PSICOLOGIA ANALÍTICA

A VERDADEIRA AUTOESTIMA

Desde cedo, as pessoas formam crenças sobre si baseadas nas experiências, assim sua conduta é moldada pelas respostas do ambiente em que vivem.

A verdadeira autoestima

O reconhecimento da importância da autoestima na formação da personalidade, do caráter e comportamento do ser humano impulsionou pesquisas sobre qual o melhor momento para começar a oferecer às crianças condições de desenvolverem plenamente esse ingrediente crucial para o bem-estar e a qualidade de vida.

Em alguns pontos, todos os estudiosos da área concordam: atenção dos pais ao desenvolvimento físico, mental e psicológico infantil, assim como o oferecimento de modelos claros e estáveis de identificação, ambiente familiar amoroso e equilibrado, estímulos cognitivos adequados na escola e participação social saudável etc., especialmente nos seis primeiros anos de vida, são determinantes para o incremento de uma boa autoestima.

A família constitui o primeiro local onde a criança compreende quem é, observa o que os outros fazem, pratica a todo instante seus novos aprendizados. A escola e o meio social também são importantes, mas o melhor alicerce da boa autoestima vem do contato, trocas afetivas e educação familiar.

A autoestima verdadeira nada tem de comportamento supérfluo, despretensioso ou de exibicionismo. Ao contrário, ela contempla uma crença positiva no próprio eu, junto à percepção da capacidade de realizar diversas coisas. Não é a criança para quem os pais vivem dando elogios sem fundamento, achando que a estão “colocando pra cima”, que desenvolverá uma autoestima verdadeira, mas sim terá esse sentimento aquela cujos pais estão atentos ao seu empenho, esforço, motivação e principalmente à sua crescente capacidade de vencer desafios e frustrações.

Resumindo, a criança com boa autoestima sente-se não apenas amada e valorizada, mas também capaz de realiza tarefas, de assumir gradativamente responsabilidades, de agir e reagir adequadamente, de lidar com os percalços da vida. Torna-se resiliente, aprende a superar frustrações e perdas, a optar, e ao mesmo tempo continua a perceber seu valor e sente-se merecedora de ser amada.

Desde cedo, as pessoas estão constantemente formando crenças sobre si próprias e tomando pequenas decisões, baseadas nas suas experiências de vida, incluindo nestas as circunstâncias que podem e não podem alterar ao seu prazer e os imputs positivos e negativos que recebem sobre seu comportamento, principalmente dos familiares. Assim, sua conduta vai sendo moldada pelas pequenas escolhas que fazem e pelas respostas de aprovação ou não. Se as elogiamos sem qualquer fundamento, elas se percebem como incapazes de terem atenção, orientação e confiança do adulto.

Existem influências de várias ordens que têm grande importância na autoestima em formação de uma criança. Não se deve, por exemplo, diminuir o impacto pessoal de sua história de vida, algo peculiar e marcante com que sempre terá que lidar, pois não é possível mudar. É o caso de um problema físico de nascença, uma adoção malsucedida, uma doença crônica, a perda de um dos pais etc.; muitas das escolhas que farão na sua vida com base nessas circunstâncias dificilmente podem ser modificadas por outras pessoas. Crianças têm seus próprios sentimentos e acabam formando opiniões pessoais sobre perdas desse porte, que são reveladas em geral pelo seu comportamento.

Entretanto, mais importante que tais influências e perdas é a orientação do valor e do sentido (positivo ou negativo) que darão às decisões que tomarem, e aí é que entra a importância da autoestima.

Sem dúvida, os exemplos (positivos e negativos) e interferências dos adultos são importantes. Como concreto sobre o ferro, formam a base de toda construção! Não bastam apenas diálogos, pois apesar das crianças compreenderem tudo que ouvem, elas também percebem que, muitas vezes, as estamos tentando encorajar e não sendo fiéis ao nosso próprio pensamento. Exemplo disso é quando a criança que comete muitos equívocos, ou tem dificuldades escolares, escuta da mãe frases como “isso não tem importância”, “eu era assim”, “gosto de você de qualquer jeito”… ela sente que a verdadeira mensagem é diferente, pois o meio lhe mostra isso e as palavras da  mãe ou do pai que devem ser coerentes, soam não como um incentivo sincero, mas como um prêmio de consolação para o eterno último colocado, aquele que erra sempre. O filho precisa saber que é amado e respeitado por seus familiares, que ele é único, importante, insubstituível, amado, que tem qualidades pessoais (importante valorizar as que realmente tem), é divertido, carinhoso, responsável etc.

