PSICOLOGIA ANALÍTICA

VOCÊ SABE SE DIVERTIR?

Somos tachados como membros de uma sociedade do prazer. Contudo, se analisarmos bem, ainda temos muito a aprender sobre essa temática.

Você sabe se divertir

Responda-me sincera e rapidamente: tirando a televisão, o que você costuma fazer para se divertir? Engasgou? Se engasgou ou demorou para responder, isso já é um dado importante a ser considerado.

Analisando o comportamento de consumo, muitas vezes classificamos a sociedade atual como uma sociedade de prazeres. Contudo, considero um tremendo contrassenso que nessa mesma sociedade a esmagadora maioria das pessoas se limite a ver televisão para se divertir, um quadro que tende a se agravar em função do aumento da idade dos envolvidos. Parece haver uma espécie de preguiça crônica que impede as pessoas de investirem (tempo, dinheiro, energia) na sua própria diversão. É sempre mais prático se jogar no sofá e ficar passivamente assistindo a programas de qualidade duvidosa ou filmes cujo final se revela nos cinco primeiros minutos de exibição.

Acho graça quando, em uma roda de conversa, alguém me fala alguma coisa sobre uma novela. Inicialmente é sempre constrangedor dizer que não assisto a novelas (aparentemente se trata de um comportamento pedante – ou mentiroso – de minha parte, na visão da maioria). A parte engraçada é quando a pessoa que puxou o assunto diz: “Eu também não gosto de novela. Só estou assistindo essa”. ”Mas se você não gosta, por que, raios, assiste?” – penso, resignada, cá com meus botões que, com a maturidade, têm se tornado cada vez mais meus grandes aliados. O fato é que embora haja aqueles que gostam da novela, muitos a assistem sem gostar, simplesmente porque lhes é cômodo.

É por isso que estou certa que enquanto membros de uma sociedade do prazer, temos ainda muito a aprender sobre o tema.

Dia desses recebi um texto sensacional, atribuído a uma arquiteta chamada Mônica Moro Harguer. O texto, sem rodeios, trazia seu título ou imperativo: “Vá aos encontros felizes”. Isso já me cativou. Ao longo do texto e de forma clara e simples, a autora nos conduzia a uma reflexão importantíssima que gostaria de aqui compartilhar. Dizia ela:

“Vá aos encontros felizes”, eu sempre penso. Pode ser complicado, difícil, caro. Pode ser uma viagem longa (ou até pode ser ali do lado, mas bate aquela vontade de sofá). “Vá!” Tem festa de 80 anos da tia? “Vá!” Aniversário do filho dos amigos? “Vá!” Encontro de 20 anos da sua formatura? “Vá!” Amigo secreto das amigas de infância, casamento do primo, show da sua banda preferida? “Vá!” Pega o carro, o ônibus, o avião, pega carona! Fica no hotel, na tia, agora tem Air-bnb! Parcela a passagem, combina com a sócia uns dias de folga, dá um jeito! Sabe por quê? Porque nos encontros tristes você irá. Quando alguém morre todos vão. Por protocolo, por obrigação ou por amor (e dor). As pessoas vão, se esforçam. Pedem folga no trabalho, deixam as crianças com a avó, levam as crianças, cancelam a reunião, transferem as entregas. E lodos se reúnem e se abraçam e choram juntos. E é bonito isso. E é bom que seja assim. Mas é bom que seja assim também, e principalmente, nos momentos felizes.

A autora tem razão. E ao seu argumento eu incluiria o fato de que, quando perdemos as pessoas, pior desafio que a vida nos apresenta, nosso principal consolo costuma ser o conjunto de momentos felizes que nos permitimos viver ao seu lado. A morte já é triste o suficiente. Não precisamos acrescentar o arrependimento a ela. Porque a pior dor não é a de nos depararmos com o final da vida. É descobrirmos, perplexos diante do irremediável, que jamais a vivemos realmente.

 

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.combr

OUTROS OLHARES

AS ENGRENAGENS DO ESTADO

 Exibido pela primeira vez na 23ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, em abril deste ano, Auto de Resistência continua a fazer carreira nos cinemas do país ao mesmo tempo que chega às plataformas de streaming. É um caso clássico de filme-denúncia, jogando luzes sobre o elevado número de homicídios praticados pela polícia contra civis no Rio de Janeiro.

