ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 10: 22-38 – PARTE II

Alimento diário

As palavras de Cristo aos judeus

 

IV – A ira, a fúria, dos judeus contra Ele, devido a estas palavras: “Os judeus pegaram, então, outra vez, em pedras para o apedrejarem”, v. 31. Estas não são as palavras que foram usadas anteriormente (cap. 8.59), mas eles pegaram pedras, grandes pedras, pedras que eram pesadas, como as que usavam no apedrejamento de malfeitores. Eles as tinham trazido de algum lugar distante, como se estivessem preparando as coisas para a execução de Jesus, sem qualquer processo judicial; como se Ele fosse condenado de blasfêmia com a notória evidência do fato, sem a necessidade de um julgamento. O absurdo deste insulto que os judeus fizeram a Cristo ficará evidente, se considerarmos:

1. Que eles, imperiosamente, para não dizer insolentemente, o tinham desafiado para que lhes dissesse claramente se era o Cristo ou não, e mesmo agora, que Ele não somente dizia que era o Cristo, mas provava ser, eles o condenavam como a um malfeitor. Se os pregadores da verdade a propõem modestamente, são tachados como covardes; se a propõem ousadamente, como insolentes. Mas “a sabedoria é justificada por seus filhos”.

2. Que, quando eles tinham, anteriormente, feito uma tentativa similar, tinha sido inútil. Ele “ocultou-se … passando pelo meio deles” (cap. 8.59). Mas, ainda assim, eles repetiram sua tentativa frustrada. Os pecadores atrevidos atirarão pedras ao céu, ainda que elas retornem sobre suas próprias cabeças. Estes iníquos procurarão se fortalecer contra o Todo-Poderoso, embora nenhum daqueles que tentaram se fortalecer contra Ele tenha prosperado.

 

V – A terna censura que Cristo lhes faz, por ocasião da demonstração desta fúria (v. 32): Jesus respondeu ao que eles fizeram, pois não vemos que eles tivessem dito nada, a menos, talvez, que tivessem incitado a multidão que havia se reunido ao redor dele, para que se unissem a eles, gritando: ”Apedreja-o, apedreja-o”, da mesma maneira como fizeram posteriormente: “Crucifica-o, crucifica-o”. Quando Ele poderia ter respondido a eles com o fogo do céu, mansamente replicou: “Tenho vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual dessas obras me apedrejais?” Palavras tão ternas, que se poderia pensar que teriam derretido um coração de pedra. Ao lidar com seus inimigos, Ele ainda argumentava com base nas suas obras (os homens mostram o que são com o que fazem), suas boas obras, obras excelentes e eminentes. A expressão quer dizer grandes obras, como também boas obras.

1. O poder divino das suas obras os condenava da infidelidade mais absoluta. Estas eram obras do seu Pai, tão acima do alcance e do curso da natureza, a ponto de provar que quem as fazia era enviado de Deus, e que agia comissionado por Ele. Ele lhes mostrou estas obras. Ele fez isto abertamente, diante do povo, e não às escondidas, em um canto. Suas obras suportariam o teste, e se submeteriam ao testemunho dos espectadores mais investigativos e imparciais. Ele não mostrou suas obras à luz de velas, como aqueles que se preocupam somente com as aparências, mas as mostrou à luz do meio-dia, diante do mundo, cap. 18.20. Veja Salmos 111.6. Suas obras demonstravam, de maneira inegável, que eram uma demonstração incontestável da validade da sua comissão.

2. A graça divina das suas obras os condenava da mais vil ingratidão. As obras que Ele realizava entre eles não eram apenas milagres, mas misericórdias. Não somente prodígios, para maravilhá-los, mas obras de amor e gentileza, para fazer o bem a eles, e, desta maneira, torná-los bons, e tornar-se querido por eles. Ele curava os enfermos, purificava os leprosos, expulsava demônios, coisas que eram favores, não somente para as pessoas envolvidas, mas para o público. Estas obras, Ele tinha repetido e multiplicado: “‘Por qual dessas obras me apedrejais?’ Vós não podeis dizer que Eu vos tenha feito nenhum mal, nem vos feito qualquer provocação justa. Se, portanto, iniciais uma discussão comigo, deve ser por causa de alguma boa obra, alguma boa obra feita a vós. Dizei-me qual é”. Observe que:

(1) A horrível ingratidão que existe nos nossos pecados contra Deus e Jesus Cristo é um grande agravamento dos nossos próprios pecados, e os exibe terrivelmente pecaminosos. Veja como Deus argumenta a este respeito, Deuteronômio 32.6; Jeremias 2.5; Miquéias 6.3.

