que contou com a presença de diversos profissionais, dentre eles Luiz Fernando Riesemberg, pai do YouTuber mirim Tiago, que protagonizou o vídeo viral do experimento de bullying com as plantas. Examinando a fala de Riesemberg, nota-se uma preocupação soberana dele: a felicidade do Tiago. O pai recorda que tudo começou a partir de uma brincadeira:  “Percebi que ele está entediado num sábado à tarde e resolvi fazer uma coisa diferente para ele. Ele então gravou um vídeo e não se aguentou e postou nas redes sociais. O feedback de amigos e familiares foi positivo, claro, motivando o pai a repetir o ato de compartilhar o vídeo do filhote. Até aí parece que o desejo do pai impera, mas ele lembra que sempre conversou com o filho sobre as postagens e deixou claro que era o filho que escolhia gravar ou não. O que chama atenção é a ênfase na fala de não apresentar a produção de conteúdo em vídeo como um compromisso para a criança.

Há vários canais protagonizados por crianças que estampam na primeira imagem do vídeo mensagens como “vídeos novos todas terças e quintas”. De fato, esse não é um bom caminho quando alguém pensa primeiramente na criança. Reisemberg lembra também que o Tiago sempre aprende algo novo quando grava e faz isso porque gosta e se diverte. Por parte do pai Luiz Fernando, nota-se uma legítima presença dele em todas as redes sociais, acompanhando os comentários e toda repercussão do vídeo de seu filho. Ele ainda observa que lê todos comentários e bloqueia perfis que escrevem frases ofensivas. Riesemberg é vigilante da imagem compartilhada do seu próprio filho, revelando que seu amor paternal é marcado por um senso temperado de autonomia, diversão e responsabilidade.

 

TIAGO J.B. EUGÊNIO – é mestre em Psicobiologia e Estudos do Comportamento Humano. É designer de aprendizagem na Rhyzos Educação e escreve sobre educação, tecnologias e Neurociências.

E-mail:tiagoeugenio20@gmail.com – site: http://www.tiagoeugenio.com.br

GESTÃO E CARREIRA

JAMAIS CONFIE NA PRIMEIRA SACADA

Siga a regra de Thomas Edison: Se quiser uma boa ideia, pense em dez outras.

Jamais confie na primeira sacada

Thomas Edison, um dos ícones históricos da inovação, adotava um método que pode explicar, em boa parte, o sucesso de suas empreitadas: sempre que pedia à equipe de seu laboratório uma solução para desenvolver um produto ou componente, Edison exigia também que trouxessem dez propostas em vez de uma. Longe de ser apenas um capricho de um chefe rigoroso ou detalhista, esse método era uma forma de combater o fenômeno da chamada “preguiça cerebral”, responsável por adotar a primeira proposta surgida, que raramente é a melhor possível. Neurocientistas do Baylor College of Medicine, em Houston, se basearam justamente no método de Edison para elaborar exercícios que evitam a preguiça cerebral, partindo do princípio de que a chave para inovar é sempre desenvolver a ideia inicial, para enriquecer ainda mais o ambiente em que ela surgiu.

Nosso cérebro, explicam os cientistas, geralmente adota o caminho da menor resistência – isto é, evita ficar elaborando em excesso –, pois esta seria a forma mais rápida para avançar na tarefa. O resultado, porém, pode deixar a desejar. O neurocientista David Eagleman, um dos autores da pesquisa do Baylor College, realizou um interessante exercício: primeiro pediu à sua plateia que imaginasse a paisagem de uma praia e depois perguntou quantas pessoas haviam vislumbrado espuma de ondas do mar ou cocos balançando em um coqueiro. Ninguém levantou a mão. Isso porque, explicou Eagleman, seus cérebros geraram as imagens mais simples possíveis para atender rapidamente à sua solicitação, sem maior elaboração.

Pesquisa da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, coordenada pelo professor Adam Grant (autor de Originals, livro que trata de inovação), confirma a conclusão dos colegas do Baylor: os maiores inovadores não necessariamente elaboram as melhores ideias, mas persistem o suficiente para obter mais ideias. Em seu livro, Grant explora os métodos necessários para reconhecer uma boa ideia, saber defendê-la, construir uma rede de aliados para apoiá-la e escolher o momento certo para implementá-la. “As primeiras ideias tendem a ser mais convencionais ou óbvias”, diz Grant, para quem a inovação só começa quando empacamos na busca inicial de soluções e, então, somos obrigados a explorar novos territórios mentais. Como diria Edison em uma conhecida frase, “não fracassei, apenas cheguei a 10 mil propostas que não funcionaram” – até obter a boa ideia.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 16: 16-22

Alimento diário

A partida e o retorno de Cristo. A tristeza e a alegria são preditas

Nosso Senhor Jesus, para o consolo dos seus discípulos entristecidos, aqui promete que os visitaria outra vez.

 

I – Observe a insinuação que Ele lhes fez, do consolo que lhes designava, v. 16. Aqui Ele lhes diz:

1. Que, dentro de pouco tempo, eles deixariam de vê-lo: “Um pouco”, e vós, que me vistes durante tanto tempo, e ainda desejais me ver, “não me vereis”, e, portanto, se tivessem alguma pergunta a fazer ao Senhor Jesus, deviam fazê-la rapidamente, pois agora Ele estava se despedindo deles. Observe que é bom considerarmos o quanto nossos períodos de graça estão próximos do seu final, para que possamos nos motivar a aproveitá-los enquanto permanecerem. Agora nossos olhos veem nossos professores, veem os dias do Filho do homem. Mas, talvez, dentro de pouco tempo, não os vejamos mais. Eles perderam Cristo de vista:

(1) Na sua morte, quando Ele se retirou deste mundo, e nunca mais se apresentou nele abertamente. O máximo que a morte faz aos nossos amigos cristãos é tirá-los da nossa vista, não da existência, nem da bem-aventurança, mas de qualquer relacionamento conosco. Eles estarão somente fora da nossa vista, mas não fora da nossa mente.

(2) Na sua ascensão, quando Ele se retirou deles (daqueles que, depois da sua ressurreição, tiveram algum tempo de convivência com Ele), e passou a estar fora do alcance da vista deles. Uma nuvem o recebeu, e, embora eles tivessem os olhos fixos nele, não o viram mais, Atos 1.9,10; 2 Reis 2.12. Veja 2 Coríntios 5.16.

2. Que, ainda assim, em breve, eles recobrariam a visão que tinham dele. “Outra vez um pouco, e ver-me-eis”, e, portanto, não deveis entristecer-vos como aqueles que não têm esperança. Sua despedida não era uma despedida final. Eles o veriam outra vez:

(1) Na sua ressurreição, pouco tempo depois da sua morte, quando Ele se apresentou vivo, por muitas provas infalíveis, e isto dentro de muito pouco tempo, nem sequer quarenta horas. Veja Oséias 6.2.

(2) Pelo derramamento do Espírito, pouco tempo depois da sua ascensão, que dissipou a névoa da ignorância e dos enganos em que eles estavam quase perdidos, e lhes deu uma percepção muito mais clara dos mistérios do Evangelho de Cristo do que eles já tinham tido. A vinda do Espírito era a visita de Cristo aos seus discípulos, não uma visita transitória, mas uma permanência, e uma visita que recobrou abundantemente a visão que tinham dele.

(3) Na sua segunda vinda. Eles viram o Senhor Jesus outra vez quando foram levados, um por um, até Ele, através da morte. E o verão juntos, no fim dos tempos, quando Ele vier nas nuvens, a ocasião em que todo olho o verá. Pode-se dizer verdadeiramente que era somente um pouco, e eles o veriam. Pois, o que são os dias do tempo, comparados aos dias da eternidade? 2 Pedro 3.8,9.

  1. Ele dá a razão: “‘Porquanto vou para o Pai’, e, portanto”:

(1) “Eu devo lhes deixar por algum tempo, porque meu trabalho me chama para o mundo superior, e vocês devem se contentar em me poupar, pois, na verdade, meu trabalho beneficia cada um de vocês”.

(2) “Portanto, vocês me verão novamente, dentro de pouco tempo, pois o Pai não irá me reter, o que seria prejuízo para vocês. Se Eu prosseguir com sua missão, vocês me verão novamente tão logo meu trabalho esteja concluído, tão logo seja conveniente”.

Ao que parece, tudo isto se refere mais à sua partida na morte, e ao seu retorno na ressurreição, do que à sua partida na ascensão, e ao seu retorno no final dos tempos. Pois era sua morte que os entristecia, e não sua ascensão (Lucas 24.52). E entre sua morte e sua ressurreição, realmente se passou pouco tempo. E a expressão bíblica pode ser interpretada não como “um pouco”, como em João 12.35), mas “por um pouco, e não me vereis”, a saber, os três dias em que o Senhor Jesus esteve no sepulcro. E outra vez, “por um pouco, e ver-me-eis”, a saber, os quarenta dias entre sua ressurreição e sua ascensão. Assim, podemos dizer dos nossos ministros e amigos cristãos: Um pouco, e não os veremos, seja porque eles devem nos deixar ou porque nós devemos deixá-los. Mas, assim como é certo que de­ vemos nos separar em breve, também não podemos nos esquecer de que, mais tarde, estaremos juntos para sempre. Ê como dizermos boa noite àqueles que nós esperamos ver, com alegria, na manhã seguinte.

 

II – A perplexidade dos discípulos com a insinuação que lhes foi dada. Eles ficaram confusos quanto a como interpretá-la (vv. 17,18). Alguns deles, fossem alguns dos mais fracos, que eram menos capacitados, ou alguns dos mais inquisidores, que eram mais desejosos de compreendê-lo, disseram, mansamente, entre si: Que é isto que nos diz? Embora Cristo frequentemente tivesse falado com este objetivo antes, eles ainda estavam às escuras. Embora estivessem recebendo vários preceitos, um depois do outro, eles não seriam úteis, se Deus, o Pai, não lhes desse o entendimento. Veja aqui:

1. A fraqueza dos discípulos, expressa no fato de que não conseguiam compreender uma mensagem tão clara, da qual Cristo já tinha lhes dado uma explicação, tendo dito a eles, com tanta frequência, e em termos tão claros, que Ele seria morto, e no terceiro dia ressuscitaria. Contudo, dizem eles: “Não sabemos o que diz”. Pois:

(1) A tristeza tinha enchido seus corações, e os deixava incapazes de receber as palavras de consolo. As trevas da ignorância e as trevas da melancolia comumente aumentam e complicam umas às outras. Os enganos provocam as tristezas, e as tristezas confirmam os enganos.

(2) A noção do reino secular de Cristo estava tão profundamente enraizada neles, que eles não conseguiam compreender o significado de todas estas mensagens do Senhor. Eles não sabiam como conciliar estas mensagens com aquela noção. Quando nós pensamos que as Escrituras devam estar de acordo com as falsas ideias de que estamos impregnados, não é de admirar que reclamemos de dificuldades. Mas, quando nossas reflexões são atraídas para a revelação, o assunto se torna uma questão de fácil compreensão.

(3) Aparentemente, o que os confundiu foi a expressão “um pouco”. Se o Senhor Jesus deveria ir, de qualquer modo, eles não conseguiam entender como Ele os deixaria tão rapidamente, quando sua permanência, até agora, tinha sido tão curta, e por um espaço de tempo tão curto, comparativamente. Desta maneira, é difícil descrevermos, para nós mesmos, essa mudança como próxima, ainda que sabemos que certamente vir á, e que pode vir repentinamente. Quando nós dizemos: “Um pouco”, e devemos ir daqui, “um pouco”, e devemos abrir mão da nossa explicação, nós não sabemos como compreender isto, pois sempre entendemos que a visão é para muitos dias, Ezequiel 12.27.

2. A vontade que tinham de ser instruídos. Quando estavam perplexos sobre o significado das palavras de Cristo, eles conversaram sobre isto, e pediram ajuda uns aos outros. Por meio da conversa sobre as coisas divinas, nós emprestamos o esclarecimento de outros, e, ao mesmo tempo, aperfeiçoamos o nosso. Observe com que exatidão eles repetem as palavras de Cristo. Embora nós não possamos resolver plenamente todas as dificuldades com que nos deparamos nas Escrituras, ainda assim não devemos, por causa disto, deixá-las de lado. Devemos determinar o que não podemos explicar, e esperar até que Deus nos revele estas coisas.

 

III – A explicação adicional daquilo que Cristo tinha dito.

1. Veja aqui por que Cristo explicou (v. 19): porque Ele sabia que eles desejavam lhe perguntar, e planejou isto. Observe que devemos levar os nós que não podemos desatar ao único que pode nos dar algum entendimento. Cristo sabia que eles desejavam perguntar a Ele, mas estavam acanhados e envergonhados para fazê-lo. Observe que Cristo toma conhecimento dos desejos piedosos, embora ainda não tenham sido oferecidos. Ele conhece as queixas que não podem ser proferidas, e até mesmo as antecipa, com as bênçãos da sua bondade. Cristo instruía àqueles que Ele sabia que estavam desejosos de pergunta-lhe, ainda que não perguntassem. Antes que eles peçam, Ele responde. Outro motivo pelo qual Cristo explicou foi porque Ele observou que eles estavam discutindo o assunto entre si: “Indagais entre vós acerca disto?’’ Bem, Eu vou esclarecer para vós”. Isto nos sugere quem são aqueles a quem Cristo deseja ensinar:

(1) Os humildes, que confessam sua ignorância, pois é isto o que suas perguntas evidenciam.

(2) Os diligentes, que usam os meios que possuem: “‘Indagais?’ Sereis ensinados. A qualquer que tiver será dado”.

2. Veja aqui como Ele explicou: não por meio de uma discussão agradável e crítica sobre as palavras, mas aproximando a questão deles. Ele lhes tinha dito que não mais o veriam, e depois o veriam, e eles não compreenderam o significado, e por isto Ele explica, falando da sua tristeza e alegria, porque normalmente nós avaliamos as coisas conforme elas nos afetam (v. 20): “Vocês irão chorar e lamentar minha partida, mas o mundo se alegrará nisto. E vocês ficarão entristecidos, enquanto Eu estiver ausente, mas, quando Eu retornai; sua tristeza se converterá em alegria”. Porém, Ele não diz nada sobre a expressão “um pouco”, porque viu que isto os confundiu mais do que qualquer outra coisa, e não é importante para nós conhecermos as horas e as ocasiões. Observe que os crentes sentem alegria ou tristeza conforme tenham ou não uma visão de Cristo, e os sinais da sua presença com eles.

(1) O que Cristo diz aqui, e nos versículos 21 e 22, sobre sua tristeza e alegria, deve, basicamente, ser interpretado como sendo o estado e as circunstâncias atuais dos discípulos, e, desta maneira, temos:

[1] A predição da sua tristeza: “Vós chorastes e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes”. Os sofrimentos de Cristo não podiam deixar de ser a tristeza dos seus discípulos. Eles choraram por Ele porque o amavam. A dor de um amigo nosso é uma dor para nós. Quando eles dormiram, foi por tristeza, Lucas 22.45. Eles choraram por si mesmos, e pela sua perda, e pelas tristes noções que tinham do que iria acontecer com eles, depois que Jesus tivesse partido. Não podia deixar de provocar tristeza perder aquele por quem eles tinham deixado tudo, e em quem tinham tido tantas expectativas. Cristo avisou aos seus discípulos, de antemão, a que esperassem tristezas, para que pudessem valorizar os consolos da maneira adequada.

[2] A alegria do mundo, ao mesmo tempo: “E o mundo se alegrará”. Aquilo que é a tristeza dos santos é a alegria dos pecadores. Em primeiro lugar, aqueles que são estranhos a Cristo irão permanecer na sua alegria carnal, e não se interessarão pelas suas tristezas. Ela não representa nada àqueles que passam pelo caminho, Lamentações 1.12. Em segundo lugar, aqueles que são inimigos de Cristo se alegrarão, porque esperarão tê-lo derrotado, e destruído seus interesses. Quando os principais dos sacerdotes pregaram Cristo na cruz, podemos supor que se alegraram com isto, como aqueles que habitam na terra, sobre as testemunhas mortas, Apocalipse 11.10. Que não seja surpresa para nós, se virmos outros triunfando, quando estivermos tremendo pela arca.

[3] O retorno da alegria a eles, no devido tempo: “Mas a vossa tristeza se converterá em alegria”. Assim como a alegria dos hipócritas, também a tristeza do verdadeiro cristão dura somente um pouco. Os discípulos ficariam felizes quando vissem o Senhor. Sua ressurreição era, para eles, como receber a vida estando mortos. E sua tristeza pelos sofrimentos de Cristo se converteria em uma alegria de tal natureza, que não poderia ser amortecida nem amargurada por nenhum sofrimento deles mesmos. Eles ficaram contristados, mas estavam sempre alegres (2 Coríntios 6.10). Tiveram vidas tristes, mas corações alegres.

(2) Os tópicos a seguir se aplicam a todos os fiéis seguidores do Cordeiro, e descrevem a situação comum dos cristãos.

[1] Sua condição e disposição era desolada. As tristezas eram seu destino, e a seriedade, seu estado de espírito. Aqueles que conhecem a Cristo devem, como Ele, conhecer a tristeza. Eles choraram e se lamentaram por aquilo a que os outros não davam importância, a saber, seus próprios pecados e os pecados dos que estavam à sua volta. Eles lamentam com os sofredores que lamentam, e lamentam pelos pecadores que não lamentam por si mesmos.

[2] O mundo, ao mesmo tempo, prossegue com toda a alegria. Eles riem agora, e passam seus dias tão jovialmente, que alguém poderia pensar que eles nem conheciam o sofrimento nem temiam. A alegria carnal e os prazeres certamente não são as melhores coisas, pois os piores homens não terão uma cota tão grande deles, e os favoritos do céu serão estranhos a eles.

[3] A tristeza espiritual em breve se converterá em alegria eterna. A alegria é semeada nos justos de coração, que semeiam lágrimas, e, sem dúvida, em breve segarão com alegria. Sua tristeza não somente se seguirá de alegria, mas se converterá em alegria, pois os mais preciosos consolos surgem das tristezas piedosas. Desta maneira, o Senhor faz uma ilustração, através de uma comparação com uma mulher prestes a dar à luz, a cujas tristezas Ele compara as dos seus discípulos, para incentivá-los, pois a vontade de Cristo é que seu povo seja um povo consolado.

Em primeiro lugar, aqui está a comparação, ou parábola, propriamente dita (v. 21): ”A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza”, sente uma dor cortante, “porque é chegada a sua hora”, a hora que a natureza e a providência fixaram, que ela esperou e da qual não pode escapar; “mas, depois de ter dado à luz a criança”, desde que tenha nascido saudável, e seja um Jabez (1 Crônicas 4.9), e não um Benoni (Genesis 35.18), “já se não lembra da aflição”, seus gemidos e queixumes se acabam, e as dores pós-parto são mais fáceis de suportar; “pelo prazer de haver nascido um homem no mundo”, da raça humana, um filho, seja homem ou mulher, pois a palavra significa as duas coisas. Observe:

3. O fruto da maldição, na tristeza e dor de uma mulher prestes a dar à luz, de acordo com a sentença de Gênesis (Genesis 3.16): “Com dor terás filhos”. Estas dores são extremas, as maiores dores e tristezas são comparadas a elas (Salmos 48.6; Isaias 13.3; Jeremias 4.31; 6.24), e são inevitáveis, 1 Tessalonicenses 5.3. Veja o que é este mundo. Todas as suas rosas estão rodeadas de espinhos, todos os filhos elos homens são, de acordo com esta explicação, crianças tolas, que são um peso para aquela que os carregou desde o início. Isto vem do pecado.

4. O fruto da bênção, na alegria que existe por um filho trazido ao mundo. Se, depois da queda, Deus não tivesse mantido em vigor a bênção: “Frutificai, e multiplicai-vos”, os pais nunca poderiam ter considerado seus filhos com algum consolo. Mas o que é fruto de uma bênção é motivo de alegria. O nascimento de um filho é:

(a) Uma alegria para os pais. Isto os alegra grandemente, Jeremias 20.15. Embora os filhos sejam preocupações garantidas, e consolos incertos, e muitas vezes provem ser as maiores cruzes, ainda assim é natural que nos alegremos com o nascimento deles. Se pudéssemos ter certeza de que nossos filhos, como João, seriam cheios do Espírito Santo, poderíamos realmente, como seus pais, ter prazer e alegria no seu nascimento, Lucas 1.14,15.

Mas quando consideramos, não somente que eles nascem em um mundo de pecados, mas, como está escrito, que eles nascem em um mundo de armadilhas e em um vale de lágrimas, nós vemos razões para nos alegrarmos com temor, para que não se prove que seria melhor para eles que nunca tivessem nascido.

(b) É uma alegria que faz com que a angústia não seja lembrada, ou lembrada como águas que já passaram, Jó 11.16, Gênesis 41.51. Isto é apropriado para apresentar:

[a] As tristezas dos discípulos de Cristo neste mundo. Elas são como as dores do parto, certeiras e agudas, mas não duram muito tempo, e seu resultado é alegre. Eles nascem em meio às dores do parto, esta é a forma como a igreja é descrita (Apocalipse 12.2), como também toda a criação, Romanos 8.22. E:

[b] Suas alegrias depois destas tristezas. Elas irão enxugar todas as lágrimas, pois já as primeiras coisas serão passadas, Apocalipse 21.4. Quando eles nascerem naquele mundo abençoado, e colherem o fruto de todos os seus serviços e tristezas, o trabalho árduo e as angústias deste mundo não mais serão lembrados, assim como os de Cristo: “O trabalho da sua alma ele verá e ficará satisfeito”, Isaías 53.11.

Em segundo lugar, a aplicação da comparação (v. 22): ‘”Vós, agora… tendes tristeza’, e provavelmente te­ reis mais; ‘mas outra vez vos verei’, e vós me vereis, e então tudo ficará bem”.

1. Aqui o Senhor lhes fala novamente da tristeza que sentiam: “‘Vós, agora, na verdade, tendes tristeza’, porque Eu vos deixo”, algo que fica evidente na antítese: “Outra vez vos verei”. Observe que as partidas de Cristo são causas justas de tristeza para seus discípulos. Se Ele ocultar seu rosto, eles não devem se perturbar. Quando o sol se põe, o girassol se curva. E Cristo percebe estas tristezas, tem um recipiente para colher as lágrimas, e um livro para registrar os suspiros de todos aqueles que anelam pela graça.

2. Mais abundantemente do que antes, Ele lhes garante o retorno da alegria, Salmos 30.5,11. Ele mesmo passou pelas suas próprias tristezas, e suportou as nossas, pela alegria que se apresentava diante dele. E Ele deseja que nos incentivemos, com a mesma perspectiva. Três coisas recomendam a alegria:

(a) Sua causa: “Outra vez vos verei”. Eu vos farei uma visita gentil e amistosa, para saber notícias de vós, e para vos ministrar consolo”. Observe que:

[a] Cristo irá graciosamente retornar para aqueles que esperam por Ele, embora, por um breve momento, pareça ter se esquecido deles, Isaías 54.7. Os homens, depois de terem sido exaltados, dificilmente olham para seus inferiores. Mas o Jesus exaltado visitará seus discípulos. Não somente eles o verão na sua glória, mas Ele os verá na sua humildade.

[b] Os retornos de Cristo são retornos de alegria para todos os seus discípulos. Quando as evidências dúbias são esclarecidas, e a comunhão interrompida é revivida, a boca se enche de riso.

(b) Sua cordialidade: “O vosso coração se alegrará”. A consolação divina coloca alegria no coração. A alegria no coração é sólida, e não é extravagante; é secreta, e é algo com que um estranho não se intromete; é doce, e dá satisfação a um bom homem; é garantida, e não é facilmente rompida. Os discípulos de Cristo devem se alegrar fervorosamente em seus retornos, sinceramente e enormemente.

(c) Sua continuidade: ”A vossa alegria, ninguém vo-la tirará”. Os homens se empenharão em tirar a alegria deles. Eles o fariam, se pudessem. Mas não conseguirão. Alguns entendem isto como uma referência à alegria eterna daqueles que são glorificados. Aqueles que entram no gozo do Senhor não mais sairão. Podem nos roubar nossas alegrias na terra, por mil acidentes, mas as alegrias celestiais são eternas. Eu prefiro interpretar que se trata das alegrias espirituais daqueles que são santificados, particularmente a alegria dos apóstolos no seu apostolado. “Graças a Deus”, diz Paulo, em nome dos demais, “que sempre nos faz triunfar”, 2 Coríntios 2.14. Um mundo maldoso a tiraria deles, eles a teriam perdido. Mas, podendo tirar todo o resto deles, não poderiam tirar-lhes a alegria: “Como contristados, mas sempre alegres”. Eles não podiam roubar-lhes sua alegria, porque não podiam separá-los do amor de Cristo, não podiam roubar-lhes seu Deus, nem seu tesouro no céu.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A ILUSÃO DE FATOS ALTERNATIVOS

Pode parecer estranho, mas nenhum de nós jamais experienciou o mundo diretamente – o que temos é uma simulação da realidade mediada pelo cérebro. Algumas “regras” com base científica podem ajudar nessa “busca pela verdade”.

A ilusão de fatos alternativos

O penúltimo fim de semana de janeiro de 2017 marcou a tomada de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos e o momento em que a expressão “fatos alternativos” se juntou a “pós-verdade” e “notícias falsas”. Na ocasião, foi registrado o primeiro choque do presidente americano com a imprensa. O mote foi um tanto bizarro e mesquinho: o tamanho da multidão durante o evento.

Em seu discurso um dia depois, Trump atacou jornalistas e redes de televisão por “mentirem” sobre a quantidade de pessoas presentes, ao mostrarem “um campo vazio” no National Mall. “Olhei para fora, o local estava cheio, parecia ter 1 milhão, 1,5 milhão de pessoas”, disse Trump. Mais tarde, o secretário de imprensa Sean Spicer continuou a defender a declaração do presidente enquanto criticava a mídia.

O debate sobre o que constitui a realidade objetiva e subjetiva provavelmente perdurará. Enquanto isso, nós, autores deste artigo, neurocientistas especializados no estudo da percepção errônea e da ilusão, temos algumas observações a fazer. Nossa pesquisa se concentra justamente nos erros cognitivos e de percepção que cometemos na vida cotidiana, bem como nos truques inteligentes concebidos por pintores e ilusionistas para fazer com que os espectadores experimentem algo além do óbvio. Poderíamos mesmo dizer que estudamos enganos e desvios – dois conceitos que se tornaram inesperadamente relevantes para a cena política.

Repetidas vezes, tivemos a oportunidade de comprovar no laboratório que nossos sentidos não são confiáveis: não importa quão certo estejamos de que nossa percepção dos eventos que nos rodeiam são como vemos, ainda assim podemos estar completamente errados. Uma parte principal do problema é que ninguém experimenta a realidade diretamente. Cada visão, som ou sentimento que qualquer um de nós já passou por filtros biológicos e pelos sofisticados mecanismos cerebrais de processamento de informações. A verdade é que, na prática, nenhum de nós nunca experienciou o mundo diretamente, mas apenas uma simulação mediada pelo cérebro. E essa representação não corresponde necessariamente à realidade.

Ainda que nossos sentidos não possam compreender completamente o mundo que nos cerca, existem regras precisas para o jogo de obter conhecimento imparcial e formas de medir a realidade objetiva. Veja como o método científico e a ciência da ilusão podem ajudar:

REGRA 1: NÃO PODEMOS DETERMINAR O QUE É VERDADE, MAS É POSSÍVEL ESTABELECER O QUE É FALSO.

A ilusão de fatos alternativos.2

Nossa imagem da realidade evolui cada vez que aprendemos algo novo sobre o mundo. No século 17, Isaac Newton mostrou que a física aristotélica não era a verdade completa. Por sua vez, o relativismo da física quântica ampliou e, sob muitos aspectos, superou a física newtoniana. Cada descoberta subsequente nos impulsiona a novas constatações: está sempre presente a possibilidade de que uma nova observação imprevista derrubará – ou pelo menos mudará – o que se aceita até agora como verdadeiro. Assim, um princípio fundamental da ciência é que, ao passo que nenhuma quantidade de dados pode verificar uma hipótese, uma única observação contraditória é capaz de refutá-la. Em outras palavras, as hipóteses não podem ser comprovadas como verdadeiras, embora possam ser comprovadas como falsas. Se há uma coisa em que o método científico se destaca é o fato de que é possível refutar proposições.

A hipótese de Donald Trump sobre o tamanho da multidão era possivelmente razoável de sua posição privilegiada no estrado. Como observado no texto publicado no Washington Post, o presidente pode ter levado em conta que a multidão se estendia até a parte de trás do National Mall. Ou talvez ele tenha mentido. De qualquer forma, as hipóteses só podem sobreviver enquanto os dados as sustentam. E fotografias aéreas, estimativas de cientistas e o número de passageiros de transporte público fornecido pelo Washington Metropolitan Area Transit (WMAT) rejeitam a afirmação da Casa Branca de que a multidão presente na posse de Trump foi a maior da história.

REGRA 2: ALTA CONFIANÇA NÃO É IGUAL À PROVA OBJETIVA.

A ilusão de fatos alternativos.3

Lembra-se do vestido viral? O fenômeno das mídias sociais começou com a foto de um vestido, fotografado sob ambígua iluminação azul e amarela. Aproximadamente metade da humanidade viu a roupa nas cores branca e dourada; a outra metade viu em azul e preto. Tanto os partidários de uma opinião quanto os de outra se sentiam igualmente confiantes em sua avaliação e, por mais que tentassem, não podiam ver a roupa de outra maneira. Podemos pensar nas duas interpretações concorrentes do vestido como dois conjuntos igualmente válidos de “fatos alternativos”. Exceto por uma coisa: se iluminássemos o vestido com uma luz branca simples, ele ficaria azul e preto para qualquer pessoa.

Todos podemos imaginar cenários alternativos para qualquer acontecimento: sequências de eventos que poderiam ter ocorrido, mas nunca aconteceram realmente. A série de TV Amazon Video The man in the high castle situa-se num universo distópico no qual as potências de determinado grupo venceram a Segunda Guerra Mundial. Talvez haja uma realidade alternativa em que o presidente Trump teve a maior audiência já registrada num evento – no entanto, não foi o que aconteceu em nosso universo.

REGRA 3: A PERCEPÇÃO DEPENDE DA PERSPECTIVA, MAS A SUBJETIVIDADE NÃO É UMA MEDIDA DA REALIDADE.

“O relatório da Casa Branca sobre o tamanho da multidão não era notável devido à sua imprecisão, mas sim pela confiança nas informações incorretas. Se Trump dissesse que 1 milhão de pessoas pareciam estar na inauguração, mas que ele não sabia o número real, o relato poderia ter parecido mais cativante do que inquietante. Estimativas também não são fáceis quando estamos próximos demais de uma situação, ou mesmo fazemos parte dela. Talvez por isso seja tão compreensível por que é mais efetivo conversar com um psicólogo sobre algum problema do que com um amigo interessado em nos ajudar, mas dificilmente isento afetivamente.

