PSICOLOGIA ANALÍTICA

MAIS INTELIGÊNCIA, MAIS TEMPO

Embora o bom nível intelectual não seja suficiente para garantir que teremos uma vida mais longa, muitos cientistas acreditam que, quanto mais baixa a capacidade cognitiva de uma pessoa, maior seu risco de desenvolver doenças físicas e mentais e morrer prematuramente.

Mais inteligência, mais tempo

Muitos cientistas acreditam que o processo de envelhecimento resulta do acúmulo gradual de um enorme número de pequenas “falhas” isoladas.

É uma espécie de somatório degenerativo que regula nosso tempo de vida por meio de um delicado equilíbrio entre a rapidez com que novos danos atingem as células e a eficiência com que os problemas são corrigidos. Recentemente, especialistas de áreas que nem sempre estiveram próximas têm se unido em busca de pistas que possam prever quais aspectos de fato influenciam o bem-estar e as doenças e antecipam (ou retardam) a morte. É o caso dos doutores em psicologia Alexander Weiss e Ian J. Deary e do especialista em epidemiologia David Batty.

Os pesquisadores utilizam séries históricas de estudos em saúde, que abrangem várias décadas. Nesses projetos, centenas, milhares ou às vezes até 1 milhão de pessoas são sistematicamente avaliadas e acompanhadas ao longo de vários anos. Analisando cuidadosamente esses dados, eles e outros pesquisadores descobriram uma nova forma de prever a longevidade das pessoas: os resultados obtidos em testes de inteligência quando jovens.

“Os resultados são inequívocos, embora poucos profissionais da saúde os conheçam: quanto mais baixo o nível de inteligência de uma pessoa, maior o risco de ela ter uma vida mais curta, desenvolver doenças físicas e mentais com o passar dos anos e morrer de patologias cardiovasculares, suicídio ou acidente”, afirma Deary. Obviamente não é possível fazer generalizações, mas é surpreendente que baixo nível de inteligência ofereça prognóstico tão forte de fatores de risco bem conhecidos para doenças e morte, como obesidade e hipertensão.

Mas simplesmente ter boa capacidade intelectual não basta para garantir a longevidade: é preciso agir e decidir como pessoas inteligentes. E, muitas vezes, funcionamentos psíquicos e aspectos emocionais não permitem que as pessoas usem o potencial que têm a seu próprio favor.

Psicólogos e neurocientistas alertam para a importância da resiliência, uma palavra “emprestada” da área da física que estuda a resistência dos materiais. O termo passou a ser usado em psicologia para falar da habilidade psíquica de enfrentar frustrações e dos recursos de que a pessoa dispõe para regular sentimentos como tristeza, raiva e medo. “A forma como lidamos com desafios e situações que nos afligem influencia o nível de estresse e, consequentemente, a saúde mental e física”, observa o psiquiatra Steven M. Southwick, especialista em transtorno de estresse pós-traumático e em resiliência e professor da Escola de Medicina da Universidade Yale. É possível aprimorar a resiliência, em especial por meio da psicoterapia, que oferece à pessoa a oportunidade de rever, elaborar e reinterpretar as próprias experiências.

O psicólogo Kevin Ochsner e seus colegas da Universidade Columbia comprovaram que, quando uma pessoa passa a reinterpretar o significado de um evento adverso e a enxergá-lo de forma mais amena, diminui suas reações fisiológicas relacionadas a situações traumáticas. A descoberta mais interessante da equipe de Ochsner é que ganhos emocionais vêm acompanhados de mudanças cerebrais específicas, como o aumento da atividade no córtex pré-frontal, área envolvida no planejamento e decisões, além de diminuição da ação da amígdala, região relacionada ao processamento de emoções primitivas, como o medo. Ou seja: ampliar a capacidade de resiliência tende a nos tornar emocionalmente mais seguros e com maior clareza mental para nos direcionar aos cuidados que realmente são necessários e, possivelmente, nos ajuda a permanecer vivos por mais tempo.

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OUTROS OLHARES

TREMOR SEM FIM?

A doença de Parkinson ainda é considerada incurável. Pesquisadores procuram ao menos, atenuar seus sintomas por meio da terapia genética, de transplantes celulares e do marca-passo cerebral.

Tremor sem fim

Atlanta, 9 de julho de 1996. Solenemente, Cassius Clay acende a pira olímpica na abertura dos XXVI Jogos de Verão. Mas a mão do antigo campeão mundial de box treme. O mundo é testemunha de um mal que Clay – mais conhecido como Muhammad Ali – compartilha com pelo menos outras 4 milhões de pessoas hoje no mundo. Estamos falando de uma doença cujos sintomas o médico e farmacêutico James Parkinson (1755 – 1824) descreveu pela primeira vez em 1817. Devido ao acentuado tremor de seus pacientes, ele a denominou shaking palsy, ou seja, “paralisia agitante”. Uma designação errônea, já que ela não causa paralisia e nem vem obrigatoriamente acompanhada de tremores. Na verdade, seu principal sintoma é um crescente e generalizado empobrecimento dos movimentos. Parkinson ainda não sabia nada sobre suas causas – e recomendava sangria e aplicação de ventosas.

Se diagnosticada a tempo, a doença pode ser bem controlada com medicamentos em seu estágio inicial. Em um tratamento ideal é possível atenuar os sintomas durante oito a 15 anos – e a expectativa de vida dos afetados permanece quase normal. No entanto, o diagnóstico quase nunca é feito em seu início, pois a doença começa com sintomas pouco específicos, como tensões musculares em um dos ombros ou braços, o que faz as pessoas visitar primeiro o ortopedista, e não o neurologista. Antes dos primeiros distúrbios de movimento, são frequentes cansaço, depressão ou crises repentinas de suor.

Muitas vezes, nada acontece durante anos – podem se passar de nove a 12 anos até a doença se manifestar completamente. Mas, pouco a pouco fica cada vez mais difícil lidar com objetos cujo manejo exige habilidade motora tina, como enfiar linha na agulha. Também o ato de escrever é afetado e a letra dos pacientes vai se tomando menor e de difícil leitura. Por fim, as atividades cotidianas se tomam obstáculos quase intransponíveis, escovar os dentes, pentear os cabelos, amarrar os sapatos, abotoar a camisa. A longo prazo, os doentes precisam de acompanhamento e sua qualidade de vida diminui sensivelmente.

