PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUANDO OS AUTISTAS CRESCEM

É frequente que empresas busquem profissionais flexíveis, sociáveis, com boa rede de contatos e capacidade de interação – justamente aspectos de que pessoas diagnosticadas com TEA não dispõem. Em compensação, podem ter outras habilidades muito valiosas. Felizmente, alguns projetos têm ajudado a diminuir o preconceito e ampliar as oportunidades para esses jovens.

Quando os autistas crescem

Maria* tem autismo. Sempre teve dificuldade para fazer amigos, mas se saía bem nos estudos, tirava boas notas. A escola onde estudava oferecia serviços de apoio para alunos com distúrbios do desenvolvimento, o que a ajudou a ingressar numa faculdade local. “No entanto, quando esse tipo de suporte cessou após a graduação, ela praticamente desmoronou”, recorda a mãe, Amira. No primeiro mês na universidade, Maria parou de frequentar as aulas e deixou de completar as tarefas. Depois de algum tempo, evitava a todo custo sair do dormitório. Desistiu da faculdade e voltou para casa, passando a permanecer o dia todo no quarto durante 23 horas por dia.

A história de Maria não é incomum. Muitos pais comparam a experiência do filho com autismo de sair do ensino médio com a de “cair de um penhasco”. “De forma geral, crianças e adolescentes com necessidades especiais têm mais facilidade de conseguir atendimento em instituições do que os mais velhos”, reconhece Ana Maria Mello, superintendente da Associação de Amigos do Autista (AMA), mãe de um rapaz de 37 anos com comprometimento intelectual pronunciado. “Meu filho mesmo não tem condições de trabalhar, mas mesmo para os que têm mais autonomia, infelizmente, há pouquíssimas opções para esse público.” Na própria AMA, com cerca de 200 funcionários, existem só dois contratados pelo regime de cotas. “Como o próprio nome diz, o transtorno do espectro autista (TEA) aparece em variados graus e, de fato, nem todos estão aptos a trabalhar, mesmo em tarefas simples, como empacotar objetos”, explica a superintendente. Além disso, muitos sequer têm a vontade de seguir alguma atividade profissional; é preciso fazer primeiro um trabalho com os jovens que poderiam seguir um encaminhamento mais autônomo.

INTELIGÊNCIA E DIFICULDADE

Espera-se que na idade adulta eles estejam qualificados profissionalmente e encontrem uma ocupação que os ajude a obter alguma autonomia. Até recentemente, quase não existia esse tipo de trabalho para um segmento crescente da população: adultos com autismo de alto funcionamento, mesmo em países industrializados. Estudos americanos, aliás, mostram que esse grupo é subempregado em comparação com pessoas com deficiências cognitivas mais graves, o que pode favorecer a solidão e o abatimento emocional. A combinação única entre inteligência comum ou alta e dificuldades de compreensão social pode deixar esses jovens adultos em uma situação frustrante: muitos apresentam os mesmos objetivos que seus pares com desenvolvimento considerado típico e, ainda que se esforcem, as oportunidades são raras.

Pais, psicólogos, médicos, pesquisadores e educadores reconhecem o problema. Nos últimos anos, surgiram nos Estados Unidos alguns projetos voltados para o atendimento desse grupo negligenciado. Atualmente, por exemplo, Maria está matriculada num plano de estágio em um dos programas mais bem estruturados, o Aspire, com base no Hospital Geral de Massachusetts (MGH). Ela trabalha meio período e diz gostar da socialização com os colegas. “Sair, conversar, usar o transporte público tem sido uma grande mudança”, diz Amira. A prevalência da síndrome continua a subir e, cada vez mais, pessoas com o diagnóstico entram na idade adulta. Alguns projetos buscam facilitar essa transição à medida que a pessoa cresce.

O espectro do autismo abrange um vasto conjunto de sintomas, mas todos com o diagnóstico têm algo em comum: a falta de facilidade de interação social. Adultos jovens que participam de programas específicos manifestam esses prejuízos de diversas formas. Para muitos, é difícil identificar emoções alheias, discernir o tópico da conversa e a maneira apropriada de se comportar em público ou compreender os próprios sentimentos e as necessidades.

Obviamente essas dificuldades pesam muito na hora de encontrar e manter um emprego. Pessoas com outros tipos de problema, como distúrbios da fala e linguagem, dificuldades de aprendizagem e até mesmo deficiência intelectual, apresentam taxas muito mais elevadas de emprego, o que sugere que os números entre os adultos com autismo não podem ser explicados somente pelos prejuízos. “Em geral, as empresas buscam profissionais flexíveis, sociáveis, com boa rede de contatos e capacidade de interação, e é justamente nessas áreas que a pessoa com autismo tem dificuldade”, observa a psicóloga Fernanda Lima, diretora de formação da Specialisterne. A empresa social foi fundada há 13 anos na Dinamarca, quando um diretor do departamento de tecnologia de informação (TI), pai de um menino autista, na ocasião com 7 anos, viu que o filho havia desenhado um complexo índice de um mapa, extremamente preciso, com mais de 500 caracteres, incluindo letras e números – e não havia cometido um erro sequer. Hoje, está em 32 cidades em 15 países, onde possibilitou a colocação profissional de mais de mil pessoas, vinculadas diretamente aos escritórios e por meio de parcerias.

A consultoria chegou ao Brasil há um ano e até agora já foram formadas 33 pessoas, 13 delas colocadas no mercado de trabalho e as demais em processo de inclusão profissional. As contratações ocorreram nas cidades de São Paulo e São Leopoldo e, em breve, no Rio de Janeiro. Mas a proposta é aumentar esse número e, para isso, terá início um novo curso de formação em São Paulo, com duração de cinco meses. Em 2015, no Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, foi iniciado um debate na Organização das Nações Unidas (ONU) entre representantes da Specialisterne e as duas maiores empresas mundiais do setor de TI, a SAP e a HP, para apresentar os benefícios de contratar pessoa com TEA. A SAP tem hoje mais de cem contratados e a HP, 37.

“A ideia não é que as empresas sejam benevolentes em relação a essas contratações, mas percebam o valor agregado que essa mão de obra especializada oferece”, salienta a psicóloga. Entre as vantagens profissionais de pessoas autistas de alto funcionamento (com os quais a Specialisterne trabalha) estão características como excelente memória, facilidade de raciocínio lógico e de manter a atenção prolongada no desempenho de uma tarefa que outros poderiam considerar desinteressante e tediosa, habilidade para detectar erros e padrões repetitivos, perseverança, honestidade (até pela falta de familiaridade com a dissimulação). “É o que chamamos de ‘paixão pelos detalhes’, que pode ser tão útil para o mercado”, diz Fernanda Lima.

A estimativa é que, pelo mundo afora, mais de 80% dos adultos com diagnóstico de autismo estejam fora do mercado de trabalho. “O fato é que, apesar das iniciativas que temos hoje, esses jovens estão em alto risco, principalmente após a saída do ensino médio, um período atribulado em que devem encontrar maneiras de participar do mundo do trabalho e da vida acadêmica”, afirma o psicólogo Paul Shattuck, professor na Universidade Drexel. Segundo ele, essa situação existe, em parte, porque os serviços de apoio foram criados levando em conta as necessidades de pessoas com deficiência intelectual, e não evoluiu muito ao longo do tempo. “Quem tem quociente intelectual (QI) mediano, mesmo que apresente dificuldades e peculiaridades na interação social, raramente consegue ajuda”, diz. Isso é realidade para muitos adultos que participam do Aspire. Apesar de o rótulo “síndrome de Asperger” não estar mais incluído no DSM-5, o manual psiquiátrico de transtornos mentais, muitos clientes do programa carregam esse diagnóstico ou se identificam com ele. Outros preferem autismo de alto funcionamento ou TID, que se refere ao transtorno invasivo do desenvolvimento, outro termo que não aparece mais no DSM, mas está associado a um nível relativamente alto de habilidades.