Não raro, quando estamos em meio a uma multidão, empacotados como sardinhas, imaginamos haver milhões de pessoas no mesmo evento e ficamos surpresos depois de descobrir, com base em imagens aéreas, dados do departamento de trânsito e estimativas de especialistas, que havia menos de meio milhão de pessoas. A diferença entre a percepção e o que de fato se verificou realça quão difícil é avaliar o tamanho de uma situação enquanto fazemos parte dela – mesmo para cientistas perceptuais acostumados a desconfiar de seus sentidos.”

 

 

Nossa fiação neural é constituída de tal forma que é praticamente impossível para os seres humanos pensar, ou mesmo entender algo, em termos absolutos, por mais simples que seja. Nossos olhos não contam fótons da maneira como o medidor de luz de um fotógrafo o faz. Em vez disso, vemos o mundo como um padrão de contrastes: o mesmo círculo cinzento pode parecer preto para nós se rodeado por branco e branco se rodeado por preto. Nossa percepção depende do contexto e da perspectiva. Chamamos de ilusões aqueles casos em que nosso relativismo subjetivo se afasta dramaticamente dos dados objetivos (como quando vemos um círculo cinza como branco, embora o medidor de luz do fotógrafo prove que não é assim).

Algumas das percepções mais deslumbrantes confiam no uso engenhoso da perspectiva. Kokichi Sugihara, um matemático do Japão e vencedor por mais de uma vez da competição da Melhor Ilusão, construiu rampas em que bolas de madeira parecem rolar ladeira abaixo. No entanto, um ponto de vista diferente revela que o movimento ascendente é apenas uma ilusão e que na realidade as bolas não estão se movimentando.

Nos Estados Unidos, muito se falou sobre como a percepção pode ter afetado as reivindicações da Casa Branca a respeito do tamanho da multidão inaugural. Há a questão do ponto de vantagem de Trump a partir do estrado, o que pode ter influenciado sua percepção sobre números maiores. Mas a assessoria de imprensa do governo tomou outro rumo, argumentando que as fotos aéreas fizeram a multidão de Trump parecer menor do que na vida real, devido ao uso sem precedentes de revestimentos de chão brancos para proteger a grama no Mall.

Considerando que o grande número de pessoas vestidas com roupas escuras de inverno deve ser geralmente mais fácil de analisar contra um fundo branco do que contra um escuro. Sem mencionar o fato de que os revestimentos de assoalho brancos foram usados pela primeira vez em 2013, para a cerimônia da segunda posse de Barak Obama, e ainda estavam no lugar – mas menos visíveis devido à maior multidão – durante a Marcha das Mulheres, no dia seguinte à inauguração.

Em nossa nova era americana de notícias falsas e tristeza pós-verdade, a busca por verdade objetiva e fatos (não alternativos) tornou-se mais crítica do que nunca. Os cientistas e os jornalistas devem unir forças nesse esforço comum e não hesitar em chamar atenção para as falsidades presentes e futuras, seja por erros inocentes ou por tentativas francas de induzir em erro. Considerando que a pós-verdade é uma ilusão – sem base na realidade –, a verdade real é impermeável aos nossos desejos, emoções ou crenças. O método científico nos ensina que só alcançaremos a verdade rejeitando obstinadamente cada pedaço de desinformação que está em nosso caminho. Os relatórios investigativos e a verificação de fatos agressiva serão cruciais para nos levar até lá.

OUTROS OLHARES

LENTES COLORIDAS

Os óculos amarelos (ou vermelhos) ajudam a proteger a retina contra a luz dos equipamentos eletrônicos – mas o melhor mesmo é evitar o uso na hora de dormir.

Lentes coloridas

“Óculos de computador”, “óculos para dormir”, ou óculos bloqueadores da luz azul”. Essas são algumas das promessas de atributos das lentes que têm feito bonito entre celebridades americanas e europeias. No Brasil, a moda também já está chegando para os comuns dos mortais. Nas duas maiores redes de ótica do país, o aumento nas vendas de lentes que filtram a luz azul foi de cerca de 15% em relação ao ano passado. ” Viciada nesses óculos para luz azul”, postou recentemente a blogueira e influenciadora digital Camila Coelho, 30 anos, com 7,4 milhões de seguidores no Instagram. Eles são produzidos, na maioria dos casos, com vidros na cor âmbar (laranja ­ amarelado) ou vermelha.

A boa notícia, para além da estética chamativa: eles funcionam, ao bloquear a luminosidade dos celulares, tablets, computadores e laptops. A luz azul afeta a qualidade do sono. A retina possui células chamadas ganglionares, um tipo de neurônio fotossensível que influi no relógio biológico do organismo – aquele que determina o sono e o estado de alerta. A luz, nesse sistema natural do organismo, entra pelas células ganglionares e age na região cerebral chamada glândula pineal, reduzindo a produção do hormônio do sono, a melatonina. Os neurônios ganglionares são sensíveis a qualquer iluminação – ultravioleta, amarela, verde. Mas, sobretudo, à luz azul.

O azul é, portanto, a principal fonte luminosa responsável por avisar ao corpo que é hora de acordar. Diz o oftalmologista Max Damico, do Hospital Sírio ­ Libanês, em São Paulo: “As pessoas deveriam deixar de lado os aparelhos eletrônicos ao menos duas horas antes de dormir”. Como é hábito difícil de abandonar, deu-se o fenômeno dos óculos coloridos. Estudo publicado na revista Ophthalmic & Physiological Optics mostrou que aqueles que utilizaram as lentes âmbar três horas antes de dormir, ao longo de duas semanas, apresentaram aumento de 58% na produção de melatonina. Dormiram mais rápida e profundamente.

Há, como sempre, boa dose de exagero em relação aos danos provocados pelos equipamentos eletrônicos. É sabido que atrapalham o sono, mas não muito mais que isso. Alguns modelos de lente são vendidos com o apelo de evitar doenças graves, como a degeneração macular. A luz azul emitida por eletrônicos não tem essa capacidade comprovada. “O que pode afetar os olhos, ressecando ­ os, é o ato de olharmos fixamente sem piscar e por muito tempo para esses aparelhos”, diz Paulo Schor, professor de oftalmologia e ciências visuais da Escola Paulista de Medicina. “Ainda assim, é possível evitar o problema, fazendo intervalos na leitura a cada vinte minutos e, durante esse tempo, focando um objeto distante ao longo de vinte segundos.” Trata-se de um bom conselho para quem acha as lentes amarelas e vermelhas feiosas. Com todo o respeito a Brad Pitt.

GESTÃO E CARREIRA

ESPECIALISTA É BOM, GENERALISTA É MELHOR

Quem é fera em uma função fica mais vulnerável no mercado.

Especialista é bom, generalista é melhor

Aquele especialista que domina como ninguém um assunto sempre tem prioridade na hora de uma contratação, certo? Nem sempre, segundo um estudo da Columbia Business School e da Tulane University. Avaliando casos de 400 profissionais recém- graduados, com cursos de MBA, os autores constataram que aqueles com formação mais generalizada recebiam melhores ofertas de trabalho. E ganhavam bônus 36% superiores aos dos especialistas. O melhor desempenho desses profissionais pode ser explicado por uma mudança fundamental no mundo dos negócios: a necessidade de as empresas se adaptarem às constantes evoluções do mercado – algo que pode ser facilitado quando se tem quadros mais versáteis.

Essa conclusão significa uma guinada na tendência verificada nos últimos anos de se exigir um perfil consistente em uma área específica de trabalho. Entrevistas feitas pelos autores com líderes reforçam a percepção: muitos declararam sua preferência por candidatos versáteis e não por especialistas, mais fáceis de serem substituídos. O estudo constatou ainda que o especialista tem mais aversão ao risco, o que o torna menos ousado.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 16: 7-15

Alimento diário

A Conveniência da partida de Cristo. A promessa do Espírito

 

Assim como era usual que os profetas do Antigo Testamento consolassem a igreja, nas suas calamidades, com a promessa do Messias (Isaias 9.6; Miquéias 5.6; Zacarias 3.8), também, tendo vindo o Messias, a promessa do Espírito era o maior estímulo, e ainda o é.

Aqui temos três coisas a respeito da vinda do Consolador:

I – Que a partida de Cristo era absolutamente necessária para a vinda do Consolador, v. 7. Os discípulos se recusavam tão firmemente a crer nisto, que Cristo viu motivos para afirmá-lo com uma solenidade mais do que usual: “Digo-vos a verdade”. Nós podemos confiar na verdade de tudo o que Cristo nos disse. Ele não tem desejos de se aproveitar de nós. Agora, para deixá-los mais tranquilos, aqui Ele lhes diz que:

1. De maneira geral, era conveniente para eles que Ele partisse. Esta era uma doutrina estranha, mas, se era verdadeira, era suficientemente confortável, e lhes mostrava o quanto a tristeza que sentiam era absurda. “Convém”, não somente para mim, mas também para vocês, “que eu vá”. Embora eles não vissem isto, e se recusassem a crer nisto, era verdade. Observe que:

(1) Aquelas coisas que são realmente convenientes para nós sempre nos parecem dolorosas. Particularmente, nossa partida, quando terminarmos nossa jornada nesta terra.

(2) Nosso Senhor Jesus é sempre favorável àquilo que é mais conveniente para nós, quer pensemos assim ou não. Ele não lida conosco de acordo com a loucura de nossa própria escolha, mas graciosamente a rejeita e nos dá o remédio que não estamos dispostos a tomar, porque Ele sabe que ele é bom para nós.

2. Era conveniente porque tinha o objetivo do envio do Espírito. Observe:

(1) Que a partida de Cristo tinha o objetivo da vinda do Consolador.

[1] Isto está expresso de maneira negativa: “Se eu não for, o Consolador não virá”. E por que não? Em primeiro lugar, assim estava decidido nos conselhos divinos a respeito deste assunto, e a medida não devia ser alterada. A terra será abandonada por causa deles? Aquele que dá livremente pode recolher um dom antes que conceda outro, embora desejássemos retê-los a todos, carinhosamente. Em segundo lugar, é suficientemente coerente que o embaixador extraordinário fosse chamado de volta, antes da vinda do enviado, que deveria residir permanentemente. Em terceiro lugar, o envio do Espírito deveria ser o fruto da compra de Cristo, e esta compra seria feita pela sua morte, que envolveria sua partida. Em quarto lugar, seria uma resposta à sua intercessão dentro do véu. Veja cap. 14.16. Desta maneira, este presente deve ser pago pelo Senhor Jesus, e também pedido a Ele, para que possamos aprender a dar-lhe o devido valor. Em quinto lugar, o grande argumento que o Espírito iria utilizar para convencer o mundo seria a ascensão de Cristo ao céu, e sua acolhida aqui. Veja o versículo 10, e também cap. 7.39. Finalmente, os discípulos devem se desacostumar da sua presença física, a qual eles são muito capazes de amar, antes de estarem plenamente preparados para receber os auxílios e os consolos espirituais de uma nova dispensação.

[2] Está expresso de maneira positiva: “Se eu for, enviar-vo-lo-ei”, como se ele tivesse dito: “Confiem que eu proverei de maneira efetiva, de modo que vocês não percam com minha partida”. O Redentor glorificado não deixa de se preocupar com sua igreja na terra, nem irá deixá-la sem os auxílios necessários. Embora Ele parta, Ele envia o Consolador, ou melhor, Ele parte com o propósito de enviá-lo. Desta maneira, embora uma geração de ministros e cristãos parta, outra se ergue em seu lugar, pois Cristo irá sustentar sua própria causa.

(2) Que a presença do Espírito de Cristo na sua igreja é muito melhor, e mais desejável, que sua presença física. Realmente, era conveniente para nós que Ele partisse, para nos enviar o Consolador. Sua presença física poderia estar em um lugar por vez, mas seu Espírito está em toda parte, em todos os lugares, em todos os momentos, sempre que dois ou três estiverem reunidos no seu nome. A presença física de Cristo atrai os olhos dos homens, mas seu Espírito atrai seus corações. A letra mata, mas o Espírito do Senhor vivifica.

 

II – Que a vinda do Espírito era absolutamente necessária para a realização dos interesses de Cristo na terra (v. 8): “E quando ele vier”. Aquele que é enviado deseja vir, e na sua primeira vinda, Ele fará isto, Ele “reprovará”, ou, como na interpretação da margem (versão inglesa KJV), “convencerá o mundo”, pelo seu ministério, no que diz respeito ao pecado, à justiça e ao juízo.

1. Veja aqui qual é a função do Espírito, e com que missão Ele é enviado.

(1) Para reprovar. O Espírito, pela palavra e pela consciência, é um reprovador. Os ministros são reprovadores por ofício, e por intermédio deles, o Espírito reprova.

(2) Para convencer. Este é um termo legal que muitas vezes representa a função do juiz, ao resumir as evidências e definir uma questão que tinha sido debatida durante muito tempo, sob uma luz clara e verdadeira. Ele “convencerá”, isto é, Ele calará os adversários de Cristo e da sua causa, revelando e demonstrando a falsidade e a falácia daquilo que eles sustentam, e a verdade e a certeza daquilo a que eles se opõem. Observe que o trabalho de convencer é o trabalho do Espírito. Ele pode realizá-lo com eficácia, e ninguém pode fazê-lo, exceto Ele. O homem pode abrir a causa, mas somente o Espírito pode abrir o coração. O Espírito é chamado de Consolador (v. 7), e aqui está escrito: Ele “convencerá”. Poderia pensar-se que este era um consolo frio e distante, mas é o método que o Espírito adota, a saber, primeiro convence, e depois consola, primeiro abre a ferida, e depois aplica os remédios curativos. Ou, interpretando a convicção de modo mais genérico, como uma demonstração daquilo que é certo, isto indica que os consolos do Espírito são sólidos e se baseiam na verdade.

[1] Veja quem são aqueles a quem Ele deverá condenar e convencer: o mundo, tanto os judeus quanto os gentios.

(1) Ele dará ao mundo os meios mais poderosos de convicção, pois os apóstolos deverão ir a todo o mundo, respaldados pelo Espírito, para pregar o Evangelho, que é completa mente comprovado.

(2) Ele irá prover de modo suficiente para o silêncio e a remoção das objeções e preconceitos do mundo contra o Evangelho. Muitos infiéis são convencidos por todos, e julgados por todos, 1 Coríntios 14.24.

(3) Ele irá convencer a muitos no mundo, de maneira efetiva e salvadora, muitos de todas as épocas, em todos os lugares, para sua conversão à fé de Cristo. Era um incentivo para os discípulos, em referência às dificuldades que eles provavelmente iriam encontrar:

[1] Que eles veriam o bem sendo feito, a queda do reino de Satanás como um relâmpago, o que seria sua alegria, assim como era a dele. Mesmo neste mundo maligno, o Espírito irá operar. E a convicção dos pecadores é o consolo dos ministros fiéis.

[2] Que isto seria o fruto dos seus serviços e sofrimentos, que iriam contribuir muito para esta boa obra.

2. Veja do que o Espírito irá convencer o mundo.

(1) “Do pecado, porque não creem em mim” (v. 9).

[1] O Espírito é enviado para convencer os pecadores do pecado, e não simplesmente falar-lhes sobre ele. Na convicção, há mais do que isto. É provar-lhes, e forçá-los a reconhecer, assim como aqueles (cap. 8.9) que foram convencidos pelas suas próprias consciências. Fazê-los conhecer suas abominações. O Espírito convence da realidade do pecado, de que fizemos isto e aquilo; da falha no pecado, de que fizemos mal em fazer isto e aquilo; da tolice do pecado, de que agimos contra a razão e contra nossos verdadeiros interesses; da sujeira do pecado, de que por ele nos tornamos odiosos a Deus; da fonte do pecado, a natureza corrupta; e, por fim, do fruto do pecado, cujo fim é a morte. O Espírito demonstra a depravação e a degeneração de todo o mundo, pelas quais todo o mundo é culpado diante de Deus.

[2] Ao convencer o Espírito se prende especialmente ao pecado da incredulidade, que consiste no fato de não se crer em Cristo. Em primeiro lugar, por este ser um grande pecado dominante. Havia, e há, muitas pessoas que não creem em Jesus Cristo, e elas não se dão conta de que este é seu pecado. A consciência natural lhes diz que matar e roubar são pecados. Mas é a obra sobrenatural do Espírito convencê-las de que há um pecado em não crer no Evangelho, e rejeitar a salvação que ele oferece. A religião natural, depois que nos fornece suas melhores revelações e orientações, estabelece e nos deixa sob esta obrigação adicional, que, a qualquer revelação divina que nos seja feita, a qualquer tempo, com evidências suficientes que provem sua origem divina, nós devemos aceitar e sujeitar-nos. Transgridem esta lei aqueles que, quando Deus nos fala por intermédio do seu Filho, rejeitam aquele que fala, e, por isto, é pecado. Em segundo lugar, por este ser um grande peca­ do destruidor. Todo pecado é destruidor em sua própria natureza. Porém, nenhum pecado pode destruir aqueles que creem em Cristo e se mantêm em santificação. De modo que é a incredulidade que destrói os pecadores. É por esta causa que eles não podem entrar no repouso, que não podem escapar à ira de Deus. Este pecado combate contra o remédio. Em terceiro lugar, por este ser um pecado que está no fundo de todo pecado. O Espírito irá convencer o mundo de que a verdadeira razão pela qual o pecado reina sobre eles consiste no fato de que eles não estão unidos a Cristo pela fé. Não devemos supor que, separados de Cristo, tenhamos sequer uma gota de retidão.

(2) “Da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais”, v. 10. Nós podemos interpretar isto:

[1] Como a justiça pessoal de Cristo. Ele convencerá o mundo de que Jesus de Nazaré era Cristo, o Justo (1 João 2.1), assim como o centurião reconheceu (Lucas 23.47): “Na verdade, este homem era justo”. Os inimigos de Jesus lhe atribuíam as piores características, e as multidões não se convenciam, ou não queriam se convencer, de que Ele não era um homem mau, o que fortalecia seus preconceitos contra sua doutrina. Mas Ele é justificado pelo Espírito (1 Timóteo 3.16), Ele prova ser um homem justo, e não um enganador. E então o ponto é realmente ganho, pois Ele é o grande Redentor ou a grande trapaça. Mas uma trapaça, nós temos certeza de que Ele não é. Agora, por qual meio ou argumento o Espírito irá convencer os homens da sinceridade do Senhor Jesus? Em primeiro lugar, o fato de que eles não mais o verão irá contribuir, de certa maneira, para a remoção dos seus preconceitos. Eles não mais o verão na semelhança da carne pecadora, na forma de um servo, que fez com que eles o desprezassem. Moisés foi mais respeitado depois de ser removido do que antes. Mas, em segundo lugar, sua ida ao Pai traria uma convicção completa disto. A vinda do Espírito, segundo a promessa, era uma prova da exaltação de Cristo à direita de Deus (Atos 2.33), e uma demonstração da sua justiça, pois o santo Deus nunca colocaria um enganador à sua direita.

[2] Como a justiça de Cristo transmitida a nós, para nossa justificação e salvação, que é a justiça eterna que o Messias devia trazer, Daniel 9.24. Veja que, em primeiro lugar, o Espírito irá convencer os homens desta justiça. Tendo, pela convicção do pecado, lhes mostrado a necessidade que tinham de justiça, para que isto não os levasse ao desespero, Ele irá lhes mostrar onde ela pode ser encontrada, e como eles podem, se crerem, ser absolvidos da culpa e ser aceitos como justificados, diante de Deus. Era difícil convencer desta justiça àqueles que tentavam estabelecer a sua própria (Romanos 10.3), mas o Espírito o fará. Em segundo lugar, a ascensão de Cristo é o grande argumento apropriado para convencer os homens desta justiça: Eu “vou para meu Pai”, e, como evidência de que serei bem recebido junto a Ele, “não me vereis mais”. Se Cristo tivesse deixado alguma parte da sua missão inacabada, Ele teria sido enviado de volta. Mas agora que temos a certeza de que Ele está à direita de Deus, temos a certeza de que somos justificados por meio dele.

(3) “Do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado”, v.11. Observe aqui:

[1] O Diabo, o príncipe deste mundo, foi julgado, foi considerado como um grande enganador e destruidor, e, como tal, recebeu julgamento e a execução foi realizada, em parte. Ele foi expulso do mundo gentílico quando seus oráculos foram silenciados, e seus altares, abandonados. Foi expulso do corpo de muitos, em nome de Cristo, cujo poder milagroso continua na igreja. Ele foi expulso das almas das pessoas, pela graça de Deus, através da operação do Evangelho de Cristo. Ele caiu como um relâmpago do céu.

[2] Este é um bom argumento, com o qual o Espírito convence o mundo do juízo, isto é, em primeiro lugar, da santidade e santificação inerentes, Mateus 12.18. Pelo juízo do príncipe deste mundo, fica evidente que Cristo é mais forte que Satanás, e pode desarmá-lo e destituí-lo, e estabelecer seu trono sobre a ruína do dele. Em segundo lugar, de uma nova e melhor dispensação das coisas. Ele irá mostrar que a missão de Cristo no mundo foi a de estabelecer as coisas para endireitá-lo, e dar início aos tempos de transformação e regeneração. E Ele prova isto com o fato de que o príncipe deste mundo, o grande mestre do desgoverno, é julgado e expulso. Tudo estará bem quando for quebrado o poder daquele que fazia tantas maldades. Em terceiro lugar, do poder e do domínio do Senhor Jesus. Ele convencerá o mundo de que todo o juízo é dado ao Senhor Jesus, e que Ele é o Senhor de tudo e de todos. A evidência disto é que Ele julgou o príncipe deste mundo, feriu a cabeça da serpente, destruiu aquele que tinha o poder da morte, e despojou os principados. Se Satanás foi dominado desta maneira por Cristo, nós podemos ter a certeza de que nenhum outro poder pode se erguer diante dele. Em quarto lugar, do dia do juízo final: todos os inimigos obstinados do Evangelho e do reino de Cristo certamente receberão, por fim, seu tratamento, pois o Diabo, seu cabeça, será julgado.

 

III – Que a vinda do Espírito seria de um benefício indescritível para os próprios discípulos. O Espírito tem trabalho para realizar, não somente sobre os inimigos de Cristo, para convencê-los e humilhá-los, mas também sobre seus servos e agentes, para instruí-los e consolá-los. E por isto era conveniente para eles que Ele partisse.

1. O Senhor lhes indica a terna percepção que tinha da sua debilidade em sua condição humana (v.12): ”Ainda tenho muito que vos dizer” (não que tais palavras devessem ter sido ditas, mas que Ele poderia e desejaria tê-las dito), “mas vós não o podeis suportar agora”. Veja que professor maravilhoso é Cristo.

(1) Não há ninguém como Ele, em termos de abundância de informações. Quando já tinha dito muito, Ele ainda tinha muitas outras coisas para dizer. Os tesouros da sabedoria e do conhecimento ficam escondidos nele, se nós não os buscarmos.

(2) Não há ninguém como Ele, inclusive em termos de compaixão. Ele lhes teria dito mais sobre as coisas pertencentes ao reino de Deus, particularmente sobre a rejeição dos judeus e o chamado dos gentios, mas eles não podiam suportá-lo, isto os teria confundido e embaraçado, e não lhes traria qualquer satisfação. Quando, depois da sua ressurreição, eles lhe falaram sobre a restauração do reino de Israel, o Senhor lembrou-lhes da vinda do Espírito Santo, pelo qual eles receberiam poder para suportar estas revelações, que eram tão contrárias às noções que eles tinham recebido, e que não poderiam suportar agora.

2. Ele lhes assegura auxílios suficientes, através do derramamento do Espírito. Eles estavam agora conscientes da sua grande ignorância, e dos seus muitos enganos. E o que será deles, agora que seu Mestre os está deixando? “Mas quando Ele, o Espírito de Verdade, vier, vocês ficarão tranquilos, e tudo ficará bem”. Realmente bem. Pois Ele se encarregará de guiar os apóstolos e de glorificar a Cristo.

(1) Guiar os apóstolos. Ele irá cuidar:

[1] Para que eles não percam seu caminho: Ele vos guiará, como o acampamento de Israel foi guiado, pelo deserto, pela coluna de nuvem e fogo. O Espírito guiaria suas línguas ao falar, e suas penas, ao escrever, para evitar que cometessem enganos. O Espírito nos é dado para ser nosso guia (Romanos 8.14), não somente para nos mostrar o caminho, mas para seguir conosco, pelos seus auxílios e influências constantes.

[2] Para que eles não deixem de alcançar seu objetivo: Ele os guiará em toda a verdade, como o piloto hábil guia o navio ao porto ao qual se destina. Ser guiado na verdade é mais do que simplesmente conhecê-la. É estar intimamente e experimentalmente familiarizado com ela. É estar piedosamente e vigorosamente afetado por ela. Não somente ter sua noção em nossas mentes, mas também seu sentimento nos nossos corações. Isto indica um descobrimento gradual da verdade, que brilha cada vez mais: “Ele os guiará por aquelas verdades que são claras e fáceis, em direção àquelas que são mais difíceis”. Mas, como em toda a verdade? O significado é:

Em primeiro lugar, em toda a verdade relativa à sua missão. Eles seriam plenamente instruídos sobre qual­ quer coisa que fosse necessário, ou útil, que eles soubessem, para desempenharem devidamente seu trabalho. O Espírito lhes ensinaria as verdades que eles deveriam ensinar aos outros, lhes daria o entendimento de tais verdades, e os capacitaria para explicá-las e defendê-las.

Em segundo lugar, em nada, exceto a verdade. Tudo aquilo em que Ele os guiar será a verdade (1 João 2.27). A unção é verdadeira. Nas palavras seguintes, Ele prova estas duas coisas:

1. “O Espírito não lhes ensinará nada, exceto a verdade, pois Ele não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e que souber que é a vontade do Pai, e Ele só falará isto”. Isto sugere:

(1) Que o testemunho do Espírito, na palavra e pelos apóstolos, é aquilo em que podemos confiar. O Espírito conhece e sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus, e os apóstolos receberam este Espírito (1 Coríntios 2.10,11), de modo que podemos aventurar nossas almas na palavra do Espírito.

(2) Que o testemunho do Espírito sempre está de acordo com a palavra de Cristo, pois Ele não fala de si mesmo, não tem interesses ou intenções próprias, mas, tanto na essência quanto nos antecedentes, Ele é um só com o Pai e o Filho, 1 João 5.7. A palavra e o espírito dos homens frequentemente estão em desacordo, mas com a Palavra Eterna e o Espírito Eterno, isto nunca acontece.

2. “Ele lhes ensinará toda a verdade, e não reterá nada que seja proveitoso a vocês, pois Ele lhes anunciará o que há de vir”. O Espírito era, nos apóstolos, um Espírito de profecia. Tinha sido predito que Ele o seria (Joel 2.28), e Ele realmente o era. O Espírito lhes mostraria as coisas futuras, conforme Atos 11.28; 20.23; 21.11. O Espírito falou da apostasia dos últimos tempos, 1 Timóteo 4.1. João, quando estava no Espírito, recebeu coisas que lhe foram mostradas em visões. Isto era uma grande satisfação para suas próprias mentes, e muito útil para eles na sua conduta, e também era uma grande confirmação da sua missão. Jansênio faz uma observação piedosa sobre isto: “Nós não devemos reclamar pelo fato de o Espírito não nos mostrar tantas coisas futuras neste mundo, como fez com os apóstolos. Deve ser suficiente para nós o fato de que o Espírito nos mostrou as coisas que virão no outro mundo, que são nosso principal interesse”.

(2) O Espírito se encarregou de glorificar a Cristo, vv. 14,15.

[1] Até mesmo o envio do Espírito era uma glorificação a Cristo. Deus, o Pai, o glorificou no céu, e o Espírito o glorificou na terra. Era a honra do Redentor o fato de que o Espírito fosse enviado em seu nome e também na sua missão, para dar prosseguimento à sua tarefa, e aperfeiçoá-la. Todos os dons e graças do Espírito, toda a pregação e todos os textos escritos pelos apóstolos, sob a influência do Espírito, as línguas e milagres, são maravilhas que glorificam a Cristo.

[2] O Espírito glorificou a Cristo conduzindo seus seguidores na verdade, como ela está em Jesus, Efésios 4.21. Ele lhes garante, em primeiro lugar, que o Espírito lhes transmitiria as coisas de Cristo: Ele “há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar”. Assim como, em essência, o Espírito procedia do Filho, Ele também derivava dele em influência e operação. Ele terá daquilo que é meu. Tudo o que o Espírito nos mostra, isto é, nos dá para nossa instrução e consolo, tudo o que Ele nos dá para nosso fortalecimento e vivificação, e tudo o que Ele nos garante e sela, tudo pertence a Cristo, e foi recebido dele. Tudo é dele, pois Ele o comprou, e pagou caro por isto, e, portanto, Ele tinha motivos para chamar de seu. Seu, pois Ele o recebeu primeiro. Foi dado a Ele, como o cabeça da igreja, para ser transmitido por Ele a todos os seus membros. O Espírito não veio para edificar um novo reino, mas para promover e estabelecer o mesmo reino que Cristo tinha edificado, para manter o mesmo interesse e procurar o mesmo desígnio. Portanto, aqueles que aspiram ao Espírito e difamam a Cristo, se contradizem e desmentem, pois Ele veio para glorificar a Cristo. Em segundo lugar, que assim as coisas de Deus deveriam nos ser transmitidas. Para que ninguém se esquecesse de que o recebimento de tão grande bênção lhe tornaria muito mais rico, o Senhor acrescenta: “Tudo quanto o Pai tem é meu”. Como Deus, Ele tem toda aquela luz auto- existente e toda aquela felicidade auto- suficiente que o Pai tem. Como Mediador, todas as coisas lhe são entregues pelo Pai (Mateus 11.27). Toda aquela graça e verdade que Deus, o Pai, desejava nos mostrar, Ele colocou nas mãos do Senhor Jesus, Colossenses 1.19. As bênçãos espirituais nas coisas celestiais são dadas pelo Pai ao Filho, para nós, e o Filho encarrega o Espírito de transmiti-las a nós. Alguns relacionam isto ao que foi dito há pouco: Ele “vos anunciará o que há de vir”, e assim está explicado por Apocalipse 1.1. Deus, o Pai, deu tudo a Cristo, e Ele o anunciou a João, que, por sua vez, escreveu o que o Espírito disse, Apocalipse 1.1.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

BATIMENTOS CARDÍACOS PODEM ENGANAR PERCEPÇÕES

Pessoas muito sensíveis a seus estados internos, como a consciência da pulsação do próprio sangue, tendem a ser mais propensas a transtornos de ansiedade e pânico.