Às dificuldades motoras somam-se problemas psíquicos, assim como os movimentos, os processos mentais ficam mais lentos. O fluxo de pensamentos se torna vagaroso, a fala soa arrastada e baixa. Cerca de um em cada dois pacientes é depressivo ou tem distúrbios de ansiedade, além disso, um em cada três sofre crises de demência.

Depois do mal de Alzheimer, Parkinson é a doença neurodegenerativa mais comum do mundo ocidental: aproximadamente 4 milhões de pessoas são afetadas no mundo todo, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar de também existirem parkinsonianos de 30 a 40anos, a doença é típica da velhice e atinge principalmente homens. Cerca de 1% das pessoas com mais de 60anos tem Parkinson e tal probabilidade aumenta l% a cada década de vida. Com expectativa de vida crescente e taxa de natalidade progressivamente menor, haverá no futuro cada vez mais doentes. Crianças nascidas hoje devem viver em média 90 anos, e calcula-se que cerca de 7,5% delas terão a doença até chegar a essa idade. Nesse cenário, a pesquisa médica tem sido cada vez mais desafiada a descobrir as causas do mal e desenvolver tratamentos efetivos. Apesar de progressos significativos já terem sido alcançados nos últimos anos, as causas da doença permanecem obscuras.

Desde os anos 60 sabe-se que as células nervosas do mesencéfalo se atrofiam com a doença. Os mais afetados por essa perda são os gânglios basais, situados abaixo do telencéfalo, responsáveis pelo controle da execução de movimentos automáticos. Ao escorregarmos em uma casca de banana, quase sempre um rápido movimento de equilíbrio – coordenado inconscientemente pelos gânglios basais – nos protege da queda. Se, por outro lado, quiséssemos controlar tudo conscientemente pelo telencéfalo, o processo levaria muito mais tempo – nós cairíamos muito mais vezes de cara no chão.

Entre os gânglios basais encontra-se a substância negra, que deve seu nome à grande concentração de pigmentos escuros, a melanina. Suas células nervosas altamente especializadas, que perfazem aproximadamente 1% do volume cerebral, produzem a dopamina – uma das mais importantes substâncias transmissoras do cérebro. Responsável principalmente pela regulação de todos os movimentos corporais, esse neurotransmissor atua como inibidor e também como ativador sobre outras áreas menos importantes como por exemplo o corpo estriado, que repassa os sinais para o telencéfalo. Pacientes com Parkinson perdem entre 20 e 25 mil dessas células nervosas dopaminérgicas.

Na ausência de dopamina o controle de estímulos no mesencéfalo não funciona corretamente. O paciente fica rígido, só consegue controlar seus movimentos com dificuldade e caminhar se transforma em um esforço quase insuperável. Sequer passar por locais estreitos, fica paralisado de repente – os clínicos denominam esse temido fenômeno de freezing.

 COMANDANTE INVISÍVEL

O tálamo, uma área de conexão do mesencéfalo, também depende da dopamina. Em estado saudável, ali aparentemente reina o caos – os neurônios trabalham desordenadamente. Porém, se o nível dopaminérgico cai, as células nervosas reagem de forma peculiar, sincronizam suas atividades – como sob ordens de um comandante invisível – e passam a trabalhar sincronicamente. Como consequência, os dedos, as mãos ou as pernas começam a tremer. Médicos descobriram tal fenômeno quando extraíram por engano parte do tálamo de um paciente: após a operação, o tremor em estado de descanso desapareceu.

Na maioria dos casos não é possível encontrar o causador da atrofia neuronal. Apenas em raras ocasiões pode-se rastrear uma meningite ou um tumor que sufoca a substância negra. Esses poucos casos são facilmente revelados por tomografia computadorizada ou ressonância magnética; nos pacientes típicos de Parkinson, no entanto, as imagens cerebrais raramente apresentam anomalia. Os casos da doença que atinge frequentemente boxeadores como Muhammad Ali, cujos cérebros foram constantemente expostos a golpes, também são considerados exceções. Outros fatores de risco possíveis são substâncias nocivas ao ambiente como pesticidas e metais pesados.

Entre 5% e 10% dos pacientes têm um defeito genético. Nesse caso, o mal se manifesta bem cedo. Se a doença afeta algum parente próximo, o risco é dobrado. Até agora foram identificados nove lócus gênicos envolvidos no surgimento da doença de Parkinson. Pelo menos quatro desses genes participam da produção de proteínas dentro da célula. Por esse motivo, vários neurologistas partem do princípio de que a doença tem como base uma sobrecarga dos neurônios com suas próprias proteínas. Se elas não podem mais ser eliminadas nem transformadas, a célula literalmente é sufocada pelos produtos de seu próprio metabolismo. Um outro gene controla a produção de energia pelas mitocôndrias. Se essas “usinas elétricas” das células deixam de funcionar, vários processos produtivos se paralisam – entre eles, a produção de dopamina.

O estudo das bases genéticas modificou nossa visão do problema, de um lado, percebemos que a doença de Parkinson não pode ser atribuída a uma causa apenas, e de outro, abrem-se novas possibilidades de diagnóstico. Cientistas esperam que, no futuro, a doença possa ser reconhecida precocemente por meio de um teste genético. Já se fala em tratamentos baseados em engenharia genética, mas até agora nenhum deles saiu da fase experimental. O plano é inserir genes no mesencéfalo do paciente através de vírus especialmente manipulados. Lá, os genes devem, por exemplo, ativar determinadas enzimas que liberam ou transportam dopamina. Os primeiros testes com animais já tiveram bons resultados – possivelmente este será um caminho pelo qual os sintomas da doença poderão ser atenuados ainda mais drasticamente.

Os pesquisadores estão introduzindo fatores neurotróficos – compostos que promovem o crescimento e a diferenciação neuronal – no cérebro. Esses agentes não só aliviam os sintomas como prometem proteger os neurônios dos danos e recuperar os que já foram prejudicados. Uma linha de pesquisa em animais sugere que uma família de proteínas chamada fator neurotrófico derivado de células gliais (GDNF; do inglês gliaI cell – derived neurotrophic factor) pode aumentar a sobrevivência de neurônios dopaminérgicos lesionados e reduzir drasticamente os sintomas parkinsonianos. Em macacos, essa substância conseguiu estimular a regeneração celular e interromper o declínio da formação de novos neurônios.