Mesmo quando essas pessoas encontram emprego, em geral as empresas costumam oferecer regime de voluntariado ou de meio período. Um levantamento mostrou que apenas 27 dos 48 participantes da amostra já haviam trabalhado desde o ensino médio; destes, apenas um era capaz de se sustentar. Já o Aspire, não disponível no Brasil, foi lançado há 12 anos, quando se separou do YouthCare (um programa de assistência a jovens), um projeto maior, que atende crianças com diversos tipos de problemas de saúde mental. O psicólogo clínico e diretor-executivo do Aspire, Scott McLeod, esclarece que o número de diagnósticos havia aumentado. E a YouthCare recebia muitos casos de pacientes no espectro. Os conselheiros decidiram, então, que precisavam de um programa voltado exclusivamente para o autismo.

Segundo a psicóloga escolar e diretora do programa, Dot Lucci, o objetivo é abordar o que a equipe do Aspire chama de três S: self-awareness (autoconhecimento), social competency (competência social) e stress management (gestão do estresse). Ela afirma que muitos que participam do projeto são brilhantes. “Mas, se você não é consciente de si nem apto socialmente e é incapaz de lidar com a ansiedade, nem toda inteligência do mundo pode ajudar. Nessas condições, dificilmente a pessoa será capaz de conseguir se manter um emprego ou permanecer num relacionamento”, argumenta.

NO TRABALHO

Alex se senta à mesa em uma conferência ao lado de seu supervisor, Kevin Heffernan. Ele está chegando ao fim de seu estágio de 14 semanas na divisão de Imobiliário Corporativo da Liberty Mutual. O rapaz conseguiu a vaga por meio do programa Aspire, que coloca profissionalmente jovens adultos com autismo em empresas nos arredores de Boston, além de oferecer apoio e orientação. Alex está entusiasmado com a experiência. “A oportunidade me deu um motivo para acordar”, diz. A experiência também lhe ensinou habilidades de trabalho essenciais, como fazer tabelas dinâmicas no Excel, algo de que se orgulha muito, a julgar pelo sorriso tímido em seu rosto quando menciona isso.

Heffernan conta que assim que terminar o estágio o garoto pode se candidatar a alguns cargos na empresa, e tem boas chances de conseguir uma vaga. “O céu é o limite para ele”, diz sorrindo. Não é somente sua capacidade de trabalho que impressiona o supervisor, mas também a forma como interage com os colegas. Antes de Alex começar a trabalhar, Heffernan foi avisado de que o rapaz era tímido e ficava ansioso em algumas situações sociais. “Meu radar ficava ligado”, admite o patrão. Mas com o tempo Alex foi se sentindo mais à vontade com os colegas de trabalho. “Ele está indo muito bem, obrigado”, comemora Heffernan.

Estudos sobre programas de treinamento profissional para pessoas com autismo, embora preliminares, sugerem que a abordagem pode ajudar os mais crescidos, como Alex, a ter sucesso. Por exemplo, em um ensaio clínico do programa de transição do ensino médio – projeto SEARCH, que atende adultos com a síndrome nos Estados Unidos, os participantes completaram um programa de estágio de nove meses incorporado em um negócio grande da comunidade, como um hospital, por exemplo, em que passaram por diferentes postos de trabalho e aprenderam diversas habilidades práticas, como usar o transporte público para chegar ao local. Eles tiveram também apoio individualizado de especialistas em autismo. Enquanto isso, o grupo de controle recebeu os serviços-padrão prestados pela escola. Os dados são animadores: dos 24 adultos que concluíram o estágio, 21 conseguiram um emprego, em comparação com apenas um dos 16 entre os outros voluntários. Essa diferença se manteve por três meses. E talvez ainda mais importante: os que participaram do programa ganharam independência ao longo do tempo – isto é, precisavam cada vez menos de suporte – o que, infelizmente, não foi observado no grupo de controle.

O projeto oferece orientação, atividades sociais em grupo e oportunidades de estágio. O Aspire dispõe também de serviços que facilitam a aproximação entre os estudantes, como o acampamento de verão do primeiro ano, em que os alunos têm a oportunidade de desenvolver habilidades práticas relacionadas à vida no campus. Assim que ingressam na faculdade, podem se inscrever no programa de tutoria do Aspire. Cada participante conhece um universitário bem articulado no campus, com quem forma um par. Esse aluno ajuda a pessoa com autismo a se familiarizar com os serviços e principais recursos, oferecendo suporte contínuo.

Para quem tem deficiência intelectual, programas como Next Steps (próximos passos), da Universidade Vanderbilt, permitem que os alunos tenham aulas ao lado de colegas, aprendam competências profissionais e sociais e ganhem um certificado após dois anos. Nos Estados Unidos, outras iniciativas para adultos com a síndrome também focam o emprego e a educação continuada. Um exemplo é o Programa de Estágio da Faculdade, com base em Indiana, Califórnia, Massachusetts e Nova York, voltado para estudantes universitários no espectro do autismo que não apresentam prejuízos intelectuais.

O projeto SEARCH também atende esse perfil ou quem apresenta qualquer prejuízo significativo no desenvolvimento. É importante fazer essas distinções por causa da grande variabilidade de funcionamento de pessoas com autismo. Não é fácil oferecer tratamento a essa população tendo em vista a heterogeneidade dentro do espectro. Diferenciar os casos também ajuda a assegurar programas de financiamento – a maioria vem de doações filantrópicas privadas, o que permite oferecer auxílio financeiro às famílias dos clientes.

Esses programas favorecem não só conseguir emprego, mas também mantê-lo com sucesso, o que, muitas vezes, exige ter de lidar com situações delicadas. Um dos estagiários do Aspire se mostrou bastante angustiado, por exemplo, depois de encontrar um colega de trabalho de etnia diferente da sua. Disse ao supervisor que não poderia trabalhar com essa pessoa porque já havia passado por uma experiência negativa com alguém da mesma cultura. Ana Maria Mello, da AMA, também se lembra de que, em uma entrevista de um candidato a uma vaga de emprego, ouviu do rapaz que nove horas era “muito cedo” para começar a trabalhar e ele não gostava de acordar cedo. “Sincero e sem rodeios”, comenta.

Essas situações podem ser desconfortáveis, mas McLeod enxerga isso como uma ótima oportunidade de aprender onde mais importa: na hora e na vida real. De fato, “fazer intervenções no cotidiano”, como ele mesmo diz, é a chave da abordagem do Aspire. “Um dos principais desafios para quem tem a síndrome é a transferência e generalização das habilidades”, argumenta. Ele acredita que compreender a perspectiva do outro pode fazer sentido num consultório terapêutico, mas ser algo extremamente difícil de praticar na vida diária.

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DE OLHO NO FUTURO

Maria se senta com um pequeno grupo de homens e mulheres jovens à mesa numa sala de reuniões, esperando começar o seminário semanal de estágio. Ela conversa com uma garota morena e sorridente chamada Nicole enquanto os outros verificam os smartphones. Um quadro de avisos na parede tem um papel que diz: “Eu almejo…”. Logo ao lado, há algumas estrelas desenhadas com metas escritas pelos clientes, desde sonhos a coisas simples: “Seja um piloto da Nascar”; “Chegue ao trabalho cinco minutos antes”; “Pergunte aos outros sobre seus interesses”. O psicólogo clínico Bretton Mulder, diretor do departamento de adolescentes e jovens adultos do Aspire, começa a sessão perguntando aos estagiários como foram as coisas nas primeiras duas semanas de trabalho. Maria se queixa de que levou duas horas para pegar seu crachá de segurança na MGH, onde tem atuado na área de gestão de materiais. Outros mencionam problemas de tráfego ou da socialização por meio da música. Depois de ouvir o grupo, Mulder discute maneiras de distinguir comentários relacionados ao tema na hora de participar de reuniões. Fala também sobre a importância de evitar julgar colegas de trabalho com base na aparência ou no nível de educação, por exemplo.