Batimentos cardíacos podem enganar percepções

Você sente seu coração batendo? A maior parte das pessoas não consegue, a menos que estejam agitadas ou com medo. Isso ocorre porque, em condições normais, o cérebro disfarça essa percepção para garantir um equilíbrio delicado e necessário: precisamos ser capazes de sentir o músculo cardíaco disparar ocasionalmente para reconhecer o medo ou a excitação. Porém, perceber o ritmo constante na maior parte do tempo nos distrairia demais ou até nos enlouqueceria. Atualmente, várias pesquisas sugerem, no entanto, que, devido à forma como o cérebro compensa (e disfarça) nossos batimentos, ele poderia estar vulnerável a ilusões sensoriais.

Cientistas de uma equipe do Instituto de Tecnologia Federal Suíço, em Lausanne, conduziram uma série de estudos com 143 participantes e constataram que os voluntários levavam mais tempo para identificar um objeto que “aparecia e sumia” quando surgia em sincronia com seus batimentos cardíacos. Utilizando uma ressonância magnética funcional, os especialistas notaram também que a atividade na ínsula, uma área cerebral associada à autopercepção, era suprimida quando as pessoas viam essas imagens sincronizadas.

Os pesquisadores que conduziram o estudo, publicado em maio de 2016 no Journal of Neuroscience, sugerem que o objeto era suprimido pelo cérebro, pois se “misturava” com todas as outras alterações do corpo que ocorrem com cada batimento cardíaco, das quais não nos damos conta: os olhos fazem movimentos minúsculos, a pressão ocular muda ligeiramente, o tórax se expande e se contrai. “O cérebro ‘sabe’ que o batimento é proveniente da própria pessoa, por isso é como se não se incomodasse com as consequências sensoriais desses sinais”, diz Roy Salomon, um dos a tores do estudo.

Outra pesquisa já havia mostrado que as pessoas percebem mais prontamente que um órgão ou membro de realidade virtual é realmente o seu próprio quando surge junto a um estímulo que “aparece e some” em sincronia com seus batimentos cardíacos. Na extremidade oposta do espectro estão resultados de estudos que revelam que as sensações cardíacas podem intensificar o processo de identificação de ameaças. Indivíduos detectam com mais facilidade imagens assustadoras que aparecem ao mesmo tempo que os batimentos cardíacos e as consideram mais intensas. Talvez em razão de um batimento cardíaco perceptível estar frequentemente associado ao medo e à ansiedade, o cérebro tende a confundir o estímulo sincronizado, como se estivesse associado à reação de estresse que nos impulsiona a lutar ou fugir. A descoberta ajuda a explicar por que as pessoas muito sensíveis a seus estados internos, incluindo a consciência de seus bati- mentos cardíacos, tendem a ser mais propensas a transtornos de ansiedade e pânico. Para a maioria de nós, porém, o coração continua sua labuta sem ser notado – e pode ser que as peculiaridades perceptuais relacionadas também não estejam sendo notadas.

Batimentos cardíacos podem enganar percepções.2

OUTROS OLHARES

TEMPO NOS GAMES: UMA QUESTÃO SOCIAL

Violência urbana, divórcios em escala e a falta de monitoramento sobre o comportamento dos adolescentes contribuem para o aumento do engajamento deles em jogos eletrônicos.

Tempo nos games - uma questão social

Em 2016, o mercado de games faturou mais de 99 bilhões de dólares. Atualmente, a indústria de jogos eletrônicos é terceira maior do mundo, perdendo em faturamento apenas para os segmentos bélico e automobilístico. Consumidores adolescentes são maioria, comparados com outros grupos etários. A preocupação maior desse grupo, comumente, é sobre o uso exagerado e aspectos associados à dependência do jogo. O consumo pode ser tão intenso que o jogador abre mão do convívio social para permanecer jogando. Em casos extremos, isso pode virar um transtorno, trazendo muitos prejuízos para o jogador e também para a família. Estudos sugerem que características psicológicas (por exemplo, extroversão, introversão), características sociodemográficas e relacionamento proximal familiar são variáveis que influenciam fortemente o tempo investido em um jogo eletrônico. Sabe-se, por exemplo, que a qualidade da relação entre pai e filho é inversamente proporcional ao tempo dedicado aos games. Dito de outro modo, quanto melhor é a relação estabelecida entre pais e filho, menor é o número de horas jogadas.

No entanto, em recente estudo publicado por pesquisadores da Universidade Nacional de Incheon, na Coreia do Norte, investigou outras variáveis até então não estudadas. Os cientistas utilizaram uma perspectiva sociológica para estudar o fenômeno, chamando atenção sobre como a organização e a estrutura da comunidade em torno do jogador podem influenciar o tempo despendido nos jogos pelos adolescentes. Por exemplo, jogadores residentes em bairros percebidos como menos seguros e pobres, e que expressam um desejo menor de continuarem vivendo ali, investem mais horas em jogos eletrônicos. Outra característica importante estudada foi a emigração e imigração de pessoas nas comunidades norte-americanas. Quanto maior é o entra e sai de pessoas em uma dada comunidade, maior é a probabilidade de os adolescentes jogarem por mais tempo. Sabiamente, os pesquisadores relacionaram essa taxa de movimentação comunitária com a taxa de divórcios – uma vez que essa é uma das causas principais da saída de um dos pais uma comunidade. O resultado não podia ser diferente: constatou-se que os adolescentes tendem a jogar um maior número de horas em regiões com maiores taxas de divórcio. A separação dos pais diminui a força de monitoramento e supervisão sobre o comportamento dos adolescentes.

A proporção de famílias monoparentais é uma das características estruturais que enfraquece a rede social local, pois segundo os pesquisadores norte-coreanos, pais solteiros não investem tempo e energia suficientes para participar da comunidade local – diminuindo a supervisão coletiva, realizada, inclusive pela vizinhança.

Nesse aspecto, é importante refletirmos sobre o efeito da maneira que nos organizamos socialmente nas grandes cidades. Uma lista aérea das regiões da cidade de São Paulo, por exemplo, sugere um verdadeiro paliteiro de construções desconexas. No final dos anos 1970, a cidade cresceu para todos os lados, sobretudo paro cima, mergulhando de cabeça no mercado multimilionário de condomínios. Diante do crescimento da violência urbana, as pessoas identificaram vantagens e se refugiaram no alto das torres – uma espécie de fortaleza protegida por muros, sem acesso à rua, crianças e adolescentes têm cada vez menos contato com outras pessoas de sua idade e perdem oportunidades importantes para se engajar em brincadeiras extremamente importantes para o desenvolvimento. É brincando que se desenvolvem emoções e   conhecimentos que serão necessários na fase adulta. Dentro das residências, os filhos trabalham apenas o “ego” e passam a lidar com sentimentos como frustração, empatia e solidariedade de uma forma mais automatizada e centrada no seu próprio ego. Por exemplo, não gostou, desliga a TV e o videogame. O mundo passa a ser observado como uma sequência de telas que podem ser detectadas, desfeitas ou até mesmo bloqueadas por meio do touch em uma tela.

Como se não bastasse isso, a taxa de divórcios cresce e, com os pais separados um do outro, a força de monitoramento sobre o comportamento dos adolescentes fica arrefecida, contribuindo para o aumento do engajamento dele em jogos eletrônicos. Uma das soluções propostas pelos autores da pesquisa é investir em programas de assistência social tanto para jovens como para os pais. Ampliar o leque de opções para diversão e entretenimento em espaços públicos. Aumentar a segurança social é outra proposta apresentada. Não há dúvida que esses pontos são essenciais, mas eles dependem bastante de investimentos governamentais e decisões que necessariamente não estão sob o nosso controle.

Então, o que fazer? Esperar o mundo mudar ou provocar pequenas mudanças na forma que agimos? Não há dúvida de que a segunda opção seja possível e a mais adequada, Mesmo com as demandas de uma vida atribulada, os pais podem criar regras para os filhos e também investir tempo em entender o mundo deles. O jantar, com certeza fica mais prazeroso se ao invés da conversa à mesa ser de cobrança de por que o filho não larga o videogame, ela passe a focar no que o jovem ou a criança acham sobre o conteúdo de alguns jogos, quais as suas sensações e percepções acerca das horas que passam ausente desse jogo e quais seus desejos como pessoa. Muitos pais podem ser surpreendidos com as respostas deles.

Tempo nos games - uma questão social.2

TIAGO B. EIGÊNIO – é mestre em Psicologia e Estudos do Comportamento Humano. É designer de aprendizagens na Rhyzos Educação e escreve sobre educação, tecnologias e Neurociências.

E-mail: tiagoeugenio20@gmail.com

Site: www.tiagoeugenio.com.br

GESTÃO E CARREIRA

A SÍNDROME DO SUCESSO

Trabalho colaborativo sobrecarrega os profissionais mais talentosos.

A síndrome do sucesso

A onda do trabalho colaborativo tomou conta das empresas na última década – graças aos e-mails, às videoconferências e aos aplicativos de smartphones. Colegas trocam figurinhas o tempo todo sobre as tarefas a resolver, mesmo que estejam em continentes e fusos horários diferentes. Embora exaltado como símbolo dos novos tempos, esse fenômeno está fazendo uma vítima: aquele funcionário mais capacitado e criativo, que passa a ser bombardeado com dúvidas e solicitações alheias, sendo impedido, em consequência, de trabalhar com calma e produzir mais. Por conta da pressão, ele acaba, muitas vezes, deixando a empresa. É o que um estudo publicado pela Harvard Business Review qualifica de “síndrome do sucesso”: quanto mais talentoso o profissional, mais tarefas sobram para ele.

Examinando empresas da lista da Fortune 500, os autores constataram uma tendência crescente nas empresas: a adoção de sistemas duplos de gestão. Traduzindo: os funcionários passaram a responder a dois chefes – uma necessidade surgida da complexidade cada vez maior das tarefas exigidas. É mais uma manifestação do tal trabalho cooperativo que, novamente, acaba colocando mais peso sobre os ombros dos talentosos – não bastasse a solicitação dos colegas, eles agora têm de se reportar a dois superiores. O curioso é que muitos líderes se confessavam surpresos com a queda de produtividade de seus talentos – até se darem conta de que eles estavam recebendo solicitações de todos os lados. Os autores sugerem que as empresas estabeleçam limites ao trabalho colaborativo, poupando os mais capazes de desvios de função.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 16: 1-6

Alimento diário

A Perseguição é predita. A conveniência da partida de Cristo

 

I – Cristo lida fielmente com seus discípulos quando os envia nas suas missões, pois lhes contou o pior para que pudessem se sentar e considerar o custo. Ele lhes tinha dito, no capítulo anteri01 que esperasse m o ódio do mundo. Agora aqui, nestes versículos:

1. Ele lhes dá um motivo pelo qual os alarmou, desta forma, com a expectativa de problemas: “Tenho-vos dito essas coisas para que vos não escandalizeis”, v. 1. 1. Os discípulos de Cristo podem se escandalizar com a cruz, e o escândalo da cruz é uma tentação perigosa, até mesmo para os bons homens, que os tenta a voltar as costas para os caminhos de Deus, ou para se afastar deles, ou para prosseguir pesadamente neles; para deixar, ou sua integridade, ou seu conforto. Não é por acaso que uma ocasião de sofrimento é chamada de “hora da tentação”.

2. Nosso Senhor Jesus, ao nos avisar sobre os problemas, pretendia remover o terror, para que eles não fossem uma surpresa para nós. De todos os adversários da nossa paz, neste mundo de dificuldades, nenhum nos insulta mais violentamente, nem nos deixa mais em desordem, do que os desapontamentos. Mas nós podemos receber facilmente um visitante que esperamos, e estando precavidos, estaremos armados com antecedência.

 

II – Ele prediz particularmente o que eles iriam sofrer (v. 2): “Os que detêm o poder, ‘expulsar-vos-ão das sinagogas’. E isto não é o pior, eles os matarão”. Eis que há duas espadas sacadas contra os seguidores do Senhor Jesus.

1. A espada da reprovação eclesiástica. Ela é sacada, contra eles, pelos judeus, pois eles eram os únicos pretendentes ao poder da igreja. Eles “expulsar-vos-ão das sinagogas”, eles irão excomungá-los.

(1) “Eles irão expulsá-los das sinagogas das quais vocês são membros”. A princípio, eles os açoitaram nas suas sinagogas, por serem pessoas que desprezavam a lei (Mateus 10.17), e no final, os expulsaram, por serem incorrigíveis.

(2) “Eles irão expulsá-los da congregação de Israel em geral, a igreja nacional dos judeus. Irão negar-lhes os privilégios desta igreja, e os colocarão na condição de criminosos”, golpeados na cabeça, como outro lobo. Eles os considerarão como samaritanos, como homens pagãos e publicanos. Eu proíbo a você o uso de água e fogo. E, se não fosse pelas punições, confiscas e anulações, que ocorreram consequentemente, não seria nenhuma ofensa ser expulso, desta maneira, de uma casa infectada e decadente. Observe que sempre foi o destino dos discípulos de Cristo serem injustamente excomungados. Muitas boas verdades foram consideradas anátemas, e muitos filhos de Deus foram entregues a Satanás.

2. A espada do poder civil: “A ocasião é chegada, a hora é chegada. Agora, provavelmente, as coisas serão piores para vocês do que têm sido até agora. Quando vocês forem expulsos como hereges, eles os matarão, e pensarão estar fazendo um serviço a Deus, e muitos outros pensarão a mesma coisa”.

(1) Vocês perceberão que eles são realmente cruéis: eles os matarão. As ovelhas de Cristo eram consideradas como ovelhas para o matadouro. Os doze apóstolos (nós sabemos) foram todos mortos, exceto João. Cristo tinha dito (cap. 15.27): “Vós… testificareis”, vós sereis mártires, selareis a verdade com vosso sangue, o sangue do vosso coração.

(2) Vocês perceberão que eles são, aparentemente, conscienciosos. Eles julgarão fazer um serviço a Deus. Eles parecerão oferecer um bom sacrifício a Deus. Assim como aqueles que expulsavam os servos de Deus antigamente, e diziam: “O Senhor seja glorificado”, Isaías 66.5. Observe:

[1] É possível que aqueles que são verdadeiros inimigos do serviço a Deus finjam ter um zelo vigoroso por ele. A obra do Diabo, muitas vezes, foi feita usando o uniforme de Deus, e um dos mais perversos inimigos que o cristianismo jamais teve esteve no templo de Deus. Na verdade:

[2] É comum tratar com condescendência a um inimigo do Evangelho, sob o pretexto de um dever para com Deus, e um serviço à sua igreja. O povo de Deus sofreu as maiores aflições por parte de perseguidores conscienciosos. Paulo realmente pensava que tinha que fazer o que fez, contra o nome de Jesus. Isto não diminui, em nada, o pecado dos perseguidores, pois as vilanias nunca serão consagradas, ainda que lhes seja atribuído o nome de Deus. Mas acentua os sofrimentos dos perseguidos o fato de que morram considerados inimigos de Deus. Porém, no grande dia, haverá uma ressurreição pessoal e individual, que incluirá nomes e corpos.

 

III – Ele lhes dá a verdadeira razão da inimizade e da ira do mundo contra eles (v. 3): “Isso vos farão’’, não porque vós lhes tendes feito qualquer mal, mas ‘porque não conheceram ao Pai nem a mim’. Que o fato de que ninguém será inimigo de vocês, exceto os piores homens, possa consolar vocês”. Observe:

1. Muitos que fingem conhecer a Deus são desgraçadamente ignorantes sobre Ele. Aqueles que fingem servir a Deus pensam que o conhecem, mas, na verdade, têm uma noção errada a respeito dele. Israel traspassou o concerto, e ainda clamou: “Deus meu! Nós, Israel, te conhecemos”, Oséias 8.1,2.

2. Aqueles que são ignorantes a respeito de Cristo não podem ter nenhum conhecimento correto a respeito de Deus. Em vão, os homens fingem conhecer a Deus e ao Evangelho, enquanto desprezam a Cristo e ao cristianismo.

3. São realmente muito ignorantes a respeito de Deus e de Cristo aqueles que julgam que a perseguição das pessoas boas seja um serviço aceitável à Divindade. Aqueles que conhecem a Cristo sabem que Ele “não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las”; que Ele governa pelo poder da verdade e do amor, e não do fogo e da espada. Não há igreja tão perseguidora como aquela que faz da ignorância a mãe da devoção.

 

IV – Ele lhes diz por que lhes deu este aviso agora, e por que não o fez antes.

1. Ele lhes diz isto agora (v. 4), não para desencorajá-los, ou aumentar seu sofrimento atual. Também não lhes falou do perigo que corriam para que pudessem planejar como evitá-lo, mas para que, quando chegasse “aquela hora” (e podem ter a certeza de que ela chegaria), eles se lembrassem de que o Senhor já lhes tinha falado sobre ela. Observe que, quando chega a hora do sofrimento, é útil que nos lembremos daquilo que Cristo nos disse sobre este.

(1) Ele lhes diz isto agora para que nossa fé na previsão e na fidelidade de Cristo possa ser confirmada. E:

(2) Para que as dificuldades possam ser menos dolorosas, pois já nos foi falado sobre elas anteriormente, e para que nos dediquemos à nossa profissão de fé na expectativa delas, de modo que elas não sejam uma surpresa, nem sejam interpretadas como um mal que nos é feito. Assim como Cristo, nos seus sofrimentos, também seus seguidores, nos seus sofrimentos, objetivam o cumprimento das Escrituras.

2. Por que Ele não lhes contou isto antes: “Eu não vos disse isso desde o princípio”, quando nos conhecemos, “porque estava convosco”.

(1) Enquanto estava com eles, Ele suportava o choque da maldade do mundo, e permanecia na linha de frente da batalha. Contra Ele, os poderes das trevas apontaram toda a sua força, não contra pequenos ou grandes, mas somente contra o rei de Israel. Ele não tinha necessidade de falar tanto aos discípulos sobre os sofrimentos, porque eles não tinham grande participação neles. Mas descobrimos que, desde o princípio, Ele lhes pedia que se preparassem para os sofrimentos. E, portanto:

(2) Isto parece indicar a promessa de “outro consolador”. Ele tinha lhes falado pouco sobre isto no início, porque Ele mesmo estava com eles, para instruí-los, orientá-los e consolá-los, e então não precisavam da promessa da presença extraordinária do Espírito. Os filhos da câmara nupcial não têm tanta necessidade de um consolador, até que o esposo seja retirado.

 

V – Jesus expressa uma preocupação muito afetuosa com a atual tristeza dos seus discípulos, por causa do que Ele lhes tinha dito (vv. 5,6): “Agora Eu não devo mais ficar convosco, mas devo seguir meu caminho em direção ‘àquele que me enviou’, para repousar ali, depois desta fadiga. ‘E nenhum de vós me pergunta’, com alguma coragem: ‘Para onde vais?’ Mas, em vez de procurar o que poderia consolar-vos, vós vos aprofundais no que parece melancólico, e o ‘vosso coração se encheu de tristeza”‘.

1. Ele lhes tinha dito que estava prestes a deixá-los: ”Agora, vou”. Ele não era afastado pela força, mas partia voluntariamente. Sua vida não era extraída dele, mas entregue por Ele. Ele foi para aquele que o enviou, para prestar contas da sua obra. Assim, quando nós partirmos deste mundo, nós iremos para aquele que nos enviou a ele, e isto deveria nos fazer, a todos, interessados em viver com bons objetivos, lembrando que temos uma tarefa que nos foi confiada, que deve ser desempenhada até um dia determinado.

2. Ele lhes tinha advertido sobre as dificuldades que sofreriam quando Ele tivesse partido, e que não deveriam esperar uma vida tão tranquila como a que tinham tido. Consequentemente, se este era o legado que Ele tinha para deixar a eles, que tinham deixado tudo por Ele, eles seriam tentados a pensar que tinham feito um mau negócio, e estavam, nesta ocasião, em consternação, em razão do que seu Mestre se solidariza com eles, mas ainda assim os repreende:

(1) Porque eles não se preocuparam com o consolo, e não se mobilizaram para procurá-lo: “Nenhum de vós me pergunta: Para onde vais?” Pedro tinha feito esta pergunta (cap. 13.36), e Tomé a tinha repetido (cap. 14.5), mas eles não perseveraram, eles não prestaram atenção à resposta. Eles estavam no escuro, no que dizia respeito a ela, e não investigaram nem procuraram um esclarecimento mais completo. Eles não continuaram a procurar, não continuaram batendo. Veja que Mestre misericordioso é Cristo, e corno Ele é condescendente com os fracos e ignorantes. Muitos professores não toleram que o aprendiz faça a mesma pergunta duas vezes. Se ele não consegue entender algo rapidamente, que continue sem entendê-lo. Mas nosso Senhor Jesus sabe corno lidar com as crianças, que devem ser ensinadas “mandamento sobre mandamento”. Se os discípulos aqui tivessem percebido que a partida de Jesus visava o progresso do seu Evangelho (Pois, por que seriam eles contra este progresso?) e o próprio progresso deles, seu afastamento deles e os sofrimentos deles por Ele não deveriam perturbá-los de urna maneira incomum. Pois uma visão de Jesus à direita de Deus seria um incentivo eficaz para eles, assim como o foi para Estêvão. Observe que uma investigação, com fé e humildade, dos desígnios e das tendências das mais obscuras dispensações da Providência nos ajudaria a nos reconciliarmos com elas, e nos faria sofrer menos, e temer menos, por sua causa. Isto nos faria deixar de perguntar: De onde eles vêm? E nos satisfaria abundantemente perguntar: Para onde eles vão? Pois sabemos que estas coisas contribuem para o bem, Romanos 8.28.

(2) Porque eles estavam excessivamente concentrados nos motivos da sua tristeza: “O vosso coração se encheu de tristeza”. Cristo tinha dito o suficiente para enchê-los de alegria (cap. 15.11). Mas, olhando somente para aquilo que lhes era contrário, e não para aquilo que era feito por eles, eles ficaram tão cheios de tristeza, que não havia espaço para a alegria. Observe que a falha e a tolice comum de cristãos melancólicos consiste em permanecerem no lado escuro da nuvem, para meditar somente no terror, e fazer-se de surdos para a voz de gozo e de alegria. Aquilo que enchia os corações dos discípulos de tristeza, e impedia a operação dos estímulos que Cristo administrava, era um afeto excessivamente grande por esta vida atual. Eles estavam cheios de esperanças com o reino e a glória externos do Mestre, além da esperança de que brilhariam e reinariam com Ele, e, consequentemente, ao invés disto, ouvir nada além de obrigações e aflições os enchia de tristeza. Nada atrapalha mais nossa alegria em Deus do que o amor pelo mundo, e a “tristeza do mundo” é a consequência.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

RONCO: UMA EPIDEMIA BARULHENTA

O ronco pode ser um indicador de apneia, uma doença grave. Novos recursos, como estímulos cerebrais, ajudam tanto o paciente quanto quem convive com ele a vencer esse problema.

Ronco - uma epidemia barulhenta

Durante muitos anos, o ronco estrondoso de AI Pierce costumava levar sua mulher a sair do quarto e se aconchegar no sofá da sala de televisão. Após inúmeras noites mal dormidas, ele passou, então, a usar um pequeno controle remoto para ligar um sensor eletrônico implantado no peito. O dispositivo detecta pequenas mudanças no padrão de sua respiração – sinais precoces de que as vias aéreas de Pierce estão começando a entrar em colapso. Ao detectar essas mudanças, ele aciona um leve estímulo elétrico que percorre um fio até o pescoço. O fio termina em um minúsculo eletrodo ligado a um nervo que controla os músculos de sua língua. O nervo, estimulado pela carga, ativa músculos que empurram a língua de Pierce para a frente na boca, levando as vias aéreas a abrirem.

Durante toda a noite, o encanador de 65 anos de Florence, Carolina do Sul, recebe centenas de pequenos choques – mas dorme tranquilamente. Na manhã seguinte, descansado e revigorado, Pierce usa o controle para desligar o dispositivo.

Essa nova tecnologia, chamada estimulação eletrônica das vias aéreas superiores, aprovada no verão passado pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos Estados Unidos, oferece muito mais que alívio de um barulho irritante. O ronco alto de Pierce era o sintoma mais evidente de apneia obstrutiva do sono. O distúrbio é drasticamente subdiagnosticado, com número de atingidos estimado em 25 milhões de americanos. No Brasil, o Instituto do Sono de São Paulo estima que aproximadamente, 33% de pessoas sofrem de apneia. O problema é grave: está associado a hipertensão arterial, cardiopatias, diabetes, depressão e até diminuição da capacidade de aprendizagem, podendo deflagrar ou agravar esses quadros. Em geral, portadores de apneia do sono grave têm o triplo do risco de morte por todas essas causas, em comparação com pessoas sem o distúrbio.

No entanto, não é fácil encontrar auxílio para quem sofre do problema. Uma opção eficaz, uma máscara presa com tira que empurra delicadamente o ar para dentro da garganta para mantê-la aberta, é compreensivelmente rejeitada por grande parte dos que tentam usá-la, por ser bastante desconfortável. Outras opções oferecem resultados contraditórios. Assim, por mais radicais que possam parecer, o implante cirúrgico e a estimulação do nervo talvez sejam a resposta para muitos roncadores. Em um estudo publicado no ano passado no New England Joumal of Medicine, a técnica reduziu episódios de apneia grave em cerca de dois terços. A aprovação da FDA viabiliza o tratamento com cobertura de seguro.

Grande parte dos médicos ainda não se dedicam muito a encontrar terapias para a apneia. Mesmo os pacientes tendem a não considerar que o distúrbio seja grave. “A apneia do sono não aparece em um atestado de óbito”, avalia Patrick J. Strollo Jr., especialista do sono do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh. “Apesar de poder contribuir para a morte, não é realmente uma causa direta e o tratamento costuma ser visto como pouco urgente.”

Aproximadamente metade das pessoas que roncam alto têm apneia do sono, segundo a Fundação Nacional do Sono, nos Estados Unidos – mas nem todos sabem que sofrem desse quadro. Pierce só descobriu que tinha apneia porque sua mulher, Gail, solicitou ao médico uma receita de pílulas para dormir. Ele perguntou o motivo, e ela explicou que o ronco do marido não a deixava descansar. O médico lhe disse que, se as coisas eram assim tão sérias, o marido deveria fazer uma polissonografia. Durante o exame, feito à noite, enquanto o paciente dorme, vários sensores são ligados a ele. A observação revelou que Pierce tinha até 30 episódios de apneia por hora – ou seja, a cada dois minutos apresentava dificuldade para respirar.  Apesar de anos de cansaço contínuo, ele ficou atordoado ao saber do problema médio. “Pensei que era assim que todos viviam; não sabia de nada diferente”, recorda.

A apneia obstrutiva do sono costuma se desenvolver quando as pessoas envelhecem ou engordam, o que causa o estreitamento do tubo das vias aéreas, assim como a perda do tônus dos músculos da boca e da garganta. Quando os músculos relaxam durante o sono, as vias aéreas sofrem constrição e bloqueiam o fluxo de ar para os pulmões.

Algumas pessoas com apneia grave param de respirar completamente, por até um minuto ou dois, até 600 vezes por noite. Essa privação de oxigênio força o coração a trabalhar mais e cria ondas de adrenalina, que por sua vez provocam picos de pressão arterial.

Além disso, os níveis de oxigênio oscilantes podem provocar danos em células e tecidos nos pulmões e em outros órgãos.

Grandes intervenções, como a cirurgia reconstrutiva da garganta, têm sido ineficazes. Médicos frequentemente recomendam alterações no estilo de vida como perda de peso e às vezes até mesmo tocar instrumentos de sopro para fortalecer e tonificar os músculos da língua. Dilatadores nasais e bocais genéricos, fáceis de adquirir em farmácias, visam o ronco, o sintoma, em vez da apneia subjacente. O problema é que o que ajuda um paciente pode ser completamente inútil para outro. Além disso, qualquer objeto projetado para ficar na boca ou na garganta durante o sono, e manter as vias aéreas abertas, pode incomodar o paciente e realmente atrapalhar o sono. Qualquer tratamento precisa ser confortável, fácil de usar e confiável.

É o caso da máscara de oxigênio, chamada CPAP, que pressiona as vias aéreas: cobrindo o nariz (ou o nariz e a boca), sendo mantida por tiras que envolvem a cabeça. Uma pequena bomba de cabeceira proporciona um fluxo constante de ar pressurizado para a máscara através de tubo plástico. A terapia, disponível desde o início da década de 80, alivia os sintomas de apneia obstrutiva do sono, e pesquisas indicam índices mais baixos de doenças cardiovasculares e mortalidade entre pacientes que a adotam.

Porém, metade das pessoas que tentaram usar a máscara desistiram. Pierce é um deles. Como tantos outros, ele não conseguia dormir facilmente enquanto usava algo sobre o rosto, e ele não gostava do modo como a tubulação restringia seus movimentos na cama.

Strollo é um forte defensor da CPAP, mas há muito reconheceu a necessidade de alternativa. A estimulação eletrônica de vias aéreas superiores pode ser essa opção, segundo ele. O pesquisador conduziu um amplo estudo sobre o novo tratamento, um ensaio de um ano sobre sua segurança e eficácia, envolvendo 126 pessoas com apneia obstrutiva de moderada a grave. Todos os participantes tinham índice de massa corporal (IMC) de 32 ou menos (um homem com 1,77 m de altura e 101 kg de peso tem IMC de 32), tinham tentado CPAP inicialmente e não apresentavam histórico de doença cardiovascular. Em um estudo de janeiro passado no New England Journal of Medicine, Strollo e seus colegas relataram que a terapia, com um dispositivo feito pela Inspire Medical Systems, reduziu eventos de apneia do sono dos participantes em 68%, de uma média de 29,3 eventos por hora para nove por hora, basicamente transformando a apneia grave em um caso leve. (O CPAP, após ajuste, pode ter resultado ainda melhor, reduzindo a quantidade de eventos de apneia grave a menos de cinco por hora, em média, mas apenas em pacientes que o usarem continuamente.)

O cientista Alan R. Schwartz, especialista do sono na Universidade Johns Hopkins e responsável por grande parte do trabalho inicial de estimulação no nervo – ele mostrou, em animais, que dar choque no nervo controlador da língua abriria as vias aéreas -, diz estar satisfeito, mas cauteloso. “Ainda temos muito a aprender”, observa ele, ressaltando que pessoas com sobrepeso e obesas, grupo que representa porcentagem significativa da população com apneia obstrutiva, não são consideradas boas candidatas para o procedimento devido ao excesso de tecido em vias aéreas.