As engrenagens do estado

O título se refere às situações em que essas mortes são justificadas pelos policiais como ação em legítima defesa. Não é, contudo, o que transparece nos casos reconstituídos e nos julgamentos acompanhados pela equipe de Natasha Neri e Lula Carvalho, que assinam a direção do filme. As versões conflitantes de policiais e de testemunhas, bem como provas documentais, apontando um outro cenário.

Auto de resistência apresenta mães que lutam para provar a inocência de seus filhos e mostra debates entre os integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito formada, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, para apurar o alto índice de mortes praticadas por policiais. “Registramos processos sociais complexos que revelam as engrenagens do Estado em ação”, dizem os diretores. “O veredito final está nas mãos da sociedade.”

 As engrenagens do estado.2

GESTÃO E CARREIRA

VICIADO EM TRABALHO

Cuidado! Trabalhar em excesso, além comprometer a qualidade da sua entrega, pode estressar sua mente e adoecer seu corpo.

Viciado em trabalho

Trabalhar em excesso, mesmo quando não há necessidade, tem um nome e pode ser até um vício. O Workaholismo caracteriza-se pelo ato de não conseguir se desligar do ambiente corporativo, mesmo quando se está em casa ou em um momento de relaxamento.

Se você pensa em trabalho 24 horas por dia, ainda que isso possa trazer sofrimento, então pode se considerar um workaholic. “Hoje são constantes os casos de workaholics, e isso é percebido a partir do momento em que a pessoa não consegue se desligar do trabalho, deixando de lado sua convivência social, seja com familiares ou amigos. Assim a pessoa toma-se um trabalhador viciado e compulsivo. Mesmo fora do ambiente de trabalho, ele cria um ambiente recheado de temas sobre seus negócios, não há situação que o faça se desligar”, explica o especialista em recursos humanos e diretor executivo da Bazz Consultoria, Celso Bazzola.

Segundo dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Coaching (SBC), estima-se que problemas de saúde relacionados ao vício em trabalho tragam custos de aproximadamente $150 bilhões de dólares aos Estados Unidos. No Japão, o cenário é ainda mais alarmante: dois mil trabalhadores morrem, anualmente como consequência de jornadas de trabalho excessivas, tornando-se estatística do fenômeno conhecido como karoshi (morte por excesso de trabalho). Vale lembrar o caso do estagiário que, por trabalhar 72 horas seguidas em um dos maiores bancos da Inglaterra, acabou morrendo de exaustão. Ele tinha apenas 21 anos.

CARACTERÍSTICAS DO WORKAHOLIC

Existe uma diferença importante entre quem trabalha em excesso por causa da demanda do trabalho e quem age dessa maneira simplesmente porque não consegue pensar em outro assunto. Para o workaholic, férias ou feriados não são motivos para descansar ou relaxar.

O chamado de worklover sabe que trabalhar demais pode até trazer consequências à sua saúde e vida pessoal, mas ele prefere continuar assim. Neste caso específico, trabalhar a mais não funciona como um vício, e sim estilo de vida.

Já o Workaholic pode ser considerado um viciado. Seu cérebro precisa do trabalho, assim como quem fuma sente dificuldade em se livrar da nicotina. O problema é que muitas vezes quem é viciado em trabalho nem se dá conta disso. O profissional pode achar que é seu dever se esforçar mais, sua mente não para.

Os workaholic costumam trabalhar mais de 12 horas por dia no escritório e ficam sempre de olho no celular. Também checam as mensagens a cada hora para ver se existe alguma pendência no trabalho. Mesmo que estejam em férias no Caribe, a preocupação está na empresa.

PERIGO À SAÚDE

Se o seu pensamento está sempre no escritório, e-mails ou smartphone, talvez seja hora de repensar suas atitudes. Estudos realizados por médicos da área de psiquiatria constataram que quem é viciado em trabalho costuma apresentar alguns sintomas em comum, como baixa autoestima, ansiedade, perfeccionismo, impaciência e competitividade exacerbada. Além disso, realizam várias atividades simultâneas, mesmo quando não são solicitadas, e são pouco resilientes. A frustração é constante.