Durante a reunião, sem se dar conta, Nicole interrompe seus companheiros, mas logo em seguida percebe. Coloca uma das mãos sobre a boca e gentilmente sinaliza com a outra na direção de quem estava na vez de falar, como se dissesse, “Opa… vá em frente”. McLeod destaca que para muitas pessoas com a síndrome é um desafio demonstrar esse nível de autoconsciência exemplificado por Nicole. “No autismo, a dificuldade de compreender a perspectiva alheia pode vir acompanhada da confusão entre si e o outro”, explica. Para ajudar os participantes do Aspire e de outros programas a descobrir a própria identidade, os tutores os incentivam a refletir sobre suas forças, fraquezas, seus pensamentos e sentimentos. Um processo que pode levar a importantes compreensões: “Sou uma pessoa brilhante, mas que costuma reagir intensa- mente a certos estímulos sensoriais”, exemplifica McLeod. Os clientes são encorajados a partilhar esses aspectos relevantes da personalidade com amigos ou colegas de trabalho, o que tende a favorecer a aceitação e compreensão mais rapidamente.

Considerando a autoconsciência como base mental e as habilidades sociais aplicadas como componentes práticos, um terceiro fator, não raro deixado de lado, mas crucial para auxiliar adultos no espectro do autismo, é a capacidade de lidar com o estresse. Muitos projetos, incluindo o Aspire, ensinam a seus clientes técnicas da medi- tação mindfulness e ioga, por exemplo. Os dados preliminares indicam que, com esses três pilares, muitos clientes conseguem arrumar um trabalho e, em algum momento, dispensar os programas de apoio. No entanto, a prevalência do transtorno continua crescendo. Uma em cada 68 crianças tem autismo, segundo estimativas de 2010 dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), um aumento de 30% em relação aos números publicados em 2008. Pesquisas recentes sugerem que uma das principais razões dessa diferença se deve ao diagnóstico mais frequente precisamente do perfil atendido pelo Aspire: pessoas cognitivamente mais capazes.

Embora o projeto ainda não tenha mensurado os resultados, os dados da pesquisa sugerem que os clientes e suas famílias es- tão bem satisfeitos. Para algumas pessoas como Maria, o programa tem sido uma espécie de bote salva-vidas. O estágio na MGH pode não ser o emprego dos sonhos. “Qualquer um pode fazer isso”, ela diz a seus colegas com naturalidade durante o seminário de estágio. No entanto, Maria encara isso como um grande passo em direção ao seu objetivo de longo prazo, que é ser paramédica. E, talvez mais importante, Amira conta que a equipe ajuda a filha a se sentir “respeitada e admirada. Essas pessoas enxergam as possibilidades e o potencial que ela tem”. Como resultado, a perspectiva de Maria mudou drasticamente. “Ela costumava dizer que não tinha futuro”, desabafa a mãe. “Agora, minha filha faz planos.”

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PESSOAS QUE PRECISAM DE PESSOAS

Um rapaz de 19 anos, de pele clara e cabelos escuros, chamado Mateus, permanece no centro de um círculo, cercado por seus pares sentados em cadeiras dobráveis. “Preciso ganhar dinheiro rapidamente. O que devo fazer?”, pergunta.

“Roubar todo o ouro da cidade… ou assaltar um banco em Paris!”, exclama Dani.

“Trabalhar turnos de 24 horas para o resto da vida”, Nicolas sugere.

“Vender os braços e as pernas”, diz Jane, que escuta muitas risadas.

Esses jovens adultos com autismo participam de um jogo de improvisação chamado Bad advice (mau conselho), promovido no Aspire. A pessoa no centro do círculo apresenta um problema a ser resolvido, enquanto o restante tenta chegar à pior sugestão possível. Além de ser uma atividade divertida para “quebrar o gelo”, o exercício oferece o conceito de “prós e contras” sociais; a premissa é que ensinar como não se comportar em situações coletivas registra nos participantes, de maneira implícita, como devem agir.

Depois, começa mais uma sessão de grupo Excursões de Sábado do Aspire. Para a maioria dos clientes, os encontros proporcionam um passeio extremamente necessário. Embora muitos com autismo sejam considerados distantes e desinteressados na socialização, para outros tantos, o oposto é verdadeiro. Um estudo da Universidade do Missouri com adultos diagnosticados com a síndrome, publicado em abril passado, revela que uma boa parte sofre com a solidão e o isolamento, o que pode levar à depressão e à ansiedade. O afastamento social pode ser grave: um estudo nacional feito com adolescentes com autismo, publicado em 2011, mostra que mais da metade não havia se aproximado de um amigo no ano anterior. E, quando outro grupo de pesquisadores perguntou aos pais de adultos com a síndrome sobre necessidades não atendidas dos filhos, muitos citaram a interação coletiva. Um grande número de autistas nessa idade anseia se relacionar socialmente, mas não sabe como.

A excursão oferece uma oportunidade não só de desfrutar da companhia um do outro, mas de praticar habilidades em que os jovens adultos têm dificuldade, como o que a equipe chama de “atividades cotidianas” – tarefas como organizar um passeio e gerir tempo e dinheiro.  Após o jogo de improvisação e antes que o grupo sinta o vento de primavera no início da tarde, os profissionais da Aspire lembram a todos que vão assistir a um filme no centro da cidade durante a semana. Eles reveem a programação para o dia, verificam a rota de metrô para o cinema e distribuem carteiras com cartões de débito pré-carregados e bilhetes de metrô. No caminho de ida e volta do teatro, há bastante tempo para praticar outra habilidade essencial: a conversa.

Dan, um jovem com o cabelo muito rente e óculos de sol, pergunta a data de aniversário dos colegas para ler o horóscopo num aplicativo de smartphone. Atualmente, as saídas são tranquilas.

Depois do evento, todos costumam se reunir para discutir os “altos e baixos”. (Consenso: assistir ao filme Lego foi considerado positivo; Caminhar contra o vento, negativo.) No entanto, há percalços ocasionais.  Em uma viagem para o Arsenal da Marinha, com um grupo diferente, um dos membros, cansado de caminhar, se deitou para descansar em uma cama a bordo de um navio. Essas situações complicadas podem ser uma boa oportunidade de discutir comportamentos sociais adequados – por exemplo, explicando que, em algumas ocasiões, é necessário agir de forma diferente em público e no privado.

O programa Aspire realiza a maior parte das intervenções coletivamente, em vez de trabalhar no caso a caso. “Acreditamos que ações individuais não são desafiadoras; entendemos que o grupo é um dos lugares mais poderosos para aprender aptidões”, observa o psicólogo Scott McLeod. Ao mesmo tempo, esse contexto é possível causar mais segurança e previsibilidade do que diversas situações cotidianas, o que pode permitir que os clientes se sintam menos apreensivos e pratiquem habilidades que talvez de outra forma não os deixassem à vontade. “A razão de não demonstrar determinada capacidade social, em geral, se deve a fatores muito mais complexos do que apenas não ter tal habilidade”, completa. Em muitos casos, outras questões pesam, como ansiedade, dificuldade de compreender a perspectiva alheia ou simplesmente não assimilar o propósito de certos comportamentos coletivos. É por isso que o Aspire evita simplesmente desenvolver aptidões nos clientes, uma abordagem que, segundo McLeod, “falhou completamente”.

Poucos estudos (e distantes entre si) abordam a melhor forma de ajudar adultos com autismo a aprender e a praticar habilidades sociais. O programa desenvolveu um estilo de trabalho a partir de diversos métodos com base em evidências psicológicas. Um tutor enfatiza os pontos fortes do cliente e oferece comentários positivos e negativos, uma técnica apoiada nos princípios da psicologia positiva.

Eles também encorajam os participantes a raciocinar sobre os pensamentos e sentimentos subjacentes ao comportamento alheio e próprio, um princípio central da terapia cognitivo-comportamental. “A premissa é que podemos aprender aptidões coletivas por meio da troca com os pares, respeitando o próprio tempo e o do outro.

Mas, se não temos ideia do que está em jogo, isso se torna superficial. Tudo se desfaz ao encararmos uma situação diferente”, argumenta Dot Lucci. “Por isso, propomos algo diferente.”

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OUTROS OLHARES

DIVERSÃO COM RESPONSABILIDADE

No mundo infinito da internet, há de tudo, criando uma necessidade de abordar temas que englobam os impactos da exposição de crianças e adolescentes na web.