Além disso, a estimulação envolve um procedimento invasivo. A cirurgia para implante do dispositivo leva cerca de duas horas. Um cirurgião de cabeça e pescoço, operando através de uma incisão na lateral do pescoço, sob o queixo do paciente, coloca um eletrodo sobre o nervo hipoglosso, que controla os músculos da língua. Ele também implanta um conjunto de bateria e um sensor no peito e os conecta ao eletrodo com um fio condutor. Geralmente, o paciente tem alta no dia seguinte; o dispositivo é ligado e ajustado após um mês.

Pesquisadores investigam alternativas, como medicação. Em um estudo de seis semanas envolvendo 120 pacientes, David W. Carley, médico da Universidade de Illinois, em Chicago, está testando um fármaco denominado dronabinol, versão sintética de um composto ativo da maconha. Ele está comparando pessoas que recebem o medicamento com as que não o recebem. O dronabinol pode prevenir ou reduzir episódios de apneia do sono, estimulando certa atividade dos neurotransmissores no cérebro. Outros pesquisadores examinam o papel exercido pela leptina, hormônio que suprime o apetite e pode melhorar a função respiratória. Um pequeno estudo de 26 obesos com IMC superior a 45 sugere que determinados níveis de leptina podem minimizar o colapso das vias aéreas superiores.

Schwartz também quer modificar a técnica de estimulação, testando um dispositivo que elimina o sensor. Em vez disso, ele envia uma carga repetida ao nervo da língua para manter as vias aéreas abertas. Esse refinamento deve simplificar a cirurgia e reduzir peças que poderiam falhar, segundo Schwartz. Pierce, no entanto, está muito feliz com seu sistema. Seja acordado ou dormindo tranquilamente, ele nem percebe a presença do dispositivo.

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OUTROS OLHARES

PEÇA RARA

A extinção do filho do meio na família moderna.

Peça rara

Negligenciado, esquecido, sem papel definido. Não bastasse o sentimento de abandono que usualmente o acompanha, o filho do meio parece estar com os dias contados, pelo menos nos países ocidentais. Os riscos a sua existência decorrem, claro, da decisão dos casais de terem, no máximo, dois filhos.

Há vários indicadores de que famílias pequenas são o novo padrão. A taxa de fecundidade atingiu 1,76 nos Estados Unidos no ano passado, o menor índice em 30 anos. Na Europa, 47% das famílias têm um único filho, 40% chegaram aos dois rebentos e apenas 13% possuem três ou mais, ao menos nos 65 milhões de famílias pesquisadas pela Eurostat, o órgão que abastece a Comunidade Europeia com dados sobre populações. No Brasil, o índice de fecundidade foi de 1,72 em 2015.

Os especialistas concordam em relação aos motivos principais para o fim da família numerosa. O conflito entre a carreira da mulher e a maternidade e a delonga para ter o primeiro filho são alguns deles. O psicanalista Christian Dunker, autor de Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano, também aponta expectativas de desempenho idealizadas, que fazem os pais apostar mais em menos fichas. “Quando para ser pai ou mãe não basta ser pai ou mãe, mas envolve a comparação constante com os melhores pais, a tarefa é pesada demais”, afirmou. “Narcisicamente pesada demais.”

A psicóloga americana Catherine Salmon agrega às justificativas para uma prole menor o alto custo com educação e a necessidade dos pais de reservar tempo para si mesmos. Em parceria com a jornalista Katrin Schumann, ela escreveu The secret power of middle children (O poder secreto dos filhos do meio), ainda sem edição em português. “O principal motivo por trás do livro é derrubar mitos em torno desse indivíduo”, afirmou a psicóloga. “O número de filhos do meio está visivelmente decrescendo nos Estados Unidos e no Canadá, por exemplo, mas queremos ajudar os milhões que vieram – e ainda vêm – ao mundo nessa posição a se entenderem melhor, já que foram largamente ignorados pelos pesquisadores.”

Salmon lembra que o principal estigma a rondar os filhos do meio é o do tímido amargurado, aquela flor de estufa para a qual ninguém dá bola. “É uma visão negativa que não corresponde a todo o seu desempenho diplomático”, declarou. A psicóloga explicou que, não raro, o filho do meio apara arestas de relacionamento entre o mais velho e o caçula.

Ana Cláudia Bastos de Pinho Pessoa, de 27 anos, resume sua função: “Considero que minha ponte entre eles é importante, sim. Quando um não entende o outro, sempre tento acalmar as coisas”, disse. Nascida em Fortaleza, a revisora de livros didáticos vive em Hyêres, no sudeste da França, onde trabalha como missionária em uma comunidade religiosa. Ali, a garota introspectiva da infância toca percussão, dança, dá palestras e trabalha como vendedora no santuário onde vive. “Acho que outra característica dos filhos do meio é saber executar tarefas direcionadas a eles e, ao mesmo tempo, exercer papel de liderança em outros momentos”, afirmou Pessoa. Sua irmã mais velha, de quem se disse “de alguma maneira submissa” quando criança, hoje tem 29 anos. O caçula, de quem cuidou de perto, fez 24.

Lutar pela diferenciação seria outra marca registrada do filho do meio. Em meio às novidades trazidas tanto pelo mais velho quanto pelo mais novo, ele precisa fazer malabarismos para alcançar uma identidade própria. Esse comportamento por vezes é associado à rebeldia, mas não passaria da necessidade do filho do meio de ganhar cor em meio a uma posição bege.

“Existe no imaginário social este ‘não ficou nem lá nem cá’, uma situação intermediária em que até a nomeação ‘do meio’ parece carecer de sentido”, disse a psicanalista Carmen Àvila, de São Paulo. Por isso os que integram essa categoria invariavelmente apelam para a criatividade, ” por uma questão de sobrevivência”. Nos sites em que filhos do meio mostram estratégias para driblar a invisibilidade, as fotos retratam crianças fazendo caretas para a câmera, vestindo um saco amarelo na cabeça ou invadindo a cena de um jeito inusitado. Às vezes escapa um olhar atravessado para o caçula. “O do meio já foi o bebê da família, mas perde esse lugar com a chegada do terceiro”, lembrou Ávila.

Dependendo do intervalo de tempo para que isso aconteça, o ciúme pode vir a cavalo. “Quando minha mãe ficou grávida de meu irmão mais novo, eu tinha 12 anos e vivi uma crise profunda de ciúme”, afirmou Fábio Henrique Novais de Mesquita, de 38 anos, professor de língua portuguesa no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão. “Pensei que minha mãe implicava com tudo que eu fazia só porque estava grávida. Cheguei a dizer que ela tinha ‘enjoado’ de mim”, recordou, rindo. Mas era séria sua premência de aparecer depois que o irmão adentrou a casa. “Eu gostava de ajudar nas tarefas domésticas para ser elogiado, gostava de ser necessário. Não apenas útil, mas necessário.”

Mesquita tem um irmão, e não uma irmã, mais velho que ele. Para os estudiosos do tema, faz diferença os três filhos serem ou não do mesmo sexo. “Todos meninos ou todas meninas significa uma competição direta maior”, afirmou a americana Salmon. No caso de três homens, disse Dunker, haveria um conflito agudo para o filho do meio, que ou se volta muito para os pais ou se volta pouquíssimo, o que estimularia sua independência. Mesquita sempre foi mais família. “Mesmo com a vida financeira estável, permaneci em casa cuidando de meus pais, enquanto meus irmãos casaram e foram fazer a vida fora”, disse ele, que mora em São Luís, no Maranhão. Quando o trio é feminino, Dunker aponta a forte pressão para a do meio se destacar e a necessidade de os pais não furarem preferências. Nas combinações mistas, as tensões têm nuances diferentes.

Há casos em que as famílias são surpreendidas pela vinda de gêmeos quando pensavam em acrescentar apenas mais um lugar à mesa. A chegada de Beatriz e Helena surpreendeu Renata Campos Pagano, de 47 anos, que mora em Rio Claro, São Paulo. Ela já tinha João, então com 1 ano e 10 meses, quando se soube grávida das pequenas. A diferença de dois minutos entre uma e outra, embora ínfima, estabeleceu os papéis. Beatriz, hoje com 19 anos, é a do meio e assim se sente. “Eu cuido de minha irmã, sou mais proativa, mas não acho que sofro com isso, não preciso de atenção”, afirmou, resoluta. Ao que os irmãos respondem, em coro: “Mais ou menos”. Da última vez em que a mãe e a irmã foram comer hambúrguer e não a chamaram, bateu certo sentimento de indignada rejeição, outro sintoma típico do filho intermediário.

Já a portuguesa Betina Natel não sente essa diferença nos gêmeos Alina e Dominic, que chegaram três anos depois de Marc. A menina despontou três minutos antes do irmão, mas a mãe disse não sentir que Alina seja preterida – nem preferida. “Os gêmeos estão com 9 anos e alternam as fases; quando um está num período mais difícil, o outro espera”, afirmou. O pai das crianças é suíço, e a família vive no cantão de Zurique.

Com cerca de 8 milhões de habitantes, a Suíça está engatinhando em direção às famílias mais numerosas. De acordo com reportagem do jornal Blick, em 2016 nasceram 10 mil terceiros filhos, 2 mil a mais que em 2006. Seriam, a priori, 10 mil filhos do meio reclamando atenção ou saindo à luta. Uma instituição cristã suíça chamada IG Familie 3plus oferece apoio a casais com três filhos ou mais, como o próprio nome revela, providenciando roupas, brinquedos, férias com desconto, cadastro para ajuda financeira e respiro para mães exaustas. “Encorajamento mútuo é nosso objetivo”, anuncia o bordão da IG.

A realidade brasileira caminha para outro cenário, o das famílias menores. “Penso que, hoje, os casamentos tendem a durar, no máximo, dois filhos”, disse Dunker. Proliferaram os recasamentos, com meios-irmãos exibindo grande diferença de idade e propostas de criação. Isso talvez altere o conceito de filho do meio, ponderou o psicanalista. Fica mais forte a variável “filho desta relação” ou “filho da relação anterior”. Não que isso seja menos desafiador. “A orquestração dos modos de amor e de respeito nessas migrações, associada à prática maciça de abandono tácito, em que cada pai deixa para o outro as decisões mais difíceis, traz efeitos de longo prazo com os quais estamos nos deparando agora”, afirmou.

Na opinião da psicóloga Salmon, que não desgruda o olhar do filho do meio, tudo depende de quando essas famílias se rearranjam: “Muito da personalidade da pessoa é soldada nos primeiros dez anos de vida, portanto os efeitos vão depender da idade da criança quando a nova configuração se formar”. Deduz-se que o filho do meio pode continuar se sentindo assim, como veio ao mundo no núcleo original, ainda que seja o quarto ou sexto no layout familiar recente. “No fundo, a forma como esse indivíduo responde à ordem de chegada depende do entrelaçamento entre a estrutura psíquica dos pais, da estrutura psíquica da criança e do contexto sociocultural em que navega essa família”, acrescentou a psicanalista Ávila.

O que talvez anime o filho intermediário é saber que personalidades como Martin Luther King Jr., Abraham Lincoln, John F. Kennedy, Madonna, princesa Diana, David Letterman, Ayrton Senna e Bill Gates foram o que foram apesar de ser miolo de sanduíche – ou por causa disso. E que o calendário americano reserva um dia para as middle children. É o 12 de agosto, criado ainda nos anos 1980 para valorizar quem se sente ofuscado em casa, mas que justamente por esse motivo pode ganhar o universo.

GESTÃO E CARREIRA

A ILUSÃO DO CEO BADALADO

Aceitar salário menor para trabalhar com um astro pode ser mau negócio.

A ilusão do CEO badalado

Embora o senso comum indique que a oferta de melhor remuneração é a justificativa decisiva para optar por um emprego, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e da Universidade de Nova York descobriram que não é bem assim. Avaliando cerca de 700 propostas de trabalho a candidatos que cursaram MBAs de elite, seu estudo, publicado no jornal Sociological Science, descobriu que muitos graduados escolhem certos empregos não pelo maior salário, mais sim aqueles resultantes de networking que oferecem perspectivas futuras mais promissoras para desenvolver a carreira, mesmo que isso cobre um custo financeiro inicial. Em vez de utilizar canais formais, como o recrutamento a partir das universidades, esses candidatos utilizam sua rede de contatos sociais para tentar ingressar em empresas comandadas por famosos CEOs. Acreditam que assim podem absorver o conhecimento dos “ídolos”, além de tornar o emprego mais charmoso entre colegas no mercado de trabalho.

OK, mas isso funciona mesmo? Estudo feito por pesquisadores da Universidade de Notre Dame, por exemplo, alerta para as limitações dessa estratégia de carreira. Sua conclusão básica: ter um superstar como mentor ou protetor não significa necessariamente que a pessoa disponha das habilidades essenciais para o aprendizado, e isso pode gerar estresses na relação. Embora sua pesquisa tenha se concentrado em dados da National Football League (NFL) americana, os autores argumentam que suas constatações são úteis a qualquer profissão. Tomando como base resultados de carreiras de cerca de 1,3 mil técnicos e dirigentes da NFL entre 1980 e 2010, incluindo número de vitórias e campeonatos conquistados, a pesquisa avaliou o desempenho dos jogadores que tinham maior prestígio inicial junto a seus líderes, descobrindo que muitos não corresponderam a essas expectativas e acabaram se desgastando, indo para o banco de reservas ou sendo dispensados.

É a consequência do chamado “efeito halo” (de auréola), quando a avaliação do desempenho de alguém é distorcida por algum tipo de viés que acaba gerando conclusões equivocadas. Elaborado em 1920 por Edward Lee Thorndike, professor da Universidade de Columbia e um pioneiro da psicologia educacional, esse conceito permanece válido até hoje. Em empresas ocorre o mesmo fenômeno: ser protegido e promovido por um CEO badalado não é garantia de sucesso, pois seu desempenho depende essencialmente de sua qualificação para o cargo e, ao não corresponder às expectativas, sua carreira tende a estagnar em vez de avançar.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 15: 26-27

Alimento diário

O Anúncio do Consolador

Tendo falado sobre a grande oposição que seu Evangelho provavelmente iria encontrar no mundo, e as dificuldades que seriam impostas aos que o pregassem, para que ninguém temesse que eles e o Evangelho fossem destruídos por esta violenta torrente, aqui Ele sugere a todos aqueles que desejavam o bem da sua causa e dos seus interesses a provisão efetiva que foi feita para apoiá-los, tanto pelo testemunho principal do Espírito (v. 26) quanto pelo testemunho secundário dos apóstolos (v. 27), e os testemunhos são os apoios adequados da verdade.

 

I – Aqui está a promessa de que o bendito Espírito irá manter a causa de Cristo no mundo, apesar de toda a oposição que ela encontrar. Cristo, quando foi ofendido, entregou sua causa ofendida ao seu Pai, e não perdeu pelo seu silêncio, pois o Consolador veio, defendeu-a vigorosamente e prosseguiu com ela triunfantemente. “Quando vier o Consolador”, ou Advogado, ‘que procede do Pai’, e ‘que eu da parte do Pai vos hei de enviar’, para suprir a falta da minha presença física, Ele ‘testificará de mim’ contra aqueles que me odeiam sem causa”. Neste versículo, nós temos mais informações a respeito do Espírito Santo do que em qualquer outro versículo na Bíblia. E, sendo batizados no seu nome, nós devemos nos interessar em conhecê-lo, tanto quanto Ele é revelado.

1. Aqui está uma explicação do Espírito na sua essência, ou mais exatamente, na sua subsistência. Ele é o “Espírito da verdade, que procede do Pai”. Aqui:

(1) Ele é mencionado como uma pessoa distinta, não uma qualidade ou propriedade, mas uma pessoa, sob o nome próprio de “Espírito”, e sob o título adequado de “Espírito da verdade”, um título apropriado para Ele, uma vez que Ele testifica.

(2) Como uma pessoa divina, “que procede do Pai”, que se manifestou desde a antiguidade, desde a eternidade. O espírito ou fôlego do homem, chamado de sopro da vida, procede do homem, e, interagindo com ele, expressa seu pensamento. Por ele estimulado, às vezes o homem exerce sua força para apagar o que ele deseje extinguir, e lutar por aquilo que ele deseje incentivar. Desta maneira, o bendito Espírito é a emanação da luz divina, e a energia do poder divino. Os raios do sol, pelos quais ele transmite e difunde sua luz, seu calor e sua influência, procedem do sol e são um só com ele. O Credo Niceno diz: O Espírito procede do Pai e do Filho, pois é chamado de Espírito do Filho, Gálatas 4.6. E aqui está escrito que o Filho o envia. A igreja grega preferiu dizer: do Pai, por intermédio do Filho.

2. Na sua missão.

(1) Ele virá em um profuso derramamento de seus dons, graças e poderes, mais abundante do que jamais houvera. Cristo tinha sido, por muito tempo, aquele que viria. Agora o bendito Espírito o é.

(2) “Eu da parte do Pai vos hei de enviar”. Ele tinha dito (cap. 14.16): “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador”, o que indica que o Espírito é o fruto da intercessão que Cristo faz, no interior do véu. Aqui Ele diz: “Vos hei de enviar”, o que indica que Ele é o fruto do seu domínio, no interior do véu. O Espírito foi enviado:

[1] Por Cristo, como Mediador, agora elevado às alturas, para dar dons aos homens, e todo o poder seria dado a Ele.

[2] Pelo Pai: “Não somente do céu, da casa de meu Pai” (o Espírito foi dado em meio a um som vindo do céu, Atos 2.2), “mas de acordo com a vontade e a indicação de meu Pai, e, em conformidade com elas, com seu poder e autoridade”.

[3] Aos apóstolos, para instruí-los na sua pregação, capacitá-los para o trabalho, e sustentá-los nos seus sofrimentos. Ele foi dado a eles e aos seus sucessores, tanto no cristianismo quanto no ministério. A eles, à sua posteridade, e à posteridade da sua posteridade, de acordo com a promessa, Isaías 59.21.

3. Na sua função e na sua operação, que são duas:

(1) Uma estava implícita no título dado a Ele. Ele é “o Consolador”, ou Advogado. Um advogado por Cristo, para manter sua causa contra a infidelidade do mundo, um consolador para os santos, contra o ódio do mundo.

(2) Outra, expressa: “Ele testificará de mim”. Ele não é somente um advogado, mas também uma testemunha a favor de Jesus Cr isto. Ele é um dos três que testificam no céu, e o primeiro dos três que testificam na terra, 1 João 5.7,8. Ele instruiu os apóstolos, e os capacitou para que realizassem milagres. Ele inspirou todo o processo de escrita das Escrituras, que são as testemunhas permanentes que testificam a respeito de Cristo, cap. 5.39. O poder do ministério deriva do Espírito, pois Ele qualifica ministros, e o poder do cristianismo, também, pois Ele santifica os cristãos, e nas duas atividades, Ele testifica de Cristo.

 

II – Aqui está a promessa de que os apóstolos também, com a ajuda do Espírito, teriam a honra de ser testemunhas de Cristo (v. 27): “E vós também testificareis” de mim, sendo testemunhas competentes, “pois estivestes comigo desde o princípio” do meu ministério. Observe aqui:

1. Que os apóstolos foram nomeados para serem testemunhas de Cristo no mundo. Quando Ele disse: O Espírito testificará, depois acrescentou: E vós também testificareis. Observe que a obra do Espírito não deve substituir, mas despertar e incentivar a nossa. Embora o Espírito testifique, os ministros também devem dar seu testemunho, e as pessoas devem aceitá-lo, pois o Espírito da graça testemunha e opera através dos meios da graça. Os apóstolos foram as primeiras testemunhas que foram chamadas no famoso julgamento entre Cristo e o príncipe deste mundo, que resultou na expulsão do invasor. Isto evidencia:

(1) A obra destinada a eles. Eles deviam atestar a verdade, toda a verdade, e nada mais que a verdade a respeito de Cristo, para a recuperação do seu justo direito e a manutenção da sua coroa e dignidade. Embora os discípulos de Cristo tivessem fugido quando deviam ter testificado dele, no seu julgamento perante o sumo sacerdote e Pilatos, depois que o Espírito foi derramado sobre eles, eles apareceram corajosos, defendendo a causa de Cristo contra as acusações que lhe eram feitas. A verdade da religião cristã devia ser provada, em grande medida, pela evidência dos fatos, especialmente a ressurreição de Cristo, da qual os apóstolos foram, de uma maneira especial, testemunhas escolhidas (Atos 10.41), e deram seu testemunho de modo adequado, Atos 3.15; 5.32. Os ministros de Cristo são suas testemunhas.

(2) A honra que lhes foi conferida com isto – que eles seriam cooperadores de Deus. “O Espírito testificará de mim, e também vocês, sob a administração do Espírito, e de acordo com o Espírito (que irá impedir que vocês se enganem no que irão relatar, com base no seu próprio conhecimento, e lhes irá informar o que vocês não poderiam saber, exceto por revelações), testificarão. E o fato de que Cristo os tinha honrado e os reconheceria poderia encorajá-los contra o ódio e o desprezo do mundo.

2. Que eles eram qualificados para testificar: “Estivestes comigo desde o princípio”. Eles não somente ouviram seus sermões públicos, mas também tinham um diálogo privado e constante com Ele. Ele andava fazendo o bem, e, enquanto os outros viam somente as maravilhosas e misericordiosas obras que Ele realizava nas suas próprias cidades e regiões, aqueles que viajavam com Ele eram testemunhas de todas elas. Da mesma maneira, eles tinham oportunidade de observar a pureza sem mácula da sua conduta, e podiam testemunhar que nunca viram nele, nem ouviram dele, nada que tivesse a menor semelhança a uma fraqueza humana. Observe que:

(1) Nós temos grandes motivos para receber o registro que os apóstolos deram de Cristo, pois eles não falavam baseados em rumores, mas falavam daquilo sobre o que tinham a maior certeza imaginável, 2 Pedro 1.16; 1 João 1.1,3.

(2) Os mais capacitados para dar testemunho de Cristo são aqueles que estiveram com Ele, pela fé, esperança e amor, e vivendo uma vida de comunhão com Deus nele. Os ministros devem, primeiro, aprender a respeito de Cristo, e depois, pregá-lo. Falam melhor sobre as coisas de Deus aqueles que falam com base em experiências. É particularmente uma grande vantagem o fato de conhecer a Cristo desde o início, e poder compreender todas as coisas de forma detalhada (Lucas 1.3). Ter estado com Ele desde o início dos nossos dias. Conhecer o Senhor o mais cedo possível na vida e viver constantemente no Evangelho de Cristo farão de um homem um bom despenseiro.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

SENSAÇÃO DE NÃO TER ESCOLHA AUMENTA O ESTRESSE

Mesmo em situações de pressão extrema, causada pela vivência do horror, da violência, ou pela morte de alguém querido, há a possibilidade de não se furtar a tomar decisões.

Sensação de não ter escolha aumenta o estresse.

Não há como fugir dele. O estresse já se incorporou ao cotidiano da maioria das pessoas, em especial nas grandes cidades. E embora tenha se tornado nos últimos anos sinônimo de irritação, frustração e problemas a serem resolvidos, não é, por si só, necessariamente ruim. Pelo contrário: se hoje estamos aqui é porque, em momentos e grande risco à preservação da própria vida (como encontrar um predador pela frente), em frações de segundo cérebro de nossos antepassados deu ordem para que fosse descarregada na corrente sanguínea uma considerável carga de hormônios. Esse processo orgânico, indissociável das consequências emocionais, os preparou para duas reações possíveis: lutar ou fugir. Obviamente havia outra possibilidade: ficar e ser inexoravelmente devorado pela fera – mas, claro, os que fizeram essa escolha não viveram para perpetuar seus genes e se tornar nossos ancestrais. O problema dessa história são os resquícios que carregamos desse funcionamento.

Não por acaso, quase todo mundo vive estressado na maior parte do tempo. Os números são impactantes. Segundo dados da International Stress Management Association (lsma), no Brasil 70% dos adultos economicamente ativos sofrem de estresse e quase metade desse contingente sente-se sobrecarregada em razão do trabalho. Brasileiros, aliás, ocupam o segundo lugar nesse ranking pouco atraente dos mais estressados do mundo – perdendo apenas para os japoneses. O quadro tem consequências graves: estudos científicos indicam que o nível de estresse e o estilo de vida da pessoa determinam em torno de 60% das doenças que ela pode vir a desenvolver. Especialistas americanos estimam que cerca da metade das internações diárias nos Estados Unidos hoje é causada por distúrbios direta ou indiretamente decorrentes da sobrecarga, principalmente emocional: são mais de 230 milhões por ano. Ainda assim, por estranho que possa parecer para alguns, o estresse tem seu lado positivo: pode ser benéfico, desde que ocorra em doses pequenas. Quem vive experiências instigantes e descortina horizontes inteiramente novos está sujeito a uma excitação estimulante. Ou seja: evitar o estresse a qualquer custo, além de impossível, seria, portanto, indesejável.

“Quem vive de modo excessivamente pacato também sofre com estresse causado pelo tédio e pela monotonia”, afirma o endocrinologista Sepp Porta, chefe do Instituto para Pesquisas Aplicadas do Estresse, em Graz, na Áustria. Estudos confirmam suas palavras: a calma duradoura é tão estressante quanto uma vida demasiadamente agitada.

A diferença mais marcante entre as pessoas muito e as pouco estressadas foi encontrada por pesquisadores ingleses do Centro Internacional de Saúde e Sociedade, por meio do famoso estudo Whitehall II. Durante vários anos, foram analisadas a saúde e as condições de trabalho e de vida de 10 mil funcionários públicos de meia-idade. Os resultados mostraram que a diferença fundamental na suscetibilidade ao estresse não reside nem nos fatores genéticos nem na estrutura psíquica dos indivíduos, mas em um fator psicossocial: quanto mais autônoma e dona de seu destino é uma pessoa, tanto menos está sujeita a tensões e ao estresse. É por esse motivo que, de acordo com os resultados coincidentes dos estudos americanos, suecos e ingleses, funcionários em posição de comando não apresentam a maior incidência de problemas decorrentes de tensão nervosa.  Apesar de terem agendas superlotadas e carga excessiva de trabalho, pessoas em posição de comando costumam ser mais relaxadas que seus subalternos. Estes últimos, embora só precisem trabalhar oito horas por dia, têm de cumprir tarefas que lhes são impostas e obedecer a prazos. E, muitas vezes, se frustram por não se sentirem reconhecidos como gostariam. Podemos pensar que essa situação se agrava quando, inconscientemente, nutrimos em relação a nossos chefes a expectativa da aceitação incondicional que outrora desejamos ter de papai e mamãe. É claro que essa dependência da aprovação de figuras de autoridade pode ser vista (e possivelmente transformada) na psicoterapia – mas, enquanto persiste, é inegavelmente estressante e tem efeitos no corpo.

Vários estudos recentes mostram a alta proporção de vítimas de infarto que sofreram rebaixamento profissional e, com isso, perderam liberdade de decisão. Algumas delas talvez apresentassem propensão genética ao estresse, outras talvez carregassem traumas de infância, e em vários casos o infarto estava relacionado às suas características de personalidade. Mas não há dúvidas de que, na maioria dos pacientes, o fator psicossocial exerceu papel determinante no desencadeamento da doença. Em última instância, porém, o fator psicossocial é o único que decorre em sua totalidade da ação humana, o que abre possibilidade de ser modificado. Não há como influenciar a herança genética de um indivíduo; do mesmo modo, sua estrutura de personalidade dificilmente é modificada. Mas os fatores psicossociais talvez possam ser alterados com resultados positivos.

Apesar das boas perspectivas, as receitas correntes de combate ao estresse, banhos quentes, exercícios físicos, relaxamento muscular -, não obstante seu efeito inegavelmente benéfico, não alteram estruturalmente as fontes de estresse. Nos últimos anos, cada vez mais especialistas têm concordado que, tão importante quanto mudar as coisas em si, concretamente, é imprescindível alterar a relação que temos com as situações da própria vida.

Sensação de não ter escolha aumenta o estresse.2

ÓCIO CRIATIVO

Há alguns anos, a psicóloga Shansky, pesquisadora da Universidade Northeastern, em Boston, descobriu, em estudos com animais, que o estresse prolongado afeta as conexões entre os neurônios córtex pré-frontal. Nos seres humanos, esta região regula funções cognitivas superiores como a concentração e a organização.  Alterações estruturais podem levar a deficiências nessas funções. Há pessoas que se sentem especialmente estimuladas quando são desafiadas com

OUTROS OLHARES

A GERAÇÃO TOUCH SCREEN

Os dispositivos móveis prejudicam o desenvolvimento das crianças? Os estudos ainda são recentes, mas a ciência já mostra que de fato existem riscos – mas também benefícios que não podem ser desprezados.

A geração touch screen

Você já deve ter ouvido alguém dizer algo como “essas engenhocas ultra- modernas destroem nosso cérebro e arruínam o desenvolvimento das crianças”. A preocupação é compreensível, e não apenas porque todas as gerações anteriores tendem a desaprovar os comportamentos das seguintes. Sob vários aspectos os aparelhos digitais estão (pelo menos aparentemente) minando nossa juventude, da mesma forma como o rock “prejudicou” os jovens da década de 60, a televisão “comprometeu” a formação de nossos avós e os carros colocaram em risco nossos bisavós. Segundo essa lógica, estamos sendo arruinados há gerações. Mas o que a ciência diz sobre os efeitos nocivos da mais recente tecnologia?

Parte da resposta depende de sua definição de “arruinar”. É verdade que as coisas são diferentes agora. Muitas crianças moradoras das grandes cidades não “saem para brincar”, pelo menos não desacompanhadas. Mas também não precisam mais decorar nomes de presidentes e a tabela periódica, pois estão a apenas uma tecla de distância do Google. Estamos perdendo velhas destrezas, é verdade. Poucos sabem agora como usar um papel-carbono ou cuidar de cavalos; escrever à mão e dirigir podem ser as próximas habilidades a desaparecer.

Porém, diferente não é sinônimo de pior. E, por mais que psicólogos, educadores e pais se preocupem, ainda é surpreendentemente difícil encontrar estudos ligando aparelhos modernos à ruína da juventude. A pesquisa leva tempo e a era das telas sensíveis é muito recente. O iPad, por exemplo, surgiu em 2010.

Mas as pesquisas já começaram – e lançam alguma luz sobre como esses repentinamente onipresentes dispositivos podem afetar as crianças. Em 2009, um estudo na Universidade Stanford relacionou hábitos de adolescentes modernos de executar multitarefas no computador (que parecem ter se estendido a telefones e tablets) à perda da capacidade de concentração – um resultado um pouco preocupante.

Um estudo publicado na revista Pediatrics revelou que crianças que têm aparelhos de tela pequena em seus quartos dormem em média 21 mi nutos a menos que as que não têm. Quanto à razão, os cientistas supõem que as crianças ficam acordadas até tarde para usar seus dispositivos ou, talvez, que a luz das telas produza atrasos no ritmo circadiano.