O resultado de tantos sentimentos negativos vem em forma de estresse mental e físico, além do desenvolvimento de problemas de saúde, como doenças cardíacas, vasculares, intestinais e inflamatórias. A pessoa pode se tornar depressiva e mesmo assim não perceber que algo está errado. “A pessoa tende a adoecer mais porque o sistema imunológico está comprometido. Há casos de pessoas que saíram de férias, descansaram e estavam bem, mas, ao voltar ao trabalho, apresentaram os sintomas novamente, ressalta a psicóloga e autora do livro Burnout ­ Quando o trabalho ameaça o bem­ estar do trabalhador, publicado pela Casa do Psicólogo, Ana Maria Teresa Benevides Pereira.

SÍNDROME DE BURNOUT

Os workaholics têm chance de desenvolver também a Síndrome de Burnout, que provoca sintomas como fadiga, cansaço constante, distúrbios do sono, dores musculares e de cabeça, irritabilidade, alterações de humor e de memória, dificuldade de concentração, falta de apetite, depressão e perda de iniciativa.

Para quem tem dúvida se está passando por isso, o ideal é procurar um especialista, como psicólogo, psiquiatra ou clínico geral. O médico vai avaliar se é o ambiente de trabalho que está causando o estresse ou o comportamento da pessoa.

Caso a síndrome seja detectada, o especialista indicará o tratamento mais apropriado, que   envolve terapia, mudanças de comportamento ou até anti- depressivos. Mas cada caso é um caso.

 PROBLEMAS PARA A EMPRESA

A mente de um workaholic pode levá-lo a acreditar que se dedicar ao trabalho, além de ser um ponto positivo para sua carreira, pode ser bom para a empresa. Mas, a realidade pode não ser essa. “Acredito que para a empresa a situação traz mais desvantagens do que vantagens. Inicialmente pode ser interessante, pois a velocidade dos resultados é satisfatória, porém há um desgaste emocional natural do profissional pois ele estará isolado e resistente ao trabalho, bloqueando sua sociabilização, o que poderá resultar em sérios transtornos futuros para sua vida”, defende Bazzola.

O excesso de trabalho, depois de certo tempo, além de trazer todos os problemas de saúde já citados, ainda pode causar bloqueios de criatividade e produção. A pessoa dedica todas as horas do seu dia, mas, de fato, pouco ou nada produz.

APRENDA A SE DESLIGAR

Para deixar de ser um workaholic- enquanto ainda há tempo, é importante procurar ajuda médica. Como nem sempre a própria pessoa consegue entender ou perceber que tem um problema, amigos, familiares ou profissionais habilitados da empresa podem incentivar o viciado em trabalho a se cuidar.

Como o mercado de trabalho anda cada vez mais competitivo, é comum que o workaholic tenha resistência a aceitar que precisa desacelerar. Além de diminuir a jornada de trabalho, é necessário aprender a aproveitar as folgas e não se sentir culpado por simplesmente não fazer nada relacionado ao trabalho nos momentos livres.

Com a mente descansada, é possível produzir mais, em menos tempo e oferecendo resultados mais positivos e com qualidade à empresa. Além de tudo, o descanso é necessário para evitar a fadiga e problemas de saúde. “Não há pecado em trabalhar esporadicamente além de sua carga diária, desde que essa ação seja meramente por necessidade de urgência e de impacto específico. Isso, para o mercado de trabalho, acaba sendo um diferencial, mas o profissional e a área de Recursos Humanos devem identificar quando há exageros em uma rotina normal de trabalho. A partir do momento em que a carga horária começa a extrapolar constantemente, é momento de refletir. O trabalho é saudável enquanto não aprisiona a pessoa na necessidade constante de falar e agir no trabalho”, finaliza Bazzola.

 5 PRINCIPAIS DÚVIDAS SOBRE O WORKAHOLIC

1. CARACTERÍSTICAS

São pessoas que constantemente trabalham mais de 12 horas por dia no escritório e ainda levam serviço para casa, ficam sempre de olho no celular e checam as mensagens a cada hora para ver se existe alguma pendência no trabalho.

2. EU SOU?

Sintomas desse distúrbio de comportamento incluem autoestima exagerada, insônia, mau humor, impotência sexual, atitudes agressivas em situação de pressão e, muitas vezes, depressão.

3. PROBLEMAS RELACIONADOS

A situação pode ser tão grave que estudos recentes de casos clínicos em consultórios psicológicos e psiquiátricos apontam que o vício em trabalho é similar à adição ao álcool ou à cocaína, tornando o trabalho, nesses casos, uma obsessão doentia

4. É PRECISO SABER VIVER!