Diversão com responsailidade

Em um vídeo postado no YouTube e no Facebook, um menino de apenas 5 anos realiza um experimento curioso. Durante 30 dias, a criança elogia uma planta enquanto “maltrata” outra do mesmo tamanho. É um experimento sobre o efeito do bullying. No final, a criança se emociona ao perceber que a planta alvo de seu desafeto morreu. Em outro vídeo, duas crianças dançam sorridentes ao som do funk Sarrada no Ar, enquanto seus pais falam em alto e bom som “continuem”, “não parem não”. Enquanto isso, os filhos dançam até o chão. Não demora para eu achar um vídeo de duas adolescentes ensinando como camuflar o celular para usá-lo em sala de aula sem alertar o professor.

Não há dúvida de que o primeiro vídeo citado é interessante e resguarda uma mensagem positiva – um gargalo para as generalizações grotescas contra a internet. Generalizar é mais fácil, mas esse e tantos outros exemplos demonstram o quão perigoso é trilhar pelo caminho mais curto e simples. Quando falamos em conteúdo protagonizado por crianças e adolescentes, vale uma investigação mais profunda. Nesse caso, a raiz são os pais, que precisam ser ouvidos e explicar a origem desses canais virais e a maneira como veem essas produções compartilhadas na internet. Falar é um ato de coragem e escutar sobre aprendizagem nos ajuda a lidar com esses conflitos do ciberespaço.

Participei como ouvinte do 3° Workshop “Impactos da Exposição de Crianças e Adolescentes na Internet”, organizado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGl.br) e Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), que contou com a presença de diversos profissionais, dentre eles Luiz Fernando Riesemberg, pai do YouTuber mirim Tiago, que protagonizou o vídeo viral do experimento de bullying com as plantas. Examinando a fala de Riesemberg, nota-se uma preocupação soberana dele: a felicidade do Tiago. O pai recorda que tudo começou a partir de uma brincadeira:  “Percebi que ele está entediado num sábado à tarde e resolvi fazer uma coisa diferente para ele. Ele então gravou um vídeo e não se aguentou e postou nas redes sociais. O feedback de amigos e familiares foi positivo, claro, motivando o pai a repetir o ato de compartilhar o vídeo do filhote. Até aí parece que o desejo do pai impera, mas ele lembra que sempre conversou com o filho sobre as postagens e deixou claro que era o filho que escolhia gravar ou não. O que chama atenção é a ênfase na fala de não apresentar a produção de conteúdo em vídeo como um compromisso para a criança.

Há vários canais protagonizados por crianças que estampam na primeira imagem do vídeo mensagens como “vídeos novos todas terças e quintas”. De fato, esse não é um bom caminho quando alguém pensa primeiramente na criança. Reisemberg lembra também que o Tiago sempre aprende algo novo quando grava e faz isso porque gosta e se diverte. Por parte do pai Luiz Fernando, nota-se uma legítima presença dele em todas as redes sociais, acompanhando os comentários e toda repercussão do vídeo de seu filho. Ele ainda observa que lê todos comentários e bloqueia perfis que escrevem frases ofensivas. Riesemberg é vigilante da imagem compartilhada do seu próprio filho, revelando que seu amor paternal é marcado por um senso temperado de autonomia, diversão e responsabilidade.

 

TIAGO J.B. EUGÊNIO – é mestre em Psicobiologia e Estudos do Comportamento Humano. É designer de aprendizagem na Rhyzos Educação e escreve sobre educação, tecnologias e Neurociências.

E-mail:tiagoeugenio20@gmail.com – site: http://www.tiagoeugenio.com.br

GESTÃO E CARREIRA

JAMAIS CONFIE NA PRIMEIRA SACADA

Siga a regra de Thomas Edison: Se quiser uma boa ideia, pense em dez outras.

Jamais confie na primeira sacada

Thomas Edison, um dos ícones históricos da inovação, adotava um método que pode explicar, em boa parte, o sucesso de suas empreitadas: sempre que pedia à equipe de seu laboratório uma solução para desenvolver um produto ou componente, Edison exigia também que trouxessem dez propostas em vez de uma. Longe de ser apenas um capricho de um chefe rigoroso ou detalhista, esse método era uma forma de combater o fenômeno da chamada “preguiça cerebral”, responsável por adotar a primeira proposta surgida, que raramente é a melhor possível. Neurocientistas do Baylor College of Medicine, em Houston, se basearam justamente no método de Edison para elaborar exercícios que evitam a preguiça cerebral, partindo do princípio de que a chave para inovar é sempre desenvolver a ideia inicial, para enriquecer ainda mais o ambiente em que ela surgiu.

Nosso cérebro, explicam os cientistas, geralmente adota o caminho da menor resistência – isto é, evita ficar elaborando em excesso –, pois esta seria a forma mais rápida para avançar na tarefa. O resultado, porém, pode deixar a desejar. O neurocientista David Eagleman, um dos autores da pesquisa do Baylor College, realizou um interessante exercício: primeiro pediu à sua plateia que imaginasse a paisagem de uma praia e depois perguntou quantas pessoas haviam vislumbrado espuma de ondas do mar ou cocos balançando em um coqueiro. Ninguém levantou a mão. Isso porque, explicou Eagleman, seus cérebros geraram as imagens mais simples possíveis para atender rapidamente à sua solicitação, sem maior elaboração.

Pesquisa da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, coordenada pelo professor Adam Grant (autor de Originals, livro que trata de inovação), confirma a conclusão dos colegas do Baylor: os maiores inovadores não necessariamente elaboram as melhores ideias, mas persistem o suficiente para obter mais ideias. Em seu livro, Grant explora os métodos necessários para reconhecer uma boa ideia, saber defendê-la, construir uma rede de aliados para apoiá-la e escolher o momento certo para implementá-la. “As primeiras ideias tendem a ser mais convencionais ou óbvias”, diz Grant, para quem a inovação só começa quando empacamos na busca inicial de soluções e, então, somos obrigados a explorar novos territórios mentais. Como diria Edison em uma conhecida frase, “não fracassei, apenas cheguei a 10 mil propostas que não funcionaram” – até obter a boa ideia.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 16: 16-22

Alimento diário

A partida e o retorno de Cristo. A tristeza e a alegria são preditas

Nosso Senhor Jesus, para o consolo dos seus discípulos entristecidos, aqui promete que os visitaria outra vez.

 

I – Observe a insinuação que Ele lhes fez, do consolo que lhes designava, v. 16. Aqui Ele lhes diz:

1. Que, dentro de pouco tempo, eles deixariam de vê-lo: “Um pouco”, e vós, que me vistes durante tanto tempo, e ainda desejais me ver, “não me vereis”, e, portanto, se tivessem alguma pergunta a fazer ao Senhor Jesus, deviam fazê-la rapidamente, pois agora Ele estava se despedindo deles. Observe que é bom considerarmos o quanto nossos períodos de graça estão próximos do seu final, para que possamos nos motivar a aproveitá-los enquanto permanecerem. Agora nossos olhos veem nossos professores, veem os dias do Filho do homem. Mas, talvez, dentro de pouco tempo, não os vejamos mais. Eles perderam Cristo de vista:

(1) Na sua morte, quando Ele se retirou deste mundo, e nunca mais se apresentou nele abertamente. O máximo que a morte faz aos nossos amigos cristãos é tirá-los da nossa vista, não da existência, nem da bem-aventurança, mas de qualquer relacionamento conosco. Eles estarão somente fora da nossa vista, mas não fora da nossa mente.

(2) Na sua ascensão, quando Ele se retirou deles (daqueles que, depois da sua ressurreição, tiveram algum tempo de convivência com Ele), e passou a estar fora do alcance da vista deles. Uma nuvem o recebeu, e, embora eles tivessem os olhos fixos nele, não o viram mais, Atos 1.9,10; 2 Reis 2.12. Veja 2 Coríntios 5.16.

2. Que, ainda assim, em breve, eles recobrariam a visão que tinham dele. “Outra vez um pouco, e ver-me-eis”, e, portanto, não deveis entristecer-vos como aqueles que não têm esperança. Sua despedida não era uma despedida final. Eles o veriam outra vez:

(1) Na sua ressurreição, pouco tempo depois da sua morte, quando Ele se apresentou vivo, por muitas provas infalíveis, e isto dentro de muito pouco tempo, nem sequer quarenta horas. Veja Oséias 6.2.