E quanto às habilidades sociais? No ano passado, em um estudo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, foram acompanhados dois grupos de alunos do sexto ano (com idade média de 11 a 12 anos). O primeiro, formado por 51 jovens, passou cinco dias em um acampamento na natureza sem eletrônicos; o segundo grupo, de controle, com 54 participantes, não acampou. Depois disso, foram realizados testes e foi constatado que aqueles que haviam passado a temporada no campo se saíam significativamente melhor na leitura de emoções humanas em fotografias.

E o que há de concreto sobre câncer cerebral e celulares? Bem, em primeiro lugar, não é preciso um estudo para dizer que raramente os jovens estão com o telefone na orelha; eles mais digitam mensagens do que fazem ligações. De qualquer forma, os estudos não comprovaram nenhuma relação entre o uso de celular e câncer. Pelo menos não ainda.

É hora de começar a reclamar? Não necessariamente; nem todos os estudos chegaram a conclusões alarmantes. Em 2012 o grupo sem fins lucrativos de estudos sobre mídias e tecnologia Common Sense Media descobriu que mais da metade dos adolescentes dos Estados Unidos acreditam que as mídias sociais – agora acessíveis em qualquer lugar graças às telas sensíveis ao toque – ajudaram em suas amizades (apenas 4% acham que prejudicaram). Em 2014 pesquisadores do National Literacy Trust, do Reino Unido, descobriram que crianças pobres com aparelhos de tela sensível ao toque têm o dobro de probabilidade de ler todos os dias. Um estudo publicado na Computers in Human Behavior revelou que enviar mensagens é benéfico para o bem-estar emocional dos adolescentes – especialmente os introvertidos.

Precisamos claramente de estudos mais amplos e de mais longo prazo antes de começar uma nova rodada de reclamações. E eles estão a caminho; por exemplo, os resultados de uma grande pesquisa britânica com 2.500 crianças chamada Estudo de Cognição, Adolescentes e Telefones Móveis (Scamp, na sigla em inglês), do Reino Unido, com 2.500 crianças, sairão em 2019.

Enquanto isso, os sinais de alerta das pesquisas iniciais não são altos o suficiente para tirarmos aparelhos de nossas crianças e mudarmos para território amish. Por outro lado, o bom senso sugere que não é o caso de deixar a tecnologia ocupar todo o tempo dos jovens. Os achados até agora são suficientes para sugerir a prática de uma muito sábia e antiga precaução: a moderação. O excesso de qualquer coisa é ruim para as crianças, sejam eletrônicos modernos, televisão ou esporte.

GESTÃO E CARREIRA

“UBERIZAR” OU ACABAR

A revolução cognitiva da internet extinguirá quem não se adaptar.

Uberizar ou acabar

O fenômeno da rede mundial de computadores só pode ser comparado, por seu potencial disruptivo, à chegada da oralidade nas relações humanas, há 70 mil anos – o que dá a dimensão das mudanças que estamos presenciando. A tese é do professor e consultor Carlos Nepomuceno, que, em seu novo livro, Administração 3.0: por que e como “uberizar” uma organização tradicional, prevê o fim da relação patrão-empregado, dos gerentes, dos políticos e do modelo atual de gestão de empresas e instituições, a partir desta “revolução cognitiva” descentralizadora deflagrada pela internet. Para o autor, a rede mundial proporciona novas possibilidades tecnológicas, que deverão afetar qualquer tipo de organização humana e permitir maior participação das pessoas nas decisões, sejam elas políticas ou econômicas.

Em parte, essa revolução se motivou pela explosão populacional do planeta, que nos últimos 200 anos saltou de 1 bilhão para 7 bilhões de habitantes. E, quanto mais complexo o mundo, menos possível que um centro decisório e controlador seja capaz de tomar as decisões adequadas, defende Carlos Nepomuceno, criando uma imagem para identificar a era pós-internet que justifica o título do livro: “O mundo 3.0 terá uma cara muito parecida com a do Uber”, afirma.

Considerando que a disrupção digital deverá fechar 40% das empresas do planeta nos próximos anos, o livro defende a tese de que só um novo modelo de gestão, com a troca direta entre fornecedor e consumidor, mediada por plataformas digitais, garantirá a sobrevivência dos negócios.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 15: 18-25

Alimento diário

A Previsão de ódio e perseguição

Aqui Cristo fala sobre o ódio, que é o caráter e o talento do reino do Diabo, assim como o amor é a característica marcante do reino de Cristo. Observe aqui:

I – Quem são aqueles em que se encontra este ódio – o mundo, os filhos deste mundo, diferentes dos filhos de Deus. Aqueles que são os interesses do deus deste mundo, cuja imagem eles estampam e a cujo poder estão sujeitos. Todos aqueles, sejam judeus ou gentios, que não desejam vir à igreja de Cristo, que Ele convocou audivelmente, e que se separa visivelmente deste mundo mau. Chamar a estas pessoas de mundo indica:

1. Seu número. Havia um mundo de pessoas que se opunham a Cristo e ao cristianismo. Senhor, como cresce o número dos que perseguem o Filho de Davi! Eu receio que, se fizéssemos uma eleição entre Cristo e Satanás, Satanás iria nos superar em muito.

2. Sua união e combinação. Estes numerosos exércitos se conluiaram, e são como um só, Salmos 83.5. Os judeus e os gentios, que não concordavam em nada, uniram-se para perseguir o ministério de Cristo.

3. Seu espírito e disposição. Eles são homens do mundo (SALMOS 16.13,14), completamente devotados a este mundo e às coisas deste mundo, e nunca pensam no outro mundo. O povo de Deus, embora tenha sido ensinado a odiar os pecados dos pecadores, foi ensinado a não odiar as pessoas, mas amar e fazer o bem a todos os homens. Um espírito malicioso, rancoroso e invejoso não é o espírito de Cristo, mas do mundo.

 

II – Quem são aqueles contra os quais este ódio é dirigido – os discípulos de Cristo, o próprio Cristo e o Pai.

1. O mundo odeia os discípulos de Cristo: “O mundo vos aborrece” (v. 19), e Ele fala sobre isto como algo que eles deveriam esperar e levar em conta, v. 18, como em 1 João 3.13.

(1) Observe como isto é apresentado aqui.

[1] Cristo tinha expressado a grande bondade que tinha por eles, como amigos. Mas, para que eles não se inchem de orgulho com isto, foi-lhes dado, como foi dado a Paulo, um espinho na carne, isto é, injúrias e perseguições por causa de Cristo, como está explicado em 2 Coríntios 12.7,10.

[2] Ele lhes tinha indicado seu trabalho, mas lhes diz com quais dificuldades eles iriam se deparar, para que isto não fosse uma surpresa para eles, e para que pudessem se preparar de maneira adequada.

[3] Ele lhes tinha dito que amassem uns aos outros, e eles tinham necessidade suficiente de amar-se uns aos outros, pois o mundo os odiaria; que fossem bons uns com os outros, pois sofreriam muita crueldade e má vontade por parte daqueles que não pertenciam ao seu meio. “Mantenham a paz entre vocês, e isto os fortalecerá nas batalhas que o mundo fará contra vocês”. Aqueles que estão em meio aos inimigos se preocupam em ficar unidos.

(2) Observe o que está incluído aqui.

[1] A inimizade do mundo contra os seguidores de Cristo: ele os “aborrece”. Observe que aqueles a quem Cristo abençoa, o mundo amaldiçoa. Os favoritos e herdeiros do céu nunca foram os preferidos deste mundo, uma vez que foi instalada a velha inimizade entre a semente da mulher e a da serpente. Por que Caim odiou a Abel, senão porque suas obras eram justas? Esaú odiou a Jacó por causa da bênção. Os irmãos de José o odiaram porque seu pai o amava. Saul odiou a Davi porque o Senhor estava com ele. Acabe odiou a Micaías por causa das suas profecias. Assim são as causas infundadas do ódio do mundo.

[2] Os frutos desta inimizade, dos quais aqui temos dois, v. 20. Em primeiro lugar, eles os perseguirão, porque os odeiam, pois o ódio é uma paixão incansável. É o destino comum daqueles que desejam viver devotamente em Cristo Jesus, sofrer perseguições, 2 Timóteo 3.12. Cristo previu o tratamento cruel que seus embaixadores iriam encontrar no mundo, e, ainda assim, por causa daqueles poucos que, pelo seu ministério, deveriam ser eliminados do mundo, Ele os enviou, “como ovelhas ao meio de lobos”. Em segundo lugar, outro fruto da sua inimizade está indicado, o qual consiste no fato de que eles iriam rejeitar sua doutrina. Quando Cristo diz: “Se guardarem a minha palavra, também guardarão a vossa”, Ele quer dizer: Eles não guardarão a vossa, e não a considerarão, não mais do que consideraram e guardaram a minha. Observe que os pregadores do Evangelho não podem deixar de considerar o desprezo à sua mensagem como a maior injúria que pode ser feita a eles mesmos. Como foi uma grande afronta a Jeremias, quando disseram: “Não escutemos nenhuma das suas palavras”, Jeremias 18.18.

[3] Os motivos desta inimizade. O mundo os odiará:

Em primeiro lugar, porque eles não pertencem a ele (v. 19): “Se vós fôsseis do mundo”, do seu espírito e dos seus interesses, se vós fôsseis carnais e mundanos, ‘o mundo amaria o que era seu’. Mas, porque sois chamados para fora do mundo, o mundo vos aborrece, e sempre irá fazê-lo”. Observe que:

1. Nós não devemos nos espantar se aqueles que são devotados ao mundo são apreciados por ele, como seus amigos. A maioria dos homens bendiz ao avarento, Salmos 10.3; 49.18.

2. Tampouco devemos nos espantar se aqueles que são libertados do mundo são difamados por ele, como seus inimigos. Quando Israel é libertado do Egito, os egípcios os perseguem. Observe que a razão pela qual os discípulos de Cristo não são do mundo não é porque tenham, pela sua própria sabedoria e virtude, se separado do mundo, mas porque Cristo os escolheu do mundo, para consagrá-los para si mesmo, e esta é a razão pela qual o mundo os odeia, pois:

(1) A glória à qual, por virtude desta escolha, eles são designados, os coloca acima do mundo, e, desta forma, os faz objetos da inveja do mundo. Os santos julgarão o mundo, e os justos terão o do­ mínio, e por isto são odiados.

(2) A graça de que, por virtude desta escolha, eles são dotados, os coloca contra o mundo. Eles nadam contra a corrente do mundo, e não se conformam a ele. Eles dão testemunhos contra ele, e não se conformam a ele. O fato de que eram odiados os sus­ tentaria sob todas as calamidades que o ódio do mundo traria sobre eles, porque eram a escolha e os escolhidos do Senhor Jesus, e não eram do mundo. Veja:

[1] Esta não era uma causa justa para que o mundo os odiasse. Se fizermos qualquer coisa para nos tornarmos odiosos, nós temos razão para lamentar. Porém, se os homens nos odiarem pelos motivos pelos quais deveriam nos amar e valorizar, nós temos razão para sentir pena deles, mas não para nos sentirmos perplexos. Na verdade:

[2] Esta era uma causa justa para sua própria alegria. Aquele que é odiado por ser rico e próspero não se preocupa com quem se irrita com isto, desde que ele esteja satisfeito.

Em segundo lugar: “Uma outra causa pela qual o mundo vos odeia é porque vocês pertencem a Cristo (v. 21): ‘Por causa do meu nome”‘. Aqui está o âmago da controvérsia. Não importa o que se finja, esta é a base da disputa, eles odeiam os discípulos de Cristo porque eles levam seu nome, e conservam seu nome no mundo. Observe:

1. Faz parte do caráter dos discípulos de Cristo o fato de defenderem seu nome. O nome no qual eles foram batizados é aquele pelo qual eles irão viver e morrer.

2. A sorte daqueles que se posicionam a favor do nome de Cristo tem sido, normalmente, o sofrimento por fazerem isto. Estes sofrem muito, sofrem duramente, todo tipo de adversidades. É uma questão de consolo para os maiores sofredores se eles sofrerem pelo nome de Cristo. “Se, pelo nome de Cristo, sois vituperados, bem-aventurados sois” (1 Pedro 4.14), realmente bem-aventurados, não considerando somente a honra que se estampa sobre aqueles sofrimentos (Atos 5.41), mas o consolo que lhes é infundido, e especialmente a coroa da glória à qual estes sofrimentos conduzem. Se sofrermos com Cristo, e por Cristo, com Ele reinaremos.

Em terceiro lugar, afinal, a ignorância do mundo é a verdadeira causa da sua inimizade com os discípulos de Cristo (v. 21): “Porque não conhecem aquele que me enviou”.

1. Eles não conhecem a Deus. Se os homens tivessem somente o conhecimento devido dos primeiros princípios da religião natural, e somente conhecessem a Deus, ainda que não aderissem ao cristianismo, não o teriam odiado e perseguido. Não têm conhecimento aqueles que comem o povo de Deus, Salmos 14.4. 2. Eles não reconhecem a Deus como aquele que enviou nosso Senhor Jesus, e o autorizou a ser o grande Mediador da paz. Nós não conheceremos a Deus corretamente, se não o conhecermos em Cristo, e aqueles que perseguem àqueles que Ele envia, demonstram que não reconhecem que Ele foi enviado de Deus. Veja 1 Coríntios 2.8.

2. O mundo odeia o próprio Cristo. E isto é dito aqui, com duas finalidades:

(1) Para mitigar a perturbação dos seus seguidores, despertada pelo ódio do mundo, e torná-la menos estranha e menos lamentável (v. 18): “Sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim”. Nós lemos isto como indicando uma anterioridade temporal. Jesus começou com o cálice amargo do sofrimento, e depois nos deixou como seus fiadores. Mas isto pode ser interpretado como expressando sua superioridade sobre eles: “Vocês sabem que ele me odiou, a mim, seu primeiro, seu principal e capitão, seu líder e comandante”.

[1] Se Cristo, que era excelente em bondade, e perfeitamente inocente e universalmente beneficente, era odiado, poderemos nós esperar que qualquer virtude ou mérito nosso nos proteja da maldade?

[2] Se nosso Mestre, o fundador da nossa fé, encontrou tanta oposição para plantá-la, seus servos e seguidores não podem esperar outra coisa, por propagá-la e professá-la. Por isto, Ele os lembra (v. 20) das suas próprias palavras, em sua admissão ao discipulado: “Lembrai-vos da palavra que vos disse”. Uma grande ajuda para compreender as últimas palavras de Cristo está em compará-las com as suas primeiras. Nada contribui mais para nos facilitar a compreensão do que a lembrança das palavras de Cristo, que irão esclarecer suas providências. Nesta palavra, temos, em primeiro lugar, uma verdade clara: “Não é o servo maior do que o seu senhor”. Isto Ele lhes tinha dito, Mateus 10.24. Cristo é nosso Senhor, e por isto nós devemos, diligentemente, acompanhar todos os seus movimentos, e pacientemente aquiescer em todas as suas disposições, pois o servo é inferior ao seu Senhor. As verdades mais claras, às vezes, são os argumentos mais fortes a favor das mais difíceis tarefas. Eliú responde a inúmeras queixas de Jó com uma única verdade óbvia: “Maior é Deus do que o homem”, Jó 33.12. Aqui temos, em segundo lugar, uma dedução apropriada que se obtém de tudo isto: “Se a mim me perseguiram”, como foi visto, e provavelmente ainda será, ‘também vos perseguirão a vós’. Vós podeis esperar e contar com isto, pois:

1. “Vocês farão a mesma coisa que Eu fiz, para provocá-los. Vocês os censurarão pelos seus pecados, e os chamarão ao arrependimento, e lhes darão regras rígidas para viver de maneira santa que eles não poderão suportar”.

2. “Vocês não podem fazer nada além do que Eu fiz, para agradá-los. Depois de um exemplo tão grande, que ninguém se espante se eles permitirem o mal a quem faz o bem”. Ele acrescenta: “Se guardarem a minha palavra, também guardarão a vossa”. Assim como houve alguns, e somente alguns, que foram transformados pela minha pregação, também haverá, transformados por vocês, alguns, e somente alguns”. Alguns dão outro sentido a isto, substituindo “Se eles ficavam à espreita, esperando minhas palavras, com o desígnio de me atrair a uma armadilha, de igual maneira ficarão esperando para confundir vocês nas suas palavras”.

(2) Para agravar a maldade deste mundo descrente, e para revelar sua natureza excessivamente pecaminosa. Odiar e perseguir os apóstolos já era suficientemente ruim, mas odiar e perseguir ao próprio Cristo era muito pior. O mundo, em geral, tem uma má fama nas Escrituras, e nada pode dar-lhe uma fama pior do que esta, que ele odiava a Jesus Cristo. Existe um mundo de pessoas que odeiam a Cristo. Ele insiste em duas coisas, para agravar a maldade daqueles que o odiavam:

[1] Que havia a maior razão imaginável para que eles o amassem. As boas palavras e as boas obras dos homens normalmente os recomendam, e, quanto a Cristo: Em primeiro lugar, suas palavras eram tais que mereciam o amor deles (v. 22): “Se eu não viera, nem lhes houvera falado, não teriam pecado”, sua oposição não teria resultado em um ódio por mim, seu pecado teria sido, comparativamente, como nenhum pecado. Mas agora que Eu lhes disse tantas coisas, para recomendar-me aos seus melhores afetos, não têm desculpa do seu pecado”. Observe aqui:

1. A vantagem que têm aqueles que apreciam o Evangelho. Cristo, nele, vem e fala a eles. Ele falou, pessoalmente, aos homens daquela geração, e ainda fala a nós, por meio da sua Palavra, a Bíblia, e dos nossos ministros, e como alguém que tem a mais inquestionável autoridade sobre nós, e afeto por nós. Cada uma de suas palavras é pura, e traz consigo uma majestade dominante, e ainda assim uma ternura condescendente, capaz, poderíamos pensar de encantar até mesmo a víbora mais surda.

2. A desculpa que têm aqueles que não apreciam o Evangelho: “Se eu não… lhes houvera falado”, se nunca tivessem ouvido falar de Cristo e da salvação por seu intermédio, “não teriam pecado”.

(1) Não este tipo de pecado. Eles não teriam sido passíveis de condenação por desprezar a Cristo se Ele não tivesse vindo e feito uma oferta da sua graça a eles. Assim como o pecado não é imputado onde não há lei, também a descrença não é imputada onde não existe Evangelho. E, onde ele for imputado, será, até então, o único pecado condenador, pois, sendo um pecado contra o remédio, outro pecado não condenaria, se a culpa deles não estivesse ligada a este.

(2) Não um pecado de tal magnitude. Se não tivessem tido o Evangelho entre eles, seus outros pecados não teriam sido tão graves, pois Deus não leva em conta os tempos da ignorância, Lucas 12.47,48; Atos 17.30.

3. A culpa agravada que têm aqueles a quem Cristo veio e falou em vão, a quem Ele chamou e convidou em vão, com quem Ele argumentou e implorou em vão.

“Não têm desculpa do seu pecado”. Eles são completamente imperdoáveis, e no dia do juízo estarão sem palavras, e não terão uma palavra sequer para dizer em sua defesa. Observe que, quanto mais claras e completas são as revelações da graça e da verdade de Jesus Cristo que nos são feitas, mais nos é dito que é convincente eterno, e maior é nosso pecado se não o amarmos e se não crermos nele. A palavra de Cristo despe o pecado do seu manto, para que possa parecer pecado.

Em segundo lugar, suas obras eram tais, que mereciam o amor deles, tanto quanto suas palavras (v. 24): “Se eu, entre eles, não fizesse tais obras’, na terra deles, e diante de seus olhos, obras tais como nenhum outro homem jamais fez, não teriam pecado. Sua descrença e inimizade teriam sido desculpáveis, e eles poderiam ter tido alguma justificativa para dizer que minha palavra não merecia crédito, se não fosse confirmada de outra maneira”. Mas Ele produzia provas satisfatórias da sua missão divina, obras que nenhum outro homem fazia. Observe que:

1. Assim como o Criador demonstra seu poder e sua divindade pelas suas obras (Romanos 1.20), também faz o Redentor. Seus milagres, suas misericórdias, obras maravilhosas e obras de graça, provaram que Ele era o enviado de Deus, aquele que foi enviado em uma missão de bondade.

2. As obras de Cristo eram do tipo que nenhum homem jamais havia feito. Nenhuma pessoa comum, que não tivesse comissão do céu, e Deus consigo, podia realizar milagres, cap. 3.2. E nenhum profeta jamais realizou tais milagres, tantos e tão famosos. Moisés e Elias realizavam milagres como servos, por um poder derivado, mas Cristo, como um Filho, pelo seu próprio poder. O que maravilhava o povo era o fato de que, com autoridade, Ele ordenasse as enfermidades e os demônios (Marcos 1.27). Eles reconheciam que nunca tinham visto ninguém semelhante, Marcos 2.12. Eram todas obras boas, obras de misericórdia, e este parece ser o principal objetivo aqui, pois Ele os está censurando através destas palavras, porque o odiavam. Alguém que fosse tão universalmente amado, e ainda assim Ele é odiado.

3. As obras de Cristo intensificam a culpa da infidelidade e da inimizade dos pecadores por Ele, até o último estágio de maldade e de absurdo. Se eles tivessem somente ouvido suas palavras, e não tivessem visto suas obras – se tivéssemos somente seus sermões registrados, e não seus milagres, a descrença poderia ser justificada pela falta de provas. Mas agora não havia desculpa. Não, a rejeição a Cristo, tanto por eles quanto por nós, tem em si o pecado, não somente da descrença obstinada, mas da vil ingratidão. Eles viram Cristo sendo extremamente afável e esforçando-se para fazer-lhes algum ato de bondade. Ainda assim, odiaram-no, e procuraram fazer-lhe danos. E nós vemos na sua palavra aquele grande amor com o qual Ele nos amou, e ainda assim não somos transformados por ele.

[2] Que não havia nenhuma razão pela qual devessem odiá-lo. Alguns que, em certa ocasião, dizem e fazem aquilo que é recomendável, em outra dizem e fazem aquilo que é provocador e descortês. Mas nosso Senhor Jesus não somente fez muito para merecer a estima e a boa vontade dos homens, como nunca fez nada especificamente para incorrer no seu desprazer. Isto Ele alega, citando uma passagem das Escrituras (v. 25): “Isto acontece, este ódio irracional a mim, e aos meus discípulos, por minha causa, ‘para que se cumpra a palavra que está escrita na sua lei’ (isto é, no Antigo Testamento, que é uma lei, e que era aceita por eles como uma lei): “Aborreceram-me sem causa”. Davi fala isso a seu respeito como um tipo de Cristo, Salmos 35.19; 69.4. Observe, em primeiro lugar, que aqueles que odeiam a Cristo, o odeiam sem nenhuma justa causa. A inimizade a Cristo é uma inimizade irracional. Nós pensamos que merecem ser odiados aqueles que são arrogantes e insubordina­ dos, mas Cristo é manso e humilde, compassivo e terno. Também aqueles que, sob o pretexto da complacência, são maldosos, invejosos e vingativos, mas Cristo se dedicou a servir aqueles que o usavam, ou melhor, aqueles que abusavam dele. Ele trabalhou para a comodidade dos outros, e se empobreceu para nos enriquecer. Nós julgamos odiosos aqueles que são rebeldes e danosos aos reis e às províncias, e perturbam a paz pública, mas Cristo, ao contrário, era a maior bênção imaginável à sua nação, e ainda assim era odiado. Ele testemunhava, na verdade, que as obras do povo eram más, e testemunhava com um desígnio de fazer-lhes bem, mas odiá-lo por isto era odiá-lo sem causa. Em segundo lugar, com isto se cumpriram as Escrituras, e o antítipo correspondeu ao tipo. Saul e seus cortesãos odiaram a Davi sem causa, pois ele lhe tinha sido útil com sua harpa e com sua espada. Absalão e seu grupo o odiaram, embora, para ele, Davi tivesse sido um pai indulgente, e para o grupo, um grande benfeitor. Assim também foi odiado o Filho de Davi, e perseguido da forma mais injusta. Aqueles que odiavam a Cristo não tinham o desígnio de cumprir as Escrituras, mas Deus, ao permitir isto, tinha este objetivo. E o fato de que até mesmo isto tinha sido predito a respeito de Cristo, e que, como tinha sido predito cumpriu-se nele, confirma a fé que temos nele como o Messias. E não devemos julgar estranho ou árduo se houve um cumprimento adicional em nós. Nós somos capazes de justificar nossas queixas das injúrias feitas a nós dizendo que são sem causa, ao passo que, quanto mais sem causa são, mais semelhantes são aos sofrimentos de Cristo, e podem ser mais facilmente suportadas.

4. Em Cristo, o mundo odeia ao próprio Deus. Isto é dito aqui duas vezes (v. 23): “Aquele que me aborrece”, embora pense que seu ódio não vai mais além, de fato “aborrece também a meu Pai”. E novamente no versículo 24: ”Aborreceram a mim e a meu Pai”. Observe que:

(1) Existem aqueles que odeiam a Deus, apesar da beleza da sua natureza e da generosidade da sua providência. Eles se enfurecem com sua justiça, como os demônios, que creem e estremecem, se irritam com seu domínio, e alegremente romperiam seus elos. Aqueles que não conseguem negar que existe um Deus, e ainda assim desejam que não houvesse nenhum, estes o veem e o odeiam.

 (2) O ódio a Cristo será interpretado e considerado como ódio a Deus, pois Ele é, na sua pessoa, a imagem expressa de seu Pai, e na sua função, seu grande agente e embaixador: Deus deseja que todos os homens honrem ao Filho como honram ao Pai, e, portanto, qualquer recepção que tenha o Filho, o Pai também a tem. Com isto, é fácil concluir que aqueles que são inimigos da religião cristã, por mais que aleguem ter a religião natural, são, na verdade, inimigos de todas as religiões. Os deístas, na verdade, são ateus, e aqueles que ridicularizam a luz do Evangelho desejariam, se pudessem, extinguir toda a luz natural, e se libertar de todas as obrigações de consciência e do temor a Deus. Que o mundo descrente e maligno saiba que sua inimizade ao Evangelho de Cristo será considerada, no grande dia, como uma inimizade ao próprio Deus bendito. E que todos os que sofrem por causa da justiça, de acordo com a vontade de Deus, se consolem com isto. Se o próprio Deus for odiado neles, e atingido, por intermédio deles, eles não devem nem se envergonhar da sua causa, nem temer o resultado.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUASE TODOS DO MESMO LADO

A pressão social em prol da homogeneidade pode explicar por que há seis vezes mais pessoas destras que canhotas; cientistas especulam as vantagens evolutivas de usar uma mão ou outra e como a lateralidade aparece em outra espécie.

Quase todos do mesmo lado

Com que mão você escreve? A probabilidade maior é que seja com a direita. Ao questionarmos por que a maior parte das pessoas é destra, a resposta pode cair na mesma linha que a da pergunta “por que os peixes andam em cardumes?”. Os neurocientistas Giorgio Vallortigara, da Universidade de Trieste, na Itália, e Lesley Rogers, da Universidade da Nova Inglaterra, na Austrália, sugerem que as pressões sociais levam tanto pessoas quanto animais a coordenar seus comportamentos de maneira que todos no grupo ganhem uma vantagem evolutiva.

O fato é que mais de 80% da população prefere usar a mão direita, que é controlada pelo hemisfério esquerdo do cérebro. Um benefício – pelo menos teórico, mas não necessariamente prático – de colocar uma função particular em um hemisfério é que isso libera o outro para lidar com outras tarefas. Mas essa hipótese não explica por que há tendências para utilizarmos mais uma mão ou outra. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, que acompanham gêmeos para estudar a hereditariedade, acreditam que o cérebro de destros e canhotos tenha algumas pequenas diferenças. Eles suspeitam que isso ocorra porque os genes que formam o cérebro dos destros têm estruturas com lados ligeiramente desiguais e os canhotos parecem ter perdido aqueles genes. A diferença resulta em um cérebro um pouco mais simétrico nos canhotos, com os dois lados mais iguais, segundo o neurogeneticista Daniel Geschwind, que conduziu a equipe de pesquisa. O que isso representa, exatamente, ainda é objeto de investigação.

Há alguns anos, cientistas acreditavam que a escolha por um dos lados fosse subproduto da especialização do cérebro na área da linguagem – o que tornaria apenas os humanos canhotos ou destros, mas uma série de estudos revelou a lateralização cerebral em várias espécies, de peixes a primatas. Cientistas descobriram, por exemplo, que os chimpanzés mostram preferência por uma das mãos, em condições selvagens.

Vallortigara e Rogers defendem que a presença da lateralização em vários segmentos do reino animal sugere a existência de alguma vantagem nessa característica. Os dois cientistas publicaram um artigo no periódico científico Behavioral and Brain Science, em que apresentaram evidências de que as pressões sociais forçam os indivíduos para o mesmo tipo de assimetria (prevalência de um dos lados). Eles perceberam, por exemplo, que pintinhos atacam mais prontamente quando uma ameaça aparece em seu lado esquerdo. Rogers descobriu que, curiosamente, esses filhotes com cérebros mais assimétricos formam grupos sociais especialmente estáveis.

A lateralização parece conferir benefício para alguns peixes também. Em certas espécies, a maioria tende a nadar para a esquerda quando um predador ataca, enquanto que outras espécies vão para a direita. As vantagens potenciais de padrões como esses podem não aparecer de maneira intuitiva: um predador poderia aprender que atacar um peixe de um lado específico funciona melhor. Mas a ideia de Vallortigara e Rogers combina com a explica o convencional da razão pela qual os peixes andam em cardumes. Quando ameaçados, o fato de todos virarem na mesma direção garante a eles maior chance de sobrevivência do que se eles se espalharem para se tornar um confuso conjunto de peixes fugitivos. E os que sobrevivem repassam seus genes a seus descendentes – que têm possibilidade ampliada de manter o comportamento.

Ainda assim, dados sobre peixes e pássaros não explicam a assimetria humana. “Talvez essa característica venha de muito antes do surgimento dos mamíferos, especula Robin Dunbar, psicólogo evolucionista da Universidade de Liverpool. “Se fosse assim, mamíferos teriam a preferência lateral simplesmente porque seus ancestrais tinham, o que retorna às origens dos peixes. “Elizabeth V. Lonsdorf, do Zoológico do lincoln Park de Chicago, e William D. Hopkins, do Centro Nacional Yerkes de Pesquisa de Primatas, de Atlanta, publicaram um estudo sobre macacos que reforçou essa ideia. Seus dados mostram que chimpanzés selvagens mostram preferências hereditárias de mãos para realização de certas tarefas com ferramentas – por exemplo, dois terços dos chimpanzés selvagens observados preferiam usar a mão esquerda para retirar cupins de um buraco, cutucando-o com um galho. Antes disso, os primatas já tinham mostrado preferências por uma mão ou outra em cativeiro, mas não em ambiente selvagem. Isso fazia os cientistas especularem que os macacos se lateralizavam por meio da interação com humanos.