Em 2002, Stephen Gill e seus colegas já arriscaram testá-la em seres humanos no Hospital Frenchay, em Bristol, Inglaterra: o grupo administrou o GDNF por um cateter diretamente no corpo estriado, principal receptor dos gânglios de base da dopamina secretada pelos neurônios da substância negra, de cinco pacientes com Parkinson em estágio avançado. E vejam só: os sintomas realmente recuaram e a produção de dopamina aumentou. Em um dos pacientes, hoje falecido, os médicos comprovaram, até mesmo novos axônios neuronais. Mas muitos cientistas ainda mantêm- se reservados em seus prognósticos sobre a terapia genética. Ainda há poucos experimentos para avaliar sua efetividade e seus riscos.

Sendo assim, por enquanto, entre os métodos à escolha figuram apenas os medicamentos clássicos, entre os quais, no entanto, não há nenhum capaz de realmente curar a doença. O tratamento dos sintomas, porém, melhorou muito nos últimos 30 anos. O desenvolvimento da, L- Dopa, um estágio preliminar da dopamina que se transforma em dopamina no cérebro, foi o avanço mais revolucionário. Contrariamente à dopamina pura, a L- Dopa atravessa a barreira hematoencefálica – um revestimento de pouca permeabilidade dos vasos cerebrais que impede a penetração de substâncias nocivas no sensível órgão. Por isso, a L-Dopa pode ser simplesmente tomada na forma de comprimido.

Os primeiros resultados da L- Dopa impressionam: o medicamento devolve a autonomia de movimentos aos pacientes e lhes possibilita voltar a viver ativamente. No entanto, após alguns anos de tratamento, fica cada vez mais difícil calcular a quantidade ideal de L- Dopa, pois os receptores dopaminérgicos da região neuronal visada, o corpo estriado, tornam-se extremamente sensíveis com a evolução da doença. Apenas poucos neurônios dopaminérgicos continuam disponíveis para equilibrar as variações do nível de dopamina. Quando há uma overdose de L – Dopa, os movimentos se tornam exagerados e incontroláveis – a chamada discinesia. Por outro lado, uma dose menor que a necessária leva a um bloqueio completo. Muitos pacientes acham tal alternância entre essas fases “on” e “off” mais estressante que os sintomas originais da doença.

Uma alternativa são as substâncias da classe das agonistas da dopamina que imitam a sua função. Anualmente há uma enorme variedade de substâncias desse tipo no mercado. Mesmo que não tenham efeito tão forte quanto a, L – Dopa no início, a longo prazo, elas se mostram eficientes, são mais fáceis de dosar e a inutilizavam. Desde metade dos anos 90, surgiram opções mais elegantes. Veio da França a estimulação cerebral profunda, os cirurgiões implantam um eletrodo em um dos dois alvos dos gânglios de base – os gânglios basais ou o núcleo subtalâmico – ligado a um dispositivo que gera impulsos, implantado no tórax. Dessa forma a atividade do tálamo deve ser interrompida por meio de pequenos choques dirigidos.

A operação é extremamente complicada e demanda um trabalho de precisão milimétrica. O eletrodo não pode atingir um vaso em hipótese alguma. Há a ameaça de hemorragias cerebrais – que teriam como consequência uma paralisia ou um derrame. Felizmente, tais complicações raramente surgem. Como o cérebro não tem receptores de dor, os cirurgiões realizam a intervenção com o paciente em estado consciente. Uma vantagem decisiva, pois assim os médicos podem lhe lazer perguntas ou pedir que conte uma história durante a operação – e ter assim certeza de que não estão prejudicando nenhuma área cerebral importante. Por fim, o eletrodo é conectado a um marca-passo através de um cabo invisível sob a pele. O dispositivo normalmente emite impulsos de 90 microssegundos e 3 volts até 185 vezes por segundo. A caixinha, do tamanho de um maço de cigarros, é colocada sob a clavícula ou a pele da barriga, a troca de bateria a cada três a seis anos se dá sem complicações.

Se a operação for bem-sucedida, o paciente vive uma mudança impressionante que chega a lembrar um filme de ficção científica, um assistente opera um controle remoto e o paciente, que antes mal conseguia se movimentar, perde a rigidez e atravessa a sala lepidamente.

O procedimento parece muito promissor, o efeito da estimulação no núcleo subtalâmico se mantém estável por anos, de forma que a dose dos medicamentos muitas vezes pode ser reduzida pela metade. Porém, a estimulação permanente afeta também as áreas cerebrais vizinhas podendo causar sensação de surdez, distúrbios de fala ou problemas de equilíbrio. Portanto, cientistas trabalham para criar um marca-passo que trabalhe de forma mais cuidadosa, supervisionando o tálamo permanentemente e só o estimulando quando necessário.

TRATAMENTO DE LONGO PRAZO

O objetivo das pesquisas continua a ser o tratamento das causas da doença. A solução mais próxima parece ser a simples substituição das células atrofiadas. No entanto, as primeiras tentativas com células da medula supra- renal do próprio paciente não tiveram o resultado desejado, nem mesmo a implantação de tecidos de cérebros de suínos.

Até hoje quase todas as tentativas de curar a doença de Parkinson através do transplante celular fracassaram. Além da rejeição ao tecido estranho, o principal problema é a transferência do número correto de células. Em alguns casos de sucesso, o efeito placebo parece ter tido um papel importante: Cynthia McRae da Universidade de Denver fez seus pacientes acreditarem que havia implantado neles novas células nervosas. Um ano após essa operação fictícia ela ainda pôde observar uma melhora significante dos sintomas. Pesquisadores coordenados por Fabrízio Benedeni da Universidade de Turim injetaram uma solução com sal de cozinha em pacientes com Parkinson. Após o procedimento, seus movimentos musculares melhoraram e até mesmo a atividade de alguns neurônios aumentou significativamente.

Esperançosa parece ser a implantação de células epiteliais pigmentares capazes de produzir L-Dopa. Elas são encontradas na retina de fetos abonados e podem ser facilmente reproduzidas em cultura. Ligadas aos chamado msicrocamer, esferas de proteína microscópicas, o sistema imunológico quase não percebe as células implantadas, o que diminui o risco de rejeição. Com a retina de um único prematuro podem ser tratados 200 pacientes de Parkinson. Depois do sucesso de um estudo piloto com seis pessoas, o procedimento está sendo testado em 50 pacientes nos Estados Unidos.