(2) Pelo derramamento do Espírito, pouco tempo depois da sua ascensão, que dissipou a névoa da ignorância e dos enganos em que eles estavam quase perdidos, e lhes deu uma percepção muito mais clara dos mistérios do Evangelho de Cristo do que eles já tinham tido. A vinda do Espírito era a visita de Cristo aos seus discípulos, não uma visita transitória, mas uma permanência, e uma visita que recobrou abundantemente a visão que tinham dele.

(3) Na sua segunda vinda. Eles viram o Senhor Jesus outra vez quando foram levados, um por um, até Ele, através da morte. E o verão juntos, no fim dos tempos, quando Ele vier nas nuvens, a ocasião em que todo olho o verá. Pode-se dizer verdadeiramente que era somente um pouco, e eles o veriam. Pois, o que são os dias do tempo, comparados aos dias da eternidade? 2 Pedro 3.8,9.

  1. Ele dá a razão: “‘Porquanto vou para o Pai’, e, portanto”:

(1) “Eu devo lhes deixar por algum tempo, porque meu trabalho me chama para o mundo superior, e vocês devem se contentar em me poupar, pois, na verdade, meu trabalho beneficia cada um de vocês”.

(2) “Portanto, vocês me verão novamente, dentro de pouco tempo, pois o Pai não irá me reter, o que seria prejuízo para vocês. Se Eu prosseguir com sua missão, vocês me verão novamente tão logo meu trabalho esteja concluído, tão logo seja conveniente”.

Ao que parece, tudo isto se refere mais à sua partida na morte, e ao seu retorno na ressurreição, do que à sua partida na ascensão, e ao seu retorno no final dos tempos. Pois era sua morte que os entristecia, e não sua ascensão (Lucas 24.52). E entre sua morte e sua ressurreição, realmente se passou pouco tempo. E a expressão bíblica pode ser interpretada não como “um pouco”, como em João 12.35), mas “por um pouco, e não me vereis”, a saber, os três dias em que o Senhor Jesus esteve no sepulcro. E outra vez, “por um pouco, e ver-me-eis”, a saber, os quarenta dias entre sua ressurreição e sua ascensão. Assim, podemos dizer dos nossos ministros e amigos cristãos: Um pouco, e não os veremos, seja porque eles devem nos deixar ou porque nós devemos deixá-los. Mas, assim como é certo que de­ vemos nos separar em breve, também não podemos nos esquecer de que, mais tarde, estaremos juntos para sempre. Ê como dizermos boa noite àqueles que nós esperamos ver, com alegria, na manhã seguinte.

 

II – A perplexidade dos discípulos com a insinuação que lhes foi dada. Eles ficaram confusos quanto a como interpretá-la (vv. 17,18). Alguns deles, fossem alguns dos mais fracos, que eram menos capacitados, ou alguns dos mais inquisidores, que eram mais desejosos de compreendê-lo, disseram, mansamente, entre si: Que é isto que nos diz? Embora Cristo frequentemente tivesse falado com este objetivo antes, eles ainda estavam às escuras. Embora estivessem recebendo vários preceitos, um depois do outro, eles não seriam úteis, se Deus, o Pai, não lhes desse o entendimento. Veja aqui:

1. A fraqueza dos discípulos, expressa no fato de que não conseguiam compreender uma mensagem tão clara, da qual Cristo já tinha lhes dado uma explicação, tendo dito a eles, com tanta frequência, e em termos tão claros, que Ele seria morto, e no terceiro dia ressuscitaria. Contudo, dizem eles: “Não sabemos o que diz”. Pois:

(1) A tristeza tinha enchido seus corações, e os deixava incapazes de receber as palavras de consolo. As trevas da ignorância e as trevas da melancolia comumente aumentam e complicam umas às outras. Os enganos provocam as tristezas, e as tristezas confirmam os enganos.

(2) A noção do reino secular de Cristo estava tão profundamente enraizada neles, que eles não conseguiam compreender o significado de todas estas mensagens do Senhor. Eles não sabiam como conciliar estas mensagens com aquela noção. Quando nós pensamos que as Escrituras devam estar de acordo com as falsas ideias de que estamos impregnados, não é de admirar que reclamemos de dificuldades. Mas, quando nossas reflexões são atraídas para a revelação, o assunto se torna uma questão de fácil compreensão.

(3) Aparentemente, o que os confundiu foi a expressão “um pouco”. Se o Senhor Jesus deveria ir, de qualquer modo, eles não conseguiam entender como Ele os deixaria tão rapidamente, quando sua permanência, até agora, tinha sido tão curta, e por um espaço de tempo tão curto, comparativamente. Desta maneira, é difícil descrevermos, para nós mesmos, essa mudança como próxima, ainda que sabemos que certamente vir á, e que pode vir repentinamente. Quando nós dizemos: “Um pouco”, e devemos ir daqui, “um pouco”, e devemos abrir mão da nossa explicação, nós não sabemos como compreender isto, pois sempre entendemos que a visão é para muitos dias, Ezequiel 12.27.

2. A vontade que tinham de ser instruídos. Quando estavam perplexos sobre o significado das palavras de Cristo, eles conversaram sobre isto, e pediram ajuda uns aos outros. Por meio da conversa sobre as coisas divinas, nós emprestamos o esclarecimento de outros, e, ao mesmo tempo, aperfeiçoamos o nosso. Observe com que exatidão eles repetem as palavras de Cristo. Embora nós não possamos resolver plenamente todas as dificuldades com que nos deparamos nas Escrituras, ainda assim não devemos, por causa disto, deixá-las de lado. Devemos determinar o que não podemos explicar, e esperar até que Deus nos revele estas coisas.

 

III – A explicação adicional daquilo que Cristo tinha dito.

1. Veja aqui por que Cristo explicou (v. 19): porque Ele sabia que eles desejavam lhe perguntar, e planejou isto. Observe que devemos levar os nós que não podemos desatar ao único que pode nos dar algum entendimento. Cristo sabia que eles desejavam perguntar a Ele, mas estavam acanhados e envergonhados para fazê-lo. Observe que Cristo toma conhecimento dos desejos piedosos, embora ainda não tenham sido oferecidos. Ele conhece as queixas que não podem ser proferidas, e até mesmo as antecipa, com as bênçãos da sua bondade. Cristo instruía àqueles que Ele sabia que estavam desejosos de pergunta-lhe, ainda que não perguntassem. Antes que eles peçam, Ele responde. Outro motivo pelo qual Cristo explicou foi porque Ele observou que eles estavam discutindo o assunto entre si: “Indagais entre vós acerca disto?’’ Bem, Eu vou esclarecer para vós”. Isto nos sugere quem são aqueles a quem Cristo deseja ensinar:

(1) Os humildes, que confessam sua ignorância, pois é isto o que suas perguntas evidenciam.

(2) Os diligentes, que usam os meios que possuem: “‘Indagais?’ Sereis ensinados. A qualquer que tiver será dado”.

2. Veja aqui como Ele explicou: não por meio de uma discussão agradável e crítica sobre as palavras, mas aproximando a questão deles. Ele lhes tinha dito que não mais o veriam, e depois o veriam, e eles não compreenderam o significado, e por isto Ele explica, falando da sua tristeza e alegria, porque normalmente nós avaliamos as coisas conforme elas nos afetam (v. 20): “Vocês irão chorar e lamentar minha partida, mas o mundo se alegrará nisto. E vocês ficarão entristecidos, enquanto Eu estiver ausente, mas, quando Eu retornai; sua tristeza se converterá em alegria”. Porém, Ele não diz nada sobre a expressão “um pouco”, porque viu que isto os confundiu mais do que qualquer outra coisa, e não é importante para nós conhecermos as horas e as ocasiões. Observe que os crentes sentem alegria ou tristeza conforme tenham ou não uma visão de Cristo, e os sinais da sua presença com eles.