O caminho para combater esse problema é assegurar o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, tentar valorizar melhor os momentos de lazer e perceber que o descanso é fundamental para a melhoria de rendimento e para a busca de novas ideias que podem potencializar os resultados no trabalho.

5. WORKAHOLIC X WORKLOVER

importante sabermos diferenciar o amor ao trabalho do vício. Um worklover tem noção de que o excesso se refletira em conflitos nos relacionamentos pessoais, além de proporcionar efeitos nocivos à saúde e ao bem-estar. Existem profissionais que buscam entregar resultados, e isso é positivo. É importante ter em mente que o fato de ser um Workaholic não significa que o profissional seja mais produtivo. Muitas vezes, vemos pessoas que não costumam ter organização no seu dia a dia e acabam trabalhando mais tempo para entregar o mesmo resultado.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 11: 1-16 – PARTE II

Alimento diário

A morte de Lázaro

 

IV – A conversa que Ele teve com seus discípulos quando estava prestes a ir visitar seus amigos em Betânia, vv. 7-16. A conversa é tão descontraída e familiar, que nos permite compreender o que Cristo disse: “Tenho-vos chamado amigos”. Ele fala sobre duas coisas: sobre os perigos que Ele corria e sobre a morte de Lázaro.

1. Os perigos que Ele corria ao ir para a Judéia, vv. 7-10.

(1) Aqui está o aviso que Cristo deu aos seus discípulos sobre seu propósito de ir à Judéia, em direção a Jerusalém. Seus discípulos eram os homens do seu conselho, e a eles Ele disse (v. 7): “‘Vamos outra vez para a Judéia’, embora os habitantes da Judeia não mereçam um favor como este”. Assim, Cristo repete as ofertas da sua misericórdia àqueles que sempre as rejeitavam. Isto pode ser considerado:

[1] Como um objetivo da sua bondade aos seus amigos em Betânia, cujo sofrimento, e todas as circunstâncias que o agravavam, Ele conhecia muito bem, embora não lhe tivesse vindo nenhuma outra mensagem, pois Ele estava presente no espírito, embora ausente no corpo. Quando Ele soube que os sofrimentos tinham chegado ao extremo, quando o irmão e as irmãs tinham dado e recebido o último adeus, “agora”, disse Ele, “vamos outra vez para a Judéia”. Cristo se manifestará para favorecer seu povo quando for chegada a hora, sim, a hora indicada, para favorecê-lo. E a hora mais difícil é normalmente a hora indicada, quando nossa esperança está perdida e nós estamos despedaçados. “Sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir as vossas sepulturas”, Ezequiel 37.11,13. Nas profundezas da aflição, deixemos que estas preciosas palavras nos mantenham afastados das profundezas do desespero. O ponto extremo do homem é a oportunidade de Deus, Jehovah-jireh. Ou:

[2] Como uma prova para a coragem dos discípulos, se eles se aventurariam a segui-lo até lá. Eles haviam sido, recentemente, atemorizados por um atentado contra a vida do seu Mestre, o que eles consideraram como um atentado também contra suas próprias vidas. Ir para a Judéia, que recentemente tinha sido tão perigosa para eles, era uma expressão que os colocava à prova. Mas Cristo não disse: “Vão vocês para a Judéia, e Eu vou ficar e me abrigar aqui”. Não, Ele disse: “Vamos”. Observe que Cristo nunca conduz seu povo a nenhum perigo, mas o acompanha nele, e está com ele quando ele caminha pelo vale da sombra da morte.

(2) A objeção dos discípulos contra esta viagem (v. 8): “Rabi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te, e tornas para lá?” Aqui:

[1] Eles o lembram do perigo que tinha passado ali há pouco tempo. Os discípulos de Cristo conseguem fazer dos sofrimentos um problema muito maior do que é para seu Mestre, e se lembrar das ofensas por mais tempo. Ele tinha suportado a ofensa, para Ele ela estava acabada e esquecida, mas seus discípulos não tinham podido esquecê-la. Ultimamente, agora, como se tivesse acontecido neste mesmo dia, “os judeus procuravam apedrejar-te”. Embora já tivessem se passado pelo menos dois meses, a lembrança do medo estava bastante vívida em suas mentes.