Além disso, os médicos depositam grandes esperanças nas células-tronco que conseguem se transformar em diferentes tipos de células com funções específicas. Essas desejadas multifuncionais existem não apenas em embriões, mas também no organismo adulto. Uma grande reserva fica na chamada zona subventricular do mesencéfalo onde se formam novas células nervosas a fim de manter a plasticidade do cérebro. Principalmente o hipocampo, indispensável para a função da memória, responde pelo acréscimo regular de novas células.

A chamada célula C representa um estágio intermediário entre as células nervosas e as células-tronco. O grupo de trabalho de Marburg liderado por Günter Hoglinger e Wolfgang Oertel conseguiu demonstrar que o crescimento dessas células reage à dopamina. Se a produção de dopamina é interrompida em ratos, são produzidas menos células C. Como a dopamina nos seres humanos também estimula a divisão das células-tronco, forma-se um ciclo vicioso nos pacientes de Parkinson: devido à perda das células produtoras de dopamina, seu cérebro torna-se incapaz de substituir as células nervosas atrofiadas.

Pesquisadores coordenados por Jun Takahashi da Universidade de Kyoto, no Japão, tentam transformar células-tronco embrionárias através de processos de crescimento naturais em neurônios dopaminérgicos para só então transplantá-los. No início deste ano eles conseguiram o primeiro resultado positivo com macacos. Porém, antes que o tratamento de Parkinson com células-tronco embrionárias possa se aproximar de um estágio tecnicamente factível, há ainda várias perguntas a serem respondidas.

Está claro que todos esses casos tratam de possibilidades futuras. E não apenas o tratamento médico, mas também o ambiente em que vive o paciente têm um papel importante para o desenvolvimento da doença. Estar cercado de cuidados pode muitas vezes reduzir espantosamente os sintomas psíquicos, enquanto a fisioterapia regular estimula a capacidade de movimentação.

Muitos doentes revelam-se grandes inventores quando se trata de administrar sua rotina. Eles ouvem música em um walkman para falar mais alto e claramente; desenhos no tapete os ajudam a se concentrar em seu caminho. Hoje, a indústria oferece sistemas ópticos para reduzir o grande risco de quedas, integrado em óculos especiais, o sistema denominado “Park Aid projeta desenhos gráficos no campo de visão do paciente a fim de facilitar a sua orientação espacial. E IBM desenvolveu um mouse especial que possibilita aos pacientes trabalhar ao computador sem tremores.

O grupo coordenado por Alfons Schnitzler, da Universidade de Dusseldorf, também trabalha com técnicas de vídeo. Para facilitar o controle de sintomas, os pesquisadores instalaram câmeras nos apartamentos de cem pacientes. O que à primeira vista lembra um Big Brother possibilita a observação do ambiente caseiro, os pacientes apresentam sua mobilidade quatro vezes ao dia, o que faz com que o médico possa decidir a distância se os seus sintomas se modificaram. Se for este o caso, então a dose de medicamentos provavelmente precisa ser readequada. O ajuste leva normalmente duas semanas na clínica, o que aumenta consideravelmente os custos. No entanto, um estudo de controle ainda precisa comprovar o quanto este método realmente funciona.

Por fim, fica a pergunta sobre o que as pessoas saudáveis podem fazer para evitar o mal. Como no caso da maioria das doenças, movimentação corporal não faz mal algum – a não ser que se trate de boxe. Pelo menos para homens, o grupo de trabalho de Alberto Aschiero, da Escola de Saúde Pública de Harvard, em Boston, pôde comprovar em 2005 que a atividade esportiva reduz pela metade o risco do surgimento da doença. Em que se baseia tal proteção, ainda não está claro. Talvez o esporte eleve o nível de dopamina – um efeito que também foi atribuído à nicotina recentemente. Nancy Pedersen, do Instituto Karolinska, de Estocolmo, também pôde comprovar em 2004 aquilo que pesquisadores da Universidade de Magdeburg, coordenados por Wiebke Hellenbrand, descobriram em 1997, amantes do cigarro aparentemente são vítimas menos frequentes da pérfida paralisia agitante. Os fumantes teriam então nova desculpa.

 

GESTÃO E CARREIRA

A INCANSÁVEL CLASSE C

A famosa fatia da população que nunca par de consumir e consegue manter o mercado vivo.

A Incansável classe C

Imagine uma oportunidade de negócios com um público com potencial de mais de 100 milhões de pessoas. Bem-vindo ao poderoso mundo da classe C no Brasil, que corresponde a 60% da população. No ano passado, ela cresceu ainda mais quando os resquícios da crise levaram pessoas da classe A e B a mudar seu lugar na pirâmide.

De acordo com uma pesquisa do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do banco Bradesco e da consultoria LCA, 900 mil pessoas fizeram essa migração – vale ressaltar que o estudo considera classe média pessoas com renda total familiar entre R$ 1.815 e R$7.278, totalizando 11,31 milhões de brasileiros em 2017. Em um recorte mais específico, o montante maior desse público está nos 70 milhões de pessoas que constituem famílias recebendo entre R$ 1.500 e R$ 3.500 por mês.

Mas, afinal, o que eles procuram? Segundo a fundadora do Outdoor Social e especialista em negócios nesse segmento, Emília Rabello, os consumidores da classe C buscam produtos que possam representar sua realidade e características natas, acrescentando um tipo de representatividade.

Nos anos 2000, o público foi a grande aposta da publicidade, que acabou deixando o filão de lado quando a crise chegou, mas uma pesquisa realizada pelo Plano CDE mostra que esse consumidor não parou de comprar, apenas adaptou­ se à nova realidade. “Eles são dois em cada três brasileiros e representam 50% da renda do Brasil. Não é um nicho, é o maior mercado do País”, enfatiza o diretor-executivo do Instituto Plano CDE, Maurício de Almeida Prado.