(1) O que Cristo diz aqui, e nos versículos 21 e 22, sobre sua tristeza e alegria, deve, basicamente, ser interpretado como sendo o estado e as circunstâncias atuais dos discípulos, e, desta maneira, temos:

[1] A predição da sua tristeza: “Vós chorastes e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes”. Os sofrimentos de Cristo não podiam deixar de ser a tristeza dos seus discípulos. Eles choraram por Ele porque o amavam. A dor de um amigo nosso é uma dor para nós. Quando eles dormiram, foi por tristeza, Lucas 22.45. Eles choraram por si mesmos, e pela sua perda, e pelas tristes noções que tinham do que iria acontecer com eles, depois que Jesus tivesse partido. Não podia deixar de provocar tristeza perder aquele por quem eles tinham deixado tudo, e em quem tinham tido tantas expectativas. Cristo avisou aos seus discípulos, de antemão, a que esperassem tristezas, para que pudessem valorizar os consolos da maneira adequada.

[2] A alegria do mundo, ao mesmo tempo: “E o mundo se alegrará”. Aquilo que é a tristeza dos santos é a alegria dos pecadores. Em primeiro lugar, aqueles que são estranhos a Cristo irão permanecer na sua alegria carnal, e não se interessarão pelas suas tristezas. Ela não representa nada àqueles que passam pelo caminho, Lamentações 1.12. Em segundo lugar, aqueles que são inimigos de Cristo se alegrarão, porque esperarão tê-lo derrotado, e destruído seus interesses. Quando os principais dos sacerdotes pregaram Cristo na cruz, podemos supor que se alegraram com isto, como aqueles que habitam na terra, sobre as testemunhas mortas, Apocalipse 11.10. Que não seja surpresa para nós, se virmos outros triunfando, quando estivermos tremendo pela arca.

[3] O retorno da alegria a eles, no devido tempo: “Mas a vossa tristeza se converterá em alegria”. Assim como a alegria dos hipócritas, também a tristeza do verdadeiro cristão dura somente um pouco. Os discípulos ficariam felizes quando vissem o Senhor. Sua ressurreição era, para eles, como receber a vida estando mortos. E sua tristeza pelos sofrimentos de Cristo se converteria em uma alegria de tal natureza, que não poderia ser amortecida nem amargurada por nenhum sofrimento deles mesmos. Eles ficaram contristados, mas estavam sempre alegres (2 Coríntios 6.10). Tiveram vidas tristes, mas corações alegres.

(2) Os tópicos a seguir se aplicam a todos os fiéis seguidores do Cordeiro, e descrevem a situação comum dos cristãos.

[1] Sua condição e disposição era desolada. As tristezas eram seu destino, e a seriedade, seu estado de espírito. Aqueles que conhecem a Cristo devem, como Ele, conhecer a tristeza. Eles choraram e se lamentaram por aquilo a que os outros não davam importância, a saber, seus próprios pecados e os pecados dos que estavam à sua volta. Eles lamentam com os sofredores que lamentam, e lamentam pelos pecadores que não lamentam por si mesmos.

[2] O mundo, ao mesmo tempo, prossegue com toda a alegria. Eles riem agora, e passam seus dias tão jovialmente, que alguém poderia pensar que eles nem conheciam o sofrimento nem temiam. A alegria carnal e os prazeres certamente não são as melhores coisas, pois os piores homens não terão uma cota tão grande deles, e os favoritos do céu serão estranhos a eles.

[3] A tristeza espiritual em breve se converterá em alegria eterna. A alegria é semeada nos justos de coração, que semeiam lágrimas, e, sem dúvida, em breve segarão com alegria. Sua tristeza não somente se seguirá de alegria, mas se converterá em alegria, pois os mais preciosos consolos surgem das tristezas piedosas. Desta maneira, o Senhor faz uma ilustração, através de uma comparação com uma mulher prestes a dar à luz, a cujas tristezas Ele compara as dos seus discípulos, para incentivá-los, pois a vontade de Cristo é que seu povo seja um povo consolado.

Em primeiro lugar, aqui está a comparação, ou parábola, propriamente dita (v. 21): ”A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza”, sente uma dor cortante, “porque é chegada a sua hora”, a hora que a natureza e a providência fixaram, que ela esperou e da qual não pode escapar; “mas, depois de ter dado à luz a criança”, desde que tenha nascido saudável, e seja um Jabez (1 Crônicas 4.9), e não um Benoni (Genesis 35.18), “já se não lembra da aflição”, seus gemidos e queixumes se acabam, e as dores pós-parto são mais fáceis de suportar; “pelo prazer de haver nascido um homem no mundo”, da raça humana, um filho, seja homem ou mulher, pois a palavra significa as duas coisas. Observe:

3. O fruto da maldição, na tristeza e dor de uma mulher prestes a dar à luz, de acordo com a sentença de Gênesis (Genesis 3.16): “Com dor terás filhos”. Estas dores são extremas, as maiores dores e tristezas são comparadas a elas (Salmos 48.6; Isaias 13.3; Jeremias 4.31; 6.24), e são inevitáveis, 1 Tessalonicenses 5.3. Veja o que é este mundo. Todas as suas rosas estão rodeadas de espinhos, todos os filhos elos homens são, de acordo com esta explicação, crianças tolas, que são um peso para aquela que os carregou desde o início. Isto vem do pecado.

4. O fruto da bênção, na alegria que existe por um filho trazido ao mundo. Se, depois da queda, Deus não tivesse mantido em vigor a bênção: “Frutificai, e multiplicai-vos”, os pais nunca poderiam ter considerado seus filhos com algum consolo. Mas o que é fruto de uma bênção é motivo de alegria. O nascimento de um filho é:

(a) Uma alegria para os pais. Isto os alegra grandemente, Jeremias 20.15. Embora os filhos sejam preocupações garantidas, e consolos incertos, e muitas vezes provem ser as maiores cruzes, ainda assim é natural que nos alegremos com o nascimento deles. Se pudéssemos ter certeza de que nossos filhos, como João, seriam cheios do Espírito Santo, poderíamos realmente, como seus pais, ter prazer e alegria no seu nascimento, Lucas 1.14,15.

Mas quando consideramos, não somente que eles nascem em um mundo de pecados, mas, como está escrito, que eles nascem em um mundo de armadilhas e em um vale de lágrimas, nós vemos razões para nos alegrarmos com temor, para que não se prove que seria melhor para eles que nunca tivessem nascido.

(b) É uma alegria que faz com que a angústia não seja lembrada, ou lembrada como águas que já passaram, Jó 11.16, Gênesis 41.51. Isto é apropriado para apresentar:

[a] As tristezas dos discípulos de Cristo neste mundo. Elas são como as dores do parto, certeiras e agudas, mas não duram muito tempo, e seu resultado é alegre. Eles nascem em meio às dores do parto, esta é a forma como a igreja é descrita (Apocalipse 12.2), como também toda a criação, Romanos 8.22. E:

[b] Suas alegrias depois destas tristezas. Elas irão enxugar todas as lágrimas, pois já as primeiras coisas serão passadas, Apocalipse 21.4. Quando eles nascerem naquele mundo abençoado, e colherem o fruto de todos os seus serviços e tristezas, o trabalho árduo e as angústias deste mundo não mais serão lembrados, assim como os de Cristo: “O trabalho da sua alma ele verá e ficará satisfeito”, Isaías 53.11.

Em segundo lugar, a aplicação da comparação (v. 22): ‘”Vós, agora… tendes tristeza’, e provavelmente te­ reis mais; ‘mas outra vez vos verei’, e vós me vereis, e então tudo ficará bem”.

1. Aqui o Senhor lhes fala novamente da tristeza que sentiam: “‘Vós, agora, na verdade, tendes tristeza’, porque Eu vos deixo”, algo que fica evidente na antítese: “Outra vez vos verei”. Observe que as partidas de Cristo são causas justas de tristeza para seus discípulos. Se Ele ocultar seu rosto, eles não devem se perturbar. Quando o sol se põe, o girassol se curva. E Cristo percebe estas tristezas, tem um recipiente para colher as lágrimas, e um livro para registrar os suspiros de todos aqueles que anelam pela graça.