As descobertas com os chimpanzés preenchem o que era considerado um misterioso “elo perdido” entre vertebrados inferiores e humanos. “Escapar do argumento de fuga da singularidade humana foi bom, fez pessoas repensarem de verdade algumas de suas teses”, diz Hopkins. Outras explicações para a lateralização existem – por exemplo, a de que foi transmitida como parte de um pacote genético maior. Um grupo de genes poderia dar vantagens a seu possuidor, mas de maneira não relacionada à preferência lateral. “Eu rejeitaria a ideia de que há uma explicação definitiva, porque é um problema muito complexo para ter uma única explicação, parece mais ser resultante de um conjunto de fatores”, acredita o neurocientista Jeffrey Hutsler, da Universidade de Michigan em Ann Arbor.

Dadas possíveis razões evolutivas para explicar a norma, o que dizer sobre os canhotos? A segurança dos predadores aumenta com o tamanho do grupo, mas a competição também cresce, o que torna benéfico o comportamento diferenciado. Estudos sobre o fato de ser canhoto em alguns esportes individuais, como o boxe, sugerem o mesmo.

OUTROS OLHARES

DESAFIOS DE IR E VIR

Nas grandes cidades brasileiras as pessoas costumam levar de uma a quatro horas para se deslocar até o trabalho. Pelo caminho, carros, motos, caminhões e pedestres disputam espaço. Resultado: tensão, problemas afetivos e de saúde.

Desafios de ir e vir

Amanhece chovendo. Para quem mora em grandes cidades, esta simples constatação é sinônimo de tensão logo nas primeiras horas do dia. Trânsito lento, quilômetros de congestionamento e pontos alagados dificultam uma tarefa crítica que consome um tempo considerável na vida de muitas pessoas: o deslocamento entre a casa e o trabalho e vice-versa – um importante fator de estresse na vida de milhões de pessoas no mundo todo, sobretudo em regiões metropolitanas.

As horas gastas dentro de carros, ônibus ou trens, de segunda a sexta, para ir e voltar, acabam desgastando o vigor físico e psíquico de qualquer um. É um tempo morto, que poderia ser mais bem empregado na academia de ginástica ou no convívio com a família ou com os amigos. Para piorar, sempre paira sobre essas pessoas a terrível – e imprevisível – ameaça das condições do tempo e do trânsito. Em cidades como São Paulo há um agravante: a disputa constante (e violenta) entre carros, caminhões, ônibus e motos. Tudo isso deixa marcas no corpo, na mente e nas relações sociais. “Percorrer longas distâncias diariamente requer um esforço corporal e psíquico não apenas do indivíduo, mas também das pessoas que vivem com ele”, diz o sociólogo Norbert Schneider, diretor do Instituto Federal de Pesquisa Populacional, em Wiesbaden, Alemanha. Ele concluiu nos anos 2000 a pesquisa Deslocamento para o trabalho e modo de vida, encomendada pelo governo alemão. Estudo semelhante já foi realizado também pela prefeitura de São Paulo.

CARGA PSICOSSOMÁTICA

Os resultados obtidos por Schneider mostram que a angústia das pessoas que enfrentam longos trajetos diariamente está relacionada ao medo de se atrasar ou sofrer acidentes. Como não poderia deixar de ser, a prevalência de doenças de origem psicossomática nessa população é bem maior do que naqueles que moram perto do emprego. Os problemas mais comuns foram dores nas costas, distúrbios gastrintestinais e de sono, hipertensão, fadiga crônica e dificuldade de concentração.

Uma ideia mais precisa desses efeitos foi fornecida por um levantamento feito pelo Centro de Pesquisas em Psicoterapia de Stuttgart e pela Faculdade de Medicina de Ulm. Os pesquisadores entrevistaram 407 passageiros de trem que viajavam diariamente entre Stuttgart e Ulm por motivos de trabalho. As perguntas se referiam à quantidade de baldeações, duração da viagem, motivos para o deslocamento e experiências subjetivas. Além disso, os participantes responderam a um questionário sobre qualidade de vida e queixas de saúde física e mental.

Os resultados mostraram que 90% dos entrevistados levavam mais de 45 minutos para chegar ao trabalho e o mesmo tempo para retornar. O que mais despertou o interesse dos pesquisadores, porém, foram os dados de longo prazo: 50% dos viajantes percorriam o mesmo trajeto havia mais de cinco anos e 20%, havia mais de uma década. “As condições psicossomáticas dessas pessoas eram assustadoras”, conta o psicólogo Steffen Háfner, coordenador do estudo alemão. Os dados indicaram ainda que o número de entrevistados que se queixaram de dores, tontura, fadiga e privação de sono era duas vezes no grupo que percorria longas distâncias do que no grupo dos que trabalhavam perto de casa. Segundo o psicólogo, 31% dos homens e 37% das mulheres dependiam de medicamentos.

Além dos distúrbios claramente resultantes do estresse crônico, quem viaja todos os dias também está mais exposto a doenças físicas, como infecções (quem depende de transporte público) e artrose (quem fica horas ao volante). Estudo feito na França mostrou que mulheres grávidas que utilizaram o metrô por mais de 90 minutos diários deram à luz bebês abaixo do peso, em comparação a gestantes que não passaram pela mesma situação. Os pesquisadores suspeitam do cansaço físico gerado principalmente pela vibração dos trens e pelas baldeações, que não são poucas em Paris.

SAÚDE BUCAL

Outra pesquisa, feita por cientistas noruegueses, encontrou evidências de que os chamados trabalhadores itinerantes têm mais problemas odontológicos. Mas o que as longas distâncias diárias podem ter a ver com a saúde bucal? Provavelmente essas pessoas chegam tão cansadas que não são capazes de fazer uma boa higienização, não têm uma preocupação preventiva e ficam satisfeitas com medidas reparadoras de curto prazo, argumentam os autores. Na origem do problema, porém, a falta de tempo livre para o cuidado de si parece ser um fator importante na deterioração da saúde dessa população.

O estudo de Schneider já havia detectado a escassez de tempo como questão crítica também para a manutenção de uma vida social saudável. De 65 pessoas que responderam a um questionário sobre qualidade de vida, 60 % reclamaram não sobrar tempo para si mesmas: vida noturna ou reunião com amigos não faziam parte de seu cotidiano. Quando finalmente chegam em casa, as poucas horas que restam do dia são compartilhadas com o cônjuge e os filhos. Ainda assim, boa parte das vezes, nem isso é suficiente: um terço dos participantes se queixou de não poder dar atenção suficiente à família. Brincar com as crianças ou ter momentos de lazer com o parceiro são atividades restritas aos fins de semana ou às férias. Outra reclamação frequente é a experiência angustiante de não pertencimento a um grupo social e de muitas vezes se sentir um estranho na própria casa. Obviamente, a vida conjugal sofre alguns arranhões. Falta de intimidade, companheirismo com hora marcada e discussões recorrentes sobre divisão das tarefas podem deixar cicatrizes no relacionamento do casal. A pesquisa de Schneider mostrou que dois terços dos parceiros sentiam-se mais incomodados com a situação do que os próprios trabalhadores. E um terço deles afirmou estar frustrado com a relação por ter de dar conta de praticamente todas as tarefas relacionadas à casa e aos filhos. Segundo o psicólogo, isso quase sempre ocorre quando a própria carreira ou outros interesses profissionais são preteridos. Em geral, o sentimento de sobrecarga não tarda a aparecer. Para um terço dos parceiros dos trabalhadores itinerantes, esse estilo de vida não tinha sequer um aspecto positivo. A pergunta que não quer calar é: por que essas pessoas fazem isso consigo mesmas e com a própria família? Os motivos são muitos, mas podem ser resumidos a apenas três.

Em primeiro lugar, o indivíduo que gasta horas para ir trabalhar tem um salário que, na visão dele, faz o esforço valer a pena. Além disso, a justificativa para morar longe do trabalho quase sempre tem a ver com melhor qualidade de vida longe dos grandes centros urbanos. Por fim, as crianças geralmente frequentam a escola do bairro e o cônjuge trabalha perto de casa, não parecendo oportuno mudar de endereço a curto prazo.

Infelizmente, todas as expectativas positivas relacionadas a essa situação não se sustentam a longo prazo. Pior, as desvantagens as superam. Essa foi a conclusão do estudo coordenado pelos economistas Bruno Frey e AIois Stutzer, do Instituto de Pesquisa Econômica da Universidade de Zurique. Eles analisaram os dados de questionários respondidos, ao longo de anos, por mais de mil famílias alemãs. A análise das séries históricas revelou que parâmetros como renda, tempo de deslocamento, condições de moradia e grau de satisfação com a vida mudam no decorrer dos anos. É importante destacar algumas premissas que os pesquisadores consideraram antes da avaliação dos dados. Presumiu-se que os trabalhadores agem de forma racional e consideram a possibilidade de trabalhar longe de casa em virtude de características objetivas do mercado de trabalho e imobiliário. Os economistas calculam a satisfação total de um indivíduo como a soma dos lucros menos a soma dos desgastes. Assim, cada minuto a mais que a pessoa gasta no deslocamento aumenta sua insatisfação com a vida. Em tese, o estresse do vaivém diário deveria ser compensado pelo bem-estar que seria consequência de melhores condições de trabalho e de uma contrapartida financeira que lhe permitisse melhorar o padrão de vida.

Os pesquisadores suíços quantificaram todos esses efeitos baseando-se nas séries históricas que continham dados referentes ao bem-estar geral (escala de zero a dez). O valor médio das sete séries analisadas foi de 7,14. As análises mostraram também que um itinerário de uma hora por trecho (ida ou volta) reduz esse valor em O,16. O mais impressionante, porém, é que, para o salário compensar essa queda, seria necessário um aumento líquido de 40%.

Pode até ser que essas estimativas estejam um pouco distantes da realidade, mas o que não se pode negar é que o trabalhador itinerante, quando aceita uma proposta para trabalhar longe de sua residência, está pensando em algum tipo de compensação profissional ou material que ele não teria em outra oportunidade. O que geralmente escapa à sua compreensão nesse momento é o impacto real dos desgastes físico, psíquico, familiar e social, quase sempre subestimados, de acordo com os especialistas suíços. Além disso, eles ressaltam que as pessoas rapidamente se acostumam a salários mais altos e a mais conforto material, ao passo que o incômodo de ser obrigado a percorrer longos caminhos pouco a pouco se intensifica e pode se tornar intolerável. Frey e Stutzer reconhecem, entretanto, que suas análises tendem a igualar os indivíduos e apagar diferenças importantes na forma como toleram a situação. Schneider lembra que é decisivo saber se esse longo percurso está associado ou não a pressões profissionais ou objetivos pessoais. “Quem toma a decisão de mudar para o campo e assim realizar um sonho de vida, por exemplo, tende a se adaptar melhor a esse tipo de desgaste do que aqueles que acabam se sujeitando a trabalhar longe porque passaram muito tempo desempregados”, explica. Segundo o psicólogo, há pelo menos dois tipos de trabalhadores itinerantes: os que optaram por isso e os que não tiveram escolha.

Mas por que as pessoas que sofrem com esses longos percursos simplesmente não tentam modificar sua vida? Segundo Steffen Hafner, o vaivém diário se transforma facilmente em solução indesejada e duradoura, graças a boas doses de resignação. No início muitos pensam: “Faço isso por um ou dois anos, e depois vejo como fica”. Quase sempre essa ideia se revela ilusória. A força do hábito, a escassez crônica de tempo, o cansaço e a falta de motivação impedem o indivíduo de procurar uma alternativa melhor. Outras vezes aversão ao risco e comodidade acabam falando mais alto. “Trabalhadores itinerantes não conseguem imaginar uma alternativa para o statu quo. Mudar de emprego ou de residência simplesmente não passa pela cabeça deles, independentemente do quanto sofrem percorrendo longas distâncias”, diz Schneider. Segundo ele, viver perto do local de trabalho é sempre a melhor solução e traz consequências positivas para a profissão, a vida familiar e a saúde, além de ser mais barato.

Para quem mesmo assim não arreda pé de suas escolhas e prefere continuar com as longas jornadas, o conselho dos especialistas é tentar tornar a rotina um pouco mais leve. Dar carona, por exemplo, além de ser mais econômico, pode tornar a viagem de carro mais divertida. Para quem vai de ônibus ou de trem, ler ou ouvir música pode ajudar a cultivar um excelente hábito que, além do mais, ajuda a combater o estresse.

Desafios de ir e vir.2

LONGE DE CASA

Quase um terço dos brasileiros leva de uma a quatro horas para se deslocar de casa até o trabalho e vice-versa. O dado faz parte do levantamento Os custos do deslocamento do trabalho no Brasil, realizado pela prefeitura de São Paulo em 2014 com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), feita pelo IBGE.

O estudo revela também que o tempo de deslocamento dos brasileiros para ir ao trabalho e voltar, especialmente os que vivem nas regiões metropolitanas, vem aumentando nos últimos anos, embora tenha havido tendência de queda no início dos anos 90. O Distrito Federal, São Paulo e Rio de Janeiro foram as cidades com maior proporção de cidadãos que gastam mais de uma hora no vai e vem diário: 42%, 50% e 57%, respectivamente.

O levantamento aponta ainda para a relação entre tempo de deslocamento e rendimento médio do trabalhador. De forma geral, quanto maior a renda, mais tempo ele gasta para ir e voltar, embora haja exceções regionais. Em São Paulo e no Rio, por exemplo, quem tem renda maior pode levar até duas horas no trajeto, enquanto os que ganham menos levam ainda mais tempo. Em algumas capitais como Belém, Recife e Salvador, por outro lado, os profissionais mais bem pagos trabalham a mais de quatro horas da residência.

O foco da pesquisa, porém, foi o custo monetário do tempo despendido entre o domicílio e o trabalho. Levando-se em conta as horas gastas nesse deslocamento, o rendimento médio auferido por hora trabalhada e a massa de horas não trabalhadas estritamente por esse motivo, há uma perda potencial de quase R$ 93 bilhões ao ano. Se o tempo em circulação fosse trabalhado e remunerado, as pessoas teriam 15% a 20% de aumento na sua renda.

Desafios de ir e vir.3 

MENOS FILHOS

As pessoas que trabalham longe de casa costumam ser bem qualificadas e bem pagas e têm 30 a 50 anos. Elas costumam ter menos filhos que a média da população, sobretudo se forem mulheres, segundo o sociólogo Norbert Schneider, diretor do Instituto Federal de Pesquisa Populacional, em Wiesbaden, Alemanha. Um de seus estudos mostrou que boa parte dos homens que adotou esse estilo de vida vive casamentos tradicionais, em que as mulheres se dedicam exclusivamente aos cuidados da casa e das crianças.

 Desafios de ir e vir.4

COCHILO NO ÔNIBUS

Pessoas matutinas, isto é, que têm facilidade de acordar cedo, são as que mais sofrem com as longas distâncias até o trabalho. Apesar de despertarem bem-dispostas, não é raro que se sintam esgotadas no fim do dia, já os tipos vespertinos, que gostam das madrugadas e dificilmente se adaptam ao despertador, estão mais bem-dispostos no fim da tarde e começo da noite e tendem a compensar a privação de sono com cochilos no ônibus ou no metrô.

GESTÃO E CARREIRA

NANA SMARTPHONE, QUE A CUCA VEM PEGAR

Ponha o celular para dormir antes de você. A saúde agradece.

Nana smartphone, que a cuca vem pegar

Você checa redes sociais ou noticiários online antes de dormir, para não ficar desatualizado? Pois então, cuidado: estudo da School of Mass Communication Research, da Bélgica, revela que usar o smartphone pouco antes de dormir (um vício já comum em qualquer rincão do planeta) impede seu cérebro de liberar o hormônio da melatonina, essencial para alertar seu corpo que é hora de desligar a cabeça e, consequentemente, cair no sono.

Segundo os autores, expor seus olhos à luminosidade das telas dos aparelhos acaba enviando ao cérebro uma ordem de que não é hora de dormir e sim de funcionar. Esse hábito pode gerar insônia, sono leve e sintomas de fadiga, que prejudicarão o desempenho profissional ou escolar no dia seguinte.

O estudo chegou a essa conclusão testando 844 participantes belgas, entre 18 e 94 anos de idade, cuja maioria apresentou esses sintomas por causa do smartphone. O que pode gerar grandes prejuízos considerando que, por exemplo, 71% dos americanos dormem ao lado de seus smartphones.

Não por acaso, Arianna Huffington defende em seu novo livro, Thrive, o banimento de qualquer equipamento eletrônico de seu quarto, substituindo-o pela leitura de um livro de papel antes de cair no sono.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 15: 9-17

Alimento diário

O Amor de Cristo pelos seus discípulos

Cristo, que é o amor em pessoa, aqui está falando a respeito do amor, um amor quadruplicado.

 

I – A respeito do amor do Pai por Ele. E a esse respeito, aqui Ele nos diz:

1. Que o Pai realmente o amou (v.9): “Como o Pai me amou”. Ele o amou como um Mediador: “Este é o meu Filho amado”. Ele era o Filho do seu amor. Ele o amou, e todas as coisas entregou nas suas mãos, e ainda assim Ele amou tanto o mundo, a ponto de entregar seu Filho por todos nós. Quando Cristo estava iniciando seus sofrimentos, Ele se consolava com o pensamento de que seu Pai o amou. Aqueles a quem Deus ama como um Pai podem desprezar o ódio de todo o mundo.

2. Que Ele permanecia no amor do seu Pai, v. 10. Ele amava continuamente ao seu Pai, e era amado por Ele. Mesmo quando Ele se fez pecado e uma maldição por nós, e ao Senhor agradou feri-lo, ainda assim Ele permaneceu no amor do seu Pai. Veja Salmos 89.33. Por continuar a amar seu Pai, Ele prosseguiu alegremente pelos seus sofrimentos, e por isto seu Pai continuou a amá-lo.

3. Que Ele permanecia no amor do seu Pai porque obedecia à lei do seu Pai: “Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai”, como Mediador, “e permaneço no seu amor”. Com isto, Ele mostrava que continuava a amar seu Pai, que Ele prosseguia com sua missão, e a realizava, e por isto o Pai continuava a amá-lo. A alma do Pai se comprazia nele, porque Ele não faltará, nem será quebrantado, Isaías 42.1-4. Tendo infringido a lei da criação, nós nos excluímos do amor de Deus. Cristo fez a compensação por nós, obedecendo à lei da redenção, e, desta maneira, Ele permaneceu no amor do Pai, e nos restaurou a ele.

 

II – A respeito do seu próprio amor pelos seus discípulos. Embora Ele os deixe, Ele os ama. Observe aqui:

1. O padrão deste amor: “Como o Pai me amou, também eu vos amei a vós”. Uma estranha expressão da graça condescendente de Cr isto! Assim como o Pai amou a Ele, que era o mais digno, Ele amou a eles, que eram os mais indignos. O Pai o amou como seu Filho, e Ele os ama como seus filhos. O Pai entregou todas as coisas nas mãos do Senhor Jesus Cristo, e assim Ele nos dá livremente todas as coisas. O Pai o amou como Mediador, como cabeça da igreja, e como o grande consignatário da graça e do favor divino, que Ele tinha não somente para si, mas para o benefício daqueles por quem Ele foi comissionado. E diz Ele: “Eu tenho sido um consignatário fiel. Assim como o Pai me confiou seu amor, também eu o transmito a vocês”. Por isto, o Pai se comprazia nele, para que Ele pudesse se comprazer em nós, através do próprio Senhor Jesus. E por isto o amou, para que, nele, como amado, Ele pudesse nos fazer agradáveis, Efésios 1.6.

2. As provas e produtos deste amor, que são quatro:

(1) Cristo amou seus discípulos, pois deu sua vida por eles (v. 13): “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”. E este é o amor com o qual Cristo nos amou, Ele é nosso fiador, corpo por corpo, vida por vida, embora Ele conhecesse nossa insolvência, e previsse o quanto este compromisso lhe custaria. Observe aqui:

[1] A extensão do amor dos filhos dos homens, uns pelos outros. A maior prova de amor é dar a vida por um amigo, para salvar a vida dele, e talvez houvesse alguns feitos de amor heroicos como este, que poderiam ser considerados como mais do que arrancar os próprios olhos, Gálatas 4.15. Considerando que um homem estará disposto a dar tudo o que tiver pela sua vida, aquele que der tudo o que tiver por seu amigo estará literalmente dando tudo, e não poderá dar mais do que possui. Este, às vezes, pode ser nosso dever, 1 João 3.16. Paulo desejava ter uma honra como esta (Filipenses 2.17), e por um homem justo, alguns ousarão morrer, Romanos 5.7. Este é o amor no nível mais elevado, um amor que é tão forte quanto a morte.

[2] A excelência do amor de Cristo, acima de todos os outros amores. Ele não somente igualou, mas superou, os mais ilustres amigos. Outros deram suas vidas, satisfeitos com o fato de que elas lhes fossem tiradas. Porém, Cristo entregou a sua, não foi simplesmente passivo, mas fez disto seu próprio documento legal. A vida que os outros haviam dado tinha somente um valor igual à vida pela qual era dada, e talvez fosse até menos valiosa. Mas Cristo tem um valor infinitamente maior do que dez mil de nós. Outros deram suas vidas por seus amigos, mas Cristo entregou a sua por nós, quando éramos inimigos, Romanos 5.8,10. “Devem ser mais duros que o ferro ou a pedra aqueles corações que não se abrandam pela incomparável doçura do amor divino”. – Calvino.

(2) Cristo amou seus discípulos, pois Ele os levou a uma aliança de amizade consigo mesmo, vv. 14,15. “Se vocês, pela obediência, provarem ser verdadeiramente meus discípulos, vocês serão meus amigos, e serão tratados como amigos”. Observe que os seguidores de Cristo são os amigos de Cristo, e Ele se compraz graciosamente em chamá-los e considerá-los assim. Aqueles que cumprem o dever de seus servos são aceitos e promovidos à dignidade de seus amigos. Davi tinha um servo na sua corte, e Salomão tinha um na sua, que eram, de uma maneira particular, amigos do rei (2 Samuel 15.37; 1 Reis 4.5). Mas esta honra têm todos os servos de Cristo. Nós podemos, em alguma ocasião particular, ter amizade com um estranho, mas nós adotamos para nós todos os interesses de um amigo, e nos preocupamos com todas as suas preocupações. Assim, Cristo leva os crentes a serem seus amigos. Ele os visita e convive com eles, como seus amigos, é paciente com eles e aproveita deles o máximo que pode, aflige-se com suas aflições, e alegra-se com sua prosperidade. Ele intercede por eles no céu, e cuida de todos os seus interesses ali. Tendo amigos, será que todos se tornam somente uma alma? Aquele “que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito”, 1 Coríntios 6.17. Embora eles frequentemente se mostrem de uma maneira inamistosa, aquele que é amigo ama em todas as ocasiões. Observe a maneira carinhosa como isto é expresso aqui.

[1) Ele não os chamará de servos, embora eles o chamem de Mestre e Senhor. Aqueles que desejam ser como Cristo, em humildade, não devem se orgulhar de insistir em todas as ocasiões, na sua autoridade e superioridade, mas se lembrar de que seus servos são seus companheiros servos. Mas:

[2] Ele os chamará de seus amigos. Ele não somente os amará, mas fará com que saibam disto, pois a lei da beneficência está na sua língua. Depois da sua ressurreição, Ele parece falar com uma ternura mais afetuosa dos seus discípulos, e com eles, do que antes: “Vai para meus irmãos”, cap. 20.17. “Filhos, tendes alguma coisa de comer?”, cap. 21.5. Mas observe que, embora Cristo os chame de seus amigos, eles se chamam de seus servos: “Pedro, apóstolo [ou servo] de Jesus Cristo” (1 Pedro 1.1), e também Tiago, Tiago 1.1. Quanto mais honra Cristo nos confere, mais honra nós devemos nos empenhar para prestar a Ele. Quanto mais elevados aos seus olhos, mais humildes ao nossos.

(3) Cristo amou seus discípulos, pois Ele era muito livre na comunicação da sua vontade e do seu pensamento a eles (v. 15): “De agora em diante, não sereis mantidos às escuras, como tendes estado, como servos que somente conhecem seu trabalho atual. Mas, quando o Espírito for derramado, conhecereis os desígnios do vosso Mestre, como amigos. “Tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer”. Quanto à vontade secreta de Deus, há muitas coisas que nós devemos ficar satisfeitos em não saber, mas, quanto à vontade revelada de Deus, Jesus Cristo fielmente nos transmitiu o que Ele recebeu do Pai, cap. 1.18; Mateus 11.27. Cristo declarou aos seus discípulos as grandes coisas relativas à redenção do homem, para que eles pudessem declará-las a outros. Eles eram os homens do seu conselho, Mateus 13.11.

(4) Cristo amou seus discípulos, pois Ele os escolheu e ordenou para que fossem os mais importantes instrumentos da sua glória e honra no mundo (v. 16): “Eu vos escolhi a vós, e vos nomeei”. Seu amor por eles ficou aparente:

[1] Na sua escolha, a escolha para seu apostolado (cap. 6.70): “Escolhi a vós os doze”. A atitude inicial não se deu do lado deles: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós”. Por que eles eram admitidos a tal intimidade com Ele, empregados em tal missão por Ele, e dotados de tal poder do alto? Não era divido à sua sabedoria e benevolência, ao escolhê-lo para seu Mestre, mas sim ao seu favor e à sua graça, ao escolhê-los para seus discípulos. É apropriado que Cristo tivesse a escolha dos seus próprios ministros. Ele ainda a faz, pela sua providência e pelo seu Espírito. Embora os ministros façam deste santo chamado sua própria escolha, a escolha de Cristo é anterior à deles, e a orienta e deter­ mina. De todos os que são escolhidos para a graça e a glória, pode ser dito que eles não escolheram a Cristo, mas que Ele os escolheu, Deuteronômio 7.7,8.

[2] Na sua ordenação: “Vos nomeei”, “Eu vos coloquei no ministério (1 Timóteo 1.12), Eu vos comissionei”. Com isto, parece que Ele os tomou como seus amigos quando coroou seus corações com tal honra, e encheu suas mãos com tal confiança. Foi uma confiança poderosa que Ele depositou nos discípulos, ao fazer deles seus embaixadores, para negociar as questões do seu reino neste mundo inferior, e os primeiros ministros de estado, na administração dele. O tesouro do Evangelho foi confiado a eles, em primeiro lugar, para que pudesse ser propagado: Para que vades, “para que vades como sob um jugo ou uma carga, pois o ministério é um trabalho, e vós, que vos ocupais dele, deveis estar determinados a sofrer muito. Para que vades de lugar a lugar por todo o mundo, e deis fruto”. Eles foram ordenados, não para ficarem quietos, mas para se ocuparem, para serem diligentes no seu trabalho e para se dedicarem incansavelmente a fazer o bem. Eles foram ordenados, não para não fazerem nada, mas para serem úteis à mão de Deus, para trazerem as nações à obediência a Cristo, Romanos 1.13. Observe que aqueles a quem Cristo ordena devem produzir frutos, e o farão, devem trabalhar, e não trabalharão em vão. Em segundo lugar, para que pudesse ser perpetuado. Para que o fruto possa permanecer, para que o bom resultado dos seus esforços possa continuar no mundo, de geração em geração, até o fim dos tempos. A igreja de Cristo não devia ter vida curta, como muitas das seitas dos filósofos, que eram algo maravilhoso, porém passageiro. Ela não surgiu em uma noite, nem deveria perecer em uma noite, mas ser como os dias do céu. Os sermões e escritos dos apóstolos nos são transmitidos, e nós, até hoje, somos edificados sobre aquela fundação, desde que a igreja cristã foi fundada pelo ministério dos apóstolos e dos setenta discípulos. Assim como uma geração de ministros e cristãos morreu, outra veio. Em virtude daquela magna carta (Mateus 28.19), Cristo tem uma igreja no mundo que, como se referem nossos advogados a algo corporativo, não morre, mas vive em uma sucessão. E assim, seu fruto permanece até hoje, e assim será, enquanto a terra permanecer.

[3] Seu amor por eles se evidenciava no interesse que o trono da graça tinha neles: “A fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vos conceda”. Provavelmente, isto se refere, primeiro, ao poder de realizar milagres com o qual os apóstolos foram revestidos, que devia ser obtido pela oração. “Quaisquer dons que lhes sejam necessários para o desempenho dos seus trabalhos, qualquer que seja a ajuda do céu que vocês puderem utilizar, em qualquer ocasião, basta pedir e terão”. Três coisas aqui nos são sugeridas para nosso incentivo na oração, e são muito encorajadoras. Em primeiro lugar, que nós temos um Deus ao qual recorrer que é um Pai. Cristo aqui o chama de Pai, tanto seu como nosso, e o Espírito, na palavra e no coração, nos ensina a clamar: “Aba, Pai”. Em segundo lugar, que nós nos apresentamos a Deus, o Pai, em um bom nome. Qualquer que seja a missão que nos leve ao trono da graça, de acordo com a vontade de Deus, nós podemos, com uma humilde ousadia, mencionar o nome de Cristo nela, e alegar que temos um relacionamento com Ele, e que Ele se preocupa conosco. Em terceiro lugar, que uma resposta de paz nos é prometida. O que vocês vierem pedir, lhes será dado. Esta grande promessa feita àquela grande missão preserva uma confortável e vantajosa relação entre o céu e a terra.

 

III – A respeito do amor dos discípulos por Cristo, ordenado em consideração ao grande amor com que Ele os tinha amado. Ele os exorta a três coisas:

1. A permanecerem no seu amor, v. 9. “Permaneçam no seu amor por mim, e no meu por vocês”. Ambos podem ser entendidos aqui. Nós devemos colocar nossa felicidade na continuidade do amor de Cristo por nós, e ocupar-nos de dar contínuas provas do nosso amor por Cristo, de modo que nada possa nos tentar a afastar-nos dele, ou provocá-lo a afastar-se de nós. Observe que todos os que amam a Cristo devem permanecer no seu amor por Ele, isto é, estar sempre amando-o, e aproveitando todas as oportunidades para demonstrar isto, e amá-lo até o fim. Os discípulos deviam sair em uma missão por Cristo, na qual eles se deparariam com muitos problemas. Mas diz Cristo: “Permaneçam no meu amor. Conservem seu amor por mim, e então todos os problemas com que se depararem serão fáceis. O amor tornou fáceis os sete anos de trabalho árduo para Jacó. Que as dificuldades que vocês encontrarem por causa de Cristo não apaguem seu amor por Ele, mas que o despertem”.