Segundo ele, são anos de uma era de aspirações paro entrar na fase de identificações. E isso é extremamente importante para comunicar para a classe C hoje. Antigamente tínhamos um modelo de propaganda e marca pautado nas aspirações, nas projeções de uma vida ideal. Todos querem ser a mocinha bonita da propaganda ou a família perfeita da campanha de margarina. As campanhas faziam o inatingível, principalmente para esse público. Agora o jogo virou e os consumidores querem se ver nas campanhas, com seus dilemas e imperfeições. “É aí que entra a identidade. As marcas que resolvem pepinos reais e empoderam o consumidor a partir da quebra de padrões sairão na frente, completa a head de pesquisa aa Consumoteca – consultoria especializada no comportamento do consumidor brasileiro, Marina Reale.

VALE A PENA?

Sim, desde que você entenda exatamente o terreno em que está pisando. Esse público está em busca de alternativas baratas por qualidade e boas experiências. Com cada vez mais informações, não é apenas o baixo preço que vai definir a escolha do cliente. Pesquisa e comparação são essenciais. Por isso, comece seu negócio oferecendo o mínimo de informações para seu consumidor em todas as plataformas que puder – o mundo digital não é apenas um segmento       de mercado, é ferramenta essencial para o desenvolvimento de qualquer empreendimento. “A classe C está cada vez mais exigente, não adianta oferecer gato por lebre, a relação custo-benefício sempre entra na tomada de decisão”, lembra Marina. Além disso, olhar para essa pessoa que vai em busca de seu produto ou serviço como alguém próximo, com problemas e vontades reais, é essencial para desenvolver exatamente aquilo de que ela precisa.

A rede Mania de passar é um exemplo de quem acertou. A marca surgiu da necessidade detectada pelo sócio- fundador Claudio Augusto, que sentia falta de um serviço do tipo que não fosse agregado a muitos outros e acabou se tornando pioneiro em uma empresa que apenas passa roupa. Simples assim, destacou­ se ainda como o sistema “Leva e Traz”, em que a unidade mais próxima busca as roupas limpas na casa do cliente e devolve com o serviço feito em até uma semana, com frete incluso. “Primeiro, buscamos nos aprofundar em conhecer os hábitos e entender qual seria a melhor comunicação que deveríamos utilizar. Falar sobre liberdade, mudança de carreira, independência financeira e, principalmente, trabalhar em casa, são assuntos que chamam bastante a atenção do público”, conta Augusto.

QUEM SÃO ELES?

Inicialmente, olhe para além dos números. Esse público busca por pagamentos facilitados, mas também há perfis que divergem e geram diferentes oportunidades – desde jovens universitários tentando conciliar horário do expediente com estudos até mulheres que cuidam sozinhas das contas da casa e do trabalho com os filhos. “Cada um deles tem suas tensões e particularidades. Mais do que idade, gênero ou profissão, um jeito bacana de entendê-los é olhar para quem são, suas referências de sucesso, qual seu grau de afinidade com a tecnologia, ou ainda seu acesso à informação”, explica Marina.

Além do consumo em si, é preciso estar atento ao fato de que é um público que trabalha duro e vive a dicotomia entre obrigações e diversão. Pensando nisso, o que você pode oferecer para melhorar ou facilitar essa logística? A solução pode se transformar em seu novo negócio. Falando em trabalho, entenda ainda o calendário de seu cliente. No fim do mês, falta dinheiro – apesar de ainda haver disposição para o lazer. É seu papel como empreendedor entender como isso pode afetar sua empresa para o bem ou para o mal. As compras por impulso também devem ser tiradas do perfil de comportamento desse público e é preciso lembrar que os limites de cartão de crédito não são altos. Por isso, algumas empresas como Casas Bahia, oferecem sua própria linha de crédito e facilitam as compras.

Além disso, Prado alerta que a grande maioria desses consumidores não possui conta poupança com aquela reserva de dinheiro. “De um tempo para cá, o mercado vem respondendo a isso com uma série de facilidades que tem funcionado: serviços pré-pagos, assinaturas que possam ser compartilhadas entre familiares e ofertas de compras casadas têm feito bastante sucesso com este público. Mais do que um preço baixo, eles estão sempre em busca de uma boa oportunidade de compra que desperte a sensação de bom custo-benefício. Com isso, marcas estão se tomando fator de compra tão importante quanto preço”, ressalta Marina.

Uma boa parte desse público está também em comunidades. Segundo Emília, cerca de 65% dos clientes de classe C são moradores desses espaços, bem divididos entre homens e mulheres e uma maioria de pessoas negras. Este recorte reforça ainda o quanto produtos segmentados por representatividade podem fazer sucesso, já que faltam no mercado empreendimentos que pensam em populações especificas de maneira a ultrapassar conceitos predeterminados.

DE OLHO NO ALVO

Fábio Marques Jr é sócio-diretor da Detroit Steakhouse e iniciou o projeto em 2011, com o objetivo de oferecer um ambiente estilo americano a um custo mais acessível. “As promoções criadas para os diversos tipos de públicos e horários funcionaram bem. Por exemplo, temos o almoço executivo a partir de R$10. Já na happy hour temos três chopes Brahma em caneca congelada por RS 13,95 e ainda, para almoço de fim de semana e à noite, rodízio de costela e aperitivos à vontade por somente R$ 39,95”, explica.

O sócio também ressalta que produtos com preços altos não funcionaram, mas não havia lucro em colocar um custo mais baixo e foi necessário mexer no cardápio. “Como o dinheiro é ainda mais valioso, a qualidade do atendimento é muito relevante e normalmente os que dão feedback querem continuar fazendo negócio com você. Para conseguir atender esse público, tem de ter um ticket médio mais barato, e isso pode ser visto por alguns empresários e empreendedores como negativo, todavia, enxergamos uma perspectiva bem diferente porque, dependendo dos critérios, a classe B/C representa até 80% da população brasileira, ou seja, temos um enorme público para continuar crescendo por todo o País por muitos e muitos anos”, explica Marques.

A incansável classe c.2

NOVOS HÁBITOS DA CLASSE C

ITENSDE CONSUMO REDUZIDO: comer fora de casa, lazer, vestuário, serviços de beleza, artigos para casa, alimentação, produtos de limpeza, material e eventos escolares, produtos de higiene pessoal.

ITENS QUE TIVERAM CONSUMO AMPLIADO: luz, alimentação, medicamentos, água, gás, internet, TV a cabo, produtos de higiene pessoal, transporte.

ITENS QUE PLANEJAM COMPRAR: roupas, móveis, reforma de casa, celular, automóvel usado, computador, produtos de alimentação.