(2) Não devemos julgar estranho se nos encontramos com aqueles que não somente nos odeiam sem causa, mas que são nossos adversários pelo nosso amor; Salmos 35.12; 41.9. Quando Ele pergunta: “Por qual dessas obras me apedrejais?”, assim como evidencia a abundante satisfação que Ele tem na sua própria inocência, que dá coragem a um homem em um dia de sofrimento, também faz com que seus perseguidores considerem qual era a verdadeira razão da sua inimizade, e se perguntem, como deveriam fazer todos aqueles que criam problemas para seus vizinhos: “Por que o perseguimos?” Como Jó aconselha que seus amigos façam, Jó 19.28.

 

VI – A defesa que tentaram fazer de si mesmos, V 1. quando acusaram o Senhor Jesus Cristo, e a causa sobre a qual fundamentam sua acusação, v. 33. Que pecadores optarão por folhas de figueira para se cobrir, quando até mesmo os sanguinários perseguidores do Filho de Deus podiam encontrar algum argumento para se defender?

1. Eles não seriam considerados tão terríveis inimigos da sua nação por perseguirem a Jesus devido a uma boa obra: “Não te apedrejamos por alguma obra boa”. Pois, na verdade, eles dificilmente admitiram que alguma das suas obras fosse boa. A cura do homem paralítico (cap. 5) e do cego (cap. 9) estavam tão longe de serem reconhecidas como bons serviços à cidade, e beneméritos, que se somavam à quantidade dos seus crimes, porque tinham sido realizadas no sábado. Mas, se El e tinha feito alguma obra boa, eles não reconheceriam que o apedrejavam por causa dela, embora estas fossem realmente as coisas que mais os exasperavam, cap. 11.47. Assim, por mais absurdo que parecesse, eles não podiam ser levados a reconhecer seus próprios absurdos.

2. Eles seriam considerados amigos de Deus e da sua glória ao acusar Jesus de blasfêmia: “Porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo”. Aqui temos:

(1) Um falso zelo pela lei. Eles pareciam extremamente preocupados com a honra da majestade divina, e dominados por um horror religioso com aquilo que eles imaginavam ser uma censura a ela. “Aquele que blasfemar… certamente morrerá”, Levítico 24.16. Esta lei, pensavam eles, não somente justificava, mas santificava o que eles tentavam fazer; como em Atos 26.9. Observe que os costumes mais vis são frequentemente encobertos por pretextos plausíveis. Assim como nada é mais corajoso do que uma consciência bem informada, também nada é mais ultrajante do que uma equivocada. Veja Isaías 66.5; cap. 16.2.

(2) Uma verdadeira inimizade pelo Evangelho, ao qual eles não podiam fazer afronta maior do que representar a Cristo como um blasfemo. Não é novidade que as piores características sejam atribuídas aos melhores homens, por aqueles que decidem dar a eles o pior tratamento.

[1] O crime do qual Ele é acusado é blasfêmia, ou seja, falar de maneira reprovável e maldosa sobre Deus. O próprio Deus está fora do alcance do pecador, e não é suscetível de receber nenhuma ofensa real, e, portanto, a inimizade com Deus lança seu veneno sobre seu nome, e assim mostra sua má intenção.

[2] A prova do crime: “Sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo”. Assim como é glória de Deus o fato de que Ele é Deus, e nós a roubamos dele quando o fazemos como um de nós, também é sua glória o fato de que, além dele, não existe outro, e nós a roubamos dele quando nos equiparamos, ou a qualquer criatura, a Ele. Agora, em primeiro lugar, até aqui, eles tinham razão, pois o que Cristo tinha dito a seu respeito era isto, que Ele era Deus, pois Ele tinha dito que era um só com o Pai, e que daria a vida eterna. E Cristo não nega isto, o que poderia ter feito se tivesse havido uma conclusão indevida das suas palavras. Mas, em segundo lugar, eles estavam muito enganados quando o consideravam como um mero homem, e julgavam que a divindade que Ele reivindicava era uma usurpação, e da sua própria invenção. Eles julgavam absurdo e ímpio que alguém como Ele, que surgia com a aparência de um homem pobre, humilde e desprezível, ousasse professar ser o Messias, e afirmasse ter o direito às honras confessadamente devidas ao Filho de Deus. Observe que:

1. Aqueles que dizem que Jesus é um mero homem, e somente um Deus fabricado, como dizem os socinianos, na verdade o acusam de blasfêmia, mas provam que os blasfemos são eles mesmos.