2. Mais abundantemente do que antes, Ele lhes garante o retorno da alegria, Salmos 30.5,11. Ele mesmo passou pelas suas próprias tristezas, e suportou as nossas, pela alegria que se apresentava diante dele. E Ele deseja que nos incentivemos, com a mesma perspectiva. Três coisas recomendam a alegria:

(a) Sua causa: “Outra vez vos verei”. Eu vos farei uma visita gentil e amistosa, para saber notícias de vós, e para vos ministrar consolo”. Observe que:

[a] Cristo irá graciosamente retornar para aqueles que esperam por Ele, embora, por um breve momento, pareça ter se esquecido deles, Isaías 54.7. Os homens, depois de terem sido exaltados, dificilmente olham para seus inferiores. Mas o Jesus exaltado visitará seus discípulos. Não somente eles o verão na sua glória, mas Ele os verá na sua humildade.

[b] Os retornos de Cristo são retornos de alegria para todos os seus discípulos. Quando as evidências dúbias são esclarecidas, e a comunhão interrompida é revivida, a boca se enche de riso.

(b) Sua cordialidade: “O vosso coração se alegrará”. A consolação divina coloca alegria no coração. A alegria no coração é sólida, e não é extravagante; é secreta, e é algo com que um estranho não se intromete; é doce, e dá satisfação a um bom homem; é garantida, e não é facilmente rompida. Os discípulos de Cristo devem se alegrar fervorosamente em seus retornos, sinceramente e enormemente.

(c) Sua continuidade: ”A vossa alegria, ninguém vo-la tirará”. Os homens se empenharão em tirar a alegria deles. Eles o fariam, se pudessem. Mas não conseguirão. Alguns entendem isto como uma referência à alegria eterna daqueles que são glorificados. Aqueles que entram no gozo do Senhor não mais sairão. Podem nos roubar nossas alegrias na terra, por mil acidentes, mas as alegrias celestiais são eternas. Eu prefiro interpretar que se trata das alegrias espirituais daqueles que são santificados, particularmente a alegria dos apóstolos no seu apostolado. “Graças a Deus”, diz Paulo, em nome dos demais, “que sempre nos faz triunfar”, 2 Coríntios 2.14. Um mundo maldoso a tiraria deles, eles a teriam perdido. Mas, podendo tirar todo o resto deles, não poderiam tirar-lhes a alegria: “Como contristados, mas sempre alegres”. Eles não podiam roubar-lhes sua alegria, porque não podiam separá-los do amor de Cristo, não podiam roubar-lhes seu Deus, nem seu tesouro no céu.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A ILUSÃO DE FATOS ALTERNATIVOS

Pode parecer estranho, mas nenhum de nós jamais experienciou o mundo diretamente – o que temos é uma simulação da realidade mediada pelo cérebro. Algumas “regras” com base científica podem ajudar nessa “busca pela verdade”.

A ilusão de fatos alternativos

O penúltimo fim de semana de janeiro de 2017 marcou a tomada de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos e o momento em que a expressão “fatos alternativos” se juntou a “pós-verdade” e “notícias falsas”. Na ocasião, foi registrado o primeiro choque do presidente americano com a imprensa. O mote foi um tanto bizarro e mesquinho: o tamanho da multidão durante o evento.

Em seu discurso um dia depois, Trump atacou jornalistas e redes de televisão por “mentirem” sobre a quantidade de pessoas presentes, ao mostrarem “um campo vazio” no National Mall. “Olhei para fora, o local estava cheio, parecia ter 1 milhão, 1,5 milhão de pessoas”, disse Trump. Mais tarde, o secretário de imprensa Sean Spicer continuou a defender a declaração do presidente enquanto criticava a mídia.

O debate sobre o que constitui a realidade objetiva e subjetiva provavelmente perdurará. Enquanto isso, nós, autores deste artigo, neurocientistas especializados no estudo da percepção errônea e da ilusão, temos algumas observações a fazer. Nossa pesquisa se concentra justamente nos erros cognitivos e de percepção que cometemos na vida cotidiana, bem como nos truques inteligentes concebidos por pintores e ilusionistas para fazer com que os espectadores experimentem algo além do óbvio. Poderíamos mesmo dizer que estudamos enganos e desvios – dois conceitos que se tornaram inesperadamente relevantes para a cena política.

Repetidas vezes, tivemos a oportunidade de comprovar no laboratório que nossos sentidos não são confiáveis: não importa quão certo estejamos de que nossa percepção dos eventos que nos rodeiam são como vemos, ainda assim podemos estar completamente errados. Uma parte principal do problema é que ninguém experimenta a realidade diretamente. Cada visão, som ou sentimento que qualquer um de nós já passou por filtros biológicos e pelos sofisticados mecanismos cerebrais de processamento de informações. A verdade é que, na prática, nenhum de nós nunca experienciou o mundo diretamente, mas apenas uma simulação mediada pelo cérebro. E essa representação não corresponde necessariamente à realidade.

Ainda que nossos sentidos não possam compreender completamente o mundo que nos cerca, existem regras precisas para o jogo de obter conhecimento imparcial e formas de medir a realidade objetiva. Veja como o método científico e a ciência da ilusão podem ajudar:

REGRA 1: NÃO PODEMOS DETERMINAR O QUE É VERDADE, MAS É POSSÍVEL ESTABELECER O QUE É FALSO.

A ilusão de fatos alternativos.2

Nossa imagem da realidade evolui cada vez que aprendemos algo novo sobre o mundo. No século 17, Isaac Newton mostrou que a física aristotélica não era a verdade completa. Por sua vez, o relativismo da física quântica ampliou e, sob muitos aspectos, superou a física newtoniana. Cada descoberta subsequente nos impulsiona a novas constatações: está sempre presente a possibilidade de que uma nova observação imprevista derrubará – ou pelo menos mudará – o que se aceita até agora como verdadeiro. Assim, um princípio fundamental da ciência é que, ao passo que nenhuma quantidade de dados pode verificar uma hipótese, uma única observação contraditória é capaz de refutá-la. Em outras palavras, as hipóteses não podem ser comprovadas como verdadeiras, embora possam ser comprovadas como falsas. Se há uma coisa em que o método científico se destaca é o fato de que é possível refutar proposições.

A hipótese de Donald Trump sobre o tamanho da multidão era possivelmente razoável de sua posição privilegiada no estrado. Como observado no texto publicado no Washington Post, o presidente pode ter levado em conta que a multidão se estendia até a parte de trás do National Mall. Ou talvez ele tenha mentido. De qualquer forma, as hipóteses só podem sobreviver enquanto os dados as sustentam. E fotografias aéreas, estimativas de cientistas e o número de passageiros de transporte público fornecido pelo Washington Metropolitan Area Transit (WMAT) rejeitam a afirmação da Casa Branca de que a multidão presente na posse de Trump foi a maior da história.

REGRA 2: ALTA CONFIANÇA NÃO É IGUAL À PROVA OBJETIVA.

A ilusão de fatos alternativos.3

Lembra-se do vestido viral? O fenômeno das mídias sociais começou com a foto de um vestido, fotografado sob ambígua iluminação azul e amarela. Aproximadamente metade da humanidade viu a roupa nas cores branca e dourada; a outra metade viu em azul e preto. Tanto os partidários de uma opinião quanto os de outra se sentiam igualmente confiantes em sua avaliação e, por mais que tentassem, não podiam ver a roupa de outra maneira. Podemos pensar nas duas interpretações concorrentes do vestido como dois conjuntos igualmente válidos de “fatos alternativos”. Exceto por uma coisa: se iluminássemos o vestido com uma luz branca simples, ele ficaria azul e preto para qualquer pessoa.

Todos podemos imaginar cenários alternativos para qualquer acontecimento: sequências de eventos que poderiam ter ocorrido, mas nunca aconteceram realmente. A série de TV Amazon Video The man in the high castle situa-se num universo distópico no qual as potências de determinado grupo venceram a Segunda Guerra Mundial. Talvez haja uma realidade alternativa em que o presidente Trump teve a maior audiência já registrada num evento – no entanto, não foi o que aconteceu em nosso universo.

REGRA 3: A PERCEPÇÃO DEPENDE DA PERSPECTIVA, MAS A SUBJETIVIDADE NÃO É UMA MEDIDA DA REALIDADE.