É preciso dizer à criança o quanto suas qualidades e atitudes são valorizadas. Mostrar o quanto é capaz de fazer coisas legais, ser responsável, criativa, empenhada, elogiando um trabalho bem-feito (“Gostei! Bom trabalho, parabéns”), ou a forma como cuida dos parentes mais velhos (“Ficamos orgulhosos de como você ajudou seu avô), dar atenção ao que diz ou pergunta (“Boa pergunta! O que você disse é interessante”). Isso conduz ao desenvolvimento da autoestima, da segurança pessoal.

A autoestima baseia-se na capacidade de aceitar tanto nossos limites quanto nossas necessidades. Reconhecer nossos limites nos protege de auto­agressões, não nos expondo a situações que estão além de nossas condições, assim como reconhecer necessidades pessoais nos ajuda a identificar nossas prioridades e a viver melhor. Mas para que esse alicerce seja forte, a autoestima precisa ser construída sem fantasia e em cima das habilidades e atitudes reais das crianças. Elogios infundados não fortalecem a autoestima. Pelo contrário, a deixam frágil como uma criança que acredita ser incapaz de realizar qualquer coisa na vida.

 

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação EspeciaI e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07.) É autora de artigos e publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br

 

 

OUTROS OLHARES

UMA POTENCIA AGRÍCOLA ONDE FALTA COMIDA

A pobreza extrema cresce 128% em três anos e recoloca o País no Mapa da Fome das Nações Unidas. O que alimenta cerca de 11,7 milhões de brasileiros por dia é insuficiente para atender às necessidades básicas de nutrição e saúde.

Uma potencia agricola onde falta comida

Quando a Constituição de um país determina que não pode haver desigualdade e que nenhum cidadão deve levar uma vida indigna, é muito provável que já exista gente demais nessas condições. No Brasil de hoje, uma em cada vinte pessoas termina o dia sem ter conseguido comer o mínimo necessário. Vão dormir com fome e acordar sem qualquer esperança de uma refeição satisfatória. Esse cenário assustador devolve o Brasil ao Mapa da Fome, elaborado desde 1990 pela FAO, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. A entidade faz análises por países e regiões, propondo soluções ao problema da insegurança alimentar. Desde 2014, o Brasil estava fora desse mapa. A fome foi vencida com muito esforço, graças a uma combinação de programas sociais e de uma economia em forte expansão. O resultado permitiu que menos de 5% da população ficasse abaixo da linha da extrema miséria. Dados recentes divulgados pelas ONGs ActionAld Brasil e Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), a partir de índices do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), indicam que a fome voltou a crescer, atingindo 11,7 milhões de brasileiros, o que perfaz 5,6 % da população.

Para entender onde o Brasil fracassou após tantos avanços e o que deve ser feito daqui para frente é preciso colocar os olhos sobrea recessão econômica que se arrasta desde 2014 e os subsequentes cortes nos programas sociais do governo em decorrência da Emenda do Teto de Gastos, que congelou o orçamento público por 20 anos. Analistas das áreas de saúde pública e de assistência social alertam que só um grande conjunto de medidas integradoras pode amenizar o quadro até a economia recomeçar a andar direito. Mesmo depois da retomada, seria preciso continuar, já que a desigualdade não se resolveria sem políticas públicas consistentes e de longo prazo.

“Uma economia voltada para o rentismo não resolverá”, afirma a antropóloga Maria Emília Pacheco, integrante da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Segundo dados do Governo Federal, o Bolsa Família beneficia hoje, 137 milhões de famílias em todos os municípios brasileiros. Mas, além do auxílio direto, que este ano foi reajustado acima da inflação acumulada de julho de 2016 a março de 2018, houve enfraquecimento de iniciativas como o Programa Merenda Escolar e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), voltados para pequenos produtores rurais de municípios do interior do Brasil. Os cortes afetam diretamente a renda dessas famílias.

O PAA encolheu de RS839 milhões em 2012 para RS 150 milhões em 20 17. Como resultado, sobra alimento que ninguém compra. Um efeito disso foi sentido durante a Greve dos Caminhoneiros, em maio, com a elevação de preços dos alimentos mesmo em municípios de produção agrícola voltada ao consumo direto. Além desses prejuízos, a preocupação de Maria Emília é que essa discussão não entrou de vez na agenda dos presidenciáveis.