2. Aquele que, sendo um homem, um homem pecador, se faz um deus, como o Papa, que afirma ter poderes e prerrogativas divinas, é inquestionavelmente um blasfemo e anticristo.

 

VII – A resposta de Cristo à acusação feita a Ele (pois a defesa dos judeus era uma acusação a Cristo), e a confirmação daquelas reivindicações que eles diziam que eram blasfemas (v. 34ss.), onde Ele prova não ser blasfemo, com dois argumentos:

1. Com um argumento extraído da Palavra de Deus. Ele recorre ao que estava escrito na lei dos judeus, isto é, no Antigo Testamento. Quem quer que se oponha a Cristo, saiba que seguramente Ele terá as Escrituras do seu lado. Está escrito (Salmos 82.6): “Eu disse: sois deuses”. É um argumento do menor para o maior. “Se eles eram deuses, quanto mais Eu o sou”. Observe:

(1) Como Ele aplica o texto (v.35): Ele “chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (e a Escritura não pode ser anulada)”. A palavra da comissão de Deus tinha vindo sobre eles, indicando-os para serem seus oficiais, como juízes, e, por essa razão, são chamados de deuses, Êxodo 22.28. A alguns, a palavra de Deus foi dirigida imediatamente, como a Moisés; a outros, sob a forma de uma ordenança instituída. A magistratura é uma instituição divina, e os magistrados são representantes de Deus, e, portanto, as Escrituras os chamam de deuses, e nós temos certeza de que as Escrituras não podem ser anuladas, nem se pode introduzir nada a elas, nem se pode encontrar falhas nelas. Toda palavra de Deus está correta. O estilo e a linguagem das Escrituras são irrepreensíveis, e não devem ser corrigidos, Mateus 5.18.

(2) Como Ele o aplica. De modo geral, é fácil concluir que aqueles que condenavam a Cristo como blasfemo, somente por dizer que era o Filho de Deus, eram muito imprudentes e irracionais, quando eles mesmos chamavam assim seus príncipes, e isto as Escrituras lhes permitiam. Mas o argumento vai mais além (v. 36): Se os magistrados eram chamados deuses, porque eram comissionados para administrar justiça à nação, “àquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas”? Aqui temos duas questões a respeito do Senhor Jesus:

[1] A honra que seu Pai lhe concedeu, na qual, com razão, Ele se glorifica: o Pai o santificou e enviou ao mundo. Os magistrados eram chamados de filhos de Deus, embora a palavra de Deus fosse apenas dirigida a eles, e o espírito de governo tenha vindo a eles por medida, como sobre Saul. Mas nosso Senhor Jesus era, Ele mesmo, a Palavra, e tinha o Espírito sem medida. Eles eram constituídos para uma região, cidade ou nação em particular, mas Ele era enviado ao mundo, revestido de uma autoridade universal, como Senhor de tudo. Eles eram mandados, como pessoas distantes. Ele era enviado, como tendo estado com Deus desde a eternidade. O Pai o santificou, isto é, o designou e consagrou para o ofício de Mediador, e o qualificou e capacitou para este oficio. Santificá-lo significa a mesma coisa que selá-lo, cap. 6.27. Observe que o Pai santifica a quem envia. Aquele que Ele designa para propósitos santos, Ele prepara com santos princípios e disposições. O Deus santo só irá empregar e recompensar aqueles que Ele julgar santos, ou aqueles que Ele santificar. O ato de o Pai santificar e enviar o Senhor Jesus Cristo é aqui certificado como a permissão suficiente para que Ele se declarasse Filho de Deus, pois, por Ele ser santo, foi chamado de Filho de Deus, Lucas 1.35. Veja Romanos 1.4.

[2] A desonra que os judeus lhe fizeram, da qual Ele reclama com razão – que eles tinham dito de maneira ímpia sobre Ele, a quem o Pai tinha dignificado desta forma, que Ele era um blasfemo, porque tinha dito ser Filho de Deus: “Vocês dizem isto dele? Vocês ousam dizer isto? Vocês ousam direcionar suas bocas contra os céus? Vocês têm coragem suficiente para dizer ao Deus da verdade que Ele está mentindo, ou condenar aquele que é justo e poderoso? Olhem-me nos olhos, e digam se podem fazer isto. O que! Vocês dizem, do Filho de Deus, que Ele é um blasfemo?” Se os demônios, que Ele veio para condenar, tivessem dito isto a seu respeito, não teria sido tão estranho. Mas o fato de estes homens, aos quais Ele tinha vindo ensinar e salvar, dizerem isto dele, era algo pelo que os céus poderiam pasmar. Veja qual é a linguagem de uma incredulidade obstinada. Na verdade, ela chama o santo Jesus de blasfemo. Ê difícil dizer com que devemos nos espantar mais, com o fato de que homens que respiram o ar de Deus ousassem dizer estas coisas, ou com o fato de que homens que dissessem tais coisas ainda tivessem permissão para respirar o ar de Deus. A maldade do homem e a paciência de Deus disputam entre si qual será a mais surpreendente.