“O relatório da Casa Branca sobre o tamanho da multidão não era notável devido à sua imprecisão, mas sim pela confiança nas informações incorretas. Se Trump dissesse que 1 milhão de pessoas pareciam estar na inauguração, mas que ele não sabia o número real, o relato poderia ter parecido mais cativante do que inquietante. Estimativas também não são fáceis quando estamos próximos demais de uma situação, ou mesmo fazemos parte dela. Talvez por isso seja tão compreensível por que é mais efetivo conversar com um psicólogo sobre algum problema do que com um amigo interessado em nos ajudar, mas dificilmente isento afetivamente.

Não raro, quando estamos em meio a uma multidão, empacotados como sardinhas, imaginamos haver milhões de pessoas no mesmo evento e ficamos surpresos depois de descobrir, com base em imagens aéreas, dados do departamento de trânsito e estimativas de especialistas, que havia menos de meio milhão de pessoas. A diferença entre a percepção e o que de fato se verificou realça quão difícil é avaliar o tamanho de uma situação enquanto fazemos parte dela – mesmo para cientistas perceptuais acostumados a desconfiar de seus sentidos.”

 

 

Nossa fiação neural é constituída de tal forma que é praticamente impossível para os seres humanos pensar, ou mesmo entender algo, em termos absolutos, por mais simples que seja. Nossos olhos não contam fótons da maneira como o medidor de luz de um fotógrafo o faz. Em vez disso, vemos o mundo como um padrão de contrastes: o mesmo círculo cinzento pode parecer preto para nós se rodeado por branco e branco se rodeado por preto. Nossa percepção depende do contexto e da perspectiva. Chamamos de ilusões aqueles casos em que nosso relativismo subjetivo se afasta dramaticamente dos dados objetivos (como quando vemos um círculo cinza como branco, embora o medidor de luz do fotógrafo prove que não é assim).

Algumas das percepções mais deslumbrantes confiam no uso engenhoso da perspectiva. Kokichi Sugihara, um matemático do Japão e vencedor por mais de uma vez da competição da Melhor Ilusão, construiu rampas em que bolas de madeira parecem rolar ladeira abaixo. No entanto, um ponto de vista diferente revela que o movimento ascendente é apenas uma ilusão e que na realidade as bolas não estão se movimentando.

Nos Estados Unidos, muito se falou sobre como a percepção pode ter afetado as reivindicações da Casa Branca a respeito do tamanho da multidão inaugural. Há a questão do ponto de vantagem de Trump a partir do estrado, o que pode ter influenciado sua percepção sobre números maiores. Mas a assessoria de imprensa do governo tomou outro rumo, argumentando que as fotos aéreas fizeram a multidão de Trump parecer menor do que na vida real, devido ao uso sem precedentes de revestimentos de chão brancos para proteger a grama no Mall.

Considerando que o grande número de pessoas vestidas com roupas escuras de inverno deve ser geralmente mais fácil de analisar contra um fundo branco do que contra um escuro. Sem mencionar o fato de que os revestimentos de assoalho brancos foram usados pela primeira vez em 2013, para a cerimônia da segunda posse de Barak Obama, e ainda estavam no lugar – mas menos visíveis devido à maior multidão – durante a Marcha das Mulheres, no dia seguinte à inauguração.

Em nossa nova era americana de notícias falsas e tristeza pós-verdade, a busca por verdade objetiva e fatos (não alternativos) tornou-se mais crítica do que nunca. Os cientistas e os jornalistas devem unir forças nesse esforço comum e não hesitar em chamar atenção para as falsidades presentes e futuras, seja por erros inocentes ou por tentativas francas de induzir em erro. Considerando que a pós-verdade é uma ilusão – sem base na realidade –, a verdade real é impermeável aos nossos desejos, emoções ou crenças. O método científico nos ensina que só alcançaremos a verdade rejeitando obstinadamente cada pedaço de desinformação que está em nosso caminho. Os relatórios investigativos e a verificação de fatos agressiva serão cruciais para nos levar até lá.

OUTROS OLHARES

LENTES COLORIDAS

Os óculos amarelos (ou vermelhos) ajudam a proteger a retina contra a luz dos equipamentos eletrônicos – mas o melhor mesmo é evitar o uso na hora de dormir.

Lentes coloridas

“Óculos de computador”, “óculos para dormir”, ou óculos bloqueadores da luz azul”. Essas são algumas das promessas de atributos das lentes que têm feito bonito entre celebridades americanas e europeias. No Brasil, a moda também já está chegando para os comuns dos mortais. Nas duas maiores redes de ótica do país, o aumento nas vendas de lentes que filtram a luz azul foi de cerca de 15% em relação ao ano passado. ” Viciada nesses óculos para luz azul”, postou recentemente a blogueira e influenciadora digital Camila Coelho, 30 anos, com 7,4 milhões de seguidores no Instagram. Eles são produzidos, na maioria dos casos, com vidros na cor âmbar (laranja ­ amarelado) ou vermelha.

A boa notícia, para além da estética chamativa: eles funcionam, ao bloquear a luminosidade dos celulares, tablets, computadores e laptops. A luz azul afeta a qualidade do sono. A retina possui células chamadas ganglionares, um tipo de neurônio fotossensível que influi no relógio biológico do organismo – aquele que determina o sono e o estado de alerta. A luz, nesse sistema natural do organismo, entra pelas células ganglionares e age na região cerebral chamada glândula pineal, reduzindo a produção do hormônio do sono, a melatonina. Os neurônios ganglionares são sensíveis a qualquer iluminação – ultravioleta, amarela, verde. Mas, sobretudo, à luz azul.

O azul é, portanto, a principal fonte luminosa responsável por avisar ao corpo que é hora de acordar. Diz o oftalmologista Max Damico, do Hospital Sírio ­ Libanês, em São Paulo: “As pessoas deveriam deixar de lado os aparelhos eletrônicos ao menos duas horas antes de dormir”. Como é hábito difícil de abandonar, deu-se o fenômeno dos óculos coloridos. Estudo publicado na revista Ophthalmic & Physiological Optics mostrou que aqueles que utilizaram as lentes âmbar três horas antes de dormir, ao longo de duas semanas, apresentaram aumento de 58% na produção de melatonina. Dormiram mais rápida e profundamente.

Há, como sempre, boa dose de exagero em relação aos danos provocados pelos equipamentos eletrônicos. É sabido que atrapalham o sono, mas não muito mais que isso. Alguns modelos de lente são vendidos com o apelo de evitar doenças graves, como a degeneração macular. A luz azul emitida por eletrônicos não tem essa capacidade comprovada. “O que pode afetar os olhos, ressecando ­ os, é o ato de olharmos fixamente sem piscar e por muito tempo para esses aparelhos”, diz Paulo Schor, professor de oftalmologia e ciências visuais da Escola Paulista de Medicina. “Ainda assim, é possível evitar o problema, fazendo intervalos na leitura a cada vinte minutos e, durante esse tempo, focando um objeto distante ao longo de vinte segundos.” Trata-se de um bom conselho para quem acha as lentes amarelas e vermelhas feiosas. Com todo o respeito a Brad Pitt.

GESTÃO E CARREIRA

ESPECIALISTA É BOM, GENERALISTA É MELHOR

Quem é fera em uma função fica mais vulnerável no mercado.

Especialista é bom, generalista é melhor

Aquele especialista que domina como ninguém um assunto sempre tem prioridade na hora de uma contratação, certo? Nem sempre, segundo um estudo da Columbia Business School e da Tulane University. Avaliando casos de 400 profissionais recém- graduados, com cursos de MBA, os autores constataram que aqueles com formação mais generalizada recebiam melhores ofertas de trabalho. E ganhavam bônus 36% superiores aos dos especialistas. O melhor desempenho desses profissionais pode ser explicado por uma mudança fundamental no mundo dos negócios: a necessidade de as empresas se adaptarem às constantes evoluções do mercado – algo que pode ser facilitado quando se tem quadros mais versáteis.

Essa conclusão significa uma guinada na tendência verificada nos últimos anos de se exigir um perfil consistente em uma área específica de trabalho. Entrevistas feitas pelos autores com líderes reforçam a percepção: muitos declararam sua preferência por candidatos versáteis e não por especialistas, mais fáceis de serem substituídos. O estudo constatou ainda que o especialista tem mais aversão ao risco, o que o torna menos ousado.