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DESAMPARADOS

O perfil estatístico do pobre, de acordo com os dados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e da Síntese dos Indicadores Sociais (SIS 2017), ambos do IBGE, indica que dois tipos de brasileiros em idade ativa estão mais sujeitos à falta crônica de alimentos. A mais emblemática é a mulher preta ou parda, entre 30 e 40 anos, com alguns filhos, moradora da zona rural de um estado do Norte ou Nordeste e cujo marido foi procurar em prego em uma grande cidade, deixando-a desamparada.

O outro é o homem ou mulher, chefe de família residente em cidade grande que convive com a falta crônica de emprego. Estes, e principalmente seus filhos, são as grandes vítimas desse quadro.

Desde o a no passado a FAO lança alertas sobre a delicada situação brasileira. Se mantidos, os programas sociais poderiam praticamente erradicar a fome até 2030, conforme anunciou a organização em outubro. Essa é uma meta da ONU. No curto prazo, contudo, os resultados da crise no País são doença e morte. A Fundação Abrinq estimou que a desnutrição infantil crônica e severa deva atingir 17,6% das crianças brasileiras. Iniciativas solidárias têm sido empreendidas para impedir que o número cresça. Após uma década, a Campanha Natal sem Fome foi reativada pela ONG Ação da Cidadania para atender as novas levas de necessitados, arrecadando 900 toneladas de alimentos. A ONG foi criada em 1993, pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, para combater a fome e a miséria.

“Precisamos de ações agudas. Uma criança sem comida em poucos dias está em sérios riscos”, diz o epidemiologista e pesquisador da Fiocruz Maurício Barreto. Para ele, a solução está na volta da manutenção das redes de suporte social em conjunto com avanços na economia. A ausência de qualquer um desses componentes resultará em fracasso e contribuiria para tornar o problema cada vez maior. Transformar o mundo não é algo simplório. Mesmo uma recuperação econômica não resolveria, dado os fatores de desigualdade da sociedade brasileira. Sem contar que é um erro acreditar que proteção social é coisa de país pobre”, disse Barreto, citando os países ricos da Europa Ocidental.

 HISTÓRIA E LITERATURA

Ainda que o Brasil seja uma potência agrícola, com safras recordes ano a ano, a fome é uma velha conhecida da história e da literatura nacionais. A terra do “dar- se- à nela tudo”, citada numa carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel, de Portugal, logo no Descobrimento, era uma miragem. Por aqui, fome e a miséria geraram revoltas, como a de Canudos, relatada em “Os Sertões” (1902), de Euclides da Cunha, e êxodos coletivos e familiares, como os descritos em “O Quinze” (1930), de Rachel de Queiroz, e “Vidas Secas”(1938), de Graciliano Ramos. Duas grandes estiagens no Nordeste, entre 1877 e 1917, causaram 600 mil mortes e surgimento das primeiras grandes migrações internas. O assunto foi tratado com metodologia em “Geografia da Fome” (1946), do médico e dentista social Josué de Castro, que considerava o problema uma praga social criada pelo homem e “a mais trágica expressão do subdesenvolvimento”.

O diretor-geral da FAO José Graziano, ex-coordenador do Programa Fome Zero e ex-ministro extraordinário para o Combate à Fome, defende a adoção de um firme programa de segurança alimentar no Brasil como forma de minimizar um problema que pode ser considerado tanto crônico como estrutural. Ainda mais na nação que fez a revolução da agricultura tropical, capaz de permitir a adaptação de culturas e climas temperados ao calor do Cerrado e da Amazônia, e se tornou um dos maiores exportadores de commodities agrícolas. Com a expectativa de que os ganhos de produtividade façam com que até 2027 o País alcance safras de 300 milhões de toneladas de grãos, saber que quase 12 milhões passam fome enquanto cresce a obesidade infantil nas camadas média e alta da pirâmide social é de uma incongruência ilógica. Graziano escreveu um artigo publicado no jornal “Valor Econômico”, no qual afirma que os governos, principalmente da América Latina, não podem se dar ao luxo de esperar pelo próximo ciclo de expansão global para lidar adequadamente com a fome e a desnutrição. “Seria apenas uma agenda de boas intenções, não fosse esse também um teste de sobrevivência da democracia e das lideranças da região”.

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GESTÃO E CARREIRA

BURRICE EMOCIONAL

Burrice emocional

Fala-se muito em inteligência emocional, mas poucos discutem o seu 0posto; a burrice emocional. Li este termo em uma das colunas da escritora Martha Medeiros, o que me fez trazer a reflexão para o mundo corporativo.