2. A fazerem com que sua alegria permaneça neles, e os encha, v. 11. Isto, Ele planejou naqueles preceitos e promessas que foram dados a eles.

(1) Que sua alegria possa permanecer neles. As palavras estão colocadas de tal maneira, no original, que podem ser interpretadas, ou:

[1] Que minha alegria em vós possa permanecer. Se eles produzirem muitos frutos, e permanecerem no seu amor, Ele continuará a comprazer-se neles, como tinha feito antes. Observe que os discípulos fiéis e produtivos são a alegria do nosso Senhor Jesus. Ele se deleita no seu amor por eles, Sofonias 3.17. Assim como há um arrebatamento de alegria no céu, na conversão dos pecadores, também há uma alegria remanescente na perseverança dos santos. Ou:

[2] Que minha alegria, isto é, vossa alegria em mim, possa permanecer. Ê a vontade de Cristo que seus discípulos possam constantemente e continuamente alegrar-se nele, Filipenses 4.4. A alegria do hipócrita dura somente um momento, mas a alegria daqueles que permanecem no amor de Cristo é uma festa constante. A palavra do Senhor dura para sempre, e as alegrias que fluem dela, e que se fundamentam nela, também duram.

(2) Que “vossa alegria seja completa”. Não somente que possais estar cheios de alegria, mas que vossa alegria em mim e no meu amor possa subir cada vez mais alto, até alcançar a perfeição, quando entrareis no gozo do vosso Senhor. Observe que:

[1] Aqueles, e somente aqueles, que têm a alegria de Cristo permanentemente em si, têm sua alegria completa. As alegrias terrenas são vazias. Elas logo saciam, mas nunca satisfazem. É somente a alegria da sabedoria que completa a alma, Salmos 36.8.

[2] O desígnio de Cristo no seu mundo é o de completar a alegria do seu povo. Veja 1 João 1.4. As duas coisas Ele disse, para que nossa alegria possa ser cada vez mais completa, e, por fim, perfeita.

3. A evidenciarem o amor que tinham por Ele, pela observância dos seus mandamentos: “‘Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor’, v. 10. Esta será uma evidência da fidelidade e constância do vosso amor por mim, e então podereis ter certeza da continuidade do meu amor por vós”. Observe aqui:

(1) A promessa: “Permanecereis no meu amor”, como em uma morada, no lar com o amor de Cristo; como em um lugar de descanso, em tranquilidade no amor de Cristo; como em uma fortaleza, seguros no amor de Cristo. Permanecereis no meu amor, tereis graça e força para perseverar no amor por mim”. Se a mesma mão que derramou pela primeira vez o amor de Cristo nos nossos corações não nos conservasse naquele amor, nós não permaneceríamos nele, mas, por meio do amor do mundo, deixaríamos o amor do próprio Cristo.

(2) A condição da promessa: “Se guardardes os meus mandamentos”. Os discípulos deviam observar os mandamentos de Cristo, não somente para estar, eles mesmos, em constante conformidade com os mandamentos, mas para que pudessem fazer uma fiel apresentação dos mandamentos a outros. Eles deveriam guardá-los como fiduciários, em cujas mãos foi colocado este grande depósito, pois eles deviam ensinar todas as coisas que Cristo tinha mandado, Mateus 28.20. Este mandamento, eles devem guardar sem mácula (1 Timóteo 6.14), e, desta maneira, devem mostrar que permanecem no amor de Cristo.

Para convencê-los a guardar seus mandamentos, Jesus apresenta:

[1] Seu próprio exemplo: “Do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor”. Cristo submeteu-se à lei da mediação, e, desta maneira, preservou a honra e o consolo desta lei, para nos ensinar a nos submetermos às leis do Mediador, pois, de outra maneira, não conseguiremos preservar a honra e o consolo do nosso relacionamento com Ele.

[2] A necessidade disto no relacionamento deles com Ele (v. 14): “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando”, e não de outra maneira”. Observe, em primeiro lugar, que somente serão considerados amigos fiéis de Cristo aqueles que provarem ser seus servos obedientes, pois aqueles que não permitirem que Ele reine sobre eles serão tratados como seus inimigos. A amizade envolve uma comunhão de aversões e de simpatias. Em segundo lugar, que a obediência universal a Cristo é a única obediência aceitável. Obedecer a Ele em tudo o que Ele nos ordenar, sem excetuar nenhum mandamento, e muito menos sem isentar-se de nenhum deles.

 

IV – A respeito do amor dos discípulos uns pelos outros, ordenado como uma evidência do seu amor por Cristo, e uma grata retribuição ao seu amor por eles. Nós devemos guardar seus mandamentos, e este é seu mandamento, que nos amemos uns aos outros, v. 12, e novamente, v. 17. Nenhuma obrigação da religião é mais frequentemente enfatizada, nem mais pateticamente recomendada, a nós, pelo nosso Senhor Jesus, do que esta do amor mútuo, e por uma boa razão.

1. É recomendada pelo padrão de Cristo (v. 12): “Assim como eu vos amei”. O amor de Cristo por nós deve orientar e motivar nosso amor uns pelos outros. Desta maneira, e por este motivo, nós devemos nos amar uns aos outros, e porque Cristo nos amou. Aqui Ele especifica algumas das expressões do seu amor por eles. Ele os chamou de amigos, transmitiu seus pensamentos a eles, estava pronto para dar a eles o que lhe pedissem. “Vão e façam da mesma maneira”.

2. É exigida pelo se u preceito. Ele interpõe sua autoridade, e faz dela uma das leis estatutárias do seu reino. Observe com que diferença isto se expressa nestes dois versículos, e de forma muito enfática em ambos.

(1) “O meu mandamento é este” (v. 12), como se este fosse o mais necessário de todos os mandamentos. Assim como, sob a lei, a proibição da idolatria era o mandamento mais enfatizado, acima do que qualquer outro, prevendo como as pessoas estavam viciadas a este pecado, também Cristo, prevendo o vício da igreja cristã à falta de caridade, colocou a maior ênfase neste preceito.

(2) “Isto vos mando”, v. 17. Ele fala como se estivesse prestes a dar-lhes várias incumbências, mas cita somente esta: “Que vos ameis uns aos outros”, não somente porque esta inclua muitas obrigações, mas porque ela terá uma boa influência sobre todas as demais.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

GRUPOS DESCOBREM MENTIRAS MAIS RÁPIDO DO QUE UMA PESSOA SOZINHA

Durante estudo, equipes detectaram a falsidade até 62% mais rápido do que voluntários que desempenhavam a tarefa sozinhos.

Grupos descobrem mentiras melhor que uma pessoa sozinha

Nem sempre somos suficientemente habilidosos para identificar quando alguém conta uma lorota. A menos que estejamos a par de informações que contradizem diretamente uma falsa história, pesquisas já mostraram que, em média, percebemos apenas metade das mentiras que nos contam. Mas em equipe podemos ser mais perspicazes para descobrir se alguém está tentando esconder a verdade. Pelo menos é o que mostra um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, USA. Cientistas constataram, porém, que isso só ocorre quando os membros do grupo se consultam entre si antes de chegar a uma conclusão.

O psicólogo Nicholas Epley, pesquisador da área de negócios, e o doutorando Nadav Klein, ambos da Universidade de Chicago, realizaram quatro experimentos para comparar a percepção da mentira de pessoas sozinhas ou acompanhadas. Em cada cenário, centenas de voluntários foram distribuídos em grupos de três para assistir a uma série de dez clipes de vídeo que apresentavam alguns oradores que diziam a verdade e outros que tentavam enganá-los.

Então, os participantes ponderaram sobre quais acreditavam estar simulando – alguns julgaram individualmente e de imediato, enquanto outros optaram por discutir o caso com os membros da    equipe antes de tudo. Em todos os cenários, os grupos tiveram vantagem e detectaram mentiras em até 62% do tempo em comparação com os que agiram de forma independente.

Os pesquisadores acreditam que os resultados não se resumem ao chamado efeito da “sabedoria popular” porque julgamentos não ajudaram a aumenta a habilidade para detectar engodos – isso só acontece quando houve discussão e várias opiniões foram consideradas. Os cientistas suspeitam que haja elementos sinérgicos envolvidos e pretendem aprofundar os estudos para compreender as condições e características grupais que favorecem esse fenômeno.

“As conclusões não significam, necessariamente, que avaliações grupais sejam mais eficientes do que individuais”, pondera Epley. Mas enfatiza que os resultados sugerem a importância de discussões em equipe em locais onde somos convidados a apurar mentiras – de deliberações em um júri a investigações de fraudes de seguro.

Grupos descobrem mentiras melhor que uma pessoa sozinha..2

OUTROS OLHARES

ANGÚSTIA DESNECESSÁRIA

O futuro dos filhos não depende tanto assim das escolas

Angústia desnecessária

Dezembro nem chegou e muitas famílias já estão às voltas com o ano escolar de 2019. Não é pequeno o número de pais que estão naquela maratona de visitas, de dúvidas e de angústias a respeito de qual escola escolher para seus filhos frequentarem. Confirmar ou não a matrícula na escola atual? Qual será a melhor metodologia utilizada pelas instituições para desenvolver o interesse e o gosto dos filhos pelos estudos? O ranking do Enem deve servir como norteador ou não? Quanto devo espremer o orçamento familiar para nele caber a alta mensalidade de uma escola muito conceituada? A arquitetura escolar é decisiva para o aprendizado dos alunos ou o equipamento escolar não tem tanta importância assim no estimulo aos estudos? Trocar de escola pode atrapalhar a vida de meu filho?

Perguntas como essas – e outras bem diferentes – surgem para os pais, que logo partem em busca de auxílio para definir que aspectos priorizar nessa decisão. Na internet por exemplo, ao colocar o tema para busca, de imediato surgem centenas de resultados – alguns recentes e outros nem tanto-, com títulos muito sedutores. Por exemplo: “Como escolher a melhor escola para seu filho em oito passos”‘ ou As dez dicas que você precisa para escolher a escola para seu filho”. Após lerem três ou quatro desses textos – poupe seu precioso tempo, leitor! -, alguns pais saem à procura de ajuda mais sofisticada, como bibliografia. Afinal, como escolher entre métodos tradicionais, construtivistas, montessorianos etc., se não os conhecem? Outros pais, depois de cuidadosa leitura, se veem no mesmo lugar onde já estavam antes.

Mas e aí? O que os pais devem levar em conta na hora de escolher a escola para os filhos já que, segundo dizem, disso dependerá o futuro deles? Para começar, é bom saber que todas as perguntas aqui exemplificadas – e as que não foram citadas também – não têm resposta certa, embora as escolas insistam em querer uma resposta correta para cada pergunta, não é mesmo?

Vale também saber que, entre escolher a melhor escola para seu filho e fazer a melhor escolha possível neste momento, a segunda alternativa é a realista. E a melhor escolha possível precisa ser banhada de realidade. Nenhuma criança ou adolescente merece ficar mais de uma hora no trânsito paira ir para a escola porque a família acha que a escola mais distante é a melhor. E nenhuma família deve se endividar por causa da mensalidade escolar, se há possibilidades mais condizentes com a disponibilidade financeira do momento.

É fundamental saber que, em toda escolha, podemos cometer equívocos que só vão emergir depois de iniciada a jornada. Faz parte da vida errar e revisar as escolhas feitas. Sem arrependimentos. O futuro dos filhos não depende tanto assim das escolas que frequentam. Pois eles irão – deverão, até! – superar esse período, por melhor ou pior que ele tenha sido.

Por isso, opte pela escola que mais lhe agradou e inspirou confiança, que é acessível à família pelo orçamento disponível, mais próxima do que distante da casa onde moram ou por outros motivos que considerar importantes. Você poderá errar nessa escolha? Certamente. Mas, em matéria de filhos, é fundamental saber previamente que erraremos de qualquer maneira, sempre.

GESTÃO E CARREIRA

O PARADOXO DA TOMADA DE DECISÃO

Queremos ter sempre várias opções à mão. Mas esse excesso limita nossas escolhas.

Business person choosing between two options separated by a yell

Na hora de tomar muitas decisões profissionais, um conselho recorrente que se ouve é: não feche portas, não queime pontes. Afinal, quem não quer ter um “plano B”? A ideia é que não há custo nenhum em manter algumas opções sempre abertas. Mas será mesmo?

De um modo geral, seja para lidar com finanças ou com nossas vidas pessoais, temos dificuldades para tomar decisões quando estamos diante de muitas alternativas. De certa maneira, é um paradoxo interessante: queremos ter a liberdade de muitas possibilidades, mas é justamente o excesso de opções que acaba nos limitando.

O dilema acontece até mesmo em situações corriqueiras. Se você estiver interessado em comprar um carro novo, por exemplo, a variedade de marcas no mercado vai ajudar a colocar uma gama extensa de possibilidades dentro da faixa de valores que você esteja disposto a gastar. Ainda que você seja um grande negociador e consiga fechar uma boa compra, se o seu vizinho aparecer com um carro novo também, certamente você ficará se questionando sobre quem fez o melhor negócio.

Em tempos de crise, o dilema das diversas possibilidades deixa investidores ainda mais ansiosos. O mercado está cheio de opções para investir, mas como decidir qual delas é a mais segura? Em quais delas eu me arrisco menos? Será que o retorno por arriscar menos vai valer a pena no futuro? Devo ter o sangue frio de me expor a um risco maior agora visando lucros em longo prazo? Com todo o clima de incerteza que paira no ar, o investidor dorme com as dúvidas fervendo-lhe a cabeça e o dinheiro embaixo do colchão. O problema é que a crise econômica não vai arrefecer de uma hora para a outra somente para facilitar sua decisão. Ainda que você tenha medo, dinheiro parado representa prejuízo e ele espera que você tome uma atitude.

A situação pode ser comparada a um trecho interessante do livro A Redoma de Vidro, da escritora norte-americana Sylvia Plath. Ela fala sobre um personagem que está embaixo de uma figueira cheia de frutos bem maduros. Em cada um deles, havia a possibilidade de um futuro diferente. Em um figo tinha um casamento feliz, filhos. No outro, uma carreira brilhante. Em outro figo, ela enxergava viagens para diferentes países. Diante de tantas possibilidades e sem conseguir decidir, morria de fome e via os figos murcharem, um por um.

De nada adianta ter uma infinidade de opções se você não puder escolher uma delas. Cada decisão tomada traz vantagens e riscos. Quando as opções são parecidas, optar entre uma LCI e um CDB, por exemplo, pode parecer uma tarefa dura. Inevitável se questionar: será que eu fiz a escolha certa? No entanto, esta situação vira um problema quando você, paralisado pelo excesso de opções, acaba não escolhendo nada e deixa o dinheiro esquecido na poupança. Oportunidades não surgem a todo instante – é preciso ter a sabedoria para aproveitá-las. Não deixe que a possibilidade de crescimento financeiro seja um figo murcho em sua vida.

Pondere suas decisões, esteja ciente dos riscos que ela oferece e não gaste energia pensando se deveria ter agido de modo diferente. O fato de ter muitas opções não significa que podemos ter tudo ao mesmo tempo. Isso é uma ilusão.

  

SAMY DANA é economista, doutor em administração e Ph.D. em Negócios. Professor na Eaesp/FGV, autor de livros e consultor, é também comentarista dos programas Conta Corrente, da Globo News, e Hora 1, na Globo. É colunista da Rádio Globo e do G1.

 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 15: 1-8

Alimento diário

Cristo, a Videira Verdadeira

Aqui Cristo fala a respeito dos frutos, dos frutos do Espírito, que seus discípulos deveriam produzir, de forma semelhante a uma videira. Observe aqui:

 

I – A doutrina desta comparação. Que noção que devemos ter dela.

1. Que Jesus Cristo é a videira, a videira verdadeira. O fato de Cristo se alegrar de falar de si mesmo com tais comparações inferiores e humildes é um exemplo da sua humildade. Ele, que é o Sol da Justiça, e a resplandecente Estrela de manhã, se compara com uma videira. A igreja, que é o corpo místico de Cristo, é uma videira (Salmos 80.8), e Cristo, que é a semente da igreja, também é uma videira. Cristo e a igreja são apresentados desta maneira.

(1) Ele é a videira, plantada na vinha, e não um produto espontâneo; plantada na terra, pois Ele é o Verbo feito carne. A videira não tem uma aparência externa tão bela e promissora, e Cristo não tem parecer nem formosura, Isaías 53.2. A videira é uma planta que se propaga, e Cristo será conhecido como a salvação até os confins da terra. O fruto da videira honra a Deus e alegra os homens (Juízes 9.13), e também o fruto da mediação de Cristo. É melhor do que o ouro, Provérbios 8.19.

(2) Ele é a videira verdadeira, assim como a verdade se opõe ao fingimento e à falsidade. Ele é realmente uma planta frutífera, uma planta de excelente reputação. Ele não é como aquela parra brava, que enganava àqueles que colhiam dela (2 Reis 4.39), mas uma videira verdadeira. Diz-se que as árvores infrutíferas mentem (Habacuque 3.17, marg.), mas Cristo é uma videira que não irá enganar. Qualquer que seja a excelência que exista em qualquer criatura útil ao homem, isto é apenas uma sombra daquela graça que há em Cristo, pelo bem do seu povo. Ele é aquela videira verdadeira, tipificada pela videira de Judá, que o lavou com o sangue das uvas (Genesis 49.11), pela videira de José, cujos ramos correm sobre o muro (Genesis 49.22), e pela videira de Israel, sob a qual ele habitava seguro, 1 Reis 4.25.

2. Que os crentes são os ramos desta videira, o que indica que Cristo é a raiz da videira. A raiz não pode ser vista, e nossa vida está escondida com Cristo. A raiz sus­ tenta a árvore (Romanos 9.18), distribui seiva a ela, e contribui integralmente para seu florescer e frutificar, e em Cristo estão todos os sustentas e nutrientes. Os ramos da videira são muitos, alguns de um lado da casa ou muro, outros do outro lado, mas, como se encontram na raiz, formam todos uma única videira. Assim, todos os bons cristãos, embora distantes uns dos outros, em lugares e opiniões, ainda assim se encontram em Cristo, o centro da sua unidade. Os crentes, como os ramos da videira, são fracos, e não conseguem se sustentar, mas como os ramos, são sustentados. Veja Ezequiel 15.2.

3. Que o Pai é o lavrador, o agricultor. Embora a terra seja do Senhor, ela não lhe produz frutos, a menos que Ele trabalhe nela. Deus tem não somente a propriedade da videira e de todos os ramos, mas também o cuidado deles. Ele plantou, e regou, e fez crescer, pois nós somos cooperadores de Deus, 1 Coríntios 3.9. Veja Isaías 5.1,2; 27.2,3. Ele cuidou de Cristo, a raiz, e o sustentou, e o fez florescer em uma terra seca. Ele cuida de todos os ramos, e os poda, e os vigia, para que nada os danifique. Nunca houve um lavrador tão prudente, tão vigilante, com sua videira, como Deus é com sua igreja, que, desta maneira, deve necessariamente prosperar.

 

II – O dever que nos é ensinado com esta comparação, que é produzir frutos, e, para isto, permanecer em Cristo.

1. Nós devemos produzir frutos. De uma videira, nós esperamos uvas (Isaias 5.2), e de um cristão, nós esperamos cristianismo. Este é o fruto, um temperamento e uma disposição cristãos, uma vida e costumes cristãos, devoções cristãs e desígnios cristãos. Nós devemos honrar a Deus, e fazer o bem, e exemplificar a pureza e o poder da religião que professamos. E isto é produzir frutos. Os discípulos aqui devem ser frutíferos, como cristãos, em todos os frutos da justiça, e como apóstolos, difundindo o cheiro do conhecimento de Cristo. Para persuadi-los a isto, Ele explica:

(1) O destino dos infrutíferos (v. 2): são tirados.

[1] Aqui está indicado que há muitos que se passam por ramos em Cristo que não dão frutos. Se realmente estivessem unidos a Cristo, pela fé, dariam frutos. Mas, estando ligados a Ele somente por uma profissão externa, embora pareçam ser ramos, logo se verá que são ramos secos. Os adeptos infrutíferos são adeptos infiéis. São somente adeptos, e nada mais. Podemos interpretar da seguinte maneira: Toda vara que não dá fruto em mim, e que dá fruto para si mesma. Pois aquelas que não dão frutos em Cristo, e no seu Espírito e na sua graça, são como se não dessem frutos, Oséias 10.1.

[2] Aqui está a ameaça de que eles serão tirados, como justiça para eles e como bondade para o restante dos ramos. Pois daquele que não tem uma união real com Cristo, e frutos produzidos por meio disso, até o que parece ter lhe será tirado, Lucas 8.18. Alguns pensam que isto se refere, originalmente, a Judas.

(2) A promessa feita aos frutíferos: Ele os limpa, par a que deem mais frutos. Observe que:

[1] Uma maior produtividade é a recompensa abençoada da produtividade entusiasmada. A primeira bênção foi: Frutificai. E ainda é uma grande bênção.

[2] Até mesmo os ramos frutíferos, para continuar sendo frutíferos, têm necessidade de serem limpos ou podados, Ele remove aquilo que é supérfluo e exuberante, que atrapalha seu crescimento e sua produtividade. Até mesmo os melhores podem ter em si aquilo que é prejudicial, algo que deve ser removido, algumas noções, paixões ou sentimentos que precisam ser eliminados, o que Cristo prometeu fazer pela sua palavra, pelo seu Espírito e pela sua providência. E estes problemas serão removidos gradualmente, nas ocasiões apropriadas.

[3] A poda dos ramos frutíferos, para sua maior produtividade, é a preocupação e o trabalho do grande lavrador, para sua própria glória.

(3) Os benefícios que os crentes têm com a doutrina de Cristo, cujo poder eles devem se empenhar para exemplificar em uma vida frutífera: “Vós já estais limpos”, v. 3.

[1] O grupo deles estava limpo, agora que Judas tinha sido expulso por aquela frase de Cristo: “O que fazes, faze-o depressa”. Pois, até que tivessem se livrado dele, eles não estariam completamente limpos. A palavra de Cristo é uma palavra diferenciadora, e separa o precioso do vil. Ela irá purificar a igreja dos primogênitos no grande dia da separação.

[2] Cada um deles estava limpo, isto é, santificado, pela verdade de Cristo (cap. 17.17). A fé pela qual eles receberam a palavra de Cristo purificou seus corações, Atos 15.9. O Espírito da graça, pela palavra, os purificou da sujeira do mundo e da carne, e eliminou deles o fermento dos escribas e fariseus, do qual, quando viram a ira e inimizade deles contra seu Mestre, agora estavam completamente limpos. Aplique isto a todos os crentes. A palavra de Cristo é transmitida a eles. Existe uma virtude purificadora na sua palavra, enquanto ela opera graça e elimina a corrupção. Ela purifica, como o fogo purifica o ouro dos seus dejetos, e como um médico purifica o corpo da sua enfermidade. Nós, então, evidenciamos que estamos purificados pela palavra quando produzimos frutos em santidade. Talvez aqui haja uma alusão à lei a respeito das videiras em Canaã. Seu fruto era impuro, e incircunciso, nos primeiros três anos depois que ela tivesse sido plantada, e no quarto ano ele se destinava à santidade, para dar louvores ao Senhor. E então ele seria puro, Levíticos 19.23,24. Os discípulos tinham já estado durante três anos sob as instruções de Cristo, e agora estavam limpos: “Vós já estais limpos”.

(4) A glória que resultará a Deus pela nossa produtividade, com o consolo e a honra que nos sobrevirão, v. 8. Se nós produzirmos muitos frutos:

[1] Nisto nosso Pai será glorificado. A produtividade dos apóstolos, no cumprimento diligente do seu trabalho, seria para a glória de Deus na conversão das almas, e na oferta delas a Ele, Romanos 15.9,16. A produtividade de todos os cristãos, em uma esfera inferior ou pequena, é para a glória de Deus. Com as obras eminentemente boas dos cristãos, muitos são levados a glorificar o nosso Pai que está no céu.

[2] Assim, nós realmente seremos discípulos de Cristo, aceitos como tal e demonstrando que somos real­ mente aquilo que dizemos ser. Assim, evidenciaremos nosso discipulado e o embelezaremos, para sermos do nosso Mestre “por nome, e por louvor, e por glória”, isto é, verdadeiros discípulos, Jeremias 13.11. Assim, nós se­ remos reconhecidos pelo nosso Mestre no grande dia, e teremos a recompensa dos discípulos, uma participação no gozo do nosso Senhor. E, quanto mais frutos produzirmos, mais abundantes formos naquilo que é bom, mais Ele será glorificado.

2. Para nossa produtividade, nós devemos permanecer em Cristo, devemos conservar nossa união com Ele, pela fé, e fazer tudo o que pudermos pelo Evangelho, em virtude desta união. Aqui temos:

(1) O dever imposto (v. 4): “Estai em mim, e eu, em vós”. Observe que o grande e constante interesse de todos os discípulos de Cristo consiste em conservar uma dependência de Cristo e a comunhão com Ele, unir-se a Ele habitualmente, e efetivamente obter nutrientes dele. Aqueles que vêm a Cristo devem permanecer nele: “Estejam em mim, pela fé, e Eu, em vocês, pelo meu Espírito. Permaneçam em mim, e não temam, pois Eu estarei em vocês”. A comunhão entre Cr isto e os crentes nunca falha, por parte dele. Nós devemos permanecer na palavra de Cristo por uma consideração por ela, e ela, em nós, como uma luz para nossos pés. Nós devemos permanecer nos méritos de Cristo como nossa justiça e defesa, e Ele, em nós, como nosso sustento e consolo. O galho está ligado na videira, e a seiva da videira está no galho, e, desta maneira, existe uma comunicação constante entre eles.

(2) A necessidade da nossa permanência em Cristo, para sermos produtivos (vv. 4,5): “Vós não podeis dar frutos, a menos que estejais em mim. Mas, se estiverdes em mim, dareis muitos frutos, pois, em resumo, ‘sem mim’, ou separados de mim, ‘nada podereis fazer”. Tão necessário é, para nosso consolo e para nossa felicidade, que produzamos frutos, que o melhor argumento para nos convencer a permanecer em Cristo é o fato de que, se não for assim, não poderemos dar frutos.

[1] É necessário estarmos em Cristo para que possamos fazer o bem, em grande quantidade. Aquele que é constante no exercício de fé em Cristo e no amor por Ele, que vive segundo suas promessas e é conduzido pelo seu Espírito, produz muito fruto, é muito útil para a glória de Deus, e para sua própria prestação de contas no grande dia. Observe que a união com Cristo é um princípio nobre, produtivo de todo o bem. Uma vida de fé no Filho de Deus é incomparavelmente a vida mais excelente que alguém pode viver neste mundo. É uma vida regular e uniforme, pura e celestial. É útil e confortável, e tudo o que corresponde ao fim da vida.

[2] É necessário estarmos em Cristo para que possamos fazer qualquer bem. Não é somente um meio de cultivar e aumentar o bem que já existe em nós, mas é a raiz e a fonte de todo o bem: “‘Sem mim nada podereis fazer’. Não somente não poderão fazer nada grandioso, curar os enfermos ou ressuscitar os mortos, mas realmente nada”. Observe que nós temos uma dependência necessária e constante da graça do Mediador, para todas as ações da vida espiritual e divina, assim como temos da providência do Criador, para todas as ações da vida natural, pois, quanto a ambas, é o poder divino que faz com que possamos viver, e nos mover, e existir. Fora dos méritos de Cristo, não poderemos fazer nada para nossa justificação, e sem o Espírito de Cristo, nada poderemos fazer para nossa santificação. Sem Cristo, não poderemos fazer nada corretamente, nada que seja um fruto agradável a Deus ou proveitoso para nós mesmos, 2 Coríntios 3.5. Nós dependemos de Cristo, não somente como uma videira depende do muro, para ter seu suporte, mas como o ramo depende da raiz, para ter a seiva que lhe dá alimento e vida.

(3) As consequências fatais de abandonar a Cristo (v. 6): “Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como a vara, e secará”. Esta é uma descrição do terrível estado dos hipócritas, que não estão em Cristo, e dos apóstatas, que não permanecem em Cristo.

 

[1] Eles são lançados fora, como ramos secos e murchos, que são arrancados porque sobrecarregam a árvore. É justo que não se beneficiem de Cristo aqueles que pensam que não precisam dele, e que aqueles que o rejeitam sejam rejeitados por Ele. Aqueles que não estão em Cristo serão abandonados por Ele. Eles são deixados à sua própria sorte, para caírem em pecados escandalosos, e então são, com razão, arrancados da comunhão dos crentes fiéis.

[2] Eles secarão, como um ramo arrancado da árvore. Aqueles que não permanecem em Cristo, embora possam florescer durante algum tempo, em uma profissão plausível, ou, pelo menos, aceitável, ainda assim, dentro de pouco tempo, murcham e se reduzem a nada. Suas porções e seus dons murcham. Seu zelo e sua devoção murcham. Sua credibilidade e reputação murcham. Suas esperanças e consolações murcham, Jó 8.11-13. Observe que aqueles que não produzem frutos, dentro de pouco tempo já não terão folhas. Como secou imediatamente a figueira que Cristo amaldiçoou!

[3] Os homens “os colhem”. Os agentes e emissários de Satanás os colhem e fazem deles sua presa fácil. Aqueles que se afastam de Cristo, logo se aproximam dos pecadores, e o Diabo está pronto para capturar para si mesmo a ovelha que se afasta do rebanho de Cristo. Quando o Espírito do Senhor se afastou de Saul, um espírito imundo se apossou dele.

[4] Eles os “lançam ao fogo”, isto é, eles são lançados ao fogo. E aqueles que os seduzem e os atraem são os que, na verdade, os lançam ali, pois eles os tornam filhos do inferno. O fogo é o lugar mais adequado para os ramos murchos, pois eles não ser vem para nada além disto, Ezequiel 15.2-4.

[5] Eles “ardem”. Esta é a consequência natural, mas aqui está acrescentada de modo muito enfático, e torna a ameaça terrível. Eles não serão consumidos em um momento, como espinhos debaixo de uma panela (Eclesiastes 7.6), mas, eles arderão para sempre em um fogo, que não somente não poderá ser apagado, mas que nunca se extinguirá. Este é o resultado de abandonar a Cristo, este é o fim das árvores estéreis. Os apóstatas são duas vezes mortos (Judas. 12), e quando se diz: “São lançados ao fogo e ardem”, isto significa que são condenados duas vezes. Alguns interpretam a imagem dos homens colhendo estes ramos (v. 6) como sendo o ministério dos anjos no grande dia, quando coletarão do reino de Cristo todas as coisas que o ofendem, e colherão o joio e o lançarão no fogo.