O QUE ELES QUEREM?

  • Acesso ao crédito
  • Preços acessíveis
  • Opções de parcelamento
  • Descontos
  • Experiências positivas e representatividade

 

POR ONDE COMEÇAR?

O QUE ELESBUSCAM?

Materiais de construção (gastos com reformas e manutenção do lar), educação (gastos com matrículas e mensalidades de cursos) e saúde (gastos com medicamentos, exames e consultas em clínicas populares).

QUAIS OS CONSUMOS MAIS COMUNS?

Produtos de supermercado e categorias como alimentos, higiene, beleza e limpeza. Nos últimos anos, cresce sua importância no consumo de serviços como lazer, viagens, educação e saúde.

As telecomunicações também ganharam muito destaque no orçamento dessas famílias, com gastos crescentes em créditos para celular, Wi-Fi, TV a cabo e serviços de streaming.

ONDE POSSO INVESTIR?

O turismo possui espaço e ainda é pouco explorado. Na área da saúde, principalmente a odontologia, também há espaço dentro desse público.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 10: 22-38 – PARTE II

Alimento diário

As palavras de Cristo aos judeus

 

IV – A ira, a fúria, dos judeus contra Ele, devido a estas palavras: “Os judeus pegaram, então, outra vez, em pedras para o apedrejarem”, v. 31. Estas não são as palavras que foram usadas anteriormente (cap. 8.59), mas eles pegaram pedras, grandes pedras, pedras que eram pesadas, como as que usavam no apedrejamento de malfeitores. Eles as tinham trazido de algum lugar distante, como se estivessem preparando as coisas para a execução de Jesus, sem qualquer processo judicial; como se Ele fosse condenado de blasfêmia com a notória evidência do fato, sem a necessidade de um julgamento. O absurdo deste insulto que os judeus fizeram a Cristo ficará evidente, se considerarmos:

1. Que eles, imperiosamente, para não dizer insolentemente, o tinham desafiado para que lhes dissesse claramente se era o Cristo ou não, e mesmo agora, que Ele não somente dizia que era o Cristo, mas provava ser, eles o condenavam como a um malfeitor. Se os pregadores da verdade a propõem modestamente, são tachados como covardes; se a propõem ousadamente, como insolentes. Mas “a sabedoria é justificada por seus filhos”.

2. Que, quando eles tinham, anteriormente, feito uma tentativa similar, tinha sido inútil. Ele “ocultou-se … passando pelo meio deles” (cap. 8.59). Mas, ainda assim, eles repetiram sua tentativa frustrada. Os pecadores atrevidos atirarão pedras ao céu, ainda que elas retornem sobre suas próprias cabeças. Estes iníquos procurarão se fortalecer contra o Todo-Poderoso, embora nenhum daqueles que tentaram se fortalecer contra Ele tenha prosperado.

 

V – A terna censura que Cristo lhes faz, por ocasião da demonstração desta fúria (v. 32): Jesus respondeu ao que eles fizeram, pois não vemos que eles tivessem dito nada, a menos, talvez, que tivessem incitado a multidão que havia se reunido ao redor dele, para que se unissem a eles, gritando: ”Apedreja-o, apedreja-o”, da mesma maneira como fizeram posteriormente: “Crucifica-o, crucifica-o”. Quando Ele poderia ter respondido a eles com o fogo do céu, mansamente replicou: “Tenho vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual dessas obras me apedrejais?” Palavras tão ternas, que se poderia pensar que teriam derretido um coração de pedra. Ao lidar com seus inimigos, Ele ainda argumentava com base nas suas obras (os homens mostram o que são com o que fazem), suas boas obras, obras excelentes e eminentes. A expressão quer dizer grandes obras, como também boas obras.

1. O poder divino das suas obras os condenava da infidelidade mais absoluta. Estas eram obras do seu Pai, tão acima do alcance e do curso da natureza, a ponto de provar que quem as fazia era enviado de Deus, e que agia comissionado por Ele. Ele lhes mostrou estas obras. Ele fez isto abertamente, diante do povo, e não às escondidas, em um canto. Suas obras suportariam o teste, e se submeteriam ao testemunho dos espectadores mais investigativos e imparciais. Ele não mostrou suas obras à luz de velas, como aqueles que se preocupam somente com as aparências, mas as mostrou à luz do meio-dia, diante do mundo, cap. 18.20. Veja Salmos 111.6. Suas obras demonstravam, de maneira inegável, que eram uma demonstração incontestável da validade da sua comissão.

2. A graça divina das suas obras os condenava da mais vil ingratidão. As obras que Ele realizava entre eles não eram apenas milagres, mas misericórdias. Não somente prodígios, para maravilhá-los, mas obras de amor e gentileza, para fazer o bem a eles, e, desta maneira, torná-los bons, e tornar-se querido por eles. Ele curava os enfermos, purificava os leprosos, expulsava demônios, coisas que eram favores, não somente para as pessoas envolvidas, mas para o público. Estas obras, Ele tinha repetido e multiplicado: “‘Por qual dessas obras me apedrejais?’ Vós não podeis dizer que Eu vos tenha feito nenhum mal, nem vos feito qualquer provocação justa. Se, portanto, iniciais uma discussão comigo, deve ser por causa de alguma boa obra, alguma boa obra feita a vós. Dizei-me qual é”. Observe que:

(1) A horrível ingratidão que existe nos nossos pecados contra Deus e Jesus Cristo é um grande agravamento dos nossos próprios pecados, e os exibe terrivelmente pecaminosos. Veja como Deus argumenta a este respeito, Deuteronômio 32.6; Jeremias 2.5; Miquéias 6.3.

(2) Não devemos julgar estranho se nos encontramos com aqueles que não somente nos odeiam sem causa, mas que são nossos adversários pelo nosso amor; Salmos 35.12; 41.9. Quando Ele pergunta: “Por qual dessas obras me apedrejais?”, assim como evidencia a abundante satisfação que Ele tem na sua própria inocência, que dá coragem a um homem em um dia de sofrimento, também faz com que seus perseguidores considerem qual era a verdadeira razão da sua inimizade, e se perguntem, como deveriam fazer todos aqueles que criam problemas para seus vizinhos: “Por que o perseguimos?” Como Jó aconselha que seus amigos façam, Jó 19.28.