A inteligência emocional já virou clichê nas empresas. Desde que Daniel Goleman lançou seu best-seller, o tema tornou-se recorrente nas empresas, nos meus treinamentos e nas aulas.

Como especialista em comportamento no trabalho, a inteligência emocional é sim uma característica importante a ser desenvolvida, afinal, interpretar os nossos sentimentos e os dos outros é uma habilidade muito valorizada. Ter a capacidade de sentir, de acreditar na intuição, de levar um pouquinho mais a sério o sofrimento que você às vezes não consegue explicar, mas que está ali com boas chances de ser verdadeiro.

Pouco ou nada se fala sobre a burrice emocional. Não me levem à mal pelo tema pejorativo, mas considero burro não aquele que não sabe (este seria o ignorante), mas os que têm consciência sobre o que querem de suas carreiras e mesmo assim continuam fazendo escolhas profissionais estapafúrdias, esperando que um milagre aconteça e os tirem daquela dura realidade no trabalho.

Essas pessoas passam o dia inteiro no trabalho reclamando da empresa e culpando-a por todos os seus problemas. Diz, em frases do tipo: “na minha empresa existem problemas que nenhuma outra tem. Você só vai acreditar se trabalhar aqui um dia. Por isso não consigo progredir nem realizar todo o meu potencial”.

Colocam toda a culpa no ambiente. Chega um dia em que mudam de empresa. Passam-se alguns meses de “lua-de-mel e vem a grande surpresa: a nova empresa tem os mesmos problemas da anterior. Alguns até piores.

Não adianta nada você mudar de ambiente e levar você com você. Os problemas tendem a se repetir. Mudanças apenas no ambiente podem ser respostas a problemas ocasionais, mas dificilmente atacam as causas. Por isso chamamos essas mudanças de remediativas. Elas apenas remedeiam o problema e dificilmente geram grandes mudanças.

Quero despertar em você a autorreflexão sobre como tem tratado sua vida pessoal e profissional.

Quando você vai desligar o piloto automático de sua vida, por meio do qual você não conduz, mas é conduzido por uma rotina sem sequer saber para qual direção?

O que precisa acontecer para que acorde e escolha fazer algo diferente por você?

O mundo já é cruel o suficiente para ainda procurarmos confusão e Chatice. Chega de burrice emocional. Tome uma atitude positiva hoje!

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 11: 1-16 – PARTE I

Alimento diário

A Morte de Lázaro

Nestes versículos, temos:

I – Uma apresentação detalhada das principais pessoas envolvidas nesta história, vv. 1,2.

1. Viviam em Betânia, uma aldeia não muito distante de Jerusalém, onde Cristo normalmente se hospedava quando vinha para as festas. Aqui, ela é chamada de “aldeia de Maria e de sua irmã Marta”, isto é, a aldeia onde elas moravam, da mesma maneira como Betsaida é chamada de “cidade de André e de Pedro”, cap. 1.44. Eu não vejo motivo para pensar, como pensam alguns, que Marta e Maria fossem donas da aldeia, e os demais habitantes fossem seus arrendatários.

2. Aqui havia um irmão chamado Lázaro. Seu nome em hebraico provavelmente seria Eleazar, que, contraído e recebendo uma terminação grega, tornou-se Lázaro. Talvez antecipando esta história, nosso Salvador tivesse feito uso do nome de Lázaro naquela parábola em que desejava apresentar a bem-aventurança do justo no seio de Abraão, imediatamente depois da sua morte, Lucas 16.22.

3. Aqui havia duas irmãs, Marta e Maria, que parecem ser as donas da casa, e que cuidam dos assuntos da família, ao passo que, talvez, Lázaro vivesse uma vida retirada e se dedicasse ao estudo e à contemplação. Era uma família respeitável, feliz e bem organizada, e uma família com a qual Cristo tinha muita comunhão. Parece que nem Lázaro nem suas irmãs eram casados, e que a casa era mantida pelos três, que ali residiam unidos.