(4) O bendito privilégio daqueles que permanecem em Cristo (v. 7): Se “as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes” ao meu Pai, em meu nome, “e vos será feito”. Veja aqui:

[1] Como nossa união com Cristo é mantida – pela Palavra: “Se vós estiverdes em mim”. Ele tinha dito antes: “E eu, em vós”. Aqui Ele se explica: “E as minhas palavras estiverem em vós”. Pois é na palavra que Cristo se apresenta diante de nós, e é oferecido a nós, Romanos 10.6-8. É através da palavra que nós o recebemos e aceitamos, e, onde a palavra de Cristo reside abundantemente, ali reside Cristo. Se a palavra for nosso guia e monitor constante, se ela estiver em nós como se estivesse em casa, então nós estaremos em Cristo, e Ele, em nós.

[2] Como nossa comunhão com Cristo é mantida – pela oração: “Pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito”. E o que podemos querer mais, do que ter o que pedimos? Observe que aqueles que estão em Cristo, que o têm como o deleite dos seus corações, terão, por intermédio de Cristo, aquilo que seus corações desejam. Se nós tivermos Cristo, não nos faltará nada que seja bom para nós. Duas coisas estão implícitas nesta promessa. Em primeiro lugar, que, se estivermos em Cristo, e sua palavra, em nós, não pediremos nada além do que seja apropriado para ser feito por nós. As promessas que estão habitando em nós estão prontas para se transformar em orações, e as orações que estão de acordo com esta situação, são, sem dúvida, respondidas. Em segundo lugar, que, se estivermos em Cristo e na sua palavra, nós teremos tal interesse no favor de Deus e na mediação de Cristo, que teremos uma resposta de paz para todas as nossas orações.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE SEPARA VOCÊ DE SEUS OBJETIVOS?

Do ponto de vista psicológico, é possível falar de quatro tipos de lacunas – sociais, temporais, espaciais e experienciais. Felizmente, essa distância desconfortável pode ser reduzida quando entendemos a linha entre elas e aprendemos a ajustar nossos interesses às condições disponíveis.

O que separa você de seus objetivos

Não é difícil perceber que as decisões que tomamos e aquilo que fazemos nem sempre condizem com a meta que estabelecemos.

Considere as seguintes situações: 1) Você trabalha em uma empresa e está negociando um contrato com um cliente importante, mas seu chefe faz pressão para aumentar as margens de lucro. Como você conduz a situação? 2) Várias semanas atrás, você assumiu a responsabilidade de apresentar um seminário no curso no qual está matriculado(a), mas agora está muito ocupado(a) no trabalho e lamenta aquela decisão. 3) Você e seu (sua) namorado(a) querem viajar nas férias no fim do ano, mas ele(a), insiste que você resolva para onde irão e a data do passeio. Qual sua atitude? 4) Você recebe uma proposta para dividir sociedade num negócio atraente, aparentemente com boas possibilidades de se tornar lucrativo, mas que envolve algum risco e a necessidade de abrir mão de uma colocação profissional atual estável. Que caminho resolve seguir?

Surpreendentemente, um dos principais desafios no centro de todas essas situações aparentemente tão diversas é o mesmo: o que você quer de fato? Afinal, até onde vai o seu desejo e onde começa o do outro? É possível pensar nessas questões de várias maneiras e, como tudo está associado a uma escolha, optamos aqui por uma abordagem que leva em conta não apenas o desejo e a direção que seguimos, mas também como podemos usar a dificuldade a nosso favor. É possível considerar que se sair bem de uma situação cotidiana – pessoal ou profissional – depende, em grande parte, de reduzir o que alguns psicólogos chamam de distância psicológica. Ou seja, diminuir quatro tipos de lacunas: entre você e outras pessoas (distância social), entre o presente e o futuro (distância temporal), entre sua localização física e lugares longínquos (distância espacial) e entre imaginar alguma coisa e de fato vivenciá-la (distância experiencial).

Cada vez que surgem impasses, é preciso considerar não só os próprios interesses, mas também os das outras partes (o que reduz a distância social). A forma eficiente de lidar com o tempo significa prever com precisão quais compromissos serão mais prementes no futuro (distância temporal). É preciso levar em conta não só os objetivos das pessoas com quem nos relacionamos em variados níveis, mas também prever como as situações mudarão ao longo do tempo (distância social e temporal). Complicado?

De fato, não é fácil. Em mais de uma década de pesquisa acadêmica e em seu trabalho com estudantes e executivos, a especialista em psicologia e comportamento Rebecca Hamilton, doutora pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), descobriu que pessoas que reconhecem e compreendem os efeitos da distância psicológica e depois usam estratégias específicas para reduzi-la (ou, às vezes, aumentá-la) costumam ser mais bem-sucedidas, tanto na vida pessoal quanto na profissional.

DO ABSTRATO AO CONCRETO

Quando a distância psicológica é grande, tendemos a pensar em termos mais abstratos, focando o quadro geral; enfatizamos opções que nos agradam e os motivos pelos quais optamos por elas. Em contraste, quando a distância psicológica é pequena, nosso pensamento é mais concreto: tendemos a nos concentrar nos detalhes, na viabilidade das opções e em como vamos usá-las. Exemplo, podemos pensar em uma ação – fazer uma viagem desejada – tanto de forma concreta, como “comprar a passagem”, quanto abstrata, como “fazer um painel com as fotos que pretendo tirar”.

Os exemplos introdutórios destacam alguns dos “riscos” de uma grande distância psicológica. No cenário de negociação, a distância social entre você e seu cliente (comparada com aquela entre você e seu chefe) torna difícil atender aos interesses das duas partes. Quando pedem que você confirme presença em um evento com semanas de antecedência, a distância temporal faz o desejo de incrementar seu perfil profissional ficar maior, e a viabilidade de preparar e apresentar o seminário perde importância. No cenário de liderança em relação à viagem com o namorado, a distância social e temporal faz com que seja mais difícil você passar de uma decisão abstrata para uma definição concreta de objetivo. E a distância experiencial durante o processo de montagem de um negócio profissional pode intimidar.

Claro que nada é tão simples. Sempre estão envolvidas marcas de experiências anteriores, emoções, além de processos inconscientes – mesmo quando, racionalmente, sabemos que a distância psicológica nos induziu ao erro antes.

Em um experimento realizado por Rebecca Hamilton com colegas, os participantes que tinham acabado de apresentar dificuldades para usar um reprodutor de vídeo digital repleto de recursos reconheceram que, da próxima vez, iriam preferir um aparelho mais simples. “Mas, momentos depois, quando lhes pedimos que escolhessem um reprodutor de áudio digital, eles preferiram novamente o modelo com mais penduricalhos”, conta a pesquisadora, atualmente professora de administração e marketing da Universidade Georgetown. Da mesma forma, decisões de poupança para a aposentadoria indicam que, embora as pessoas saibam que devem poupar mais para o futuro, elas continuam economizando muito pouco.

Por outro lado, a distância psicológica pode ser uma vantagem em determinados cenários. Uma pesquisa coordenada pela doutora em psicologia Cheryl Wakslak, professora do Departamento de Administração e Organização da Universidade do Sul da Califórnia, mostra que ocupar cargos de liderança se associa à distância psicológica. Isso explica, pelo menos em parte, por que gestores recém-promovidos geralmente têm dificuldades para se equilibrar entre manter a amizade com ex-colegas e supervisioná-los. A distância temporal permite que a pessoa estabeleça metas mais desafiadoras. Quando alguém sai de casa para ir trabalhar, cria a separação que lhe permite deixar de lado as preocupações domésticas e se concentrar nas profissionais. E a distância experiencial pode levar a um pensamento mais amplo – esse é um dos motivos pelos quais as supervisões de atendi­ mentos clínicos podem ser transformadoras no caso de alguns atendimentos.

Esses exemplos deixam claro que não há um grau específico de distância psicológica que seja sempre mais adequado. Na vida prática, o ideal é procurar estreitar ou ampliar as lacunas conforme for necessário para alcançar a distância psicológica ideal. E, segundo essa linha de raciocínio, podemos conseguir isso de duas formas: ajustando a distância ou substituindo um tipo de distância por outro.

O que separa você de seus objetivos.2

AJUSTANDO A DISTÂNCIA

Muitas técnicas psicológicas voltadas para a “gestão pessoal” enquadram-se nessa categoria. A teoria da distância psicológica nos ajuda a entender quando e por que elas são eficazes. Vamos examinar os quatro tipos separadamente.

SOCIAL – Psicólogos especializados em negociação e liderança defendem há muito tempo a visão em perspectiva – ou seja, buscando entender pensamentos, sentimentos e motivos de seu interlocutor. O resultado é a redução da distância social. A capacidade empática de se colocar no lugar de outra pessoa surge mais naturalmente para alguns indivíduos do que para outros, mas os estudos revelam que até mesmo uma instrução simples, como “tente se concentrar nas intenções e nos interesses do seu interlocutor”, pode melhorar os resultados. Uma pesquisa em larga escala mostrou que as pessoas sentem maior satisfação no trabalho quando os líderes de equipes oferecem uma comunicação abstrata, visionária (embora elas ainda queiram que seus supervisores diretos lhes deem retornos concretos).

TEMPORAL – Prazos auto impostos são uma forma fácil de reduzir a distância temporal, melhorando assim o foco e até seu desempenho em qualquer área da vida. Os pesquisadores Dan Ariely, doutor em psicologia cognitiva e hoje professor da Universidade Duke, e Klaus Wertenbroch, doutor em psicologia e ciência comportamental, permitiram que seus alunos estabelecessem os próprios prazos – de cumprimento obrigatório – para uma série de tarefas, com a condição de que todas fossem concluídas até o fim do curso. Os estudantes que fixaram prazos menores tiveram um desempenho melhor que os demais. Outra estratégia para gerir a distância temporal é visualizar o futuro. Por exemplo: se, ao receber aquele convite para apresentar o seminário no curso, você fica preocupado, temendo que seja um compromisso muito exigente, imagine que tenha de fazer a apresentação dois dias depois. Você ainda está interessado? Concentrar-se nos resultados desejados – talvez autorrealização, aprendizagem, boa nota e maior prestígio entre os colegas – pode ajudá-lo a identificar temas e pontos que o conduzam a eles. É possível fazer ajustes semelhantes quando estamos tentando definir metas desafiadoras para nós mesmos em relação a mudanças de hábitos alimentares ou exercícios físicos. O aumento da distância temporal faz com que as razões para estabelecer metas fiquem mais proeminentes do que os passos necessários para alcançá-las.

ESPACIAL – Em geral, temos maior controle sobre esse tipo de distância – e seu manejo pode render benefícios surpreendentes. Se temos um assunto delicado a tratar, é quase sempre melhor fazê-lo pessoalmente: conversas cara a cara e visitas à casa de uma pessoa são formas óbvias de reduzir a distância espacial (e social), levando a pensar de forma mais concreta. No processo psicoterápico, por exemplo, a intenção de um paciente encerrar o tratamento muitas vezes é revertida quando a pessoa comparece àquela que seria sua “última” sessão. Já no caso de um relacionamento afetivo difícil que reconhecemos como destrutivo, pode ser mais fácil terminar de longe que ao vivo. Isso ocorre porque mesmo uma ação simples como ficar de frente para um objeto nos faz percebê-lo como se estivesse mais próximo. Na prática, quando você quiser aumentar a distância espacial a fim de estimular o pensamento abstrato, tente ir para um lugar diferente. As pesquisadoras Joan Meyers-Levy e Juliet Zhu, da Universidade de Minnesota, mostraram que mudanças sutis em espaços de escritório e de varejo, tais como tetos mais altos, encorajam as pessoas a pensar de forma mais criativa e a estabelecer mais conexões entre conceitos nesses ambientes.

EXPERIENCIAL – Gerentes de produto interessados em reduzir a distância experiencial devem considerar a opção de deixar de lado questões hipotéticas e usar técnicas como pedir que os clientes escolham e usem protótipos. Por exemplo: empresas de bens de consumo embalados costumam pedir aos participantes de estudos que “façam compras” em prateleiras abastecidas, o que incentiva as pessoas a pensar mais concretamente no preço e na marca. Não por acaso, quando empresas de alimentos lançam novos produtos, geralmente os levam a mercados de teste antes de investir em sua implantação plena. Nos anos 90, em vez de realizar testes exaustivos em poucos mercados, como era sua prática habitual, os executivos do McDonald’s se deixaram influenciar por pesquisas indicando que quase nove entre dez consumidores estavam dispostos a experimentar carne com baixo teor de gordura. Em pesquisas como essa, os consumidores tendem a se concentrar mais no desejo (melhorar sua dieta) do que na realidade (hambúrgueres menos saborosos e preço mais alto, além de demorarem mais para ser preparados). Na vida pessoal, podemos pensar na pessoa sedentária que paga um ano inteiro de academia, sem levar em conta eventuais dificuldades. A intenção é ótima: fazer exercício físico, emagrecer, sentir-se mais saudável e bem-disposto. E, no impulso, não raro, as dificuldades reais de incluir atividade física no cotidiano ficam em segundo plano – embora sejam elas que, ao serem negligenciadas, ganham força e sabotam as melhores intenções.

No entanto, em alguns casos em que você pretende incorporar um novo hábito (seu ou de outras pessoas), a maior distância experiencial pode ser benéfica. Uma apresentação gráfica com tópicos destacando os recursos de um novo produto pode ser mais convincente do que uma demonstração ao vivo. Por exemplo: quando a BMW lançou o iDrive, uma nova e poderosa interface de usuário para seus veículos, os especialistas em automóveis ficaram confusos durante seus primeiros test-drives, o que provocou opiniões contraditórias. Se clientes ou especialistas têm oportunidade de testar um novo produto ou serviço complicado apenas uma vez, essa experiência pode prejudicar as vendas. No exemplo da academia: pagar o ano todo, sem possibilidade de devolução do dinheiro, pode funcionar para muitas pessoas como um forte incentivo para vencer a preguiça.

 O que separa você de seus objetivos.4

UM TIPO PELO OUTRO

Como toda distância psicológica envolve os mesmos processos subjacentes de pensamento, substituir um tipo por outro pode estimular um pensamento mais abstrato ou mais concreto. O “truque” funciona tão bem que pesquisadores acadêmicos o usam para determinar se o que eles estão manejando é realmente a distância psicológica: se for, então qualquer tipo – social, temporal, espacial ou experiencial – deve produzir o mesmo efeito.

SOCIAL – Ao procurar uma base comum durante uma negociação, você pode tirar proveito da distância temporal imaginando que proposta apresentaria se um acordo tivesse de ser alcançado em duas horas. Você não está fazendo nada para mudar a distância social em relação a seu interlocutor – você não se sente mais próximo dele-, mas a urgência imposta pela distância temporal reduzida pode mudar seu modo de pensar e de propor um acordo. Se a pessoa está em uma situação na qual precisa impor respeito entre seus colegas (ou seja, aumentar a distância social), a distância espacial pode ser um substituto. Nesse caso, mude-se para um novo escritório no fim do corredor e ocupe um pouco mais de espaço na mesa de reuniões, em vez de se espremer entre seus colegas. Também é possível recorrer à distância temporal: visualize o legado que gostaria de criar em seu local de trabalho e use isso como incentivo para pensar e se comunicar de forma mais abstrata.

TEMPORAL – Imagine alguém com dificuldades com uma grande distância temporal – adiando um projeto de conclusão de um curso de especialização, por exemplo, ou fazendo planos para a aposentadoria – e tente jogar com a distância social. Marque uma reunião com o professor a quem você terá de entregar o trabalho concluído. Ou visualize a si mesmo no futuro: pesquisas feitas na Universidade Yale demonstraram que, quando são exibidas a voluntários fotos dos próprios rostos envelhecidos, eles se identificam mais estreitamente com a versão mais idosa de si mesmos e, como resultado, aumentam acentuadamente a quantia que pretendem investir na aposentadoria.

Mas se você está se sentindo estressado com um prazo prestes a terminar, o aumento da distância espacial pode ajudar. Simplesmente afaste um pouco a cabeça da tela de seu computador. Pode parecer pouco, mas tem efeitos práticos. Um estudo conduzido recentemente pelos professores Manoj Thomas, da Universidade de Cornell, e Claire Tsai, da Universidade de Toronto, com pessoas ansiosas mostra que aquelas que fizeram isso consideraram as tarefas que haviam recebido muito menos difíceis e angustiantes, em comparação com as que cumpriram as mesmas tarefas inclinadas em direção à tela.

ESPACIAL – Talvez a distância substituta mais óbvia para a espacial seja a social. Se uma pessoa está fisicamente separada daqueles que gostaria de influenciar, pode reduzir essa distância não só visitando-as, mas também enfatizando suas características e interesses em comum. Pontos comuns – conhecer os mesmos lugares ou ter vivências similares – tendem a aproximar as pessoas. Não por acaso algumas empresas investem no sentimento de familiaridade para vender sua imagem – e seus produtos – com slogans do gênero “da nossa família para a sua” ou “fazemos nossos produtos como você mesmo faria”. A empresa americana Zappos encontrou uma forma curiosa de enfatizar a conexão com clientes geograficamente distantes: passou a compartilhar em seu site de vendas fotos das equipes que trabalham para entregar as encomendas.

EXPERIENCIAL – Uma forma de combater a tentação (tanto a própria quanto a dos outros) de escolher produtos tecnológicos com uma série de recursos – ou aqueles que substituem a forma pela função -, em vez de versões mais amigáveis para o usuário, é reduzir a distância temporal. Se for necessário começar a usar a maior parte dos recursos imediatamente após a aquisição de um aparelho de celular e não “quando houver tempo para aprender” (o que em muitos casos nunca acontece), ainda parece um bom investimento comprar o aparelho? Também podemos reduzir a distância experiencial recorrendo à distância social. Em uma pesquisa global recente, 70% dos participantes disseram que o conteúdo on-line fornecido por outros consumidores os ajudou a decidir se comprariam um produto, e o boca a boca na internet é particularmente influente quando a distância social é pequena. Da mesma forma, a validação social é uma forma poderosa de convencer os outros: determinadas práticas parecem seguras porque pessoas conhecidas as aprovaram antes.

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PARA CHEGAR PERTO

Quaisquer que sejam as circunstâncias que nos afastam daquilo que queremos – seja completar um trabalho num curto espaço de tempo; fazer uma viagem a médio prazo, ou mudar o estilo de vida, ao longo dos anos, por exemplo-, é importante levar em conta alguns aspectos. Um deles é o fato de que, na hora de vencer os quatro tipos de distância e as dificuldades que vêm junto com os desafios, o amadurecimento psicológico e os traços de personalidade podem funcionar tanto como vilões como importantes aliados. Atitudes práticas como estabelecer os próprios prazos e empregar algum tempo para se planejar antes de iniciar uma tarefa, por exemplo ajuda a evitar a armadilha da procrastinação.

Uma característica que faz grande diferença no desempenho em momentos críticos é a resiliência, definida como “processo de boa adaptação em face de adversidades, traumas, tragédias, ameaças ou motivos significativos de estresse”, pela Associação Americana de Psicologia (APA, na sigla em inglês). Pessoas resilientes não negam dificuldades ou sofrimentos, mas não se apegam exageradamente a eles.

Estudos têm mostrado que algumas atitudes ajudam a acessar essa capacidade – e a incrementá-la. Uma delas é ter em mente que qualquer desconforto, por maior que seja, é transitório. Parece óbvio, mas nem sempre é fácil nos lembrarmos disso quando estamos irritados, tensos, ansiosos ou sobrecarregados. Segundo: para se aproximar do que quer, permita-se afastar-se. Os efeitos benéficos de pausas para “descansar o cérebro” já haviam sido mostrados, com grande impacto científico, há alguns anos pelo neurocientista austríaco Eric Kandel, ganhador do Nobel de Medicina. Mais recentemente, várias outras pesquisas – entre elas uma recente, realizada em conjunto por cientistas das Universidades de Bolonha e Amsterdã – confirmaram que interromper uma atividade mental que exija concentração por várias horas para se dedicar a uma tarefa alternativa não é só prazeroso ou gratificante, também é produtivo, pois aumenta a eficiência no trabalho ou nos estudos, por exemplo. Outra forma de “encurtar distâncias” – talvez a mais simples e fundamental – é conectar-se consigo mesmo. E o melhor jeito de fazer isso é prestar atenção à própria respiração, perceber o movimento de inspiração e expiração e, lentamente, levar o ar para o abdômen. O ciclo de respirações profundas ajuda a diminuir a quantidade de cortisol (o hormônio do estresse) na corrente sanguínea, aumenta a oxigenação cerebral e “avisa” o cérebro que está “tudo bem”, que é possível lidar com a situação, qualquer que seja ela – algo muito útil para encurtar distâncias que às vezes parecem intransponíveis e aproximar a pessoa de si mesma.

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Pelo menos três brasileiras são assassinadas por dia pelo simples fato de serem mulheres. O feminicídio é uma vergonha para o País e seu combate exige transformações sociais e culturais profundas. Elas já começaram.

Como impedir o massacre das mulheres

Três mulheres terão morrido covardemente no Brasil até o dia terminar. Amanhã, mais três. E mais três, mais três e mais três por dia, assim, sucessivamente, até o fim do ano. Mulheres como Adriele Freitas de Sena, golpeada dez vezes com uma faca pelo ex-namorado Valdelício Donizete. Ou Edilma Barbosa, morta a facada pelo marido, Edvan Oliveira. As duas morreram na terça-feira 28. Adriele em Guaíra, no interior de São Paulo, e Edilma em Cubatão, no litoral paulista. Elas foram vítimas de feminicídio, definido legalmente como o assassinato de mulheres por motivos de desigualdade de gênero. Ou seja, mortas pelo simples fato de serem mulheres. Em 2016, foram 929 homicídios enquadrados na classificação. Em 2017, 1.133. Os números consolidam o Brasil como um dos países que mais mata suas mulheres. É uma condição da qual qualquer nação civilizada deve se envergonhar. Figurar entre os campeões de feminicídio nos coloca mais próximos da barbárie do que da modernidade e da igualdade de tratamento e proteção que dela advém. Doído de se enxergar, o retrato coloca à sociedade brasileira o desafio de se mover para que um novo cenário seja criado.

Fácil não é, assim como não é fácil mudar toda realidade amalgamada na cultura de um país. E, aqui, matar e agredir física e emocionalmente mulheres fez parte da construção da identidade nacional, reflexo de uma concepção histórica do papel feminino nas sociedades que preponderou durante séculos e que ainda reverbera. Para muita gente, mulheres incluídas, a mulher é um objeto, uma propriedade do homem, destituída de individualidade e de poder sobre si mesma. Inclusive responsável pelas agressões das quais é vítima, uma vez que seu corpo seria fonte pecaminosa de atração. “Ao longo da história, firmou-se uma concepção de que as tentações do corpo provêm da mulher. O Direito absorveu muito destes conceitos”, afirma a cientista social Ana Figueiredo, de São Paulo. Este caldeirão de princípios equivocados justifica agressões e influencia o atendimento em delegacias, hospitais e outras instituições onde elas procuram ajuda e recebem, em troca, críticas ao próprio comportamento. A brutalidade permeia, ainda, as relações dentro de casas País adentro.

Destruir alicerces tão profundos é o caminho para impedir que o massacre das brasileiras prossiga. É triste que isso não ocorra com a velocidade que o problema exige, mas mudanças começam a acontecer. O próprio estabelecimento da lei do feminicídio é exemplo disto. Instituída em 2015 como uma evolução da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, a legislação tipifica o homicídio das mulheres por questão de gênero como crime hediondo. Significa dizer que é inafiançável e punido com penas mais rigorosas. Persiste, porém, muita confusão na sua caracterização e catalogação. Misturam-se mortes por outros tipos de violência – assaltos, por exemplo – com as resultantes da condição de gênero. Por isso, saber exatamente quantas são as vítimas de feminicídio é uma dificuldade. Os números disponíveis são resultado de levantamentos em instâncias diferentes, como secretarias estaduais de segurança pública e centros de estudo de violência, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública entre eles. Se há um consenso em relação às estatísticas é o de que os casos estão subnotificados.

De qualquer forma, dar um nome à questão assegura tratamento jurídico diferenciado e maior visibilidade a ela. Isso faz parte da mudança e aparece simbólica e concretamente em uma iniciativa que acaba de ser lançada pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. A exemplo de outras instâncias judiciárias do País, a corte gaúcha já dispunha de serviços específicos para atendimento a vítimas de violência doméstica. Elas contam, por exemplo, com ajuda psicológica e apoio para encontrar trabalho, auxílios fundamentais para que recomecem a vida. No entanto, aquelas que tinham passado por tentativas de assassinato não dispunham da assistência porque os processos correm nas varas criminais, e não nas designadas para violência doméstica, onde o serviço era oferecido.

Há duas semanas, o mesmo atendimento começou a ser garantido a elas. Além disso, o feminicídio ganhou seu espaço e identificação própria nas varas criminais. Os processos, cobertos por capas cor de rosa marcadas por um laço lilás, agora ficam em escaninhos separados. “É uma forma de dar visibilidade aos casos e também de ajudar a identificar as mulheres que podem ser beneficiadas pelo programa de apoio”, explica a juíza Madgéli Machado, titular do Primeiro Juizado da Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher da Comarca de Porto Alegre.

A experiência trouxe bons resultados. A presença de psicólogos na antessala das audiências, por exemplo, acalma as vítimas e assegura maior segurança na hora do depoimento. Diálogos semanais em grupo amenizam a dor ao compartilhá-la e sessões de arteterapia ajudam a exteriorizar sentimentos difíceis de serem verbalizados.

O modelo do judiciário gaúcho é parecido com projetos semelhantes existentes em outros estados. Todos possuem mecanismos para auxiliar as mulheres a encontrar trabalho e quebrar a dependência financeira, uma das amarras que mantém as vítimas presas aos agressores. Sem qualificações e muitas vezes sem experiência profissional, a mulher enfrenta dificuldade para sustentar a si e aos filhos. De acordo com dados do Ministério Público de São Paulo, responsável por programas de apoio no estado, 60% das mulheres não conseguem sair da violência porque não trabalham. Para atacar o problema pontualmente, a instituição firmou parceria com empresas privadas. As vítimas serão encaminhadas para concorrer a vagas para as quais o processo seletivo irá considerar a vulnerabilidade das candidatas.

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TRATAMENTO PARA ELES

Está claro que o combate ao flagelo das mulheres passa pelo atendimento a eles, os agressores. Por essa razão, começam a se espalhar pelo País grupos que reúnem os homens envolvidos com casos de feminicídio e outros tipos de agressões. O “Tempo de Despertar”, por exemplo, trabalho social e educativo direcionado a eles, funciona em todos os estados, à exceção de Roraima. “A lei Maria da Penha prevê a ressocialização. Participar pode diminuir a pena. Mas os homens que frequentam as discussões querem melhorar”, afuma o sociólogo Sérgio Barbosa, criador do projeto.

Nos primeiros encontros, as conversas entre os participantes são duras. É difícil fazê-los enxergar seus atos como agressão. “Eles dizem que são vítimas, injustiçados, que não cometeram crimes”, conta o psicólogo Flávio Urra, coordenador do programa “E agora, José?”, em São Paulo. Encorajados a falarem eles próprios das situações, muitos finalmente identificam seus erros. “Eles saem reproduzindo os princípios de respeito e observância da lei”, diz Urra.

A história de Bruno Cabral, 34 anos, de São Paulo, corrobora o que diz o psicólogo. Na verdade, ela é exemplar em todos os sentidos. Embute os elementos clássicos que levam ao feminicídio e de que forma é possível transformá-los. Há três anos, o histórico de violência contra a ex-mulher, Paloma da Silva, 31anos, chegou ao ápice quando ele tentou matá-la com uma faca. Antes, episódios de ameaças, espancamentos, manifestações de ciúme excessivo, se sucediam. Paloma, como muitas mulheres na mesma situação, assentia. Quando foi à delegacia denunciá-lo, ouviu do delegado que precisava refletir se queria mesmo que o marido fosse preso. Quis, mas por pouco tempo. “Voltei à delegada sem contar para ninguém. Disse que o lugar dele era na clínica, não na prisão”. Bruno foi solto. Depois da tentativa de assassinato, acabou condenado, passou trinta dias preso e foi obrigado a participar dos grupos de agressores. “Nos primeiros encontros não aceitava estar ali. Quando passamos a falar sobre o machismo, quebrei minha armadura”, conta. “Entendi que a gente agride física e psicologicamente. Eu bancava a casa. Então, se chegasse final de semana e eu quisesse ficar deitado no sofá e não ajudar em mais nada, eu poderia. As discussões eram muito em tomo dessa falta de apoio”, lembra. Há um ano ele se casou nova­ mente e vive uma relação sem registro de violência.

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PEQUENOS CIDADÃOS

Nenhuma transformação será consistente, porém, se não alcançar toda a sociedade. Nesse aspecto, há movimentos coletivos inspiradores, como as dezenas de organizações femininas que se mobilizam em defesa das mulheres, e as iniciativas que colocam os homens como aliados na mesma luta. Criado há quatro anos pela ONU, o movimento ElesPorElas (HeForShe, em inglês) envolve homens do mundo todo com o objetivo de quebrar barreiras sociais e culturais que ameaçam a população feminina. Hoje, são milhares de participantes, incluindo chefes de Estado, empresários e atores – no Brasil, Bruno Gagliasso e Mateus Solano entre eles. Uma das últimas ações do braço brasileiro do movimento foi o lançamento recente, em Porto Alegre, de uma campanha de repúdio ao assédio à mulher no transporte público. Os cartazes, ilustrados com a foto de um homem, alertam os usuários de ônibus, trens e metrô da capital gaúcha sobre o problema – grave em todo o País – e estimulam a denúncia de casos.

Dentro de casa já são observadas também modificações estruturais importantes. Aparecem com maior frequência exemplos de pais que estão ajudando a criar cidadãos para os quais a igualdade de gênero deve estar na base das relações e integra o conjunto de características que torna uma nação civilizada. O tema é um dos assuntos das conversas do empresário Facundo Guerra, 44 anos, com a filha Pina, 6 anos. “Falo com ela que os gêneros são diferentes, que cada um tem o seu, mas os direitos são iguais para todos”, diz Facundo, que já levou a menina a uma manifestação em defesa do direito das mulheres. A endocrinologista Cristina Formiga Bueno, 38 anos, é mãe de Arthur, 4 anos. Junto com o pai, o cardiologista Bruno Bueno, passa ao menino os mesmos princípios de equidade. “Ensinamos que não deve existir preconceito e nem superioridade de gênero”, diz. “Dizemos a ele que meninos podem se abraçar, ele veste rosa quando quer e o deixamos brincar com o que deseja. Tentamos não valorizar estereótipos. Se agirmos com igualdade de gênero com as crianças desde pequenas, tratando todos com o mesmo respeito, podemos diminuir a violência no futuro.” Esse é o caminho.