 

VI – A defesa que tentaram fazer de si mesmos, V 1. quando acusaram o Senhor Jesus Cristo, e a causa sobre a qual fundamentam sua acusação, v. 33. Que pecadores optarão por folhas de figueira para se cobrir, quando até mesmo os sanguinários perseguidores do Filho de Deus podiam encontrar algum argumento para se defender?

1. Eles não seriam considerados tão terríveis inimigos da sua nação por perseguirem a Jesus devido a uma boa obra: “Não te apedrejamos por alguma obra boa”. Pois, na verdade, eles dificilmente admitiram que alguma das suas obras fosse boa. A cura do homem paralítico (cap. 5) e do cego (cap. 9) estavam tão longe de serem reconhecidas como bons serviços à cidade, e beneméritos, que se somavam à quantidade dos seus crimes, porque tinham sido realizadas no sábado. Mas, se El e tinha feito alguma obra boa, eles não reconheceriam que o apedrejavam por causa dela, embora estas fossem realmente as coisas que mais os exasperavam, cap. 11.47. Assim, por mais absurdo que parecesse, eles não podiam ser levados a reconhecer seus próprios absurdos.

2. Eles seriam considerados amigos de Deus e da sua glória ao acusar Jesus de blasfêmia: “Porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo”. Aqui temos:

(1) Um falso zelo pela lei. Eles pareciam extremamente preocupados com a honra da majestade divina, e dominados por um horror religioso com aquilo que eles imaginavam ser uma censura a ela. “Aquele que blasfemar… certamente morrerá”, Levítico 24.16. Esta lei, pensavam eles, não somente justificava, mas santificava o que eles tentavam fazer; como em Atos 26.9. Observe que os costumes mais vis são frequentemente encobertos por pretextos plausíveis. Assim como nada é mais corajoso do que uma consciência bem informada, também nada é mais ultrajante do que uma equivocada. Veja Isaías 66.5; cap. 16.2.

(2) Uma verdadeira inimizade pelo Evangelho, ao qual eles não podiam fazer afronta maior do que representar a Cristo como um blasfemo. Não é novidade que as piores características sejam atribuídas aos melhores homens, por aqueles que decidem dar a eles o pior tratamento.

[1] O crime do qual Ele é acusado é blasfêmia, ou seja, falar de maneira reprovável e maldosa sobre Deus. O próprio Deus está fora do alcance do pecador, e não é suscetível de receber nenhuma ofensa real, e, portanto, a inimizade com Deus lança seu veneno sobre seu nome, e assim mostra sua má intenção.

[2] A prova do crime: “Sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo”. Assim como é glória de Deus o fato de que Ele é Deus, e nós a roubamos dele quando o fazemos como um de nós, também é sua glória o fato de que, além dele, não existe outro, e nós a roubamos dele quando nos equiparamos, ou a qualquer criatura, a Ele. Agora, em primeiro lugar, até aqui, eles tinham razão, pois o que Cristo tinha dito a seu respeito era isto, que Ele era Deus, pois Ele tinha dito que era um só com o Pai, e que daria a vida eterna. E Cristo não nega isto, o que poderia ter feito se tivesse havido uma conclusão indevida das suas palavras. Mas, em segundo lugar, eles estavam muito enganados quando o consideravam como um mero homem, e julgavam que a divindade que Ele reivindicava era uma usurpação, e da sua própria invenção. Eles julgavam absurdo e ímpio que alguém como Ele, que surgia com a aparência de um homem pobre, humilde e desprezível, ousasse professar ser o Messias, e afirmasse ter o direito às honras confessadamente devidas ao Filho de Deus. Observe que:

1. Aqueles que dizem que Jesus é um mero homem, e somente um Deus fabricado, como dizem os socinianos, na verdade o acusam de blasfêmia, mas provam que os blasfemos são eles mesmos.

2. Aquele que, sendo um homem, um homem pecador, se faz um deus, como o Papa, que afirma ter poderes e prerrogativas divinas, é inquestionavelmente um blasfemo e anticristo.

 

VII – A resposta de Cristo à acusação feita a Ele (pois a defesa dos judeus era uma acusação a Cristo), e a confirmação daquelas reivindicações que eles diziam que eram blasfemas (v. 34ss.), onde Ele prova não ser blasfemo, com dois argumentos:

1. Com um argumento extraído da Palavra de Deus. Ele recorre ao que estava escrito na lei dos judeus, isto é, no Antigo Testamento. Quem quer que se oponha a Cristo, saiba que seguramente Ele terá as Escrituras do seu lado. Está escrito (Salmos 82.6): “Eu disse: sois deuses”. É um argumento do menor para o maior. “Se eles eram deuses, quanto mais Eu o sou”. Observe:

(1) Como Ele aplica o texto (v.35): Ele “chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (e a Escritura não pode ser anulada)”. A palavra da comissão de Deus tinha vindo sobre eles, indicando-os para serem seus oficiais, como juízes, e, por essa razão, são chamados de deuses, Êxodo 22.28. A alguns, a palavra de Deus foi dirigida imediatamente, como a Moisés; a outros, sob a forma de uma ordenança instituída. A magistratura é uma instituição divina, e os magistrados são representantes de Deus, e, portanto, as Escrituras os chamam de deuses, e nós temos certeza de que as Escrituras não podem ser anuladas, nem se pode introduzir nada a elas, nem se pode encontrar falhas nelas. Toda palavra de Deus está correta. O estilo e a linguagem das Escrituras são irrepreensíveis, e não devem ser corrigidos, Mateus 5.18.