[2] Eles se admiram que Ele vá para lá de novo. “Você vai favorecer, com sua presença, aqueles que o expulsaram da sua região?” Os métodos de Cristo para ignorar ofensas estão acima dos nossos. “Você irá se expor em meio a um povo que está tão desesperadamente enfurecido contra você? Irá de novo para lá, quando ali foi tão maltratado?” Aqui eles mostravam grande preocupação com a segurança do seu Mestre, do mesmo modo que Pedro, quando disse: “Senhor, tem compaixão de ti”. Se Cristo estivesse disposto a evitar sofrimentos, Ele não precisaria de amigos que o persuadissem a fazê-lo, mas teria aberto sua boca para o Senhor, e Ele não desejou, Ele não poderia, retroceder. Mas enquanto os discípulos mostram uma preocupação pela segurança de Jesus, eles revelam, ao mesmo tempo, em primeiro lugar, uma falta de confiança no seu poder, como se Ele não pudesse proteger a si mesmo e a eles agora na Judéia tão bem como já tinha feito anteriormente. Teria seu poder diminuído? Quando nós cuidamos dos interesses da igreja e do reino de Cristo no mundo, nós devemos ficar satisfeitos com a sabedoria e o poder do Senhor Jesus, que sabe como proteger um rebanho de ovelhas em meio a um bando de lobos. Em segundo lugar, um temor secreto de que eles mesmos sofressem, pois eles podem contar com isto, se Ele sofrer. Nas ocasiões em que nossos interesses particulares coincidem com os públicos, nós somos capazes de julgar que zelamos pelo Senhor dos exércitos, quando, na verdade, estamos zelando somente pela nossa própria riqueza, credibilidade, comodidade e segurança, e buscando nossas próprias coisas, sob o pretexto de buscar as coisas de Cristo. Portanto, nós precisamos fazer uma distinção entre nossos princípios.

A resposta de Cristo a esta objeção (vv. 9,10):

“Não há doze horas no dia?” Os judeus dividiam o dia em doze horas, e, segundo alguns comentaristas, faziam suas horas mais longas ou mais curtas conforme eram os dias, de modo que uma hora, para eles, era equivalente a um doze avos do tempo entre sol e sol. Ou, estando muito mais ao sul do que nós, seus dias eram aproximadamente doze horas mais longos que os nossos. A Providência divina nos deu a luz do dia para trabalhar, e a estende durante um período adequado, e, ao longo do ano inteiro, cada país tem o mesmo período de luz de dia quanto de noite, e ainda mais, se computarmos os crepúsculos. A vida de um homem é um dia. Este dia é dividido em diversas idades, condições e oportunidades, como em horas mais curtas ou mais longas, como Deus indicou. Esta consideração nos deve fazer não somente muito ocupados quanto ao trabalho da vida (se houvesse doze horas no dia, cada uma delas deveria estar tomada por trabalho, e nenhuma delas, desperdiçada), mas também muito à vontade quanto aos perigos da vida. Nosso dia deve ser prolongado até que nosso trabalho esteja feito, e nosso testemunho, concluído. Isto Cristo aplica ao seu caso, e mostra por que Ele deve ir à Judéia, porque Ele tinha uma ordem clara de ir. Para explicar isto:

[1] Ele mostra o consolo e a satisfação que um homem tem, na sua propriamente, enquanto se mantém no caminho do seu dever, como é prescrito, de maneira geral, pela Palavra de Deus, e particularmente determinado pela providência de Deus: “Se alguém andar de dia, não tropeça”, isto é, se um homem se mantiver ao lado do seu dever, e se preocupar com ele, e colocar a vontade de Deus antes da sua, como regra, com um respeito imparcial a todos os mandamentos de Deus, ele não hesitará na sua própria mente, mas, andando corretamente, anda com segurança e com uma santa confiança. Como aquele que anda de dia não tropeça, mas prossegue firmemente e alegremente no seu caminho, porque vê a luz deste mundo, e, por ela, vê seu caminho à sua frente, assim um bom homem, sem nenhum outro tipo de segurança, nem objetivos sinistros, confia na Palavra de Deus como sua regra, e tem, como seu objetivo, que o Senhor Deus seja glorificado. Isto ocorre porque ele vê estas duas grandes luzes, e conserva seus olhos fixos nelas. Desta maneira, ele tem um guia fiel em todas as suas dúvidas, e um cuidado poderoso em todos os seus perigos, Gálatas 6.4; Salmos 119.6. Onde quer que Cristo fosse, Ele andava de dia, e também nós deveremos fazê-lo, se seguirmos seus passos.