4. Uma das irmãs é descrita de maneira particular como sendo aquela Maria que ungiu o Senhor com unguento, v. 2. Alguns pensam que ela era aquela mulher sobre a qual lemos em Lucas 7.37,38, que tinha sido pecadora, uma mulher que tinha problemas em sua vida moral. Eu prefiro pensar que isto se refere àquela unção de Cristo que este evangelista narra (cap. 12.3), pois os evangelistas nunca se referem uns aos outros, mas João frequentemente faz referência a uma ou outra passagem do seu Evangelho. Atos extraordinários de piedade e devoção, que nascem de um princípio honesto de amor por Cristo, não somente encontrarão aceitação por parte dele, como também conquistarão uma elevada reputação na igreja, Mateus 26.13. Esta Maria era aquela cujo irmão Lázaro estava doente, e as enfermidades daqueles a quem amamos são motivos de aflição para nós. Quanto mais ami­ gos tivermos, mais frequentemente nos afligiremos devido à amizade de que desfrutamos, e quanto mais queridos forem, mais dolorosa será nossa aflição. A multiplicação dos nossos consolos é apenas a multiplicação das nossas cruzes e preocupações.

II – As notícias que foram enviadas ao nosso Senhor Jesus sobre a doença de Lázaro, v. 3. Suas irmãs sabiam onde Jesus estava, muito além do rio Jordão, e enviaram um mensageiro especial até Ele, para dar-lhe a conhecer a aflição da sua família, em que manifestam:

1. A aflição e a preocupação que tinham por seu irmão.

Embora, provavelmente, a propriedade dele passasse para elas depois da sua morte, ainda assim elas desejavam ardentemente sua vida, como deviam fazer. Elas mostravam seu amor por ele, agora que estava doente, pois é em meio às adversidades que nascem os irmãos e irmãs. Nós devemos chorar com nossos amigos, quando eles choram, e também devemos nos alegrar com eles, quando se alegram.

2. A consideração que tinham pelo Senhor Jesus, a quem desejavam colocar a par de todas as suas preocupações, e, como Jefté, expressar diante dele todas as suas palavras. Embora Deus conheça todas as nossas necessidades, tristezas e preocupações, Ele deseja conhecê-las a partir de nós, e sente-se honra ­ do quando as depositamos diante dele. A mensagem que elas enviaram foi muito curta, não requerendo, muito menos aconselhando ou pressionando, mas simplesmente relatando o caso com a gentil insinuação de uma súplica poderosa: “Senhor, eis que está enfermo aquele que tu amas”. Elas não dizem: Aquele que nós amamos, mas: ”Aquele que tu amas”. Nossos maiores incentivos na oração são produzidos pelo próprio Deus e pela sua graça. Elas não dizem: Senhor eis que está enfermo aquele que te ama, mas: ”Aquele que tu amas”, pois o amor está, não no fato de que nós amamos a Deus, mas no fato de que Ele nos amou. Nosso amor por Ele não é digno sequer de ser descrito, mas o dele por nós nunca será suficientemente mencionado. Observe:

(1) Há alguns dos amigos e seguidores do Senhor Jesus pelos quais Ele tem um carinho maior. Entre os doze, havia um a quem Jesus amava.

(2) Não é novidade que aqueles a quem Cristo ama fiquem doentes: tudo sucede igualmente a todos. As per turbações físicas corrigem a corrupção, e põem à prova as graças, do povo de Deus.

(3) É um grande consolo, quando estamos doentes, ter junto a nós aqueles que estão dispostos a orar por nós.

(4) Teremos grande estímulo nas nossas orações por aqueles que es­ tão enfermos se tivermos razão para ter esperança de que eles sejam como aqueles a quem Cristo ama, e temos razão para amar e orar por aqueles dos quais temos razão para pensar que Cristo ama e cuida.

III – Um relato de como Cristo recebeu as notícias trazidas a Ele sobre a enfermidade do seu amigo.

1. Ele prognosticou o acontecimento e o resultado da enfermidade, e provavelmente enviou como uma mensagem às irmãs de Lázaro, pelo mensageiro, para apoiá-las, enquanto tardava em ir vê-las. O Senhor prognostica duas coisas:

(1) “Esta enfermidade não é para morte”. Era mortal, certamente fatal, e sem dúvida Lázaro esteve verdadeiramente morto durante quatro dias. Mas:

[1] Esta não era a missão para a qual esta enfermidade tinha sido enviada. Ela não veio como um caso comum, como um chamado para a sepultura, mas havia nela uma intenção adicional. Se ela tivesse sido enviada com esta missão, o fato de Lázaro ressuscitar teria impedido seu cumprimento.