(2) Como Ele o aplica. De modo geral, é fácil concluir que aqueles que condenavam a Cristo como blasfemo, somente por dizer que era o Filho de Deus, eram muito imprudentes e irracionais, quando eles mesmos chamavam assim seus príncipes, e isto as Escrituras lhes permitiam. Mas o argumento vai mais além (v. 36): Se os magistrados eram chamados deuses, porque eram comissionados para administrar justiça à nação, “àquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas”? Aqui temos duas questões a respeito do Senhor Jesus:

[1] A honra que seu Pai lhe concedeu, na qual, com razão, Ele se glorifica: o Pai o santificou e enviou ao mundo. Os magistrados eram chamados de filhos de Deus, embora a palavra de Deus fosse apenas dirigida a eles, e o espírito de governo tenha vindo a eles por medida, como sobre Saul. Mas nosso Senhor Jesus era, Ele mesmo, a Palavra, e tinha o Espírito sem medida. Eles eram constituídos para uma região, cidade ou nação em particular, mas Ele era enviado ao mundo, revestido de uma autoridade universal, como Senhor de tudo. Eles eram mandados, como pessoas distantes. Ele era enviado, como tendo estado com Deus desde a eternidade. O Pai o santificou, isto é, o designou e consagrou para o ofício de Mediador, e o qualificou e capacitou para este oficio. Santificá-lo significa a mesma coisa que selá-lo, cap. 6.27. Observe que o Pai santifica a quem envia. Aquele que Ele designa para propósitos santos, Ele prepara com santos princípios e disposições. O Deus santo só irá empregar e recompensar aqueles que Ele julgar santos, ou aqueles que Ele santificar. O ato de o Pai santificar e enviar o Senhor Jesus Cristo é aqui certificado como a permissão suficiente para que Ele se declarasse Filho de Deus, pois, por Ele ser santo, foi chamado de Filho de Deus, Lucas 1.35. Veja Romanos 1.4.

[2] A desonra que os judeus lhe fizeram, da qual Ele reclama com razão – que eles tinham dito de maneira ímpia sobre Ele, a quem o Pai tinha dignificado desta forma, que Ele era um blasfemo, porque tinha dito ser Filho de Deus: “Vocês dizem isto dele? Vocês ousam dizer isto? Vocês ousam direcionar suas bocas contra os céus? Vocês têm coragem suficiente para dizer ao Deus da verdade que Ele está mentindo, ou condenar aquele que é justo e poderoso? Olhem-me nos olhos, e digam se podem fazer isto. O que! Vocês dizem, do Filho de Deus, que Ele é um blasfemo?” Se os demônios, que Ele veio para condenar, tivessem dito isto a seu respeito, não teria sido tão estranho. Mas o fato de estes homens, aos quais Ele tinha vindo ensinar e salvar, dizerem isto dele, era algo pelo que os céus poderiam pasmar. Veja qual é a linguagem de uma incredulidade obstinada. Na verdade, ela chama o santo Jesus de blasfemo. Ê difícil dizer com que devemos nos espantar mais, com o fato de que homens que respiram o ar de Deus ousassem dizer estas coisas, ou com o fato de que homens que dissessem tais coisas ainda tivessem permissão para respirar o ar de Deus. A maldade do homem e a paciência de Deus disputam entre si qual será a mais surpreendente.

2. Com um argumento que Ele extrai das suas próprias obras, vv. 37,38. Anteriormente, Ele apenas respondeu à acusação de blasfêmia com um argumento – voltando o argumento de um homem contra si mesmo. Mas aqui Ele apresenta suas próprias reivindicações, e prova que Ele e o Pai são um só (vv. 37,38): “Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis”. Embora o Senhor pudesse, com razão, ter abandonado estes blasfemos infelizes, como casos incuráveis, Ele ainda concorda em argumentar com eles. Observe:

(1) A partir de que Ele argumenta – de suas obras, que Ele sempre apresentava como suas credenciais, e provas da sua missão. Assim como Ele provava ser enviado de Deus pela divindade das suas obras, também nós devemos nos provar aliados de Cristo pelo cristianismo das nossas.

[1] O argumento é muito convincente, pois as obras que Ele realizava eram as obras do seu Pai, que somente o Pai poderia fazer, e que não poderiam ser feitas no curso ordinário da natureza, mas somente pelo poder soberano e predominante do Deus da natureza. Obras peculiares de Deus, e Obras dignas de Deus, as obras de um poder divino. Aquele que pode prescindir das leis da natureza, repeli-las, alterá-las e anulá-las da maneira como desejar, pelo seu próprio poder, certamente é o príncipe soberano que primeiro instituiu e promulgou tais leis. Os milagres que os apóstolos realizassem em seu nome, pelo seu poder, e para a confirmação da sua doutrina, corroborariam este argumento, e continuariam sendo sua evidência, quando Ele tivesse partido.

[2] Este argumento é proposto de modo tão correto quanto se poderia desejar, e utilizado em prol de um resultado breve. Em primeiro lugar: “Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis”. Ele não exige uma fé cega e implícita, nem uma concordância com sua missão divina além das provas que Ele oferece. Ele não desejou ganhar o afeto do povo, nem os adulou com insinuações dissimuladas, nem se aproveitou da sua credulidade com afirmações ousadas, mas, com a mais imaginável correção, eliminou todas as exigências da sua fé, além de oferecer justificativas para estas exigências. Cristo não é um mestre difícil, que espera colher concordâncias onde não plantou argumentos. Ninguém perecerá por não crer naquilo que não lhe foi proposto com motivos suficientes para credibilidade, e a própria Sabedoria Infinita será o juiz. Em segundo lugar: “Mas se faço ‘as obras de meu Pai’, se realizo milagres inegáveis para a confirmação de uma doutrina sagrada, e vocês não creem em mim, embora sejam tão escrupulosos a ponto de não aceitar minha palavra, creiam nas obras. Creiam nos seus próprios olhos, na sua própria razão. As coisas falam por si mesmas, de maneira suficientemente clara”. Assim como as coisas invisíveis do Criador são claramente vistas pelas suas obras de cri­ ação e providência comum (Romanos 1.20), também as coisas invisíveis do Redentor eram vistas pelos seus milagres, e por todas as suas obras, tanto de poder quanto de misericórdia, de modo que todos aqueles que não se convenceram por estas obras não tinham justificativa.

(2) Para que Ele argumenta – “que conheçais e acrediteis”, inteligentemente, e com total satisfação, “que o Pai está em mim, e eu, nele”, que é o mesmo que Ele tinha dito (v. 30): “Eu e o Pai somos um”. O Pai estava tanto no Filho, que nele residia toda a plenitude da Divindade, e era por um poder divino que Ele realizava seus milagres. O Filho estava tanto no Pai, que estava perfeitamente familiarizado com a plenitude da sua vontade, não por comunicação, mas por consciência, tendo estado no seu seio. Isto nós devemos saber, não saber e explicar (pois não podemos, investigando, descobrir com perfeição), mas conhecer e crer, reconhecer e adorar a profundidade, quando não pudermos encontrar o fundo.