PSICOLOGIA ANALÍTICA

PARA ENTENDER E COMBATER A DEPRESSÃO

Muitos sonham com um comprimido capaz de remover os sentimentos de tristeza sem motivo, desânimo e irritação e dores frequentes. No entanto, o quadro é complexo – com sintomas que variam de um paciente para outro – e não tem um único tratamento; o caminho mais eficiente resulta da combinação de múltiplas ações, como psicoterapia, exercícios físicos, meditação, estimulação cerebral e, em muitos casos, também medicamentos.

Para entender e combater a depressão

A maioria das pessoas vive por mais tempo e com melhor saúde do que em qualquer outro momento de nossa espécie. Mas nem por isso somos mais felizes. Apesar das inúmeras opções de diversão, maior poder de compra e, aparentemente, de escolha, estamos cada vez mais insatisfeitos: a depressão será o problema de saúde pública mais comum em menos de 20 anos; 350 milhões de pessoas de todas as idades sofrem com o transtorno no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) – 17 milhões só no Brasil. Nas próximas duas décadas, a patologia deverá afetar mais pessoas que o câncer ou as doenças cardíacas e se constituir na maior causa de afastamentos do trabalho.

Atualmente, a depressão é vista como resultado da combinação de fatores endógenos (como hereditariedade) e fatores de risco ambientais, como valores culturais e experiências emocionais.

Os sintomas se configuram de maneira diferente em cada paciente, de forma que não há tratamento definitivo. “Seria muito simples pensar a depressão apenas como resultado da maior ou menor oferta de neurotransmissores. É mais correto relacioná-la à interação desses agentes químicos – serotonina, dopamina, glutamato e tantos outros. São vários caminhos neurais diferentes que, juntos, determinam cognição, interesse, vontade”, explica o psiquiatra Ricardo Moreno, diretor do Grupo de Estudo de Doenças Afetivas (Gruda) do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

Dor e depressão têm uma via neuroquímica comum. Em média, pessoas com sintomas depressivos procuram atendimento médico sete vezes mais do que quem não tem o distúrbio, segundo a OMS. Menos da metade delas é diagnosticada corretamente e recebe tratamento adequado. “Queixas de dor crônica não raro estão no centro de um círculo vicioso de depressão, ansiedade, estresse e insônia”, explica o psiquiatra Kalil Duailibi, coordenador de psiquiatria da Universidade de Santo Amaro (Unisa). A literatura médica sugere que a noradrenalina, neurotransmissor envolvido na regulação do humor, do ciclo de sono e na resposta de estresse, desencadeia eventos em cascata, que se manifestam em ansiedade, no início e, depois, em depressão.

Mais de 60% dos episódios depressivos são precedidos por quadros de ansiedade, e a insônia crônica aumenta quatro vezes o risco de depressão. Já o estresse crônico leva à diminuição do fator de proteção neuronal, afetando a ramificação dendrítica dos neurônios. Consequentemente, há morte de células e redução do volume de regiões cerebrais.

Estudos que usam técnicas de neuroimagem mostram que, na depressão, há redução de atividade em áreas corticais, como córtex cingulado anterior, área associada a funções como modulação de respostas emocionais, motivação e atenção. Em contrapartida, há maior metabolismo de regiões mais “primitivas” do cérebro, como a ínsula, relacionada à sensação de repulsa, e do sistema límbico como um todo, com amplo papel no processamento de emoções negativas. De fato, um dos principais traços da depressão é uma maneira “acinzentada” de interpretar o mundo, que prioriza as perspectivas negativas. Duailibi cita o “fenômeno Kindling” na depressão: um evento estressor significativo provoca o primeiro episódio. Progressivamente, os quadros passam a ser desencadeados por eventos menos intensos ou mesmo sem motivo; é uma espécie de suscetibilidade crônica, que envolve alterações cerebrais, muitas ainda não elucidadas, e estímulos ambientais.

O tratamento mais comum, e de mais fácil acesso, ainda é o farmacológico. Os medicamentos costumam trazer alívio para pacientes com sintomas mais graves, que geralmente apresentam prejuízos no trabalho e na vida pessoal. Em depressões leves, a eficiência dos antidepressivos é menos nítida: eles têm desempenho equivalente ao placebo (substância neutra, mas que pode desencadear efeitos psicológicos). “Se os medicamentos ajudam a superar um episódio depressivo, a psicoterapia ajuda a evitar outros”, salienta Duailibi.

Psicoterapia, terapias complementares e hábitos saudáveis, como exercícios físicos, ajudam a prevenir a volta dos sintomas. Acupuntura, massagem, alimentação rica em nutrientes e pobre em gordura animal combatem o estresse e favorecem o bem-estar. Recentemente, o Conselho Federal de Medicina aprovou a técnica de estimulação magnética transcraniana (EMT) superficial. O tratamento consiste em aplicar ondas eletromagnéticas sobre o cérebro, com o objetivo de modular o funcionamento de regiões (determinadas por exames de neuroimageamento) que operam de forma alterada em pessoas com transtornos neuropsiquiátricos. As ondas eletromagnéticas aumentam o luxo sanguíneo na área e, consequentemente, sua atividade cerebral.

“A área do cérebro a ser trabalhada é marcada numa touca e o médico direciona os estímulos para o local correto. A EMT pode ajudar pacientes que não respondem ao tratamento medicamentoso, acelerar a resposta a ele ou mesmo ser uma alternativa”, explica Marco Marcolin, coordenador do Serviço de Estimulação Magnética Transcraniana do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O tratamento é indolor, pois é não invasivo, não há corte nem anestesia. Um estudo observacional publicado no periódico científico Depression and Anxiety, que acompanhou 307 pacientes com depressão grave que não estavam sendo tratados com antidepressivos, revela que a EMT é eficaz para pacientes que não respondem aos medicamentos: em média, 58% apresentaram redução dos sintomas e 37%, ausência deles.

O HÁBITO DE SOFRER

Cada vez mais estudos comprovam o impacto positivo da meditação sobre o humor. Uma pesquisa brasileira publicada na Neuroimage mostra que a técnica melhora o desempenho cerebral, especialmente em tarefas que exigem concentração. “O cérebro de pessoas que meditam recruta menos áreas cerebrais para realizar uma determinada tarefa, como se fizesse uma maior ‘economia’, o que se traduz em mais foco e concentração; um desafio no mundo cheio de estímulos em que vivemos”, diz a psicobióloga Elisa Kozasa, do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, autora do trabalho. O cérebro de pessoas com depressão está “habituado” a processos mentais que desencadeiam o problema, como pensamentos depreciativos sobre si mesmo. A meditação ajuda o paciente a se conscientizar de emoções, fantasias, lembranças e situações que passam por sua mente consciente. Atualmente, cientistas estão comprovando os benefícios da terapia baseada na atenção plena (mindfulness), isto é, o uso de técnicas de meditação para potencializar os efeitos do tratamento. Trata-se de um programa de oito semanas que ajuda o paciente a perceber os velhos hábitos de pensar que atiram sua mente em uma espiral descendente de pensamentos negativos. “A proposta é que a pessoa aprenda a ser mais gentil consigo mesma e atente para os aspectos positivos de seu cotidiano, exercitando o julgamento baseado na autocompaixão”, explica Kozasa, citando o dalai-lama Tenzin Gyatso: “A mente é como paraquedas: funciona melhor aberta”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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