[2] Ele mostra a dor e o perigo em que está um homem que não anda de acordo com esta regra (v. 10): “Se andar de noite, tropeça”, isto é, se um homem andar segundo seu coração e seguindo a visão dos seus olhos, e de acordo com o curso deste mundo, se consultar seus motivos carnais mais do que a vontade e a glória de Deus, cai em tentações e armadilhas, está sujeito a grandes desconfortos e temerosas apreensões, o sonido de uma folha movida o perseguirá, e ele fugirá sem ninguém o perseguir, enquanto um homem correto ri-se do brandir da lança, e não teme a invasão de dez mil. Veja Isaías 33.14-16. Ele tropeça, porque nele não há luz, pois a luz em nós é para nossas ações morais aquilo que a luz à nossa volta é para nossas ações naturais. Ele não tem um bom princípio. Ele não é sincero. Seu objetivo é mau. Assim, Cristo não somente justifica seu propósito de ir para a Judéia, como também incentiva seus discípulos a irem com Ele e não temerem nenhum mal.

2. A morte de Lázaro aqui é comentada entre Cristo e seus discípulos, vv. 11-16, onde temos:

(1) A notícia que Cristo dá aos seus discípulos da morte de Lázaro, e uma indicação de que seu trabalho na Judéia seria cuidar dele, v. 11. Depois de ter preparado seus discípulos para esta perigosa marcha adentro de uma região inimiga, Ele lhes dá:

[1] Pleno conhecimento da morte de Lázaro, embora Ele não tivesse recebido tal notícia: “Lázaro, o nosso amigo, dorme”. Veja aqui como Cristo se refere a um crente e à morte de um crente:

Em primeiro lugar, Ele se refere ao crente como seu amigo: “Lázaro, o nosso amigo”. Observe:

1. Existe um concerto de amizade entre Cristo e os crentes, uma afeição amistosa e uma comunhão que nosso Senhor Jesus irá reconhecer. Ele não se envergonhará deste lindo relacionamento. “Com os sinceros está o seu segredo”.

2. Aqueles a quem Cristo se alegra por reconhecer como seus amigos devem ser considerados como amigos por todos os discípulos. Cristo fala de Lázaro como um amigo comum a todos: “Nosso amigo”.

3. A morte, em si, não rompe o laço de amizade entre Cristo e um crente. Lázaro está morto, mas continua sendo “nosso amigo”.

Em segundo lugar, Ele se refere à morte de um crente como um sono: ele “dorme”. É bom chamar a morte com tais nomes e títulos, de modo a ajudar-nos a torná-la mais familiar e menos formidável para nós. A morte de Lázaro era, em um sentido peculiar, um sono, como aquele da filha de Jairo, porque ele seria ressuscitado rapidamente. E uma vez que nós temos a certeza de que vamos ressuscitar, no final, por que isto deveria fazer uma grande diferença? E por que a esperança desta ressurreição à vida eterna não deveria nos fazer deixar o corpo e morrer tão facilmente como quando despimos nossas roupas e vamos dormir? Um bom cristão, quando morre, apenas dorme: ele descansa dos trabalhos do dia terminado, e se revigora para a manhã seguinte. Na verdade, aqui a morte tem a vantagem do sono. O sono é apenas o parêntesis, mas a morte é o final das nossas preocupações e do nosso trabalho. A alma não dorme, mas fica mais ativa. Porém o corpo dorme, sem nenhuma agitação, sem nenhum tempo, sem perturbação ou distúrbios. O sepulcro do ímpio é uma prisão, e os lençóis do seu sepulcro são como as algemas de um criminoso destinado à execução, mas para o crente fiel é uma cama, e todas as suas faixas são como os suaves e felpudos laços de um sono tranquilo. Embora o corpo esteja corrompido, ele ressuscitará na manhã seguinte, como se nunca tivesse visto corrupção. Ele apenas despe nossas roupas para que sejam consertadas e adornadas para o dia das bodas, o dia da coroação, no qual devemos ressuscitar. Veja Isaías 57.2; 1 Tessalonicenses 4.14. Os gregos chamavam seus sepulcros de dormitórios.