2. Com um argumento que Ele extrai das suas próprias obras, vv. 37,38. Anteriormente, Ele apenas respondeu à acusação de blasfêmia com um argumento – voltando o argumento de um homem contra si mesmo. Mas aqui Ele apresenta suas próprias reivindicações, e prova que Ele e o Pai são um só (vv. 37,38): “Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis”. Embora o Senhor pudesse, com razão, ter abandonado estes blasfemos infelizes, como casos incuráveis, Ele ainda concorda em argumentar com eles. Observe:

(1) A partir de que Ele argumenta – de suas obras, que Ele sempre apresentava como suas credenciais, e provas da sua missão. Assim como Ele provava ser enviado de Deus pela divindade das suas obras, também nós devemos nos provar aliados de Cristo pelo cristianismo das nossas.

[1] O argumento é muito convincente, pois as obras que Ele realizava eram as obras do seu Pai, que somente o Pai poderia fazer, e que não poderiam ser feitas no curso ordinário da natureza, mas somente pelo poder soberano e predominante do Deus da natureza. Obras peculiares de Deus, e Obras dignas de Deus, as obras de um poder divino. Aquele que pode prescindir das leis da natureza, repeli-las, alterá-las e anulá-las da maneira como desejar, pelo seu próprio poder, certamente é o príncipe soberano que primeiro instituiu e promulgou tais leis. Os milagres que os apóstolos realizassem em seu nome, pelo seu poder, e para a confirmação da sua doutrina, corroborariam este argumento, e continuariam sendo sua evidência, quando Ele tivesse partido.

[2] Este argumento é proposto de modo tão correto quanto se poderia desejar, e utilizado em prol de um resultado breve. Em primeiro lugar: “Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis”. Ele não exige uma fé cega e implícita, nem uma concordância com sua missão divina além das provas que Ele oferece. Ele não desejou ganhar o afeto do povo, nem os adulou com insinuações dissimuladas, nem se aproveitou da sua credulidade com afirmações ousadas, mas, com a mais imaginável correção, eliminou todas as exigências da sua fé, além de oferecer justificativas para estas exigências. Cristo não é um mestre difícil, que espera colher concordâncias onde não plantou argumentos. Ninguém perecerá por não crer naquilo que não lhe foi proposto com motivos suficientes para credibilidade, e a própria Sabedoria Infinita será o juiz. Em segundo lugar: “Mas se faço ‘as obras de meu Pai’, se realizo milagres inegáveis para a confirmação de uma doutrina sagrada, e vocês não creem em mim, embora sejam tão escrupulosos a ponto de não aceitar minha palavra, creiam nas obras. Creiam nos seus próprios olhos, na sua própria razão. As coisas falam por si mesmas, de maneira suficientemente clara”. Assim como as coisas invisíveis do Criador são claramente vistas pelas suas obras de cri­ ação e providência comum (Romanos 1.20), também as coisas invisíveis do Redentor eram vistas pelos seus milagres, e por todas as suas obras, tanto de poder quanto de misericórdia, de modo que todos aqueles que não se convenceram por estas obras não tinham justificativa.

(2) Para que Ele argumenta – “que conheçais e acrediteis”, inteligentemente, e com total satisfação, “que o Pai está em mim, e eu, nele”, que é o mesmo que Ele tinha dito (v. 30): “Eu e o Pai somos um”. O Pai estava tanto no Filho, que nele residia toda a plenitude da Divindade, e era por um poder divino que Ele realizava seus milagres. O Filho estava tanto no Pai, que estava perfeitamente familiarizado com a plenitude da sua vontade, não por comunicação, mas por consciência, tendo estado no seu seio. Isto nós devemos saber, não saber e explicar (pois não podemos, investigando, descobrir com perfeição), mas conhecer e crer, reconhecer e adorar a profundidade, quando não pudermos encontrar o fundo.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.