[2] Este não era o resultado final desta enfermidade. Ele morreu, mas poderíamos dizer que ele não morreu, pois não se pode considerar algo como um feito, se este não for algo que possa ser perpetuado. A morte é uma despedida permanente deste mundo, é o caminho do qual nós não retornamos, e, neste sentido, não era para morte. O sepulcro era sua morada por muito tempo, sua casa na eternidade. Assim, Cristo disse a respeito da jovem cuja vida Ele se propôs a restaurar: “Não está morta”. A doença das pessoas boas, por mais ameaçadora que seja, não é para morte, pois não é para a morte eterna. A morte do corpo para este mundo é o nascimento da alma para o outro mundo. Quando nós, ou nossos amigos, estamos doentes, nosso principal apoio é que exista uma esperança de recuperação, mas nisto nós podemos ficar desaponta­ dos. Por isto, é prudente que nos apoiemos naquilo com que jamais nos desapontaremos. Se pertencerem a Cristo, mesmo que venha o pior, eles não poderão sofrer a segunda morte, e nem sofrer algum dano na primeira.

(2) “Mas é para glória de Deus”, para que possa haver uma oportunidade para a manifestação do glorioso poder de Deus. Os sofrimentos dos santos são designa­ dos para a glória de Deus, para que Ele possa ter oportunidade de mostrar-lhes favor, pois as graças mais doces, e as mais eficientes, são aquelas provocadas pelas tribulações. Isto deve nos reconciliar com as mais obscuras dispensações da Providência. Elas são todas para a glória de Deus, seja esta enfermidade, esta perda, ou este desapontamento, e se Deus for glorificado, nós de­ veremos nos sentir satisfeitos, Levítico 10.3. Era para a glória de Deus, pois era para que o Filho de Deus fosse glorificado através da oportunidade de realizar este milagre glorioso, a ressurreição de Lázaro. Assim como, anteriormente, o homem tinha nascido cego para que Cristo pudesse ter a honra de curá-lo (cap. 9.3), também Lázaro deveria ficar doente e morrer para que Cristo pudesse ser glorificado como o Senhor da vida. Isto deve confortar aqueles a quem Cristo ama em todos os seus sofrimentos, o fato de que o desígnio de todos eles é que o Filho de Deus possa ser glorificado. E sua sabedoria, seu poder e sua bondade é que sustentam e aliviam seus servos. Veja 2 Coríntios 12.9,10.

2. Jesus adiou a visita ao seu paciente, vv. 5,6. Marta e Maria tinham suplicado: “Senhor, está enfermo aquele que tu amas”, e a súplica é permitida (v. 5): Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro. Desta maneira, as declarações de fé são ratificadas no tribunal do céu. Poderíamos pensar que a seguir viria algo como: Quando Ele soube que Lázaro estava enfermo, Ele foi até ele o mais rapidamente que pôde. Se Ele os amava, agora era o momento de mostrar isto, correndo para junto deles, pois Ele sabia que estariam esperando-o impacientemente. Mas Ele tomou o caminho contrá1io para mostrar seu amor. Não está escrito: Ele os amava, mas ainda assim tardou em ir, mas: Ele os amava, e por isto tardou em ir. Quando soube que seu amigo estava doente, em vez de correr para junto dele, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde estava.

(1) Ele as amava, isto é, tinha grande consideração por Marta e Maria, pela sua sabedoria e graça, pela sua fé e paciência, acima de outros discípulos seus, e por isto Ele adiou sua ida para junto delas, para que pudesse testá-las, para que sua provação pudesse, no final, revelar-se em louvor e honra.

(2) Ele as amava, isto é, Ele desejava fazer alguma coisa grandiosa e extraordinária por elas, realizar, para seu alívio, um milagre tal como nunca tinha realizado para nenhum dos seus amigos. Ele tardou em ir até elas, para que Lázaro pudesse estar morto e sepultado antes da sua chegada. Se Cristo tivesse ido imediatamente, e curado a enfermidade de Lázaro, Ele não teria feito nada além do que fez por muitos. Se Ele o tivesse ressuscitado, pouco tempo depois de morto, não teria feito nada além do que fez por alguns. Mas, atrasando tanto seu alívio, Ele teve uma oportunidade de fazer por ele mais do que por qual­ quer outra pessoa. Observe que Deus tem intenções graciosas, mesmo em aparentes demoras, Isaías 54.7,8; 49.14ss. Os amigos de Cristo em Betânia não estavam fora dos pensamentos dele, no entanto, quando ouviu sobre suas dificuldades, Ele não se apressou em ir até eles. Quando a obra de libertação, temporal ou espiritual, pública ou pessoal, está em espera, ela apenas espera a hora certa, e tudo é bonito na hora certa.